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terça-feira, maio 06, 2008

Bosco


Não vejo hipótese de alguém acreditar nisto (a não ser a minha mãe, que já sabe as despesas da casa), mas a verdade é que andei desde o fim-de-semana sem me lembrar da password do blogue. Durante noventa e seis escleróticas horas, a palavra não vinha. Partindo do sensato princípio que a minha alma não tem grandes profundezas, decidi que seria mais produtivo tentar adivinhar a password em vez de a recordar. Encarando assim o problema como um puzzle policial, reli algumas brilhantes deduções de Sherlock Holmes, Auguste Dupin, e do Pedro da série Uma Aventura. Concluí que a melhor forma de adivinhar uma password alheia é tentar pensar como a pessoa em questão. Dediquei-me, portanto, a tentar pensar como eu próprio, exercício que não recomendo a ninguém. O que é que me teria passado pela encriptante cabeça na altura do registo? Sporting? Pynchon? Um anagrama? Para grande espanto meu, escolhi uma solução pós-moderna e utilizei um termo já existente no zeitgeist como password: o seinfeldiano "Bosco", hoje substituído, ao fim de quase dois anos de competente serviço, pelo nome completo de um jogador de futebol tão obscuro que o próprio Luis Freitas Lobo teria dificuldade em balbuciar as suas estatísticas completas.

domingo, fevereiro 24, 2008

Coisas que só acontecem aos outros

«Punter wins £1m for 50p horse bet: A punter in North Yorkshire has become the first betting shop millionaire after he placed a 50p bet on eight horses with odds of two million to one.
(...)
The punter discovered he had won at 1200 GMT on Saturday when he went into another William Hill branch in Bedale, 15 miles (24km) away from the branch where he placed his 50p bet.
Graham Sharpe from the bookmakers said: "He placed five more 50p bets for Saturday's racing, then asked staff to check his betting slip from the day before.
"When they told him he had £1m to come but would have to collect it from the Thirsk shop, he went visibly pale before saying that he would have to go and tell his wife."»


(BBC)

Não sei se estão bem a ver a coisa: ele acertou nos vencedores de OITO corridas consecutivas (as acumuladas deste tipo nem sequer permitem "each-way bets"). Apenas dois dos cavalos que escolheu estavam entre os três favoritos para as respectivas corridas; um deles estava a 9 para 1, outro a 10 para 1. A notícia da BBC fala em probabilidades de 2000000/1, mas acho que anda mais perto das 2750000/1.
Pelos meus cálculos, são mais ou menos as mesmas probabilidades de eu acordar amanhã cedo e encontrar o Thomas Pynchon a varrer-me o quintal.

(Trágico fragmento autobiográfico: há cinco anos atrás, só não ganhei noventa mil libras numa acumulada por causa do Ricardo, na altura guarda-redes do Boavista. Acertei nos resultados de dezassete jogos das competições europeias e do campeonato escocês. O décimo-oitavo era o Boavista-Málaga, para a Taça Uefa. Tinha apostado num empate, e consequente eliminação do Boavista. O jogo foi para penalties, o Ricardo marcou um, defendeu outro, o Boavista passou, e eu tive de substituir todo o mobiliário que danifiquei nessa noite. 18 de Março de 2003: ainda tenho o talão da William Hill.
Hoje já estou muito melhor, mas durante anos não conseguia sequer dizer o nome do homem sem me começar a latejar a pálpebra direita.)

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

E nem sequer é um dos argumentistas em greve

Por causa da minha extraordinária geekiness (fiz parte, em tempos longínquos, da mailing-list de uma Pynchon Society...) fiquei mais ou menos amigo de um americano de Miami, com quem troco e-mails regularmente. Na semana passada perguntei-lhe se tinha votado nas primárias da Florida (ele está registado como Republicano); resposta dele, recebida há minutos:

«Sure I did. Five times.»

