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domingo, março 04, 2007

Wood, woodpecker



James Wood leu Against the Day. É sintomático do seu modus operandi que a crítica tenha sido, entre os principais periódicos americanos, a última a aparecer.
A peça é longa e ponderada; revela a habitual atenção à linguagem, e a escolha precisa de citações (que é, ou deve ser, a principal ferramenta do crítico); e é enfaticamente negativa, o que só surpreende quem não tem acompanhado a carreira de Wood.
Se a minha nova e divertidíssima entidade patronal me conceder o tempo necessário, tentarei esta semana explicar porque continuo a considerar James Wood o arquétipo do leitor ideal, apesar das ocasionais imbecilidades que pontuam o texto sobre Pynchon. Tentarei explicar porque é que o seu recente e desconcertante hábito de bicar artefactos de plástico ou cimento como se fossem de madeira não obsta a que continue a ver nele o herdeiro espiritual de V. S. Pritchett, e o melhor crítico literário contemporâneo. E tentarei explicar porque é que faria questão em lhe apertar a mão caso o encontrasse na rua, independentemente da sua vontade em ter a mão apertada.
Esclareço ainda, a propósito desta ambígua graçola, que partilho a opinião de Clive James: não creio que a crítica literária seja essencial à literatura; mas creio que ambas são essenciais à Civilização. A Era de Ouro pode ter acabado, e sacerdotes estéticos como Eliot ou Leavis podem ser irrepetíveis, mas acho que a crítica literária actual está bem e recomenda-se, particularmente a de pendor não-académico (a que prefiro), e anglófona (a que conheço melhor). Para além de James Wood, destaco Louis Menand (da New Yorker), John Leonard (Harper's e The Nation), Daniel Mendelsohn (NYRB), e também três escritores talvez mais conhecidos como ficcionistas, mas cujos ensaios me parecem indiscutivelmente superiores aos seus desiguais romances: Martin Amis, John Updike e Cynthia Ozick.
Nestas mãos atentas e carinhosas, a Crítica Literária poderá sempre aconchegar-se despreocupadamente; a sua saúde não corre perigo.

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Publicidade


É a segunda vez em menos de uma semana que a distância me impede de cumprir um dever de cidadania. Para vocês, os do lado de lá, não há desculpas. Se acham que têm melhores coisas a fazer numa sexta-feira à noite, estão redondamente enganados. Eu já me informei: o Sporting só joga amanhã, o último livro do Pynchon ainda não chegou aos escaparates lusos, e a vossa vida sexual, francamente, já conheceu melhores dias. Vão ficar em casa a fazer o quê?
Vão antes a Santos ver um concerto, onde, por um preço antediluviano, terão acesso a exorbitantes recompensas sonoras.

(Full disclosure: eu não conheço esta malta de lado nenhum, nem estou a ser pago pela publicidade. O que acontece é que, aqui há uns anos, na minha idealista e empreendedora adolescência, escrevi um panfleto em dez bullet-points, subordinado ao tema «O que Portugal precisa». O ponto 7 era precisamente, e passo a citar: "Portugal precisa de mais bandas de panque medieval, formadas por gajos Protestantes da bacia do Tejo".
Seria portanto de uma oleosa hipocrisia vir agora fingir indiferença perante tamanho obséquio do Acaso.
E não se iludam: isto é apenas o começo. O país Casanova já só está a nove tópicos de distância.)

domingo, janeiro 21, 2007

Antes do arco-íris



«This then, I thought, is the representation of history. It requires a falsification of perspective. We, the survivors, see everything from above, see everything at once, and still we do not know how it was.»

(W. G. Sebald, The Rings of Saturn)


A partir de que distância é possível discernir um padrão na desordem? Que porção do caos devemos levar em conta nessa análise? E a esporádica berlaitada psicadélica, ajuda?
Estas perguntas, com uma ou outra variação, têm estado latentes em cada página Pynchoniana, desde o início. No epílogo de V. - o seu primeiro romance, publicado em 1963 - um jovem Sidney Stencil, depois de sensatamente recusar uma pitada de hashishe no seu cachimbo, coloca a seguinte hipótese: «suppose sometime between 1859 and 1919, the world contracted a disease which no one ever took the trouble to diagnose because the symptoms were too subtle - blending in with the events of history».
Quarenta anos e cinco romances depois, um padrão começa a ser identificável na sua obra, cujo impulso central parece ter sido o elaborar de uma cripto-história da humanidade desde a Revolução Industrial. Pynchon sempre dedicou uma atenção especial aos espaços em branco no espectro oficial da Verdade, aos vácuos nas cronologias, às convulsões invisíveis que sacodem as mudanças de paradigma, e onde costumam florescer os mitos urbanos e as teorias da conspiração; não há muita obsessão subterrânea que não lhe tenha merecido algum tempo de antena, desde a colónia de crocodilos nos esgotos de Nova Iorque, à supressão de uma lâmpada perpétua pela Phillips, passando por genocídios secretos e serviços postais alternativos. O novo livro leva essa cosmologia paranóica até às últimas consequências, com resultados ocasionalmente hilariantes:

«'Back before the beggining of all, when they were designing the World -'
'They?'
'They.'
»

