sexta-feira, novembro 10, 2006

Esta noite ouve-se


Backside melts into the sofa
My world, my TV, and my food
Besides listening to my belly gurgle
There ain't much else to do
Yeah, I sweat a lot
Pants fall down every time I bend over
And my feet itch
Yeah - I married a scarecrow

I hate you
Talkin' to myself
Everybody's starin' at me
I'm only bleedin'

Someone taps me on the shoulder every 5 minutes
Nobody speaks English anymore
Would anyone tell me if I was gettin' stupider?

I hate you
Talkin' to myself
You don't feel it after awhile
You take the beating

And I'm a swingin' guy
Throw a belt over the shower curtain rod
And swing - - -
Toss me inside a hefty
And put me in the ground

A drink needs me - I don't
I ain't about to guzzle no tears
So kiss my ass
Newscasters, cockroaches, and desserts

I hate you
Talkin' to myself
Everybody's starin' at me
I'm only bleedin'

Where are the kids?
maybe pregnant or on drugs or on welfare on top of the world on the honor roll on parole on the Dodgers on the back of milk cartons on stakes in the middle of cornfields on covers of future history books on old lady's mantles walkin' on water nailed on crosses

I think it's time I had a talk with my kids
I'll just tell 'em what my daddy told me:
"You ain't never gonna amount to nothing"

Faith No More, «RV», Angel Dust


(A primeira coisa que é preciso dizer é que Mike Patton é um génio - palavra que normalmente não costuma ser aplicada a homens adultos que vão para cima de um palco exigir aos berros que lhes atirem garrafas de plástico cheias de urina. A segunda coisa que é preciso dizer é que ele tem uma das melhores vozes masculinas dos últimos 25 anos.
Com esses dois assuntos preliminares tratados, também não é despropositado referir que os Faith No More têm melhores canções, mas nenhuma mais engraçada. «RV» é essencialmente uma rotina de 'stand-up', transformada num pequeno tesouro pop pela verve lírica e extraordinária versatilidade vocal de Patton - que abarca tudo, desde o baixo cantante misantrópico ao incoerente resmungar trailer-tráshico. O álbum, já agora, é uma obra-prima. Essa é terceira coisa que é preciso dizer.)

quinta-feira, novembro 09, 2006

Ele quer aproveitar este momento para...

A todos os blogs que a ele se referiram nos últimos dias, o Pastoral Portuguesa quer agradecer a atenção e desejar uma longa, saudável e proveitosa vida. Quer também estender os mesmos agradecimentos e desejos a todos os que, por recato ou timidez, não mencionaram directamente este espaço, limitando-se a pensar nele com carinho enquanto comiam tangerinas, ou a murmurar docemente o seu nome durante o sono ("...Pastoral Portuguesa, oh Pastoral Portuguesa...").
Porque apesar de não brandir site-meter, este blog tem um ego muito complicado. E sempre que o sujeitam a blasfemos jogos de palavras, ou lhe dedicam quadros de Remedios Varo, ou lhe sugerem um maior cuidado com a alimentação dos pombos, é como se mais uma page-view tombasse ruidosamente no seu coraçãozinho repleto de inventários.

(Quero ainda alertar o Samuel Úria: há por aí certos blogs que, quando colocados num gira-discos e tocados ao contrário, emitem mensagens satânicas. Mas não digo quais são.)

quarta-feira, novembro 08, 2006

...he wondered what it might mean about him...

«Corde had become attached to Gigi - her distracted, flustered charm, her classic straight nose and full Egyptian eyes. Even the permanent wave, gone wrong at the back. He liked the old girl a lot. As for her, she had noted how he tended the cyclamens. He watered them from beneath, setting the pots in bowl of water. She said to him, "There is not much to offer you. The one thing we can be lavish of is these flowers." He wondered what it might mean about him as a 'serious adult' that the flowers should claim so much of his attention.»

