segunda-feira, agosto 21, 2006

Patriotismo cósmico



No conto "Dance in America" de Lorrie Moore (uma boa descoberta recente), um rapaz recita correctamente o nome dos planetas, depois de a mãe explicar que ele anda a aprender o sistema solar. A narradora pergunta-lhe qual é o planeta que ele acha mais interessante ("Marte com os seus canais? Saturno com os seus anéis?"). O rapaz pensa um pouco e responde solenemente:
-- A Terra, claro.

Aviso a um amigo que permanecerá anónimo

Um dia perguntaram a Lord Russell of Killowen (o primeiro Lord Chief Justice católico do Reino Unido) qual a pena máxima para o crime de bigamia. Ele respondeu: "Seguramente, ter duas sogras."

domingo, agosto 20, 2006

...its enormous waste in eccentricity...


«Knowledge of human nature is the beginning and end of political education, but several years of arduous study in the neighborhood of Westminster led Henry Adams to think that knowledge of English human nature had little or no value outside of England. In Paris, such a habit stood in one's way; in America, it roused all the instincts of native jealousy. The English mind was one-sided, eccentric, systematically unsystematic, and logically illogical. The less one knew of it, the better.
(...)
For several years, under the keenest incitement to watchfulness, he observed the English mind in contact with itself and other minds. Especially with the American the contact was interesting because the limits and defects of the American mind were one of the favorite topics of the European. From the old-world point of view, the American had no mind; he had an economic thinking-machine which could work only on a fixed line. The American mind exasperated the European as a buzz-saw might exasperate a pine forest. The English mind disliked the French mind because it was antagonistic, unreasonable, perhaps hostile, but recognized it as at least a thought. The American mind was not a thought at all; it was a convention, superficial, narrow, and ignorant; a mere cutting instrument, practical, economical, sharp, and direct.
The English themselves hardly conceived that their mind was either economical, sharp, or direct; but the defect that most struck an American was its enormous waste in eccentricity. Americans needed and used their whole energy, and applied it with close economy; but English society was eccentric by law and for sake of the eccentricity itself.»

(The Education of Henry Adams)

Lucrécia



Scarlett Johansson vai interpretar o papel de Lucrécia Bórgia no novo filme de Neil Jordan. Abençoados irmãos Lumière.

Cartas ao editor

Os leitores dos jornais de esquerda estão preocupados com o número crescente de estudantes universitários que diz acreditar na "teoria do plano inteligente" (IDT).
Os leitores dos jornais de direita estão preocupados com o número crescente de imigrantes polacos que procura trabalho no Reino Unido.
Este leitor, que ainda não sabe se pode ou não levar um livro no raio do avião para Lisboa, decide não se preocupar com o que os outros decidem preocupar-se.

O que é que se come?

Num dos seus ensaios sobre Shakespeare, Auden pergunta retoricamente porque é que já se escreveu tanta poesia sobre sexo e tão pouca sobre o acto de comer, que proporciona o mesmo prazer e raramente desilude.
Auden deveria ter lido Henry Miller. Nesse longo poema em prosa que é o Trópico de Câncer, a preocupação dominante do narrador não é a próxima queca mas o próximo almoço.

O Bairro do Amor

Não sei se os meus colegas do 7ºD na Escola Preparatória de Sacavém se lembrarão disto, mas eu lembro-me bem.
Um dia, levei na mochila uma edição Círculo de Leitores do Trópico de Câncer com as partes mais javardolas sublinhadas a lápis. No recreio, reuni um pequeno Clube do Livro improvisado atrás do pavilhão B e recitei com brio as várias cambalhotas do senhor Henry Miller. Um colega (salvo erro, o Hugo Ferro) perguntou-me o que queria dizer o "Câncer" do título. Simultaneamente blindado e pressionado pela minha reputação de erudito da turma, não quis dar parte de fraco e respondi convictamente que Câncer era um bairro de Paris conhecido pela qualidade dos seus bordéis.