Mas Against the Day é também uma tentativa de diagnosticar a doença de Stencil (funcionando nesse aspecto, como uma prequela de Gravity's Rainbow, que dramatiza os seus efeitos), um diagnóstico que aspira a uma obsessiva totalidade e a cujo escrutínio narrativo nada - realidade ou lenda, facto ou mito - parece escapar.
O que acontece, e vamos tentar manter as coisas simples, é isto: Webb Traverse, líder sindical dos mineiros do Colorado, anarquista e patriarca, é assassinado por dois rufiões ao serviço de Scarsdale Vibe, um plutocrata satânico e um digno representante da not quite mitológica raça dos Robber Barons que ajudaram a construir a América. A problemática filha de Webb, Lake Traverse, apaixona-se por um dos assassinos, enquanto os três filhos reagem à tragédia de maneiras diferentes: Reef jura vingança e percorre o planeta, primeiro no encalço dos dois assassinos, e depois perseguindo troféus de ordens diferentes; Frank, cujos desejos de retribuição são mais diluídos, atravessa a fronteira mexicana, onde se envolve, quase por acidente, na revolução de Madero (Pancho Villa faz uma curta aparição); Kit, um prodígio intelectual, e o mais novo dos irmãos, faz um pacto faustiano com Vibe, que se oferece para financiar a sua educação superior - primeiro em Yale e posteriormente em Göttingen, onde conhece a irresistível matemática Yashmeen Halfcourt, ex-aluna de Riemann, e que é capaz de se bifurcar e deslocar através do tempo e do espaço. Em paralelo, vamos seguindo as peripécias dos Chumps of Chance, um grupo de aventureiros saídos - literalmente - de uma colecção de livros juvenis, que se desloca numa gigantesca aeronave movida a hidrogénio (cujo tamanho vai aumentando gradualmente), recebendo instruções de um obscuro e quase-omnisciente consórtio, e interferindo aqui e ali nos assuntos terrenos, ora seguindo o rasto a uma arma ultra-poderosa que pode ou não ter sido desenhada por Nikola Tesla, ora experimentando uma máquina do tempo que pode ou não já ter sido usada, ora procurando, com a ajuda de um insólito mapa tri-dimensional, a mítica cidade de Shambhala, que pode ou não ocultar-se debaixo das areias de um deserto asiático, e que pode ou não conter reservas inesgotáveis de petróleo, ou o segredo da vida eterna.
Na segunda metade do livro, as coisas complicam-se. Grande parte dos personagens parte para uma Europa que vacila no limiar de uma catástrofe sem precedentes; as premonições vão-se acumulando:

«What was about to emerge from the night, just behind the curve of the Earth?. . . a persistent component of black in all light that swept this lowland, flowing over dead cities, mirror-still canals. . . black shadows, tempest and visitation, prophecy, madness. . .»

Algumas páginas depois, sobrevoando os campos da Flandres, um visitante do futuro deixa o seguinte aviso:

«This world you take to be 'the' world will die, and descend into Hell, and all history after that will belong properly to the history of Hell. (. . .) Flanders will be the mass grave of History. (. . .) On a scale that has never yet been imagined. Not some religious painting in a cathedral, not Bosch, or Brueghel, but this, what you see, the great plain, turned over and harrowed, all that lies below brought to the surface - deliberately flooded, not the sea come to claim its due but the human counterpart to that same utter absence of mercy - for not a village wall will be left standing. League on league of filth, corpses by the uncounted thousands, the breath you took for granted become corrosive and death-giving