(Saul Bellow, The Dean's December)

Rescaldo

O calçado era, obviamente, defeituoso. As minhas previsões para a Câmara dos Representantes foram estilhaçadas nos últimos minutos - a maioria Democrata parece ser na ordem dos 21/24 lugares. Quanto ao Senado, vai permanecer sob controlo Republicano. A minha aposta de 51-49 pode muito bem vir a ser confirmada nos próximos dias, depois do inevitável carnaval da recontagem na Virginia, mas Jim Webb parece estar a querer estragar-me o Natal.
Depois deste inédito interregno político, o blog volta ao normal já a partir de amanhã. Não se voltará a falar de corridas nas quais não participem equídeos. A propósito: o cavalinho Dichoh, na corrida das 15:20 em Wolverhampton parece-me uma aposta muito sólida.

(... e obrigado ao João Caetano por tornar a insónia ligeiramente menos solitária.)

(update matinal: uma sesta de hora e meia e lá se foi o Natal; possivelmente o revéillon. Webb e McCaskill chegaram-se à frente, parece que de forma decisiva, e até a vantagem na Câmara aumentou para +30. Cavalinhos, daqui para a frente, e nada mais. Deixar os political futures para gente crescida, com padrões de sono normais. I so got killed, lolol)

terça-feira, novembro 07, 2006

Sparkles from the Wheel



...Diffusing, dropping, sideways-darting, in tiny showers of gold,
Sparkles from the wheel.

Walt Whitman

Bandarrismo

Depois de analisar profunda e demoradamente várias solas, línguas, palmilhas e contrafortes de sapatos (a amostra foi representativa), eis as minhas previsões:

Senado: 51-49 para os Republicanos
Câmara dos Representantes: 224-211 para os Democratas

(Nota aos amigos e familiares preocupados: a margem de erro é suficiente para salvar o fundo de maneio para os presentes de Natal)

John Galt says: I'm getting killed, lol

Finalmente, um bom motivo para uma noite branca: as eleições intercalares nos US.
Para quem não sabe o muito que está em jogo nestas eleições, podem encontrar aqui um breve resumo. Quanto a sites informativos para acompanhar o decorrer dos acontecimentos, aconselho este e este, já que a minha fiel William Hill, ao contrário de 2004, não se vai meter ao barulho.
O site da TradeSports é especiamente apetecível. Se tiverem tempo, ó caros Timóteos, vão dar uma espreitadela ao chatroom, onde vos aguardam veras pérolas de surrealismo minimalista:

****73NJ (in VIP Room): I think I should run for office

EZMoney28 (in VIP Room): I hate close calls.. I either want to get beat by a few points or win by a few so I dont feel jobbed

EZMoney28 (in VIP Room): 6 mins... Looks like its going the wrong way, Buc

BUCWILD (in VIP Room): I almost pulled on the 100's, but too late

BeltwayBarron (in VIP Room): Chafee is a great guy, and might win, but I wouldn't pay 39 for him

Huge Play: And lo and behold, the 5 point spread that made no sense is gone.

****73NJ (in VIP Room): +74.92

****73NJ (in VIP Room): oh man... +75.32

J0hn Galt: I'm getting killed, lol

caveatBettor (in VIP Room): I would get all the drunk vote

ng140 (in VIP Room): guys what are your thoughts on the GOP taking both houses at 17?

BeltwayBarron (in VIP Room): todd... ugh,. you bought high and will have to sell low

