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terça-feira, novembro 02, 2010

As aliterações do Tonecas

... between Brighton and Bogotá... (p. 3); ... in, say, Sligo or Sri Lanka... (p. 3); ... the Tartars or the Tongans... (p. 29); ... out into Moore, Morgan, Maturin and Mangan... (p. 57); ... less by socialism than by Schoenberg... (p. 74); ... a matter of Fisher Kings and fertilty cults... (p. 80); ... shifting it from Kant to Kafka... (p. 98); ... so do tyrants and tootache... (p. 121); ... the somatics of Foucault and Fonda (p. 129); ... in classrooms from Berkeley to the Bronx (p. 129); ... which roams from ballet to Berg (p. 149); ... as it meanders from Kant to Krishna, Schiller to Sati (p. 160); ... others may write of Camus or cauliflowers (p. 180); ... crossing from Spinoza to scallop fishing (p. 190); ... from Kafka to the Ku Klux Klan (p. 197); ... from Marx to Marlboro (p. 206); ... from the New Left to the New Times, Leavis to Lyotard (p. 207); ... between Jonathan Swift and Graham Swift (p. 219); ... from the Mystery Plays to Miss Marple (p.219); ... Diversity ends at Dover (p. 221); ... more Harlequin than Hegel (p. 236); ... from Sorel and the Surrealists to Sartre, from Levinas to Lyotard (p. 246); ... from the BBC to the BFI (p. 255); ... from God to Goethe (p. 259); ... from Horace to Housman (p. 263); ... from Defoe to Drabble (p. 264); ... alongside Plato and Pynchon (p. 267); ... from the Venerable Bede to Tony Blair (p. 269).

Terry Eagleton, Figures of Dissent (Verso, 2003)

O maior argumento contra a publicação de recolhas de ensaios e jornalismo ocasional (ou arquivos de blogues, ja agora), maior do que o argumento da efemeridade parasítica embutida no formato, é o argumento da auto-preservação. Salvo raríssimas excepções, permitir que o que é escrito episodicamente seja lido sequencialmente é meio caminho andado para denunciar muletas e maneirismos de Loures a Londres.
As aliterações de Terry Eagleton não são, em rigor, um problema muito grande; nenhuma delas deforma um argumento ou uma linha de raciocínio, nem diminui a vontade de continuar a ler (embora possa aumentar a vontade de continuar a ler especificamente para encontrar mais aliterações, porque no fundo somos uma crianças). Aceitamos de boa fé que o alfabeto se organizou de forma quase milagrosa para se adequar precisamente àquilo que Terry Eagleton queria dizer; e nem sequer levamos a mal quando ele escreve no meio deste bacanal de aliterações, a propósito de um excerto de Peter Conrad, que «the scrupulous alliteration of ‘scored with stigmata’, the suave placing of ‘squeamishly’, the overpitched final image: all this stylistic self-consciousness creates a Post-Modern ‘lack of affect’, which is evident in other ways, too».
O processo através do qual uma maneira de dizer as coisas degenera num maneirismo é uma coisa tão misteriosa para mim como o mercado de obrigações ou a música popular brasileira, mas mesmo neste estágio claramente avançado, aceito que ainda possa produzir vantagens, uma das quais será proporcionar atalhos para organizar argumentos. Levado ao extremo (creio que há casos piores, a começar nos saldos de paradoxos nos livros de Chesterton), torna-se menos um instrumento intelectual do que um hábito mental: no princípio está-se ali à procura de uma forma de poupar tempo para pensar, e acaba-se apenas a poupar no que se pensa - o que, nos piores momentinhos do Terry Eagleton, é evident in other ways, too. (Nada disto deve ser comparado ao meu uso de advérbios de modo, que é sempre escrupulosamente moderado).

quarta-feira, outubro 07, 2009

Noble horses


Esta listinha de probabilidades para o Nobel não envergonha ninguém, mas também não exalta propriamente a Ladbrokes. Pelo menos cinco dos nomes estavam mal grafados (dois foram entretanto corrigidos, embora os misteriosos Umberto Ecco e Antoni Tabucchi continuem lá), mas o mais grave é a quantidade de candidatos com odds tão baixas, o que sugere que estão a manter as bases todas cobertas e que, ao contrário do ano passado, quando a súbita escalada de Le Clézio denunciou um maroto em Estocolmo que desatou a enviar SMS aos amigos, ninguém faz a menor ideia do que se vai passar. Em abono da verdade, suspeito que se pedissem ao Times Literary Supplement para organizar uma lista de favoritos para a Grand National, o resultado não seria muito mais edificante.
Debrucemo-nos então sobre algumas pilecas improváveis:

Thomas Pynchon, 9/1 - As odds de 9/1 mais inexplicáveis desde que as mesmas foram atribuídas a um golo do Polga num jogo contra o Bolton aqui há 2 anos. Têm-se ouvido sugestões de que um americano poderia voltar a ganhar este ano, mas creio que o Jon Bon Jovi ou o Steven Seagal têm mais probabilidades do que Pynchon. Dois dos últimos três americanos a receberem o galardão foram citados, respectivamente, "for his impassioned narrative art which, with roots in a Polish-Jewish cultural tradition, brings universal human conditions to life" (Singer, 1978) e " (...) novels characterized by visionary force and poetic import, gives life to an essential aspect of American reality" (Toni Morrison, 1993). Pynchon escreve os melhores desenhos animados da literatura, mas sejamos sérios: ele nunca give life to essential aspects of reality na sua vida inteira.

Haruki Murakami, 9/1 - Um recente e preocupante acrescento às listas de favoritos (o ano passado, salvo erro, estava a 25/1). O que é que se passa com esta gente? Murakami é uma daquelas modas orientais, como o yoga ou o sushi, que aterram de repente em Londres e Telheiras e nunca mais de lá saem. O mais intrigante é que esta moda específica é brutalmente ocidentalizada: Murakami é um yakisoba de referências americanas (Carver, Philip K. Dick, jazz, film noir). Temos aqui uma pessoa a traduzir o Ocidente de volta a si próprio como um Babelfish demente, mas não temos um Edward Said local para meter ordem na situação. Os romances que dele li nunca foram menos nem mais do que moderadamente interessantes, embora sejam todos reféns daquela inventividade estéril, fraudulenta e sem humor, em que as coisas acontecem porque sim: um adolescente apreciador de jazz apaixona-se pela rapariga da loja de discos e vão os dois passear pela praia, onde são surpreendidos por um veterano de guerra filósofo e um gato falante, antes de passarem para outra dimensão, onde há unicórnios e chove bacalhau. Enfim, isto tem o seu charme, mas chamar "génio literário" a Murakami, como já li em dois jornais, é como chamar génio científico ao Lysenko.

