quarta-feira, dezembro 05, 2007

Há por aí uns blogues

- Responsável que sou (auto-nomeado) pela gestão do património do Julinho da Adelaide, venho por este meio informar-vos de que chegou a altura da sua rajada mensal de amor livre (foram três!, três posts de uma assentada). O expoente máximo em Portugal do estilo de raciocínio "self-inflicted-cask-of-amontillado-style-epistemic-bebop-wall-building" (ele escreve parênteses dentro de parênteses não como tique gráfico pós-moderno, mas porque é a única estratégia que o seu cérebro encontrou para sobreviver neste mundo fenomenologicamente devasso), o Julinho maneja também a prosa cómica ambidextra mais contagiante da blogosfera que conheço. O impacto pode não ser imediatamente óbvio para todos, mas isto, meus amigos, é como os cigarros: há que continuar a tossir até chegarmos ao ponto em que já não se pode passar sem aquilo. Controlar a respiração enquanto se lê também não prejudica.

- Este post tem-me causado imensos problemas, e estou a falar de problemas diários. Submeto-o a exegeses compulsivas; vejo lá coisas diferentes de um dia para o outro; faço perguntas a mim próprio (literalmente: falo sozinho); e estou a um passo de reescrever pierremenardicamente o Quixote com aquela frase como epígrafe.

- Outro blogue pouco conhecido, mas que urge começar a ser descoberto pelos portugueses, é o Estado Civil, cujo autor, inegavelmente talentoso (eu tenho olho para estas coisas), alimenta uma estranha e ternurenta fantasia pessoal de reabilitação de certas manifestações sonoras de Bob Dylan. Já não é a primeira vez que o apanho a reclamar de um misterioso degredo álbuns que, embora da fase não-consensual, são ouvidos e elogiados por quase toda a gente que conheço. Concordo que é preciso ter uma segurança retórica estratosférica para se começar a elogiar em público uma coisa como o, digamos, Knocked Out Loaded, mas daí a tratar o Oh Mercy como um gatinho abandonado que se trouxe para casa e se aconchegou num cobertor vai uma grande distância. E não me refiro apenas aos Dylanófilos; ainda na semana passada, a Dona Emília (minha vizinha do lado, que me empresta o carrinho de mão para acartar os citrinos menos pacientes, sempre que tenho de limpar o quintal), uma senhora pacata que é, na melhor das hipóteses, uma ouvinte ocasional de Dylan, me dizia: "Olhe, senhor Casanova, eu cá ouço quase tudo dessa fase, até o Down in the Groove, pela minha saúde. Agora, quando aquele mafarrico, benza-o Deus, me chamou o Don Was para produtor lá no Under-não-sei-das-quantas, só aí senhor Casanova - e está aqui o meu marido que não me deixa mentir - só aí é que lancei as mãos à cabeça e olhe, nunca mais consegui pegar naquilo".
«Most of the Time» não é apenas a melhor canção desse álbum: é uma das minhas preferidas da obra inteira. Se concordo que a letra é de difícil tradução, acho igualmente que vale a pena o esforço:

Grande parte do tempo
Com esta visão periférica
Grande parte do tempo
Tenho os chispes assentes na Terra esférica
Leio as tabuletas, conheço um atalho
Vou sempre a direito, até ir para o caralho
Mas cá vou andando, sem tropeçar
A gaja foi-se, mas estou-me a cagar
Grande parte do tempo

Grande parte do tempo
Só não vê isto um burgesso
Grande parte do tempo
Não estou para virar tudo do avesso
Aguento-me à bronca, no meio da confusão
Sou gajo para toda e qualquer situação
E sobrevivo, sou uma fera
Quero lá saber da megera
Grande parte do tempo

Grande parte do tempo
Sinto-me zen e tal
Grande parte do tempo
Não guardo cá ódios ao pessoal
Não sonho acordado até ir ao grego
Há para aí uns sacanas, mas para eles eu chego
Consigo ser simpático com a malta fatela
E já nem me lembro das beijocas dela
Grande parte do tempo

Grande parte do tempo
Tenho a carola em paz
Nem sequer a reconheço, palavra de honra
Deixei-a algures lá para trás
Grande parte do tempo
Já nem me lembro bem
Na questão do sexo oral
Quem fazia o quê a quem

Grande parte do tempo
Sinto-me bem, obrigado
Grande parte do tempo
Tenho este carnaval todo controlado
Não me engano a mim próprio
Não me escondo das cenas
Enterradas cá dentro, até são pequenas
Não há cá compromissos, já disse e repito
Não me interessa que ela ande com um nhónhó mais bonito
Grande parte do tempo

terça-feira, dezembro 04, 2007

Dona Chepa

«. . .Her grandfather won the Kentucky Derby - but Dona Chepa doesn't know that. She has left the starting gate 128 times and lost each time. This is believed to be a world thoroughbred record, breaking the mark of an Australian horse who was 0 for 124.
But Dona Chepa doesn't merely fail to win. "Solidly last" is how her exercise rider describes her typical performance.
"You know what to expect," said her trainer, Efrain Nieves, adding that he has never been disappointed by her.
»

(O resto está aqui)

The Sound of the Shell

Apanhei o filme a meio, mas tenho tentado acompanhar a situação no blogue da Atlântico com a maior das atenções. Segundo percebi, o Jack e o Ralph reuniram uma maioria absoluta em Castle Rock, e o Piggy, apesar de lhe ter caído um calhau na cabeça ainda antes de chegar à ilha, conseguiu ir-se embora a nado, com os seus óculos partidos.
Se alguém quiser mais analogias literárias, é só pedir: tenho uma muito boa que explica a polémica do novo Aeroporto à luz de Philip K. Dick, e outra que resume um terço da discografia de Bob Dylan com recurso a um capítulo dos Irmãos Karamazov. Estou disponível para casamentos e baptizados.

