sábado, agosto 19, 2006

Já foi feito

O Financial Times de Quinta-feira noticiava que a agência noticiosa Thomson Financial desenvolveu um software capaz de escrever peças jornalísticas em 0,3 segundos, eliminando assim a necessidade de redactores de carne e osso.
Nós, os assíduos leitores do Record e de O Jogo, já suspeitamos desse truque há anos.

Aritmética

Dois adolescentes conversam na paragem do autocarro. Um deles diz:
-- A Tracy disse que tu és giro.
-- A sério? Ela disse isso?
-- Disse, disse.
(pausa)
-- Quantas vezes?

"a love letter to America and to the english language"



«... I was still keenly interested in outdoor activities and desirous of finding suitable playgrounds in the open where I had suffered such shameful privations. Here, too, I was to be thwarted. The disappointment I must now register (as I gently grade my story into an expression of the continuous risk and dread that ran through my bliss) should in no way reflect on the lyrical, epic, tragic but never Arcadian American wilds. They are beautiful, heart-rendingly beautiful, those wilds, with a quality of wide-eyed, unsung, innocent surrender that my lacquered, toy-bright Swiss villages and exhaustively lauded Alps no longer possess. Innumerable lovers have clipped and kissed on the trim turf of old-world mountainsides, on the innerspring moss, by a handy, hygienic rill, on rustic benches under the initialed oaks, and in so many cabanes in so many beech forests. But in the Wilds of America the open-air lover will not find it easy to indulge in the most ancient of all crimes and pastimes. Poisonous plants burn his sweetheart's buttocks, nameless insects sting his; sharp items of the forest floor prick his knees, insects hers; and all around there abides a sustained rustle of potential snakes - que dis-je, of semi-extinct dragons! - while the crablike seeds of ferocious flowers cling, in a hideous green crust, to gartered black sock and sloppy white sock alike.»

Vladimir Nabokov, Lolita (cuja primeira edição americana faz hoje 48 anos)

sexta-feira, agosto 18, 2006

Spot publicitário


Aproveitamos este espaço para lembrar que já só faltam dez dias.

O melhor dístico da música pop

I'm spellbound, oh ... but a woman divides
And the hills are alive with celibate cries

The Smiths, «These Things Take Time»

Bagagem permanente


Mas isto vai comigo, porque nunca saio de casa sem ele. E, com este título, estou mesmo a pedir sarilhos.

Terrorismo

A pouco mais de uma semana de um voo de duas horas e meia para Lisboa, as medidas de segurança nos aeroportos ingleses continuam a confundir-me. Depois de três telefonemas ninguém me sabe dizer se posso ou não levar um livro para bordo. Confesso-me devidamente aterrorizado.

Humor semita

Logo no programa seguinte fala-se da polémica desportiva do dia. O Chelsea apresentou queixa contra Ken Bates, presidente do clube antes da era Abramovich, por este se ter referido genericamente ao corpo directivo actual como "a load of Siberian shysters". Um advogado judeu, que trabalha para uma companhia de agentes desportivos, é chamado a pronunciar-se sobre o caso. A locutora pergunta-lhe se o epíteto "shyster" o ofendia enquanto judeu. Resposta do senhor:
--Shyster não tanto. E não é coisa que ouça muita vez. É a forma como as pessoas cospem as expressões "advogado" e "empresário de futebol" que me ofende realmente.

Choque nostálgico

Ligo o rádio às sete da manhã, descansadinho da vida, e ouço uma canção dos Roxette. Nunca julguei que a ausência de ironia me pudesse assustar tanto.

Faux pas

Um dos muitos prazeres de visitar a minha mãe é poder observar em acção alguém cuja capacidade para o faux pas é aparentemente inesgotável - superando até a minha.
No Domingo passado, um vizinho seu (um sério e educado old Tory) disse-lhe que ia passar a tarde no cemitério, a fazer pequenas obras de restauro nas campas dos seus pais. A minha mãe, que, como é seu hábito, estava já a pensar noutra coisa, respondeu alegremente:
-- Alright dear, have fun.

