sexta-feira, dezembro 15, 2006

James Wood

He reads, he thinks, he scores. Não sei se já vos disse: eu adoro este homem.

An Inverted Pyramid of Piffle

Parem os relógios, cortem o telefone e impeçam o cão de ladrar com um osso apetitoso: o incomparável Boris Johnson volta hoje a apresentar um episódio de Have I Got News For You, depois de ter sido alegadamente impedido pela liderança do partido (ainda nos tempos de Howard, creio) de o voltar a fazer. É às 21h na BBC1.
Os responsáveis pela edição futura do Oxford Book of Funny Political Quotes já estão todos em estado de alerta máximo.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Yo La Tengo & Hal Hartley

O Auto-Retrato antecipou-se e fez algo que eu já devia ter feito há muito tempo (tenho o clip nos Favoritos há quase dois meses).
Quero apenas acrescentar um facto que, por decoro ou distracção, a Susana não menciona: «From a Motel 6» é recomendada pela Ordem dos Médicos como fazendo muito bem à saúde.

(A propósito de saúde, os Yo La Tengo têm uma versão espantosa do «Andalucia» de John Cale (vem no álbum Fakebook). Se alguém tiver uma gravação ao vivo da canção que possa partilhar através do YouTube, tem aqui um amigo para a vida inteira.)

Se isto é um livro

Numa Waterstones em Staffordshire, vi hoje o If This is a Man do Primo Levi arrumado na estante da 'Ficção', certamente que por descuido ou desconhecimento. Mas suponho que numa hipotética Waterstones em Teerão isto faria todo o sentido.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

A pedido de muitas famílias portuguesas. . .



. . . antecipou-se para hoje o que deveria acontecer apenas na próxima semana.
Esta é a minha modesta contribuição para o inteligente debate entre as facções Leno e O'Brien: para mim, a late night comedy desceu bastante de qualidade desde os tempos em que, em vez de monólogos de abertura sobre tópicos noticiosos, havia um gajo a destruir relógios de cuco com tiros de pistola.

Tarte de coco e metanfetamina

Através do blog do Edward Champion cheguei a uma página que agora acho quase criminoso nunca ter visitado antes : Regret the Error, um site dedicado, nas palavras dos próprios, a registar "corrections, retractions, clarifications and trends regarding accuracy and honesty in the media".
O primeiro artigo da página é uma resenha do que foi 2006 em erros e correcções na imprensa escrita, e duvido que nas próximas duas semanas apareça uma lista de fim-de-ano que me divirta tanto.
Vale a pena ler de uma ponta à outra, mas deixo aqui as três de que mais gostei:

.Do jornal Chicago Tribune: «An editorial in Friday’s paper incorrectly stated that Florida Cresswell, a candidate for state representative in the 28th District, was convicted in 1999 of battery and stealing Tupperware. In fact he was convicted of stealing a battery from a van as well as Tupperware that was inside the van.»

.Da secção de culinária do Newport News: «A correction in this column Thursday about a June 14 Taste section recipe for French coconut pie incorrectly suggested that the recipe called for a pint of vodka.»

.E, finalmente, do jornal The Oregonian: «A headline on Page One on Saturday should have made clear that Oregon Health & Science University will be studying the effects of meth, not cooking it. »

Palavras foram ditas que não podem ser desditas (2)

O meu último e-mail para a Amazon, enviado há cerca de 15 minutos, incluía as seguintes palavras: "... and I suspect a flock of hobbled pigeons would be more effective than your so-called 'delivery apparatus'...".
Depois da vergonha que foi o preordergate, duas encomendas consecutivas foram extraviadas, sem solução à vista.
Isto é mais do que um arrufo; o comércio local ganhou hoje um amigo.

Palavras foram ditas que não podem ser desditas (1)

Ouvido hoje - por mim, ninguém me contou - na paragem do autocarro.
Um adolescente levantou-se e disse isto: «I always feel I'm being arrogant when I make plans. I prefer to just let stuff happen.»
Isto é grave. Isto afecta-nos a todos.

terça-feira, dezembro 12, 2006

Horário Nobre



Se fosse eu a mandar nisto, a televisão seria toda assim.