Esforço, dedicação, devoção e slapstick

Há outro clube no mundo inteiro que desgalvanize desta maneira as respostas emocionais dos seus adeptos? Não há. Este clube dá-nos tudo, mas para sofrer temos de ir a outro lado.
Agora, numa altura em que até já se dissiparam os ligeiríssimos rancores da perda de pontos, não me custa nada admitir que há muito, muito tempo que não me ria tanto com um programa de televisão. E tenho pena dos pobres diabos no Lusomundo Alvaláxia que foram gastar dinheiro no Hot Fuzz quando tinham os Irmãos Marx mesmo ali ao lado, no esplendor da semi-relva.
Não estou a falar apenas da comédia física mais óbvia, e nitidamente ensaiada de véspera, como o trambolhão do Purovic (esse blasfemo cruzamento genético entre Boris Karloff e Buster Keaton), nem do cada vez mais calibrado crioulo de auteur de Paulo Bento, que ontem repetiu quatro vezes a mesma palavra em 3 segundos na flash-interview (não me lembro qual foi a palavra, e garanto que ele também não). Estou a falar das coisinhas pequenas, dos detalhes improvisados, como o pontapé no relvado de Miguel Veloso, cobrindo os fotógrafos de terra. Ou da soberba set-piece em crescendo que foi o lance do penalty. O espectador já ri quando ele é assinalado; redobra a gargalhada quando vê Polga avançar; lança-se para o chão com cãibras quando ouve o comentador afiançar que "o Brasileiro pode estrear-se a marcar na Liga"; e explode num chavascal de bathos quando ele telegrafa o remate com aviso de recepção (já recebi encomendas da Amazon mais depressa do que a bola chegou ao guarda-redes do Leiria).
Fiquem lá com as vossas glórias e trivelas; eu tenho um cartão de sócio da Comedy Central.

sábado, dezembro 01, 2007

Strawberries with sugar


O melhor livro do ano - no sentido restrito em que me tem divertido bastante esta semana - apresenta-se com este pavoroso título: The New Kings of Nonfiction. (Seria menos mau se viesse a lançar um novo modelo para baptizar antologias: The Proud Presidents of Pansy Poetry, The Shit Sheriffs of the Short-Story, etc). Custa 14 euros e meio, e pode ser adquirido na Almedina, um facto, por si só, quase miraculoso. A política de preços do plantel Almedinense é notoriamente esotérica, e as esporádicas pérolas que se vão encontrando naquelas prateleiras costumam estar incluídas em duas categorias muito específicas: o "Se-Quiser-A-Gente-Paga-lhe-Para-Levar-Isto" (já lá vi um livro da Routledge mais barato do que um pacote de farelos), ou o "Declare-Aqui-A-Sua-Bancarrota" (como é o caso do The Penguin Guide to Blues Recordings, disponível na Amazon por menos de 15 libras, mas cuja etiqueta lusa anunciava uma quantia menos parecida com o preço de um livro do que com o Produto Interno Bruto do Canadá. Adiante).
O livrinho em questão, organizado por Ira Glass, recolhe algumas peças de reportagem literária publicadas na última década nas melhores revistas do mundo, que são, como se sabe, quase todas americanas. Alguns dos nomes são conhecidos (David Foster Wallace, Malcolm Gladwell, Susan Orlean, Bill Bufford), outros nem por isso, mas a qualidade é uniforme.
A jóia da coroa é provavelmente o longo artigo de Michael Lewis para o New York Times sobre Jonathan Lebed. Quem é Jonathan Lebed? - pergunta o leitor, visivelmente desanimado. Lebed era, em 1999, um jovem de 14 anos. E, na idade em que muitos de nós passávamos as tardes a telefonar para a Vera Roquete, Lebed digeria quatro horas diárias de Canal Bloomberg. E achou tudo aquilo muito interessante. Munido apenas de um e-mail da AOL, uma conta-poupança aberta pelos pais, e uma insólita estrutura de apoio (já lá vamos), quase levou o sistema capitalista a um colapso nervoso.
Em cinco meses lucrou cerca de oitocentos mil dólares, colocou em causa os fundamentos do mercado de capitais e levou às fronteiras da apoplexia vários membros da SEC (Securities and Exchange Commission, entidade reguladora destas coisas nos Estados Unidos). Lebed foi acusado de influenciar artificialmente o preço das acções de inúmeras companhias, mas o caso acabou por nunca ir a tribunal, em parte porque a SEC se apercebeu que seria complicado provar que o que Lebed fazia era ilegal sem fazer ruir todo o edifício pelos alicerces.
Não excluo aqui um certo grau de manipulação jornalística, mas é divertidíssimo comparar o tom e o conteúdo das declarações das duas partes interessadas. O presidente da SEC soa como Lebed deveria soar, isto é: como um miúdo de 14 anos. As suas explicações sobre o sucedido são vagas, circulares e um bocadinho patéticas ("He's a bad kid", "he'd buy, lie and sell high", "because I say so", e afins). O cerne cómico da peça ocorre quando um advogado é trazido à sala para explicar ao jornalista o que significa "manipular o mercado", diálogo que gera uma definição intrigantemente circular, em que promover uma companhia com o intuito de elevar a sua cotação é "artificial" quando a SEC consegue convencer um tribunal dessa "artificialidade". O conceito de "força de mercado" é igualmente nebuloso, embora a conclusão do jornalista me pareça à prova de água: quando a internet colidiu com Jonathan Lebed, Jonathan Lebed transformou-se numa força de mercado. Ou então todo o sistema é uma farsa.