The Clare Vawdrey defence

Ocorreu-me que Günter Grass ainda vai a tempo de usar uma defesa literária, conhecida no patois legalês como "the Clare Vawdrey defence": alegar que enquanto ele escrevia os livros, o "outro" Grass é que andava por aí a dizer coisas.

quinta-feira, agosto 17, 2006

Esta noite ouve-se


Show me where you keep all your secrets upstairs
Night after night you sleep while they're setting off flares
Someone came and took all the roses away
Now you'll sit showing me tears if you want me to stay
Cause down the street all the meters have run out of time, run out of time
I waited for you as the trees swayed out of time
In a crowded room I pick up your lonely stare
I'll cover for you like a slipcover covers a chair
But someone came and took all the roses away
It was only 5 minutes but it felt like it stretched into a day
Someone came and took all the roses away


(Yo La Tengo, «Pablo and Andrea», Electr-O-Pura)

Vergangenheitsbewältigung

... whose frolicsome black fables portray the forgotten face of history...

Que a recente admissão de Günter Grass diminua a sua legitimidade como voz moral da Alemanha pós-1945, aceita-se. Que Grass, o intelectual público, seja alvo de opróbrio é compreensível. As acusações de hipocrisia são mais do que justas, depois de quarenta anos de vitriólicos murros no púlpito sobre a forma como uma geração inteira recusou enfrentar o terrível embaraço daquelas duas décadas. Mas encaminhar o debate para uma reavaliação da sua obra (há quem sugira, na Alemanha, a devolução do Nobel) parece-me ridículo e sinal de que, mais uma vez, se está a confundir uma coisa com outra.
O delito de omissão foi cometido por Grass, o comentador cultural. Não pode nem deve afectar o lugar de Grass, o escritor, no cânone literário. Os delitos desse, se existem, são de outra ordem, e nada têm a ver com as instituições militares a que ele aderiu quando tinha 17 anos.
Se o "Grassgate" prova alguma coisa é que o instrumento de eleição do escritor deveria ser sempre, e apenas, a página, não o altifalante.

(Nota: ler, sobre este tema, dois excelentes apontamentos do Pedro Mexia - este e este.)

quarta-feira, agosto 16, 2006

The superior of all is the servant of all


Black Narcissus, da dupla Powell/Pressburger. Um dos filmes mais belos e perturbantes da história do cinema.

Sal na ferida

Penso ser essa uma das razões do sucesso de Ricky Gervais (a outra é, obviamente, puro talento), que sublimou um tipo de comédia que força uma relação empática baseada na vergonha, e nos mostra que a maioria da humanidade vive apenas a um passo do ridículo. Numa entrevista à BBC, Gervais disse que ver um homem escorregar numa casca de banana pode ser engraçado, mas a comédia que lhe interessa é a do homem que escorrega numa casca de banana no preciso momento em que a ex-namorada passa do outro lado da rua, de braço dado com um homem mais alto e mais magro que ele.
E isto não é, como já li, "tratar os personagens com sadismo". Porque o sal está a ser meticulosamente esfregado também nas feridas de quem vê.

Vergonhas

Se a humanidade se divide mesmo em dois tipos de pessoas, como tantos humoristas insistem, então o critério de separação é a forma como reagimos perante a vergonha alheia. Não a desgraça, mas a vergonha. Há os que riem e pensam "que ridículo" - e depois há os que se solidarizam em silêncio, que escondem o rosto e pensam "aquilo podia ser eu".
Eu pertenço ao segundo grupo, que julgo (espero) ser o mais numeroso. A vergonha dos outros é sempre um bocadinho a minha vergonha.

... always playing leap-frog...


«He never forgot the first two or three social functions he attended: one an afternoon at Miss Burdett Coutts's in Stratton Place, where he hid himself in the embrasure of a window and hoped that no one noticed him; another was a garden-party given by the old anti-slavery Duchess Dowager of Sutherland at Chiswick, where the American Minister and Mrs. Adams were kept in conversation by the old Duchess till every one else went away except the young Duke and his cousins, who set to playing leapfrog on the lawn. At intervals during the next thirty years Henry Adams continued to happen upon the Duke, who, singularly enough, was always playing leap-frog. Still another nightmare he suffered at a dance given by the old Duchess Dowager of Somerset, a terrible vision in castanets, who seized him and forced him to perform a Highland fling before the assembled nobility and gentry, with the daughter of the Turkish Ambassador for partner. This might seem humorous to some, but to him the world turned to ashes.»

(The Education of Henry Adams)

terça-feira, agosto 15, 2006

R de Rendo-me, T de Tens razão

A lista de nomeados para o Booker Prize foi hoje anunciada. Entre os nomeados está mais uma vez David Mitchell, que para além de escrever muito bem é um mestre na arte menor da entrevista literária (exemplo aqui).
Antes de se mudar para a Irlanda, Mitchell viveu vários anos no Japão. Foi-lhe perguntado um dia, num programa da BBC Radio 4, se tinha aprendido japonês. Ele disse que não, qualificando: "Consigo discutir com uma mulher em japonês, mas não consigo ganhar a discussão."
O que é uma resposta engraçada mas, ora bolas, se o critério é esse eu nem português sei falar.

