terça-feira, dezembro 19, 2006

Dude


(A piada da Time vem com nove anos de atraso)

Consolo equestre (2)

Consolo equestre (1)

«Hoje, 7 de maio, corridas de cavallos no hippodromo de Belem.
Um premio foi disputado por quatro cavallos, um foi disputado por tres, outro por dois, e o ultimo finalmente por um cavallo só. Este cavallo partiu correndo vertiginosamente atraz de si mesmo, e desenvolveu tal ardôr e tal velocidade que chegou á meta, no meio das ovações e dos applausos geraes, passando adiante de si proprio!
Nota-se esta curiosa influencia do premio do governo, do premio de el-rei, e do premio do Club, sobre o desenvolvimento da raça cavallar:—quanto mais premios se distribuem menos cavallos ha.
Se a instituição se mantem por dois ou tres annos mais, é-nos licito acariciar a esperança de que terminaremos por não haver cavallo nenhum, e teremos ainda o gosto de ver o primeiro dos sportmen que figuram no programma da presente corrida, o ex.'mo sr. Galileo, acabar por percorrer a pista montado no seu telescopio.»

(Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz, As Farpas, Maio 1877)

Examen de la obra de Britt Marie Mattsson

segunda-feira, dezembro 18, 2006

O Vermelho e o Negro

Filipe Guerra tem um blogue. Desde Fevereiro. Vai-se agravando a incómoda sensação de que sou sempre o último a saber estas coisas. Aos outros néscios, deixo aqui uma amostra do que temos andado a perder:

"A sadder and wiser man"


Os dois cavalinhos menos votados pelos leitores do "Pastoral Portuguesa" chegaram nos dois primeiros lugares. Apenas duas pessoas acertaram no nome do vencedor - 'Magical Music' - e uma delas fui eu, demonstrando um rasgo intuitivo que decidi ignorar em benefício da sabedoria maioritária. 'Where's Broughton', o favorito dos bookies, e o mais votado por vocês, chegou em quarto lugar. Retirem daqui as ilações que entenderem. Ao vivo, em tempo real, foi tudo muito triste.
Mas o importante nestas situações é não desanimar. Interpretei a calamidade como um sinal do Senhor para consultar imediatamente o boletim da corrida seguinte (a das 16:05), e eis que nele descubro um cavalinho chamado 'Coleridge'. As piscadelas do Olho Divino não assumem proporções mais retumbantes.
Ignorando os meus melhores instintos, bem como um longo historial de desaires com o inepto jockey Eddie Ahern, que é pessoalmente responsável por eu não morar em Chelsea, e cujo nome é um apropriadíssimo anagrama para 'Dead in here', investi uma pequena fortuna no sucesso de 'Coleridge', na firme convicção de que a Literatura nunca me deixaria ficar mal.
Alheia aos meus gritos de incentivo na bancada (devo ter berrado uns doze versos diferentes do Ancient Mariner) uma das piores simbioses entre o Humano e o Equídeo que já tive o desprazer de observar deu-me uma lição inteiramente merecida. Duvido que o outro Coleridge, num dos seus torpores opiáceos, conseguisse um desempenho pior. Se alguém tiver conhecimento de um poema (Larkin, Betjeman?) que capture o pathos de apanhar um táxi para o recinto e um autocarro para o regresso a casa, agradecia que o partilhasse.
E agora, se me dão licença, há uma lista de compras de Natal que precisa urgentemente de ser revista.

domingo, dezembro 17, 2006

S.F.F. (actualização)

Agradecemos aos que aqui passem até às 13h de amanhã (segunda-feira) que tomem parte numa importante experiência sociológica: escolham um ou dois cavalinhos da lista ali do lado. O departamento legal do "Pastoral Portuguesa" assegura todos os participantes que nenhuma lei portuguesa será violada.
Um voto por pessoa, obviamente. Sejamos sérios.

Metabloggers don't do it at all

Impus-me a seguinte tarefa: escrever um post assumidamente confessional sobre o meu jantar de ontem, que não ocupasse mais de seis linhas, e que incluísse o nome de um restaurante sofisticado, uma rapariga identificada apenas por uma inicial, uma 'self-deprecating joke', e uma generalização profunda sobre a Vida. Infelizmente, esta supérflua explicação prévia deixou-me sem espaço para mais nada, e o post vai ter de acabar assim, sem jeito nenhum, um pouco como o jantar.