Os melhores parágrafos da peça, contudo, são os dedicados à voz do rapaz, que rapidamente denunciam uma oleada (e potencialmente oleosa) máquina de fazer sentido. Isto é o próprio, na primeira pessoa - e volto a relembrar que a primeira pessoa em questão tinha nesta altura mais borbulhas do que anos de calendário:

«I was going over some old press releases about different companies. The best performing stock in 1999 on the Nasdaq was Qualcomm (QCOM). QCOM was up around 2000% for the year. On December 29th of last year, even after QCOM's run from 25 to 500, Paine Webber analyst Walter Piecky came out and issued a buy rating on QCOM with a target price of 1,000. QCOM finished the day up 156 to 662. There was nothing fundamentally that would make QCOM worth 1,000. There is no way that a company with sales under $4 billion, should be worth hundreds of billions. . . . QCOM has now fallen from 800 to under 300. It is no longer the hot play with all of the attention. Many people were able to successfully time QCOM and make a lot of money. The ones who had bad timing on QCOM, lost a lot of money.
People who trade stocks, trade based on what they feel will move and they can trade for profit. Nobody makes investment decisions based on reading financial filings. Whether a company is making millions or losing millions, it has no impact on the price of the stock. Whether it is analysts, brokers, advisors, Internet traders, or the companies, everybody is manipulating the market. If it wasn't for everybody manipulating the market, there wouldn't be a stock market at all. . . .
''

Melhor ainda é a resposta às acusações de que certos e-mails seus postados publicamente num fórum da Yahoo, e contendo elogios a companhias das quais ele próprio era accionista, teriam "manipulado artificialmente o mercado":

«Every morning I watch Shop at Home, a show on cable television that sells such products as baseball cards, coins and electronics. Don West, the host of the show, always says things like, 'This is one of the best deals in the history of Shop at Home! This is a no-brainer folks! This is absolutely unbelievable, congratulations to everybody who got in on this! Folks, you got to get in on the line, this is a gift, I just can't believe this!' There is absolutely nothing wrong with him making quotes such as those. As long as he isn't lying about the condition of a baseball card or lying about how large a television is, he isn't committing any kind of a crime. The same thing applies to people who discuss stocks.»


* * *

Quantos membros da minha geração, nas suas gincanas sociais historicamente circunscritas entre recordes de pontos no Golden Axe, colossais arquitecturas de legos, obsessões semi-privadas com as sobrancelhas da Helena Ramos e discussões sobre os méritos relativos de Use Your Illusion vol. 1 versus Use Your Illusion vol. 2, quantos membros da geração de 80, dizia, tiveram percursos adolescentes merecedores de quinze mil palavras no New York Times?
O factor mais intrigante no artigo é um que obriga a reformular esta questão: quantos de nós tivémos um amigo como Jonathan Lebed? Pessoalmente, nunca tive um amigo como Jonathan Lebed; se o tivesse tido, isso não teria feito diferença nenhuma, pois ainda hoje não sou capaz de identificar uma boa dica de investimento, mesmo que ela caia no meu quintal ao lado do marmeleiro. Mas Jonathan Lebed tinha amigos como Jonathan Lebed, e isso fez toda a diferença do mundo.
Para perceber o que o tornou possível, e sem injectar um mililitro de determinismo na história, é importante notar que ele não representou uma mera explosão de talento num vácuo suburbano. Os pioneiros, seja em que área for, podem perfeitamente estilhaçar paradigmas no escuro, mas dá sempre jeito ter uma câmara de eco para testar o equipamento. Quando comecei a ler o artigo julguei (erradamente) que iria encontrar um protagonista familiar e rapidamente identificável: o idiot savant, com um cérebro colossal mas cheio de cavidades autistas, brilhante mas incapaz de atar os próprios sapatos, a babar-se num quarto escuro por cima de um teclado (ou de um tubo de ensaio, ou de um tabuleiro de xadrês, enfim. . .) e a reescrever a realidade às apalpadelas. Mas tornou-se gradualmente aparente que o protagonista da história não é tanto Jonathan Lebed como o Liceu de Cedar Grove em New Jersey, onde, num curto período de tempo entre 1999 e 2001, aproximadamente um terço da população estudantil (e alguns docentes que apanharam o comboio em movimento) passava as horas vagas a comprar e vender companhias:

«[Jonathan's] crowd of friends at Cedar Grove High School, most of whom owned pieces of Internet businesses and all of whom speculated in the stock market. ''There are three groups of kids in our school,'' one of them explained to me. ''There's the jocks, there's the druggies and there's us -- the more business oriented. The jocks and the druggies respect what we do. At first, a lot of the kids are, like, What are you doing? But once kids see money, they get excited.'' (. . .)»

