segunda-feira, agosto 07, 2006

Ficção de polpa

Para todos aqueles que, em conversas comigo, usaram, usam ou pensam usar a expressão "pois é, o livro é sempre melhor que o filme", aqui vai uma lista para as férias:

The Godfather, Mario Puzo
The Graduate, Charles Webb
The Ice Storm, Rick Moody
The Last of the Mohicans, James Fenimore Cooper
Jaws, Peter Benchley
Fight Club, Chuck Palahniuk
Goldfinger, Ian Fleming

Leiam estas sete amostras, que variam entre o razoável (Palahniuk), o entediante (Cooper) e o francamente abominável (Benchley) e depois vejam o tratamento que a malta de Hollywood lhes deu.

Mortes (III)

O grande escritor checo (e grande adepto de futebol) Bohumil Hrabal, caiu do quinto andar de um hospital quando tentava alimentar os pombos. Alguns dias antes tinha confessado no seu diário: "... ando obcecado com a ideia de saltar da janela do quinto andar, neste apartamento onde todos os quartos magoam".

Mortes (II)

O panasca genial Nikolay Gogol caiu sob a influência de Matvey Konstantinovsky, um padre ortodoxo doido, que o convenceu a destruir o manuscrito da sequela de Almas Mortas. Como se isso não bastasse, aconselhou-o também a jejuar até que lhe passassem as tendências homossexuais. Gogol morreu pouco depois. De fome.

Mortes (I)

O hipocondríaco Heraclito, que passou grande parte da vida a dizer mal dos médicos, contraíu finalmente uma doença real: hidropisia. Adepto da medicina caseira, tentou sepultar-se em estrume, esperando que o calor fizesse evaporar a maleita.
Não resultou.

domingo, agosto 06, 2006

Para lá do peixinho dourado

«But one is still puzzled by the idea of the truly random thought. For when thought is random and detail is recalled for no obvious reason, then remembered detail has no obvious metaphysical superiority, or privilege, over what has actually been forgotten. One of the reasons that random thought is random is that it is treading over what is forgotten, over the corpses of thoughts

(James Wood, "Shakespeare and the pathos of rambling", The Irresponsible Self: On Laughter and the Novel. Pimlico, 2005)

Congresso de Portnoys (II)

Sem me querer alongar muito na conversa javarda, falei ontem disto, antes do evento, mas só hoje me dei ao trabalho de ler o panfleto completo. É que a coisa teve regras. Quatro, para ser exacto. A segunda era esta:

"2. No faking orgasms! Do not waste our time. If you have an orgasm we are happy for you but this is not our goal."

Para além de ser cruel, patética e indecente, a regra plagia descaradamente o DNA masculino. E há coisas que não se confirmam.

Conversa de pub

Quantos erros de tradução teria a primeira edição europeia do Kama Sutra? Quantos acidentes graves terão causado? E quantos viriam a ser incorporados no cânone?

Kama sutra

- E tu, qual é a tua posição sexual favorita?
- Bem, eu gosto de me reclinar no sofá, com o telecomando na mão esquerda e um pacote de lenços ao lado.

sábado, agosto 05, 2006

Na minha rua não há mulheres assim (II)


Kate Beckinsale, actriz inglesa

False friend, false hope

Quanto tempo tem uma pessoa de viver no estrangeiro até sucumbir ao "efeito Roberto Leal"? Cinco, dez, quinze anos? Quanto tempo tem de se estar imerso diariamente numa segunda língua - falando, pensando, lendo jornais, vendo os noticiários - até se começar a produzir desvios de sotaque e vocabulário?
Uma amiga minha, algarvia, que vive na Grã-Bretanha há mais de quinze anos, evidencia já alguns sintomas. É frequente saírem-lhe palavras trocadas, especialmente palavras que nunca teve tempo para interiorizar em português: mouse por "rato", keyboard por "teclado", remote por "telecomando" e por aí fora.
Recentemente, porém, o desvio foi quase cruel. Numa inocente conversa de café, e a propósito de nada, ela sai-se com esta:
- Ai, ando cheia de vontade de te introduzir a uma amiga minha.
E foi só isto. Mas naquela fracção de segundos que o meu cérebro, que de imediato me providenciou inúmeras imagens de "introduções", demorou a perceber que o "introduzir" era apenas o verbo inglês introduce ("apresentar a") invadindo descaradamente língua alheia, fui o homem mais feliz do mundo.

História de terror

Uma das boas recordações da minha infância é uma viagem de comboio que fiz entre a Régua e o Porto, quando tinha 12 anos. E a recordação é boa acima de tudo pela viagem de regresso à Régua, que fiz acompanhado por uma edição acabadinha de sair do Turno da Noite, de Stephen King, comprada com a mesada de férias na velhinha e belíssima Livraria Lello.
Um dos contos do livro, «O Papão», começa e termina num consultório psiquiátrico. Um homem conta uma história inverosímil e o psiquiatra tenta convencê-lo a marcar nova série de consultas. O protagonista hesita mas acaba por ceder. A tradução portuguesa regista assim a sua interjeição:
"Maldito encolhas [damn shrink, obviamente], está bem, está bem."