Cada um tem as celebridades que merece

O Pedro Mexia passeou por Londres, esteve ombro a ombro com o Thom Yorke e pediu um autógrafo a Clive James.
Eu fui até Birmingham, comprei um par de chinelos, e cruzei-me com o guarda-redes suplente do Aston Villa.

Uns e os outros

Há dois tipos de pessoas:
- os que vão seguir este link, fazer um copy-paste do respectivo texto para um ficheiro do Word, formatá-lo condignamente (Verdana, tamanho 10; single-spaced; margens largas, onde caibam notinhas e pontos de exclamação), imprimi-lo, e lê-lo enquanto confortavelmente instalados num sofá;
- os que não vão fazer nada disto.

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Sitemeter - relatório


Look on my stats, ye mighty, and despair

Uma dermatologista solteira de Long Island chegou ao "Pastoral Portuguesa" procurando uma receita de tarte de coco. Um adolescente de Tavira, que costuma ler na íntegra todos os blogues que mencionem o filme Fitzcarraldo, saiu ao fim de 5 minutos. Em Antananarivo, um casal de antropólogos introduziu no google os termos de pesquisa "pistolas" e "relógio de cuco", por motivos que nada tinham a ver com pistolas ou relógios de cuco. Um assistente de pesquisa da Rádio Nacional Holandesa, encarregue de preparar uma curta nota biográfica sobre Giacomo Casanova, passou aqui 13.4 atónitos e irrecuperáveis segundos. Nas Filipinas, um veterinário católico em busca de consolo confundiu o blogue com uma nota pastoral. Dois amigos desempregados de Estocolmo decidiram seguir os links aleatórios na barra de navegação até encontrarem um template azul ou um blogue cujo nome começasse por 'P'. Em Joanesburgo, um professor de Geografia leu os arquivos de Outubro enquanto comia um profiterole. Um estudante de Direito em Coimbra seguiu, mais por indolência do que por curiosidade, um enlace no blogue "Seta Despedida". Um espião búlgaro convencido do colapso iminente da Civilização recolheu informações sobre o trabalho de Sadi Carnot, mas não conseguiu distinguir as verdades das mentiras. Um empresário bracarense ponderou abandonar a sua esposa de 30 anos após ter lido uma citação de Bellow, mas mudou de ideias quando voltou a lê-la com mais atenção. Em Cascais, alguém viu o clip de Spike Jones dezoito vezes seguidas na mesma noite em que decidiu deixar de fumar. Num cibercafé em Torremolinos, um turista alemão riu-se muito alto, atraindo alguns olhares carrancudos.

James Wood

He reads, he thinks, he scores. Não sei se já vos disse: eu adoro este homem.

An Inverted Pyramid of Piffle

Parem os relógios, cortem o telefone e impeçam o cão de ladrar com um osso apetitoso: o incomparável Boris Johnson volta hoje a apresentar um episódio de Have I Got News For You, depois de ter sido alegadamente impedido pela liderança do partido (ainda nos tempos de Howard, creio) de o voltar a fazer. É às 21h na BBC1.
Os responsáveis pela edição futura do Oxford Book of Funny Political Quotes já estão todos em estado de alerta máximo.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Yo La Tengo & Hal Hartley

O Auto-Retrato antecipou-se e fez algo que eu já devia ter feito há muito tempo (tenho o clip nos Favoritos há quase dois meses).
Quero apenas acrescentar um facto que, por decoro ou distracção, a Susana não menciona: «From a Motel 6» é recomendada pela Ordem dos Médicos como fazendo muito bem à saúde.

(A propósito de saúde, os Yo La Tengo têm uma versão espantosa do «Andalucia» de John Cale (vem no álbum Fakebook). Se alguém tiver uma gravação ao vivo da canção que possa partilhar através do YouTube, tem aqui um amigo para a vida inteira.)

Se isto é um livro

Numa Waterstones em Staffordshire, vi hoje o If This is a Man do Primo Levi arrumado na estante da 'Ficção', certamente que por descuido ou desconhecimento. Mas suponho que numa hipotética Waterstones em Teerão isto faria todo o sentido.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

A pedido de muitas famílias portuguesas. . .



. . . antecipou-se para hoje o que deveria acontecer apenas na próxima semana.
Esta é a minha modesta contribuição para o inteligente debate entre as facções Leno e O'Brien: para mim, a late night comedy desceu bastante de qualidade desde os tempos em que, em vez de monólogos de abertura sobre tópicos noticiosos, havia um gajo a destruir relógios de cuco com tiros de pistola.