A estrutura social de um liceu não é apenas uma estrutura de integração ou exclusão - pode ser também uma estrutura de capacitação, e servir para aglutinar intuições afortunadamente semelhantes, numa idade formativa. É por isso que os parâmetros que medem a qualidade de um estabelecimento de ensino são sempre reducionistas se se limitarem à qualidade dos recursos óbvios e tangíveis. Aqueles são os anos em que gravitamos na direcção de personalidades e interesses que espelhem e moldem os nossos, e em que começamos a construir pela base as redes sociais que nos vão sustentar na vida adulta. Uma boa escola, idealmente, não permite apenas o acesso a um bom professor e a uma boa biblioteca; deve permitir também o acesso a um bom recreio. Se não o encontramos - ou se temos o azar de estudar num liceu como o dos Morangos com Açúcar, onde as categorias disponíveis são "betos" e "motards" (isto era de uma série anterior, mas the point stands, em Cascais ou na Marmeleira) as perspectivas são reduzidas. Não eliminadas, como provam todos os génios socialmente equilibrados que nasceram e cresceram no Bronx ou no Prior Velho (eu conheço um), mas drasticamente reduzidas.
Os amigos de Jonathan Lebed não duplicaram o seu rasgo, mas compreenderam-no, e souberam gerir as consequências. Um dos cavalos de batalha da SEC tinha sido a noção de que a irresponsabilidade de Lebed causara males reais, com "vítimas" de carne e osso, algo que ressoa na cabeça do jornalista algumas páginas depois, quando descobre que Keith (16 anos, um dos amigos mais próximos de Jonathan) perdera dinheiro numa companhia chamada West Coast Video, depois de Jonathan ter saído da jogada: ''You're Jonathan's victim.'' A resposta é epigramática: ''Nah,'' Keith said. ''In the stock market, you go in knowing you can lose. We were just doing what Jon was doing, but not doing as good a job at it.''

Façam um favor a vocês próprios e comprem o livro: não há uma única página aborrecida. Sempre a pensar em vocês, tomei a liberdade de esconder os três exemplares que ficaram na Almedina debaixo do Penguin Guide to Blues Recordings.
Se é que aprendi alguma coisa esta semana sobre como "manipular artificialmente o mercado", aposto que ainda ninguém lhes mexeu.

(Jonathan Lebed, hoje um milionário de 22 anos, tem uma página online com dicas de investimento. Não é tão divertido como ir ver as pilecas a Newmarket, mas quem quiser pode espreitá-la aqui.)


(Adenda: O Filipe Guerra leu um post qualquer noutra galáxia e, por motivos não aparentes, linkou este. Ou então leu mesmo este, mas em braille defeituoso, ou numa tradução do babelfish.
Também é preciso ter em conta que tropeçar nas palavras "América" e "dinheiro" assim, logo de manhã, é suficiente para estragar o resto do dia a qualquer pessoa de bem.)

sexta-feira, novembro 30, 2007

Bota de ouro


«Rijkaard foi expulso em Lyon mas, na véspera do jogo da Champions, esteve simplesmente genial na conferência de imprensa, ao dar a entender que Edmilson, na entrevista ao canal TV3, fez o mesmo que Kevin Keegan no filme "Suspeitos do Costume": montar uma história conforme os objectos que o rodeava.»

O simplesmente genial Rui Miguel Tovar, no Record de hoje (juro, está na página 42). Ignoremos os autogolos gramaticais e concentremo-nos no essencial: aquele prodigioso golpe de casting revisionista.

quinta-feira, novembro 29, 2007

Se isto não é a canção do ano, não sei qual será a canção do ano





Sonic Youth - «I'm Not There»

(p.s. 1: O Lifelogger é realmente muito prático e amistoso. Agradecimentos a todos os que o recomendaram, em especial ao Irmão Lúcia, a quem só faltou explicar-me todo o processo com bonifrates e lápis de cera.)

(p.s. 2: E vocês aí, não me metam em sarilhos, por favor. Já deixei queimar um arroz de pato por me ter distraído a pensar nessa brincadeira. A minha primeira reacção foi a óbvia: numa quinella irlandesa seria indiferente a ordem dos dois cavalos na aposta, que é uma each-way efectiva sem o mesmo investimento. Mas a maneira como a pergunta é formulada torna esta resposta um bocadinho ridícula. O que se pretende é um benefício objectivo de apostar num cavalo que se sabe não ter hipóteses - independentemente de a aposta ser win-win, de lugar ou each-way. E no sistema parimutuel, isto só faz sentido se envolver um esquema daqueles praticados por mafiosos das Midlands, cujo nome é quase sempre Robbie ou Dave, e cujas unhas são quase sempre da mesma cor dos sapatos. Por exemplo, apostando maquias avulsas a intervalos irregulares nas cabines da pista para inflacionar artificialmente o preço de um cavalo manco e vesgo - aproveitando depois as ofertas daltónicas das grandes agências off-track, que monitorizam o galope das cotações de pista de uma forma surpreendentemente superficial, e cuja preocupação com oscilações súbitas é subordinada à preocupação de poder continuar a prometer aos seus clientes percentagens idênticas sem o peso da breakage. Quer-me parecer que este hipotético esquema teria maiores probabilidades de sucesso antes do advento das betting exchanges online, mas neste ponto, como em tantos outros, é perfeitamente plausível que esteja a dizer um grande disparate, até porque a questão original pode partir de uma idiossincrasia do sistema de apostas americano que desconheça por completo. Parece-me igualmente pertinente salientar que eu agora me dedico mais à fruta.)


