terça-feira, maio 01, 2007

How to Hate the Working Classes





Dressed like that you're gonna get roughed up
You're like a benefit scrounger in a fun pub
I'll meet you on the corner of Amherst Road
Let's start a party of our own
The stupid years we spent together
We had pet names for each other
Since we stopped talking years and years ago
Let's start a party of our own
I'm on a mission for the masses
How to hate the working classes
And everybody that we ever knew
Let's start a party, just we two
The bloody rain, the bloody dogs,
This bloody town's gone to the dogs
And everybody's gay, the straight boys know
Let's start a party of our own
Where everyone we've ever loved
And everyone we've ever fucked
Will collect their interest in eternity
Not deposit, no return; invest in me
I need a holiday in heaven
The working classes and how to hate them
Everybody that we've ever known
Let's start a party of our own
Let's start a party of our own
I need a holiday in heaven
I need a holiday.

(Luke Haines, «How to Hate the Working Classes». O triplo álbum Luke Haines is Dead é uma recolha de a-sides, b-sides, out-takes, sessões de rádio e raridades. Está disponível na Amazon, pelo mesmo preço de um pacote de cacau Praline. Luke Haines, felizmente, não está morto.)

"If it was a boxing match it would have been stopped because it was too boring"

«(...) the football remained loveless, full of sour faces and dour tactics. It is, of course, hard to enjoy playing under this pressure - gravity always wins - but the likes of Ronaldinho manage to show their teeth from time to time. The only teeth on show here were those being pulled by unfortunate neutrals. It all evoked the famous headline after the dire draw between Ireland and England at Italia 90: 'No Football Please, We're British'. While there was glory and spoils for the victors, anyone with a knowledge of football knows that this rudimentary nonsense is spoiling the game.»

(Rob Smyth, no The Guardian, sobre o bonito jogo desta noite. A meio da segunda parte, um insecto veio pousar no parapeito da minha janela. O insecto era esverdeado e tinha dois pares de asinhas translúcidas. Creio que era uma libélula. Esteve ali no parapeito da minha janela. A tinta por baixo do parapeito da minha janela está a lascar. Vou ter de resolver isto.)

segunda-feira, abril 30, 2007

Blitzkrieg! Fehlschlag! Remis!