terça-feira, fevereiro 05, 2008

Uma semicolonoscopia ao Orlando

Chamo a vossa atenção, denisdutonicamente, para este artigo do Financial Times, um perfilzinho de James Wood (continuem a ler, se faz favor: o resto do post não tem nada a ver com o James Wood). Depois de um interessante desabafo sobre o rigor totalitário dos célebres fact-checkers da New Yorker, James Wood (última menção, juro) faz a seguinte confissão: «"I love semi-colons," he says with all the enthusiasm of a 10-year-old talking about chocolate.».
Isto deixou-me contentíssimo. Como tantas outras pessoas espalhadas por esse planeta fora, eu passo grande parte do meu tempo livre a fantasiar sobre o ponto e vírgula, e é sempre bom encontrar camaradas para o swing platónico. O ponto e vírgula é, com uma considerável vantagem sobre a concorrência, o meu sinal de pontuação favorito. Aliás, se fosse forçado a escolher entre o ponto e vírgula e os chocolates da Lindt, a decisão nem sequer seria problemática.
(E não é nada fácil de manusear, o ponto e vírgula; eu, por exemplo, nunca aprendi a fazê-lo; o que não me impede de continuar; a tentar).
Como qualquer alvo de obsessões, o ponto e vírgula tem a sua entourage, os seus cínicos detractores, e a sua biografia recheada de altos e baixos. A tragédia é concisamente relatada no canónico "The Rise and Fall of the Semicolon: English Punctuation Theory and English Teaching" de Paul Bruthiaux (disponível aqui, em ficheiro .pdf), onde aprendemos, por exemplo, que « . . . the popularity of the semicolon itself appears to have peaked in the eighteenth century, and its demise in the nineteenth century was almost as sudden and overwhelming as its rise to stardom had been two centuries earlier».
Para que serve, então, o ponto e vírgula no século XXI? As opiniões divergem. Donald Barthelme dizia que o ponto e vírgula é tão feio "como uma carraça na barriga de um cão". Lynne Truss, no seu divertido bestseller, alerta que o ponto e vírgula pode ser "perigosamente viciante", devendo ser usado com parcimónia, um pouco como uma carga policial, sempre que haja conflito entre vírgulas desordeiras. No meu caso específico, e isto fica só entre nós, o ponto e vírgula cumpre o mesmo propósito do par de tracinhos, ou da gaiola de parênteses: ostraciza por convenção o que eu não consegui conciliar por talento, e legitima graficamente o progresso soluçante daquilo que passa por raciocínio neste crânio fatigado. (Eu durmo muito pouco; é um problema sério).

Mas concentremo-nos antes em quem o utiliza com brio. Como é sabido por todas as pessoas que já tiveram o prazer de me aturar com uns copos a mais, cada sinal de pontuação tem o seu campeão literário. A vírgula tem Henry James, o ponto de exclamação tem Philip Roth, as reticências têm Thomas Pynchon, o ponto final tem Pedro Lomba Hemingway, e por aí fora. (Um dia desenvolvo isto melhor). O ponto e vírgula, apesar de quatrocentos anos de flirts, engates e rapidinhas mais ou menos efectivas, só foi competentemente aviado por Virginia Woolf.
Para todos os admiradores do ponto e vírgula, o Orlando é um espectáculo quase pornográfico (e não apenas por ser o único clássico da literatura universal com nome de chulo algarvio): não há parágrafo que não coreografe duas, três, cinco dessas híbridas e adoráveis criaturas em kamasutricas acrobacias. Uma pessoa pode passar uma vida inteira a treinar-se no uso do ponto e vírgula para chegar ao Orlando e desfalecer de incompreensão. Eu sabia que se podia fazer isto a um ponto e vírgula; mas aquilo? É transtornante. O parágrafo seguinte, extraído ao segundo capítulo, está amparado por duplos e triplos sublinhados no meu exemplar, com uma trémula notinha na margem sugerindo humildemente "esta gaja passou-se":

«He now commissioned Mr Isham of Norfolk to deliver to Mr Nicholas Greene of Clifford’s Inn a document which set forth Orlando’s admiration for his works (for Nick Greene was a very famous writer at that time) and his desire to make his acquaintance; which he scarcely dared ask; for he had nothing to offer in return; but if Mr Nicholas Greene would condescend to visit him, a coach and four would be at the corner of Fetter Lane at whatever hour Mr Greene chose to appoint, and bring him safely to Orlando’s house. One may fill up the phrases which then followed; and figure Orlando’s delight when, in no long time, Mr Greene signified his acceptance of the Noble Lord’s invitation; took his place in the coach and was set down in the hall to the south of the main building punctually at seven o’clock on Monday, April the twenty–first.»