Ko Un, 16/1 - O algoritmo selectivo da Academia Sueca pode também voltar a apontar para um poeta com um nome esquisito, o que já não acontece desde 1996. Ko Un é um poeta coreano, facto incontroversamente confirmado pela wikipedia: «He has written poems in almost every conceivable form on virtually every topic», o que prenuncia uma espécie de António Ramos Rosa com logogramas.

Ian McEwan, 100/1 - A carreira de McEwan está em ponto morto. A expansão anunciada por Atonement (um daqueles livros characterized by visionary force and poetic import, que gives life a toda uma panóplia de essential aspects) parece ter abrandado, mas a Academia nunca se preocupou muito com picos de forma. Mais problemático, para mim, é o facto de o próximo livro, que é mais ou menos "sobre" o Aquecimento Global, chegar tão perto do penúltimo, que era mais ou menos "sobre" a invasão do Iraque. Se isto continua por este caminho, ainda vamos ver o homem a escrever sobre a gripe suína ou o grande colisionador de hadrões, e eu prefiro-o a escrever sobre Dunquerque e crianças sociopatas. A perseguição febril ao tópico noticioso mais próximo pode correr bem, mas implica um risco desnecessário: o registo histórico, tal como a wikipedia, é actualizado a cada minuto; o tema evolui, mas o seu tratamento literário literal fica ali gravado no papel, sem se poder adaptar. Pode parecer uma excelente e ousada ideia na altura, mas o autor arrisca-se a tentar entrar na posteridade de calças à boca de sino. Vou de seguida enviar um mail sucinto ao Ian McEwan, expondo as minhas preocupações.

Paul Auster, 100/1 - É muito simples: no dia em que isto acontecer eu mato-me.

sexta-feira, setembro 11, 2009

Eu também quero acrescentar o seguinte

A mesma extraordinária funcionalidade do google que me alertou aqui há uns anos para a existência de um dentista brasileiro chamado Rogério Casanova, alertou-me agora para o facto de o cidadão Hélder Beja alimentar algumas dúvidas quanto à minha mais elementar espectacularidade em matéria de dizer coisas sobre livros:

«Quero acrescentar o seguinte: Rogério Casanova, todos sabemos, venera Pynchon. Nenhum mal vem ao mundo, cada qual gosta do que quer. O que é grave é que Casanova, nesta crítica a O Leilão do Lote 49, escreva algo tão disparatado como que o livro tem «uma revisão competente e, a espaços, inspirada». A revisão é, só, do pior que me passou pelas mãos desde que ando nisto dos livros.»

Não sei há quanto tempo o cidadão Hélder Beja anda "nisto dos livros", e o equívoco até pode ser da minha inteira responsabilidade, mas reside aqui: quando falei na revisão, referia-me à revisão da tradução, como conseguirá perceber qualquer pessoa que leia o que vem antes e depois na mesma frase. Falo na correcção de tempos verbais em relação ao original inglês; falo na correcção de lapsos de tradução e na introdução de lapsos novos. De tradução. Sobre a revisão do texto, sobre a fiscalização gráfica, falo muito de raspão, e sempre a caminho do grande objectivo de 90% dos meus porejamentos sobre as massas, que é fazer uma piadinha antes de falar de coisas extremamente sérias do ponto de vista da seriedade antes de fazer outra piadinha. A tradução, no geral, e com uma ou outra falha (em particular quando decide editar a sintaxe do original), continua a parecer-me boa, ou pelo menos aceitável, tendo em conta a trabalheira sisífica que é traduzir Pynchon.
Quanto às gralhas, sendo mais ou menos consensual que o Thomas Pynchon não trabalha para a Relógio D'Água e não teve nada a ver com o assunto, estou-me moderadamente a cagar para elas, especialmente quando há ali um livro sobre o qual é preciso falar. Eu, por coincidência, falo sobre livros aí em sítios (ainda não tenho Meo em casa) e gastar um milímetro que seja do exíguo espaço que dão a uma pessoa como eu para andar aí nos sítios a falar de livros em pormenores como acentos graves e agudos parece-me tão pertinente como fazer uma crítica ao Inglourious Basterds falando nos estofos dos assentos no Alvaláxia. Regra geral (eu tenho regras gerais) gosto de pensar num livro traduzido como um artefacto cuja vulnerabilidade ao pacote mais inepto não deve ser reforçada por uma crítica que se centre no aparato em torno do livro (o aparato publicitário, o aparato gráfico) em vez de se centrar no seu objecto essencial que é, digamos assim, o conjunto de virtudes e defeitos estéticos de uma obra escrita por um gajo que provavelmente não sabe que a língua portuguesa desenvolveu acentos graves e agudos para lhe complicar a vida. As gralhas que me incomodam são gralhas de estilo, de inteligência, de imaginação. Quando falo de livros (eu falo de livros) eu tento falar disto e não de outras coisas. Cada um fala do que quiser quando fala de livros, evidentemente; mas o meu texto era essencialmente sobre O Leilão do Lote 49, não era sobre literacia, sobre a competência dos funcionários da Relógio D'Água ou sobre a qualidade das gráficas nacionais - tudo áreas que me interessam tanto como a programação dos quatro canais terrestres neste preciso momento.

terça-feira, agosto 18, 2009

Que fazer? (as questões palpitantes do nosso movimento)