Assisti ao jogo na página de live betting (que não linko devido ao nevoeiro jurídico que creio ainda pairar sobre a coisa em Portugal) de uma certa agência de apostas com base em Gibraltar, retransmitido, salvo erro, através de um servidor em Hong-Kong, mostrado num ecrãzinho apenas ligeiramente maior que o mostrador do meu relógio de pulso, (que é de fabrico italiano, não que isso venha agora ao caso) e, não sei por que carga de água, narrado em alemão (o jogo, não o relógio, que é tão mudo como Lavinia, e por motivos muito semelhantes).
O mundo, como saberá o caro leitor, divide-se entre os que colocam o seu optimismo em cheque, e os que lhe passam cheques em branco. As perspectivas eram optimistas: se acoplei 10 das minhas suadas libras a uma vitória do Sporting por mais de 3 golos de diferença, fi-lo apenas porque a aposta se me afigurou inteiramente razoável quando confirmei os onzes iniciais (introduzidos pelo rapaz alemão, já agora, com o que me pareceu ser uma série de referências esotéricas ao John Allegro, aquele senhor que achava que Jesus Cristo era um cogumelo, mas o meu domínio da língua é quase inexistente, e posso ter percebido mal). O Benfica jogou em 1-2-1-1-3-1-1, a saber: um líbero clássico maquiavelicamente disfarçado de lateral-esquerdo (Leo), dois serventes de pedreiro (Anderson e David Luiz), um supervisor de serventes de pedreiro (Petit), uma enigmática dor de cabeça (Nélson), três jogadores de futebol (Rui Costa, Karagounis e Mirohito), um interessante estivador não-ortodoxo (Katsouranis) e uma vítima de voodoo (Nancy Gomes). Do outro lado, estavam 9 jogadores de campo, mais o Abel.
O que a História nos ensina sobre estes jogos não tem nada a ver com aquele soundbite estafado de que "ganha sempre a equipa em pior momento". Se isto fosse verdade, o Sporting raramente perderia um derby. A verdade resume-se antes em dois pontos de fácil assimilação: 1) o Sporting só ganha na Luz quando não precisa de ganhar na Luz. 2) Deus não me grama.
A primeira parte foi jogada apenas por uma equipa, e apenas numa metade do relvado, com interlúdios. Um oportuno rebuffering condenou-me a seguir os minutos iniciais somente pelo comentário áudio do rapaz alemão, que deu a ideia de ter gostado imenso do flugkopfball do Liedson, e que aproveitava todas as oportunidades para pronunciar o seu nome em estéreo (Lídzon, Lídzon). O regresso das imagens comprovou alguns sinais preocupantes, como a arcaica tradição de 90% dos ressaltos caírem para jogadores do Benfica, independentemente de estes estarem a ser rotineiramente esmagados em todas as outras vertentes do jogo. O meu amigo Paulinho, que tirou um curso nessa inimpugnável instituição que é o ISCAL, provou estatisticamente que o Benfica ganha mais bolas divididas do que todos os outros clubes do mundo em conjunto, e eu não duvido por um segundo que seja das suas conclusões.
O rapaz alemão, entretando, tinha alterado o seu foco, e mostrava alguma incredulidade com o facto de o João Moutinho ter escolhido este jogo específico para mostrar aos olheiros europeus que também sabe falhar passes. Isto, esclareço, é uma mera inferência, não apoiada por imagens, pois o ecrãzinho estava outra vez em branco.
Depois de quinze segundos de impecável transmissão, seguiram-se mais duas prolongadas quedas do servidor, uma delas, como é natural, no preciso minuto em que o Mirohito empatou, lance que o nosso teutónico amigo celebrou efusivamente, gritando o nome de vários filósofos.
A segunda parte começou com o som inconfundível da minha vida a andar para trás.
Abel, depois do erro inicial que foi o cruzamento para Lídzon Lídzon, e para alívio generalizado, reverteu ao que melhor sabe: falhar einwurfs em série. Até o rapaz alemão parecia resignado. Lin-kisch ein-wurf, gemia ele repetidamente, perante a minha louvável renitência em dizer palavrões. Rodrigo Tello, um jogador que aprendi a amar, um pouco como aprendemos a amar aqueles cães muito estúpidos que mijam constantemente o chão todo, que nunca devolvem o osso, mas que dominam na perfeição um dos truques básicos, conseguiu a proeza de cruzar a bola três ou quatro vezes para o ÚNICO local da área onde esta poderia concebivelmente ser despachada pelos estrábicos centrais benfiquistas.
A bola, já que falamos nela, insistia em permanecer do mesmo lado a que tinha sido habituada na primeira parte, alheia ao pormenor de os melhores jogadores estarem agora do outro lado. O servidor sussurrava-me promessas lânguidas de permanência e constância, mas voltou a ir abaixo. A vinte segundos de black-out sucederam-se dois cantos consecutivos para as mãos peçonhentas do Quim (um nome impronunciável para alemães, para ingleses, para seres civilizados, para marcianos). Nas bancadas da luz, os observadores estrangeiros escrevinhavam notas frenéticas sobre Nani, que continua a abdicar da possa da bola com uma classe sem paralelos na História recente. Mais ou menos na altura em que Anderson decidiu praticar amor livre com Polga dentro da grande área, fui abrir uma janela e dizer a Birmingham o que pensava sobre as coisas em geral. O meu vizinho Fortunato ("call me Fred!") estava na varanda, a fumar o que apenas posso descrever como um cigarro.
Quando voltei à base, o rapaz alemão, nesta altura audivelmente preocupadíssimo com o verletzung do Ricardo, achou por bem introduzir uma nota ligeira na noite tépida, lembrando-nos que o Benfica e o Sporting são ambos de Lissabon, o que esclareceu todos aqueles que julgavam que o jogo estava a decorrer em Castelo de Videsburg.
Os treinadores fizeram as substituições que se impunham, e o estóico comentador alemão saiu ileso das suas tentativas de pronunciar o nome de Pereirinha.
O schiedsrichter apitou. O dinheiro não voltou. Os adeptos do Sporting, inexplicavelmente, aplaudiram.
Parabéns ao Porto.