A sul do Tejo nem a natureza funciona

Pela minha saúde: são 3:13 da madrugada e está um galo a cantar aqui ao lado.

segunda-feira, novembro 26, 2007

Tenham a bondade de me auxiliar

Uma sucessão de más sortes, más escolhas e problemas técnicos (frase a repescar para a autobiografia) resultou numa situação em que me vejo sem qualquer armazém online para aconchegar os meus ficheiros musicais. Agradecia que alguém me indicasse um sítio decente.
O outrora excelente filexoom, tanto quanto pude aferir, implodiu depois da mudança de servidor; a sua relação comigo é agora análoga à do género feminino com o Tiago Galvão: apesar de flirtar descaradamente com outros utilizadores na minha presença, o filexoom não obedece aos meus pedidos, não responde aos meus e-mails, e atravessa a rua quando me vê chegar.
O Fileden, nos braços peludos do qual me lancei talvez precocemente, também parece ter triturado as minhas pastinhas, embora aqui o problema me pareça envolver não tanto dificuldades técnicas como represálias estéticas: desde que lá alojei um mp3 do Vítor Espadinha as coisas nunca mais foram as mesmas.
Estou à deriva, como notam, e o mundo ficou privado do meu excelso gosto: aproxima-se a altura de fazer as listas de discos do ano e tenho um programa de festas em stand-by.

Auxílio para o mail, sff.

Dos benefícios criativos da escritura de compra e venda


- Gore Vidal, "The Golden Bowl of Henry James"


(Larga lá a volumetria: pelos meus cálculos, tens uma janela de 3 meses para completar projectos estagnados.)

O programa Chess Titans do Windows Vista ainda não me conseguiu ganhar com a Ruy Lopez (mas com o Dragão Rápido da Siciliana foi um descalabro)



sábado, novembro 24, 2007


quinta-feira, novembro 22, 2007

Efficiency, efficiency they say



(Isto é tão, mas tão bom, que uma pessoa até lhe perdoa ter começado a trocar alguns dos soberbos "la-las" do refrão original por uns desleixados "na-nas". Será da idade? Possivelmente. E se o pior que a velhice nos reserva é começarmos a trocar "la-las" por "na-nas" podemos dar-nos todos por satisfeitos. John Cale é deste planeta e nós também: é preciso ter sorte.)

Barzã

Das muitas, muitas coisas que aprendi a ler Jacques Barzun, duas das mais úteis foram as pronúncias correctas de "Montaigne" e "Walter Bagehot" ("Montánhe" e "Badjet", respectivamente). Só é pena que, de caminho, não tenha aprendido a pronúncia correcta de "Barzun": foi-me hoje explicado que ando há anos a fazer figura de urso sempre que menciono o senhor.

(Já agora, o centenário é este mês.)

terça-feira, novembro 20, 2007

James Wood, James Wood, James Wood

Tolstoy is the great novelist of physical involuntariness. The body helplessly confesses itself, and the novelist seems merely to run and catch its spilled emotion.(...) Tolstoy can seem almost childlike in his simplicity, because he is not embarrassed to do the kind of thing beloved of children’s and fairy-tale writers when they read the emotions on the face of a cat or a donkey. When Prince Andrei’s wife dies in childbirth, her dead face appears to say to the living, “Ah, what have you done to me?” The old prince’s valet can “read” his master’s body; he knows that if the prince is “stepping full on his heels” something is up. At a ball in St. Petersburg, the sixteen-year-old Natasha Rostov has just finished a dance and, intoxicated with happiness, would like to rest. But someone asks her to dance again, and she agrees, flashing a smile at the man she will eventually become engaged to, Prince Andrei, who has been watching her. Tolstoy explains the smile:

That smile said: “I’d be glad to rest and sit with you; I’m tired; but you see, I’ve been asked to dance, and I’m glad of it, and I’m happy, and I love everybody, and you and I understand all that,” and much, much more

Readers always feel that Tolstoy is both an intrusive narrator—breaking in to explain things, telling us what to think, writing essays and sermons—and a miraculously absent one, who simply lets his world narrate itself. As Isaac Babel put it, “If the world could write by itself, it would write like Tolstoy.” There is a sense in which Tolstoy is saying to us—to dare a Tolstoyan reading of Tolstoy, for a minute—“I will gladly help you read Natasha’s or Pierre’s or the little princess’s face, but, really, anyone could do it. You don’t need me. For these are the largest, most universal, most natural emotions, not the precious little sweets of the stylish novelist.”


(Não sei como é que isto escapou às malhas do Dennis Dutton, mas toma lá)

Se todos os artigos económicos fossem escritos assim, eu conseguiria perceber muito melhor o que se passa à minha volta

We export because that’s the only way to get imports. If people would just give us stuff, then we wouldn’t have to export.

Beirute



Ou o autor deste comentário anónimo se identifica (pode ser por mail) nas próximas 24 horas, ou faço mal ao coelhinho. Estou a falar a sério. Os comentários anónimos só têm graça quando não têm graça.

