domingo, outubro 08, 2006

O blog de Moisés (I)


«I've always wanted very much to lead a moral, useful, active life. I never knew where to begin. One can't become utopian. It only makes it harder to discover where your duty really lies.»

(Saul Bellow, Herzog)

quinta-feira, outubro 05, 2006

6 de Outubro, 1910


Não sei de figura mais encharcada em pathos que a do monarca exilado. Bonaparte a coxear por Sta. Helena, o Rei Hussain a apaixonar-se por uma égua ao sol de Chipre, os Habsburgos a apodrecerem no Funchal, desdobrando-se em ineptas séances nocturnas às quais teimavam em comparecer os espíritos errados.
Desconheço como ocupou Dom Manuel II as suas últimas décadas em Twickenham, mas desconfio que se dedicou a ler folhas de chá e conjunções planetárias, que apostou bastante nos cavalos, e que evitou tráficos de qualquer espécie com avatares de Sadi Carnot, sendo por isso merecedor do nosso veemente respeito.
Desconheço também se o iate real «Amélia» desbravou tempestades a caminho de Gibraltar, naquela noite aziaga, em qual caso podem muito bem ter ocorrido ao último dos Braganças reais ("reais") aqueles melancólicos versos incluídos nas cartas de exílio de Ovídio, quod nisi mutatas emiserit Aeolus auras/in loca iam nobis non adeunda ferar, recitados de si para si, enquanto, debruçado sobre a amurada, tentava combater o enjoo.

Birmânia!


O meu sketch favorito - 2ª série, 9º episódio.

Feriado silencioso

Noto com tristeza que o 5 de Outubro passou praticamente despercebido na blogosfera portuguesa. Se há efemérides que merecem ser condignamente assinaladas, o aniversário da transmissão do 1º episódio do Monty Python's Flying Circus na BBC é certamente uma delas.
Fica aqui o reparo, e um solitário assoprar de velas.

quarta-feira, outubro 04, 2006

Oitava estrofe


Este melro está envolvido no que eu sei.

Eram vinte acções da Hartford, por favor

Em 1934, o vice-presidente da Hartford Accident & Indemnity Company escreveu o seguinte no seu bloco de notas, depois de uma longa reunião:

The sea was not a mask. No more was she.

It wasn't funny the first time

terça-feira, outubro 03, 2006

I dream of cherry pies, candy bars and chocolate chip cookies



Eu sei que ninguém me perguntou, mas a melhor canção dos Talking Heads chama-se Nothing but Flowers, está incluída neste álbum, e eu achei que devia informar-vos.

O outro

Há um Rogério Casanova no Brasil. É membro da Associação Brasileira de Soldadores, e a sua especialidade é a soldagem com arco eléctrico. O seu curriculum vitae (que não vou divulgar, por respeito à sua privacidade) é muito mais impressionante que o meu.
Queria enviar-lhe um abraço transatlântico e dizer-lhe que, se ele estiver interessado, tenho experiências de vida para a troca.

Numa Economia Planeada isto não acontecia

Entrei recentemente numa loja de artigos para viagem, onde encontrei à venda (por 129 euros), um isqueiro capaz de funcionar até nas mais não-colaborantes condições meteorológicas - incluindo furacões.
Não querendo tecer quaisquer considerações sobre o consumidor-alvo, há, contudo, uma questão que me parece relevante: a não ser que a mesma companhia se dedique também ao fabrico de um tipo de cigarro que obedeça aos mesmos princípios, o artigo não será um bocado supérfluo? De que me serve conseguir acender o isqueiro na próxima visita do Gordon se o Marlboro teima em se apagar logo de seguida?

(Nota: o lojista evitou estas minhas perguntas/observações com um nível de serenidade visivelmente decrescente)

segunda-feira, outubro 02, 2006

O autocarro vermelho e o choque dos bules


«...On my first trip anywhere - it was 1957 and I landed in Edinburgh with the roaring of the plane's four mammoth propellers for days afterwards embedded in my ears - I rode a red airport bus to the middle of the city, out of which ascended its great castle. Is is a fairy-book castle, dreamlike, Arthurian, secured in the long-ago. But the shuddery red bus -hadn't I been bounced along in an old bus before, perhaps not so terrifically red as this one? - the red bus was not within reach of plain sense. Every inch of its interior streamed with unearthliness, with an undivulged and consummate witchery. It put me in the grip of a wild Elsewhere. This unexceptional vehicle, with its bright forward snout, was all at once eclipsed by a rush of the abnormal, the unfathomably Martian. It was the bus, not the phantasmagorical castle, that clouded over and bewildered our reasoned humanity. The red bus was what I intimately knew: only I had never seen it before. (...)
This is what travellers discover: that when you sever the links of normality and its claims, when you break off from the quotidian, it is the teapots that truly shock.»

