terça-feira, outubro 17, 2006

Mitridatismo

Projecto:
Na primeira semana, ler um conto de Henry James. Na segunda semana, ler dois contos de Henry James. Na terceira semana, ler...
Ir aumentando gradualmente as doses até ao Natal, e encetar a leitura de The Ambassadors no dia 1 de Janeiro de 2007, sem receio de intoxicação.

segunda-feira, outubro 16, 2006

E já agora

Não me parece despropositado aproveitar este momento para reiterar que o autor deste blog é, como a Grande Sombra que o tutela, veementemente a favor de todas as coisas boas e contra todas as coisas más.

"Tu lembras-te muito bem do que é que eu disse"

Começa a ganhar contornos de "padrão", e confesso que dos mais enfadonhos, isto de explicar constantemente às pessoas que, na esmagadora maioria dos casos, eu não me lembro mesmo do que é que foi dito.
Especialmente enfadonho quando o tenho de repetir a pessoas que se lembram muito bem que eu já lhes expliquei isto anteriormente.

domingo, outubro 15, 2006

Errata

Não era bem isto que eu queria dizer.

1º Concurso "Pastoral Portuguesa"

Oferece-se uma barra de chocolate Lindt & Sprüngli (deluxe) a quem souber a resposta certa a esta pergunta?

Wikipedia is bad for you


O meu propósito era simples: encontrar uma boa foto de Bridget Moynahan, uma das actrizes mais bonitas que vi num ecrã de televisão nos últimos tempos. Estava tudo a correr bem. Aprendi que ela tem a tatuagem de uma lua verde no tornozelo e que, no liceu, atacou uma colega com uma rede de lacrosse. Os problemas começaram aqui: não tinha bem a certeza do que raio era lacrosse. Na minha resoluta ignorância sobre qualquer desporto que nunca tenha sido praticado pelo Sá Pinto, pelo Ivanisevic ou pelo Capablanca, imaginei uma coisa com cavalos e tacos compridos, mas sem balizas. Carreguei no link para confirmar. Feita a confirmação (não há cavalos nem tacos) lancei-me de cabeça para a página sobre Jean de Brébeuf, o missionário jesuíta que trouxe o jogo para a Europa depois de ter visto os Iroquois a jogar uma partidinha entre massacres. Esperem lá, Iroquois? Isto parece-me interessante... e por aí fora.
Utilizo a internet há seis anos e ainda não aprendi as duas regras cardinais: parar ao terceiro link, e nunca deixar comida no forno. Assim não há alarme de incêndio que resista.
Mas enfim, perguntem-me o que quiserem sobre o profeta Handsome Lake, Quakers, ou serviços de ambulâncias voluntários.

Capitalismo selvagem

Uma confissão:
Nas férias grandes de 1989, aproveitando um raro momento de distracção de um adversário volátil mas sempre leal, ergui um hotel na Rua do Ouro (Verde - Lisboa) quando nela tinha apenas três casas.
Amigo, desculpa.

Pódio

Um apaga os arquivos durante a noite, outro queixa-se do relógio e do calendário, este tira férias durante um mês e não escreve aos fins-de-semana,
Mas os três continuam a formar o pódio, aparentemente inalterável*, dos meus blogs de cabeceira.

*Pelo menos, até este deixar de brincar aos Lázaros.

Actualização

Mais dois blogs que justificam inclusão na lista de favoritos. Um é de Gaia e já sai de casa sozinho; o outro é de Londres e ainda vem envolvido na placenta. Ainda é cedo, mas ambos me parecem dignos de atenção.

sábado, outubro 14, 2006

Uma dica do Edgar


Se fosse vivo, Degas diria certamente que hoje é um excelente dia para meter uns trocos no cavalinho Kaseema, treinado por Sir Michael Stoute, na das 16:45 em Newmarket. E com Degas não se discute.

Pesadelo II

Não me recordo - e julgo que aqui fica bem o advérbio "felizmente" - de muitos pormenores. Mas sei que o pesadelo, como quase todos os meus pesadelos, foi uma adaptação livre de uma certa fantasia de Chesterton transposta para o Prior Velho, e que teve a duração aproximada de 60 minutos, sem intervalo.

Pesadelo I

A noite passada tive um pesadelo relacionado com blogs.
Se isto não é um sinal de que preciso respirar fundo, acalmar-me e passar a comer mais vegetais, não sei o que é que será um sinal de que preciso respirar fundo, acalmar-me e passar a comer mais vegetais.