Vamos supor

«Mas agora a sério - talvez seja preciso esquecer Ian Curtis, os Joy Division, toda a questão referencial, remetida (e deixem-me dizer assim) para uma "carícia distante". Julgo que se o filme se baseasse numa abstracção (vamos supor: a vida de Jack Shitload, vocalista dos Crap Division) teria essencial e substancialmente a mesma força.»

Este homem é um Pynchoniano de armário.

(Não isto tenha alguma coisa a ver com nada, mas em Vineland, há uma banda chamada Billy Barf and the Vomitones, que é convidada por acidente para tocar num casamento de mafiosos, performance para a qual se preparam lendo o "Italian Wedding Fake Book", de Deleuze & Guattari. Uma das canções do set, com a participação especial da vocalista e ninjette semi-reformada DL Chastain, goes a little something like this:

Just a floozy with an Uzi. . .
Just a girlie with-a-gun. . .
When I could have been a mo-del,
And I should have been a nun. . .

Oh, just what was it about that
Little Israeli machine?. . .
Play all day in the sand,
Nothin' gets, jammed, under-
stand. . . what I mean?

So Mis-ter, you can keep your len-ses,
And Sis-ter, you can keep your beads. . .
I'm ridin' in Mercedes Ben-zes,
I'm taking care of all my needs. . .

I'll lose my blues, in some Jacuz-zi,
Life's just a lotta clean fun,
For a floo-zy with an U-U-zi,
For a girlie, with-a-gun. . .
)

domingo, novembro 18, 2007

Getting pressure from the Mayor

(O autor do blogue O Vermelho e o Negro diz querer saber se eu tenho tempo, neste afã de sementeira e colheita, para ver filmes e gostar deles. Tenho sérias duvidas sobre este desejo; parece-me que o autor do blogue O Vermelho e o Negro está meramente a usar-me como válvula de escape para alguma agressividade-passiva decorrente da crise de citrinos que assola os nossos supermercados, mas vou alinhar na charada e dizer umas coisas sobre cinco filmes que vi nesta minha vida, para benefício do autor do blogue O Vermelho e o Negro)

The Night of the Hunter (1955) – Um jardim imaginário, com batráquios reais. O plano lateral de Mitchum a subir os degraus da cave com os braços estendidos continua a ser a minha anfetamina mais fiável, mas gradualmente comecei a encontrar na personagem de Lilian Gish melhores motivos para dormir com a luz acesa; ouvir Mitchum cantar é como pisar uma aranha, mas ouvir Gish cantar é como pisar uma aranha com o pé descalço. Davis Grubb, que escreveu a história, é o possuidor do melhor currículo genuíno que alguma vez li na contracapa de um livro: antes de se dedicar à escrita a tempo inteiro, catalogava beija-flores guatemaltecos embalsamados, no laboratório de ornitologia do Carnegie Institute of Technology.

Fitzcarraldo (1982) – Tal como Apocalipse Now, com o qual tem algumas semelhanças oblíquas, é um filme que duplica o seu próprio making of, mas garanto que não vou aqui dizer mais nada de interessante sobre o assunto. Se o Rex Ingram se libertasse sozinho da sua lamparina troposférica, atravessasse três camadas atmosféricas, três áreas de descontinuidade, a ponte 25 de Abril e a louca corrida à fermentação a decorrer no meu quintal entre as laranjas mais timoratas e os exemplares mais inúteis do jornal Dica da Semana, se o Rex Ingram, dizia eu, se materializasse na minha cozinha, e me concedesse três desejos sem letrinhas minúsculas no contrato, é altamente provável que, antes sequer de ponderar uma propriedade com estábulos em Worcestershire ou a paz universal, eu lhe pedisse que Klaus Kinski fosse ressuscitado de propósito para gravar a mensagem de atendimento no meu telemóvel. Queria ver se o departamento de promoções da TMN não aprendia logo a respeitar-me.

They Live! (1988) – Depois da proto-abdicação de McCain, uma vitória de Giuliani nas primárias do Iowa é agora uma possibilidade, o que pode descarrilar a campanha de Romney muito mais cedo do que o esperado para um candidato com roupa interior à Bridget Jones. Fred Thompson incomoda-me profundamente; o homem faz James Spader parecer normal. Barack Obama continua a sua maratona ontológica, tendo bebido uma garrafinha de água mineral à beira do quiosque dos Rockefeller Republicans. John Edwards vai aperfeiçoando a sua imitação anti-sistémica de Dias da Cunha. Bill Richardson é o único Democrata que me faz rir pelos motivos certos. A mulher de Dennis Kucinich é extraordinariamente atraente, mas pelos motivos errados. (Eu votaria em branco, ou em McCain, o que é quase o mesmo).

The Big Lebowski (1998) – Talvez o melhor filme sobre advogados da história do cinema. Apesar da duração (cerca de sete horas) o espectador nunca se aborrece. A célebre sequência no tribunal, em que o promotor-público de Dallas interroga ferozmente o hirsuto anarquista porto-riquenho sobre a sua costela Habermasiana é um dos grandes momentos da carreira de Mário Viegas.
(Já vi o filme umas oito vezes, mas possivelmente nunca nas condições fisiológicas ideais).