Os reencontros fortuitos vão-se multiplicando; personagens que se tinham visto pela última vez nas cavernas do México cruzam-se nas selvas de África; amantes separados em Nova Iorque reunem-se nas ruas de Trieste. A locução mais frequente nesta secção é "who should then appear but". Os desenvolvimentos teóricos da época vão sendo mencionados e trabalhados, sempre de um modo relativamente leigo-friendly: os primórdios do cinema, a teoria do Éter Luminífero, o debate matemático entre Vectoristas e Quaternionistas (a única secção onde, confesso, me perdi), pesquisas sobre o Espato da Islândia, uma variante da calcite com invulgares propriedades de refracção, e cuja capacidade para duplicar a realidade é um pouco mais do que metafórica. Abundam também longas tiradas sobre o Tempo («our fate, our lord, our destroyer») que cumpre a mesma função estruturante já familiar de livros anteriores (a entropia em V., as leis de causa e efeito em GR, a linguagem binária em Vineland e a cartografia em Mason & Dixon).
Mas é o estilo, como sempre em Pynchon, que acaba por ser a personagem principal. Tal como em V., o modo básico de narração é o pastiche, mas um pastiche modulado e filtrado pela inconfundível voz do autor, de forma que é quase impossível encontrar um parágrafo que não seja imediatamente identificável como seu. O zodíaco referencial continua imenso; num excelente ensaio, John Clute tenta ancorar o trabalho numa certa tradição da Ficção Científica, que remonta às distopias de William Morris e cujo expoente máximo é Michael Moorcock (cuja obra desconheço). De qualquer forma, a interpretação é redutora. Against the Day contém alusões literárias em número suficiente para obcecar académicos durante décadas. Uma primeira leitura permitiu identificar piscadelas de olho ao Hamlet e ao Fausto de Marlowe, a Dante e a Le Carré, B. Traven e Evelyn Waugh, Ronald Firbank e Mark Twain, Henry Adams e Júlio Verne, Raymond Chandler e Ridder Haggard, William Burroughs e Enid Blyton, Charles Dickens e Alan Moore. Há também alusões cinéfilas a John Ford, Howard Hawks e aos irmãos Marx; uma piada horrenda envolvendo o Titanic; uma série de variações já familiares sobre o Roadrunner e o Coyote (incluindo uma fantástica perseguição através de uma fábrica de maionese na Bélgica); e uma bizarra e inesperada homenagem a Dune que me pareceu dever mais ao incoerente filme de Lynch do que ao impenetrável livro de Frank Herbert.
Alguns críticos atribuíram uma relevância inquinada aos aspectos mais esotéricos deste Universo hiper-ligado, como se Pynchon, na sua velhice, se tivesse convertido ao charlatanismo New Age da malta dos cristais. Mas Pynchon, e isto não é uma opinião, mas um facto indesmentível, sabe mais sobre ciência do que qualquer outro escritor vivo, e sabe o suficiente para compreender que qualquer avanço mais brusco pode parecer momentaneamente um acto de magia. Para uma geração cuja educação foi solidamente fundada sobre a Rocha das leis Newtonianas, os primeiros passos na direcção da Teoria da Relatividade devem ter soado alguns ecos preocupantemente sobrenaturais.
O resto - fantasmas, profecias, horóscopos, e um fascínio com o Tarot que vem de longe - é puro xamanismo literário, testando a elasticidade das convenções do Realismo sem sufocar a linha narrativa, como acontece em certos descendentes menores da Escola Sul-Americana e bastardos pouco talentosos de Garcia Márquez.
É a mesma lógica que regula a criação das suas personagens, tantas vezes denegridas (stand up Kakutani) como meros cartoons. As falhas de caracterização inspiram um ressentimento crítico ainda maior porque os enredos de Pynchon, ao contrário dos jogos meta-ficcionais dos seus contemporâneos Barthelme, Coover e Gardner, por exemplo, vêm camuflados de Naturalismo. Mas a sua ficção não se esgota no aprofundamento psicológico: há outros imperativos. O tratamento que Pynchon dá aos seus protagonistas está a meio-caminho entre a rédea solta dos grandes romances Vitorianos e as grilhetas do pós-modernismo: é um despotismo iluminado, que lhes permite uma certa amplitude dentro da grelha de intenções do autor.
Intenções que, surpreendentemente, devem muito ao Puritanismo dos seus antepassados e a um posicionamento político algo ambíguo. Dados alguns elementos recorrentes na sua obra (um feroz tom anti-capitalista e uma empatia desmesurada com os desenfranchizados, etc.) tem sido tentador para alguns enquadrá-lo num enclave ideológico de esquerda. Mas Pynchon, mais do que um liberal de Long Island ou um velho hippie, é um libertário Calvinista, cuja fanática desconfiança em relação à Autoridade e descrença em qualquer forma de progresso social é contra-balançada por uma fé inabalável no Indivíduo e num estranho tipo de salvação arbitrária, uma relíquia da desesperada doutrina Calvinista da Predestinação, na qual a Salvação é uma lotaria e Deus uma gigantesca tômbola extraindo almas ao caos giratório.
Os desejos utópicos não resistem ao pessimismo de quem suspeita que a Utopia já existiu e foi irremediavelmente arruinada. Yashmeen, a dada altura, diz que viajar no tempo é uma forma falhada de utopianismo. A tendência geral desta mundivisão é para uma idealização excessiva do Passado, mas no caso de Pynchon serve para trazer à tona o seu melhor; os picos da sua escrita encontram-se naquelas prolongadas cadências, exprimindo a visão elegíaca de um ontem irrecuperável.
É uma escrita de uma intensidade quase religiosa - no melhor sentido do termo - em que todos os contratos seculares entre leitor e autor são meticulosamente rasgados. Existe, contudo, uma promessa maior: a promessa de que a Arte é a única oportunidade redentora para os que esbracejam à ilharga da História, os não-seleccionados, os Preteridos; a ideia Conradiana de que a Literatura pode e deve ser uma tentativa de distribuir a melhor justiça possível pelo Universo visível. A enorme cidade flutuante das últimas páginas, na qual «every wish, if not granted, is at least addressed», e na qual habitam os personagens arbitrariamente escolhidos pelo Autor - os Chumps of Chance, que pertencem a ficções dentro da ficção, que nunca envelhecem, e que se casam todos na mesma página, como no final de uma comédia Shakespeareana - é o símbolo visível dessa promessa, triunfantemente cumprida. Aos outros, os sobreviventes da débacle, algemados à Terra, resta-lhe a Paris do pós-guerra e uma trégua fugaz antes de Gravity's Rainbow.

(Against the Day tem 1085 páginas e a única coisa que eu queria era que não acabasse. A maior dificuldade colocada pelo livro é a de regressar: a 2007, à vida, aos livros normais.)

Pynchon & Jazz

Seguindo o exemplo de livros anteriores, Against the Day volta a fetichizar a anarquia organizada da música e da dança como uma arma contra a Ordem conspiratória dos Eleitos, e um antídoto contra a inevitabilidade da entropia. Um fetiche de longa duração:

V. (1963)

« 'Crazy', said McClintic... But one thing that did occur to him was if a computer's brain could go flip and flop, why so could a musician's. As long as you were flop, everything was cool. But where did the trigger-pulse come from to make you flip? (...) What happened after the war? That war, the world flipped. But come '45, and they flopped. Here in the jazz bars of Harlem they flopped. Everything got cool. . .»


