Revolutionary Road, um dos grandes romances americanos, vai ter adaptação cinematográfica. Sam Mendes (de quem não gosto nem um só um bocadinho) vai realizar; DiCaprio e Kate Winslet vão interpretar Frank e April Wheeler. Assim de repente, não consigo imaginar uma maior receita para o desastre. O livro é quase feito de encomenda para Paul Schrader. Mas enfim, ninguém me pergunta estas coisas antes de os contratos serem assinados e depois o mundo está no estado em que está.
quinta-feira, março 22, 2007
quarta-feira, março 21, 2007
Hoje é dia da poesia portanto vim aqui postar um poema
On the Antiquity of Microbes
Adam
Had 'em.
(Strickland Gillilan)
Adam
Had 'em.
(Strickland Gillilan)
terça-feira, março 20, 2007
Never Work
Never work again,
ne travaillez jamais, call a general strike in May
I invented a century today
I rest my case, I demand the right to
Never work in May
Or in the summertime, we'll call a general strike
For the right to never work
I rest today, I'll leave the century today
(...)
Just say no
Just say no
Just say no
Just say no
And don't you ever work.
(Luke Haines, «Never Work», The Oliver Twist Manifesto)
ne travaillez jamais, call a general strike in May
I invented a century today
I rest my case, I demand the right to
Never work in May
Or in the summertime, we'll call a general strike
For the right to never work
I rest today, I'll leave the century today
(...)
Just say no
Just say no
Just say no
Just say no
And don't you ever work.
(Luke Haines, «Never Work», The Oliver Twist Manifesto)
segunda-feira, março 19, 2007
יוֹם הֻלֶּדֶת שָֹמֵחַ
domingo, março 18, 2007
I am first going to talk to you about rabbits
O momento em que me endireitei no sofá e passei ao grupo dos convertidos lynchianos é fácil de situar; ocorre no segundo episódio da série que reconciliou uma geração inteira com o televisor: o Agente Cooper, antes do que prometia ser uma mera palestra sobre técnicas de detecção modernas, perante sua pequena equipa provinciana, saca de um ponteiro extensível, e diz: «Mas primeiro vou falar-vos um pouco sobre um país chamado Tibete». Foi como se Edward Lear, de repente, se tivesse materializado no tubo catódico.
A mesma técnica parece ter sido apropriada por David Lynch, que tem passado grande parte da sua carreira a apontar uma muito pouco professorial vareta em várias direcções da sua topografia interna, mas explicando sempre muito pouco, e normalmente sobre outra coisa qualquer.
(É, aliás, duvidoso que os criadores desta estirpe específica sejam os melhores exegetas da sua própria obra, e convém ressuscitar a Falácia Intencional para os impedir de causar danos retroactivos. Posso estar a cometer uma tremenda injustiça, mas a ideia que retenho de Lynch, baseada numa mão-cheia de entrevistas, é a de um homem profundamente desinteressante - certamente muito menos interessante do que os seus filmes - com um entusiasmo quase adolescente por charlatanismos místicos, sendo frequente ouvi-lo falar de "reencarnação", "energias negativas" e "oceanos de consciência pura"; o tipo de conversa que me leva imediatamente a consultar o horóscopo mais próximo, à procura de explicações para tamanha má sorte).
INLAND EMPIRE (em maiúsculas, aparentemente), rodado ao longo de cinco anos, e sem guião, é a culminação natural de um método que sempre teve muito de instintivo - lembre-se o operador de som de Twin Peaks, transformado em demónio depois de uma aparição acidental diante da câmara - e arrisca-se a estilhaçar o precário mas justíssimo consenso crítico que acolheu Mulholland Drive. A maneira de interpretar um filme de Lynch tem dividido opiniões desde Eraserhead; questões de "significado" são ciclicamente remexidas, com os duvidosos Tomáses a deplorarem a sua falta, e os pacientes zelotas a explicarem que isso é o que menos importa. (Os carentes de "significado", já agora, poderão achar algum consolo na presença de Ian Abercrombie - o saudoso Mr. Pitt, de Seinfeld - que aqui interpreta um mordomo algo suspeito. A culpa, em teoria, pode muito bem ser dele). O próprio filme providencia um manual de instruções condensado para o seu visionamento: colocar um relógio de pulso, perfurar um pedaço de seda com um cigarro aceso, e espreitar através do orifício. Confiem em mim: tudo isto é útil. Menos a parte do relógio, que só atrapalha.