domingo, abril 29, 2007

Há coisas que têm simplesmente de ser partilhadas com o Tiago Cavaco

«Revista Atlântico» é um anagrama de «Teatro Calvinista».

sábado, abril 28, 2007

Papa was a Rodeo - versão corrigida

I like your twisted point of view, Mike
I like your questioning eyebrows
You've made it pretty clear what you like
It's only fair to tell you now

that I leave early in the morning
and I won't be back till next year
I see that kiss-me pucker forming
but maybe you should plug it with a beer, cause

Papa was a rodeo - Mama was a rock'n'roll band
I could play guitar and rope a steer before I learned to stand
Home was anywhere with diesel gas - Love was a trucker's hand
Never stuck around long enough for a one night stand
Before you kiss me you should know
Papa was a rodeo

The light reflecting off the mirror ball
looks like a thousand swirling eyes
They make me think I shouldn't be here at all
You know, every minute, according to the United Nations' annual worldwide mortality statistics, at least ninety six people die

What are we doing in this dive bar
How can you live in a place like this
Why don't you just get into my car
and I'll take you away I'll take that kiss now, but

(boy) Papa was a rodeo...

And now it's 55 years later
We've had the romance of the century
After all these years wrestling gators
I still feel like crying when I think of what you said to me

Papa was a rodeo...

Before you kiss me you should know - Papa was a rodeo
What a coincidence, your Papa was a rodeo too

(Magnetic Fields feat. United Nations, «Papa was a Rodeo»)

Métrica

A história dos biliões de anos-luz da Katie Melua, desencantada pelo Doninhas do Sol, é a melhor dentro do género (e é de um género que se trata) desde a bochechuda proposta de correcção ao poema de Tennyson 'The Vision of Sin', feita por Charles Babbage. O poema inclui o seguinte dístico: Every minute dies a man/ Every minute one is born; que por sua vez teria alegadamente inspirado a seguinte missiva de Babbage: «I need hardly point out to you that this calculation would tend to keep the sum total of the world's population in a state of perpetual equipoise, whereas it is a well-known fact that the said sum total is constantly on the increase. I would therefore take the liberty of suggesting that in the next edition of your excellent poem the erroneous calculation to which I refer should be corrected as follows: Every minute dies a man,/ And one and a sixteenth is born.
I may add that the exact figures are 1.167, but something must, of course, be conceded to the laws of metre.»

(A biografia de Babbage - um daqueles ingleses descritos por Henry Adams como reféns da sua própria excentricidade - é fértil em pérolas, mas creio que esta história é apócrifa: todas as fontes que consultei a introduzem com um pouco convincente "it is said that..." E há ali qualquer coisa na matemática que me está a incomodar, mas não lhe consigo pôr o dedo: como é que 1.167 arredonda para um e um dezasseis avos? Não devia ser 1.0625? [suspiro] A professora Irene, que Deus a tenha, bem me tentou avisar: isso dos livros é muito bonito, mas se não sabemos também a tabuada arriscamo-nos a que o merceeiro nos aldrabe. Ou, no meu caso específico, o corrector de apostas, que já por duas vezes me tentou enrolar numa salsicha numérica a la Babbage. Meninos e meninas do meu país: estudem as fracções e façam os deveres. Que mais não seja para não ficarem à mercê de contabilistas de relva sem escrúpulos.)

quarta-feira, abril 25, 2007

His collapsible bathtub

When, in July 1906, the Tsar unconstitutionally dissolved the Parliament, a number of its members, my father among them, held a rebellious session in Viborg and issued a manifesto that urged the people to resist the government. For this, more than a year and a half later, he was imprisioned. My father spent a restful, if somewhat lonesome, three months in solitary confinement, with his books, his collapsible bathtub, and his copy of J. P. Muller's manual of home gymnastics.