A incomparável Cynthia Ozick, que viaja ainda pior do que eu, descobriu assim a minha cidade. Ofereço o seu testemunho como esclarecedora adenda e lúcido epílogo à minha passagem por Bruxelas.

(Nota: o texto completo está incluído na recolha de ensaios Metaphor & Memory, de 1991)
(Nota 2: não me vou casar com Cynthia Ozick, apesar dos seus pedidos insistentes)

Revisão do BI

Na autobiografia de Gore Vidal, Palimpsest, o coscuvilheiro de serviço das letras americanas revela que Tennesse Williams cultivava o hábito de subtrair quatro anos à sua idade real. Quando confrontado por um jornalista mais atento, Tennesse justificou a discrepância dizendo que não contava ("obviamente") os quatro anos que passara em empregos aborrecidíssimos.
Seguindo uma fórmula actualizada - que exclui igualmente todo o tempo que passei a ver televisão, a jogar computador, a esforçar-me por perceber a importância de John Coltrane, e a tentar reparar as persianas cinzentas de uma janela de cozinha em Alverca - eu completei hoje dezoito anos.
Parabéns, portanto, a mim.

Ego pendente

Os relatórios de entrega de sms's, apesar de úteis, estão muito aquém do desejado. Faço votos sinceros para que os telemóveis de 4ª geração nos cheguem às mãos com a capacidade de informar se a mensagem, além de recebida, foi também lida, relida, entendida, saboreada - e gravada permanentemente na memória.
Senhores engenheiros: ao trabalho.

domingo, outubro 01, 2006

Cocoa bean politics

Que existem chocolates "de esquerda" e chocolates "de direita", parece-me relativamente incontroverso. Mas eu não sou um ideólogo. Nunca tendo cedido aos satânicos encantos das barras vintage da marca Valrhona (um chocolate de direita, se é que há um), e orgulhosamente invulnerável à corrupta tentação da marca Nestlé (cujo próprio cacau está mais à esquerda que a Rosa Luxemburgo), mantive uma duradoura fidelidade ao singelo (se, admito-o, algo conservador) centrismo das barras Dairy Milk da Cadbury.
(Isto se não contarmos com um brevíssimo devaneio na minha radical adolescência, que me conduziu ao consumo de sete rectângulos de Grand Couva - não me peçam para elaborar).
Mas até as mais moderadas tendências estão sujeitas a flutuações. E eu quero declarar aqui que sofri, nas últimas 48 horas, uma conversão. E que é grande a probabilidade de nunca mais vir a tocar numa tablete que não traga o selo inconfundível da Lindt & Sprüngli, edição deluxe.

... Pois se é a própria Natureza que te alerta?

Num programa da BBC2, aprendo que os frequentes bocejos do papa-formigas são um mecanismo corporal que lhe permite humedecer a língua, mantendo-a com o grau de viscosidade necessário para a caça.
Interrogo-me, no instante seguinte, sobre a possibilidade de os meus próprios bocejos frequentes serem um mecanismo cerebral, informando-me que já tenho idade suficiente para deixar de fingir que gosto de programas sobre a vida animal.

sábado, setembro 30, 2006

Comadres

O mundo literário também é pródigo em confusões, mas começo a acreditar que os anos de ouro já lá vão. Onde estão os sucessores de Norman Mailer, que passou décadas gloriosas a esfaquear esposas e a pregar valentes cabeçadas a Gore Vidal em festas novaiorquinas?
No The Guardian de hoje, Salman Rushdie (na minha lista negra desde o ridículo Fury) reagiu publicamente pela primeira vez a uma crítica mordaz que John Updike fizera ao seu (igualmente ridículo) Shalimar the Clown, nas páginas da New Yorker. A peça em questão abria com uma pergunta retórica: "Why oh why did Salman Rushdie in his new novel call one of his characters Maximilian Ophuls?", nome que deixa implícita uma referência ao homónimo realizador alemão que o resto do livro não desvenda. Descuido? Prestidigitação?
A resposta de Rushdie: "A name is just a name. 'Why oh why?...' Well, why not? Somewhere in Las Vegas there's probably a male prostitute called 'John Updike'."
Até nem é má, a resposta. Mas - ladies, is that the best you can do? Alguém lhes dê dois tacos de baseball, se faz favor.