Spike Jones


«My band's got rhythm. And then we add it a guffaw.»

Uma pesquisa rápida no google.pt fez-me concluir o seguinte: com uma ou outra honrosa excepção, quase ninguém fala no Spike Jones. (E os que falam, julgam que estão a falar do ex-marido da Coppola). Este estado de coisas não pode ser encarado senão como um prenúncio de um estado de coisas ainda pior. Não contem com o Pastoral Portuguesa para Quarto Cavaleiro; aqui, e pelo menos até ao fim do ano, falar-se-à de Spike Jones semanalmente, todas as Terças-feiras.
Quem está agora a abrir os olhos pode começar por aqui. O artigo da wikipedia também não está mau: "He was not born on 14th May 1916, nor did he die on March 29th 1966. His real name was not Harry Joseph Chick Daugherty".
Para a semana há mais.

Elogio da letra V

Vinte mil léguas submarinas, Candide, Leif Eriksson, Scienza Nuova, «The Transformation of Martin Lake», Velha de Ródão e Nova de Gaia, Der Autoritäre Staat, Las Meninas, Myra Breckinridge, Cavalleria Rusticana, "para bailar La Bamba", The Son of the Sheikh, "se eu transformasse os simples vegetaes", Sweet Jane in Furs, Tiago do Deserto, restaurador da Dharma, "sim eu sei/que tudo são recordações", Innere Stadt, a Raínha e as cataratas, o pastor dos Montes Hermínios, coveiro de Pompeia e Herculano, antes do disco compacto, L'Atalante, a Trilogia das Barcas, Doroteo Arango, a Eneida, "O Time, thou must untangle this, not I", Alan Moore, Edward Jenner, «Le Cimetière marin», o Conde Alexei Kirillovich a dançar a mazurka, o Caderno de Barreto, «Blister in the Sun», Piazza San Marco, La Double Vie de Irène Jacob, Mr. Spock, "Mais où sont les neiges d'antan?", Saturae Menippae, Duel in the Sun, Amerigo do Mundo Novo, Matadouro Cinco, o Cinco romano, a cruzada de Stencil, o golo contra a URSS no Olympiastadium, To the Lightouse, Aida, Galerie des Glaces, número atómico 23, "dry your eyes for Madame George", o Sermão da Sexagésima, a Batalha Final, "Luke I am your father".

He that hath wisdom, let him count the number. . .


O pai do Demónio de Maxwell nasceu há 175 anos, "in recognition of which 2006 has been dubbed Maxwell Year". Que Deus nos ajude a todos.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

. . .a byword of emotional volatility throughout the Subdesertine Service. . .


«It had been a particular liberty weekend in Nuovo Rialto. The ship happened to to have tied up at a quay belonging to an aryq shipper, along which many sailor were discovered each morning semi-paralyzed, having got no further in their pursuit of recreation, their Hypop units humming on in Dormant mode. A number of the crew reported being waylaid by sand-fleas, the queues at sick bay each morning running down passageways and ladders well into the Viscosity spaces. Some, apparently having enjoyed the accostments, didn't report them at all. The quarterdeck witnessed scenes of vituperation, smuggling attempts failed and successful, romantic melodrama as the more adventurous crew members discovered the complex allure of Veneto-Uyghur women, who were a byword of emotional volatility throughout the Subdesertine Service. When the time came at last to single up all the lines, some 2 percent of the crew, about average as these things went, had announced plans to stay behind and get married. Captain Toadflax took this with the equanamity of a long-time tropper in the region, figuring he'd get most of them back when he came through town again at the end of the cruise. "Marriage or under-sand duty," shaking his head at some cosmic sadness. "What a choice" . . .»