Bom dia. É uma da tarde. Creio estar a cingir-me aos factos quando digo que é terça-feira. Estou prestes a deitar-me. Escrevo estas linhas na cidade de L. no ano de 20__ enquanto saboreio gressinos torinesi besuntados com maionese do Lidl. Estão 25 graus, e o gentil leitor enverga significativamente mais cuecas do que eu. Não pego no livro do Pynchon há dez horas e meia, embora, no mesmo período de tempo, tenha lido na íntegra os quarenta e sete textos linkados ontem pelo Bookforum. A não ser que o conhecimento de uma estrada em Malta que liga Zebbug e Mdina me venha um dia a safar de uma situação delicada com, hipoteticamente, ciganos, não me lembro de ter aprendido nada de relevante. O meu esquentador faz um barulho esquisito, mas é provável que ele pense o mesmo de mim. Já emigrei por muito menos. Faltam pouco mais de seis horas para o Sporting entrar em campo contra a Fiorentina, uma equipa italiana da classe média-alta. Ao longo da sua história, várias equipas do Sporting, em diferentes e variadíssimos estados de consciência, foram tranquilamente eliminados de provas onde não deviam ter entrado por equipas italianas da classe média-alta, imunes ao desenvolvimento político das forças produtivas. Esta eliminatória não vai ser excepção. Não vejo qualquer hipótese de a Fiorentina não conseguir vencer o Sporting. Na verdade, a única hipótese de o Sporting não perder esta eliminatória de uma forma catastrófica seria artilhar uma exibição de tão confrangedora incompetência que a Fiorentina se sinta embaraçada por estar a praticar aquilo que é, essencialmente, a mesma modalidade desportiva, e se torne transigente, permissiva, decadente, antes de nos fazer o mesmo que o Mr. Miyagi faz ao Kreese no princípio de Karate Kid II: apertar-nos o nariz em amável galhofa, em vez de nos transferir o septo para o hipotálamo, pagando a respectiva cláusula de rescisão.
E contudo, há pessoas felizes. Alguns amigos e conhecidos sportinguistas, nem todos psicopatas, apresentam um transtornante optimismo nas suas esporádicas interacções comigo. Não percebo. Alguns falam de tácticas, mas também não percebo. Vi o Nacional-Sporting do primeiro ao último minuto e não percebi. Passei os primeiros minutos a tentar identificar o sistema táctico utilizado pelo Sporting (na companhia de pelo menos cinco dos jogadores titulares). O Bruno Sena Martins ("Paulo Bento ensaiou uma alteração táctica de molde a converter o losango (4-4-2) num 4-2-3-1.") quer convencer o país de que percebeu tudo, mas eu tenho as minhas dúvidas. Aceito aquele '4' inicial, mas rejeito enfaticamente todos os algarismos subsequentes. Eu não sei o que se passou em campo no Sábado à noite e duvido que alguém saiba. O sistema táctico do Sporting 2009/2010 é mais instável do que um mapa interactivo da Polónia. O cosmos deu uma volta tão grande que o enredo de um livro do Pynchon é mais fácil de seguir do que o sistema táctico do Sporting. Isto é particularmente doloroso para mim. Desde pequenino que consigo identificar o mais dedáleo sistema táctico em dois minutos de televisionamento. Desta vez, ao fim de vinte minutos tive de ir buscar papel e lápis. A última vez que tinha ido buscar papel e lápis foi em 1994, ao ver a selecção da Bulgária no Mundial dos Estados Unidos. Qualquer conversa de losangos e triângulos nesta fase dos acontecimentos é um insulto, não apenas a Euclides e Hipócrates de Quíos, como a mim e à minha pobre mãe, que está cheia de saudades minhas.
O que é o que o Miguel Veloso tentou fazer na primeira parte do jogo? Ninguém sabe. Qualquer pessoa que diga que sabe está a mentir. O Miguel Veloso por quem me apaixonei na sua estreia contra o Inter em 2006 tinha a missão de receber a bola à frente da defesa, rodopiar duas vezes para cada lado, e depois telegrafar a bola a uma pessoa com um projecto de vida sensivelmente parecido com o seu. O Miguel Veloso de Sábado estava, nas palavras de um optimista comentador da TSF, "descaído sobre a meia-esquerda", encarando cada lance que se desenrolava à sua volta com a mesma perplexidade com que Hamlet encarava o fantasma do pai. Sem um jogador à frente da defesa que possa interromper a potencialmente infinita troca de bola entre os dois centrais mais nervosos da história do futebol, a chamemos-lhe "construção de jogo" do Sporting passa agora por Abel - o mesmo Abel que consegue receber a bola a cinco metros da linha de meio-campo, e sem um único adversário num raio de dez, com a mesma serenidade de um guarda-redes a receber um atraso com os pés pressionado pelo Romário. Algures mais lá para a frente, o João Moutinho que se parece cada vez menos com o João Moutinho e cada vez mais com o Bob Geldof em 1985, anda de um lado para o outro a tentar furiosamente alimentar a África inteira com duas barras de nougat. O Djaló, que numa encarnação anterior deve ter chegado de avião à Fantasy Island e pedido ao Ricardo Montalban para ser extremo-direito, recebe a bola com a canela junto à linha lateral, simula uma breve lesão osteocondral em frente ao lateral contrário, corre três metros para a frente e efectua um passe em profundidade para um dos jogadores prestes a fazer exercícios de aquecimento. O Postiga, cuja missão em campo me parece agora consistir em recuperar a bola quando o Sporting tem a bola, e manter a bola quando o Sporting não tem a bola, passou grande parte do jogo a pressionar adversários imaginários perto de uma bandeirola de canto imaginária. O Rochemback. O Rochemback continua a ser um excelente futebolista e gostaria que a SAD efectuasse um esforço financeiro no sentido de comprar o seu passe a Satanás. Gosto muito muito do André Marques, que tem duas das qualidades essenciais num lateral moderno: quando a bola é cruzada da faixa oposta consegue não sofrer um súbito aneurisma cerebral; e quando tem a bola aos seus pés esforça-se activamente por endossá-la a alguém que apresente notórias semelhanças físicas com um colega de equipa. O Daniel Carriço também me agrada muito. Assumo que tenha recebido a rigorosa educação que a Academia reserva para os defesas-centrais. Os defesas-centrais de um clube grande, dizem os docentes, passam 75% do jogo sem nada para fazer, portanto a sua virtude essencial deve ser a concentração. Infelizmente, depois de uma época a titular, a concentração é a única qualidade do Daniel Carriço impossível de avaliar. O Daniel Carriço passa o jogo inteiro a acudir a emergências, e deve chegar ao final dos noventa minutos numa pilha de nervos, com vontade de ir percorrer a estrada entre Zebbug e Mdina à procura de uma prostituta para assassinar. A minha vida, basicamente, acabou. Mas quero que sejam felizes quando eu já cá não estiver, porque a existência é uma dádiva e não devemos desperdiçá-la.

sexta-feira, agosto 14, 2009

Vou amar esta pessoa o resto da minha vida

Sauncho now answered the phone in some agitation. "Doc! Have you got the tube on?"