Tarte de coco e metanfetamina

Através do blog do Edward Champion cheguei a uma página que agora acho quase criminoso nunca ter visitado antes : Regret the Error, um site dedicado, nas palavras dos próprios, a registar "corrections, retractions, clarifications and trends regarding accuracy and honesty in the media".
O primeiro artigo da página é uma resenha do que foi 2006 em erros e correcções na imprensa escrita, e duvido que nas próximas duas semanas apareça uma lista de fim-de-ano que me divirta tanto.
Vale a pena ler de uma ponta à outra, mas deixo aqui as três de que mais gostei:

.Do jornal Chicago Tribune: «An editorial in Friday’s paper incorrectly stated that Florida Cresswell, a candidate for state representative in the 28th District, was convicted in 1999 of battery and stealing Tupperware. In fact he was convicted of stealing a battery from a van as well as Tupperware that was inside the van.»

.Da secção de culinária do Newport News: «A correction in this column Thursday about a June 14 Taste section recipe for French coconut pie incorrectly suggested that the recipe called for a pint of vodka.»

.E, finalmente, do jornal The Oregonian: «A headline on Page One on Saturday should have made clear that Oregon Health & Science University will be studying the effects of meth, not cooking it. »

Palavras foram ditas que não podem ser desditas (2)

O meu último e-mail para a Amazon, enviado há cerca de 15 minutos, incluía as seguintes palavras: "... and I suspect a flock of hobbled pigeons would be more effective than your so-called 'delivery apparatus'...".
Depois da vergonha que foi o preordergate, duas encomendas consecutivas foram extraviadas, sem solução à vista.
Isto é mais do que um arrufo; o comércio local ganhou hoje um amigo.

Palavras foram ditas que não podem ser desditas (1)

Ouvido hoje - por mim, ninguém me contou - na paragem do autocarro.
Um adolescente levantou-se e disse isto: «I always feel I'm being arrogant when I make plans. I prefer to just let stuff happen.»
Isto é grave. Isto afecta-nos a todos.

terça-feira, dezembro 12, 2006

Horário Nobre



Se fosse eu a mandar nisto, a televisão seria toda assim.

Spike Jones


«My band's got rhythm. And then we add it a guffaw.»

Uma pesquisa rápida no google.pt fez-me concluir o seguinte: com uma ou outra honrosa excepção, quase ninguém fala no Spike Jones. (E os que falam, julgam que estão a falar do ex-marido da Coppola). Este estado de coisas não pode ser encarado senão como um prenúncio de um estado de coisas ainda pior. Não contem com o Pastoral Portuguesa para Quarto Cavaleiro; aqui, e pelo menos até ao fim do ano, falar-se-à de Spike Jones semanalmente, todas as Terças-feiras.
Quem está agora a abrir os olhos pode começar por aqui. O artigo da wikipedia também não está mau: "He was not born on 14th May 1916, nor did he die on March 29th 1966. His real name was not Harry Joseph Chick Daugherty".
Para a semana há mais.

Elogio da letra V

Vinte mil léguas submarinas, Candide, Leif Eriksson, Scienza Nuova, «The Transformation of Martin Lake», Velha de Ródão e Nova de Gaia, Der Autoritäre Staat, Las Meninas, Myra Breckinridge, Cavalleria Rusticana, "para bailar La Bamba", The Son of the Sheikh, "se eu transformasse os simples vegetaes", Sweet Jane in Furs, Tiago do Deserto, restaurador da Dharma, "sim eu sei/que tudo são recordações", Innere Stadt, a Raínha e as cataratas, o pastor dos Montes Hermínios, coveiro de Pompeia e Herculano, antes do disco compacto, L'Atalante, a Trilogia das Barcas, Doroteo Arango, a Eneida, "O Time, thou must untangle this, not I", Alan Moore, Edward Jenner, «Le Cimetière marin», o Conde Alexei Kirillovich a dançar a mazurka, o Caderno de Barreto, «Blister in the Sun», Piazza San Marco, La Double Vie de Irène Jacob, Mr. Spock, "Mais où sont les neiges d'antan?", Saturae Menippae, Duel in the Sun, Amerigo do Mundo Novo, Matadouro Cinco, o Cinco romano, a cruzada de Stencil, o golo contra a URSS no Olympiastadium, To the Lightouse, Aida, Galerie des Glaces, número atómico 23, "dry your eyes for Madame George", o Sermão da Sexagésima, a Batalha Final, "Luke I am your father".