(V. Nabokov, Speak, Memory)

É preciso usar sempre dupla precaução com estes cavalos irlandeses

Até aos 11/12 anos dividia os feriados em dois tipos: aqueles em que recebia prenda, e os outros. Depois cresci, ganhando algumas noções, assimilando alguns fundamentos, passando a dividir os feriados em dois tipos: aqueles em que não tinha de ir à escola, e os outros. Até que um longo processo de amadurecimento físico e intelectual me transformou neste homenzinho que hoje vos escreve, e cheguei ao sistema que me parece mais apropriado, que é o de dividir os feriados em dois tipos: aqueles em que as pistas permanecem abertas e os outros. Estou portanto em condições de assegurar que entre as variadíssimas e benéficas conquistas de Abril não se conta a capacidade de influenciar provas de barreiras efectuadas três décadas mais tarde, no recinto de Worcester. O pobre cavalinho tinha o nome de Polonius, e to his own self was true, espatifando-se ao tentar ultrapassar a sétima sebe, deixando o caminho da vitória aberto ao jockey Howie Ephgrave, que, não contente com os desafios do dia-a-dia certamente colocados pelo diminutivo 'Howie', tem o hábito de se passear pelos hipódromos do Reino com um medúseo chapéu cor de alcachofra.

(A deriva deste blogue para o comentário político, tendo acontecido apenas na sub-cave do Blogger, poderá não ter sido aparente para mais ninguém, mas mergulhou o autor num charco de consternação, entretando drenado por uma implacável purga interna que eliminou todos os drafts sobre "actualidades". Para evitar vergonhas futuras, o Pastoral Portuguesa passará a aplicar a seguinte 'regra de polegar' a todos os posts em estado embrionário: se o assunto for comentado no Blasfémias num prazo útil de três dias, não será comentado aqui. O que pode levantar toda uma nova série de problemas. Nomeadamente se o João Miranda começar a ler Pynchon e a apostar nos cavalos.)

Houve aqui publicidade enganosa

Vou no quinto capítulo de Speak, Memory e ainda só li dois insultos ao charlatão de Viena.

Para que conste

Este blogue é bom.

domingo, abril 22, 2007

Bryan Ferry e a estética fascista

(imagem: Bryan Ferry, demonstando a célebre técnica fascista dos dois microfones e da franja assimétrica)