(Thomas Pynchon, Against the Day)

Com este lápis te confundo

Não fui, certamente, o primeiro a quem isto aconteceu, e o erro foi rapidamente detectado.
Mas os dez segundos em que julguei que o tradutor de Musil, Celan e Benjamin tinha colocado um aparelho nos dentes foram os mais estupefactos dez segundos que passei na blogosfera.

domingo, dezembro 10, 2006

Welcome to Planet Sardar

Este lamentável artigo de Ziauddin Sardar, no último número da New Statesman, apresenta tantas deficiências - de interpretação, de ligação, de raciocínio, de coerência - que o leitor que consiga chegar ao fim ficará com pouco mais do que uma sucessão de interrogações para negociar sozinho. Quão a sério devemos levar isto? Porque é que este homem não está a escrever comédia? Estaremos a lidar com um pantomineiro, alguém com genuínas lacunas educacionais ou simplesmente um virtuoso da desonestidade intelectual? Tudo questões que eu próprio ponderei enquanto abria uma garrafa de água das pedras.
Confesso que desconhecia por completo o nome do senhor (um dos novos membros da Comissão para a Igualdade e os Direitos Humanos) e durante dois dias aguardei o desmascarar de uma impostura na linha da 'Sokal hoax' dos anos 90: um agregado de clichés, insuflado com a estafada terminologia pós-colonialista, plantado numa publicação reputável com o intuito de aferir e estudar as eventuais reacções.
Infelizmente, parece que o artigo é genuíno (salvo seja). E o senhor Sardar está certamente a passar ao lado de uma grande carreira, embora assim de repente não consiga imaginar qual seja.
É difícil saber por onde começar. Por um lado, os vinte parágrafos contêm erros de raciocínio, vandalismos lógicos, analogias mutiladas e falsificações puras em número suficiente para descredibilizar quase imediatamente a sua tese central. Mas por outro, essa tese central está tão diluída no pântano falacioso do artigo, que acaba por sintetizar o antídoto contra a sua própria refutação. Resumindo, o artigo de Sardar coloca-me na desconfortável e pouco habitual posição de não saber ao certo aquilo com que estou a discordar violentamente.
Em termos muito genéricos, Sardar acusa Martin Amis, Ian McEwan e Salman Rushdie (três escritores que, convém lembrá-lo, se opuseram à intervenção no Iraque) de encabeçarem uma conspiração intelectual cuja intenção é avançar os interesses do neo-conservadorismo: «Blitcons come with a ready-made nostrum for the human condition, They use their celebrity status to advance a clear global political agenda». Não contente com essa lunática, e enfaticamente não demonstrada, asserção, reduz depois toda a obra de Saul Bellow - uma das mais generosas e inclusivas que a literatura moderna nos deu - a uma mera ilustração da filosofia de Allan Bloom, e a uma incubadora de elitistas, «obsessed with the preservation of the canon».
O que é aqui ensaiado (da forma mais azelha possível) é uma reciclagem - uma actualização da terminologia "orientalista" de Edward Said, adaptada a novas circunstâncias. Mas é impossível não imaginar Said acometido de cólicas mentais quando confrontado com este amontoado de disparates. Por muito que se discorde das ideias de Said, estas eram inteligentemente defendidas, coalescendo numa teoria sólida. Já a diatribe gaguejante de Sardar assemelha-se mais a um malão de viagem comprado numa feira, no qual se tentou enfiar roupa para sete viagens diferentes. Há para ali algures uma camisa havaiana e talvez um par de galochas esburacadas, mas nada que dê para levar ao baile.

(Aprendi posteriormente que os problemas do senhor Sardar com o fantasma do "Cânone Ocidental" não são de agora: há pelo menos dois outros artigos na New Statesman em que ele se dedica a desmontar esse asqueroso panteão imaginário de "wall-to-wall white men" (no qual, estranhamente, inclui Naipaul e Jane Austen). Quanto à posição do 'obcecado' Amis, podemos encontrá-la neste excerto da introdução a The War Against Cliché: «In the long term, literature will resist levelling and revert to hierarchy. This isn't the decision of some snob of a belletrist. It is the decision of judge Time, who constantly separates those who last from those who don't.» Conversa perigosamente anti-democrática, como se vê.)