caveatBettor (in VIP Room): lincoln not so good

J0hn Galt: I'm sooo getting killed, lololol

segunda-feira, novembro 06, 2006

Remember, remember the 5th of November

Ainda se goza, por aqui, um empolgante fim-de-semana.
Muitos de vós saberão que há quatrocentos anos atrás, um bombista incompetente foi apanhado nas caves da Câmara dos Lordes, com as suas católicas calças na sua católica mão (a mão esquerda, já que a direita acariciava com ternura um rastilho desconsolado pela humidade).
Alguns saberão também que, por causa desse faux-pas estratégico da Contra-Reforma (always overreaching ...), as pessoas civilizadas - como eu - estão impedidas de esboçar qualquer investida na direcção de uma boa noite de sono.
Porque do lado de fora das janelas, há meninos com foguetes pirotécnicos, e esses foguetes sibilam nas suas sapudas mãozinhas Protestantes, e explodem, segundos depois, num piroso aguaceiro de faíscas Protestantes.
Para não terminar o post neste tom carrancudo, deixo aqui uma informação útil: o elemento químico a adicionar à mistura explosiva, caso se pretenda um fogo de cor verde, é o Bário, que foi descoberto em 1808 por Sir Humphry Davy, mais conhecido pelas suas experiências com óxido nitroso (vulgo gás hilariante).
E como eu precisava, em noites como esta, de uma boa dose de óxido nitroso.

Musil


«Sinto, acima de tudo, que a minha arrogância está a abandonar-me. Estou menos amistoso, tenho menos élan. Sinto-me vazio e trabalho apenas por desespero. O meu comportamento sofre por causa disso. Estou derrotado. Em comparação com qualquer outra pessoa sinto-me estúpido. Sou desastrado, e não sou capaz de reagir ou responder a um insulto da maneira mais adequada. Algumas horas depois, sinto-me novamente arrogante, recluso, marginal, sensível, feliz.»


(Fragmento dos intermináveis diários de Robert Musil, nascido a 6 de Novembro de 1880. O Homem Sem Qualidades foi o primeiro nome em que pensei para este blogue, mas já estava ocupado. Depois tentei O-Homem-Sem-Qualidades, mas também a esse cheguei tarde. Pastoral Portuguesa foi uma resignada sétima escolha, que teve muito pouco de escolha.
Musil acharia todo este processo não apenas normal, mas inevitável.)

domingo, novembro 05, 2006

Se beber, não blogue


Nota: este blog não sugere, nem muito menos encoraja, a adesão à referida iniciativa. Limita-se a transmitir uma pepita informativa que se lhe afigura merecedora de alguns sorrisos tolerantes e pouco mais. O álcool como ferramenta artística é uma falácia que se espera estar já mais do que desfalaciada. Como lubrificante social e desbloqueador de silêncios nunca deixará de ser útil, mas por favor mantenham-no bem longe dos teclados. Se há coisa de que a blogosfera não necessita é de um processo de Hemingwaização.
Para robustecer este ponto, decidiu-se subordinar o resto do post à enumeração de algumas obras-primas da comédia muito do agrado aqui do "Pastoral Portuguesa", e todas escritas - tanto quanto se sabe - sem recurso a quaisquer substâncias intoxicantes:

Portnoy's Complaint, Philip Roth
Pnin, Vladimir Nabokov
Almas Mortas, Nikolai Gogol
Margarita e o Mestre, Mikhail Bulgakov
Mason & Dixon, Thomas Pynchon
The Day of the Locust, Nathanael West
Something Happened, Joseph Heller
Money, Martin Amis
The Life and Opinions of Tristram Shandy, Laurence Sterne
I Served The King of England, Bohumil Hrabal
A Consciência de Zeno, Italo Svevo
The Dog of the South, Charles Portis
Still Life With Woodpecker, Tom Robbins
Visions Before Midnight, Clive James
Parliament of Whores, P. J O'Rourke
Homage to Daniel Shays, Gore Vidal
Valis, Philip K. Dick
Mother Night, Kurt Vonnegut
The Devil's Dictionary, Ambrose Bierce
A Religious Orgy in Tennessee, H. L. Mencken
O Livro de Job

Eu

Isto pode parecer algo despropositado, mas não me ocorreu nenhum contexto onde pudesse enquadrar melhor a frase: já faltou mais para que passe a escrever o pronome "eu" entre aspas.

Breve momento nostálgico


De todas as horas que já perdi na minha vida com coisas inúteis, poucas terão sido mais agradáveis do que as que passei a ser futebolisticamente humilhado numa Mega Drive da Sega, às mãos do meu amigo Paulo Sérgio, no longínquo Verão de '94.