Karma Almeida II

O meu professor de Francês na Escola Luísa de Gusmão costumava profetizar, sempre que um aluno cometia um erro particularmente grave:
-- Vocês vão ser todos almeidas, é o que vocês vão ser.

Karma Almeida

O cantor Boy George começou ontem a cumprir a sua pena de serviços comunitários, recolhendo lixo nas ruas de Nova Iorque. O que é uma inversão interessante da tendência recente: dar contratos discográficos a pessoas que deveriam andar a varrer os estádios depois dos concertos.

Propriedades dos sólidos


«Also in this [our Lord] showed me a little thing, the quantity of a hazel-nut, in the palm of my hand (...) And in this little thing I saw three properties. The first is that God made it, the second that God loveth it, the third that God keepeth it.»

(Dame Julian of Norwich, Revelations of Divine Love)

segunda-feira, agosto 14, 2006

... no law of progress applied to it...


«To a young Bostonian, fresh from Germany, Rome seemed a pure emotion, quite free from economic or actual values, and he could not in reason or common sense foresee that it was mechanically piling up conundrum after conundrum in his educational path, which seemed unconnected but that he had got to connect; that seemed insoluble but had got to be somehow solved. Rome was not a beetle to be dissected and dropped; not a bad French novel to be read in a railway train and thrown out of the window after other bad French novels, the morals of which could never approach the immorality of Roman history. Rome was actual; it was England; it was going to be America. Rome could not be fitted into an orderly, middle-class, Bostonian, systematic scheme of evolution. No law of progress applied to it. Not even time-sequences--the last refuge of helpless historians--had value for it. The Forum no more led to the Vatican than the Vatican to the Forum. Rienzi, Garibaldi, Tiberius Gracchus, Aurelian might be mixed up in any relation of time, along with a thousand more, and never lead to a sequence. The great word Evolution had not yet, in 1860, made a new religion of history, but the old religion had preached the same doctrine for a thousand years without finding in the entire history of Rome anything but flat contradiction.»

(The Education of Henry Adams)

Parabéns a você

Hoje faz anos o Gary Larson, autor do melhor cartoon do mundo, que infelizmente não consegui encontrar online. Um numeroso rebanho de ovelhas está a pastar num prado; de súbito uma delas ergue a cabeça e grita, escandalizada: "Esperem lá! Isto é relva! Estamos a comer relva!"

You might remember him from such movies as...


Gladys The Groovy Mule
The Erotic Adventures of Hercules
The President's Neck is Missing!
Give My Remains to Broadway
Suddenly Last Supper (Bible epic)
It's a Wonderful Belt
Preacher With a Shovel
Calling All Quakers
Look Who's Still Oinking
Back to the Sequel
Butter -- The Motion Picture
Cut it Out -- The Wacky Adventures of Jack the Ripper
Alice's Adventures Through The Windshield Glass
Driving Mr. T
The Unbearable Moistness of Sweating
Eenie Meeni Miney, Die
Three Men and a Bunsen Burner
Wake Up, Finnegan


(Filmografia parcial de Troy McClure, um dos melhores bonecos dos Simpsons. O actor que lhe dava voz, Phil Hartman, foi assassinado pela mulher em 1998.)

A gota de água

-- Então o que é que aconteceu?
-- Bem, ela acabou por descobrir que, além de calão, mesquinho, distante e mentiroso eu também sou neo-liberal.

Kinsey - versão UK

Publicitado como o maior inquérito do género realizado até agora (amostra de mais de 50 mil pessoas), o inquérito anual BBC Radio 1/Durex sobre os hábitos sexuais dos britânicos revelou que uma em cada cinco pessoas entre os 16 e os 24 anos já teve mais de dez parceiros sexuais diferentes.
A estatística que estes "estudos" nunca divulgam é a mais divertida: mais de 90% das pessoas admitem mentir frequentemente sobre a sua vida sexual.
Comentarei esta questão mais a fundo quando regressar da orgia da noite.

... the pons asinorum of tourist mathematics...