Os instantes fraudulentos são demasiados para rebater um por um. Fica aqui este, quase ao acaso, que pretende ilustrar o "preconceito Ocidental" de Ian McEwan:
«. . . we realise that Saturday really assigns a mystical dimension to western literature: the poetry of Matthew Arnold not only serves as an antidote to brutish violence, but literally saves the day at the end of the novel. As a corollary, we are forced to conclude, those who have never read War and Peace, for example, are not fully human.»
O que somos forçados a concluir é que a educação do senhor Sardar foi um grande desperdício de tempo e, no processo de distribuição das culpas, não será de todo descabido ter uma palavrinha com os seus antigos professores e perguntar-lhes porque é que ele não foi, sei lá, açoitado mais vezes.
O salto lógico entre o último capítulo de Saturday e a conclusão que Sardar tira ("those who have not read War and Peace, for example, are not fully human") é típico do seu processo mental: pregar dois tópicos isolados no vácuo e esperar que o leitor preencha o espaço vazio com a sua própria colecção de preconceitos. O que McEwan - um escritor com demasiadas nuances para Sardar - faz em Saturday não é traçar uma distinção entre o que é 'humano' e o que não é, ou mesmo entre 'civilização' e 'barbárie', mas sim dramatizar - nas palavras de James Wood (na New Republic), "a irrupção do irracional" na esfera privada:
«. . .this kind of terror is not opposed by fiction as such, but by a nobler version of the irrational -- by poetry, by song, by music, and by love. Earlier in the book, Perowne attended his son's band's rehearsal, and while the glorious blues sang out, he reflected on music's implicit utopianism -- a collaboration, "an impossible world in which you give everything you have to others, but lose nothing of yourself". (. . .) It is not fiction, then, with its habitual coincidences and unnatural encounters -- of which this book has its fill -- but the ungraspable communion of music that might be "set against the hatred of their murderers." Against a dark irrationality can perhaps be posed the enlightened irrationality of music's fleeting utopia. . .»
Este impulso didáctico numa obra de ficção pode ser debatido de mil e uma maneiras diferentes, mas tentar inclui-lo, como Sardar faz, num inexistente projecto literário neo-conservador, é extravasar os limites do comentário sério e penetrar, com exuberante alacridade, nos domínios da propaganda.

Mas é Domingo e os passarinhos espirram no jardim. Há futebol na televisão, há belas pistas de cavalos que abrem ao meio-dia e nunca fecham, há metade de um livro de Pynchon para ler até ao Natal.
O que não há é espaço para os delírios paranóicos dos outros; os meus chegam.

P.S.: Dito isto, vou esperar com ansiedade pela inevitável resposta de Christopher Hitchens, cuja truculência, apesar de previsível, é invariavelmente divertida nestas situações.

Conselho a um amigo que acabou de mudar de casa

Vale a pena investir num sofá confortável: é provável que tenhas de lá passar algumas noites.

sábado, dezembro 09, 2006

Miccoli - upgrade

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Nove notas biográficas sobre Michiko Kakutani


«. . . Thus Ishmael, who proceeds to attempt to transcribe the whale's brow for us. 'I put but that brow before you. Read it if you can.' We can read the book, but the book cannot read the brow. So it is, and so Ishmael knows it to be.»

(Tony Tanner, Scenes of Nature, Signs of Man, Cambridge University Press, 1987.)