''All's I get here's a three-minute call, Saunch, they've got me in Compton, and it's Bigfoot again."

"Yeah well, I'm watching cartoons here, okay? and this Donald Duck one is really been freaking me out?" Sauncho didn't have that many people in his life to talk to and had always had Doc figured for an easy mark.

"You have a pen, Saunch? Here's the processing number, prepare to copy—" Doc started reading him the number, real slowly.

"It's like Donald and Goofy, right, and they're out in a life raft, adrift at sea? for what looks like weeks? and what you start noticing after a while, in Donald's close-ups, is that he has this whisker stubble? like, growing out of his beak? You get the significance of that?"

"If I find a minute to think about it, Saunch, but meantime here comes Bigfoot and he's got that look, so if you could repeat the number back, OK, and—"

"We've always had this image of Donald Duck, we assume it's how he looks all the time in his normal life, but in fact he's always had to go in every day and shave his beak. The way I figure, it has to be Daisy. You know, which means, what other grooming demands is that chick laying on him, right?"

(Thomas Pynchon, Inherent Vice, p.28 - Vou andar tão feliz nos próximos tempos.)

terça-feira, agosto 04, 2009

Grandes Momentos da História da Legendagem

Num episódio do novo Knight Rider transmitido este fim-de-semana pela TVI, podia ler-se a dada altura mais ou menos isto: «Queres rimar como um Beastie Boy/ Mas só consegues rimar como o Toy». Não faço ideia do que foi dito no inglês de origem, mas duvido que tenha sido melhor.
Entretanto, já em pleno estágio de preparação para ler o novo coiso do Pynchon, decidi que esta semana apenas vou ouvir músicas do Roky Erickson. A decisão revelou-se, até ver, extremamente benéfica, senão mesmo inspirada. (Queria meter aqui o «Burn the Flames», mas não está no YouTube; esta ausência, sublinhe-se, é uma das situações mais embaraçosas em que já apanhei a internet).





terça-feira, julho 28, 2009

Under the paving stones—the beach!



Inherent Vice by Thomas Pynchon (Hardcover - 6 Aug 2009)
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(Espero que a semana que vem não me force a exigir um pedido de desculpas aos CTT)

terça-feira, novembro 25, 2008

Chama-se «Inherent Vice» e parece que é um lively yarn num unaccustomed genre


O catálogo da Penguin para 2009 já tem um título e um resumo:

«It’s been awhile since Doc Sportello has seen his ex-girlfriend. Suddenly out of nowhere she shows up with a story about a plot to kidnap a billionaire land developer whom she just happens to be in love with. Easy for her to say. It’s the tail end of the psychedelic sixties in L.A., and Doc knows that “love” is another of those words going around at the moment, like “trip” or “groovy,” except that this one usually leads to trouble. Despite which he soon finds himself drawn into a bizarre tangle of motives and passions whose cast of characters includes surfers, hustlers, dopers and rockers, a murderous loan shark, a tenor sax player working undercover, an ex-con with a swastika tattoo and a fondness for Ethel Merman, and a mysterious entity known as the Golden Fang, which may only be a tax dodge set up by some dentists.
In this lively yarn, Thomas Pynchon, working in an unaccustomed genre, provides a classic illustration of the principle that if you can remember the sixties, you weren’t there . . . or . . . if you were there, then you . . . or, wait, is it . . .
»

(via SMS misterioso)

terça-feira, outubro 28, 2008

A minha mãe obrigou-me a vir ao blogue um bocadinho, e continuo a sentir muito amor por James Wood

Que tem andado em autêntica campanha eleitoral nas últimas semanas: podcast no New York Review of Books com o Pim Fortuyn da crítica literária (Daniel Mendelsohn); podcast no Bookworm com o Vasco Granja da crítica literária (Michael Silverblatt, eu depois explico), e um cameo inesperado como detective na nova série da RTP, Liberdade 21 - (vi-o sentado num sofá, a explicar a um advogado o que era o "segredo profissional").
O repertório habitual está todo presente: elogios a Norman Rush (amén); utilização copiosa da expressão «joy, simple joy»; e piadas sobre televisão. Mas também respostas indirectas a pessoas que nem sequer estão presentes, hábito que pode levar algumas pessoas a pensarem nele como um cafageste invertebrado (não eu, que considero a estrutura óssea de Wood de uma inimpugnável solidez); um dogmatismo miópico sobre o que é o Realismo, característica assumidamente irritante que pode levar algumas pessoas a sentirem uma compulsão de atingir a douta cabeça de Wood com um rectângulo de contraplacado (não eu, esclareço, que apenas tenho a compulsão de acariciar a douta cabeça de Wood com um aglomerado de plumas); e a já clássica implicação com Pynchon, por motivos indiscutivelmente ignóbeis, posição crítica infundada que pode levar os emocionalmente voláteis a etiquetarem Wood como um pederasta cocainómano (não eu, insisto, que olho para Wood como um modelo de sã sexualidade e saudabilíssimo sistema linfático).
O nosso crítico literário preferido não suporta o nosso escritor preferido (plural majestático), e uma pessoa anda há anos a tentar reconciliar estas duas preferências numa Teoria de Campo Unificado, tarefa tão complicada como explicar a relatividade e o electromagnetismo com o mesmo conjunto de equações.
Wood raciocina como se o modelo de ficção que ele prefere fosse o único merecedor de atenção crítica séria; e escreve como se o seu naipe idiossincrático de princípios estéticos tivesse saliência universal. Obviamente, isto irrita muitas pessoas de bem (não é o meu caso; volto a realçar que acho Wood um querubim).
Estas características tornam-no uma figura tão polarizante como Leavis (com quem tem, aliás, bastante em comum), e repelem muitos potenciais admiradores (que não eu), que confundem a primeira característica com uma incapacidade congénita para reconhecer o potencial lúdico da literatura (o que é demonstravelmente falso), e a segunda com um autoritarismo congelado (o que já está mais perto da verdade, mas ele é tão fofinho que eu desculpo-lhe tudo).
O que me parece é que Wood terá sucumbido à maldição do crítico: a pressão da coerência. A partir do momento em que uma série de argumentos justíssimos contra um tipo de excesso recorrente cristaliza numa teoria estética, o crítico vê quase sempre, paradoxalmente, o seu leque de ferramentas reduzido, pois depara-se com a necessidade de deformar as suas análises futuras para que coincidam com o novo ângulo de visão. E um instrumento de curto-alcance, que surgiu como resposta a um objecto artístico específico, transforma-se agora num obstáculo permanente a juízos imparciais.
Trocado por miúdos: o crítico da New Yorker não pode correr o risco de elogiar um autor pelos mesmos motivos usados seis meses antes para criticar outro, que, por convenção jornalística ou pessoal, é encaixado na mesma "escola" ou "geração".
(Ou, à falta de melhor, aposto que o meu pai era capaz de dar porrada no pai de Wood).
Nos seus melhores ensaios negativos, Wood exalta aquilo que é específico na ficção, que nasceu com os Modernistas, e que não pode ser feito por qualquer outra forma de arte: a representação dos processos de consciência. Para Wood, o realismo psicológico é tudo. E com essa alavanca, ele atingiu uma posição previlegiada, a partir da qual conseguiu apontar astutamente algumas das deficiências de muita ficção contemporânea, cristalizada na sua apta definição de "Realismo Histérico":

