terça-feira, junho 30, 2009

MILF Hunter

Gostaria de avisar todas as pessoas que leram este post hipoglicémico do Lourenço Ataíde Cordeiro (nome não-fictício) e ficaram a pensar que o ensaio de David Foster Wallace intitulado «Consider the Lobster» é um panfleto da Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas cuja tese se resume a "Epá, baza lá comer relva que os animais são altamente" que o ensaio em questão passa por esse cubículo argumentativo apenas de passagem, para abanar a cabeça e prosseguir em direcção a salas muito maiores.
O único problema do ensaio é precisamente o facto de ser reduzido. As virtudes específicas de David Foster Wallace são directamente proporcionais ao espaço que ele tem para as exibir; o ensaio brontossáurico favorece-o de forma muito evidente. Ainda assim, «Consider the Lobster» tem virtudes assinaláveis. (Uma das quais é involuntária: o ensaio relata uma experiência no Maine Lobster Festival, evento que é designado como MLF ao longo das vinte páginas. E o acrónimo MLF, para um par de olhos débeis e um cérebro atolado na adolescência, assemelha-se a MILF, o que resulta em passagens bastante susceptíveis a humor classe-B, como por exemplo "locals do endorse and enjoy the MILF", "a lot of diehard MILF partisans" e "right out there in the MILF's northern grounds for everyone to see").
Já o problema do post do Lourenço é que acerta ao lado quando tenta isolar e definir as virtudes e defeitos de David Foster Wallace. Quando o Lourenço escreve, por exemplo, que "David Foster Wallace parece não transportar consigo nenhum preconceito em relação aos temas que aborda", há que dizer que não parece nada disto. O que parece é que David Foster Wallace transporta os preconceitos todos, e transporta também a consciência de que transporta os preconceitos todos, e a consciência de que essa consciência pode a qualquer momento deixar de ser vantajosa para se tornar incapacitante. Há uma propensão infantil em DFW para deixar a terra intelectual toda queimada à sua passagem, para não se contentar com nenhuma conclusão sem questionar as premissas e a possibilidade de o seu conhecimento dessas premissas poder ou não ter influência nas suas escolhas. DFW é (era) aquele tipo de pessoa incapaz de adoptar uma posição sem considerar a totalidade dos contextos em que essa posição já foi adoptada, uma característica muito útil para evitar um certo registo de escrita baseado na confiança absoluta de que se está a cindir o átomo naquele preciso momento, mas que, levada às últimas consequências, pode impossibilitar qualquer opinião que não esteja envolvida num mil-folhas de distanciamento irónico. No ensaio da lagosta, DFW sabe a que é que vai soar cada salto argumentativo porque já foi tudo dito e escrito antes, mas também sabe que é preciso parar em algum ponto, nem que seja num ponto rodeado de caveats.
Mais estranha ainda é a asserção do Lourenço de que "David Foster Wallace recorre a alguns argumentos, digamos, frágeis, como por exemplo «e se fosse com um carneirinho, como é que era?»", que eu só posso interpretar como uma paráfrase apressada que correu, digamos, mal. É que a única menção ao carneirinho no ensaio, para além de não ter rigorosamente nada a ver com o argumento que o Lourenço lhe imputa, está afundada não apenas em perguntas como em contra-argumentos explícitos: «And is “lamb”/“lamb” the counterexample that sinks the whole theory?».
Isto é (era) o homem. Outras duas citações dispersas são representativas não apenas do ensaio em questão, mas do estilo de pensamento de DFW em geral, que estava muito, muito longe do andar por aí a "recorrer" a "argumentos": «... and when it comes to defending such a belief, even to myself, I have to aknowledge that ...» e «Of course, the most common sort of counterargument here would begin by objecting that...". (É possível que DFW fosse aquele miúdo de três anos capaz de perder metade de uma tarde a considerar questões do género: "o facto de eu estar a pensar no acto de meter uma perna à frente da outra, e de saber que o estado de estar a pensar no acto de meter uma perna à frente da outra pode interferir no acto em si, terá algumas implicações práticas na minha capacidade de ir ali ao caixote buscar os Transformers?").
Vou agora citar um excerto de um conto do Poe ("The Purloined Letter"), uma decisão táctica que faz todo o sentido nesta altura:

I knew one [boy] about eight years of age, whose success at guessing in the game of 'even and odd' attracted universal admiration. This game is simple, and is played with marbles. One player holds in his hand a number of these toys, and demands of another whether that number is even or odd. If the guess is right, the guesser wins one; if wrong, he loses one. The boy to whom I allude won all the marbles of the school. Of course he had some principle of guessing; and this lay in mere observation and admeasurement of the astuteness of his opponents. For example, an arrant simpleton is his opponent, and, holding up his closed hand, asks, 'are they even or odd?' Our schoolboy replies, 'odd,' and loses; but upon the second trial he wins, for he then says to himself, the simpleton had them even upon the first trial, and his amount of cunning is just sufficient to make him have them odd upon the second; I will therefore guess odd'; --he guesses odd, and wins. Now, with a simpleton a degree above the first, he would have reasoned thus: 'This fellow finds that in the first instance I guessed odd, and, in the second, he will propose to himself upon the first impulse, a simple variation from even to odd, as did the first simpleton; but then a second thought will suggest that this is too simple a variation, and finally he will decide upon putting it even as before. I will therefore guess even' guesses even, and wins.

Existe neste modelo de raciocínio o potencial para a regressão infinita. A partir de um determinado ponto, avançar para o ponto seguinte deixa de representar um incremento de sofisticação, e passa a representar uma redução de bom-senso. Da mesma maneira, a partir de um determinado número de avanços, a estabilidade é ancorada num ponto arbitrário. Creio que muitas posições embaraçosas (políticas, morais e futebolísticas) são erguidas sobre versões deste duelo ontológico ("Eu sei porque é que tu achas que o Bush era um cromo, mas eu sobrevoei esse raciocínio numa asa-delta de lucidez e agora estou muito mais à frente").
O que eu encontrei em David Foster Wallace não foi só uma consciência invulgarmente extensa da gritante artificialidade deste processo, ou uma consciência da arbitrariedade do patamar em que a inteligência decide travá-lo, mas a percepção de que essa artificialidade acaba por ser essencial a um mínimo de estabilidade intelectual e emocional. É provável que possa ter encontrado isso noutras pessoas mortas que andei para aqui a ler, mas em nenhum caso me fez tanta aflição que a pessoa estivesse morta. E isto tem de ficar por aqui, uma vez que há pessoas vivas a tentar correr comigo do computador há mais de meia-hora com argumentos espectacularmente não-Wallacianos.

16 comentários:

bloom disse...

Bom, lá me vão obrigar então a comprar essa coisa da lagosta que a amazon, vá-se lá saber porquê, me anda a tentar impingir há meses...

Anónimo disse...

o Ataíde é um Cordeiro muito tenrinho para ti, casanova.

Anónimo disse...

se o rapaz não tivesse dito essa do milf, estaria mais ou menos seguro.

assim foi o achincalhanço total.

alf disse...

Casanova: ainda há quem diga que o conceito de decadência pequeno-burguesa não se aplica a sociedades que galgaram (de asa-delta ou de camelo) o século XXI. Tu e esse gajo do post citado (que procura ser engraçado efectuando piruetas em torno de tema, tão caro a Mozart - lagostas cozidas, vivas ou mortas, é tudo a mesma merda) confirmam-no com toda a potência de uma peixeira de Olhão. Lá diziam os gajos: batalha pelo conteúdo e tal. Ainda assim, na questão da forma - que é uma espécie de conceito localizado entre um agudo de Kylie Minogue e um pontapé de ressaca efectuado por Bynia - levas claramente a melhor, pelo que, estivesse ela viva ou morta, ganharias o almoço de lagosta que teria para oferecer não fosse estar agora ocupado a ler a London Review of Books, que é onde tu e o Maradona recebem as injecções de dignidade que vos permitem continuar a escrever nesta merda de país chamada Portugal onde há posts com categoria de crónica de jornal de referência e crónicas de jornal de referência com a categoria de papel para embrulhar pregos.

DL disse...

Dito assim, o DFW até parece o MRS da fisiologia do crustáceo.

Zimbledee disse...