1. a sua infância em New Haven é uma série de decisões radicais, rapidamente ignoradas. No relatório de uma professora primária pode ler-se «Michiko é impulsiva, mas incapaz de assumir compromissos». Os seus sonhos são agitados. Confessa-se assombrada pelo constante crepitar de invisíveis chicotes. Um pacote pré-pago de dez sessões terapêuticas com um discípulo de Rollo May produz resultados inconclusivos;

2. por ocasião do seu oitavo aniversário, o pai (o matemático Shizuo Kakutani) oferece-lhe um exemplar das Fábulas de Esopo. Michiko deixa-lhe uma curta nota de agradecimento no bolso interior do casaco: "Querido Papá. O cisne, a raposa, a lebre e a tartaruga são meros recortes genéricos, abdicando da Universalidade conferida por uma maior densidade psicológica. Não passam de figuras unidimensionais, perdidas numa floresta de clichés. As ilustrações, contudo, são bastante competentes. Amor, Miki.";

3. na sua mesa-de-cabeceira, além de um retrato autografado de Spiro Agnew, Michiko guarda um lenço, bordado em Imperial typeface, tamanho 8.7, com as seguintes palavras: "Nothing odd will do long, nothing odd will do long, nothing odd will do long";

4. depois de ler no original um obscuro panfleto de 1824 (Réflexions sur la puissance motrice du feu et sur les machines propres à développer cette puissance) comenta com um editor-adjunto: «Senti que tudo não passava de um daqueles jogos pueris em que o autor vai inventando regras novas para prontamente as esquecer. É o leitor que sente a fadiga de artilhar cada página ex nihilo. Duvido que este livro exista realmente»;

5. é fluente em cinco línguas modernas, mas não sente paixão por nenhuma delas. As palavras portuguesas de que mais gosta são "resiliência", "magnólia", "sinecura" e "ostrogodo". Consciente da sua predilecção, tenta utilizá-las com "parcimónia" (palavra que detesta);

6. sempre que lhe chega às mãos um livro que exceda as oitocentas páginas, Michiko observa-o demoradamente, como se estivesse diante do mais arrebatador dos segredos. Ouvem-se-lhe estalidos, sussurros, cacofonias guturais. Uma empregada de limpeza (que acabaria por vender a história ao National Enquirer) testemunhou várias vezes esta ocorrência: «Ela assume uma postura hirta, com as mãos cercando o volume fechado, e diz coisas como 'o que é que tu me podes dizer sobre mim própria' ou 'ainda e sempre, a ignomínia da abundância', coisas assim, percebe? Por vezes, atinge um tal grau de concentração que nem sequer ouve o telefone, ou a campaínha, ou as minhas perguntas preocupadas. Nunca me consegui habituar; acabei por cessar unilateralmente o meu contrato. Não sei se ela sente a minha falta.»;

7. sob a influência de Anaxágoras, também ela postula uma pluralidade de elementos individuais imperecíveis, a partir dos quais surgiu toda a ordem. Por vezes acha que é impossível distinguir esses elementos uns dos outros, sensação que se agrava na Primavera;

8. no restaurante onde o corpo editorial do New York Times mastiga as suas sorumbáticas reuniões semanais, Michiko lê a seguinte mensagem num bolinho da sorte: «Há uma frase, e apenas uma, que a pode salvar; está escrita a lume, no interior das suas pálpebras, a soma ardente de todas as coisas que nunca aprendeu. Se abrir os olhos diante de um espelho, poderá discernir o clarão da verdade a sumir-se para sempre pelo tecto». Depois da sobremesa, dobra meticulosamente a tira de papel, camuflando-a entre os destroços da melancia;

9. Michiko Kakutani é solteira.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

O Borat Português



O génio que é Steve Coogan, parodiando algo muito mais engraçado que o Cazaquistão.

(Cortesia do Salústio, do blogue Golpe de Estado, um blogue que faz rir pelo menos uma vez por semana. Às vezes mais. É imprevisível.)

O Homem Invisível defende McEwan


(No Daily Telegraph. E já agora, se eu tivesse uma libra por cada vez que as palavras 'Pynchon' e 'recluso' aparecem juntas no mesmo artigo, seria onze mil libras mais rico.)

terça-feira, dezembro 05, 2006

Não estive na Aula Magna no Domingo, mas é como se tivesse estado



Que o totoloto saia muitas vezes seguidas a quem escreve assim sobre os Yo La Tengo.
Ouçam o «From a Motel 6» e digam lá se o senhor não tem carradas de razão.