The Crying of Lot 49 (1967)

«Each couple on the floor danced whatever was in the fellow's head: tango, two-step, bossa nova, slop. But how long, Oedipa thought, could it go on before collisions became a serious hindrance? There would have to be collisions. The only alternative was some unthinkable order of music, many rhythms, all keys at once, a choreography in which each couple meshed easy, predestined. (...) She was danced for half an hour before, by mysterious consensus, everybody took a break, without having felt any touch but the touch of her partner . . . an anarchist miracle.»


Mason & Dixon (1997)

« "'Tis ever the sign of Revolutionary times, that Street-Airs become Hymns, and Roist'ring-Songs Anthems,-- just as Plato fear'd,-- hast heard the Negro Musick, the flatted Fifths, the vocal portamenti,-- 'tis there sings your Revolution. These late ten American years were but Slaughter of this sort and that. Now begins your true Inversion of the World."
"Don't know, Coz. Much of your Faith seems invested in the novel Musick,--"
"Where better?" »



Against the Day (2006)

«"... I’ve noticed the same thing when your band plays — the most amazing social coherence, as if you all shared the same brain."
"Sure," agreed ‘Dope’, "but you can’t call that organization."
"What do you call it?"
"Jazz."»

domingo, janeiro 14, 2007

Anarchist's Golf


«The next day Reef, Cyprian and Ratty were out in the Anarchist's golf course, during a round of Anarchist's Golf, a craze currently sweeping the civilized world, in which there was no fixed sequence - in fact, no fixed number - of holes, with distance flexible as well, some holes being only putter-distance apart, others uncounted hundreds of yards and requiring a map and compass to locate. Many players had been known to come there at night and dig new ones. Parties were likely to ask, "Do you mind if we don't play through?" then just go and whack balls at any time and in any direction they liked. Folks were constantly being beaned by approach shots barreling in from unexpected quarters. "This is kind of fun," Reef said, as an ancient brambled guttie went whizzing by, centimeters from his ear.»

(Thomas Pynchon, Against the Day)

sexta-feira, janeiro 05, 2007

The noted troublemaker Al-Mar-Fuad


«One day the noted Uyghur troublemaker Al-Mar-Fuad showed up in English hunting tweeds and a deerstalker cap turned sidewise, with a sort of ultimatum in which one might just detect that difficulty with the prevocalic 'r' typical of the British upper class. "Gweetings, gentlemen, on this Glowious Twelfth!"»

(Thomas Pynchon, Against the Day)

...the angel, if not of death at least of deep shit...


« . . .Life in Göttingen appeared to proceed on its blade-twinkling way, wheelfolks on brandnew bikes crashing into each other or careering out of control and scattering pedestrians, beer-drinkers quarreling and bowing, preoccupied Zetamaniacs forever on the verge of walking off the edge of the Promenade being rescued by companions, a town he had never loved all at once become a place, now he was obliged, it seemed, to live it, whose most quotidian detail shone with a clarity almost painful, already a place of exile's memory and not returning, and here just to make that official was the angel, if not of death at least of deep shit, and nobody else seemed to notice. . . »

(Thomas Pynchon, Against the Day)

sábado, dezembro 30, 2006

Hotel Noctámbulo



«He found a ramshackle old hotel a block square, the Hotel Noctámbulo, where insomnia prevailed. In each room, somebody was staying up working at some impossible midnight project - a mad inventor, a gambler with a system, a preacher with an only partly-communicable vision. Doors were left unlocked, strangers acted for the most part like neighbors, everybody free to roam each others' units.»

(Thomas Pynchon, Against the Day)

quarta-feira, dezembro 27, 2006

O livro do ano


Por inesperadas dificuldades logísticas, a distinção aplica-se apenas às primeiras 780 páginas. As restantes serão provavelmente as melhores de 2007, mas isso é outra conversa.
Já agora, vale a pena ler isto:

«(...) But the size and sprawl of Pynchon's canvas proceed from an impatience with the limits of the novel form, and an ambition to hunt bigger game than the mere symbolic enactment of epochs and ideas through the collision of a handful of lives. The unstoppable proliferation of every kind of situation comes in part from a compulsion to keep himself and the reader entertained, but it is also wolfsbane nailed up against the possibility of reductive interpretation. (...) Pynchon thinks on a different scale from most novelists, to the point where you'd almost want to find another word for the sort of thing he does, since his books differ from most other novels the way a novel differs from a short story, in exponential rather than simply linear fashion. Pynchon's work has absorbed modernism and what has come after, but in its alternating cycles of jokes and doom, learning and carnality, slapstick and arcana, direct speech and poetic allusiveness, high language and low, it taps into something that goes back to the Elizabethans, who potentially addressed the entire world, made up of individuals with differing interests and capacities.»