Quando ouvi esta semana que a comunidade judaica britânica estava ofendidíssima com Bryan Ferry e lhe exigira um pedido de desculpas público, preparei-me imediatamente para juntar a minha voz ao coro de protestos. O álbum de versões de Dylan não é uniformemente péssimo, mas algumas das faixas transpõem efectivamente a barreira do que é tolerável mesmo em sociedades democráticas onde a liberdade de expressão é um valor inegociável. O que não implica apenas, convém frisar, a comunidade judaica: Bob Dylan é património mundial e a forma atroz como a palavra 'avenue' é pronunciada na versão Ferryesca de «Just Like Tom Thumb's Blues» é algo que afecta toda a raça humana. Um pedido de desculpas era o mínimo exigível.
Meia dúzia de noticiários depois, contudo, tornou-se claro que a minha interpretação das exaltadas manchetes dos tablóides tinha sido algo precipitada. A controvérsia fora despoletada por uma entrevista de Ferry a um jornal alemão, durante a qual se referiu em termos elogiosos à iconografia nazi. (Pode encontrar-se uma boa colecção de recortes sobre o caso no Provas de Contacto).
Há um debate interessante, que não é novo, nem nunca foi satisfatoriamente encerrado, sobre a separação entre o estético e o ideológico, mas não posso ser o único a pensar que uma entrevista do ex-vocalista dos Roxy Music não é o melhor dos catalisadores para o seu reatamento. Se cedo à tentação é apenas porque sou fraco.
Antes de mais, um disclaimer: estou muito longe de ser um perito na história cultural ou militar da Alemanha nos anos 30 e 40 (ao contrário do meu primo Miguel). Sobre os méritos específicos dos documentários homoeróticos de Leni Riefenstahl e da arquitectura asséptica de Albert Speer haverá certamente quem tenha coisas mais interessantes a dizer (pessoalmente, não retiro grande fruição estética de competições de mergulho nem de Legos gigantes).
Impõe-se também uma reiteração do óbvio: uma parte substancial de produção artística que interessa e prevalece é feita por rematados canalhas - como sabe qualquer admirador da prosa de Burroughs ou da poesia de Pound. Se eu decidisse filtrar a arte que consumo através das opiniões pessoais ou tendências ideológicas dos artistas que a produziram, as minhas estantes estariam cobertas de pó - e pouco mais.
Dito isto, também não me parece sensato cercear a polémica com a ligeireza tentada pelo porta-voz de Ferry. Há uma enorme distância entre admirar um poema modernista separando-o do anti-semita espancador de mulheres que o escreveu, e elogiar todo um programa estético indissociável do movimento político que o originou. O nazismo foi, no célebre epigrama de Benjamin, a estetização da política, e se isto não é um argumento consensual, carrega legitimidade suficiente para evitar que um tão afoito pano caia sobre o debate.
É inteiramente possível descontextualizar o Triumph des Willens da sua intenção propagandística (embora Susan Sontag tenha montado um argumento persuasivo contra o gesto), tal como é possível descobrir uma beleza terrível numa explosão nuclear sem que isso implique qualquer juízo aprobatório sobre Nagasaki. Mas se atentarmos nas declarações de Ferry, ele não se refere apenas aos filmes de Riefenstahl nem às maquetes de Speer: são também as bandeiras, as insígnias, os uniformes e, crucialmente, os desfiles, que ele caracteriza como "just amazing" e "really lovely". E aqui divergimos. Tenho sérias dúvidas que uma resposta estética ao comício de Nuremberga possa acontecer num vácuo histórico; é necessariamente influenciada pelo que sabemos sobre o evento, pelos seus prefixos e sufixos tangíveis. Bryan Ferry está no seu pleno direito de assistir a uma demonstração impecavelmente encenada de força, disciplina, homogeneidade racial, e respostas em massa a um único estímulo que é a figura de Hitler, e achar que tudo aquilo é "really lovely". No meu caso, inclino-me mais para o "fucking terrifying", ou, em dias mais solarengos, pelos menos para o "quite unsettling".
Não sendo de todo, como já disse, um perito na matéria, parece-me significativo que a influência de Riefenstahl se faça notar não tanto em outros cineastas (se ignorarmos George Lucas, o que devemos sempre fazer, e talvez Ridley Scott, não me ocorre mais nenhum) mas sim na publicidade televisiva das décadas de 50 e 60. O que atraiu os directores comerciais da época foi a mesma capacidade de vergar multidões a um impulso único que viria a atraír outra estrela musical obcecada com a gestão da sua imagem pública: David Bowie, que já é um veterano nestas andanças da iconografia nazi. O factor ideológico, nele tal como em Ferry, é evidentemente irrelevante. O essencial eram os casacos de cabedal e os penteados anatómicos das SS, bem como o elemento de xamanismo e performance-art dos comícios nazis, que já foram descritos como os primeiros concertos de rock da História.
Tudo isto é ilustrativo de uma das mais perigosas características dos sistemas totalitários: o fascínio que o elemento visual e utópico exerce sobre mentes fundamentalmente sãs, mesmo aquelas equipadas para sentir repulsa pelas consequências práticas da respectiva ideologia.
Mas reafirmo a minha crença de que nenhuma destas considerações terá passado pela cabeça impecavelmente penteada de Bryan Ferry. Ele limitou-se a expressar uma ideia muito pouco ofensiva e muito pouco original: a de que os meios de propaganda nazis eram de uma eficácia tremenda. Fê-lo de uma forma pouco profunda e numa linguagem banal. E embora a superficialidade e a banalidade fossem duas marcadas características nacional-socialistas, isso não faz de Ferry um candidato a Eichmann do séc. XXI, a não ser para os praticantes deste straussiano desporto.
Aquilo com que certas pessoas decidem ofender-se é que nunca deixará de me surpreender.

