terça-feira, outubro 31, 2006
We Await Silent Tristero's Empire
Durante o meu primeiro ano em Edimburgo, devo ter recebido perto de três dezenas de cartas endereçadas a um senhor Alistair Crump. Garantiu-me a agência imobiliária que não tinha qualquer registo de um inquilino anterior chamado Alistair Crump. No posto local do Royal Mail expliquei a situação. Garantiram-me que não voltaria a receber as cartas do senhor Alistair Crump. Uma semana depois, recebi nova carta para o senhor Alistair Crump. Esta sequência repetiu-se várias vezes. Por fim, acabei por mudar-me, mas, tanto quanto sei, os inquilinos que me sucederam continuaram a receber a volumosa correspondência do senhor Alistair Crump.
Na manhã de hoje, a quinhentas milhas de Edimburgo, recebi um envelope - em meu nome - contendo dez postais com ilustrações de cariz natalício, feitas por membros da Association of Mouth & Foot Painting Artists (AMFPA). Apesar de todo o respeito e solidariedade que a organização me merece, nunca subscrevi uma das suas newsletters ou encomendei qualquer um dos seus produtos. Desconheço os meios através dos quais eles obtiveram os meus dados.
Um dos ilustradores - que pintou com a boca um enorme castelo cinzento afundado em neves festivas - chama-se Alistair Crump.
Perante situações destas, que afagam sedutoramente a minha apofenia, não há chocolate que alivie os tremores, nem exercícios respiratórios que dissipem a insónia. Se nesta altura tivesse a oportunidade de observar uma noz ao microscópio, quem me garante que não encontraria, como Strindberg, um par de mãos enlaçadas em fervorosa oração? E, já agora, não é ainda um bocadinho cedo para postais de natal?
É nestas alturas que me sinto tentado a voltar a ler as inscrições nas paragens de autocarro, à procura de pistas, de sinais.
domingo, outubro 29, 2006
«The Death of the Lion» (2)
Se há algo para que novos leitores de Henry James raramente vão preparados é para o humor. A amnistia incondicional que o cânon lhe concedeu no século XX, veio munida de um estranho silêncio sobre um facto que deveria ser repetido muitas vezes: em boa forma, James é tão ou mais cómico que Dickens. A comédia pode não se impor de forma tão musculada, mas é seguramente mais versátil.
Temos a básica confusão de indentidades Shakespeareana:
«"Dora Forbes, I gather, takes the ground, the same as Guy Walsingham’s, that the larger latitude has simply got to come. He holds that it has got to be squarely faced. Of course his sex makes him a less prejudiced witness. But an authoritative word from Mr. Paraday - from the point of view of his sex, you know - would go right round the globe. He takes the line that we haven’t got to face it?"
Temos a básica confusão de indentidades Shakespeareana:
«"Dora Forbes, I gather, takes the ground, the same as Guy Walsingham’s, that the larger latitude has simply got to come. He holds that it has got to be squarely faced. Of course his sex makes him a less prejudiced witness. But an authoritative word from Mr. Paraday - from the point of view of his sex, you know - would go right round the globe. He takes the line that we haven’t got to face it?"
I was bewildered: it sounded somehow as if there were three sexes. My interlocutor’s pencil was poised, my private responsibility great. I simply sat staring, none the less, and only found presence of mind to say:
"Is this Miss Forbes a gentleman?"
Mr. Morrow had a subtle smile. "It wouldn’t be ‘Miss’ - there’s a wife!"
"I mean is she a man?"
"The wife?"»
E neste diálogo, que podia (com muito boa vontade) sugerir uma sitcom contemporânea, notem o timing perfeito da interrupção:
«I declared to Lady Augusta briefly that nothing in the world can ever do so well as the thing that does best; and at this she looked a little disconcerted. But I added that if the manuscript had gone astray our little circle would have the less of an effort of attention to make. The piece in question was very long - it would keep them three hours.
E neste diálogo, que podia (com muito boa vontade) sugerir uma sitcom contemporânea, notem o timing perfeito da interrupção:
«I declared to Lady Augusta briefly that nothing in the world can ever do so well as the thing that does best; and at this she looked a little disconcerted. But I added that if the manuscript had gone astray our little circle would have the less of an effort of attention to make. The piece in question was very long - it would keep them three hours.
‘Three hours! Oh the Princess will get up!’ said Lady Augusta.
‘I thought she was Mr. Paraday’s greatest admirer.’
‘I dare say she is - she’s so awfully clever. But what’s the use of being a Princess -- ’
‘If you can’t dissemble your love?’»
Há ainda um horrendo e memorável trocadilho - que Pynchon não desdenharia - envolvendo um versículo da profecia de Isaías e um prato de carne de borrego.
Há ainda um horrendo e memorável trocadilho - que Pynchon não desdenharia - envolvendo um versículo da profecia de Isaías e um prato de carne de borrego.
E para as multidões que nunca se cansam de abordagens à especulação metafísica feitas sob o signo de Beckett e do palhaço Batatinha, deixo aqui a primeira troca entre o narrador do conto e o seu inenarrável editor:
«Mr. Pinhorn pursed up his mouth. "Is there much to be done with him?"
"Whatever there is we should have it all to ourselves, for he hasn’t been touched."
This argument was effective and Mr. Pinhorn responded. "Very well, touch him." Then he added: "But where can you do it?"
"Under the fifth rib!"»
Agora liguemos a televisão.