Kramnik


Kramnik venceu o tie-break, com muita retenção de líquidos e um pouco de sorte à mistura. Na conferência de imprensa pós-encontro, revelou que estava desejoso de "se ir embebedar com os seus amigos" e que iria depois concentrar-se no jogo contra o programa de computador Deep Fritz em Novembro.
Quanto ao derrotado Topalov, vai agora dedicar mais tempo a melhorar a sua imitação de um boneco de neve parcialmente derretido.

sexta-feira, outubro 13, 2006

The Conquistador of the Useless

Pamuk

E por falar em preços, há quatro anos que tenho vinte libras empatadas no Philip Roth (a 12/1). Os lacaios de Sadi Carnot que mexem os cordelinhos das marionetas Nobel andam, claramente, a testar a minha força de vontade. Não pus dinheiro no Pynchon, nem na Ozick, nem no Barth, porque tenho juízo e sei o que é que a casa gasta. Mas caramba, o Roth agora porta-se bem. O Zuckerman deixou de escrever sobre o que é escrever sobre o Zuckerman. Já não há counterlives a diluir a seriedade formal. Na última década, ele premiu os botões todos.
O que é que o homem precisa fazer mais: ser preso por comparar desfavoravelmente o Presidente dos Estados Unidos ao gerente de uma loja de ferragens?
Dou-lhes mais um ano para exumarem um (digamos) poeta albanês encarcerado cuja obra grita por reconhecimento, mas em 2008 podem contar com a minha carta de protesto.

... meanwhile, back in Kalmykia

6-6, depois de dois empates arranhados. Kramnik já seria campeão, caso não tivesse vergonha de usar fraldas. A incontinência, claro, não é motivo para gracejos. O sinistro Topalov (que desenha pentagramas nos azulejos da casa-de-banho comum para perturbar o adversário) continua a sua rota indiferente para o inferno. As agências de apostas cá do sítio dão-lhe 15/8, um preço ligeiramente melhor que o de Kramnik, mas o meu interesse nisto dos preços é meramente académico.

Big Muzzy would never do this

No princípio achava giro, e tentava ser prestável. Depois veio a irritação. Por fim ocorreu-me que era possível começar a mentir - e tudo melhorou.
Falo de algo que a honestidade antropológica não me permite definir como tendência, apesar de já me ter acontecido dezenas de vezes neste país: a propósito de nada perguntarem-me "como se diz isto na tua língua?"
Ora, há um número restrito de vezes que um gajo pode explicar a estrangeiros a pronúncia correcta de algo tão inócuo como "bom dia" antes de se aborrecer. Por isso, lá para 2002 (deve ter sido em Abril, quando a bolha do tédio incha mais) passei a ensinar frases erradas. Primeiro o disparate, e depois (inevitavelmente) o palavrão.
É um vício. Sou o primeiro a admiti-lo. E, como todos os vícios, pode parecer infantil, supérfluo e desagradável, especialmente a terceiros que não o partilham. Mas o logro agarra. Diverte. Além disso, já estou muito bom na coisa para me reformar agora.
Portanto, da próxima vez que forem abordados em Lisboa por um sorridente cidadão britânico, e este vos pergunte, com sotaque bastante aceitável, se a vossa sogra gosta de felar dromedários no deserto, tenham calma e não pensem mal do "bife". Provavelmente, é apenas um amigo meu a perguntar por um bom restaurante.

Quando acometido por crises de sinestesia literária...

... o paciente gostava de descer a Silentwine Road, assobiando baixinho o "In The Cage" de Henry James.

quarta-feira, outubro 11, 2006

The Education of Franz Kafka


«Quando penso nisso, é-me necessário confessar que a minha educação me prejudicou muito por várias razões. Esta censura dirige-se a uma quantidade de pessoas, a saber: os meus pais, alguns membros da minha família, alguns frequentadores da nossa casa, diversos escritores, uma certa cozinheira que, durante um ano, me levava à escola, uma multidão de professores (que, na minha recordação, sou obrigado a comprimir estreitamente, sob pena de ver escapar algum, mas uma vez a multidão condensada, eis que o todo se desagrega em alguns lugares), um inspector escolar, transeuntes que caminhavam lentamente, afinal de contas esta censura volta-se como um punhal contra a sociedade inteira e nula, repito-o, ninguém pode estar certo de que este punhal não o venha a ameaçar um dia, à frente, nas costas ou no flanco. Esta censura, não podia suportar que a contradissessem. Como já ouvi muitas contradições, de que a maior parte foi refutada, alargarei a minha censura a essas contradições e declaro presentemente que a minha educação e esta refutação me prejudicaram por muitas razões.»

(Franz Kafka, num fabuloso "momento Henry Adams")

What could have been

Britpop should have been about two people: Neil Hannon and Luke Haines. Instead they made it about Damon fucking Albarn and Liam fucking Gallagher. What a waste.