Sunset Boulevard (1950) – Porque não conseguiria fazer melhor, passo a palavra ao maior vulto intellectual contemporâneo, George Steiner: « . . . [Sunset Boulevard] is a nineteen-fifty-something movie starring quite a few actors, produced by someone with money, and directed by someone else whose name is not worth bothering your pretty little head about. The main plot revolves around a group of people who interact with each other by way of talking and gesticulating. All this talking and gesticulating produces a few actions, which produce, in turn, some reactions. The movie starts at the end but gets a grip on itself and comes back, proceeding then in an orderly fashion from start to finish; along the way it passes through several points which could, when taken together, be described as “the middle”. Stuff happens throughout, and consequences to the happening of stuff are also shown. Sometimes, confusingly, different kinds of stuff happen almost at once: two or more people may be talking, or even talking and eating simultaneously, and all of a sudden there is a cut and in the next shot we see someone entirely different driving a car, or shaving, or burying a monkey. It gets pretty frantic up there on the screen, but after a couple of hours of all this stuff happening, stuff suddenly stops happening, meaning that the movie has ended, so, you know, whatever.» (George Steiner, Tiresias’ Curse, or Having Fun at the Movies, p. 328)

Passo esta corrente aos portugueses. Eles que decidam, em consciência.

terça-feira, novembro 13, 2007

Um ser humano indistinto, um ser humano indistinto e outro ser humano indistinto entram os três num bar e pagam uma rodada de iogurtes

«Daqui a 50 anos, quando dois gays se puderem beijar no emprego sem provocar mais que indiferença, poderemos todos ridicularizar os exóticos gostos dos gays por homens, como hoje em dia gozamos um colega de trabalho pela derrota do Benfica no fim-de-semana. Até lá, parece-me de muito mau gosto esse tipo de humor baseado na ridicularização das diferenças, demasiado reforçador de preconceitos idiotas.
Se não resistimos a fazer piadas sobre minorias, seria mais interessante (digo eu) rirmo-nos de minorias dominantes (as que detêm o poder político, económico, cultural), em vez de nos rirmos de quem precisa de se esconder para ser aceite como igual.Ou então rirmo-nos de nós próprios, que ainda é o mais saudável e divertido, como o maradona saberá se já experimentou.
Em todo o caso, não achei piada nenhuma ao seu texto (eu que acho piada a quase tudo). É que, ao contrário de si, tenho a sorte de ter amigos gays, e imaginação suficiente para adivinhar a incomodidade e o sofrimento que esse facto, tão anódino e normal, pode ainda provocar nas suas vidas.
»

(Mais uma adição ao Clube dos Amigos da Comédia como Instrumento de Justiça Social. Não conheço outro tipo de humor que não o baseado - em maior ou menor grau - na "ridicularização das diferenças", mas admito que o quintal me ocupa muito tempo. De qualquer maneira, vale a pena ler aquela página inteira, desde o "marialvismo literário destes queques terríveis" à "cumplicidade com autos-de-fé". O estagiário que a Danone destaca para ler o meu blogue já deve estar a escrever memorandos frenéticos. E esta, meus amigos, é para epígrafe de qualquer coisa:
«Ninguém nos protege de quem nos quer, à força, proteger.» - maradona, 13/11/07)

segunda-feira, novembro 12, 2007

Janelinhas saltitonas da alma

«Years ago Leonard Michaels, upon seeing the phrase "Her eyes dropped" in one of my stories, wrote in the margin, "Did they bounce?" Well, you could be sure I never did that again. But now, teaching writing myself, I see it all the time: characters' eyes all over the place. They travel around the room, climb up the walls, but rarely do they stay in their sockets. And that's just the beginning of the problem with eyes. Portals of the soul, round like marbles, pools of water: I've never seen a body part that so welcomes cliché.»

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The Elegant Variation


(A melhor inoculação que conheço contra este vício específico - choques em cadeia entre globos oculares vagabundos - é um conto chamado "'Tis the Season to be Jelly", de Richard Matheson. Está incluído no livro Shock III, que podem adquirir em segunda mão na Amazon, ou em alternativa, pedi-lo emprestado à minha pessoa, com os vossos olhos aparafusados ao solo em súplica dextrivolúvel.)

domingo, novembro 11, 2007

Mal de montaña


Isto é daquelas coisas, como um corte de cabelo feito por impulso, ou um trambolhão no "Isto Só Vídeo", que parece muito pior do que é na realidade. Nem sequer é nada de novo: acontece-nos duas ou três vezes por época, uma pessoa anda há vinte anos a fazer planos de contingência, os anticorpos já sabem a rotina de trás para a frente.
O pior que pode resultar daqui é um ânimozinho revolucionário aos que desejam uma vaga de fundo para devolver Paulo Bento às Astúrias. Não seria a maior asneira da história do Sporting, nem a menor: seria apenas mais uma, e sinceramente, já me começam a faltar esferas no ábaco.
O erro de Paulo Bento esta noite é tão incontornável como irrelevante. É certo que retirar o lateral-esquerdo ao intervalo é o equivalente futebolístico a invadir a Rússia em Setembro (manobra estreada, pelo menos neste clube, a 14 de Maio de 1994). Mas o jogo estava perdido desde os primeiros minutos, quando a equipa do Braga descobriu que estava a jogar não contra outra equipa, mas contra uma daquelas expedições ao Evereste que corre mal.
A maior responsabilidade que pode ser imputada a Paulo Bento é a de ter feito um trabalho demasiado bom no ano passado: levou um plantel com apenas oito jogadores de campo (e incluo o Abel nesta estimativa apenas porque a sua hirsutez me intimida) a sítios onde plantéis com apenas oito jogadores de campo nunca devem ir sem tendas, cordas, e botijas de oxigénio.