He that hath wisdom, let him count the number. . .


O pai do Demónio de Maxwell nasceu há 175 anos, "in recognition of which 2006 has been dubbed Maxwell Year". Que Deus nos ajude a todos.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

. . .a byword of emotional volatility throughout the Subdesertine Service. . .


«It had been a particular liberty weekend in Nuovo Rialto. The ship happened to to have tied up at a quay belonging to an aryq shipper, along which many sailor were discovered each morning semi-paralyzed, having got no further in their pursuit of recreation, their Hypop units humming on in Dormant mode. A number of the crew reported being waylaid by sand-fleas, the queues at sick bay each morning running down passageways and ladders well into the Viscosity spaces. Some, apparently having enjoyed the accostments, didn't report them at all. The quarterdeck witnessed scenes of vituperation, smuggling attempts failed and successful, romantic melodrama as the more adventurous crew members discovered the complex allure of Veneto-Uyghur women, who were a byword of emotional volatility throughout the Subdesertine Service. When the time came at last to single up all the lines, some 2 percent of the crew, about average as these things went, had announced plans to stay behind and get married. Captain Toadflax took this with the equanamity of a long-time tropper in the region, figuring he'd get most of them back when he came through town again at the end of the cruise. "Marriage or under-sand duty," shaking his head at some cosmic sadness. "What a choice" . . .»

(Thomas Pynchon, Against the Day)

Com este lápis te confundo

Não fui, certamente, o primeiro a quem isto aconteceu, e o erro foi rapidamente detectado.
Mas os dez segundos em que julguei que o tradutor de Musil, Celan e Benjamin tinha colocado um aparelho nos dentes foram os mais estupefactos dez segundos que passei na blogosfera.

domingo, dezembro 10, 2006

Welcome to Planet Sardar

Este lamentável artigo de Ziauddin Sardar, no último número da New Statesman, apresenta tantas deficiências - de interpretação, de ligação, de raciocínio, de coerência - que o leitor que consiga chegar ao fim ficará com pouco mais do que uma sucessão de interrogações para negociar sozinho. Quão a sério devemos levar isto? Porque é que este homem não está a escrever comédia? Estaremos a lidar com um pantomineiro, alguém com genuínas lacunas educacionais ou simplesmente um virtuoso da desonestidade intelectual? Tudo questões que eu próprio ponderei enquanto abria uma garrafa de água das pedras.
Confesso que desconhecia por completo o nome do senhor (um dos novos membros da Comissão para a Igualdade e os Direitos Humanos) e durante dois dias aguardei o desmascarar de uma impostura na linha da 'Sokal hoax' dos anos 90: um agregado de clichés, insuflado com a estafada terminologia pós-colonialista, plantado numa publicação reputável com o intuito de aferir e estudar as eventuais reacções.
Infelizmente, parece que o artigo é genuíno (salvo seja). E o senhor Sardar está certamente a passar ao lado de uma grande carreira, embora assim de repente não consiga imaginar qual seja.
É difícil saber por onde começar. Por um lado, os vinte parágrafos contêm erros de raciocínio, vandalismos lógicos, analogias mutiladas e falsificações puras em número suficiente para descredibilizar quase imediatamente a sua tese central. Mas por outro, essa tese central está tão diluída no pântano falacioso do artigo, que acaba por sintetizar o antídoto contra a sua própria refutação. Resumindo, o artigo de Sardar coloca-me na desconfortável e pouco habitual posição de não saber ao certo aquilo com que estou a discordar violentamente.
Em termos muito genéricos, Sardar acusa Martin Amis, Ian McEwan e Salman Rushdie (três escritores que, convém lembrá-lo, se opuseram à intervenção no Iraque) de encabeçarem uma conspiração intelectual cuja intenção é avançar os interesses do neo-conservadorismo: «Blitcons come with a ready-made nostrum for the human condition, They use their celebrity status to advance a clear global political agenda». Não contente com essa lunática, e enfaticamente não demonstrada, asserção, reduz depois toda a obra de Saul Bellow - uma das mais generosas e inclusivas que a literatura moderna nos deu - a uma mera ilustração da filosofia de Allan Bloom, e a uma incubadora de elitistas, «obsessed with the preservation of the canon».
O que é aqui ensaiado (da forma mais azelha possível) é uma reciclagem - uma actualização da terminologia "orientalista" de Edward Said, adaptada a novas circunstâncias. Mas é impossível não imaginar Said acometido de cólicas mentais quando confrontado com este amontoado de disparates. Por muito que se discorde das ideias de Said, estas eram inteligentemente defendidas, coalescendo numa teoria sólida. Já a diatribe gaguejante de Sardar assemelha-se mais a um malão de viagem comprado numa feira, no qual se tentou enfiar roupa para sete viagens diferentes. Há para ali algures uma camisa havaiana e talvez um par de galochas esburacadas, mas nada que dê para levar ao baile.