Ouro aos bandidos

A anárquica trupe responsável pela série «Grand Theft Auto» acaba de dar um argumento de peso aos moralistas que fazem campanhas sazonais pela incineração do jogo em praça pública: convidaram Phil Collins a emprestar a voz a uma personagem do novo episódio, Vice City Stories.
Todos os que, como eu, se abespinham instintivamente - e desatam a citar David Hume - sempre que vêem artefactos culturais (seja de que prateleira for) apontados como causas de um tiroteio qualquer, vão agora ter de pensar duas vezes antes de puxarem das habituais contra-respostas. É que um jogo de computador com Phil Collins na banda sonora pode muito bem ser capaz de corromper a juventude.
Há aqui um argumento sério a fazer sobre os limites da alusão irónica na cultura popular, mas terá de ser feito por outra pessoa, porque eu passei da indignação à indiferença, sem sequer passar pela resignação, no curto espaço de tempo que demorou a escrever este post.

sábado, novembro 04, 2006

Esta noite ouve-se


Well, meet me, Jesus, meet me, meet me in the middle of the air
If these wings should fail me, Lord, won't you meet me with another pair
Well, well, well, so I can die easy
Well, well, well, well, well, well, so I can die easy
Jesus goin' make up
Jesus goin' make up
Jesus goin' make my dyin' bed

Blind Willie Johnson, «Jesus Make Up My Dyin' Bed», Dark Was The Night

(Um guitarrista rebelde de Sacavém chamado Luciano [deste lembro-me do nome, vá-se lá saber porquê] passou alguns meses entre 1992 e 1993 - com paciência de santo - a tentar ensinar-me a extrair de uma guitarra algo mais do que arrepios de indignação. Não foi bem sucedido, mas não por falta de ânimo ou boa vontade. Ficaram-me, na memória muscular, apenas os primeiros acordes do «Stairway to Heaven», o que não é grande motivo de orgulho: creio que alguns estudos científicos recentes mostraram que 95% da raça humana sabe tocar os primeiros acordes do «Stairway to Heaven», mesmo aqueles que nunca pegaram numa guitarra.
Mas o maior legado que o Luciano me deixou foi um indecoroso entusiasmo por três bluesmen da velha guarda (o blues de Chicago não me diz muito): Robert Johnson, Skip James e sobretudo, Blind Willie Johnson.
Diz-se que os Delta bluesmen não têm biografias, têm mitos. O mito de Blind Willie faz-se da sua primeira guitarra, construida por ele a partir de uma caixa de charutos; do canivete que usava para o efeito "slide"; de um blues sobre Sansão e Dalila que cantou à porta de um tribunal de New Orleans, e que causou um motim; de uma carreira de sucesso cortada pela Grande Depressão, que o forçou a cantar na rua, dependente de esmolas; e da sua morte prematura, de pneumonia, depois te ter dormido à chuva, nas ruínas de uma casa incendiada.
Uma das suas composições, o hipnótico «Dark Was The Night, Cold Was The Ground», foi usado por Pasolini em A Paixão de São Mateus, e viria mais tarde a servir de inspiração à soberba banda sonora de Ry Cooder para um dos filmes da minha vida.
Desafio qualquer possuidor de credenciais humanas a ouvir «Dark Was The Night, Cold Was The Ground» e a negar subtis movimentos capilares e dérmicos. Pessoalmente, cada vez que ouço isto sinto-me mais amnésico que nunca.)

quinta-feira, novembro 02, 2006

...the sleeping life of plants...


«It was the cyclamen plants that absorbed him hypnotically - the dark cores of the pink and the more purple circles of the white, the petals turned back, the leaves mottled in many shades of green. They were said by Larousse to belong to the primrose family. They grew from corms. Someone had once suggested to him that these green beings produced their leaves and flowers in a state of sleep, perfection devoid of consciousness, design without nerves. Put a handful of dirt in the pot, and they came up with this beauty. Who had said that, about the sleeping life of plants? Brooding over the cyclamens, he often dozed; he felt too hazy to remember anything. He thought, if you had enough of these plants in a room and watered them with a Nembutal solution, they might cure insomnia, make a dream atmosphere.»