(Um amigo meu, que sabe o que diz.)

O disco da casa


I fall in love with someone new practically every day
but that's ok
It's just the price I pay for being a man
(if that' really what I am)
And I refuse to take it all too seriously
It's such a strange activity
far too peculiar to be taken any other way

(Divine Comedy, «In and Out of Paris and London», da obra-prima que é Casanova)

terça-feira, outubro 10, 2006

The Kenosha Kid


(1)
The Kenosha Kid
General Delivery
Kenosha, Wisconsin, U.S.A.
Dear Sir:
Did I ever bother you, ever, for anything, in your life?

Yours truly,
Lt. Tyrone Slothrop


Tyrone Slothrop, Esq.
TDY Abreaction Ward
St. Veronica’s Hospital
Bonechapel Gate, E1
London, England

Dear Mr. Slothrop:
You never did.

The Kenosha Kid


(2)
Smartass youth: Aw, I did all them old fashioned dances, I did the “Charleston,” a-and the “Big Apple,” too!
Old veteran hoofer: Bet you never did the “Kenosha,” kid!
(2.1)
S.Y.: Shucks, I did all them dances, I did the “Castle Walk,” and I did the “Lindy,” too!
O.V.H.: Bet you never did the “Kenosha Kid!”

(3)
Minor employee: Well, he certainly has been avoiding me, and I thought that it might be because of the Slothrop Affair. If he somehow held me responsible—
Superior (haughtily): You! Never did the Kenosha Kid think for one instant that you...
(3.1) Superior (incredulously): You! Never! Did the Kenosha Kid think for one instant that you...?

4)
And on the mighty day on which he gave us in fiery letters across the sky all the words we’d ever need, words we today enjoy, and fill our dictionaries with, the meek little voice of Tyrone Slothrop, celebrated ever after in tradition and song, ventured to filter upward to the Kid’s attention: “You never did ‘the,’ Kenosha Kid!”

(5)
Maybe you did fool the Philadelphia, rag the Rochester, josh the Joliet. But you never did the Kenosha kid.

(6)
(The day of Ascent and sacrifice. A nation-wide observance. Fats searing, blood dripping and burning to a salty brown...) You did the Charleston stoat, check, the Forest Hills foal, check. (Fading now...) The Loredo lamb. Check. Oh-oh. Wait. What’s this, Slothrop? You never did the Kenosha kid. Snap to, Slothrop.

( . . . )
Slothrop: Where is he? Why didn't he show? Who are you?
Voice: The Kid got busted. And you know me, Slothrop. Remember? I'm Never.
Slothrop (peering): You, Never? (A pause.) Did the Kenosha Kid?

(Thomas Pynchon, Gravity's Rainbow)

Vê como bate o meu coração alcalino

Descobri uma marca de pilhas (muito obscura, e cujo nome desconhecia até há cerca de um mês) que é aflitivamente superior a todas as outras.
Onde as Energizer, Panasonic e Thomson sobreviviam entre seis a oito rotações completas da playlist do mp3, estas aguentam catorze, quinze, até mesmo - juro - dezasseis. Ando danadinho para lhes tecer louvores públicos.
O dilema é o seguinte: uma parte de mim (a mesma patética repartição mental que me leva a vestir como um labrego ensebado para certas partidas de futebol porque "estas são as roupas da sorte") receia que a magia das pilhas se acabe no momento em que revele o nome dos feiticeiros.
Chega um gajo ao século XXI para dar consigo a pensar desta maneira.

Você sabia que...

... em 1922, Marianne Moore fez Hart Crane chorar?

segunda-feira, outubro 09, 2006

O blog de Moisés (II)


«One way or another the no doubt mad idea entered my mind that my own actions had historic importance and this (fantasy?) made it appear that people who harmed me were interfering with an important experience.»

(Saul Bellow, Herzog)