Parece-me por esta altura incontroverso que Virginia Woolf era completamente maluca no que diz respeito ao ponto e virgula. E como aquelas almas sôfregas que gostam tanto de marmelada que acabam por sublimar a sua pulsão num desenfreio fetichista, Virginia não traduziu o seu arrebatamento gráfico na delicadeza do gourmet. The lady liked it rough; a sua pontuação vem coradinha e ensopada em suor, como uma empregada doméstica num filme de Tinto Brass. O Orlando deve ter mais ponto e vírgulas por centímetro quadrado do que qualquer outra obra literária, mas ao iniciado só vai trazer um perplexo e transpirado desalento.
A melhor defesa do ponto e vírgula terá forçosamente de ser uma defesa utilitarista, e começar por estabelecer que, nas mãos certas, o ponto e vírgula reduz o trabalho de sapa do leitor. A mais lúcida argumentação nesse sentido foi feita por Henry W. Fowler, no clássico The King's English.
Para Fowler, a pontuação era um problema moral: «Any one who finds himself putting down several commas close to one another should reflect that he is making himself disagreeable, and question his conscience, as severely as we ought to do about disagreeable conduct in real life, whether it is necessary.»
Qualquer um dos quatro sinais de pontuação que denotam uma pausa (a vírgula, o ponto e vírgula, os dois pontos e o ponto final) difere dos outros quantitativamente. Todos estabelecem graus distintos de separação temporal, cujo valor é relativo e nunca absoluto. Cada sinal de pausa cumpre uma dupla função: lógica e retórica. A função lógica é clarificar as relações gramaticais entre os componentes da frase; a retórica está relacionada com questões de tom, ênfase e gestão rítmica. O trabalho do escritor deve então ser um trabalho diplomático, regulando as dependências entre orações, e adjudicando a sua importância relativa.
A tendência geral da literatura moderna tem sido para uma progressiva erradicação do ponto e vírgula. A esmagadora maioria dos escritores rege-se pelo que Fowler, com o seu inigualável talento classificativo, chama de "spot-plague principle": nunca usar outro sinal quando o ponto final serve. Isto, para Fowler, é moralmente catastrófico. Ele sugere antes o princípio do agrupamento, argumentando que «a style that groups several complete sentences together, by the use of semicolons, because they are more closely connected in thought, is far more restful and easy - for the reader, that is - than the style that leaves him to do the grouping for himself».
Virginia Woolf, como é hiperbolicamente claro para todos, seguiu uma terceira via: fetichizou o ponto e vírgula, e usou-o não para benefício do leitor, mas porque lhe dava na real gana. Estes modernistas; francamente; não respeitavam ninguém.
Encontrado o imprescindível ponto de equilíbrio entre o entusiasmo e a anarquia, é possível fazer disto um instrumento formidável. Dar-me-ia um enorme prazer se a malta (começando por mim) passasse a tratar melhor este belo sinalito;.

(Rapida, superflua, mas seriamente: entre os bloguers que leio, os que melhor utilizam o ponto e vírgula são o Ivan Nunes, o Mexia e o maradona. Este último, aliás, tem lá uma utilização exemplar da combinação "ponto e vírgula/dois pontos", por enquanto não-apagada, mas que merece ser aqui resgatada à efemeridade:
Não insinuo que o Henrique Raposo mereça as mesmas vilanias que a minha espectacular pessoa; com alguma arrogância, arrisco apenas que, em certo e muito restrito sentido (que espero, tantos posts depois, já evidente para todos), o Henrique Raposo exista neste mundo como se fosse a minha alma gémea do irmão que nunca tive (muito embora eu não possa ser considerado, tecnicamente, um anão): um gajo que, se fosse primeiro-ministro, nada disto acontecia.
Garanto-vos que, se virasse o olho cego à gramática, o Fowler aprovaria.)

quarta-feira, abril 25, 2007

É preciso usar sempre dupla precaução com estes cavalos irlandeses

Até aos 11/12 anos dividia os feriados em dois tipos: aqueles em que recebia prenda, e os outros. Depois cresci, ganhando algumas noções, assimilando alguns fundamentos, passando a dividir os feriados em dois tipos: aqueles em que não tinha de ir à escola, e os outros. Até que um longo processo de amadurecimento físico e intelectual me transformou neste homenzinho que hoje vos escreve, e cheguei ao sistema que me parece mais apropriado, que é o de dividir os feriados em dois tipos: aqueles em que as pistas permanecem abertas e os outros. Estou portanto em condições de assegurar que entre as variadíssimas e benéficas conquistas de Abril não se conta a capacidade de influenciar provas de barreiras efectuadas três décadas mais tarde, no recinto de Worcester. O pobre cavalinho tinha o nome de Polonius, e to his own self was true, espatifando-se ao tentar ultrapassar a sétima sebe, deixando o caminho da vitória aberto ao jockey Howie Ephgrave, que, não contente com os desafios do dia-a-dia certamente colocados pelo diminutivo 'Howie', tem o hábito de se passear pelos hipódromos do Reino com um medúseo chapéu cor de alcachofra.