"Forget it, Vladimir. It's Reykjavik"


O sempre cordial mundo do xadrês competitivo voltou a desaguar numa caldeirada de mau sangue. 24 anos depois do "Cameragate" em Reiquiavique, temos agora o "Toiletgate" de Kalmykia.
Devo dizer, contudo, que o meu coração pende para Kramnik. E que atire a primeira pedra aquele que não pensaria duas vezes antes de aceitar partilhar uma retrete com Topalov.

Desabafo

Permitam-me que partilhe o seguinte desabafo: o cavalinho Fairmile, treinado pelo normalmente fiável WR Swinburn, sofreu hoje a humilhação de terminar a das 15:45 em Newmarket num escandaloso 18º lugar, ele que era um claro favorito.
Duas consequências imediatas desta calamidade:
1. esta noite não vou jantar fora;
2. quem for, terá provavelmente a oportunidade de comer um bife retirado ao dorso do cavalinho Fairmile.

Self-Made Man

Regresso

Está tudo na mesma.

quinta-feira, setembro 28, 2006

O resto do Mundo


Em Bruxelas, à luz do Sol, dois estranhos apontam o dedo à multidão.

terça-feira, setembro 26, 2006

Bruxelas

Não é, de todo, semelhante ao esbatido postal mental que dela tinha.
Esperava a opulência burocrática do centro do Império; mas esta tem apenas uma visibilidade residual em meia dezena de quarteirões, onde sedes bancárias e tribunais futuristas se espelham monotonamente uns aos outros.
Esperava também uma cidade multi-cultural - o velho cliché londrino; não esperava um bi-culturalismo nervoso, que me fizesse lembrar certos bairros de Birmingham.
Tivémos décadas para assimilar a ameaça de que o crescente impulso para a homogeneização económica e cultural faria com que todas as grandes capitais se parecessem umas com as outras, as diferenças lentamente erodidas pela presença ubíqua dos espectros de John Pemberton e Dick e Mac McDonald. Mas esta ameaça sempre teve concretização interna num certo tipo de "viajante" (palavra que deve ser sempre sequestrada entre aspas).
Pessoalmente, noto que cada lugar que visito é semelhante aos que visitei anteriormente, e é totalmente diferente daqueles onde nunca estive. O factor de ligação é, obviamente, a minha pessoa.
Disto resulta que um cartaz prometendo revelações sobre a vida sexual de Tintim, colado à porta de uma sapataria abandonada, me tenha feito lembrar Moscavide. Ou que uma mulher de meia-idade envergando um par de óculos amarelos absurdamente grandes e um par de sandálias amarelas absurdamente pequenas me tenha feito lembrar Cracóvia. Ou que um mulato esquelético empurrando uma máquina de Raios-x ao longo da linha do Eléctrico me tenha feito lembrar Glasgow (onde nem sequer há Eléctrico).
Cada cidade nova é um espelho adequado apenas dos bolsos traseiros das calças. Do direito, onde tenho os cartões de débito; e do esquerdo, onde guardo, no seu estado embriónico, o índice remissivo da desordem no interior da minha cabeça.

... E Sadi Carnot ri-se na escuridão do tùmulo



Mais cedo ou mais tarde, esteja onde estiver, qualquer ser humano acaba por se sentar e ligar a televisão.

