segunda-feira, setembro 11, 2006

Hoje bloga-se de...


...Alcácer do Sal. Cuja Junta de Freguesia tem um ponto Net com funcionários excessivamente simpáticos.

sexta-feira, setembro 08, 2006

O blog de Coleridge


«What a beautiful Thing Urine is, in a Pot, brown yellow, transpicuous, the Image, diamond shaped of the Candle in it, especially, as it now appeared, I having emptied the Snuffers into it, & the Snuff floating about, & painting all-shaped Shadows on the Bottom.»

(Samuel Taylor Coleridge, Notebooks - December 1803)

Na Escócia é que sabem


Sai para a semana. Devotos Peeleanos, fãs de Undertones, amantes da boa punkalhada britânica: comprem e divirtam-se.

Playlist

O meu PC também tem a sua polícia secreta, e mantém-me sob cerrada vigilância musical. De acordo com as pidescas estatísticas do Windows Media Player, estas são as 10 canções que mais vezes ouvi em repeat nos últimos 2 anos:

1. «Some Kinda Love», Velvet Underground
2. «Just Like Tom Thumb's Blues», Bob Dylan
3. «Love Letter», Nick Cave
4. «Our Way to Fall», Yo La Tengo
5. «Bugger Bognor», Luke Haines
6. «Danny Says», Ramones
7. «Tesla's Hotel Room», The Handsome Family
8. «Pushkin», Will Oldham
9. «RV», Faith No More
10. «Come Back to Camden», Morrissey

(Em 11º lugar está o «Ace of Spades» dos Motörhead, o meu amuleto mp3 para as noites de poker virtual)

Publicidade

Gosto muito, mesmo muito, de um grupo musical canadiano que nenhum dos meus leitores conhece. E é assim que eu quero que as coisas se mantenham.

Housekeeping

Antes das férias, arruma-se a casa. A lista de links foi remodelada. Inclui agora mais quatro blogs descobertos às três tabelas; mais alguns escritores "da casa"; uma página com gatinhos bébés; e uma agência de apostas. Há pornografia lituana, mas está camuflada; os eventuais interessados terão de ler muita coisinha edificante antes de acharem a pocilga.
O nome, o lema e o layout do blog continuam na mesma, mas desconfio que não por muito tempo. Até o nome do autor pode mudar em breve. Ser o Rogério Casanova, mesmo em part-time, não é, de todo, o que a publicidade prometia.

Interregno

O ritmo de postagem vai ser drasticamente reduzido nas próximas três semanas.
A culpa é de Lisboa.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Caveat Senescens

Ele escreveu: "o tempo não se limita a passar; muitas vezes passa-te por cima".
Depois escreveu: "esse rosto apedrejado por cronologias".
E ainda arranjou tempo para escrever: "vivo, morto, vegetal, qual é a diferença?".
Por fim decidiu rasgar o postal de aniversário e começar de novo quando se sentisse menos ruvinhoso.

Elementos de Frenologia



« ... as quase imperceptíveis protuberâncias no cocuruto de Liv Tyler comprovam que ela é muito boa rapariga, amiga do seu amigo, e dada à paródia ... »

(Franz Joseph Gall, A Anatomia e Fisiologia do Sistema Nervoso em Geral, e do Cérebro em Particular, Apêndice VII)

Abóboras

Num bloco de notas da minha adolescência encontro uma página preenchida por uma citação do Humboldt's Gift em que o narrador Charlie Citrine se refere a outro personagem como um "cabeça de abóbora". Na página seguinte está uma lista de batotas para o Fifa '98 - que inclui um código para transformar as cabeças dos jogadores em abóboras gigantes.
Até à deriva na frivolidade eu gosto de uma certa consistência temática.

Hipérboles minimalistas

Prefiro um ensaio menor de James Wood aos melhores livros de George Steiner.
Prefiro dois minutos dos Ramones à discografia completa dos The Clash.
Prefiro um conto de Chekhov à obra inteira de Flaubert.