(A deriva deste blogue para o comentário político, tendo acontecido apenas na sub-cave do Blogger, poderá não ter sido aparente para mais ninguém, mas mergulhou o autor num charco de consternação, entretando drenado por uma implacável purga interna que eliminou todos os drafts sobre "actualidades". Para evitar vergonhas futuras, o Pastoral Portuguesa passará a aplicar a seguinte 'regra de polegar' a todos os posts em estado embrionário: se o assunto for comentado no Blasfémias num prazo útil de três dias, não será comentado aqui. O que pode levantar toda uma nova série de problemas. Nomeadamente se o João Miranda começar a ler Pynchon e a apostar nos cavalos.)

sexta-feira, abril 06, 2007

My Life as a Fake


A sensação é discreta, mas inconfundível: Martin Amis definiu-a como uma "certeza resignada". Falo daquele furtivo formigueiro cerebral que se instala quando começamos a ler um autor que rapidamente nos impõe a sua indispensabilidade. O cânonezinho portátil que tenho na cabeça foi sendo formado assim: Pynchon, Bellow, Roth, Norman Rush, Henry James, Sterne, Barthelme, Nabokov... com todos eles bastou uma dúzia de páginas para perceber que teria eventualmente de ler tudo aquilo que escreveram - incluindo listas de compras, postais de Natal, receitas de cozinha e testamentos.
My Life as a Fake é o primeiro livro de Carey que leio. Mas já estou a lançar olhares nervosos ao extracto bancário (o meu, não o dele, que, tanto quanto sei, ainda não foi publicado).

quarta-feira, março 14, 2007

Lista feita por pessoas que leram os mesmos livros que eu

33 Names of Things You Never Knew had Names.

(A verdade é que se aprende a nº1 em Underworld, de Don DeLillo, a nº4 em V., de Thomas Pynchon, a nº16 em Giles Goat-Boy, de John Barth, a nº21 em Humboldt's Gift, de Saul Bellow, a nº23 em Infinite Jest, de David Foster Wallace, a nº24 em Despair de Nabokov e a nº27 em The Mezzanine, de Nicholson Baker. Acrescentaria a palavra 'marabu', que não vinha no dicionário da Porto Editora em 1996, e que confundiu toda uma turma de leitores d' A Sibila. Curiosamente, o nome inglês para o bicho - que não passa de uma cegonha inflaccionada - serviu de título a um livro de Irvine Welsh, cujas subtis parábolas espirituais tanto evocam Agustina.
Uma lista ainda melhor pode ser encontrada aqui. Gostei muito de «Gynotikolobomassophile - One who likes to nibble on a woman's earlobes»; e também de «Peristerophobia - Fear of pigeons» e «Resistentialism - Seemingly spiteful behaviour manifested by inanimate objects». Se alguém tiver conhecimento de termos equivalentes na língua portuguesa, especialmente os dois últimos, não hesite em informar-me; nunca é cedo de mais para planear a autobiografia.)

domingo, março 04, 2007

Wood, woodpecker



James Wood leu Against the Day. É sintomático do seu modus operandi que a crítica tenha sido, entre os principais periódicos americanos, a última a aparecer.
A peça é longa e ponderada; revela a habitual atenção à linguagem, e a escolha precisa de citações (que é, ou deve ser, a principal ferramenta do crítico); e é enfaticamente negativa, o que só surpreende quem não tem acompanhado a carreira de Wood.
Se a minha nova e divertidíssima entidade patronal me conceder o tempo necessário, tentarei esta semana explicar porque continuo a considerar James Wood o arquétipo do leitor ideal, apesar das ocasionais imbecilidades que pontuam o texto sobre Pynchon. Tentarei explicar porque é que o seu recente e desconcertante hábito de bicar artefactos de plástico ou cimento como se fossem de madeira não obsta a que continue a ver nele o herdeiro espiritual de V. S. Pritchett, e o melhor crítico literário contemporâneo. E tentarei explicar porque é que faria questão em lhe apertar a mão caso o encontrasse na rua, independentemente da sua vontade em ter a mão apertada.
Esclareço ainda, a propósito desta ambígua graçola, que partilho a opinião de Clive James: não creio que a crítica literária seja essencial à literatura; mas creio que ambas são essenciais à Civilização. A Era de Ouro pode ter acabado, e sacerdotes estéticos como Eliot ou Leavis podem ser irrepetíveis, mas acho que a crítica literária actual está bem e recomenda-se, particularmente a de pendor não-académico (a que prefiro), e anglófona (a que conheço melhor). Para além de James Wood, destaco Louis Menand (da New Yorker), John Leonard (Harper's e The Nation), Daniel Mendelsohn (NYRB), e também três escritores talvez mais conhecidos como ficcionistas, mas cujos ensaios me parecem indiscutivelmente superiores aos seus desiguais romances: Martin Amis, John Updike e Cynthia Ozick.
Nestas mãos atentas e carinhosas, a Crítica Literária poderá sempre aconchegar-se despreocupadamente; a sua saúde não corre perigo.