(Aprendi posteriormente que os problemas do senhor Sardar com o fantasma do "Cânone Ocidental" não são de agora: há pelo menos dois outros artigos na New Statesman em que ele se dedica a desmontar esse asqueroso panteão imaginário de "wall-to-wall white men" (no qual, estranhamente, inclui Naipaul e Jane Austen). Quanto à posição do 'obcecado' Amis, podemos encontrá-la neste excerto da introdução a The War Against Cliché: «In the long term, literature will resist levelling and revert to hierarchy. This isn't the decision of some snob of a belletrist. It is the decision of judge Time, who constantly separates those who last from those who don't.» Conversa perigosamente anti-democrática, como se vê.)

Os instantes fraudulentos são demasiados para rebater um por um. Fica aqui este, quase ao acaso, que pretende ilustrar o "preconceito Ocidental" de Ian McEwan:
«. . . we realise that Saturday really assigns a mystical dimension to western literature: the poetry of Matthew Arnold not only serves as an antidote to brutish violence, but literally saves the day at the end of the novel. As a corollary, we are forced to conclude, those who have never read War and Peace, for example, are not fully human.»
O que somos forçados a concluir é que a educação do senhor Sardar foi um grande desperdício de tempo e, no processo de distribuição das culpas, não será de todo descabido ter uma palavrinha com os seus antigos professores e perguntar-lhes porque é que ele não foi, sei lá, açoitado mais vezes.
O salto lógico entre o último capítulo de Saturday e a conclusão que Sardar tira ("those who have not read War and Peace, for example, are not fully human") é típico do seu processo mental: pregar dois tópicos isolados no vácuo e esperar que o leitor preencha o espaço vazio com a sua própria colecção de preconceitos. O que McEwan - um escritor com demasiadas nuances para Sardar - faz em Saturday não é traçar uma distinção entre o que é 'humano' e o que não é, ou mesmo entre 'civilização' e 'barbárie', mas sim dramatizar - nas palavras de James Wood (na New Republic), "a irrupção do irracional" na esfera privada:
«. . .this kind of terror is not opposed by fiction as such, but by a nobler version of the irrational -- by poetry, by song, by music, and by love. Earlier in the book, Perowne attended his son's band's rehearsal, and while the glorious blues sang out, he reflected on music's implicit utopianism -- a collaboration, "an impossible world in which you give everything you have to others, but lose nothing of yourself". (. . .) It is not fiction, then, with its habitual coincidences and unnatural encounters -- of which this book has its fill -- but the ungraspable communion of music that might be "set against the hatred of their murderers." Against a dark irrationality can perhaps be posed the enlightened irrationality of music's fleeting utopia. . .»
Este impulso didáctico numa obra de ficção pode ser debatido de mil e uma maneiras diferentes, mas tentar inclui-lo, como Sardar faz, num inexistente projecto literário neo-conservador, é extravasar os limites do comentário sério e penetrar, com exuberante alacridade, nos domínios da propaganda.

Mas é Domingo e os passarinhos espirram no jardim. Há futebol na televisão, há belas pistas de cavalos que abrem ao meio-dia e nunca fecham, há metade de um livro de Pynchon para ler até ao Natal.
O que não há é espaço para os delírios paranóicos dos outros; os meus chegam.

P.S.: Dito isto, vou esperar com ansiedade pela inevitável resposta de Christopher Hitchens, cuja truculência, apesar de previsível, é invariavelmente divertida nestas situações.