«The Death of the Lion» (1)
Nas muitas páginas que Henry James dedicou ao exame da vida literária, há um elemento que aparece repetidamente. Encontramo-lo, com algumas variações de grau e género, em The Aspern Papers, «The Middle Years», «The Lesson of the Master» e no meu conto favorito, «The Private Life». Notamo-lo também em «The Death of the Lion». Dois cursos de acção semelhantes, e que produzem resultados iguais, parecem exigir do leitor, com uma tenacidade sussurrada, julgamentos opostos. Vezes sem conta, é-nos pedido que atribuamos um valor aparentemente exagerado a intenções, ou apenas a suspeitas de intenções. A mesma manobra (grande parte das acções dos personagens de James podem ser descritas como manobras, ou estratagemas) pode ser justificada de duas maneiras diferentes, dependendo da perspicácia moral de quem as perpetra.
O narrador da história é um jornalista, destacado para escrever um perfil do escritor Neil Paraday, e que, por razões sempre intrepidamente ambíguas - até para ele - desiste da missão inicial e se vai infiltrando na vida de Paraday, como confessor e protector. Que a protecção é necessária, o leitor nunca duvida. Paraday vê-se, de um momento para o outro, famoso, celebrado; «the poor man was to be squeezed into his horrible age», nas palavras do narrador. As exaltações públicas acumulam-se, perfis e retratos são encomendados, e a alta sociedade londrina adopta-o - como acessório cultural para soirées. O processo vem a ter consequências desastrosas, para ele e para um texto seu ainda por completar, que poderia ter vindo a ser a sua obra-prima, mas que acaba por desaparecer, tragado por aquele ciclone social.
O narrador da história é um jornalista, destacado para escrever um perfil do escritor Neil Paraday, e que, por razões sempre intrepidamente ambíguas - até para ele - desiste da missão inicial e se vai infiltrando na vida de Paraday, como confessor e protector. Que a protecção é necessária, o leitor nunca duvida. Paraday vê-se, de um momento para o outro, famoso, celebrado; «the poor man was to be squeezed into his horrible age», nas palavras do narrador. As exaltações públicas acumulam-se, perfis e retratos são encomendados, e a alta sociedade londrina adopta-o - como acessório cultural para soirées. O processo vem a ter consequências desastrosas, para ele e para um texto seu ainda por completar, que poderia ter vindo a ser a sua obra-prima, mas que acaba por desaparecer, tragado por aquele ciclone social.
O conto é escrito sob a forma de uma confissão do narrador à posteridade, a mesma posteridade à qual foi negada a última obra de Paraday, mas aquilo que ele pretende confessar nunca se cristaliza. Pareceu-me clara a sua tentativa de "vender" os seus escrúpulos ao leitor. Na 1ª linha do conto diz-nos que «I had simply, I suppose, a change of heart» , e é em redor dessa frase, com toda a sua carga de ambiguidades, que ele vai moldando a narrativa. A determinada altura, os seus motivos são postos em causa por outra personagem, Mrs Wimbush (os nomes de James embaraçam os de qualquer outro escritor). A confrontação, significativamente, não é relatada em discurso directo, mas sintetizada numa carta, na própria voz do narrador: «I’m made restless by the selfishness of the insincere friend - I want to monopolise Paraday in order that he may push me on. To be intimate with him is a feather in my cap; it gives me an importance that I couldn’t naturally pretend to, and I seek to deprive him of social refreshment because I fear that meeting more disinterested people may enlighten him as to my real motive».
Lendo o conto hoje pela segunda vez, insinuou-se-me uma alternativa extraordinária: o incidente é falso. O confronto com Mrs Wimbush nunca aconteceu e o rasgo de análise proveio de si próprio. Incapaz de o resguardar na privacidade da sua consciência, acaba por partilhá-lo com o destinatário da carta ( e com o destinatário do conto, que somos nós) sub-alugando-o a uma intuição alheia.
Henry James é a melhor dor de cabeça que a Literatura proporciona.
Lendo o conto hoje pela segunda vez, insinuou-se-me uma alternativa extraordinária: o incidente é falso. O confronto com Mrs Wimbush nunca aconteceu e o rasgo de análise proveio de si próprio. Incapaz de o resguardar na privacidade da sua consciência, acaba por partilhá-lo com o destinatário da carta ( e com o destinatário do conto, que somos nós) sub-alugando-o a uma intuição alheia.
Henry James é a melhor dor de cabeça que a Literatura proporciona.
Are you talking to me?
Mais algum cliente da Amazon recebeu um e-mail prometendo um desconto de 10 dólares na aquisição de creme anti-rugas Neutrogena e barras de proteínas Harvest, ou aquilo foi especificamente para mim?
Peacocks rule

O senhor Morel escreveu uma coisa muito boa sobre a Flannery O'Connor. Mas depois escreveu outra coisa ainda melhor. Agradeço.
sábado, outubro 28, 2006
Esta noite ouve-se

When you were young you were the king of carrot flowers
And how you built a tower tumbling through the trees
In holy rattlesnakes that fell all around your feet
And your mom would stick a fork right into daddy's shoulder
And dad would throw the garbage all across the floor
As we would lay and learn what each other's bodies were for
And this is the room one afternoon I knew I could love you
And from above you how I sank into your soul
Into that secret place where no one dares to go
And your mom would drink until she was no longer speaking
And dad would dream of all the different ways to die
Each one a little more than he could dare to try
Neutral Milk Hotel, «The King of Carrot Flower, pt I», In the Aeroplane Over the Sea.