Evangelismo

Três descobertas musicais relativamente recentes que inflamaram o meu proselitismo.
Antes de mais, Sufjan Stevens, a quem cheguei com alguns anos de atraso. O rapaz do 50 States Project não é apenas muito melhor do que eu pensava: é também muito melhor do que vocês pensam. E como se não lhe bastasse o talento, o lambe-botas teve o desplante de incluir no seu mais recente Avalanche (uma recolha de excedentes das sessões de Illinois) uma canção intitulada "Saul Bellow". Ora, há atalhos ainda mais rápidos para o coração casanovense, mas são poucos, e secretos.
De seguida, os 16 Horsepower, que escutei pela primeira vez há duas semanas, num banco de jardim em Bruxelas. Comprei o Folklore, que é sublime, e adivinhava já o nascer de uma dispendiosa obsessão. Felizmente os senhores separaram-se, portanto só tenho de me preocupar com o catálogo antigo.
Na mesma linha, mas noutro patamar, estão os Lift to Experience. O que é que eu posso dizer sobre os Lift to Experience, sem desamordaçar uma histeria que seria tão embaraçosa para mim como para o leitor? Vou, para bem de todos, limitar-me a transmitir informação. Dizer que o álbum de estreia é duplo e se chama The Texas-Jerusalem Crossroads. Que tem alguns pontos de contacto conceptuais com dois álbuns que me dizem muito, Hallowed Ground, dos Violent Femmes, e No More Shall We Part, de Nick Cave, embora musicalmente não se assemelhe a um nem a outro - nem a qualquer outra coisa, já agora, embora tenham sido repetidamente comparados aos My Bloody Valentine (é falso, falso!). Que o líder do grupo, Josh Pearson, descreve The Texas-Jerusalem Crossroads como um concept album sobre o fim do mundo, em que o Texas é a Terra Prometida. Que o Antigo Testamento nunca teve acordes tão bons.
Dizer, em suma, que são os Lift to Experience, senhoras e senhores, e que merecem a nossa devoção e o nosso dinheiro.

Stulta est gloria

Já vos contei daquela vez em que um avião de papel, construído e atirado por mim, fez um voo perfeito de 17 metros, precisamente quando ninguém estava a olhar?

Casanova, o útil

Podem achar aqui um simulador de lançamento de aviões de papel. Quem é amigo, quem é?

domingo, outubro 08, 2006

Birmingham - trilha sonora

(22:57)
"... Só quero realçar que eu não subscrevo aquela onda toda da autenticidade e do real; para mim, o real é um espaço interno que pode ou não ser partilhado, tipo, a níveis diferentes, estás a ver?..."

(23:12)
"... Sou perfeitamente capaz de falar com idiotas, mas apenas com um de cada vez..."

(23:45)
"... o seu olho fixava-me; parecia oco, a pupila suspensa no vazio, até que um feixe de luz incidiu nele, reflectindo tudo o resto. O efeito foi aflitivo: como ver uma cavidade encher-se de portentos..."

(00:49)
"...cancro! E logo a mim!..."

(01:36)
"... Se calhar o melhor é o pessoal ir para casa...
Qual ir para casa qual quê? Passei a vida inteira a ir para casa: sempre foi a pior parte da manhã. Nada do que eu quero está em casa. A casa nunca me alegra. E palpita-me que ela também não rejubila quando eu meto a chave à porta. Não. Isso de ir para casa é para outros, comigo não funciona. O exterior que me ature, há muito espaço livre por aí, fora de casa.
Olha, vem lá um táxi..."

Esta noite ouve-se


I said, Mama, he's crazy and he scares me
But I want him by my side.
Though he's wild and he's bad, and sometimes just plain mad
I need him to keep me satisfied.

I said, Papa, don't cry cause it's all right,
And I see you in some of his ways.
Though he might not give me the life that you wanted
I'll love him the rest of my days.

I said, Brother, you speak to me of passion.
You said never to settle for nothing less.
Well, it's in the way he walks, it's in the way he talks;
His smile, his anger and his kisses.

I said, Sister, don't you understand?
He's all I ever wanted in a man.
I'm tired of sitting around the T.V. every night
Hoping I'm finding a Mr. Right.

He says, Baby, don't listen to what they say.
There comes a time when you have to break away.
He says, Baby there are things we all cling to all our life.
It's time to let them go and become my wife.

Misguided Angel hanging over me.
Heart like a Gabriel, pure and white as ivory.
Soul like a Lucifer, black and cold like a piece of lead.
Misguided Angel, love you 'til I'm dead.



(«Misguided Angel», dos Cowboy Junkies. O álbum, o magnífico The Trinity Session, foi gravado em sessão única e com equipagem mínima, numa igreja de Toronto, na noite de 27 de Novembro de 1987. Nem tudo dos Junkies é merecedor de atenção; são frequentemente repetitivos, e muitas das suas composições soam apressadas ou inacabadas. Neste disco, contudo, não há esboços. Margo Timmins tem o tipo de voz que se associa mais facilmente ao trip-hop de Bristol do que a baladas de enterro, mas o seu timbre glacial é estranhamente adequado para narrar este conto vulnerável - que no fundo é o registo de um vício.
O resto é melhor ouvido no escuro, de preferência com a vida privada em farrapos, a televisão ligada no canal da mira técnica, e uma vela esculpida na forma de Sadi Carnot a arder lentamente dentro de um frasco de maionese vazio.)