Tratamento preferencial

Por um daqueles groundhogdayescos desacertos cósmicos, acordei dois dias seguidos ao som da mesma canção - uma popalhada banal dos The Feeling. Passado o pânico inicial, uma linha chamou-me a atenção:

People in love get special treatment

O que é manifestamente mentira. Não têm. Mas deveriam ter. Pelo menos nas farmácias e supermercados.

quarta-feira, setembro 06, 2006

... his sanity an unstable artifice...


« ... He woke up with a shudder as though he had himself fallen off his bicycle. If his mind were really this sort of magnet, mechanically dispersing its lines of force when it went to sleep, and mechanically orienting them when it woke up -- which was normal, the dispersion or orientation? The mind, like the body, kept its unity unless it happened to lose balance, but the professor of physics, who slipped on a pavement and hurt himself, knew no more than an idiot what knocked him down, though he did know -- what the idiot could hardly do -- that his normal condition was idiocy, or want of balance, and that his sanity an unstable artifice. His normal thought was dispersion, sleep, dream, inconsequence; the simultaneous action of different thought-centres without central control. His artificial balance was acquired habit. He was an acrobat, with a dwarf on his back, crossing a chasm on a slack-rope, and commonly breaking his neck.»

(The Education of Henry Adams)

O citador incorrecto

"I'm gonna get medieval on your mind"

Conversa de pub

(Dois trintões sisudos trocavam reminiscências...)

--Gostava de poder voltar à escola, com a idade que tinha na altura, mas sabendo tudo aquilo que sei hoje.
--A ideia não é má; o problema é que eu, por exemplo, sei menos hoje do que sabia quando entrei para a Preparatória.

Odd man out

O Robert, meu flatmate em Edimburgo durante um ano e meio, fez anos ontem. No mesmo dia em que nasceram Freddie Mercury, Arthur Koestler, Jesse James. E também aquele que é o meu pintor Romântico preferido: Caspar David Friedrich.
Curiosamente, deste quinteto heterogéneo, o Robert não é o odd one out.

Airport Security Oversights

Airport Security Oversights
September 6, 2006


A Connecticut man was recently arrested for carrying a stick of dynamite in his checked luggage on a flight back from Brazil. Here are some other items that have passed through airport security recently:

July 24, Houston to New York: Unauthorized liquids, cleverly hidden within cell membranes of passenger
July 28, Portland, OR to Topeka, KS: 16 pounds of science textbooks
Aug. 15, Pittsburgh to Detroit: VHS tape of Nothing But Trouble, starring Chevy Chase and Dan Aykroyd
Aug. 19, Washington, DC to Darfur: Hope
Aug. 23, Bangkok, Thailand to Orlando, FL: Monkey's paw with one wish left
Aug. 29, São Paulo, Brazil to Hartford, CT: More mining equipment, including Komatsu PC400LC-7 deep excavator
Aug. 31, Sydney, Australia to Los Angeles: Russell Crowe
Sept. 3, London to New York: A few Muslim people may have slipped through with their dignity

(The Onion)

