
(Saul Bellow, Herzog)
I am for all the good things, against all the bad ones. - Saul Bellow


Que existem chocolates "de esquerda" e chocolates "de direita", parece-me relativamente incontroverso. Mas eu não sou um ideólogo. Nunca tendo cedido aos satânicos encantos das barras vintage da marca Valrhona (um chocolate de direita, se é que há um), e orgulhosamente invulnerável à corrupta tentação da marca Nestlé (cujo próprio cacau está mais à esquerda que a Rosa Luxemburgo), mantive uma duradoura fidelidade ao singelo (se, admito-o, algo conservador) centrismo das barras Dairy Milk da Cadbury.
(Isto se não contarmos com um brevíssimo devaneio na minha radical adolescência, que me conduziu ao consumo de sete rectângulos de Grand Couva - não me peçam para elaborar).
Mas até as mais moderadas tendências estão sujeitas a flutuações. E eu quero declarar aqui que sofri, nas últimas 48 horas, uma conversão. E que é grande a probabilidade de nunca mais vir a tocar numa tablete que não traga o selo inconfundível da Lindt & Sprüngli, edição deluxe.

Duas pessoas, ambas de impecável e insuspeito gosto literário, discordaram cordialmente (uma por mail, outra em pessoa) de um efémero post que escrevi aqui há tempos sobre Don DeLillo. Impus a mim próprio uma reiteração qualificada. Eu continuo a achar DeLillo um grande escritor, tal como achava quando descobri os seus livros com assombro em 2000, na Bibioteca Pública de Birmingham. Os seus livros, precisamente, é que me parecem cada vez menores. E isto não um paradoxo de trazer por blog. Permitam-me um desvio.
Numa recolha de textos sobre os encontros entre Kasparov e a 1ª versão do Deep Blue em 1996, lembro-me de ter lido alguém, enamorado pela sua Espécie, que se gabava que qualquer Grande Mestre podia olhar para a notação da segunda partida e detectar imediatamente qual era a linha humana e qual a da máquina. Vale a pena realçar que a recolha agrupava autores cujo interesse pelo xadrês se assemelha ao meu: apaixonado, mas declaradamente leigo. (Xadresismo lowbrow, digamos). Alguém que conhece o jogo muito melhor do que eu ou o autor do referido texto garantiu-me recentemente que essa superstição já não tinha fundamento na altura e que vai sendo cada vez mais descabida; não porque as máquinas tenham evoluído e encurtado a distância (embora o tenham feito), mas porque o jogo humano - especialmente ao mais alto nível competitivo - permite cada vez menos espaço ao movimento ousado, à inovação radical, ao descuido genial.
Hipoteticamente, seria então possível, ao leitor batido e experimentado, detectar o dedo cibernético na literatura que, numa década lá para o meio do séc. XXI, fosse produzida por um Dark Deep Rainbow, autor de sonetos heróicos e romances espistolares, com © da IBM? Agrada-me, obviamente, pensar que sim. E a questão aqui não é de mera qualidade. Tenho dificuldade em admitir que um computador pudesse escrever Herzog, Pnin ou Mating, mas também o Valley of the Dolls, o Jaws ou o Sei Lá. O livro genuinamente mau, por muito formulaico que seja, tem de florescer de um impulso criativo também ele genuíno - a má Arte é quase sempre involuntária.
Mas custa-me menos a conceber que uma máquina pudesse ser programada para escrever como DeLillo.
Releio, para tirar teimas, algumas partes de Underworld que me ficaram na memória: os B-52's no deserto, os espantosos monólogos fictícios de Lenny Bruce, o episódio em que um padre Jesuíta força Nick a nomear as várias partes componentes de um sapato. Tudo isto permanece admirável. O que não existe, ou é raro, é o pulsar de uma consciência.
O meu sempre fiável James Wood (o melhor crítico contemporâneo em língua inglesa), numa das suas lúcidas diatribes contra o que ele chama "Realismo Histérico", alertou para o perigo de se usar a paranóia como elemento estruturante de uma narrativa - vício comum a uma geração inteira de escritores americanos operando sob a sombra monumental de Gravity's Rainbow. Delillo cai no alçapão que ele próprio cavou: ao insistir que tudo está interligado, força o leitor a constatar que nenhuma dessas ligações é ao nível humano.
Nos três contemporâneos de DeLillo que são, linha por linha, tão bons como ele - Roth, Pynchon e Norman Rush - esse pulsar está presente em cada página. Em DeLillo é apenas vapor, um vapor que ganha alguma solidez - a espaços - em White Noise, o mais doméstico dos seus romances, e na secção mais autobiográfica de Underworld, que trata da infância de Nick Shay no Bronx.
Mas um escritor capaz do desastre estético que é Cosmopolis (reafirmo: um dos piores romances que li nos últimos anos) tem forçosamente de ser reavaliado. E o resto da obra de DeLillo podia ter sido facilmente encapsulada em mini-ensaios; os artifícios específicos da ficção são, nele, quase sempre contingentes.
Por isso, apesar dos vários prodígios da sua escrita, na minha estante ele permanecerá entre o America de Baudrillard e os Derridas, não entre Bellow e Pynchon.