« ... he began his third or fourth attempt at education in November, 1858, by sailing on the steamer Persia, the pride of Captain Judkins and the Cunard Line; the newest, largest and fastest steamship afloat. He was not alone. Several of his college companions sailed with him, and the world looked cheerful enough until, on the third day, the world - as far as concerned the young man - ran into a heavy storm. He learned then a lesson that stood by him better than any university teaching ever did - the meaning of a November gale on the mid-Atlantic which, for mere physical misery, passed endurance. The subject offered him material for none but serious treatment; he could never see the humor of sea-sickness; but it united itself with a great variety of other impressions which made the first month of travel altogether the rapidest school of education he had yet found. The stride in knowledge seemed gigantic. One began a to see that a great many impressions were needed to make very little education, but how many could be crowded into one day without making any education at all, became the pons asinorum of tourist mathematics. How many would turn out to be wrong whether any could turn out right, was ultimate wisdom.»

(The Education of Henry Adams)

domingo, agosto 13, 2006

Hoje ouve-se



My love she speaks like silence,
Without ideals or violence,
She doesn't have to say she's faithful,
Yet she's true, like ice, like fire.
People carry roses,
And make promises by the hours,
My love she laughs like the flowers,
Valentines can't buy her.

In the dime stores and bus stations,
People talk of situations,
Read books, repeat quotations,
Draw conclusions on the wall.
Some speak of the future,
My love she speaks softly,
She knows there's no success like failure
And that failure's no success at all.

The cloak and dagger dangles,
Madams light the candles.
In ceremonies of the horsemen,
Even the pawn must hold a grudge.
Statues made of match sticks,
Crumble into one another,
My love winks, she does not bother,
She knows too much to argue or to judge.

The bridge at midnight trembles,
The country doctor rambles,
Bankers' nieces seek perfection,
Expecting all the gifts that wise men bring.
The wind howls like a hammer,
The night blows cold and rainy,
My love she's like some raven
At my window with a broken wing.

(Bob Dylan, «Love Minus Zero/No Limit», Bringing It All Back Home)

... e a lei moral dentro de mim


No comboio, entretido com o jornal, ouço uma voz feminina carregada de aflição: "I need a moral code!"
Viro-me para o lado, discretamente, para ver quem chegou a tal realização numa solarenga manhã de Agosto. Uma rapariga loura, incrivelmente bonita, segura um telemóvel numa mão e um manual de instruções na outra. Uma amiga tenta ajudá-la, vasculhado o interior de uma caixa de cartão. Depois de alguns segundos percebo que o telemóvel é uma aquisição recente e que o que eu ouvi (mal) estava certamente relacionado com a substituição do código PIN.
Fico aliviado. Se há coisa de que o mundo não precisa é que raparigas como ela desatem a aderir a códigos morais.
A não ser que seja o meu código moral.

...mas fala-se de outros blogs

Quem chega tarde a uma festa arrisca-se a que as raparigas já estejam todas ocupadas, as boas piadas já tenham sido todas ditas e, pior, que o álcool já tenha sido todo bebido.
Com a blogosfera é o mesmo: há um risco constante de incorrer em tautologias para quem perdeu o boom inicial. Há muito pouco por elogiar ou criticar que não tenha sido já elogiado ou criticado antes, possivelmente com mais lucidez. Comecei a ler blogs há poucos meses, e os que visito regularmente contam-se pelos dedos de uma mão (e estão todos listados aqui ao lado) com visitas esporádicas a mais nove ou dez. Estou certo de que não tenho nada de original para dizer sobre eles.
Vou correr esse moderado risco para recomendar à restrita plateia que lê isto o blog do Alexandre Andrade (o que é um pouco como o gajo da roulotte das bifanas sugerir ao cliente uma visitinha ao Rei dos Frangos). Um blog cujo arquivo de entradas tenho lido, à razão de um mês por noite, sempre com a impressão de ter a minha educação severamente testada por um daqueles mestres-escola turbulentos que no meio de uma aula de Filosofia começam a divagar sobre as amantes de Rousseau. Em Latim.
Para alguém que, como eu, não tem uma gota de sangue francófilo, a negociação de algumas referências pode ser tortuosa e implicar várias visitas à Britannica (bem como a um mapa actualizado do metro de Paris). A ubiquidade dos Pierres e dos Arnauds semeia o pânico no meu cérebrozinho lavrado por New England. Mas é um bom pânico e a navegação nunca permite a deriva.
Quanto à qualidade da escrita, que abarca uma assustadora amplitude de registos, é das melhores que se pode encontrar em português - ou em qualquer outra língua.
Portanto, se quiserem ler sobre Kleist, Ivanchuk, a escala de pungência das malaguetas ou simplesmente anúncios de gatos perdidos inventados, ide aqui. Ide.