quarta-feira, dezembro 19, 2007
segunda-feira, dezembro 17, 2007
Eu e Os Presidentes: uma comédia romântica

Passei a semana enrolado com este livro , mas não foi nada fácil. Sempre tive um fraquinho por Presidentes. O fetiche não é monolítico, nem me cega aos encantos do resto da Espécie: gosto de Reis, sou brejeiro com Caudilhos e quando passo por um Kaiser mais roliço na rua, também lhe lanço os mirones. Mas são os Presidentes que me deixam os joelhos a tremer e me fazem ouvir passarinhos.
Quando vi estes Presidentes na Fnac soube logo que estava em apuros. Não me atirei de cabeça, mas senti uma reciprocidade faiscante, indicativa de que os Presidentes também engraçaram comigo. Houve trocas de olhares, houve encostos furtivos; houve química. A corte foi curta. Os Presidentes estavam vulneráveis, vinham de uma relação tumultuosa (com o Stephen Graubard, que os escreveu), e acabei por sair com eles debaixo do braço ao fim de dois dias.
Há quem não goste de Presidentes. Os vice-presidentes não os suportam. Os monárquicos acham-nos feios. O Mencken desprezava-os: o seu Presidente favorito era Calvin Coolidge, que transformou o seu mandato numa longa e inócua siesta :«He had no ideas, and he was not a nuisance». (Mencken nunca teria votado em mim, já agora: ando com uma média de três horas de sono por dia, o que me transforma numa monumental nuisance).
Stephen Graubard é um caso mais complicado: ele gosta claramente de Presidentes, mas é aquele amor doentio, possessivo, fechado, que resulta frequentemente em violência doméstica. O seu ciúme é totalitário; os Presidentes, com ele, não têm autorização para se pintarem, nem para usarem decotes. Eu, mesmo nos momentos menos lúcidos, sei do que gosto nos meus Presidentes, e sou esteticamente tolerante (caracóis soltos, baton discreto, um bocadinho de perna à mostra). Graubard só os quer enrolados em sarapilheira, e a fazer ponto-cruz no quarto dos fundos.
Não é fácil abordar um livro assombrado por um passado tão problemático. Dei o meu melhor: passeei de mão dada com os Presidentes ao som de Elvis Costello, levei os Presidentes a jantar, fingi interesse nos seus problemas. Ouvi a história dos Presidentes com compaixão atenta. Fiquei ali sentado enquanto os Presidentes soluçavam e se atafulhavam daquela comida pós-moderna que não teve papá nem mamã. Graubard, explicaram-me eles, não tinha más intenções (já ouvi esta tantas vezes). Graubard era capaz de momentos doces, em privado. Graubard tinha uma teoria.
Graubard queria provar que é o Homem que molda o Cargo, e não o contrário. Graubard queria demonstrar que a pujança institucional - real e simbólica - da Presidência dos Estados Unidos sofre expansões ou contracções de acordo com a gravitas do seu ocupante, mas que o excesso de elasticidade sistémica, e a natureza intangível dos processos de evolução institucional, resultam numa tranferência de poderes para sucessores menos capazes. Graubard queria fazer tudo isto sem transformar o exercício numa prosaica procissão de heróis e vilões. Nesta linha, não se entusiasmou tanto como o raposão Paul Johnson, que, no seu espartilho revisionista – cujo recomendável programa era estilhaçar o mito de Camelot e a sua ressurreição Clintoniana – conseguiu transformar Nixon num mártir e Reagan num colosso intelectual. Graubard tem as suas preferências (Roosevelt I, Roosevelt II e Truman), nomeia os seus trapalhões (Harding e Eisenhower) e as suas nulidades (JFK, Carter e Bush I), mas consegue fazê-lo sem cair na histeria das claques sectárias.