Posso nunca ter ouvido falar de Kruger e Stiffmeister, mas se o Pregal da Cunha fosse uma religião eu convertia-me

sábado, novembro 10, 2007

"It is a jungle of thoroughfare nomenclature out there"

Um post estupendo no Language Log sobre o caos polifónico que são os nomes das ruas em Edinburgh. Nada do que lá é dito é um exagero. O meu regresso a casa nas noites de fim-de-semana envolvia o seguinte percurso: Broomhouse Crescent, Broomhouse Street South, Broomhouse Place South, Broomhouse Road, Bromhouse Place North, Broomhouse Street North, Broomhouse Avenue, Broomhouse Terrace, Broomhouse Drive - isto se passasse por baixo de uma ponte manhosa e evitasse a dezena e meia de Broomhalls - Bank, Loan, Drive, Park, etc. - do outro lado de Broomfield Crescent (mesmo ao lado de Broomfield Gardens e antes de chegar a Broomlea).

Na minha pátria, que o Senhor a abençoe, basta enfiar-me num táxi no Largo Camões e garantir ao motorista que ele é uma pessoa espectacular.

The Accidental

O Seta Despedida foi para o bloggie heaven há uma carrada de meses e deixou-me saudades. A autora regressou, com o talento intacto, e num blogue com um nome cheio de potencialidades (vejam aquele equilíbrio entre consoantes e vogais, a misericordiosa ausência de letras chatas como 'u', 'x', e 'h'; isto é um nome com o qual se pode trabalhar).
Alerto eventuais míopes para o seguinte: a epígrafe do blogue é «Everything is meant» e não «Everything is meat».

Não olhem para mim dessa maneira

Norman Mailer morreu.

sexta-feira, novembro 09, 2007

Intensa Actividade Gasosa


Porque é que - perguntam amigos, familiares e carteiros preocupadíssimos - eu teimo em submeter-me a certas séries televisivas? Poderia responder-lhes com uma citação do Antigo Testamento, mas é mais fácil explicar que ainda está para surgir um artefacto audiovisual que inclua vulcões, tornados ou ondas gigantes incapaz de suster a minha atenção. Pompeii chegou mais perto do que qualquer outro; três minutos de um inacreditável prólogo filmado com filtros de lente que levariam um produtor de soft-porn italiano dos anos 80 a uma indignada apoplexia seriam provavelmente suficientes para vocês, mas eu Provérbios 12:16, etc, etc, etc.
A única virtude da série é ter providenciado a mais veemente convergência entre forma e conteúdo desde que Kerouac escreveu num rolo de papel higiénico: depois de Pompeii, a expressão filme-catástrofe nunca mais vai ser a mesma. O fosso entre tragédia colectiva e individual é talentosa e originalmente transposto; os planos e os diálogos vão-se acumulando numa maré fumegante, descendo encosta abaixo na nossa direcção; e não há nada que o telespectador possa fazer, a não ser enrolar-se no mármore gelado da sala-de-estar, em posição fetal, à espera de ser sepultado em entulho vesuviano. Alguém me convide para jantar hoje à noite (segundo episódio), se faz favor, ou os turistas de um futuro longínquo terão a oportunidade de visitar a margem sul em busca dos meus restos mortais, ainda com o telecomando e um pacote de maltesers nas mãos petrificadas.

Irrita-me quando esquecem as implicações biográficas do gosto por massa cotovelo (e não sei se já vos disse o quanto gosto de James Wood)

«Like his characters, Gogol was a defensive fantasist. He threw lies around himself like hoops, and danced within them. He was an actor, a liar, a peacock, a salesman of treasures. Friends reported that he was amusing to travel with because he had a great dislike of showing his passport or yielding his name. He liked aliases (Gogel, Gonel, and so on). He irritated others by playing card games he had invented and then changing the rules during play. He became rather selfishly involved with undercooked macaroni cheese, a dish he made again and again for guests.»

(James Wood, "Gogol's Realism", in The Broken Estate: Essays on Literature and Belief)


(Quando morei em Edinburgo, costumava participar num jogo de shots chamado "Go-gol dancing". O jogo era despoletado pelo primeiro cliente da noite (enfim: tarde, manhã... eu tinha uma vida diferente) que se dirigisse ao balcão para pedir uma garrafa de Ochakovo Ruby. Um dos participantes tinha então de se levantar, dançar um boogiezinho, debitar um facto biográfico sobre Gogol e beber um Bloody Bastard. Terão de acreditar na minha palavra quando vos digo que isto era bastante menos decadente do que soa.)

terça-feira, novembro 06, 2007

Pode sinalizar uma deriva para frivolidade, mas o autor do blogue acha que nenhuma altura é má altura para ver Norman Mailer à porrada com Rip Torn



(O diálogo é consistentemente impagável, mas o melhor momento ocorre ao minuto 1:57: 'I'm not hurt.' 'Yes, you are.' 'He's hurtin' worse than me!' Um involuntariamente hilariante making of do incidente pode ser lido aqui. Não sei se este país pode andar para a frente enquanto não existirem provas documentais de uma cena de recreio entre um escritor de renome e um actor semi-canastrão. Os meus candidatos: José Luís Peixoto vs. Rogério Samora. Fica a sugestão.)