Eucaristia Dominical



Sunday morning, brings the dawn in
It's just a restless feeling by my side
Early dawning, Sunday morning
It's just the wasted years so close behind
Watch out - the world's behind you
There's always someone around you who will call
It's nothing at all

Sunday morning, and I'm falling
I've got a feeling I don't want to know
Early dawning, Sunday morning
It's all the streets you crossed not so long ago
Watch out the world's behind you
There's always someone around you who will call
It's nothing at all

Sunday Morning
Sunday Morning...


(The Velvet Underground, «Sunday Morning», The Velvet Underground & Nico)

sábado, agosto 19, 2006

Cinco listas, cinco

Cinco livros que não acabei de ler:

- Dom Quixote, Cervantes
- Gargantua & Pantagruel, Rabelais
- The Avignon Quintet, Lawrence Durrell
- A Maggot, John Fowles
- Nuns and Soldiers, Iris Murdoch


Cinco ossos com nomes engraçados:

- esfenóide
- escápula
- ulna
- patela
- calcâneo


Cinco lugares onde nunca estive:

- na catedral de Chartres
- no mausoléu de Teodorico, em Ravenna
- no Nou Camp, em Barcelona
- na Old Manse, em Concord
- no Blanchette Cemetery, em Beaumont, Texas


Cinco melhores canções de Bob Dylan:

- «Just Like Tom Thumb's Blues»
- «Visions of Johanna»
- «Every Grain of Sand»
- «Love Minus Zero/No Limit»
- «Shelter From the Storm»


Cinco blogs que gostaria de ter lido:

- Santo Agostinho
- Lucrécia Bórgia
- Pêro da Covilhã
- Isaiah Berlin
- Vladimir Nabokov

Já foi feito

O Financial Times de Quinta-feira noticiava que a agência noticiosa Thomson Financial desenvolveu um software capaz de escrever peças jornalísticas em 0,3 segundos, eliminando assim a necessidade de redactores de carne e osso.
Nós, os assíduos leitores do Record e de O Jogo, já suspeitamos desse truque há anos.

Aritmética

Dois adolescentes conversam na paragem do autocarro. Um deles diz:
-- A Tracy disse que tu és giro.
-- A sério? Ela disse isso?
-- Disse, disse.
(pausa)
-- Quantas vezes?

"a love letter to America and to the english language"



«... I was still keenly interested in outdoor activities and desirous of finding suitable playgrounds in the open where I had suffered such shameful privations. Here, too, I was to be thwarted. The disappointment I must now register (as I gently grade my story into an expression of the continuous risk and dread that ran through my bliss) should in no way reflect on the lyrical, epic, tragic but never Arcadian American wilds. They are beautiful, heart-rendingly beautiful, those wilds, with a quality of wide-eyed, unsung, innocent surrender that my lacquered, toy-bright Swiss villages and exhaustively lauded Alps no longer possess. Innumerable lovers have clipped and kissed on the trim turf of old-world mountainsides, on the innerspring moss, by a handy, hygienic rill, on rustic benches under the initialed oaks, and in so many cabanes in so many beech forests. But in the Wilds of America the open-air lover will not find it easy to indulge in the most ancient of all crimes and pastimes. Poisonous plants burn his sweetheart's buttocks, nameless insects sting his; sharp items of the forest floor prick his knees, insects hers; and all around there abides a sustained rustle of potential snakes - que dis-je, of semi-extinct dragons! - while the crablike seeds of ferocious flowers cling, in a hideous green crust, to gartered black sock and sloppy white sock alike.»

Vladimir Nabokov, Lolita (cuja primeira edição americana faz hoje 48 anos)

sexta-feira, agosto 18, 2006

Spot publicitário


Aproveitamos este espaço para lembrar que já só faltam dez dias.

O melhor dístico da música pop

I'm spellbound, oh ... but a woman divides
And the hills are alive with celibate cries

The Smiths, «These Things Take Time»

Bagagem permanente


Mas isto vai comigo, porque nunca saio de casa sem ele. E, com este título, estou mesmo a pedir sarilhos.