Nominalmente, o filme é sobre filmes, sobre actores, e sobre buracos. O filme dentro do filme é On High in Blue Tomorrows, um melodrama gótico sulista sub-Tennessee Williams, que é já o remake de um anterior filme polaco, nunca finalizado devido a complicações "dentro da história", que podem ou não estar relacionadas com uma maldição. «Actions have consequences», advertem duas personagens na primeira meia-hora, axioma que o resto do filme parece indeciso em negar ou confirmar. O fluxo temporal é minuciosamente vandalizado, e relações de causa-efeito subvertidas a um ritmo preocupante. Um tique recorrente em Lynch é a análise obsessiva de reacções emocionais desajustadas das situações que as despoletam: personagens riem ou choram por motivos que raramente são aparentes; uma sitcom que consiste em três coelhos gigantes num apartamento (don't ask...) arranca gargalhadas de conserva nos momentos mais inesperados.
Entremeado com a "narrativa" (resolutamente entre aspas, esta da "narrativa"), há um comentário recorrente sobre os próprios processos técnicos do filme. A sensação de desorientação, tão familiar em Lynch, é sempre amplificada pelo seu uso de efeitos sonoros, e INLAND EMPIRE encontra-o em boa forma nessa vertente. As sequências em polaco (retalhos fantasmagóricos da versão original de On High in Blue Tomorrows) são acompanhadas por um pano de fundo de chuva contínua, aludindo aos sons do vinil, como se aquilo que ouvimos pertencesse a um plano temporal diferente das imagens. Noutras cenas, em que se nota mais a textura granulada da câmara digital, que como toda a gente já saberá nesta altura, foi uma estreia para Lynch, o potencial de inquietação é exponenciado pelo insólito feel de vídeo caseiro.
Entretanto, no que passa por enredo, temas e motivos são chocalhados e repetidos, desenhando padrões fugazes: há um filho morto, raramente mencionado, mas cuja presença parece assombrar o próprio coração do filme; há múltiplas referências a orifícios de várias espécies; numa das sequências com os coelhos humanóides, o anel incandescente no canto superior direito da tela (que assinala a mudança de bobine) prolonga-se por vários segundos, até o espectador se aperceber que é um efeito visual do próprio filme: uma conflagração minúscula no cenário, como se houvesse uma segunda audiência do outro lado do ecrã, munida com os seus próprios relógios e cigarros, espreitando através da seda perfurada.
INLAND EMPIRE é também um repositório de clichés genéricos. Personagens mudam de identidades e cenários, perseguidas pelos mesmos elementos formulaicos de telenovela: o diálogo familiar entre marido e mulher em que uma gravidez é dramaticamente revelada; a confissão brutal de uma criminosa num gabinete policial; a 'girl's night in', em que amigas de roupa interior trocam confissões amorosas. Todas estas cenas fazem parte da memória colectiva do cinéfilo (ou, em nome da inclusividade, do espectador); constituem, por assim dizer, a nossa gramática universal. Divorciadas, contudo, de uma linha narrativa, esvaziadas de personagens sólidas, e à deriva na instabilidade cronológica que molda o filme, adquirem aqui um estranho e inefável poder, que quase nos força a subscrever o que parece ser a tese central de INLAND EMPIRE: fazer e ver filmes são as actividades mais estranhas do Mundo.
O nervosismo confuso dos personagens acaba por se alastrar a toda a sala. A três quartos da duração do filme, fiquei muito satisfeito comigo próprio quando julguei descortinar um nexo entre os personagens que tinham relógio de pulso e os que não tinham, apenas para ver a teoria estilhaçada no plano seguinte. Foi mais ou menos nesta altura que um espectador na fila da frente - o terceiro da noite - se levantou e saiu da sala com um resmungo sonoro, à procura de "significado" noutras paragens. (Nas ruas de Birmingham? Boa sorte.)
Mais algumas coisas acontecem. Alguém vomita sangue no Passeio das Estrelas; um grupo de desalojados debate a melhor maneira de chegar a Pomona de autocarro (again, don't ask); e fala-se de uma rapariga com as entranhas destroçadas, que apenas quer viver os meses que lhe restam em paz com o seu macaco (presumivelmente numa mansão delapidada, e com von Stroheim como mordomo). Tal como a cena de maior impacto emocional em Mulholland Drive é cortada abruptamente, expondo de forma cruel a falsidade da mesma (o playback no Club Silencio), também o aparente clímax de INLAND EMPIRE é brutalmente interrompido pelo revelar de uma câmara, e pela voz do realizador do filme dentro do filme gritando: "Corta!".