(Um dia hei-de escrever aqui sobre o colectivo Elephant 6, um grupo de músicos do Colorado que formaram uma mão-cheia de bandas brilhantes no início dos anos 90. Um dia hei-de explicar detalhadamente as razões pelas quais sou um grande fã dos Olivia Tremor Control, dos Apples in Stereo, dos Circulatory System, dos Of Montreal e sobretudo, dos Neutral Milk Hotel. Hei-de justificar as muitas libras que gastei em discos desta gente. Hei-de persuadir os mais cínicos entre vós de que ouvir o álbum In the Aeroplane Over the Sea, do princípio ao fim e sem interrupções, é uma experiência com poucos paralelos num Universo à mercê das volubilidades de Rudolf Clausius e Sadi Carnot. Um dia hei-de fazer todas estas coisas, mas não hoje.)
quinta-feira, outubro 26, 2006
Físico-Química
É inevitável: sempre que leio na imprensa portuguesa um artigo apocalíptico sobre o estado do ensino, lembro-me da minha professora de Físico-Química no 7º ano (do que não me lembro é do nome dela, mas quando me lembrar vocês serão os primeiros a saber) que deixou uma turma inteira estarrecida quando nos informou muito casualmente que, no futuro, os seres humanos seriam capazes de manter relações sexuais apenas com o encostar de um dedo indicador à testa do parceiro. (Isto numa altura em que muitos de nós ainda não estávamos familiarizados com o método canónico).
Desconheço as repercussões que este naco de desinformação veio a ter nas vidas futuras dos alunos, mas sei que a professora em questão foi repreendida pelo Conselho Directivo, até porque o "dedonatestagate" surgiu já depois de alguns inquéritos nervosos de membros da Associação de Pais, que queriam saber porque é que os meninos emergiam das aulas práticas de 5ª-feira a falar de anjos e discos voadores em vez de electrões e bicos de Bunsen.
(Um aforismo para as massas: sabemos que ainda não amadurecemos quando não conseguimos escrever "bicos de Bunsen" sem soltar um risinho pueril).
Uma coisa é certa: por motivos vários, que não vou aqui escalpelizar, uma rubrica intitulada "Os Meus Professores" nunca terá espaço para crescer neste blog. Mas não é por falta de material. Só do Professor Cardoso haveria dezenas e dezenas de incidentes para relatar, todos eles com a capacidade para deleitar e instruir. E da Professora_ (Odete? Bernardete?) outras tantas.
Não sei se ela chegou a falar do planeta Sirius na aula. Ou da conspiração dos Illuminati. Ou de Nikola Tesla. Ocupado como estava a encostar os dedos a testas alheias, confesso que não me lembro de muita coisa.
Mas lembro-me da Segunda Lei da Termodinâmica, cuja hábil formulação pelo Senhor de Todo o Mal nunca é demais relembrar: "A entropia de qualquer sistema isolado tende para aumentar ao longo do tempo, aproximando-se de um máximo". E isto, caro leitor, não é uma boa notícia para ninguém.
Desconheço as repercussões que este naco de desinformação veio a ter nas vidas futuras dos alunos, mas sei que a professora em questão foi repreendida pelo Conselho Directivo, até porque o "dedonatestagate" surgiu já depois de alguns inquéritos nervosos de membros da Associação de Pais, que queriam saber porque é que os meninos emergiam das aulas práticas de 5ª-feira a falar de anjos e discos voadores em vez de electrões e bicos de Bunsen.
(Um aforismo para as massas: sabemos que ainda não amadurecemos quando não conseguimos escrever "bicos de Bunsen" sem soltar um risinho pueril).
Uma coisa é certa: por motivos vários, que não vou aqui escalpelizar, uma rubrica intitulada "Os Meus Professores" nunca terá espaço para crescer neste blog. Mas não é por falta de material. Só do Professor Cardoso haveria dezenas e dezenas de incidentes para relatar, todos eles com a capacidade para deleitar e instruir. E da Professora_ (Odete? Bernardete?) outras tantas.
Não sei se ela chegou a falar do planeta Sirius na aula. Ou da conspiração dos Illuminati. Ou de Nikola Tesla. Ocupado como estava a encostar os dedos a testas alheias, confesso que não me lembro de muita coisa.
Mas lembro-me da Segunda Lei da Termodinâmica, cuja hábil formulação pelo Senhor de Todo o Mal nunca é demais relembrar: "A entropia de qualquer sistema isolado tende para aumentar ao longo do tempo, aproximando-se de um máximo". E isto, caro leitor, não é uma boa notícia para ninguém.
Coisas que provavelmente aconteceriam se o Universo fosse regulado pelas mesmas leis que regem a música Country
. um Buraco Negro formar-se-ia apenas quando uma estrela encolhesse os ombros e se rendesse ao bourbon;
. a distribuição de Maxwell-Boltzmann para um gás ideal de N moléculas teria dificuldades em impor a sua relevância perante a mágoa irascível do marido de Sally-Ann;
. a chuva tombaria ininterruptamente sobre o Modelo das Partículas Fluidas, misturando-se com as suas lágrimas;
. um electrão perdido numa estrada secundária perto de Denver, Colorado seria incapaz de arranjar boleia;
. a Via Láctea afastar-se-ia de guitarra na mão, ignorando a Lei de Hubble-Homason, e sem nunca olhar para trás.