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Publicidade


É a segunda vez em menos de uma semana que a distância me impede de cumprir um dever de cidadania. Para vocês, os do lado de lá, não há desculpas. Se acham que têm melhores coisas a fazer numa sexta-feira à noite, estão redondamente enganados. Eu já me informei: o Sporting só joga amanhã, o último livro do Pynchon ainda não chegou aos escaparates lusos, e a vossa vida sexual, francamente, já conheceu melhores dias. Vão ficar em casa a fazer o quê?
Vão antes a Santos ver um concerto, onde, por um preço antediluviano, terão acesso a exorbitantes recompensas sonoras.

(Full disclosure: eu não conheço esta malta de lado nenhum, nem estou a ser pago pela publicidade. O que acontece é que, aqui há uns anos, na minha idealista e empreendedora adolescência, escrevi um panfleto em dez bullet-points, subordinado ao tema «O que Portugal precisa». O ponto 7 era precisamente, e passo a citar: "Portugal precisa de mais bandas de panque medieval, formadas por gajos Protestantes da bacia do Tejo".
Seria portanto de uma oleosa hipocrisia vir agora fingir indiferença perante tamanho obséquio do Acaso.
E não se iludam: isto é apenas o começo. O país Casanova já só está a nove tópicos de distância.)

domingo, janeiro 21, 2007

Pynchon & Jazz

Seguindo o exemplo de livros anteriores, Against the Day volta a fetichizar a anarquia organizada da música e da dança como uma arma contra a Ordem conspiratória dos Eleitos, e um antídoto contra a inevitabilidade da entropia. Um fetiche de longa duração:

V. (1963)

« 'Crazy', said McClintic... But one thing that did occur to him was if a computer's brain could go flip and flop, why so could a musician's. As long as you were flop, everything was cool. But where did the trigger-pulse come from to make you flip? (...) What happened after the war? That war, the world flipped. But come '45, and they flopped. Here in the jazz bars of Harlem they flopped. Everything got cool. . .»


The Crying of Lot 49 (1967)

«Each couple on the floor danced whatever was in the fellow's head: tango, two-step, bossa nova, slop. But how long, Oedipa thought, could it go on before collisions became a serious hindrance? There would have to be collisions. The only alternative was some unthinkable order of music, many rhythms, all keys at once, a choreography in which each couple meshed easy, predestined. (...) She was danced for half an hour before, by mysterious consensus, everybody took a break, without having felt any touch but the touch of her partner . . . an anarchist miracle.»


Mason & Dixon (1997)

« "'Tis ever the sign of Revolutionary times, that Street-Airs become Hymns, and Roist'ring-Songs Anthems,-- just as Plato fear'd,-- hast heard the Negro Musick, the flatted Fifths, the vocal portamenti,-- 'tis there sings your Revolution. These late ten American years were but Slaughter of this sort and that. Now begins your true Inversion of the World."
"Don't know, Coz. Much of your Faith seems invested in the novel Musick,--"
"Where better?" »



Against the Day (2006)

«"... I’ve noticed the same thing when your band plays — the most amazing social coherence, as if you all shared the same brain."
"Sure," agreed ‘Dope’, "but you can’t call that organization."
"What do you call it?"
"Jazz."»

domingo, janeiro 14, 2007

Anarchist's Golf


«The next day Reef, Cyprian and Ratty were out in the Anarchist's golf course, during a round of Anarchist's Golf, a craze currently sweeping the civilized world, in which there was no fixed sequence - in fact, no fixed number - of holes, with distance flexible as well, some holes being only putter-distance apart, others uncounted hundreds of yards and requiring a map and compass to locate. Many players had been known to come there at night and dig new ones. Parties were likely to ask, "Do you mind if we don't play through?" then just go and whack balls at any time and in any direction they liked. Folks were constantly being beaned by approach shots barreling in from unexpected quarters. "This is kind of fun," Reef said, as an ancient brambled guttie went whizzing by, centimeters from his ear.»