(E vou esperar sentado pelo pedido de desculpas que realmente se impunha: "down on Rue Morgue Avenuuuuuuu"?).

Sempre a aprender

Qual é a convenção social para aquelas situações em que uma pessoa chegada nos surpreende com um gesto pleno de boa vontade, mas cujos resultados práticos são nulos? Aprendi esta semana que não se deve dizer: "Olha, pessoa chegada, apreciei muito o teu gesto pleno de boa vontade, mas deixa-me que te diga - os resultados práticos foram nulos".
Parece que é má onda.

quinta-feira, abril 19, 2007

terça-feira, abril 17, 2007

I'll bet you told her all your trees were Sequoias


Os meus filmes preferidos de Hitchcock, e consequentemente os melhores filmes de Hitchcock, são Rear Window (1954), To Catch a Thief (1955) e The Trouble With Harry (1955). O que os une, para além da proximidade cronológica, é o facto de todos terem sido escritos por um génio quase desconhecido chamado John Michael Hayes (que também viria a trabalhar no remake americano de The Man Who Knew Too Much).
A frutuosa colaboração é relatada neste divertido livrinho de Steven DeRosa, que recomendo a todos os que apreciam uma boa história de copos: o primeiro encontro foi uma esplêndida reunião no Beverly Hills Hotel à qual, por motivos diferentes, ambos compareceram espectacularmente embriagados.
A composição do meu pódio hitchcockiano tem outros motivos, claro, mas o essencial é este: John Michael Hayes escreveu os melhores diálogos javardos da história do cinema. Nesta era nefasta em que vivemos, quando a música de feira e as comédias da SIC detêm o monopólio da double entendre, convém lembrar que os trocadilhos sobre a perninha ou o peitinho do frango também podem ser uma forma de arte.

(O visual é muito bonito, mas no fundo, no fundo, eu continuo a ser um escravo do diálogo a cem à hora. Dêem-me uma caixa de screwball comedies e eu fico quietinho sem incomodar ninguém durante um fim-de-semana inteiro.)

A Complexidade de Portnoy

Não me importo de explicar isto uma terceira vez: o nome deste blogue não se deve a nada nem significa coisa nenhuma.
Há pessoas de bem - pessoas formidáveis - que retiram os nomes dos seus blogues de passagens da Bíblia; de atracções turísticas conimbricenses; de livros de Robert Venturi. Este método alusivo de baptismo merece todo o meu respeito e, com hindsight, é um que eu gostaria de ter seguido.
Mas a desglamourizada verdade é esta: depois de ver seis tentativas de baptismo recusadas pelo Blogger (o que prova a minha gritante falta de originalidade, ou a minha sintonia com o zeitgeist), peguei numa página aleatoriamente seleccionada de um dicionário de bolso e usei a primeira palavra que lá li: pastoral. O Roth não tem nada a ver com isto, e não devemos enlamear o seu santo nome associando-o a um espaço que apenas por acaso não se chama Cistografia Portuguesa, Patanisca Portuguesa, ou Fotossensibilidade Portuguesa.

(American Pastoral, nem de propósito, é o livro de Philip Roth de que menos gostei. Algo susceptível de causar grande consternação a Philip Roth, pelo que peço comedimento no espalhar da notícia.)