(Saul Bellow, The Dean's December)

Remodelação

A minha lista de blogs portugueses estava, com toda a franqueza, num estado lamentável. Penso ter cumprido hoje as minhas obrigações de senhorio. Juntei alguns links que já lá deviam estar, e restaurei outros que tinha apagado, por puro desmazelo, na última remodelação. Também alterei ligeiramente o alinhamento, usando um baralho de cartas KEM, um par de dados azuis, e uma chave matemática complicadíssima. Como ainda tinha tempo disponível (um problema constante, que já me trouxe muitos dissabores) decidi desmontar cada um dos nomes e brincar aos anagramas. Ora, isto pode muito bem ser tão aborrecido como soa, mas garanto que não é tão fácil como parece. O processo, agora concluído, não correspondeu, de todo, às minhas expectativas iniciais. Nenhuma das novas designações me parece apresentar uma melhoria indiscutível sobre o original - nalguns casos, bem pelo contrário. É triste, por exemplo, ver o excelente blog do Pedro Mexia reduzido a um concupiscente detergente para a roupa. Ou o Bomba Inteligente encapsulado numa justaposição nada feliz de um repórter fictício belga com a ambiciosa empreitada dos descendentes de Noé. E que dizer da rapaziada do Aspirina B, envolvidos numa fútil campanha contra aquela simpática cidade da Toscânia? Duvido que alguém tenha saído a ganhar desta sopa de letras.
Uma nota final: os coca-bichinhos entre vós podem ter reparado que o primeiro dos links não recebeu o mesmo tratamento anagramático aplicado aos seus parceiros de lista. A razão é simples: "Um Blog Sobre Kleist" é já de si um anagrama, embora para o decifrar seja necessária fluência numa obscura língua morta; e a única pessoa que a domina é o autor de "Um Blog Sobre Kleist".

quarta-feira, novembro 01, 2006

Jogar às escondidas


... I turn'd me round, and to each shade
Dispatch'd an eye,
To see if any leaf had made
Least motion or reply;
But while I list'ning sought
My mind to ease
By knowing, where 'twas, or where not,
It whisper'd “ Where I please.” ...

(Henry Vaughan, 1650)

In Pace Requiescat

Numa das suas cartas (às quais infligi abomináveis erros de tradução nas aulas de Latim), Cícero menciona uma curiosa superstição popular romana: ler pedras tumulares causa perda de memória.
Eu, que perdi muitas horas em Bunhill Fields e Highgate, no Montparnasse e no Père Lachaise, no Szcecin e no Nieuw Kerk, na Kapuzinergruft dos Habsburgos e no cemitério judeu de Praga, sou a prova viva de que o povo tem sempre razão, mesmo quando não sabe o que diz.
Parece-me também da mais elementar justiça poética que a passagem em questão seja a única lembrança de Cícero a sobreviver ao final da minha carreira académica. As outras descansam em paz, na companhia de inúmeras datas de aniversário, nomes de antigos professores, passagens não-sublinhadas de certos livrinhos da colecção Argonauta, e até - confesso-o - do propósito original deste post, já irrevogavelmente perdido.

Este post não é um anagrama

Eu, asno, pasto amargamente.

terça-feira, outubro 31, 2006

Trick or treat?