À saída da sala, com uma pequena mas familiar multidão de devotos lynchianos trocando acenos de cabeça, e tentando decidir qual o melhor sítio da cidade para se verter uma chávena de mau café sobre um imaculado guardanapo branco, ouvi alguém dizer o seguinte atrás de mim, num tom de voz com o seu quê de gratidão exausta: «Man, that was a really long short-circuit».
Não, não sou o único
Durante algum tempo, vivi convencido de que eu era o único fã português de John Berryman.
sexta-feira, março 16, 2007
O pesadelo do ateu
O GodTube foi-me recomendado por um simpático leitor brasileiro, e ainda não passei lá tempo suficiente para confirmar que não se trata de sátira maldosa; este vídeo é inconclusivo.
Que a banana é o mais sinistro de todos os frutos tropicais parece-me incontestável. Mas também me parece pertinente notar o seguinte: argumentos muito semelhantes podem ser utilizados para provar que a ilustre carreira do pepino no campo da pornografia doméstica faz parte do Plano Divino.
(Já sobre este não tenho dúvidas: é stand-up camuflada. O segmento revelador é o fabuloso "argumento Moulinex", minuto 2:10. Um clarão de génio para envergonhar Stephen Colbert.)
(Já sobre este não tenho dúvidas: é stand-up camuflada. O segmento revelador é o fabuloso "argumento Moulinex", minuto 2:10. Um clarão de génio para envergonhar Stephen Colbert.)
Blogues novos (e respeitinho pelos esquimós)
- O inqualificável e viciante Ana de Amsterdam (descoberto pelo José Mário);
- o Assim Mesmo (uma pérola recomendada pelo CJ, um gajo porreiro que me estraga com mimos);
- o De Rerum Natura, de um colectivo lucreciano em cruzada pelo bom senso (indicado pelo Vasco Barreto, que, depois de uma embaraçosamente vagabunda crise de meia-idade, regressou a casa com o rabinho entre as pernas);
- o Language Log. Não é novo, mas creio nunca o ter referido aqui. Há oito ou nove blogues que tento visitar todos os dias - mesmo quando há corridas, ou emprego - e o Language Log é frequentemente o primeiro da lista. O colectivo de linguistas americanos que o mantém partilha com o meu vizinho Neil um ódio visceral pela hipótese Sapir-Whorf, e partilha comigo uma incurável irritação com a popularidade do velho mito da profusão sinonímica da palavra 'neve' entre as línguas esquimo-aleutianas (já vai em quantas? quinhentas? mil?). Enfim, leiam se quiserem, que eu já aborreci demasiadas pessoas a falar disto.
- o Assim Mesmo (uma pérola recomendada pelo CJ, um gajo porreiro que me estraga com mimos);
- o De Rerum Natura, de um colectivo lucreciano em cruzada pelo bom senso (indicado pelo Vasco Barreto, que, depois de uma embaraçosamente vagabunda crise de meia-idade, regressou a casa com o rabinho entre as pernas);
- o Language Log. Não é novo, mas creio nunca o ter referido aqui. Há oito ou nove blogues que tento visitar todos os dias - mesmo quando há corridas, ou emprego - e o Language Log é frequentemente o primeiro da lista. O colectivo de linguistas americanos que o mantém partilha com o meu vizinho Neil um ódio visceral pela hipótese Sapir-Whorf, e partilha comigo uma incurável irritação com a popularidade do velho mito da profusão sinonímica da palavra 'neve' entre as línguas esquimo-aleutianas (já vai em quantas? quinhentas? mil?). Enfim, leiam se quiserem, que eu já aborreci demasiadas pessoas a falar disto.
Arsenalski
quarta-feira, março 14, 2007
Lista feita por pessoas que leram os mesmos livros que eu
33 Names of Things You Never Knew had Names.
(A verdade é que se aprende a nº1 em Underworld, de Don DeLillo, a nº4 em V., de Thomas Pynchon, a nº16 em Giles Goat-Boy, de John Barth, a nº21 em Humboldt's Gift, de Saul Bellow, a nº23 em Infinite Jest, de David Foster Wallace, a nº24 em Despair de Nabokov e a nº27 em The Mezzanine, de Nicholson Baker. Acrescentaria a palavra 'marabu', que não vinha no dicionário da Porto Editora em 1996, e que confundiu toda uma turma de leitores d' A Sibila. Curiosamente, o nome inglês para o bicho - que não passa de uma cegonha inflaccionada - serviu de título a um livro de Irvine Welsh, cujas subtis parábolas espirituais tanto evocam Agustina.