. a distribuição de Maxwell-Boltzmann para um gás ideal de N moléculas teria dificuldades em impor a sua relevância perante a mágoa irascível do marido de Sally-Ann;
. a chuva tombaria ininterruptamente sobre o Modelo das Partículas Fluidas, misturando-se com as suas lágrimas;
. um electrão perdido numa estrada secundária perto de Denver, Colorado seria incapaz de arranjar boleia;
. a Via Láctea afastar-se-ia de guitarra na mão, ignorando a Lei de Hubble-Homason, e sem nunca olhar para trás.
quarta-feira, outubro 25, 2006
Obrigação estatutária
Os zigues e os zagues do debate político na blogosfera não costumam alterar o nível do mercúrio aqui no Pastoral Portuguesa, daí a minha esporádica e limitada navegação por esse género de blogs. E numa hipotética lista de assuntos que não me interessam, a oeuvre dos senhores Lapierre, Collins e Tavares ocuparia certamente uma posição de topo.
Dadas estas circunstâncias, sempre achei que no dia em que um leitor se virasse para mim e dissesse "Sabes, Casanova, ainda hei-de ver no teu esplêndido blog um link para um texto do Aspirina B sobre o Miguel Sousa Tavares" eu responderia de imediato "Que disparate, leitor! Não o faria!"
Mas o link aqui fica, em conformidade com a alínea 3 do artigo II dos estatutos do Pastoral Portuguesa, que me obriga a referir qualquer texto em português onde o Moby Dick e o Gravity's Rainbow sejam mencionados na mesma frase.
(Espero agora que outros blogs não desatem a fazer referências gratuitas ao Herzog, Mating, «The Beast in the Jungle» ou To the Lighthouse, tentando aproveitar-se das alíneas 4 e 5 do mesmo artigo)
Dadas estas circunstâncias, sempre achei que no dia em que um leitor se virasse para mim e dissesse "Sabes, Casanova, ainda hei-de ver no teu esplêndido blog um link para um texto do Aspirina B sobre o Miguel Sousa Tavares" eu responderia de imediato "Que disparate, leitor! Não o faria!"
Mas o link aqui fica, em conformidade com a alínea 3 do artigo II dos estatutos do Pastoral Portuguesa, que me obriga a referir qualquer texto em português onde o Moby Dick e o Gravity's Rainbow sejam mencionados na mesma frase.
(Espero agora que outros blogs não desatem a fazer referências gratuitas ao Herzog, Mating, «The Beast in the Jungle» ou To the Lighthouse, tentando aproveitar-se das alíneas 4 e 5 do mesmo artigo)
Grandes Portugueses
Qualquer lista deste género que não inclua um único dos Cinco Violinos não me parece merecedora de comentários sérios. Ainda assim, como não-participante, alimento uma esperança: que as massas se unam para demonstrar ao Poderes Vigentes que a memória dos feitos de Pêro da Covilhã está bem viva e que nenhuma conspiração silenciosa a conseguirá extinguir.
Buttercup wisdom

Things are seldom what they seem,
Skim milk masquerades as cream;
Highlows pass as patent leathers;
Jackdaws strut in peacock's feathers
Black sheep dwell in every fold;
All that glitters is not gold;
Storks turn out to be but logs;
Bulls are but inflated frogs
HMS Pinafore
(É verdade, Buttercup. Por exemplo, o som que se ouve nos primeiros segundos da canção «Groovin'», dos Young Rascals, parece ser o canto de um canário. Mas não é. Não é.)
terça-feira, outubro 24, 2006
Adenda ao post anterior
Para que não restem dúvidas sobre a minha capacidade para formular opiniões incendiárias sobre assuntos polémicos, reclamo de imediato a legitimidade intelectual que advém de possuir um blog para deixar aqui três:
. tenho a firme convicção de que o Rodrigo Tello merece neste momento o estatuto de titular indiscutível, seja em que posição for;
. tenho a firme convicção de que o Scott Walker mete o Jacques Brel num chinelo de senhora;
. tenho a firme convicção de que há certas tonalidades de amarelo que, por se desviarem tanto do que entendemos por amarelo numa sociedade civilizada, mereciam uma designação diferente, e não apenas uma variante hifenada.
. tenho a firme convicção de que o Rodrigo Tello merece neste momento o estatuto de titular indiscutível, seja em que posição for;
. tenho a firme convicção de que o Scott Walker mete o Jacques Brel num chinelo de senhora;
. tenho a firme convicção de que há certas tonalidades de amarelo que, por se desviarem tanto do que entendemos por amarelo numa sociedade civilizada, mereciam uma designação diferente, e não apenas uma variante hifenada.
Madrugada avulsa
Há seis anos que sou leitor regular de jornais britânicos e, neste período, apenas por quatro vezes exerci um dos mais aprazíveis direitos que essa condição proporciona: o puxar da indignação e escrever uma carta ao editor. Estreei-me nas vésperas do Euro 2004, com uma vociferante reprimenda a um jornalista desportivo do The Guardian, corrigindo um artigo seu onde uma declaração de Luís Felipe Scolari fora espectacularmente mal traduzida. Na segunda, para a secção de livros do Independent, protestei contra o elitismo bonacheirão que detectei numa apreciação a Philip K. Dick, e que considerei (deve ter sido antes do pequeno-almoço) uma gravíssima falta de respeito. A terceira foi para o The Scotsman, a propósito da Lei anti-tabagista. A quarta foi para o The Scotsman, a propósito da Lei anti-tabagista. O que aconteceu foi isto: apercebi-me de uma falha descomunal no meu primeiro argumento e, sob pseudónimo, escrevi nova carta a desmantelar a missiva original. Devidamente desmantelado, o argumento morreu, sem ninguém ter ligado pevide a mim ou a mim.