terça-feira, setembro 05, 2006

Código da estrada - King James Version

Mercury Prize

O vencedor é anunciado daqui a uma hora. Fazendo fé nos melhores indicadores de intenções da Grã-Bretanha (as agências de apostas) os Arctic Monkeys serão os galardoados de 2006. E justamente, embora eu tenha atribuído, a título particular, uma sentimental menção honrosa ao álbum de duetos da Isobel Campbell e do Mark Lanegan (especialmente pela faixa "The False Husband", que é soberba).
Os juízes do Mercury têm, contudo, um longo cadastro de decisões injustificáveis, das quais se redimiram parcialmente nos dois últimos anos. Mas há quem tenha deixado de levar o prémio a sério em 1997, quando o Ok Computer foi considerado menos brilhante que um álbum do Roni Size. Tão ou mais grave, na minha opinião foi terem preferido o Bring it On dos Gomez ao Mezzanine dos Massive Attack, ou terem premiado em 2002 um banalíssimo naipe de clichés hip-hop - Ms Dynamite - em detrimento do melhor álbum a saír de Liverpool desde Ocean Rain - o homónimo álbum de estreia dos excelentes The Coral.
Este ano, as possibilidades de espalhanço são reduzidas. O prémio não ficaria mal a nenhum dos cinco álbuns nomeados que conheço (Monkeys, Campbell/Lanegan, Gillemots, Hot Chip e Thom Yorke) e até os Muse - nos quais não vejo nem ouço nada de especial - editaram o que dizem ser o seu melhor disco.
Às 21 horas saberemos. Mas, parafraseando Darwin, o dinheiro inteligente está mesmo nos macacos.

Alvo fácil

Na secção musical de um diário online português leio uma referência a um "conserto" dos Rolling Stones. Os pobres dinossauros começam a ser um alvo cómico demasiado fácil.

Ementa

«Sanduíche de Britney Spears em leilão»

(PortugalDiário.iol.pt)

A pergunta que se impõe é: o pão é branco ou integral?

segunda-feira, setembro 04, 2006

Hurt


Trent Reznor. Johnny Cash. Ouvir sem moderação.

Leitura obrigatória

April March, Herbert Quain
Romanticism and Christianity, Moses Herzog
Beltraffio, Mark Ambient
The Grasshopper Lies Heavy, Hawthorne Abendsen
The Protocols of the Elders of Tralfamadore, Kilgore Trout
Night Rote, John Shade
The Courier's Tragedy, Richard Wharfinger
The Theory and Practice of Oligarchical Collectivism, Emmanuel Goldstein

Na minha rua não há mulheres assim (III)


Claire Forlani, actriz inglesa

Junta-te ao clube, compra a t-shirt

«Representar não é muito difícil. As coisas mais importantes são saber rir e chorar. Se quero rir, penso na minha vida sexual. Se quero chorar, penso na minha vida sexual.»

(Glenda Jackson, vencedora de dois Óscares e actual membro do parlamento britânico)

sábado, setembro 02, 2006

Fallen Majesty


... this hand alone,
Like some last courtier at a gypsy camping-place
Babbling of fallen majesty, records what's gone.

(W. B. Yeats)

Aniversário


Joseph Roth, nascido a 2 de Setembro de 1894, autor de um dos melhores romances da literatura moderna: A Marcha de Radetzky, um longo epicédio à Casa de Habsburgo.

Das botas de feltro


«O Marxismo pode responder à seguinte pergunta: porque é que o muzhik há-de acreditar nos espíritos, enquanto usar botas de feltro? As botas de feltro definem o modo camponês de produção; por, sua vez, este último provoca uma série de fenômenos estreitamente ligados à botas de feltro – um horizonte limitado, uma dependência de escravo face à chuva, ao sol e outros fenómenos naturais elementares que, em conjunto, criam as superstições do camponês. O marxismo pode tentar explicar tudo isso. Mas poderá o marxismo ensinar como se fazem botas de feltro? Não, não pode. Pode explicar porque é que o muzhik usa botas de feltro – porque em sua volta há apenas floresta, a lama e a pobreza – mas não é possível coser botas de feltro segundo o método marxista!»

(Leon Trotsky, Saber Militar e Marxismo)