Conselho a um amigo que acabou de mudar de casa

Vale a pena investir num sofá confortável: é provável que tenhas de lá passar algumas noites.

sábado, dezembro 09, 2006

Miccoli - upgrade

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Nove notas biográficas sobre Michiko Kakutani


«. . . Thus Ishmael, who proceeds to attempt to transcribe the whale's brow for us. 'I put but that brow before you. Read it if you can.' We can read the book, but the book cannot read the brow. So it is, and so Ishmael knows it to be.»

(Tony Tanner, Scenes of Nature, Signs of Man, Cambridge University Press, 1987.)


1. a sua infância em New Haven é uma série de decisões radicais, rapidamente ignoradas. No relatório de uma professora primária pode ler-se «Michiko é impulsiva, mas incapaz de assumir compromissos». Os seus sonhos são agitados. Confessa-se assombrada pelo constante crepitar de invisíveis chicotes. Um pacote pré-pago de dez sessões terapêuticas com um discípulo de Rollo May produz resultados inconclusivos;

2. por ocasião do seu oitavo aniversário, o pai (o matemático Shizuo Kakutani) oferece-lhe um exemplar das Fábulas de Esopo. Michiko deixa-lhe uma curta nota de agradecimento no bolso interior do casaco: "Querido Papá. O cisne, a raposa, a lebre e a tartaruga são meros recortes genéricos, abdicando da Universalidade conferida por uma maior densidade psicológica. Não passam de figuras unidimensionais, perdidas numa floresta de clichés. As ilustrações, contudo, são bastante competentes. Amor, Miki.";

3. na sua mesa-de-cabeceira, além de um retrato autografado de Spiro Agnew, Michiko guarda um lenço, bordado em Imperial typeface, tamanho 8.7, com as seguintes palavras: "Nothing odd will do long, nothing odd will do long, nothing odd will do long";

4. depois de ler no original um obscuro panfleto de 1824 (Réflexions sur la puissance motrice du feu et sur les machines propres à développer cette puissance) comenta com um editor-adjunto: «Senti que tudo não passava de um daqueles jogos pueris em que o autor vai inventando regras novas para prontamente as esquecer. É o leitor que sente a fadiga de artilhar cada página ex nihilo. Duvido que este livro exista realmente»;

5. é fluente em cinco línguas modernas, mas não sente paixão por nenhuma delas. As palavras portuguesas de que mais gosta são "resiliência", "magnólia", "sinecura" e "ostrogodo". Consciente da sua predilecção, tenta utilizá-las com "parcimónia" (palavra que detesta);

6. sempre que lhe chega às mãos um livro que exceda as oitocentas páginas, Michiko observa-o demoradamente, como se estivesse diante do mais arrebatador dos segredos. Ouvem-se-lhe estalidos, sussurros, cacofonias guturais. Uma empregada de limpeza (que acabaria por vender a história ao National Enquirer) testemunhou várias vezes esta ocorrência: «Ela assume uma postura hirta, com as mãos cercando o volume fechado, e diz coisas como 'o que é que tu me podes dizer sobre mim própria' ou 'ainda e sempre, a ignomínia da abundância', coisas assim, percebe? Por vezes, atinge um tal grau de concentração que nem sequer ouve o telefone, ou a campaínha, ou as minhas perguntas preocupadas. Nunca me consegui habituar; acabei por cessar unilateralmente o meu contrato. Não sei se ela sente a minha falta.»;

7. sob a influência de Anaxágoras, também ela postula uma pluralidade de elementos individuais imperecíveis, a partir dos quais surgiu toda a ordem. Por vezes acha que é impossível distinguir esses elementos uns dos outros, sensação que se agrava na Primavera;

8. no restaurante onde o corpo editorial do New York Times mastiga as suas sorumbáticas reuniões semanais, Michiko lê a seguinte mensagem num bolinho da sorte: «Há uma frase, e apenas uma, que a pode salvar; está escrita a lume, no interior das suas pálpebras, a soma ardente de todas as coisas que nunca aprendeu. Se abrir os olhos diante de um espelho, poderá discernir o clarão da verdade a sumir-se para sempre pelo tecto». Depois da sobremesa, dobra meticulosamente a tira de papel, camuflando-a entre os destroços da melancia;

9. Michiko Kakutani é solteira.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

O Borat Português



O génio que é Steve Coogan, parodiando algo muito mais engraçado que o Cazaquistão.

(Cortesia do Salústio, do blogue Golpe de Estado, um blogue que faz rir pelo menos uma vez por semana. Às vezes mais. É imprevisível.)