(O incidente, já agora, veio-me à memória porque acabei de jogar uma partida de xadrês contra mim próprio, na qual fui sumariamente derrotado; posso não ser o meu mais temível adversário, mas sou certamente o meu mais temível adversário).
Serve este preâmbulo para justificar a minha relutância em usar o blog para opinar sobre matérias "correntes". Não há qualquer alínea nos estatutos do "Pastoral Portuguesa" que me proíba de falar em referendos, manifestações e outros temas de interesse público. O receio de incorrer em polémicas estéreis e prolongadas com terceiros também é quase nulo. O que me apavora é a possibilidade de dar voz a um ponto de vista tão objeccionável que me impeça de voltar a olhar para mim próprio da mesma maneira.
A propósito, no dia 24 de Outubro de 1966, morria em Moscovo (de diabetes) a matemática russa Sofya Yanovskaya. Foi ela quem persuadiu Wittgenstein e Francis Skinner a abandonarem a sua curta aventura Soviética em 1935.
Não sei que extenso novelo Histórico esta singela acção terá desenrolado, mas de uma coisa estou certo: tenho sono e não consigo pregar olho. Não há quem me receite uma mezinha?
(O incidente, já agora, veio-me à memória porque acabei de jogar uma partida de xadrês contra mim próprio, na qual fui sumariamente derrotado; posso não ser o meu mais temível adversário, mas sou certamente o meu mais temível adversário).
Serve este preâmbulo para justificar a minha relutância em usar o blog para opinar sobre matérias "correntes". Não há qualquer alínea nos estatutos do "Pastoral Portuguesa" que me proíba de falar em referendos, manifestações e outros temas de interesse público. O receio de incorrer em polémicas estéreis e prolongadas com terceiros também é quase nulo. O que me apavora é a possibilidade de dar voz a um ponto de vista tão objeccionável que me impeça de voltar a olhar para mim próprio da mesma maneira.
A propósito, no dia 24 de Outubro de 1966, morria em Moscovo (de diabetes) a matemática russa Sofya Yanovskaya. Foi ela quem persuadiu Wittgenstein e Francis Skinner a abandonarem a sua curta aventura Soviética em 1935.
Não sei que extenso novelo Histórico esta singela acção terá desenrolado, mas de uma coisa estou certo: tenho sono e não consigo pregar olho. Não há quem me receite uma mezinha?
Esta noite ouve-se

well they sent back all the bodies
who were looking really hopeless
well it didn't seem that callous
till they stopped you in your flow
she's surrounded by her wardens
and they're looking really nervous
all about the man from reuters
here to nullify your glow
everything you say will destroy you
- anyway
everything you say will come haunt you
round each corner
everything you say will destroy you
well you may think that you're buddha
sitting on a mound of ashes
you were mentioned in the postscript of
dispatches anyway
and the major's really nervous
when he's walking round the airport
you know your master's card is marked
your upstart charge is cool and smart
everything you say will destroy you
- anyway
everything you say will come haunt you
round each corner
everything you say will destroy you
your unwanted suitor
leaves his things around your home
he's marking out his territory
he's pissing on your answerphone
well you may think that you're buddha
lying on a mound of ashes
you were mentioned in the postscript
of dispatches anyway
(Luke Haines & The Auteurs, «Everything You Say Will Destroy You», After Murder Park)
domingo, outubro 22, 2006
Coleridge

Nascia a 21 de Outubro de 1772, um dos grandes esgazeados da nossa Espécie, e um dos amigos deste blog. Se consultarem uma enciclopédia qualquer é provável que o encontrem definido como poeta, crítico literário, teólogo, filósofo, formulador de uma teoria estética revolucionária, entre outros disparates. Mas rogo-vos: entalem o bocejo e continuem a ler. Vasculhem até, se estiverem para aí virados (e tiverem os mesmos problemas em adormecer que eu tenho) a biografia de 2 volumes escrita pelo Richard Holmes. Depois leiam o que o próprio Coleridge teve a dizer sobre a sua vida. Nas cartas, nos Notebooks, e especialmente na Biographia Literaria - a autobiografia mais exuberantemente espatafúrdia da Literatura, que ainda por cima vem mascarada de "teoria" literária. Prometo-vos um fartote dos antigos.
Coleridge foi também, além dos outros títulos oficiais, o fundador oficioso de uma longa tradição: a do artista como esponja. Mantida por Poe, Faulkner, Lowry, Dylan Thomas, Brendan Behan, Burroughs, Capote, et al, cada um com os seus venenos de eleição, e todos dedicados a celebrar (nas palavras do aborrecidamente sóbrio Saul Bellow) "a seguinte proposição: a consciência é uma coisa terrível e deve ser evitada a todo o custo". O custo, por norma, é elevado. Coleridge, por exemplo, passou os últimos 30 anos da sua vida com prisão de ventre, e com pavor de adormecer, devido aos pesadelos provocados pelo ópio.