sexta-feira, setembro 01, 2006

O livro dentro do livro


Tenho passado os últimos dias a ler - aos repelões, e com o restolhar constante da hesitação - a monumental 'Vida' de Chekhov, por Donald Rayfield. Percebi, ao fim de poucas páginas, que não é o tipo de biografia que prefiro. Rayfield, aliás, define os seus termos no Prefácio quando escreve que "biografia não é crítica literária"; e dedica as 674 páginas seguintes a ilustrar esta proposição. Os contos e as peças são referidos apenas tangencialmente e, na maioria dos casos, apenas como suporte à velha party-piece da biografia de autores: o nebuloso processo pelo qual a experiência é transformada em arte.
Sempre gostei mais de ler o auto-exame de um escritor, por muito rarefeito que seja o oxigénio da verdade; o défice factual costuma ser compensado pela abundância de talento. Estou a pensar, claro, na Educação de Henry Adams (cuja edição anotada dedica muitas linhas a corrigir erros do autor: "Adams misremembers the date...", "Adams is wrong about this..."). Mas também noutras autobiografias, que se podem ler e reler pelo puro deleite estético que proporcionam, libertas do espartilho da ordenação dos factos: a Biographia Literaria de Coleridge, o Persons and Places de Santayana, o Experience de Martin Amis.
Dentro do cárcere genérico que escolheu, contudo, Rayfield faz um trabalho notável. Não se limita à leitura obstinada das mais de cinco mil cartas de Chekhov (em 31 volumes) - arranja ainda tempo para lamentar as dezenas de parágrafos truncados pelos editores, bem como algumas passagens riscadas pelos destinatários. Lê também, com resultados hilariantes, grande parte das receitas médicas que o doutor Chekhov passou. E até alguns exames do estudante Chekhov, na faculdade de Medicina (embora tenha experimentado "dificuldades de acesso" aos exercícios de aula, admite resignadamente). Lá para o vigésimo capítulo o leitor recusa sequer contemplar a possibilidade de algum incidente relevante na vida de Chekhov ter escapado ao escrutínio opressivo do biógrafo-detective.
Num sentido, pelo menos, o livro de Rayfield é um triunfo. O Chekhov que ele exuma (vital, pândego, generoso, atormentado, deliciosamente humano) é muito mais apelativo que o Chekhov mitológico dos anteriores esforços biográficos, encapsulado na célebre frase de Dovlatov: "Podemo-nos sentir assombrados pela mente de Tolstoi, maravilhados com a elegância de Pushkin. Apreciar a demanda moral de Dostoievski, o humor de Gogol. E por aí fora. Chekhov, contudo, é o único homem a quem gostaríamos de nos assemelhar." Ao tentar erigir um anti-mito, Rayfield acaba por (inadvertidamente) esculpir apenas um pedestal diferente.


Mas dentro destas 674 páginas inchadas com factos, nomes e datas, há uma dieta superior a querer sair: um manual de sedução. Alguns exemplos, mais ou menos ao acaso:
. na página 212, o herói "inicia um affair com Kleopatra Karatygina; leva-a a ver Les Huguenots e receita-lhe laxantes";
. oitenta páginas depois, o herói rebola-se alegremente num quarto de hotel com duas actrizes moscovitas, uma delas de 19 anos, no mesmo dia em que escreve, numa carta ao seu amigo e editor Suvorin, que "todos os pensadores são sexualmente impotentes quando chegam aos 40 anos". (Chekhov tinha 33);
. na página 337, a filha de Tolstoi confessa pensamentos pecaminosos sobre o herói, depois de um único - e brevíssimo - encontro;
. alguns meses depois, a lasciva Lidia (outra actriz - um elemento recorrente) escreve a seguinte nota ao herói: "Vem imediatamente, Antosha! Estou em desespero. Vem, querido. E não há salada. Encomenda alguma. Beijo-te com força, Lidia." (Rayfield abstém-se decorosamente de comentar a necessidade de salada).
Proponho como epígrafe a este livro inexistente uma passagem do célebre bloco de notas de Chekhov, o caderninho onde ele apontava ideias para contos, manchetes de jornais locais ou observações aleatórias, como esta:
"Se queres ser amado pelas mulheres, sê original; conheço um homem que usava sempre botas de feltro, no Verão ou no Inverno, e as mulheres apaixonavam-se constantemente por ele."

Na selva

Há dias em que penso que também eu perdi a minha oportunidade com a May Bartram.