We Await Silent Tristero's Empire


Durante o meu primeiro ano em Edimburgo, devo ter recebido perto de três dezenas de cartas endereçadas a um senhor Alistair Crump. Garantiu-me a agência imobiliária que não tinha qualquer registo de um inquilino anterior chamado Alistair Crump. No posto local do Royal Mail expliquei a situação. Garantiram-me que não voltaria a receber as cartas do senhor Alistair Crump. Uma semana depois, recebi nova carta para o senhor Alistair Crump. Esta sequência repetiu-se várias vezes. Por fim, acabei por mudar-me, mas, tanto quanto sei, os inquilinos que me sucederam continuaram a receber a volumosa correspondência do senhor Alistair Crump.
Na manhã de hoje, a quinhentas milhas de Edimburgo, recebi um envelope - em meu nome - contendo dez postais com ilustrações de cariz natalício, feitas por membros da Association of Mouth & Foot Painting Artists (AMFPA). Apesar de todo o respeito e solidariedade que a organização me merece, nunca subscrevi uma das suas newsletters ou encomendei qualquer um dos seus produtos. Desconheço os meios através dos quais eles obtiveram os meus dados.
Um dos ilustradores - que pintou com a boca um enorme castelo cinzento afundado em neves festivas - chama-se Alistair Crump.
Perante situações destas, que afagam sedutoramente a minha apofenia, não há chocolate que alivie os tremores, nem exercícios respiratórios que dissipem a insónia. Se nesta altura tivesse a oportunidade de observar uma noz ao microscópio, quem me garante que não encontraria, como Strindberg, um par de mãos enlaçadas em fervorosa oração? E, já agora, não é ainda um bocadinho cedo para postais de natal?
É nestas alturas que me sinto tentado a voltar a ler as inscrições nas paragens de autocarro, à procura de pistas, de sinais.

Liberte o geek que há em si

Pynchonians of the World, unite!

domingo, outubro 29, 2006

«The Death of the Lion» (2)

Se há algo para que novos leitores de Henry James raramente vão preparados é para o humor. A amnistia incondicional que o cânon lhe concedeu no século XX, veio munida de um estranho silêncio sobre um facto que deveria ser repetido muitas vezes: em boa forma, James é tão ou mais cómico que Dickens. A comédia pode não se impor de forma tão musculada, mas é seguramente mais versátil.
Temos a básica confusão de indentidades Shakespeareana:

«"Dora Forbes, I gather, takes the ground, the same as Guy Walsingham’s, that the larger latitude has simply got to come. He holds that it has got to be squarely faced. Of course his sex makes him a less prejudiced witness. But an authoritative word from Mr. Paraday - from the point of view of his sex, you know - would go right round the globe. He takes the line that we haven’t got to face it?"
I was bewildered: it sounded somehow as if there were three sexes. My interlocutor’s pencil was poised, my private responsibility great. I simply sat staring, none the less, and only found presence of mind to say:
"Is this Miss Forbes a gentleman?"
Mr. Morrow had a subtle smile. "It wouldn’t be ‘Miss’ - there’s a wife!"
"I mean is she a man?"
"The wife?"»

E neste diálogo, que podia (com muito boa vontade) sugerir uma sitcom contemporânea, notem o timing perfeito da interrupção:

«I declared to Lady Augusta briefly that nothing in the world can ever do so well as the thing that does best; and at this she looked a little disconcerted. But I added that if the manuscript had gone astray our little circle would have the less of an effort of attention to make. The piece in question was very long - it would keep them three hours.
‘Three hours! Oh the Princess will get up!’ said Lady Augusta.
‘I thought she was Mr. Paraday’s greatest admirer.’
‘I dare say she is - she’s so awfully clever. But what’s the use of being a Princess -- ’
‘If you can’t dissemble your love?’»

Há ainda um horrendo e memorável trocadilho - que Pynchon não desdenharia - envolvendo um versículo da profecia de Isaías e um prato de carne de borrego.
E para as multidões que nunca se cansam de abordagens à especulação metafísica feitas sob o signo de Beckett e do palhaço Batatinha, deixo aqui a primeira troca entre o narrador do conto e o seu inenarrável editor:

«Mr. Pinhorn pursed up his mouth. "Is there much to be done with him?"
"Whatever there is we should have it all to ourselves, for he hasn’t been touched."
This argument was effective and Mr. Pinhorn responded. "Very well, touch him." Then he added: "But where can you do it?"
"Under the fifth rib!"»


Agora liguemos a televisão.