segunda-feira, abril 16, 2007

Não choveu



Foi a pior Grand National de que tenho memória: uma série de falsas partidas e um steward com um caso extremo de retenção anal ameaçaram transformar a corrida numa farsa antes sequer da primeira sebe ser transposta. O pior estaria para vir, contudo, com a vitória a sorrir o seu sorriso esborratado de lipstick foleiro ao palerma Robbie Power, justamente punido com quatro dias de suspensão por uso excessivo do chicote (só por acaso não escavacou uma rótula ao animal). Razão, suponho, para cobrir de elogios o cavalinho vencedor, Silver Birch, que mais não seja pela contenção que revelou. Outros cavalinhos, por muito menos, fizeram aquilo que ele deveria ter feito: usar a transposição de um obstáculo como pretexto para depositar cuidadosamente o seu jockey na relva.
Tudo isto torna ainda mais vergonhoso o facto de ter sido esta a única Grand National nos últimos 5 anos a dar-me algum dinheiro - Slim Pickings, o cavalo irlandês que era a minha back-up bet, chegou em terceiro lugar, o que rende 1/3 das odds, embora não chegue a restaurar 1/33 de auto-estima. Quanto ao cavalinho Dun Doire, ficou provada a sua completa incapacidade para competir em terrenos que não se assemelhem às trincheiras do Somme. Dun Doire é o equivalente equestre àquelas equipas de futebol que só ganham partidas jogadas em lamaçais - como o antigo estádio/quintal do Gil Vicente, de cujo nome agora não me recordo, mas que espero já tenha sido demolido para dar lugar a uma estufa. Já agora, para quem gosta de ver jockeys derrotados passarem um lenço saturado em graxa pela carapaça do cágado, Paul Carberry escreveu uma autópsia para o The Guardian. Para o ano há mais.

(A árvore da imagem é um silver birch, julgo eu. Que é o nome inglês para um vidoeiro, julgo eu. Mas nestas coisas, é sempre melhor ir confirmar aqui, ou perguntar ao João Miranda, que sabe tudo.)

sexta-feira, abril 13, 2007

"I'd like to eat Liz Taylor"



(Misheard Lyrics)

Grand National


Faltam menos de 20 horas para o evento desportivo do ano.

(Eu sei em que é que estás a pensar, leitor: estás a pensar que a vitória do favoritíssimo cavalinho Hedgehunter na Grand National de amanhã só poderá ser impedida por forças sobrenaturais. Mas as coisas não são assim tão simples, leitor. O cavalinho Hedgehunter, apesar de ser um vitorioso veterano do circuito de Aintree, tendo aqui ganho a Grand National de 2005, padece de um problema recorrente no joelho, que nada tem a ver com voodoo ou mau-olhado.
Por outro lado, o cavalinho irlandês Dun Doire, que tem uma excelente estrutura óssea e é treinado pelo grande Tony Martin, pode muito bem tirar vantagem do terreno molhado (façamos as macumbas necessárias a um satisfatório aguaceiro) para me tornar muito feliz pela segunda vez. Se bem te lembras, leitor, o cavalinho Dun Doire representou o meu único palpite correcto na amargura recente que foi o Festival de Cheltenham. O cavalinho Dun Doire foi, nessa festiva ocasião, sublimemente montado pelo jockey Ruby Walsh, que irá amanhã montar o cavalinho aleijado Hedgehunter. Como é irónico o mundo dos cavalinhos, leitor. Como geme, assustada, a minha conta bancária. Como está limpo o céu, e cheio de prenúncios.)

Memo para o Vasco Barreto (quando voltar de férias)

1. Vai ao Google Maps.
2. Carrega em 'Get directions'.
3. Introduz os termos 'New York, New York' e 'Lisbon, Portugal' nas caixas de busca no topo da página.
4. Prime a tecla Enter.
5. Lê a instrução número 23.

The inanities that I go sowing

O Tradução Simultânea faz hoje anos. O que me parece um motivo tão bom como qualquer outro para traduzir um post do Tradução Simultânea com o auxílio do Babelfish:

«WE ARE OPENED
Seems that much people who for have passed here would like to have commented the inanities that I go sowing. It happens that when making they had beaten it with the nose in the door, because this blog was formatted for ' members only ' or thing that is valid it. However even so I am partial to this concept, if April the commentaries does not make sensible to be here to say lonely. The situation already was attenuated. Therefore, feel free. The house is yours.»
(01/04/07)

Life is no way to treat an animal


Norman Mailer disse um dia que J. D. Salinger era a melhor mente a nunca ter saído do liceu. Kurt Vonnegut foi muito provavelmente o melhor escritor a nunca ter saído do infantário. O seu legado inclui dois ou três livros muito bons, dois ou três livros muito maus, desenhos a lápis, chavões omnipresentes, infelizes declarações à 'intelectual público', uma esplêndida caricatura de Theodore Sturgeon, e um dos melhores e mais cómicos livros que eu conheço, Mother Night.