«Hysterical realism is not exactly magical realism, but magical realism's next stop. It is characterised by a fear of silence. This kind of realism is a perpetual motion machine that appears to have been embarrassed into velocity. Stories and sub-stories sprout on every page. There is a pursuit of vitality at all costs.»

Este parágrafo é dolorosamente apropriado para descrever muitos dos magno-romances dos últimos 10/15 anos, cuja reputação é, e aí estou do lado de Wood, algo exagerada: White Teeth, The Corrections, Middlesex, Underworld, e quase tudo o que Rushdie escreveu depois de 1981. O problema, evidentemente, é que os mesmos "defeitos" podem ser apontados a muitas obras-primas indiscutíveis (no sentido em que uma pessoa gosta muito delas, e não admite cá discussões, ou isto dá para o torto), como Tristram Shandy, Almas Mortas, Ulysses, Gravity's Rainbow ou Infinite Jest. E em última instância, só são defeitos na medida em que afastam a literatura do ideal Chekhoviano de Wood. Ele aborda cada romance contemporâneo com a sua lupa astigmática, à procura de sinais exteriores de realismo histérico; é lógico que os vai encontrar.
O seu texto sobre Against the Day é um tour-de-force de apontar a luneta ao quarto escuro. Quando Pynchon usa algumas das convenções do realismo, e descarta outras, Wood interpreta negativamente essa triagem como um desequilíbrio, quase como uma falha moral. A estrutura da história policial, por exemplo, na qual os personagens (e o leitor) vão recebendo parcelas de informação que tentam organizar e hierarquizar, é constantemente subvertida por Pynchon, que tranca todas as portas antes da derradeira pista, obrigando-nos a retroceder os passos sem qualquer resposta. Isto porque Pynchon não vê nesta convenção a metáfora habitual do puzzle e das peças, mas algo mais parecido com as fractais de Mandelbrot: a incompreensão localizada existe para que o leitor deduza, com a mesma lógica paranóica do autor, que o todo é igualmente caótico; há padrões, mas são sempre fugazes.
A questão do "significado", que tanto frustra Wood, ecoa a célebre crítica de Leavis ao Heart of Darkness: o abuso por parte de Conrad de expressões como "unsayable", "inscrutable" ou "impenetrable". Não me parece que isto sejam meros borrões cognitivos. Pynchon não relativiza a Verdade; apenas reconhece que a nossa apreensão da Verdade é sempre relativa. A sua preocupação está, não tanto em extrair significado, mas em detectar padrões, um modelo narrativo que pode ou não merecer reprovação, mas que merece, pelo menos, ser avaliado nos seus próprios termos. O erro é potenciado quando Wood coteja três descrições de três lugares diferentes (separadas por seiscentas páginas) e aponta triunfantemente as semelhanças, como se estas fossem evidências de desleixe, ou pior, provas da imaterialidade do universo Pynchoniano. Qualquer leitor atento de Pynchon reconhece aqui o intento autorial: a magnificação apofénica das semelhanças entre locais ou eventos distantes. Isto não revela falta de arte, mas sim toda uma forma de ver o mundo, e não se pode criticá-la sem primeiro a entender.
Um dia destes eu vou a Nova Iorque explicar-lhe isto tudo, prometo.

quarta-feira, outubro 08, 2008

Escrita em Dia live

23:13 - Os participantes são apresentados. Fala-se do Nobel, mas não, estranhamente, da crise económica.

23:13 - Eduardo Pitta refere-se a "um homem tonto": o secretário Engdahl. Eu aceno, sorridente.

23:15 - O "anti-americanismo da Academia" faz a sua primeira aparição, seguido de perto pelo "conservadorismo da Academia". As coisas estão renhidas. Até agora, eu ainda não falei, mas nota-se o meu domínio profundo sobre as matérias.

23:19 - O apresentador comete uma inconfidência que acaba de lixar o meu karma orçamental para o resto do ano. Enfim.

23:23 - "O funcionamento da Academia parece uma coisa maçónica", José Mário Silva. Há apertos de mão secretos, e ritos de iniciação envolvendo sumo de uva e focas amestradas. Isto é do conhecimento público. Vamos falar de coisas sérias, senhores.

23:24 - A dicção perfeita de Eduardo Pitta está a deixar-me perturbado.

23:28 - Aproveito o intervalo musical para perguntar ao Francisco José Viegas: "Para que é que serve este botão? Este aqui, a piscar: serve para quê?"

23:31 - Não percebo os comentários depreciativos dos meus colegas de emissão. Eu até acho esta morna cabo-verdiana muito bonita.

23:35 - Tal como McCain fez com Obama no primeiro debate, Eduardo Pitta ainda não estabeleceu contacto visual comigo a noite inteira.

23:37 - Fala-se do optimismo dos premiados. Eu estou ocupado com o copo de água que a produção gentilmente me ofereceu, mas não concordo com nada disto.