Terrorismo

A pouco mais de uma semana de um voo de duas horas e meia para Lisboa, as medidas de segurança nos aeroportos ingleses continuam a confundir-me. Depois de três telefonemas ninguém me sabe dizer se posso ou não levar um livro para bordo. Confesso-me devidamente aterrorizado.

Humor semita

Logo no programa seguinte fala-se da polémica desportiva do dia. O Chelsea apresentou queixa contra Ken Bates, presidente do clube antes da era Abramovich, por este se ter referido genericamente ao corpo directivo actual como "a load of Siberian shysters". Um advogado judeu, que trabalha para uma companhia de agentes desportivos, é chamado a pronunciar-se sobre o caso. A locutora pergunta-lhe se o epíteto "shyster" o ofendia enquanto judeu. Resposta do senhor:
--Shyster não tanto. E não é coisa que ouça muita vez. É a forma como as pessoas cospem as expressões "advogado" e "empresário de futebol" que me ofende realmente.

Choque nostálgico

Ligo o rádio às sete da manhã, descansadinho da vida, e ouço uma canção dos Roxette. Nunca julguei que a ausência de ironia me pudesse assustar tanto.

Faux pas

Um dos muitos prazeres de visitar a minha mãe é poder observar em acção alguém cuja capacidade para o faux pas é aparentemente inesgotável - superando até a minha.
No Domingo passado, um vizinho seu (um sério e educado old Tory) disse-lhe que ia passar a tarde no cemitério, a fazer pequenas obras de restauro nas campas dos seus pais. A minha mãe, que, como é seu hábito, estava já a pensar noutra coisa, respondeu alegremente:
-- Alright dear, have fun.

The Clare Vawdrey defence

Ocorreu-me que Günter Grass ainda vai a tempo de usar uma defesa literária, conhecida no patois legalês como "the Clare Vawdrey defence": alegar que enquanto ele escrevia os livros, o "outro" Grass é que andava por aí a dizer coisas.

quinta-feira, agosto 17, 2006

Esta noite ouve-se


Show me where you keep all your secrets upstairs
Night after night you sleep while they're setting off flares
Someone came and took all the roses away
Now you'll sit showing me tears if you want me to stay
Cause down the street all the meters have run out of time, run out of time
I waited for you as the trees swayed out of time
In a crowded room I pick up your lonely stare
I'll cover for you like a slipcover covers a chair
But someone came and took all the roses away
It was only 5 minutes but it felt like it stretched into a day
Someone came and took all the roses away


(Yo La Tengo, «Pablo and Andrea», Electr-O-Pura)

Vergangenheitsbewältigung

... whose frolicsome black fables portray the forgotten face of history...

Que a recente admissão de Günter Grass diminua a sua legitimidade como voz moral da Alemanha pós-1945, aceita-se. Que Grass, o intelectual público, seja alvo de opróbrio é compreensível. As acusações de hipocrisia são mais do que justas, depois de quarenta anos de vitriólicos murros no púlpito sobre a forma como uma geração inteira recusou enfrentar o terrível embaraço daquelas duas décadas. Mas encaminhar o debate para uma reavaliação da sua obra (há quem sugira, na Alemanha, a devolução do Nobel) parece-me ridículo e sinal de que, mais uma vez, se está a confundir uma coisa com outra.
O delito de omissão foi cometido por Grass, o comentador cultural. Não pode nem deve afectar o lugar de Grass, o escritor, no cânone literário. Os delitos desse, se existem, são de outra ordem, e nada têm a ver com as instituições militares a que ele aderiu quando tinha 17 anos.
Se o "Grassgate" prova alguma coisa é que o instrumento de eleição do escritor deveria ser sempre, e apenas, a página, não o altifalante.