«The Death of the Lion» (1)

Nas muitas páginas que Henry James dedicou ao exame da vida literária, há um elemento que aparece repetidamente. Encontramo-lo, com algumas variações de grau e género, em The Aspern Papers, «The Middle Years», «The Lesson of the Master» e no meu conto favorito, «The Private Life». Notamo-lo também em «The Death of the Lion». Dois cursos de acção semelhantes, e que produzem resultados iguais, parecem exigir do leitor, com uma tenacidade sussurrada, julgamentos opostos. Vezes sem conta, é-nos pedido que atribuamos um valor aparentemente exagerado a intenções, ou apenas a suspeitas de intenções. A mesma manobra (grande parte das acções dos personagens de James podem ser descritas como manobras, ou estratagemas) pode ser justificada de duas maneiras diferentes, dependendo da perspicácia moral de quem as perpetra.
O narrador da história é um jornalista, destacado para escrever um perfil do escritor Neil Paraday, e que, por razões sempre intrepidamente ambíguas - até para ele - desiste da missão inicial e se vai infiltrando na vida de Paraday, como confessor e protector. Que a protecção é necessária, o leitor nunca duvida. Paraday vê-se, de um momento para o outro, famoso, celebrado; «the poor man was to be squeezed into his horrible age», nas palavras do narrador. As exaltações públicas acumulam-se, perfis e retratos são encomendados, e a alta sociedade londrina adopta-o - como acessório cultural para soirées. O processo vem a ter consequências desastrosas, para ele e para um texto seu ainda por completar, que poderia ter vindo a ser a sua obra-prima, mas que acaba por desaparecer, tragado por aquele ciclone social.
O conto é escrito sob a forma de uma confissão do narrador à posteridade, a mesma posteridade à qual foi negada a última obra de Paraday, mas aquilo que ele pretende confessar nunca se cristaliza. Pareceu-me clara a sua tentativa de "vender" os seus escrúpulos ao leitor. Na 1ª linha do conto diz-nos que «I had simply, I suppose, a change of heart» , e é em redor dessa frase, com toda a sua carga de ambiguidades, que ele vai moldando a narrativa. A determinada altura, os seus motivos são postos em causa por outra personagem, Mrs Wimbush (os nomes de James embaraçam os de qualquer outro escritor). A confrontação, significativamente, não é relatada em discurso directo, mas sintetizada numa carta, na própria voz do narrador: «I’m made restless by the selfishness of the insincere friend - I want to monopolise Paraday in order that he may push me on. To be intimate with him is a feather in my cap; it gives me an importance that I couldn’t naturally pretend to, and I seek to deprive him of social refreshment because I fear that meeting more disinterested people may enlighten him as to my real motive».
Lendo o conto hoje pela segunda vez, insinuou-se-me uma alternativa extraordinária: o incidente é falso. O confronto com Mrs Wimbush nunca aconteceu e o rasgo de análise proveio de si próprio. Incapaz de o resguardar na privacidade da sua consciência, acaba por partilhá-lo com o destinatário da carta ( e com o destinatário do conto, que somos nós) sub-alugando-o a uma intuição alheia.
Henry James é a melhor dor de cabeça que a Literatura proporciona.

Are you talking to me?

Mais algum cliente da Amazon recebeu um e-mail prometendo um desconto de 10 dólares na aquisição de creme anti-rugas Neutrogena e barras de proteínas Harvest, ou aquilo foi especificamente para mim?

Peacocks rule


O senhor Morel escreveu uma coisa muito boa sobre a Flannery O'Connor. Mas depois escreveu outra coisa ainda melhor. Agradeço.

sábado, outubro 28, 2006

Esta noite ouve-se



When you were young you were the king of carrot flowers
And how you built a tower tumbling through the trees
In holy rattlesnakes that fell all around your feet

And your mom would stick a fork right into daddy's shoulder
And dad would throw the garbage all across the floor
As we would lay and learn what each other's bodies were for

And this is the room one afternoon I knew I could love you
And from above you how I sank into your soul
Into that secret place where no one dares to go

And your mom would drink until she was no longer speaking
And dad would dream of all the different ways to die
Each one a little more than he could dare to try

Neutral Milk Hotel, «The King of Carrot Flower, pt I», In the Aeroplane Over the Sea.