(A verdade é que se aprende a nº1 em Underworld, de Don DeLillo, a nº4 em V., de Thomas Pynchon, a nº16 em Giles Goat-Boy, de John Barth, a nº21 em Humboldt's Gift, de Saul Bellow, a nº23 em Infinite Jest, de David Foster Wallace, a nº24 em Despair de Nabokov e a nº27 em The Mezzanine, de Nicholson Baker. Acrescentaria a palavra 'marabu', que não vinha no dicionário da Porto Editora em 1996, e que confundiu toda uma turma de leitores d' A Sibila. Curiosamente, o nome inglês para o bicho - que não passa de uma cegonha inflaccionada - serviu de título a um livro de Irvine Welsh, cujas subtis parábolas espirituais tanto evocam Agustina.
Uma lista ainda melhor pode ser encontrada aqui. Gostei muito de «Gynotikolobomassophile - One who likes to nibble on a woman's earlobes»; e também de «Peristerophobia - Fear of pigeons» e «Resistentialism - Seemingly spiteful behaviour manifested by inanimate objects». Se alguém tiver conhecimento de termos equivalentes na língua portuguesa, especialmente os dois últimos, não hesite em informar-me; nunca é cedo de mais para planear a autobiografia.)
segunda-feira, março 12, 2007
O problema
As considerações que se tecem aqui e aqui sobre a forma como o comum adepto inglês (eu alargaria a coisa ao comum adepto britânico) percebe um lance de futebol podem não me agradar, mas tenho de reconhecer que são certeiras.
A melhor ilustração que conheço desse curioso defeito no equipamento estético foi feita inadvertidamente por Jack Charlton, então seleccionador da Irlanda, no Estádio da Luz. O jogo era, salvo erro o último da fase de apuramento para o Euro '96. Com poucos minutos de jogo, o Rui Costa recebeu um passe de João Pinto antes da linha de área, com três ou quatro defesas irlandeses à sua frente e sem colegas desmarcados; o que ele fez, naturalmente, foi picar a bola sobre o guarda-redes e enfiá-la na sua baliza preferida. Na conferência de imprensa pós-jogo Charlton elogiou o lance com a seguinte escolha de palavras: «Não conheço muitos jogadores que resolvessem aquele problema daquela maneira». Para ele, receber a bola em condições, e com espaço, a cinco metros da linha de área é um "problema". Segundo o manual de instruções britânico, o "problema" é melhor resolvido com uma sapatada na direcção geral dos postes. Um gesto subtil é contra-natura. E fintar é anátema - o recurso do oleoso prestidigitador continental e, como bem notou o maradona, tido como um gesto algo indelicado para o defesa (um amigo escocês, adepto do Celtic, continua a referir-se ao Deco como "that rude player of yours", não por ter insultado ou cuspido em alguém, mas por ter feito uma cueca ao Neil Lennon na final de Sevilha).
A melhor ilustração que conheço desse curioso defeito no equipamento estético foi feita inadvertidamente por Jack Charlton, então seleccionador da Irlanda, no Estádio da Luz. O jogo era, salvo erro o último da fase de apuramento para o Euro '96. Com poucos minutos de jogo, o Rui Costa recebeu um passe de João Pinto antes da linha de área, com três ou quatro defesas irlandeses à sua frente e sem colegas desmarcados; o que ele fez, naturalmente, foi picar a bola sobre o guarda-redes e enfiá-la na sua baliza preferida. Na conferência de imprensa pós-jogo Charlton elogiou o lance com a seguinte escolha de palavras: «Não conheço muitos jogadores que resolvessem aquele problema daquela maneira». Para ele, receber a bola em condições, e com espaço, a cinco metros da linha de área é um "problema". Segundo o manual de instruções britânico, o "problema" é melhor resolvido com uma sapatada na direcção geral dos postes. Um gesto subtil é contra-natura. E fintar é anátema - o recurso do oleoso prestidigitador continental e, como bem notou o maradona, tido como um gesto algo indelicado para o defesa (um amigo escocês, adepto do Celtic, continua a referir-se ao Deco como "that rude player of yours", não por ter insultado ou cuspido em alguém, mas por ter feito uma cueca ao Neil Lennon na final de Sevilha).