Consideremos a seguinte salganhada semântica, do capítulo sobre Warren Harding:
«The first President born after the Civil War, in Blooming Grove, Ohio, the oldest of six children who survived, his middle name, Galamiel, chosen by his devoutly religious mother, reflected her pride in a son who could bear the name of the teacher of Saint Paul, noted for his tolerant and pacific nature.» Isto é um grand slam de prosa amnésica; a frase (que, dada a evidente falta de talento, devia ser três) vai-se esquecendo de si própria a caminho do ponto final.
As coisas pioram:
«These words, never heard by the American public, still shielded from such obscenities, learned only that the vice-president had bested the Soviet leader in their kitchen debate where the vice president, sweating profusely, went ‘toe-to-toe’ – Nixon’s words – with the chairman and scored impressively.» Aqui Graubard perde mesmo a compostura: não se devia fazer isto à língua inglesa, muito menos em público. Temos o dangling modifier, temos a repetição evitável, temos o despejo de clichés, temos os advérbios de modo penosamente mal escolhidos e mal colocados, temos a injecção de vernáculo com um apêndice ridículo. . . A única maneira de tornar esta frase mais feia seria enfiar-lhe uma peruca de palhaço e crescer-lhe um bigode.
sábado, dezembro 15, 2007
Badass Bible Verses para o fim-de-semana
(. . .)
Then the fire of the LORD fell, and consumed the burnt sacrifice, and the wood, and the stones, and the dust, and licked up the water that was in the trench. And when all the people saw it, they fell on their faces: and they said, The LORD, he is the God; the LORD, he is the God. And Elijah said unto them, Take the prophets of Baal; let not one of them escape. And they took them: and Elijah brought them down to the brook Kishon, and slew them there.»
(1 Kings 18: 24, 38-40)
That is how they used to do religious debates back in the day.
The situation was that people of Israel had taken to Baal worship, a faith that added a lot of whores to its rituals and thus gained immediate popularity. Elijah (not the one with the bears, that was Elisha) decided that the people had to choose between Baal and God.
Rather than write a series of books or give a bunch of boring speeches, Elijah invited 450 Baal prophets to a contest, where both sides would set up an animal sacrifice. Whichever God could rain down fire on its sacrifice would be the one everybody worshiped.
It's brilliant in its simplicity, and we're surprised religious debates were ever carried out any other way after that. You can raise all the intellectual challenges you want about faith and the origins of the universe, but at the end of the day, you have to worship the god who can set you on fire. It's common sense.
We like to think Elijah stood in front of the howling column of heavenly fire, straightened his robes, turned to the crowd and said, "Thus, my opponent's argument falls." Then, he finished the debate in the way that all debates should be finished: by having the losers slaughtered.
(Link recebido por mail, de um leitor irritantemente não-identificado)
Estes putos de hoje em dia
O combate entre Ali e Foreman no Zaire foi um ano antes desse épico em Manila.
Se desconhecias estes factos (que desconhecias), agradecia que não me voltasses a dirigir mails (só links).
Com esta parte concordo.
quarta-feira, dezembro 12, 2007
Blogues 2007 (com poucos links, senão nunca mais saía daqui)
David Lynch, Shimon Perez, um ringtone dos INXS, e um plano infalível para a paz no Médio Oriente (estou há aproximadamente 20 minutos a rir-me disto)
(É impressão minha ou isto é um remake da primeira palestra do Agente Cooper em Twin Peaks: "I am first going to tell you about Tibet"?. . .)
terça-feira, dezembro 11, 2007
Num zapping logo a seguir ao Porto-Besiktas, ouvi a seguinte frase na RTP2:
Podem dizer o que quiserem sobre a RTP2, mas não a podem acusar de não transmitir bons conselhos.
Tabletes de Chekhov
Não nego que seja um problema agudo, mas está tudo na escolha. As edições Excellence da Lindt fazem jus à etiqueta, e a sua célebre barra com 85% de cacau é talvez a melhor para entrar em contacto com antepassados através de visões. (Só recomendo atenção no processo, pois entrar em contacto com os antepassados de outra pessoa pode estragar-nos o sossego. Há quem jogue pelo seguro, e encomende a menos célebre barra com apenas 70% de cacau).