Eu gosto tanto deste blogue que às vezes até leio os posts, mas quando o tema é literatura não leio, porque pra isso já tenho o "record". enfim, um dia destes ainda vou à wikipédia ver quem é esse rabeta do dfw, só para fingir que sou culto e faço piadas sobre o sporting enquanto declino verbos húngaros numa moleskine que comprei num alfarrabista em londres; depois disso vou para a minha varanda em cuecas gritar "olhem para mim eu li Tucídides em grego mas vejo televisão, sou mesmo o maioral desta merda toda,pá!"(repetir 3 vezes).

jaa disse...

Fiquei com vontade de comentar mas, enquanto escrevia as primeiras palavras, considerei a hipótese do meu comentário não parecer suficientemente inteligente. Depois pensei que toda a gente deve pensar o mesmo e que algumas pessoas, mesmo assim, comentam. Claro que pode ser por inconsciência. E inconsciência é uma coisa chata porque não dá para analisar devidamente – para isso era preciso ter consciência de que havia algo para analisar. Entretanto li os comentários já feitos e percebi que por aqui as pessoas são mesmo inteligentes. Decidi então não comentar. Mas depois pensei que seria cobardia não o fazer e ninguém gosta de se sentir cobarde, a não ser (continuei a pensar) um cobarde que goste de sentir pena de si mesmo ou que tenha feito um voto de honestidade. Depois apercebi-me que, no segundo caso, qualquer satisfação que o cobarde sentisse seria por conseguir manter o voto de honestidade admitindo a cobardia e não pela própria cobardia, pelo que apenas o cobarde prazenteiramente mergulhado no sentimento de pena por si mesmo conta como válido cobarde satisfeito por sê-lo. Mas eu não tenho prazer em ter pena de mim mesmo (apesar de ter). Ainda assim, “mergulhado” permite-me lembrar as lagostas, que se calhar também sentem pena delas mesmas (se é que uma lagosta pode sentir pena) ao serem mergulhadas na água fervente. Com alguma razão, de resto, mas isso é irrelevante (se fossem carneiros…). Hesitei uma e outra vez e cheguei à conclusão de que não há volta a dar: não consigo deixar de comentar nem fazer um comentário inteligente. Mas, claro, também não sou David Foster Wallace.

R. Casanova disse...

Boa noite. Também gosto muito de vocês todos, mas especialmente do jaa.

jaa disse...

Uau, obrigado.

Ou estava a ser irónico?

(Isto de tentar analisar todas as hipóteses é cansativo e, parece-me bem, indutor de paranóia. Começo a perceber por que razão o DFW acabou como acabou...)

Anónimo disse...

vão bater uma punheta!

jaa disse...

Way ahead of you, caro anónimo. Way ahead of you.

alf disse...

Alguém já reparou numa citação de José Luís Peixoto que corre numa das rádios de grande audiência: «Não tinhamos nada em comum mas ela começou a esfregar-me o pénis por dentro das calças». Ipsis verbis. Pois é, caríssimos, isto sim é literatura. O que diria o Wallace disto? Casanova: consegues descodificar as intenções logico-semânticas inerentes a esta realização literária que coloca os sonetos de Donne, em termo de posição relativa, numa clara situação de inferioridade em termos, digamos, de intensificação aberrante?

ArmandAssante disse...

Em "Ravelstein" há um tributo tão bonito ao Michael Jackson. Vejam lá isso.

Anónimo disse...

Não li nada destas merdas nem tão pouco li esta merda deste post até ao fim, mas devo dizer quero que as lagostas se fodam. Devo ainda dizer, aliás, que estou a preparar-me para cozinhar uma, e não só vou metê-la viva no tacho, como vou metê-la viva e cortada ao meio. Porque isto é uma das coisas que as lagostas têm de diferente do género humano, depois de cortadas ao meio permanecem vivas durante bastante tempo. Que tal? Consider what? Fuck you!

Anónimo disse...

O Casanova é o meu crítico impressionista favorito.

Joakina disse...

Fiquei com vontade de fumar uma ganza, e depois na ressaca vir ler esta merda toda de babete enfiado a comer uma lagosta bem suada...
Alf és o maior!!