Maldito. Encolhas. Duas palavrinhas. Mas de fazer arrepiar os cabelos da nuca.

Cartoon sem imagens

Um transsexual judeu, no bloco pós-operatório, comenta para a enfermeira: "Yes, I used to be circumsized".

Kevin!



Aprendi esta semana que Macaulay Culkin escreveu uma autobiografia. Mais ou menos. Escreveu um livro com bastantes detalhes autobiográficos mas que é essencialmente uma obra de ficção. Mais ou menos.
Cortesia do jornal Metro inglês, aqui vai um excerto dos excertos:
So who am I? Now that I'm here, how do I measure my worth? You could say the collection of meagre possessions I have gathered over the course of my short life is who I am. Is what a man owns who he is? I have a gorilla named Abe. Is that who I am? Is that how I will be remembered? I hope not. I hope I'm remembered as the king of the world, the nobleman who united all nations of the Earth. But that probably won't happen. At least not to me and definitely not today, because today I'm going to do what I do every day: I'm going to sit in bed and exist. I will do nothing and have nothing to show for it. Put most simply, in the words of my beloved Popeye: "I am what I am and that is all that I am". And that is how I exist.
I... watch... television.

Congresso de Portnoys

É hoje, em Londres, o festival da auto-estima.

sexta-feira, agosto 04, 2006

Esta noite ouve-se


... que, entre outros deleites, inclui «Five String Serenade», uma música de Arthur Lee (falecido ontem, em Memphis) filtrada pelas positivamente entesantes cordas vocais da Hope Sandoval.

Lealdade orgânica

Tive um amigo no Secundário - para não o envergonhar chamemos-lhe Monteirinho - para quem uma conversa sobre política era perguntar a alguém se arrumava o "material" para a esquerda ou para a direita dentro dos slips. Ora, a pergunta é descabida pois esta é uma das poucas áreas onde os homens são quase todos comunas, mas para o Monteirinho (que, para além de ser veementemente conservador, não ia à bola com boxers) era nos detalhes que se garimpava a personalidade. Por isso o Monteirinho garantia-nos que, apesar do desconforto, arrumava sempre aquilo para a direita.

Dickonomics

«Law of economy: nothing is waste. Even the unreal.»

(Philip K. Dick, The Man in the High Castle)

Talking Points

Porque tenho uma memória retentiva apenas ligeiramente superior à de um peixinho de aquário, ganhei o hábito de fazer listinhas para tudo e mais alguma coisa. Até, admito embaraçadamente, para tópicos de conversa. Nas minhas periódicas operações de reciclagem é frequente encontrar post-its com séries de temas descontextualizados, encimados por títulos úteis como "Telefonema para R. no Sábado" ou "E-mail para S.".
Encontrei hoje de manhã, dentro de um dicionário que há muito não consultava, uma listinha destas, pertencente a outro mundo - o ano de 2003 - com lembretes para uma "chamada para a M. - dia 11". A rapariga em questão que, por motivos obviamente aborrecidíssimos, já nem fala comigo, preparava-se para vir passar duas semanas comigo a Edimburgo. Este seria, julgo, o último telefonema antes da sua partida de Lisboa. A lista, que aqui deixo, pode parecer o sumário autista de uma má comédia romântica escrito num guardanapo de café por um actor francês desempregado, mas é tristemente genuína.

. toalhas;
. fotos do 10º ano;
. testes psicométricos;
. chouriço;
. cd's da PJ Harvey;
. Vaticano (preservativos);
. Cioran (Guardian);
. Kill Bill;
. Teatro CCTV - festival - bilhetes?;
. Atraso!, nº do táxi.

Eu estava lá


Em Agosto de 2003, nos Liquid Rooms em Edimburgo, os Franz Ferdinand fizeram a primeira parte - memorável - de um concerto - irrelevante - dos Hot Hot Heat. Foi, creio, um dos seus primeiros concertos fora de Glasgow.
Foi muito bom.
E eu estava lá.

Palm Pilot hormonal

I time every journey to bump into you
accidentally

Franz Ferdinand, «The Dark of the Matinee»

quinta-feira, agosto 03, 2006

Hoje não trabalho

Never work again,
ne travaillez jamais, call a general strike in May
I invented a century today
I rest my case, I demand the right to

Never work in May
Or in the summertime, we'll call a general strike
For the right to never work
I rest today, I'll leave the century today

(...)

Just say no
Just say no
Just say no
Just say no
And don't you ever work.

(Luke Haines, «Never Work», do mini-álbum The Oliver Twist Manifesto)

quarta-feira, agosto 02, 2006

Leaning on the Everlasting Arms


Don't he ever sleep?