Tudo isto seria mais irritante - e faria mais sentido - se o futebol inglês tivesse uma tradição de eficiência vencedora, um pouco como o alemão. Mas num povo geneticamente incapaz de marcar uma grande penalidade, e com um palmarés desportivo completamente desfazado da sua auto-estima, esta noção paradoxal de associar o cavalheirismo à falta de jeito acaba por ter um valor pitoresco que redime tudo o resto. A minha ternura por eles não tem limites.
Os cinco melhores anagramas (do Oxford Guide to Word Games)
- circumstancial evidence = can ruin a selected victim
- Clint Eastwood = old West action
- Victoria, England's Queen = governs a nice, quiet land
- Eurovision Song Contest = I vote on cretinous songs
- 'April is the cruellest month' = hurt poet tells lies in March
- Clint Eastwood = old West action
- Victoria, England's Queen = governs a nice, quiet land
- Eurovision Song Contest = I vote on cretinous songs
- 'April is the cruellest month' = hurt poet tells lies in March
domingo, março 11, 2007
sábado, março 10, 2007
Nature abhors a vacuum
Durante a minha curta ausência, as caixas de comentários do blogue transformaram-se em actas de uma conferência sobre teoria literária e os limites da interpretação*. Nada contra. Parece-me até que esse deve ser o rumo a seguir na próxima semana, durante a qual uma carga laboral acrescida e o Festival de Cheltenham vão dificultar ainda mais a actualização deste espaço pelo seu putativo senhorio. Neste interregno, não se façam rogados: desconstruam-se uns aos outros; usem o Pastoral Portuguesa como fórum de ideias; sejam os Julinhos da Adelaide que este blogue faz por merecer.
Prometo, para quando voltar, um rescaldo exaustivo da Totesport Gold Cup (na qual todos nós apoiaremos o cavalinho State of Play). E prometo também contar-vos tudo sobre aquela noite memorável no Queen's Arms, em que o meu vizinho Neil refutou a hipótese Sapir-Whorf com a ajuda de um pacote de amendoins.
Prometo, para quando voltar, um rescaldo exaustivo da Totesport Gold Cup (na qual todos nós apoiaremos o cavalinho State of Play). E prometo também contar-vos tudo sobre aquela noite memorável no Queen's Arms, em que o meu vizinho Neil refutou a hipótese Sapir-Whorf com a ajuda de um pacote de amendoins.
* Os comentários são pertinentes e mereciam que lhes dedicasse alguma atenção; infelizmente foram escritos há vários dias atrás, num país diferente, por pessoas de quem nunca li diários ou correspondência. Além disso, não me parece possível analisar por completo um comentário de Quarta-feira passada no mesmo plano semântico em que o comentário foi redigido.
O meu Pipi

Nos dias de hoje, em que Ivan Dragos de proveta como Cristiano Ronaldo passam um jogo a fazer sprints de 60 metros - culminados com frequente e perturbante objectividade - sem sequer terem a decência de transpirarem, é sempre um prazer ver o meu Pipi completamente esgotado antes do intervalo, recusando passes dos companheiros com trágicos acenos de cabeça, e uma heróica resignação estampada naquele rosto de fumador que acabou de subir dois lanços de escadas.
Não consigo explicar o quanto gosto deste rapaz. Nasceu no mesmo ano que eu, presumo que tenha uma dieta muito mais racional, e mesmo assim aposto que lhe ganhava numa teste de Cooper. O futebol tem minutos a mais para tanto talento. Não sei se o merecemos, mas espero sinceramente que fique por muitos anos.
quarta-feira, março 07, 2007
James in Greeneland
Graham Greene escreveu admiravelmente sobre James, mas devemos sempre desconfiar da honestidade de um homem capaz de se converter ao catolicismo por conveniência estética: um homem assim - capaz de alugar a alma por uma boa base simbólica - estará sempre tentado a deformar qualquer interpretação literária até ela caber na prateleira, arrumadinha ao lado da King James Bible. Esse ensaio acaba por nos revelar menos sobre o 'universo privado' de Henry James do que sobre Graham Greene; a 'figure in the carpet' que ele finge descortinar na obra do Mestre é pouco mais do que uma tentativa de validação das suas próprias preocupações narrativas.
Parece-me também que ele confunde dois conceitos distintos em James: o sacro terrore, definido como «the witheld glimpse of dreadful matter», e que tanto pode ser despoletado pelo que é divino como pelo que é mitológico; e uma noção de evil muito idiossincrática. O Mal, para James, era uma deformação moral individual, não admitindo (com a provável excepção de Turn of the Screw e de alguns dos contos de fantasmas) uma fonte sobrenatural, ou exterior, nem podendo ser cancelado pela Graça Divina. É um Mal abrangente, que tanto inclui o comprazimento na corrupção dos outros, como falta de etiqueta à mesa de jantar, mas que tem muito pouco a ver com a teologia católica.