(Actualização:
Fixemo-nos no essencial e não nas decorações.
Nada do que está escrito nos primeiros 2 1/2 parágrafos (aos quais, sabiamente, eu restringi a
citação) pode ser rebatido com boa-fé. Bach fez algumas coisas com piada (Wachet Auf, por exemplo, que Pynchon descreveu como "the best tune ever to come out of Europe") mas não era propriamente coast to coast.
Quanto ao resto, como se pode ler no sempre surpreendente Christianity Today,
a culpa (indirecta) é do Lester Bangs. E estejam à vontade os que desejem atirar as primeiras pedras; eu, com os telhados de vidro que fui acumulando sempre que falei ou escrevi sobre os Velvet Underground, o Dylan ou os Yo La Tengo, vou continuar a aplaudir tranquilamente as adrenalinas pós-concerto e a tolerar ocasionais fingerjobs.

P.S.:
"... a melhor voz de Portugal é a do Paulo de Carvalho (elementar)...."? É possível. Um relatador mexicano não o diria melhor.)

INLAND EMPIRE


Trailer.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

"A bar, a bar, a bar, a salad bar"



Misheard lyrics

(Quase no fundo da página, na letra de «Velouria», alguém percebeu 'I can see the tears of Shastasheen' como 'I can see the genius of chastity', talvez a melhor frase que o Black Francis nunca escreveu)

Black is white and white is black

Garry Kasparov tem um artigo de opinião no Wall Street Journal sobre a estratégia a seguir no Médio Oriente.
Em breve, na ChessBase, Bill Clinton ensaiará uma nova e surpreendente variante da Defesa Philidor .

domingo, dezembro 03, 2006

Still ill?


... England is mine
and it owes me a living...