Luc Sante, na New York Review of Books. De longe, a melhor crítica do livro que li até agora (e li 14). É assim que se lê e é assim que se faz.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Nathanael West

No mesmo fim-de-semana, em 1940, morreram dois dos grandes escritores americanos do século XX. No dia 21 de Dezembro, F. Scott Fitzgerald sucumbia a uma sucessão de ataques cardíacos. No dia seguinte, devastado com a notícia, o seu amigo e parceiro no charco de Holywood, Nathanael West (que era um péssimo condutor nas melhores circunstâncias), passou um sinal vermelho e embateu de frente noutro automóvel. Teve morte imediata. O autor de O Grande Gatsby, apesar dos altos e baixos da sua carreira, era já uma figura respeitada; teve direito a louvores de primeira página, e a um funeral enfeitado com os piadismos monossilábicos de Dorothy Parker. Já o obituário de West apareceu apenas na secção de cinema do NY Times; escreveram-lhe o nome ao contrário e atribuíram-lhe uma bibliografia pejada de incorrecções.
Os títulos dos seus romances são: The Dream Life of Balso Snell, Miss Lonelyhearts, A Cool Million e The Day of the Locust. Há uma edição muito boa da Picador que inclui os quatro. A contracapa inclui o lugar-comum da praxe: West "traçava panoramas satíricos da América" ou coisa parecida, o que, diga-se, não é totalmente descabido. O conjunto da sua obra é o que a literatura americana teve de mais parecido - em espírito e execução - com um Almas Mortas. Mais honesta, contudo, seria uma frase deste género: «West escreveu sobre o Inferno. Por conveniência, deu-lhe o nome de Los Angeles e povoou essa topografia com pintores frustrados, editores cínicos e actrizes desempregadas, mas o fedor a enxofre é inconfundível.» Como os melhores escritores, limitou-se a "traçar panoramas" do interior da sua cabeça e dos fantasmas que lá uivavam. A sua tentacular influência nota-se em Burroughs, em Ballard, em Pynchon, em DeLillo.

Na sua juventude, Nathanael West devorava literatura russa, tendo treinado um bull terrier para morder qualquer pessoa que o interrompesse quando tinha um livro na mão. Um esquema semelhante para a leitura da sua obra não é de todo desaconselhável.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

. . .a byword of emotional volatility throughout the Subdesertine Service. . .


«It had been a particular liberty weekend in Nuovo Rialto. The ship happened to to have tied up at a quay belonging to an aryq shipper, along which many sailor were discovered each morning semi-paralyzed, having got no further in their pursuit of recreation, their Hypop units humming on in Dormant mode. A number of the crew reported being waylaid by sand-fleas, the queues at sick bay each morning running down passageways and ladders well into the Viscosity spaces. Some, apparently having enjoyed the accostments, didn't report them at all. The quarterdeck witnessed scenes of vituperation, smuggling attempts failed and successful, romantic melodrama as the more adventurous crew members discovered the complex allure of Veneto-Uyghur women, who were a byword of emotional volatility throughout the Subdesertine Service. When the time came at last to single up all the lines, some 2 percent of the crew, about average as these things went, had announced plans to stay behind and get married. Captain Toadflax took this with the equanamity of a long-time tropper in the region, figuring he'd get most of them back when he came through town again at the end of the cruise. "Marriage or under-sand duty," shaking his head at some cosmic sadness. "What a choice" . . .»

(Thomas Pynchon, Against the Day)

domingo, dezembro 10, 2006

Welcome to Planet Sardar

Este lamentável artigo de Ziauddin Sardar, no último número da New Statesman, apresenta tantas deficiências - de interpretação, de ligação, de raciocínio, de coerência - que o leitor que consiga chegar ao fim ficará com pouco mais do que uma sucessão de interrogações para negociar sozinho. Quão a sério devemos levar isto? Porque é que este homem não está a escrever comédia? Estaremos a lidar com um pantomineiro, alguém com genuínas lacunas educacionais ou simplesmente um virtuoso da desonestidade intelectual? Tudo questões que eu próprio ponderei enquanto abria uma garrafa de água das pedras.
Confesso que desconhecia por completo o nome do senhor (um dos novos membros da Comissão para a Igualdade e os Direitos Humanos) e durante dois dias aguardei o desmascarar de uma impostura na linha da 'Sokal hoax' dos anos 90: um agregado de clichés, insuflado com a estafada terminologia pós-colonialista, plantado numa publicação reputável com o intuito de aferir e estudar as eventuais reacções.
Infelizmente, parece que o artigo é genuíno (salvo seja). E o senhor Sardar está certamente a passar ao lado de uma grande carreira, embora assim de repente não consiga imaginar qual seja.
É difícil saber por onde começar. Por um lado, os vinte parágrafos contêm erros de raciocínio, vandalismos lógicos, analogias mutiladas e falsificações puras em número suficiente para descredibilizar quase imediatamente a sua tese central. Mas por outro, essa tese central está tão diluída no pântano falacioso do artigo, que acaba por sintetizar o antídoto contra a sua própria refutação. Resumindo, o artigo de Sardar coloca-me na desconfortável e pouco habitual posição de não saber ao certo aquilo com que estou a discordar violentamente.
Em termos muito genéricos, Sardar acusa Martin Amis, Ian McEwan e Salman Rushdie (três escritores que, convém lembrá-lo, se opuseram à intervenção no Iraque) de encabeçarem uma conspiração intelectual cuja intenção é avançar os interesses do neo-conservadorismo: «Blitcons come with a ready-made nostrum for the human condition, They use their celebrity status to advance a clear global political agenda». Não contente com essa lunática, e enfaticamente não demonstrada, asserção, reduz depois toda a obra de Saul Bellow - uma das mais generosas e inclusivas que a literatura moderna nos deu - a uma mera ilustração da filosofia de Allan Bloom, e a uma incubadora de elitistas, «obsessed with the preservation of the canon».
O que é aqui ensaiado (da forma mais azelha possível) é uma reciclagem - uma actualização da terminologia "orientalista" de Edward Said, adaptada a novas circunstâncias. Mas é impossível não imaginar Said acometido de cólicas mentais quando confrontado com este amontoado de disparates. Por muito que se discorde das ideias de Said, estas eram inteligentemente defendidas, coalescendo numa teoria sólida. Já a diatribe gaguejante de Sardar assemelha-se mais a um malão de viagem comprado numa feira, no qual se tentou enfiar roupa para sete viagens diferentes. Há para ali algures uma camisa havaiana e talvez um par de galochas esburacadas, mas nada que dê para levar ao baile.