Parece-me também que ele confunde dois conceitos distintos em James: o sacro terrore, definido como «the witheld glimpse of dreadful matter», e que tanto pode ser despoletado pelo que é divino como pelo que é mitológico; e uma noção de evil muito idiossincrática. O Mal, para James, era uma deformação moral individual, não admitindo (com a provável excepção de Turn of the Screw e de alguns dos contos de fantasmas) uma fonte sobrenatural, ou exterior, nem podendo ser cancelado pela Graça Divina. É um Mal abrangente, que tanto inclui o comprazimento na corrupção dos outros, como falta de etiqueta à mesa de jantar, mas que tem muito pouco a ver com a teologia católica.
Num texto sobre Turgeniev, James elogia-o pelo seu entendimento de que « ...Evil is insolent and strong; beauty enchanting but rare; goodness very apt to be weak; folly very apt to be defiant; wickedness to carry the day; imbeciles to be in great places, people of sense in small, and mankind generally, unhappy... ». Lá está: isto diz-nos mais sobre James do que sobre Turgeniev; e explica melhor a sua noção de Mal do que o ensaio de Graham Greene (que, volto a dizer, com a magnanimidade que me caracteriza, é muito bom).
Aliás, o parágrafo explica quase tudo, menos isto: como é que este homem recebia tantos convites para festas.
domingo, março 04, 2007
Wood, woodpecker

James Wood leu Against the Day. É sintomático do seu modus operandi que a crítica tenha sido, entre os principais periódicos americanos, a última a aparecer.
A peça é longa e ponderada; revela a habitual atenção à linguagem, e a escolha precisa de citações (que é, ou deve ser, a principal ferramenta do crítico); e é enfaticamente negativa, o que só surpreende quem não tem acompanhado a carreira de Wood.
Se a minha nova e divertidíssima entidade patronal me conceder o tempo necessário, tentarei esta semana explicar porque continuo a considerar James Wood o arquétipo do leitor ideal, apesar das ocasionais imbecilidades que pontuam o texto sobre Pynchon. Tentarei explicar porque é que o seu recente e desconcertante hábito de bicar artefactos de plástico ou cimento como se fossem de madeira não obsta a que continue a ver nele o herdeiro espiritual de V. S. Pritchett, e o melhor crítico literário contemporâneo. E tentarei explicar porque é que faria questão em lhe apertar a mão caso o encontrasse na rua, independentemente da sua vontade em ter a mão apertada.
Esclareço ainda, a propósito desta ambígua graçola, que partilho a opinião de Clive James: não creio que a crítica literária seja essencial à literatura; mas creio que ambas são essenciais à Civilização. A Era de Ouro pode ter acabado, e sacerdotes estéticos como Eliot ou Leavis podem ser irrepetíveis, mas acho que a crítica literária actual está bem e recomenda-se, particularmente a de pendor não-académico (a que prefiro), e anglófona (a que conheço melhor). Para além de James Wood, destaco Louis Menand (da New Yorker), John Leonard (Harper's e The Nation), Daniel Mendelsohn (NYRB), e também três escritores talvez mais conhecidos como ficcionistas, mas cujos ensaios me parecem indiscutivelmente superiores aos seus desiguais romances: Martin Amis, John Updike e Cynthia Ozick.
Nestas mãos atentas e carinhosas, a Crítica Literária poderá sempre aconchegar-se despreocupadamente; a sua saúde não corre perigo.
sábado, março 03, 2007
sexta-feira, março 02, 2007
Buried Alive
Ontem, num programa da BBC Radio 4, debatia-se a possibilidade de a Crítica Literária estar morta. Os vultos culturais chamados a pronunciar-se sobre o assunto foram incapazes de chegar a uma conclusão peremptória.
Isto parece-me simples. O que se deve fazer é estender cuidadosamente a Crítica Literária no chão, de rosto virado para cima; segurar um espelho de bolso diante das narinas da Crítica Literária; e esperar uns segundos. Se o espelho permanecer limpo, a Crítica Literária está efectivamente morta; se, por outro lado, a superfície se embaciar, então a Crítica Literária está viva, e provavelmente precisa apenas de sais de frutos, e de apanhar ar fresco.
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