Virginia Woolf, que escreveu sobre a degradação do impulso criativo com uma clareza assustadora, escancarou o mito: Coleridge (e aqui podemos extrapolar: "o Artista") não sabotou o seu talento com o consumo excessivo de ópio; o que Coleridge fez foi consumir excessivamente ópio para dissimular o que ele suspeitava ser o rápido desaparecimento de um talento moribundo. Nos últimos anos da sua vida, tornou-se um escritor quase obsessivamente não-sistemático: o que nos resta dessas décadas é uma amálgama (não raras vezes brilhante) de fragmentos, pensées, notas soltas, marginalia e cartas. Sobretudo cartas. Se pensarmos bem, a plataforma ideal para abandonar uma ideia a meia-frase, e com uma audiência cativa que podia aplaudir com relativa rapidez uma intenção em vez de uma obra completa. Há dezenas de referências a livros que Coleridge planeou mas nunca chegou a escrever, por estar demasiado ocupado a drunfar-se.
Ou a chular regimes de meia-pensão, o que fazia como ninguém. Era frequente cravar estadias em casa de amigos, prometendo ficar apenas alguns dias, e barricar-se depois no meio de uma muralha de papéis e livros, acabando por ficar meses a fio. O seu último médico, o quase-santo Dr. Gillman, receando que o vício de Coleridge estivesse a ficar fora de controlo (até no séc. XIX havia eufemistas), acolheu-o em sua casa em 1818 para uma espécie de detox intensiva, e teve de o aturar durante 16 anos. E o mais estranho nesta história é que Coleridge (como Heraclito) era essa figura sempre garante de boa comédia: um hipocondríaco que detestava médicos. A sua vida está repleta de incidentes, entre o escabroso e o patético, resultantes desta contradição. Como o ter de se sujeitar a uma série de enemas durante um cruzeiro até Malta. Ou o tentar tratar uma doença venérea esfregando nos genitais uma solução doméstica de vinagre, chumbo e pão ralado.
Mas o paradoxo era, nele, um estilo de vida. Coleridge foi o homem que tentou sistematizar o seu horror a sistemas numa teoria coerente; que tentou curar a sua fobia da medicação tornando-se opiómano; que pregava um Cristianismo ortodoxo e pejava os seus textos com negações casuais da verdade da Ressurreição e ridicularizações da Eucaristia. O seu erro (um erro exumado pelos que nele tentam descobrir uma filosofia estética ou uma teologia organizada) foi o de tentar aplicar um talento meramente especulativo a tarefas logísticas. A sua escrita está ao seu melhor quando se limita a polvilhar de metáforas inesperadas uma série de ideias sem qualquer encadeamento. Mas, tipicamente, Coleridge continuou, até aos últimos dias, a planear tratados morais.
Um farrapo de humanidade, em suma, mas que transmite a ideia (rara) de ter estado sempre penosamente consciente de todos os seus defeitos. Era excelente no insulto (normalmente o sinal de um intelecto superior) mas as melhores farpas eram auto-infligidas. Na Biographia, ou nas cartas, é frequente encontrarmos a demolição rigorosa de um pai que abandona os filhos, de um amigo com quem não se pode contar, ou de um tipo oleoso que não paga as dívidas que contrai - e é de si próprio que ele está a falar.
O que fica disto tudo é a prosa, claro, que é magnífica. Da poesia não falo, porque quase não conheço - mas não me parece grande coisa.
Costumava dizer-se (aprendi esta com o Bloom) que Coleridge foi o último homem a ler tudo. Acrescento: foi também - apesar do ridículo que permeia muito do que escreveu, disse e fez - um daqueles raros artistas que nos deixam com vontade de fazer o mesmo.
(Nota: em homenagem ao estilo de quem tenta homenagear, este texto foi escrito de madrugada, sem método, sem quaisquer esquemas ou notas auxiliares , e sob a influência de - à falta de ópio - copiosas quantidade de Coca-Cola fora de prazo. Por uns instantes ainda considerei a hipótese de fazer umas rimas, mas isso já seria abusar da minha própria paciência, quanto mais da vossa.)
sábado, outubro 21, 2006
O Blog de Coleridge (III)
«To read Dryden, Pope & co, you need only count syllables; but to read Donne you must measure Time, & discover the Time of Each word by the Sense and Passion. - I would ask no surer Test of a Scotch-man's Substratum (for the Turf-cover of Pretension they all have) than to make him read Donne's Satires aloud. If he made many Metre of them, & yet strict metre, -then- why, then he wasn't a Scotchman, or his Soul was geographically slandered by his Body's appearing there.-»
(Nota escrita pelo mestre da divagação gratuita, na margem de uma antologia de poemas de John Donne. "his Soul was geographically slandered", já agora, é o que eu quero na minha lápide...)
(Nota escrita pelo mestre da divagação gratuita, na margem de uma antologia de poemas de John Donne. "his Soul was geographically slandered", já agora, é o que eu quero na minha lápide...)
A vida corre-me mal por isto, e isto, e isto...

«A lover's task is what Peter meant: something he could do to demonstrate to Katherine that he loves her like life and language themselves despite mosquitoes, heat, humidity, her parents' trying unsuccessfully not to be a bother, precious little sex since Kath's on the cusp, no tennis but brutal with macho male Sherritts all save Andy the youngest of whom blow him off the family court in straight sets, every day less swimming in Sherritt Cove, less windsurfing and waterskiing out in Goldsborough Creek, because on each new tide the sea nettles move a bit farther in like a billion old condoms with their miserable sting and beautiful name, Chrysaora quinquecirrha, which means five-filamented gold-edge but ought to mean God's five-month curse upon the Talbot County Gold Coast, no respite from Kathy's old prep-school and college chums, family friends, and fellow ASPS (American Society for the Preservation of Storytelling), swarming like sheepflies on Nopoint Point, including her onetime (one time) lesbian lover, a black-belt balladeer and sometime pain in our marital tush, though Kathy won't hear May Jump spoken ill of except by Peter in extremis. And more.»