(Um dia hei-de escrever aqui sobre o colectivo Elephant 6, um grupo de músicos do Colorado que formaram uma mão-cheia de bandas brilhantes no início dos anos 90. Um dia hei-de explicar detalhadamente as razões pelas quais sou um grande fã dos Olivia Tremor Control, dos Apples in Stereo, dos Circulatory System, dos Of Montreal e sobretudo, dos Neutral Milk Hotel. Hei-de justificar as muitas libras que gastei em discos desta gente. Hei-de persuadir os mais cínicos entre vós de que ouvir o álbum In the Aeroplane Over the Sea, do princípio ao fim e sem interrupções, é uma experiência com poucos paralelos num Universo à mercê das volubilidades de Rudolf Clausius e Sadi Carnot. Um dia hei-de fazer todas estas coisas, mas não hoje.)

quinta-feira, outubro 26, 2006

Físico-Química

É inevitável: sempre que leio na imprensa portuguesa um artigo apocalíptico sobre o estado do ensino, lembro-me da minha professora de Físico-Química no 7º ano (do que não me lembro é do nome dela, mas quando me lembrar vocês serão os primeiros a saber) que deixou uma turma inteira estarrecida quando nos informou muito casualmente que, no futuro, os seres humanos seriam capazes de manter relações sexuais apenas com o encostar de um dedo indicador à testa do parceiro. (Isto numa altura em que muitos de nós ainda não estávamos familiarizados com o método canónico).
Desconheço as repercussões que este naco de desinformação veio a ter nas vidas futuras dos alunos, mas sei que a professora em questão foi repreendida pelo Conselho Directivo, até porque o "dedonatestagate" surgiu já depois de alguns inquéritos nervosos de membros da Associação de Pais, que queriam saber porque é que os meninos emergiam das aulas práticas de 5ª-feira a falar de anjos e discos voadores em vez de electrões e bicos de Bunsen.
(Um aforismo para as massas: sabemos que ainda não amadurecemos quando não conseguimos escrever "bicos de Bunsen" sem soltar um risinho pueril).
Uma coisa é certa: por motivos vários, que não vou aqui escalpelizar, uma rubrica intitulada "Os Meus Professores" nunca terá espaço para crescer neste blog. Mas não é por falta de material. Só do Professor Cardoso haveria dezenas e dezenas de incidentes para relatar, todos eles com a capacidade para deleitar e instruir. E da Professora_ (Odete? Bernardete?) outras tantas.
Não sei se ela chegou a falar do planeta Sirius na aula. Ou da conspiração dos Illuminati. Ou de Nikola Tesla. Ocupado como estava a encostar os dedos a testas alheias, confesso que não me lembro de muita coisa.
Mas lembro-me da Segunda Lei da Termodinâmica, cuja hábil formulação pelo Senhor de Todo o Mal nunca é demais relembrar: "A entropia de qualquer sistema isolado tende para aumentar ao longo do tempo, aproximando-se de um máximo". E isto, caro leitor, não é uma boa notícia para ninguém.

Coisas que provavelmente aconteceriam se o Universo fosse regulado pelas mesmas leis que regem a música Country

. um Buraco Negro formar-se-ia apenas quando uma estrela encolhesse os ombros e se rendesse ao bourbon;
. a distribuição de Maxwell-Boltzmann para um gás ideal de N moléculas teria dificuldades em impor a sua relevância perante a mágoa irascível do marido de Sally-Ann;
. a chuva tombaria ininterruptamente sobre o Modelo das Partículas Fluidas, misturando-se com as suas lágrimas;
. um electrão perdido numa estrada secundária perto de Denver, Colorado seria incapaz de arranjar boleia;
. a Via Láctea afastar-se-ia de guitarra na mão, ignorando a Lei de Hubble-Homason, e sem nunca olhar para trás.

quarta-feira, outubro 25, 2006

Lides domésticas

Na minha casa, os livros é que se vão acumulando sobre o pó.