23:39 - Enumera-se a malta que "nunca chegou lá". Eduardo Pitta informa-me que Naipaul é indiano. Estou com tanta sede.

23:43 - José Mário Silva diz, e muito bem, que se houvesse mais transparência, o processo perderia a graça. Ando há anos a tentar explicar esta teoria aos meus gerentes bancários, mas sem sucesso.

23:45 - Reparei agora que o meu microfone não está ligado.

23:47 - Engasguei-me num salgadinho, o que originou aquele comentário do Pitta em que ele diz que não é médico. Foi mauzinho. A propósito do Pynchon ir ou não a Estocolmo, o homem enviou um comediante (Prof. Irwin Corey) para receber o National Book Award em nome dele.

23:49 - Frank Sinatra diz que tem de nos ter todos os dias. Há um frisson silencioso no estúdio.

23:51 - Eduardo Pitta diz que Roth não tem parado de crescer nos últimos 10 anos. É aquela comida que os judeus comem.

23:53 - Francisco José Viegas evoca um cenário que eu pagava para ver: dezenas de fãs de Doris Lessing a celebrarem destruindo quartos de hotel.

23:56 - "Namibianos, sei lá, não sei". Preciso urgentemente de um copo de água. Vou só meter mais uma morna à revelia do apresentador e vou-me embora. Boa noite.

00:04 - Apanhei um táxi à saída do estúdio. Passei pela Isabel Coutinho, que ia a entrar, ligeiramente atrasada.

segunda-feira, outubro 06, 2008

Notícia lida apenas 22 minutos depois do golo do Wesley

«New Thomas Pynchon novel confirmed

This morning, Carolyn Kellogg reported on web rumors about a new novel by Thomas Pynchon. Now, Penguin Press, Pynchon's publisher, confirms that there is, indeed, a new novel by the reclusive author, to be published in August 2009.

As for the other rumored details -- that it's a noir novel of about 400 pages, set in the world of 1960s psychedelia -- Penguin is remaining silent ... for the time being.»

(LA Times)

terça-feira, maio 06, 2008

Bosco


Não vejo hipótese de alguém acreditar nisto (a não ser a minha mãe, que já sabe as despesas da casa), mas a verdade é que andei desde o fim-de-semana sem me lembrar da password do blogue. Durante noventa e seis escleróticas horas, a palavra não vinha. Partindo do sensato princípio que a minha alma não tem grandes profundezas, decidi que seria mais produtivo tentar adivinhar a password em vez de a recordar. Encarando assim o problema como um puzzle policial, reli algumas brilhantes deduções de Sherlock Holmes, Auguste Dupin, e do Pedro da série Uma Aventura. Concluí que a melhor forma de adivinhar uma password alheia é tentar pensar como a pessoa em questão. Dediquei-me, portanto, a tentar pensar como eu próprio, exercício que não recomendo a ninguém. O que é que me teria passado pela encriptante cabeça na altura do registo? Sporting? Pynchon? Um anagrama? Para grande espanto meu, escolhi uma solução pós-moderna e utilizei um termo já existente no zeitgeist como password: o seinfeldiano "Bosco", hoje substituído, ao fim de quase dois anos de competente serviço, pelo nome completo de um jogador de futebol tão obscuro que o próprio Luis Freitas Lobo teria dificuldade em balbuciar as suas estatísticas completas.

domingo, fevereiro 24, 2008

Coisas que só acontecem aos outros

«Punter wins £1m for 50p horse bet: A punter in North Yorkshire has become the first betting shop millionaire after he placed a 50p bet on eight horses with odds of two million to one.
(...)
The punter discovered he had won at 1200 GMT on Saturday when he went into another William Hill branch in Bedale, 15 miles (24km) away from the branch where he placed his 50p bet.
Graham Sharpe from the bookmakers said: "He placed five more 50p bets for Saturday's racing, then asked staff to check his betting slip from the day before.
"When they told him he had £1m to come but would have to collect it from the Thirsk shop, he went visibly pale before saying that he would have to go and tell his wife."»


(BBC)

Não sei se estão bem a ver a coisa: ele acertou nos vencedores de OITO corridas consecutivas (as acumuladas deste tipo nem sequer permitem "each-way bets"). Apenas dois dos cavalos que escolheu estavam entre os três favoritos para as respectivas corridas; um deles estava a 9 para 1, outro a 10 para 1. A notícia da BBC fala em probabilidades de 2000000/1, mas acho que anda mais perto das 2750000/1.
Pelos meus cálculos, são mais ou menos as mesmas probabilidades de eu acordar amanhã cedo e encontrar o Thomas Pynchon a varrer-me o quintal.

(Trágico fragmento autobiográfico: há cinco anos atrás, só não ganhei noventa mil libras numa acumulada por causa do Ricardo, na altura guarda-redes do Boavista. Acertei nos resultados de dezassete jogos das competições europeias e do campeonato escocês. O décimo-oitavo era o Boavista-Málaga, para a Taça Uefa. Tinha apostado num empate, e consequente eliminação do Boavista. O jogo foi para penalties, o Ricardo marcou um, defendeu outro, o Boavista passou, e eu tive de substituir todo o mobiliário que danifiquei nessa noite. 18 de Março de 2003: ainda tenho o talão da William Hill.
Hoje já estou muito melhor, mas durante anos não conseguia sequer dizer o nome do homem sem me começar a latejar a pálpebra direita.)