(Aprendi posteriormente que os problemas do senhor Sardar com o fantasma do "Cânone Ocidental" não são de agora: há pelo menos dois outros artigos na New Statesman em que ele se dedica a desmontar esse asqueroso panteão imaginário de "wall-to-wall white men" (no qual, estranhamente, inclui Naipaul e Jane Austen). Quanto à posição do 'obcecado' Amis, podemos encontrá-la neste excerto da introdução a The War Against Cliché: «In the long term, literature will resist levelling and revert to hierarchy. This isn't the decision of some snob of a belletrist. It is the decision of judge Time, who constantly separates those who last from those who don't.» Conversa perigosamente anti-democrática, como se vê.)

Os instantes fraudulentos são demasiados para rebater um por um. Fica aqui este, quase ao acaso, que pretende ilustrar o "preconceito Ocidental" de Ian McEwan:
«. . . we realise that Saturday really assigns a mystical dimension to western literature: the poetry of Matthew Arnold not only serves as an antidote to brutish violence, but literally saves the day at the end of the novel. As a corollary, we are forced to conclude, those who have never read War and Peace, for example, are not fully human.»
O que somos forçados a concluir é que a educação do senhor Sardar foi um grande desperdício de tempo e, no processo de distribuição das culpas, não será de todo descabido ter uma palavrinha com os seus antigos professores e perguntar-lhes porque é que ele não foi, sei lá, açoitado mais vezes.
O salto lógico entre o último capítulo de Saturday e a conclusão que Sardar tira ("those who have not read War and Peace, for example, are not fully human") é típico do seu processo mental: pregar dois tópicos isolados no vácuo e esperar que o leitor preencha o espaço vazio com a sua própria colecção de preconceitos. O que McEwan - um escritor com demasiadas nuances para Sardar - faz em Saturday não é traçar uma distinção entre o que é 'humano' e o que não é, ou mesmo entre 'civilização' e 'barbárie', mas sim dramatizar - nas palavras de James Wood (na New Republic), "a irrupção do irracional" na esfera privada:
«. . .this kind of terror is not opposed by fiction as such, but by a nobler version of the irrational -- by poetry, by song, by music, and by love. Earlier in the book, Perowne attended his son's band's rehearsal, and while the glorious blues sang out, he reflected on music's implicit utopianism -- a collaboration, "an impossible world in which you give everything you have to others, but lose nothing of yourself". (. . .) It is not fiction, then, with its habitual coincidences and unnatural encounters -- of which this book has its fill -- but the ungraspable communion of music that might be "set against the hatred of their murderers." Against a dark irrationality can perhaps be posed the enlightened irrationality of music's fleeting utopia. . .»
Este impulso didáctico numa obra de ficção pode ser debatido de mil e uma maneiras diferentes, mas tentar inclui-lo, como Sardar faz, num inexistente projecto literário neo-conservador, é extravasar os limites do comentário sério e penetrar, com exuberante alacridade, nos domínios da propaganda.

Mas é Domingo e os passarinhos espirram no jardim. Há futebol na televisão, há belas pistas de cavalos que abrem ao meio-dia e nunca fecham, há metade de um livro de Pynchon para ler até ao Natal.
O que não há é espaço para os delírios paranóicos dos outros; os meus chegam.

P.S.: Dito isto, vou esperar com ansiedade pela inevitável resposta de Christopher Hitchens, cuja truculência, apesar de previsível, é invariavelmente divertida nestas situações.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

O Homem Invisível defende McEwan


(No Daily Telegraph. E já agora, se eu tivesse uma libra por cada vez que as palavras 'Pynchon' e 'recluso' aparecem juntas no mesmo artigo, seria onze mil libras mais rico.)

terça-feira, dezembro 05, 2006

Não estive na Aula Magna no Domingo, mas é como se tivesse estado



Que o totoloto saia muitas vezes seguidas a quem escreve assim sobre os Yo La Tengo.
Ouçam o «From a Motel 6» e digam lá se o senhor não tem carradas de razão.