(Thomas Pynchon, Against the Day)

sexta-feira, janeiro 05, 2007

The noted troublemaker Al-Mar-Fuad


«One day the noted Uyghur troublemaker Al-Mar-Fuad showed up in English hunting tweeds and a deerstalker cap turned sidewise, with a sort of ultimatum in which one might just detect that difficulty with the prevocalic 'r' typical of the British upper class. "Gweetings, gentlemen, on this Glowious Twelfth!"»

(Thomas Pynchon, Against the Day)

...the angel, if not of death at least of deep shit...


« . . .Life in Göttingen appeared to proceed on its blade-twinkling way, wheelfolks on brandnew bikes crashing into each other or careering out of control and scattering pedestrians, beer-drinkers quarreling and bowing, preoccupied Zetamaniacs forever on the verge of walking off the edge of the Promenade being rescued by companions, a town he had never loved all at once become a place, now he was obliged, it seemed, to live it, whose most quotidian detail shone with a clarity almost painful, already a place of exile's memory and not returning, and here just to make that official was the angel, if not of death at least of deep shit, and nobody else seemed to notice. . . »

(Thomas Pynchon, Against the Day)

sábado, dezembro 30, 2006

Hotel Noctámbulo



«He found a ramshackle old hotel a block square, the Hotel Noctámbulo, where insomnia prevailed. In each room, somebody was staying up working at some impossible midnight project - a mad inventor, a gambler with a system, a preacher with an only partly-communicable vision. Doors were left unlocked, strangers acted for the most part like neighbors, everybody free to roam each others' units.»

(Thomas Pynchon, Against the Day)

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Nathanael West

No mesmo fim-de-semana, em 1940, morreram dois dos grandes escritores americanos do século XX. No dia 21 de Dezembro, F. Scott Fitzgerald sucumbia a uma sucessão de ataques cardíacos. No dia seguinte, devastado com a notícia, o seu amigo e parceiro no charco de Holywood, Nathanael West (que era um péssimo condutor nas melhores circunstâncias), passou um sinal vermelho e embateu de frente noutro automóvel. Teve morte imediata. O autor de O Grande Gatsby, apesar dos altos e baixos da sua carreira, era já uma figura respeitada; teve direito a louvores de primeira página, e a um funeral enfeitado com os piadismos monossilábicos de Dorothy Parker. Já o obituário de West apareceu apenas na secção de cinema do NY Times; escreveram-lhe o nome ao contrário e atribuíram-lhe uma bibliografia pejada de incorrecções.
Os títulos dos seus romances são: The Dream Life of Balso Snell, Miss Lonelyhearts, A Cool Million e The Day of the Locust. Há uma edição muito boa da Picador que inclui os quatro. A contracapa inclui o lugar-comum da praxe: West "traçava panoramas satíricos da América" ou coisa parecida, o que, diga-se, não é totalmente descabido. O conjunto da sua obra é o que a literatura americana teve de mais parecido - em espírito e execução - com um Almas Mortas. Mais honesta, contudo, seria uma frase deste género: «West escreveu sobre o Inferno. Por conveniência, deu-lhe o nome de Los Angeles e povoou essa topografia com pintores frustrados, editores cínicos e actrizes desempregadas, mas o fedor a enxofre é inconfundível.» Como os melhores escritores, limitou-se a "traçar panoramas" do interior da sua cabeça e dos fantasmas que lá uivavam. A sua tentacular influência nota-se em Burroughs, em Ballard, em Pynchon, em DeLillo.

Na sua juventude, Nathanael West devorava literatura russa, tendo treinado um bull terrier para morder qualquer pessoa que o interrompesse quando tinha um livro na mão. Um esquema semelhante para a leitura da sua obra não é de todo desaconselhável.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

. . .a byword of emotional volatility throughout the Subdesertine Service. . .


«It had been a particular liberty weekend in Nuovo Rialto. The ship happened to to have tied up at a quay belonging to an aryq shipper, along which many sailor were discovered each morning semi-paralyzed, having got no further in their pursuit of recreation, their Hypop units humming on in Dormant mode. A number of the crew reported being waylaid by sand-fleas, the queues at sick bay each morning running down passageways and ladders well into the Viscosity spaces. Some, apparently having enjoyed the accostments, didn't report them at all. The quarterdeck witnessed scenes of vituperation, smuggling attempts failed and successful, romantic melodrama as the more adventurous crew members discovered the complex allure of Veneto-Uyghur women, who were a byword of emotional volatility throughout the Subdesertine Service. When the time came at last to single up all the lines, some 2 percent of the crew, about average as these things went, had announced plans to stay behind and get married. Captain Toadflax took this with the equanamity of a long-time tropper in the region, figuring he'd get most of them back when he came through town again at the end of the cruise. "Marriage or under-sand duty," shaking his head at some cosmic sadness. "What a choice" . . .»