(Oferece-se agora uma tablete de Cadbury's Dairy Milk [o Lindt & Sprüngli escasseia e tenho, como a formiguinha da fábula, um longo Inverno à minha frente] ao primeiro leitor a identificar correctamente o fragmento, sem recorrer à batota do google. Tablete adicional para quem conseguir detectar a pequena alteração ao texto original, maliciosamente introduzida pelo transcritor, que é danado para a brincadeira e está a ter grandes dificuldades nisto do "adormecer".)
sexta-feira, outubro 20, 2006
No comboio
Um instante de negligência logística, que espero não se venha a repetir, fez com que tivesse de me sujeitar a uma viagem de 45 minutos sem qualquer material de leitura.
Aqui ficam alguns pormenores que me teriam passado despercebidos caso estivesse embrenhado nos desvarios fictícios de algum narrador de bolso:
. uma rapariga envergando uma saia curta de um material que me pareceu poliéster (mas que podia muito bem não ser) cruzou e descruzou as pernas sete vezes num período certamente inferior a cinco minutos;
. um indivíduo de sobretudo cinzento e gravata amarela lia, com palpável desdém, um artigo de opinião no Daily Telegraph sobre a problemática da integração muçulmana na sociedade britânica;
. alguém desenhara um rudimentar cavalo (ou um touro), completo com pénis desproporcionadamente grande, por cima de um cartaz prometendo aos jovens dinâmicos excelentes perspectivas de carreira no ramo da revisão de títulos de transporte;
. num terreno de pasto entre as estações de Longbridge e Alvechurch, um rebanho de ovelhas assumiu uma disposição que, durante escassos segundos, me sugeriu o símbolo do Sporting, o que me fez entoar em voz alta o nosso mote centenário: "Esforço, Dedicação, Devoção e Glória!", para consternação dos restantes passageiros;
. hoje, julgo que pela primeira vez desde a escola primária, calcei peúgas desirmanadas.
Aqui ficam alguns pormenores que me teriam passado despercebidos caso estivesse embrenhado nos desvarios fictícios de algum narrador de bolso:
. uma rapariga envergando uma saia curta de um material que me pareceu poliéster (mas que podia muito bem não ser) cruzou e descruzou as pernas sete vezes num período certamente inferior a cinco minutos;
. um indivíduo de sobretudo cinzento e gravata amarela lia, com palpável desdém, um artigo de opinião no Daily Telegraph sobre a problemática da integração muçulmana na sociedade britânica;
. alguém desenhara um rudimentar cavalo (ou um touro), completo com pénis desproporcionadamente grande, por cima de um cartaz prometendo aos jovens dinâmicos excelentes perspectivas de carreira no ramo da revisão de títulos de transporte;
. num terreno de pasto entre as estações de Longbridge e Alvechurch, um rebanho de ovelhas assumiu uma disposição que, durante escassos segundos, me sugeriu o símbolo do Sporting, o que me fez entoar em voz alta o nosso mote centenário: "Esforço, Dedicação, Devoção e Glória!", para consternação dos restantes passageiros;
. hoje, julgo que pela primeira vez desde a escola primária, calcei peúgas desirmanadas.
Where is Ms Bobone when I need her?
As minhas noções de ética bloguística são ainda incipientes e isso nota-se. A questão do elogio circular, por exemplo. Quando me elogiam o blog em público, devo agradecer em público ou em privado? E quando o elogiam em privado, devo agradecer em privado ou em público? E quando não o elogiam de todo, o que é o mais frequente, devo entrar em pânico?
Enfim, a senhora do Bomba Inteligente (uma página algo intimidante, a que acederia com muito mais frequência se soubesse como desactivar os assustadores ficheiros de som sem ter de colocar o meu sistema inteiro em mute) colocou-me no seu espaço de "destaques" diários. Interpretei imediatamente o gesto como um elogio. Mas depois do lanche, analisando a situação mais a frio, recordei o meu professor de Francês na Luísa de Gusmão (o deveras intimidante Professor Cardoso) que também tinha por hábito "destacar" largas secções dos meus testes escritos. E nenhuma das suas notas marginais traduzia uma intenção elogiosa. Portanto fico na dúvida. Mas em todo o caso, como disse ao Professor Cardoso no final do 9º ano, desculpe, obrigado por tudo, e desculpe.
Já o senhor do Tradução Simultânea, um dos blogs que visito com assiduidade, referiu-se a este espaço em termos embaraçosamente inequívocos. O senhor do Tradução Simultânea é claramente uma pessoa de bem.
Enfim, a senhora do Bomba Inteligente (uma página algo intimidante, a que acederia com muito mais frequência se soubesse como desactivar os assustadores ficheiros de som sem ter de colocar o meu sistema inteiro em mute) colocou-me no seu espaço de "destaques" diários. Interpretei imediatamente o gesto como um elogio. Mas depois do lanche, analisando a situação mais a frio, recordei o meu professor de Francês na Luísa de Gusmão (o deveras intimidante Professor Cardoso) que também tinha por hábito "destacar" largas secções dos meus testes escritos. E nenhuma das suas notas marginais traduzia uma intenção elogiosa. Portanto fico na dúvida. Mas em todo o caso, como disse ao Professor Cardoso no final do 9º ano, desculpe, obrigado por tudo, e desculpe.