(Nota: ler, sobre este tema, dois excelentes apontamentos do Pedro Mexia - este e este.)

quarta-feira, agosto 16, 2006

The superior of all is the servant of all


Black Narcissus, da dupla Powell/Pressburger. Um dos filmes mais belos e perturbantes da história do cinema.

Sal na ferida

Penso ser essa uma das razões do sucesso de Ricky Gervais (a outra é, obviamente, puro talento), que sublimou um tipo de comédia que força uma relação empática baseada na vergonha, e nos mostra que a maioria da humanidade vive apenas a um passo do ridículo. Numa entrevista à BBC, Gervais disse que ver um homem escorregar numa casca de banana pode ser engraçado, mas a comédia que lhe interessa é a do homem que escorrega numa casca de banana no preciso momento em que a ex-namorada passa do outro lado da rua, de braço dado com um homem mais alto e mais magro que ele.
E isto não é, como já li, "tratar os personagens com sadismo". Porque o sal está a ser meticulosamente esfregado também nas feridas de quem vê.

Vergonhas

Se a humanidade se divide mesmo em dois tipos de pessoas, como tantos humoristas insistem, então o critério de separação é a forma como reagimos perante a vergonha alheia. Não a desgraça, mas a vergonha. Há os que riem e pensam "que ridículo" - e depois há os que se solidarizam em silêncio, que escondem o rosto e pensam "aquilo podia ser eu".
Eu pertenço ao segundo grupo, que julgo (espero) ser o mais numeroso. A vergonha dos outros é sempre um bocadinho a minha vergonha.

... always playing leap-frog...


«He never forgot the first two or three social functions he attended: one an afternoon at Miss Burdett Coutts's in Stratton Place, where he hid himself in the embrasure of a window and hoped that no one noticed him; another was a garden-party given by the old anti-slavery Duchess Dowager of Sutherland at Chiswick, where the American Minister and Mrs. Adams were kept in conversation by the old Duchess till every one else went away except the young Duke and his cousins, who set to playing leapfrog on the lawn. At intervals during the next thirty years Henry Adams continued to happen upon the Duke, who, singularly enough, was always playing leap-frog. Still another nightmare he suffered at a dance given by the old Duchess Dowager of Somerset, a terrible vision in castanets, who seized him and forced him to perform a Highland fling before the assembled nobility and gentry, with the daughter of the Turkish Ambassador for partner. This might seem humorous to some, but to him the world turned to ashes.»

(The Education of Henry Adams)

terça-feira, agosto 15, 2006

R de Rendo-me, T de Tens razão

A lista de nomeados para o Booker Prize foi hoje anunciada. Entre os nomeados está mais uma vez David Mitchell, que para além de escrever muito bem é um mestre na arte menor da entrevista literária (exemplo aqui).
Antes de se mudar para a Irlanda, Mitchell viveu vários anos no Japão. Foi-lhe perguntado um dia, num programa da BBC Radio 4, se tinha aprendido japonês. Ele disse que não, qualificando: "Consigo discutir com uma mulher em japonês, mas não consigo ganhar a discussão."
O que é uma resposta engraçada mas, ora bolas, se o critério é esse eu nem português sei falar.

Karma Almeida II

O meu professor de Francês na Escola Luísa de Gusmão costumava profetizar, sempre que um aluno cometia um erro particularmente grave:
-- Vocês vão ser todos almeidas, é o que vocês vão ser.

Karma Almeida

O cantor Boy George começou ontem a cumprir a sua pena de serviços comunitários, recolhendo lixo nas ruas de Nova Iorque. O que é uma inversão interessante da tendência recente: dar contratos discográficos a pessoas que deveriam andar a varrer os estádios depois dos concertos.

Propriedades dos sólidos


«Also in this [our Lord] showed me a little thing, the quantity of a hazel-nut, in the palm of my hand (...) And in this little thing I saw three properties. The first is that God made it, the second that God loveth it, the third that God keepeth it.»

(Dame Julian of Norwich, Revelations of Divine Love)