"O fim do Reino Unido?", ou uma variação sobre essas palavras, tem sido uma frase recorrente na imprensa inglesa das últimas semanas. O debate, tratado com crescente seriedade na Escócia, tem gotejado para sul da fronteira em velocidade de cruzeiro, mas duas bombas despoletaram a corrida ao editorial: a primeira foi uma inesperada sucessão de sondagens como esta, levantando a possibilidade real de um parlamento autónomo dominado pelo Scottish National Party (SNP). A outra foi um surpreendente artigo de opinião na revista Prospect, pelo historiador Michael Fry, um membro da velha guarda conservadora (ferozmente unionista), que anunciou a sua conversão recente à causa da independência. Diz-se que pode ser o primeiro de muitos.
Há seis anos atrás, quando me mudei para a Grã-Bretanha, este cenário era impensável. A expressão eleitoral do SNP era mínima, e tinha estagnado depois dos ganhos dramáticos na década de 70. Até no período Thatcher/Major, durante o qual o Partido Conservador se eclipsou completamente nas Highlands como força eleitoral, os principais beneficiários foram os Trabalhistas e os Liberais-Democratas, cuja coligação tem dominado a legislatura desde as primeiras eleições pós-devolução em 1999.
É claro que o impulso separatista não é de agora, nem nunca andou afastado do debate político. A História escocesa assemelha-se a um complexo de inferioridade ilustrado; um longo catálogo de independências fugazes e delírios tribais anti-ingleses, desde que os vários clãs se uniram sob a coroa de Malcolm II em 1018.
A União de 1707 (e é uma das muitas ironias deste caso que as celebrações do ano que vem possam inaugurar o processo de dissolução) tem sido tradicionalmente interpretada pelos historiadores como uma abdicação voluntária de soberania por parte do parlamento escocês, a troco da manutenção de um sistema legal próprio, e de garantias sobre a independência da Igreja Presbiteriana. A proposta foi aprovada na altura por 40 votos de diferença, mas a União sempre foi impopular entre a população, e subsiste até hoje uma forte e curiosa tradição oral que acusa os Whigs escoceses de terem vendido a pátria a troco de subornos e regalias pessoais - um mito que permite imensos trocadilhos na panfletaria nacionalista actual sobre os novos "traidores" Gordon Brown e John Reid.
Gordon Brown, já agora, é quem tem mais motivos para estar preocupado. O partido Labour precisa necessariamente dos 40 assentos parlamentares garantidos pelos círculos escoceses para ter qualquer esperança de competir com os Conservadores em 2009. A Separação - para quem quiser manter contagem das ironias - negar-lhe-ia a possibilidade de se tornar o 12º Primeiro-Ministro britânico nascido na Escócia (o último, apesar das propaladas 'raízes' de Douglas-Home e Tony Blair, foi Ramsay MacDonald). Brown, que tem martelado incansavelmente a tecla da 'Britishness', em oposição a orgulhos patrióticos mais localizados, arrisca-se a ser, digamos, "Cameronizado" pelos seus próprios conterrâneos.
Parte do debate tem-se centrado na capacidade da Escócia para sobreviver como nação independente. Fala-se em despesismo estatal congénito (graças ao que devia ser apenas uma curiosidade histórica, a Barnett Formula, a Escócia recebe uma parcela quase comicamente desproporcionada do orçamento britânico), e num sector público demasiado inchado (cerca de 585 mil funcionários para uma população de 5 milhões).
Do lado nacionalista fala-se no Exemplo Eslovaco (os eslovacos acolheram com natural surpresa o facto de serem um exemplo) e acena-se com os lucros do petróleo do Mar do Norte - uma charada com barbas. Uma vantagem mais evidente é o sector da educação, que, embora não seja o mesmo responsável por dar ao Mundo David Hume, Adam Smith, James Watt, John Logie Baird, James Clerk Maxwell, Thomas Reid, Alexander Flemming e William Cullen, continua a ser superior ao inglês, especialmente ao nível superior, onde as Universidades de Edimburgo, Aberdeen e St. Andrews, que persistem em manter os seus regimes de 'porta aberta', em nada ficam a dever a Oxford e Cambridge.
Mas subsistem sérias dúvidas sobre a disponibilidade dos líderes do SNP para seguirem qualquer modelo, seja ele irlandês, eslovaco ou simplesmente racional. Alex Salmond tem feito passar a mensagem que as receitas petrolíferas dos próximos 30 anos serão suficientes para financiar os cortes fiscais corporativos necessários sem reduzir a despesa pública. Alguém que perceba mais de Economia do que eu (não é difícil) estará mais habilitado para avaliar a sanidade deste projecto. A um leigo, isto soa demasiado familiar: a conversa do jogador que vai para a mesa da roleta com um "sistema", convencido de que vai ser possível regressar a casa com o dinheiro, as fichas, e o eterno respeito do croupier. O que costuma acontecer é ficar sequer sem a quantia para o táxi.
Apesar de todas estas dúvidas, o que é inegável é o florescimento de um optimismo contra-natura, bastante diferente do nacionalismo cheio de ressentimentos a que os escoceses me tinham habituado. Em 2003, uma sondagem em Edimburgo que tentava averiguar as afinidades patrióticas dos cidadãos revelou que 72% se definiam como escoceses e apenas 20% como britânicos. A previsível manchete de um jornal local ("SCOTTISH PRIDE ON THE RISE!") foi assim comentada por um amigo meu: "Bollocks. Of course I feel Scottish rather than British, but pride has got nothing to do with it".
O mesmo amigo, que nunca participou num sufrágio na sua vida inteira, envia-me agora e-mails entusiásticos sobre as eleições de Maio próximo. E o facto de alguém como ele saber a data com esta antecedência, é talvez o aspecto mais surpreendente de toda esta situação.