Já o senhor do Tradução Simultânea, um dos blogs que visito com assiduidade, referiu-se a este espaço em termos embaraçosamente inequívocos. O senhor do Tradução Simultânea é claramente uma pessoa de bem.
Linha editorial

A todos os leitores que se têm queixado do enfraquecido caudal de fotografias de gatinhos e de mulheres que não moram na minha rua, o "Pastoral Portuguesa" pede paciência, confirmando que a linha editorial se mantém a mesma, ainda que, por vezes, seja necessário acumular intenções em espaços reduzidos.
Encíclica
Urge esclarecer aquele que é porventura o ponto mais nebuloso da doutrina teológica do "Pastoral Portuguesa": Sadi Carnot não é o Anticristo. Peço encarecidamente desculpa a quem tenha reajustado as suas crenças em conformidade com esta errónea inferência, e afirmo que nunca foi minha intenção induzir em erro o meu rebanho.
Não. O Anticristo (que está vivo, e entre nós) é Rudolf Clausius. Sadi Carnot é o Falso Profeta. Papel que, de resto, não deve ser, de forma alguma, menosprezado.
Não. O Anticristo (que está vivo, e entre nós) é Rudolf Clausius. Sadi Carnot é o Falso Profeta. Papel que, de resto, não deve ser, de forma alguma, menosprezado.
Sub-empreitada
Não me dei ao trabalho de verificar, mas creio que a curta história deste blog não regista o uso de qualquer turpilóquio.
A firme intenção de não abrir um precedente estilístico coíbe-me de alinhavar quaisquer comentários sobre o jogo de quarta-feira em Alvalade.
Mas não me impede de subscrever comentários alheios. Recomendo aos eventuais interessados que se despachem a ler o texto antes que o seu temperamental autor os oblitere (os comentários, não os interessados).
A firme intenção de não abrir um precedente estilístico coíbe-me de alinhavar quaisquer comentários sobre o jogo de quarta-feira em Alvalade.
Mas não me impede de subscrever comentários alheios. Recomendo aos eventuais interessados que se despachem a ler o texto antes que o seu temperamental autor os oblitere (os comentários, não os interessados).
Insónia
Suponho que o abuso de Carte Noir não ajude. Suponho que uma dieta literária nocturna à base de Henry James pós-1895 não ajude. Suponho que a irregularidade das rotinas não ajude.
Mas tenho a certezinha absoluta de que o estalar de fogos-de-artifício a esta hora, a 5 metros da janela do meu quarto, não contribui em nada para melhorar a situação.
Mas tenho a certezinha absoluta de que o estalar de fogos-de-artifício a esta hora, a 5 metros da janela do meu quarto, não contribui em nada para melhorar a situação.
quinta-feira, outubro 19, 2006
quarta-feira, outubro 18, 2006
"...restricted to the point of non-existence..."
Armando Iannucci, um dos mais talentosos e originais comediantes britânicos, discorreu ontem, no Tate Britain Lecture 2006, sobre o que aconteceu à realidade nos últimos cinco anos.
Um excerto da sua palestra pode ser lido hoje no The Guardian.
Um excerto da sua palestra pode ser lido hoje no The Guardian.
Notícias do Reino
Aprendi hoje, numa paragem de autocarro em Edgbaston, perto da Universidade de Birmingham, que um estudante do 4º ano de Psicologia se tentou enforcar com uma corda de violoncelo, que foi mal sucedido, e que está agora a recuperar em casa de uma tia na Cornualha.
A rapariga que contou esta história a duas colegas indiferentes, lambia com inusitada sofreguidão um gelado de baunilha, apesar das baixas temperaturas que se começam a fazer sentir, e continuou a fazê-lo já dentro do autocarro, apesar de isso ser claramente proibido pelos regulamentos da Travel Midlands, como comprovam os avisos em vermelho-vivo espalhados pelos dois pisos do autocarro em questão (um dos quais, ironicamente, mesmo diante do lugar escolhido pela transgressora).
A rapariga que contou esta história a duas colegas indiferentes, lambia com inusitada sofreguidão um gelado de baunilha, apesar das baixas temperaturas que se começam a fazer sentir, e continuou a fazê-lo já dentro do autocarro, apesar de isso ser claramente proibido pelos regulamentos da Travel Midlands, como comprovam os avisos em vermelho-vivo espalhados pelos dois pisos do autocarro em questão (um dos quais, ironicamente, mesmo diante do lugar escolhido pela transgressora).
aspas aspas
Uma alma caridosa recomendou-me lecitina de soja para aliviar as minhas deficiências de memória, recalibrando porém o conselho com a seguinte advertência:
"Não julgues que uma memória melhor te vai resolver os problemas sociais. Eu sei as datas de aniversário de todos os meus amigos e familiares, mas como nunca sei em que dia estou, acabo por ficar na mesma."
O que fazer, perante tal panorama, senão suspirar? Por vezes, quando pondero estas coisas, só tenho vontade de repetir umas linhas de um certo conto de Fitzgerald, que viriam certamente iluminar esta matéria, mas das quais, infelizmente, não me recordo.
"Não julgues que uma memória melhor te vai resolver os problemas sociais. Eu sei as datas de aniversário de todos os meus amigos e familiares, mas como nunca sei em que dia estou, acabo por ficar na mesma."
O que fazer, perante tal panorama, senão suspirar? Por vezes, quando pondero estas coisas, só tenho vontade de repetir umas linhas de um certo conto de Fitzgerald, que viriam certamente iluminar esta matéria, mas das quais, infelizmente, não me recordo.
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