O agnóstico prevenido

Um dia, numa esquina da Charing Cross Road, estava um homem aos berros. Tinha um chapéu de marinheiro e uma impecável gabardine amarela por cima do uniforme obrigatório do sem-abrigo londrino: camisola de lã azul, calças esfarrapadas presas com um cordão e uns all-star quase irreconhecíveis. Ia apontando o dedo a cada pessoa que passava e emitindo veredictos (aparentemente aleatórios). Ora, há muitos gente aos berros nas muitas esquinas das grandes capitais, mas costumam ter uma mensagem ou um pedido. Este, ia dizendo apenas isto:
"Jesus loves you. And you. You too mate. Not you, sorry. He loves you - and you. You too. He definitely doesn't love you."
E isto durante pelo menos duas horas.
Quando passei por ele - e posso revelar em exclusivo que sou um dos amados - senti o sorriso a formar-se, como se tinha formado em centenas de lábios naquela manhã, misturado com o arrepio do segundo pensamento. Deve sempre pensar-se outra vez sobre estas coisas.
Um gajo sabe lá de que forma é que a Parousia se vai processar. O melhor é manter a bolinha baixa

Sentido único

Borges escreveu algures (ou disse, ou pensou) que muitos cristãos acreditam em Deus mas não se interessam por Ele, enquanto que ele, Borges, não acreditava mas se interessava bastante.
A frase tem o aprumo habitual - e gosto de pensar que também serve para me definir. Flutuo ocasionalmente entre uma fé algo esfarrapada, o querer acreditar e não conseguir, e o sofrer barrigadas de riso quando penso no assunto. Mas interesso-me muito. O interesse está sempre lá. E fico genuinamente angustiado quando desconfio que não é recíproco.

Frases que nunca ouvi sem ser nos relatos de futebol da Rádio Renascença

"A defensiva está em palpos de aranha";

"Perdeu-se à procura do pé esquerdo";

"E parece que há mosquitos por cordas no túnel".

Uma boa metáfora para a minha vida

No Verão ando sempre com garrafas vazias atrás, mas raramente fui eu quem bebeu a água.

terça-feira, agosto 01, 2006

Dead White Male



God help thee, old man, thy thoughts have created a creature in thee; and he whose intense thinking thus makes him a Prometheus; a vulture feeds upon that heart for ever; that vulture the very creature he creates.

Neste dia, em 1819, nascia em New York o grande Herman Melville, autor de pelo menos dois dos livros da minha vida.

Pensamentos proibidos



David Cameron, o líder do Partido Conservador britânico, será muito provavelmente Primeiro-Ministro lá para 2009, mas o percurso não será livre de tropeções. Apesar de ter conseguido impôr, com aparente facilidade e à boleia de uma imprensa fartinha de Tony Blair, uma dinâmica progressista e renovadora a um partido que, por definição, é avesso a solavancos ideológicos, Cameron dá por vezes a ideia de se estar a esforçar demasiado - um pouco como aqueles apresentadores do Clube Disney que incluíam as palavras "fixe" e "malta" em cada frase.
Um exemplo recente foi a sua presença no programa de Jonathan Ross, o chat-show das sextas-feiras na BBC1. Não sei quem o terá convencido de que isto seria boa ideia, mas bastaram-lhe poucos minutos para perceber porque é que nenhum líder partidário antes deles (e suspeito que depois) tinha aceite aquele convite. Jonathan Ross, para quem não conhece, combina o melhor do Letterman com o pior do Herman José, e não me surpreendeu nadinha que o seu gâmbito de abertura tenha sido perguntar a Cameron se, nos seus dias de adolescente borbulhoso, alguma vez tinha esganado o perú a pensar na Lady Thatcher. Não faço ideia como é que se responde a uma pergunta destas, mas o caloiro deu um bom exemplo de como não responder: bloqueou, gaguejou e acabou por sussurrar um "não" pouco convincente. Na semana seguinte o desgraçado bem tentou mudar de assunto, calcorreando o país para falar de maior ajuda que o seu Governo vai dar às mães solteiras (mais uma ideia que caíu que nem ginjas no Partido). Obviamente ninguém quis saber.
Há aqui uma lição para os jovens. Caros amigos de instinto renovador das Juventudes Popular e Comunista: não aceitem convites para ir ao Herman sem estarem preparados para responder a perguntas semelhantes sobre a Maria José Nogueira Pinto e a Odete Santos.

Mito urbano

Tenho um amigo que tem um amigo que conhece alguém que entrou num KFC numa capital europeia à vossa escolha, pediu um mega-bucket, e não encontrou lá dentrou um único osso que não fosse de frango.
Isto aconteceu mesmo.

Diferença de idades

"E entretanto já se passou um ano. Nem me parece verdade. Voou, este ano. Nem dei por ele. Tu sentes-te um ano mais velho?"
"Eu todos os dias me sinto um ano mais velho."