(Actualização:
Fixemo-nos no essencial e não nas decorações.
Nada do que está escrito nos primeiros 2 1/2 parágrafos (aos quais, sabiamente, eu restringi a
citação) pode ser rebatido com boa-fé. Bach fez algumas coisas com piada (Wachet Auf, por exemplo, que Pynchon descreveu como "the best tune ever to come out of Europe") mas não era propriamente coast to coast.
Quanto ao resto, como se pode ler no sempre surpreendente Christianity Today,
a culpa (indirecta) é do Lester Bangs. E estejam à vontade os que desejem atirar as primeiras pedras; eu, com os telhados de vidro que fui acumulando sempre que falei ou escrevi sobre os Velvet Underground, o Dylan ou os Yo La Tengo, vou continuar a aplaudir tranquilamente as adrenalinas pós-concerto e a tolerar ocasionais fingerjobs.

P.S.:
"... a melhor voz de Portugal é a do Paulo de Carvalho (elementar)...."? É possível. Um relatador mexicano não o diria melhor.)

sábado, dezembro 02, 2006

. . .forty feet above. . .


«'Fax's brother Cragmont had run away with a trapeze girl, then brought her back to New York to get married, the wedding being actually performed on trapezes, groom and best man, dressed in tails and silk opera hats held on with elastic, swinging upside down by their knees in perfect synchrony across the perilous aether to meet the bride and her father, a carnival "jointee" or concessionaire, in matched excursion from their own side of the ring, bridesmaids observed at every hand up twirling by their chins in billows of spangling, forty feet above the faces of the guests, feathers dyed a deep acid green sweeping and stirring the cigar smoke rising from the crowd.
Cragmont Vibe was but thirteen that circus summer he became a husband and began what would become, even for the day, an enormous family.»

(Thomas Pynchon, Against the Day)

Bucelas e Dão

Na página 168 de Against the Day, uma dos personagens passa uma semana em Lourenço Marques e refere-se ao vinho disponível no mercado colonial como «the rotgut rejectamenta of Bucelas and Dão».
É em momentos como este - e momentos como este são frequentes - que se insinua na mente predisposta a tais insinuações a possibilidade de Pynchon ter, não lido a totalidade da última edição da Encyclopaedia Britannica, mas sim escrito a totalidade da última edição da Encyclopaedia Britannica, possivelmente nas horas vagas entre outros projectos mais árduos.

(Nota: depois de alguns solavancos iniciais que agora admito poderem ter sido sintomas de nada mais que hipocondria do leitor, os vários enredos começam a ganhar momentum a partir da primeira centena de páginas. As reticências regressam; as longas enumerações também; e regressa o talento inqualificável responsável pelas melhores páginas de Gravity's Rainbow.
O livro é embaraçosamente bom.)

quinta-feira, novembro 30, 2006

Better things for better living through Pynchon


Miscelânea:

. página 87: «. . . 'Answering the question: how can anyone set off a bomb that will take innocent lives?' ' Long fuse!' someone hollered helpfully.»

. não há quaisquer indícios de que o maradona leia Pynchon ou compreenda a beleza demente de Matt Le Tissier; mas parece que gosta de Swift, e que também não dorme, portanto não há crise;

. Sir John Leslie era um físico escocês, um dos muitos que postulou a existência de uma terra oca e habitada, iluminada por dois sóis - Pluto e Proserpine;

. página 219: «. . . the True Worshippers of the Ineffable Tetractys (T.W.I.T.) were headquarted in London, at Chunxton Crescent, in that ambiguous stretch north of Hyde Park known then as Tyburnia. . .» O tetractys é uma figura triangular que consiste em dez pontos dispostos em quatro filas. O ritual de iniciação na religião secreta dos Pitagóricos incluia uma oração dirigida ao tetractys. A forma está presente no brasão de armas dos arcebispos Católicos. Como se isso não bastasse, é também uma forma poética.

. Michiko 'pretentious without being provocative' Kakutani e Adam 'sterile in his virtuosity' Kirsch, habilmente desmantelados no Elegant Variation;

. no cada vez mais interessante blog As Aranhas, põe-se a hipótese de «Dying on the Vine» ser a melhor canção do século XX; há dias em que concordo, há dias em que discordo, mas nesta era de turbulentas mudanças de paradigma, parece-me uma opinião bastante saudável (Pynchon também é fã de John Cale, daí a inclusão neste post);

. o post mais pynchoniano da blogosfera portuguesa foi escrito no dia vinte de Maio do ano 2004, às 22:26h.

segunda-feira, novembro 27, 2006

Walk like a Pynchonian


O meu exemplar de Against the Day pesa um quilo, quatrocentos e vinte e dois gramas.
Com os paperpacks de V., The Crying of Lot 49, Gravity's Rainbow (cópia de substituição) e Slow Learner, mais a edição hardcover de Mason & Dixon, o Gravity's Rainbow Companion de Steve Weisenburger, e uma indispensável enciclopédia de bolso, a agulha chega aos cinco quilos e duzentos.
É uma verdade, daquelas com V maiúsculo, que saír de casa, nem que seja para um passeio de meia-hora, sem qualquer um destes títulos, é um risco que só os mais desencantados e/ou cínicos estão dispostos a correr. Os mais atilados sabem que muita coisa pode acontecer em trinta minutos, que os planos mais estanques estão sujeitos a bruscas ultrapassagens, que as circunstâncias do regresso a casa são sempre uma incógnita, e que todas as trepidações do improvável serão mais facilmente negociáveis se estivermos munidos de roupa interior lavada, alguns trocos na carteira, e de toda a obra de Pynchon.
O dilema que isto representa para os que gostam de fazer as coisas como elas devem ser feitas (e aos quais se impõem imediatas considerações sobre a postura em público, e a saúde das nossas vértebras, entre outras) é um dilema sério, e o Pastoral Portuguesa deixa aqui algumas sugestões que se espera venham a contribuir para a sua resolução:

1. os ginásios urbanos são palcos de frequentes maravilhas. Os equipamentos representam o último grito, pleno de decibéis, da Ciência moderna, colocada ao serviço dos bíceps e dos deltóides. Os monitores são submetidos a rigorosos processos de selecção, que chegam a durar meses. Tudo o que é preciso é um pouco de força de vontade, e um mínimo de seis horas semanais;

2. no site da empresa Manutan podem encomendar-se carrinhos de mão, disponíveis em vários modelos e tamanhos, a partir da módica quantia de 78,00 €. A entrega é gratuita em Portugal Continental;

3. reza a lenda (através dos lábios pouco dados a rezas de Gore Vidal) que o grande Santayana tinha por hábito separar as folhas dos livros, capítulo a capítulo, das suas respectivas encadernações. O método, um aparente sacrilégio para bibliófilo, revela-se, após uma análise mais fria, logisticamente são. Não vou tentar enganar ninguém, apresentando aqui resultados de testes não-efectuados, mas estou certo de que, livres das lombadas, das margens exageradas, e da cola industrial, o peso do nosso cânone portátil seria possivelmente reduzido em 30%. As acrescidas dificuldades de manuseamento e transporte seriam, creio, facilmente ultrapassadas, desde que resistíssemos à tentação de espalhar pelo Mundo aviõezinhos de papel com equações nas asas.

domingo, novembro 26, 2006

. . .Ellipsis. . .

Há sinais de pontuação que, no meu entender, pertencem a determinados escritores. O uso que lhes deram - por ter sido revolucionário ou simplesmente exaustivo - devia consagrar-lhes o direito a um ™/© nos compêndios. Duvido, por exemplo, que alguém tenha utilizado a vírgula como Henry James, ou o ponto e vírgula como Virginia Woolf. E Philip Roth parece-me o único autor contemporâneo a perceber para que serve, e como se usa, um ponto de exlamação. Sem esquecer Nabokov, que tinha o hábito enternecedor de atordoar com "aspas" as palavras mais inofensivas.
E as desgraçadas reticências, quem as redime, quem lhes acode?
Sempre foram as triplas ovelhinhas negras da Literatura. E na era do e-mail e do sms, nenhum sinal de pontuação sofreu tantos abusos como a sequência de três pontos - tragicamente despromovida a uma delegação de responsabilidade cognitiva ou, no seu pior, a um mero desvelo de brejeirice, um wink wink, nudge nudge, com ainda menos subtileza.
Um dos efeitos secundários da escrita de Thomas Pynchon tem sido uma reabilitação sistemática e gradual das reticências. Praticamente sozinho, ele resgatou-as ao domínio da indeterminação empírica, usando-as para sinalizar mudanças de foco narrativo, ou tornando-as agentes catalizadores daqueles desvios temporais, grávidos de significado, em que sua ficção é pródiga; dotando-as, em última instância, de faculdades mais consentâneas com a sua designação em inglês, ellipsis, termo com uma ambiguidade diferente da sugerida pela língua portuguesa, e que evoca outra figura de retórica preferida por Pynchon.
Gravity's Rainbow sem reticências seria menos do que é. Seria como o Orlando sem semicolons; perder-se-ia não apenas o sentido de alguns parágrafos mas a própria essência da obra. (Esta afirmação exigia ser validada com algumas citações, mas o meu exemplar de Gravity's Rainbow foi vítima de um recente pedido de empréstimo e temo não o voltar a ver. E "citar de memória" neste blog é uma piada de mau gosto).

Depois de tudo isto, é com algum pesar que revelo um notório défice de reticências nas primeiras páginas de Against the Day. Se o facto indicia um maior auto-domínio formal ou, pelo contrário, uma redução do ângulo de visão, isso terão de ser as restantes oitocentas páginas a confirmar.
Mas continua a ser muito complicado não amar um escritor que compara nuvens de tempestade a pedras derretidas esvaindo-se em colunas de luz, no mesmo capítulo em que nos presenteia com a imagem de um embriagado Arquiduque Francisco Fernando fugindo de um bar em Chicago, perseguido por uma turba furiosa.

sexta-feira, novembro 24, 2006

Light à la mode

«. . .Some claimed that light had a consciousness and personality and could even be chatted with, often revealing its deeper secrets to those who approached it in the right way. Groups (...) could be observed in Monumental Park at sunrise, sitting in the dew in uncomfortable positions, their lips moving inaudibly. There were diet faddists who styled themselves Lightarians, living on nothing but light, even setting up labs they thought of as kitchens and concocting meals from light recipes, fried light, fricaseed light, light à la mode, calling for different types of lamp filament and colors of glass envelope, the Edison lamp being brand new in those days but certainly not the only design under study. There were light addicts who around sunset began to sweat and itch and seclude themselves in toilets with portable electric lanterns. Some spent most of their time at telegraph offices squinting at long scrolls of mysteriously arrived "weather reports" about weather not in the atmosphere but in the luminiferous Aether. . .»

(Thomas Pynchon, Against the Day)