(Thomas Pynchon, Against the Day)

domingo, dezembro 10, 2006

Welcome to Planet Sardar

Este lamentável artigo de Ziauddin Sardar, no último número da New Statesman, apresenta tantas deficiências - de interpretação, de ligação, de raciocínio, de coerência - que o leitor que consiga chegar ao fim ficará com pouco mais do que uma sucessão de interrogações para negociar sozinho. Quão a sério devemos levar isto? Porque é que este homem não está a escrever comédia? Estaremos a lidar com um pantomineiro, alguém com genuínas lacunas educacionais ou simplesmente um virtuoso da desonestidade intelectual? Tudo questões que eu próprio ponderei enquanto abria uma garrafa de água das pedras.
Confesso que desconhecia por completo o nome do senhor (um dos novos membros da Comissão para a Igualdade e os Direitos Humanos) e durante dois dias aguardei o desmascarar de uma impostura na linha da 'Sokal hoax' dos anos 90: um agregado de clichés, insuflado com a estafada terminologia pós-colonialista, plantado numa publicação reputável com o intuito de aferir e estudar as eventuais reacções.
Infelizmente, parece que o artigo é genuíno (salvo seja). E o senhor Sardar está certamente a passar ao lado de uma grande carreira, embora assim de repente não consiga imaginar qual seja.
É difícil saber por onde começar. Por um lado, os vinte parágrafos contêm erros de raciocínio, vandalismos lógicos, analogias mutiladas e falsificações puras em número suficiente para descredibilizar quase imediatamente a sua tese central. Mas por outro, essa tese central está tão diluída no pântano falacioso do artigo, que acaba por sintetizar o antídoto contra a sua própria refutação. Resumindo, o artigo de Sardar coloca-me na desconfortável e pouco habitual posição de não saber ao certo aquilo com que estou a discordar violentamente.
Em termos muito genéricos, Sardar acusa Martin Amis, Ian McEwan e Salman Rushdie (três escritores que, convém lembrá-lo, se opuseram à intervenção no Iraque) de encabeçarem uma conspiração intelectual cuja intenção é avançar os interesses do neo-conservadorismo: «Blitcons come with a ready-made nostrum for the human condition, They use their celebrity status to advance a clear global political agenda». Não contente com essa lunática, e enfaticamente não demonstrada, asserção, reduz depois toda a obra de Saul Bellow - uma das mais generosas e inclusivas que a literatura moderna nos deu - a uma mera ilustração da filosofia de Allan Bloom, e a uma incubadora de elitistas, «obsessed with the preservation of the canon».
O que é aqui ensaiado (da forma mais azelha possível) é uma reciclagem - uma actualização da terminologia "orientalista" de Edward Said, adaptada a novas circunstâncias. Mas é impossível não imaginar Said acometido de cólicas mentais quando confrontado com este amontoado de disparates. Por muito que se discorde das ideias de Said, estas eram inteligentemente defendidas, coalescendo numa teoria sólida. Já a diatribe gaguejante de Sardar assemelha-se mais a um malão de viagem comprado numa feira, no qual se tentou enfiar roupa para sete viagens diferentes. Há para ali algures uma camisa havaiana e talvez um par de galochas esburacadas, mas nada que dê para levar ao baile.

(Aprendi posteriormente que os problemas do senhor Sardar com o fantasma do "Cânone Ocidental" não são de agora: há pelo menos dois outros artigos na New Statesman em que ele se dedica a desmontar esse asqueroso panteão imaginário de "wall-to-wall white men" (no qual, estranhamente, inclui Naipaul e Jane Austen). Quanto à posição do 'obcecado' Amis, podemos encontrá-la neste excerto da introdução a The War Against Cliché: «In the long term, literature will resist levelling and revert to hierarchy. This isn't the decision of some snob of a belletrist. It is the decision of judge Time, who constantly separates those who last from those who don't.» Conversa perigosamente anti-democrática, como se vê.)