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

E nem sequer é um dos argumentistas em greve

Por causa da minha extraordinária geekiness (fiz parte, em tempos longínquos, da mailing-list de uma Pynchon Society...) fiquei mais ou menos amigo de um americano de Miami, com quem troco e-mails regularmente. Na semana passada perguntei-lhe se tinha votado nas primárias da Florida (ele está registado como Republicano); resposta dele, recebida há minutos:

«Sure I did. Five times.»

terça-feira, fevereiro 05, 2008

Uma semicolonoscopia ao Orlando

Chamo a vossa atenção, denisdutonicamente, para este artigo do Financial Times, um perfilzinho de James Wood (continuem a ler, se faz favor: o resto do post não tem nada a ver com o James Wood). Depois de um interessante desabafo sobre o rigor totalitário dos célebres fact-checkers da New Yorker, James Wood (última menção, juro) faz a seguinte confissão: «"I love semi-colons," he says with all the enthusiasm of a 10-year-old talking about chocolate.».
Isto deixou-me contentíssimo. Como tantas outras pessoas espalhadas por esse planeta fora, eu passo grande parte do meu tempo livre a fantasiar sobre o ponto e vírgula, e é sempre bom encontrar camaradas para o swing platónico. O ponto e vírgula é, com uma considerável vantagem sobre a concorrência, o meu sinal de pontuação favorito. Aliás, se fosse forçado a escolher entre o ponto e vírgula e os chocolates da Lindt, a decisão nem sequer seria problemática.
(E não é nada fácil de manusear, o ponto e vírgula; eu, por exemplo, nunca aprendi a fazê-lo; o que não me impede de continuar; a tentar).
Como qualquer alvo de obsessões, o ponto e vírgula tem a sua entourage, os seus cínicos detractores, e a sua biografia recheada de altos e baixos. A tragédia é concisamente relatada no canónico "The Rise and Fall of the Semicolon: English Punctuation Theory and English Teaching" de Paul Bruthiaux (disponível aqui, em ficheiro .pdf), onde aprendemos, por exemplo, que « . . . the popularity of the semicolon itself appears to have peaked in the eighteenth century, and its demise in the nineteenth century was almost as sudden and overwhelming as its rise to stardom had been two centuries earlier».
Para que serve, então, o ponto e vírgula no século XXI? As opiniões divergem. Donald Barthelme dizia que o ponto e vírgula é tão feio "como uma carraça na barriga de um cão". Lynne Truss, no seu divertido bestseller, alerta que o ponto e vírgula pode ser "perigosamente viciante", devendo ser usado com parcimónia, um pouco como uma carga policial, sempre que haja conflito entre vírgulas desordeiras. No meu caso específico, e isto fica só entre nós, o ponto e vírgula cumpre o mesmo propósito do par de tracinhos, ou da gaiola de parênteses: ostraciza por convenção o que eu não consegui conciliar por talento, e legitima graficamente o progresso soluçante daquilo que passa por raciocínio neste crânio fatigado. (Eu durmo muito pouco; é um problema sério).

Mas concentremo-nos antes em quem o utiliza com brio. Como é sabido por todas as pessoas que já tiveram o prazer de me aturar com uns copos a mais, cada sinal de pontuação tem o seu campeão literário. A vírgula tem Henry James, o ponto de exclamação tem Philip Roth, as reticências têm Thomas Pynchon, o ponto final tem Pedro Lomba Hemingway, e por aí fora. (Um dia desenvolvo isto melhor). O ponto e vírgula, apesar de quatrocentos anos de flirts, engates e rapidinhas mais ou menos efectivas, só foi competentemente aviado por Virginia Woolf.
Para todos os admiradores do ponto e vírgula, o Orlando é um espectáculo quase pornográfico (e não apenas por ser o único clássico da literatura universal com nome de chulo algarvio): não há parágrafo que não coreografe duas, três, cinco dessas híbridas e adoráveis criaturas em kamasutricas acrobacias. Uma pessoa pode passar uma vida inteira a treinar-se no uso do ponto e vírgula para chegar ao Orlando e desfalecer de incompreensão. Eu sabia que se podia fazer isto a um ponto e vírgula; mas aquilo? É transtornante. O parágrafo seguinte, extraído ao segundo capítulo, está amparado por duplos e triplos sublinhados no meu exemplar, com uma trémula notinha na margem sugerindo humildemente "esta gaja passou-se":

«He now commissioned Mr Isham of Norfolk to deliver to Mr Nicholas Greene of Clifford’s Inn a document which set forth Orlando’s admiration for his works (for Nick Greene was a very famous writer at that time) and his desire to make his acquaintance; which he scarcely dared ask; for he had nothing to offer in return; but if Mr Nicholas Greene would condescend to visit him, a coach and four would be at the corner of Fetter Lane at whatever hour Mr Greene chose to appoint, and bring him safely to Orlando’s house. One may fill up the phrases which then followed; and figure Orlando’s delight when, in no long time, Mr Greene signified his acceptance of the Noble Lord’s invitation; took his place in the coach and was set down in the hall to the south of the main building punctually at seven o’clock on Monday, April the twenty–first.»

Parece-me por esta altura incontroverso que Virginia Woolf era completamente maluca no que diz respeito ao ponto e virgula. E como aquelas almas sôfregas que gostam tanto de marmelada que acabam por sublimar a sua pulsão num desenfreio fetichista, Virginia não traduziu o seu arrebatamento gráfico na delicadeza do gourmet. The lady liked it rough; a sua pontuação vem coradinha e ensopada em suor, como uma empregada doméstica num filme de Tinto Brass. O Orlando deve ter mais ponto e vírgulas por centímetro quadrado do que qualquer outra obra literária, mas ao iniciado só vai trazer um perplexo e transpirado desalento.
A melhor defesa do ponto e vírgula terá forçosamente de ser uma defesa utilitarista, e começar por estabelecer que, nas mãos certas, o ponto e vírgula reduz o trabalho de sapa do leitor. A mais lúcida argumentação nesse sentido foi feita por Henry W. Fowler, no clássico The King's English.
Para Fowler, a pontuação era um problema moral: «Any one who finds himself putting down several commas close to one another should reflect that he is making himself disagreeable, and question his conscience, as severely as we ought to do about disagreeable conduct in real life, whether it is necessary.»
Qualquer um dos quatro sinais de pontuação que denotam uma pausa (a vírgula, o ponto e vírgula, os dois pontos e o ponto final) difere dos outros quantitativamente. Todos estabelecem graus distintos de separação temporal, cujo valor é relativo e nunca absoluto. Cada sinal de pausa cumpre uma dupla função: lógica e retórica. A função lógica é clarificar as relações gramaticais entre os componentes da frase; a retórica está relacionada com questões de tom, ênfase e gestão rítmica. O trabalho do escritor deve então ser um trabalho diplomático, regulando as dependências entre orações, e adjudicando a sua importância relativa.
A tendência geral da literatura moderna tem sido para uma progressiva erradicação do ponto e vírgula. A esmagadora maioria dos escritores rege-se pelo que Fowler, com o seu inigualável talento classificativo, chama de "spot-plague principle": nunca usar outro sinal quando o ponto final serve. Isto, para Fowler, é moralmente catastrófico. Ele sugere antes o princípio do agrupamento, argumentando que «a style that groups several complete sentences together, by the use of semicolons, because they are more closely connected in thought, is far more restful and easy - for the reader, that is - than the style that leaves him to do the grouping for himself».
Virginia Woolf, como é hiperbolicamente claro para todos, seguiu uma terceira via: fetichizou o ponto e vírgula, e usou-o não para benefício do leitor, mas porque lhe dava na real gana. Estes modernistas; francamente; não respeitavam ninguém.
Encontrado o imprescindível ponto de equilíbrio entre o entusiasmo e a anarquia, é possível fazer disto um instrumento formidável. Dar-me-ia um enorme prazer se a malta (começando por mim) passasse a tratar melhor este belo sinalito;.