Should I post or should I go

Queria agradecer ao leitor do Barreiro que me enviou um extenso mail, no qual descreve, com brio e paciência assinaláveis, todas as facetas do génio incomparável dos The Clash que eu nunca tive tempo ou sensibilidade para discernir, realçando no processo as gritantes falhas no meu pseudo-argumento sobre os Ramones.
Dois reparos:
1) na frase do segundo parágrafo que termina com ". . . esse focinho todo", a sintaxe turbulenta dificulta a identificação do sujeito;
2) a actividade de cariz íntimo que simpaticamente me aconselha a praticar em equídeos escreve-se com 'ch' e não com 'x'.
Em todo o caso, um post que tinha esboçado para hoje - com o título provisório "Joe Strummer: canastrão ou mentecapto?" ficará na prateleira por tempo indeterminado.

Discos do ano

Quando comecei o blog em Julho, tinha essencialmente um objectivo: aguentar até Dezembro, quando chegasse a altura de proceder aos inevitáveis balanços de fim-de-ano.
O impulso do blogger para fazer listas não é arbitrário; parte, aliás de uma profunda e venerável convicção: a de que o mundo seria um lugar melhor se toda a gente ouvisse a nossa música. Que os impostos seriam mais baixos, que os automobilistas respeitariam as zebras, que os vizinhos diriam sempre bom-dia, que as almofadas seriam dotadas de fibras soporíferas naturais, que os carteiros se restringiriam às suas limitadas porém importantíssimas competências, que as paragens de autocarro seriam lugares iluminados por inesperados sorrisos, que os números de telefone realmente importantes jamais seriam esquecidos.
Movido por essas e outras corriqueiras esperanças, eu faço listas como esta:

1. Yo La Tengo – I Am Not Afraid Of You and I Will Beat Your Ass
2. Bob Dylan – Modern Times
3. The Decemberists – The Crane Wife
4. Morrissey – Ringleader of the Tormentors
5. The Handsome Family – Last Days of Wonder
6. Bonnie 'Prince' Billy
– The Letting Go
7. The Fratellis – Costello Music
8. Woven Hand – Mosaic
9. Sufjan Stevens – The Avalanche
10. The Raconteurs – Broken Boy Soldiers


- Desilusão do ano: Life Pursuit dos Belle & Sebastian. Há quem goste mais deles agora. Pessoalmente acho que desde o The Boy With The Arab Strab aquilo tem sido sempre a descer;

- Menção especial: Underdog World Strike dos inqualificáveis Gogol Bordello. Saiu em 2005, mas devia sair todos os anos.

sábado, dezembro 02, 2006

. . .forty feet above. . .


«'Fax's brother Cragmont had run away with a trapeze girl, then brought her back to New York to get married, the wedding being actually performed on trapezes, groom and best man, dressed in tails and silk opera hats held on with elastic, swinging upside down by their knees in perfect synchrony across the perilous aether to meet the bride and her father, a carnival "jointee" or concessionaire, in matched excursion from their own side of the ring, bridesmaids observed at every hand up twirling by their chins in billows of spangling, forty feet above the faces of the guests, feathers dyed a deep acid green sweeping and stirring the cigar smoke rising from the crowd.
Cragmont Vibe was but thirteen that circus summer he became a husband and began what would become, even for the day, an enormous family.»

(Thomas Pynchon, Against the Day)

Exit Zuckerman

Marcar nas agendas literárias: Outubro de 2007.

Bucelas e Dão

Na página 168 de Against the Day, uma dos personagens passa uma semana em Lourenço Marques e refere-se ao vinho disponível no mercado colonial como «the rotgut rejectamenta of Bucelas and Dão».
É em momentos como este - e momentos como este são frequentes - que se insinua na mente predisposta a tais insinuações a possibilidade de Pynchon ter, não lido a totalidade da última edição da Encyclopaedia Britannica, mas sim escrito a totalidade da última edição da Encyclopaedia Britannica, possivelmente nas horas vagas entre outros projectos mais árduos.

(Nota: depois de alguns solavancos iniciais que agora admito poderem ter sido sintomas de nada mais que hipocondria do leitor, os vários enredos começam a ganhar momentum a partir da primeira centena de páginas. As reticências regressam; as longas enumerações também; e regressa o talento inqualificável responsável pelas melhores páginas de Gravity's Rainbow.
O livro é embaraçosamente bom.)