Os instantes fraudulentos são demasiados para rebater um por um. Fica aqui este, quase ao acaso, que pretende ilustrar o "preconceito Ocidental" de Ian McEwan:
«. . . we realise that Saturday really assigns a mystical dimension to western literature: the poetry of Matthew Arnold not only serves as an antidote to brutish violence, but literally saves the day at the end of the novel. As a corollary, we are forced to conclude, those who have never read War and Peace, for example, are not fully human.»
O que somos forçados a concluir é que a educação do senhor Sardar foi um grande desperdício de tempo e, no processo de distribuição das culpas, não será de todo descabido ter uma palavrinha com os seus antigos professores e perguntar-lhes porque é que ele não foi, sei lá, açoitado mais vezes.
O salto lógico entre o último capítulo de Saturday e a conclusão que Sardar tira ("those who have not read War and Peace, for example, are not fully human") é típico do seu processo mental: pregar dois tópicos isolados no vácuo e esperar que o leitor preencha o espaço vazio com a sua própria colecção de preconceitos. O que McEwan - um escritor com demasiadas nuances para Sardar - faz em Saturday não é traçar uma distinção entre o que é 'humano' e o que não é, ou mesmo entre 'civilização' e 'barbárie', mas sim dramatizar - nas palavras de James Wood (na New Republic), "a irrupção do irracional" na esfera privada:
«. . .this kind of terror is not opposed by fiction as such, but by a nobler version of the irrational -- by poetry, by song, by music, and by love. Earlier in the book, Perowne attended his son's band's rehearsal, and while the glorious blues sang out, he reflected on music's implicit utopianism -- a collaboration, "an impossible world in which you give everything you have to others, but lose nothing of yourself". (. . .) It is not fiction, then, with its habitual coincidences and unnatural encounters -- of which this book has its fill -- but the ungraspable communion of music that might be "set against the hatred of their murderers." Against a dark irrationality can perhaps be posed the enlightened irrationality of music's fleeting utopia. . .»
Este impulso didáctico numa obra de ficção pode ser debatido de mil e uma maneiras diferentes, mas tentar inclui-lo, como Sardar faz, num inexistente projecto literário neo-conservador, é extravasar os limites do comentário sério e penetrar, com exuberante alacridade, nos domínios da propaganda.

Mas é Domingo e os passarinhos espirram no jardim. Há futebol na televisão, há belas pistas de cavalos que abrem ao meio-dia e nunca fecham, há metade de um livro de Pynchon para ler até ao Natal.
O que não há é espaço para os delírios paranóicos dos outros; os meus chegam.

P.S.: Dito isto, vou esperar com ansiedade pela inevitável resposta de Christopher Hitchens, cuja truculência, apesar de previsível, é invariavelmente divertida nestas situações.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

O Homem Invisível defende McEwan


(No Daily Telegraph. E já agora, se eu tivesse uma libra por cada vez que as palavras 'Pynchon' e 'recluso' aparecem juntas no mesmo artigo, seria onze mil libras mais rico.)

terça-feira, dezembro 05, 2006

Não estive na Aula Magna no Domingo, mas é como se tivesse estado



Que o totoloto saia muitas vezes seguidas a quem escreve assim sobre os Yo La Tengo.
Ouçam o «From a Motel 6» e digam lá se o senhor não tem carradas de razão.


(Actualização:
Fixemo-nos no essencial e não nas decorações.
Nada do que está escrito nos primeiros 2 1/2 parágrafos (aos quais, sabiamente, eu restringi a
citação) pode ser rebatido com boa-fé. Bach fez algumas coisas com piada (Wachet Auf, por exemplo, que Pynchon descreveu como "the best tune ever to come out of Europe") mas não era propriamente coast to coast.
Quanto ao resto, como se pode ler no sempre surpreendente Christianity Today,
a culpa (indirecta) é do Lester Bangs. E estejam à vontade os que desejem atirar as primeiras pedras; eu, com os telhados de vidro que fui acumulando sempre que falei ou escrevi sobre os Velvet Underground, o Dylan ou os Yo La Tengo, vou continuar a aplaudir tranquilamente as adrenalinas pós-concerto e a tolerar ocasionais fingerjobs.

P.S.:
"... a melhor voz de Portugal é a do Paulo de Carvalho (elementar)...."? É possível. Um relatador mexicano não o diria melhor.)

sábado, dezembro 02, 2006

. . .forty feet above. . .


«'Fax's brother Cragmont had run away with a trapeze girl, then brought her back to New York to get married, the wedding being actually performed on trapezes, groom and best man, dressed in tails and silk opera hats held on with elastic, swinging upside down by their knees in perfect synchrony across the perilous aether to meet the bride and her father, a carnival "jointee" or concessionaire, in matched excursion from their own side of the ring, bridesmaids observed at every hand up twirling by their chins in billows of spangling, forty feet above the faces of the guests, feathers dyed a deep acid green sweeping and stirring the cigar smoke rising from the crowd.
Cragmont Vibe was but thirteen that circus summer he became a husband and began what would become, even for the day, an enormous family.»

(Thomas Pynchon, Against the Day)