quarta-feira, abril 11, 2007

My Life as a Lord Jim

My Life as a Fake é, entre muitas outras coisas, uma ilustração da Falácia Intencional: nada do que é escrito pela trupe de artistas manqué que popula o livro surte os efeitos desejados. A narradora, depois de ler a inconsequente poesia genuína de Chubb (o forjador) resume assim a situação: «If this was his real poetry, then I preferred the fake».
Esta tensão entre o valor intrínseco daquilo que é criado para ser falso e daquilo que floresce genuinamente é o verdadeiro motor do livro, mais do que a reciclagem do mito de Frankenstein. Aliás, parece-me que My Life as a Fake tem um padrinho literário mais óbvio que Mary Shelley; é ela quem providencia a epígrafe, mas a sombra angular é lançada por Conrad - uma presença já evidente mesmo antes de o enredo nos transportar até à Península Malaia. A narração é oblíqua e esquartejada; o elenco é constituído quase exclusivamente por Marlows - personagens que insistem em contar as suas histórias, mesmo que o processo dure a noite toda e ameace aborrecer todos à sua volta. O que nunca acontece, diga-se. O livro é muito bom e reitero que deve ser lido por todos aqueles cujo coração é puro e cujas intenções são nobres.
(Curiosas, se bem que superficiais, são também as semelhanças do enredo com um dos livros mais fraquinhos de Stephen King, The Dark Half. Seria interessante aprofundar isto, mas o mais provável é que não o faça).

A Europa no meu prédio

O meu novo vizinho italiano, a quem educadamente me apresentei no corredor, insiste em que eu lhe chame Fred. A sua esposa nunca fala, mas o Fred comunica pelos cotovelos, ainda que o seu domínio da língua inglesa não lhe permita muito mais do que uma pitoresca insistência em que eu lhe chame Fred.
Julguei de bom tom alertá-los para o problema do carteiro. «Fred», disse eu, «he's a lunatic. You need to be on your toes».
«Call me Fred! I make your aquaintance!»

Factualidade declarada provada

Um dos textos mais comoventes que li nos últimos tempos foi este acórdão do Supremo Tribunal de Justiça.

Citando Abraracourcix

Há alturas em que me sinto cansado, mas tão cansado.
Uma notinha pessoal: como alguns de vocês já devem ter reparado, o meu habitual atraso na resposta a e-mails, telefonemas, mensagens de texto e gritos escandalizados do outro lado da calçada assumiu nas últimas semanas proporções caricatas. Isto deve-se a toda uma conjuntura. Não vamos aqui escalpelizar a conjuntura. Os interessados, de resto, já saberão que a conjuntura não exclui factores como a preguiça, a má-educação, e um estilo de vida precariamente equilibrado entre a terceira idade e o infantário.
O atraso será rectificado; até lá, o mais importante é manter a calma, e dar o benefício da dúvida a quem teve de lavar a loiça à mão duas noites consecutivas.

segunda-feira, abril 09, 2007

As crises de meia-idade começam assim

Tendo sido forçado por contingência mecânica - pela primeira vez em mais de dois anos - a lavar a loiça manualmente, reparei que a pele das minhas mãos fica agora muito mais engelhada, e que o efeito é mais duradouro. Por si só, este facto não seria preocupante, mas ocorreu no mesmo dia em que um teste online calculou a minha idade em 51 anos; e em que uma carta promocional do meu banco me sugeriu a compra de um seguro de vida universal.
Ou muito me engano ou isto ainda vai acabar num salão de tatuagens.

Passion Play (short version)


Lieutenant: JC, I'm getting pressure from the Praefectus' office. You know this is an election year. I need you to play by the Book.

JC: I'm here to tear the Book to shreds, chief.

Lieutenant: Damn it, JC, you don't make the Law! Why do you always have to be such a maverick?

JC [pulling his badge out of his pocket and throwing it on the table]: This city ain't big enough for me and the Law, chief. See you around.