sexta-feira, setembro 22, 2006

O lugar na estante

Duas pessoas, ambas de impecável e insuspeito gosto literário, discordaram cordialmente (uma por mail, outra em pessoa) de um efémero post que escrevi aqui há tempos sobre Don DeLillo. Impus a mim próprio uma reiteração qualificada. Eu continuo a achar DeLillo um grande escritor, tal como achava quando descobri os seus livros com assombro em 2000, na Bibioteca Pública de Birmingham. Os seus livros, precisamente, é que me parecem cada vez menores. E isto não um paradoxo de trazer por blog. Permitam-me um desvio.
Numa recolha de textos sobre os encontros entre Kasparov e a 1ª versão do Deep Blue em 1996, lembro-me de ter lido alguém, enamorado pela sua Espécie, que se gabava que qualquer Grande Mestre podia olhar para a notação da segunda partida e detectar imediatamente qual era a linha humana e qual a da máquina. Vale a pena realçar que a recolha agrupava autores cujo interesse pelo xadrês se assemelha ao meu: apaixonado, mas declaradamente leigo. (Xadresismo lowbrow, digamos). Alguém que conhece o jogo muito melhor do que eu ou o autor do referido texto garantiu-me recentemente que essa superstição já não tinha fundamento na altura e que vai sendo cada vez mais descabida; não porque as máquinas tenham evoluído e encurtado a distância (embora o tenham feito), mas porque o jogo humano - especialmente ao mais alto nível competitivo - permite cada vez menos espaço ao movimento ousado, à inovação radical, ao descuido genial.
Hipoteticamente, seria então possível, ao leitor batido e experimentado, detectar o dedo cibernético na literatura que, numa década lá para o meio do séc. XXI, fosse produzida por um Dark Deep Rainbow, autor de sonetos heróicos e romances espistolares, com © da IBM? Agrada-me, obviamente, pensar que sim. E a questão aqui não é de mera qualidade. Tenho dificuldade em admitir que um computador pudesse escrever Herzog, Pnin ou Mating, mas também o Valley of the Dolls, o Jaws ou o Sei Lá. O livro genuinamente mau, por muito formulaico que seja, tem de florescer de um impulso criativo também ele genuíno - a má Arte é quase sempre involuntária.
Mas custa-me menos a conceber que uma máquina pudesse ser programada para escrever como DeLillo.
Releio, para tirar teimas, algumas partes de Underworld que me ficaram na memória: os B-52's no deserto, os espantosos monólogos fictícios de Lenny Bruce, o episódio em que um padre Jesuíta força Nick a nomear as várias partes componentes de um sapato. Tudo isto permanece admirável. O que não existe, ou é raro, é o pulsar de uma consciência.
O meu sempre fiável James Wood (o melhor crítico contemporâneo em língua inglesa), numa das suas lúcidas diatribes contra o que ele chama "Realismo Histérico", alertou para o perigo de se usar a paranóia como elemento estruturante de uma narrativa - vício comum a uma geração inteira de escritores americanos operando sob a sombra monumental de Gravity's Rainbow. Delillo cai no alçapão que ele próprio cavou: ao insistir que tudo está interligado, força o leitor a constatar que nenhuma dessas ligações é ao nível humano.
Nos três contemporâneos de DeLillo que são, linha por linha, tão bons como ele - Roth, Pynchon e Norman Rush - esse pulsar está presente em cada página. Em DeLillo é apenas vapor, um vapor que ganha alguma solidez - a espaços - em White Noise, o mais doméstico dos seus romances, e na secção mais autobiográfica de Underworld, que trata da infância de Nick Shay no Bronx.
Mas um escritor capaz do desastre estético que é Cosmopolis (reafirmo: um dos piores romances que li nos últimos anos) tem forçosamente de ser reavaliado. E o resto da obra de DeLillo podia ter sido facilmente encapsulada em mini-ensaios; os artifícios específicos da ficção são, nele, quase sempre contingentes.
Por isso, apesar dos vários prodígios da sua escrita, na minha estante ele permanecerá entre o America de Baudrillard e os Derridas, não entre Bellow e Pynchon.

quinta-feira, setembro 21, 2006

Penitência

Espreito um dicionário gramatical na Bertrand e descubro uma coisa assombrosa: ando há anos a utilizar incorrectamente o advérbio demais nas situações em que devia usar a locução adverbial de mais. E isto sem nunca ninguém ter tido a gentileza de me corrigir. Como penitência, decidi escrever 100 vezes num caderninho: "De mais: locução adverbial que significa a) uma quantidade excessiva, b) além do devido ou necessário, c) muito. Demais: advérbio equivalente a além disso ou de resto."
Sugiro aos outros prevaricadores que façam o mesmo.

Hugo Chávez fala de Sadi Carnot às Nações Unidas

Ciganos da Ucrânia


Descobri-os em Junho, no programa do Jools Holland, mas só ontem comprei o cd. Está a 16.95 euros na Fnac. Acreditem: é uma pechincha.

Hoje fazem anos




Três amigos meus.

segunda-feira, setembro 18, 2006

"bent in/ By the blows of what happened to happen"

Nada do que me acontece é planeado.

Zapruder


Enfim, estou chateado. Em parte, porque não consigo decidir se o futebol português precisa de um Earl Warren ou de um Jim Garrison.