(Rapida, superflua, mas seriamente: entre os bloguers que leio, os que melhor utilizam o ponto e vírgula são o Ivan Nunes, o Mexia e o maradona. Este último, aliás, tem lá uma utilização exemplar da combinação "ponto e vírgula/dois pontos", por enquanto não-apagada, mas que merece ser aqui resgatada à efemeridade:
Não insinuo que o Henrique Raposo mereça as mesmas vilanias que a minha espectacular pessoa; com alguma arrogância, arrisco apenas que, em certo e muito restrito sentido (que espero, tantos posts depois, já evidente para todos), o Henrique Raposo exista neste mundo como se fosse a minha alma gémea do irmão que nunca tive (muito embora eu não possa ser considerado, tecnicamente, um anão): um gajo que, se fosse primeiro-ministro, nada disto acontecia.
Garanto-vos que, se virasse o olho cego à gramática, o Fowler aprovaria.)

segunda-feira, janeiro 07, 2008

Juro que não fui eu quem começou o boato

Nesta página antiga da CNN, se forem andando para baixo até à secção "Related sites", encontrarão um muito sugestivo (e ominosamente inactivo) link para «Who Is Thomas Pynchon... Thomas Pynchon: Casanova?»

quarta-feira, abril 25, 2007

É preciso usar sempre dupla precaução com estes cavalos irlandeses

Até aos 11/12 anos dividia os feriados em dois tipos: aqueles em que recebia prenda, e os outros. Depois cresci, ganhando algumas noções, assimilando alguns fundamentos, passando a dividir os feriados em dois tipos: aqueles em que não tinha de ir à escola, e os outros. Até que um longo processo de amadurecimento físico e intelectual me transformou neste homenzinho que hoje vos escreve, e cheguei ao sistema que me parece mais apropriado, que é o de dividir os feriados em dois tipos: aqueles em que as pistas permanecem abertas e os outros. Estou portanto em condições de assegurar que entre as variadíssimas e benéficas conquistas de Abril não se conta a capacidade de influenciar provas de barreiras efectuadas três décadas mais tarde, no recinto de Worcester. O pobre cavalinho tinha o nome de Polonius, e to his own self was true, espatifando-se ao tentar ultrapassar a sétima sebe, deixando o caminho da vitória aberto ao jockey Howie Ephgrave, que, não contente com os desafios do dia-a-dia certamente colocados pelo diminutivo 'Howie', tem o hábito de se passear pelos hipódromos do Reino com um medúseo chapéu cor de alcachofra.

(A deriva deste blogue para o comentário político, tendo acontecido apenas na sub-cave do Blogger, poderá não ter sido aparente para mais ninguém, mas mergulhou o autor num charco de consternação, entretando drenado por uma implacável purga interna que eliminou todos os drafts sobre "actualidades". Para evitar vergonhas futuras, o Pastoral Portuguesa passará a aplicar a seguinte 'regra de polegar' a todos os posts em estado embrionário: se o assunto for comentado no Blasfémias num prazo útil de três dias, não será comentado aqui. O que pode levantar toda uma nova série de problemas. Nomeadamente se o João Miranda começar a ler Pynchon e a apostar nos cavalos.)

sexta-feira, abril 06, 2007

My Life as a Fake


A sensação é discreta, mas inconfundível: Martin Amis definiu-a como uma "certeza resignada". Falo daquele furtivo formigueiro cerebral que se instala quando começamos a ler um autor que rapidamente nos impõe a sua indispensabilidade. O cânonezinho portátil que tenho na cabeça foi sendo formado assim: Pynchon, Bellow, Roth, Norman Rush, Henry James, Sterne, Barthelme, Nabokov... com todos eles bastou uma dúzia de páginas para perceber que teria eventualmente de ler tudo aquilo que escreveram - incluindo listas de compras, postais de Natal, receitas de cozinha e testamentos.
My Life as a Fake é o primeiro livro de Carey que leio. Mas já estou a lançar olhares nervosos ao extracto bancário (o meu, não o dele, que, tanto quanto sei, ainda não foi publicado).

quarta-feira, março 14, 2007

Lista feita por pessoas que leram os mesmos livros que eu

33 Names of Things You Never Knew had Names.

(A verdade é que se aprende a nº1 em Underworld, de Don DeLillo, a nº4 em V., de Thomas Pynchon, a nº16 em Giles Goat-Boy, de John Barth, a nº21 em Humboldt's Gift, de Saul Bellow, a nº23 em Infinite Jest, de David Foster Wallace, a nº24 em Despair de Nabokov e a nº27 em The Mezzanine, de Nicholson Baker. Acrescentaria a palavra 'marabu', que não vinha no dicionário da Porto Editora em 1996, e que confundiu toda uma turma de leitores d' A Sibila. Curiosamente, o nome inglês para o bicho - que não passa de uma cegonha inflaccionada - serviu de título a um livro de Irvine Welsh, cujas subtis parábolas espirituais tanto evocam Agustina.
Uma lista ainda melhor pode ser encontrada aqui. Gostei muito de «Gynotikolobomassophile - One who likes to nibble on a woman's earlobes»; e também de «Peristerophobia - Fear of pigeons» e «Resistentialism - Seemingly spiteful behaviour manifested by inanimate objects». Se alguém tiver conhecimento de termos equivalentes na língua portuguesa, especialmente os dois últimos, não hesite em informar-me; nunca é cedo de mais para planear a autobiografia.)