Depois temos a satânica sedução da Valrhona, marca que não consumo há mais de cinco anos, mas apenas por ter medo, muito medo. Em 2002, engoli uma mão cheia de rectângulos da linha Ampamakia, e andei dias seguidos a fugir aos Elder Gods, como um pobre académico de New England num conto de Lovecraft.
Para impulsionar a produção literária (e ignorando a patética sugestão do Coupland, claramente um amador nesta matéria) creio ser difícil bater a Chekhov Cherry Bar. A última que saboreei resultou num poderoso conto de 16 páginas passado numa dacha em Gursuf. Terminava com a frase: "Lá fora chovia", imagem que nunca me teria ocorrido sem o auxílio da Chekhov Cherry Bar.
Era o "El Calambre de Yeso", se faz favor
segunda-feira, dezembro 10, 2007
Melhore o Natal de um humilde fruticultor (II)

Shouting and smoking
Football in its purest, English, form is a joyous game of kick and rush with shouting and smoking. The rot started with the Scots, who invented passing. And since then every non-English nation on the planet has felt free to produce its own ethereal, acrobatic and even artistic version of a game that was never designed to be beautiful.
Our mistake was to try to play the foreigners at their version of our sport - culminating in the disastrous decision in 1950 to enter the World Cup, a competition clearly biased in favour of those teams that are best, rather than most English.
(O resto do texto - uma argumentação tongue-in-cheek para instalar Morrissey como seleccionador inglês - também se pode ler, mas a melhor parte é mesmo esta. Morrissey sempre foi um factor de desconforto para certas secções da imprensa britânica, e declarações recentes sobre a perda da identidade inglesa no caldeirãozito multicultural das ilhotas deram a muita gente, pelo menos na redacção do NME (esse órgão nada histérico), um pretexto mesquinho para o repudiarem publicamente. A rábula, com os seus elementos de armadilha, farsa e briguinha de pátio, seria ainda mais cómica caso não fizesse ressoar tantas sinetas deprimentemente familiares.
domingo, dezembro 09, 2007
Não ando a dormir nada bem
Equador
quinta-feira, dezembro 06, 2007
quarta-feira, dezembro 05, 2007
Há por aí uns blogues
- Este post tem-me causado imensos problemas, e estou a falar de problemas diários. Submeto-o a exegeses compulsivas; vejo lá coisas diferentes de um dia para o outro; faço perguntas a mim próprio (literalmente: falo sozinho); e estou a um passo de reescrever pierremenardicamente o Quixote com aquela frase como epígrafe.
- Outro blogue pouco conhecido, mas que urge começar a ser descoberto pelos portugueses, é o Estado Civil, cujo autor, inegavelmente talentoso (eu tenho olho para estas coisas), alimenta uma estranha e ternurenta fantasia pessoal de reabilitação de certas manifestações sonoras de Bob Dylan. Já não é a primeira vez que o apanho a reclamar de um misterioso degredo álbuns que, embora da fase não-consensual, são ouvidos e elogiados por quase toda a gente que conheço. Concordo que é preciso ter uma segurança retórica estratosférica para se começar a elogiar em público uma coisa como o, digamos, Knocked Out Loaded, mas daí a tratar o Oh Mercy como um gatinho abandonado que se trouxe para casa e se aconchegou num cobertor vai uma grande distância. E não me refiro apenas aos Dylanófilos; ainda na semana passada, a Dona Emília (minha vizinha do lado, que me empresta o carrinho de mão para acartar os citrinos menos pacientes, sempre que tenho de limpar o quintal), uma senhora pacata que é, na melhor das hipóteses, uma ouvinte ocasional de Dylan, me dizia: "Olhe, senhor Casanova, eu cá ouço quase tudo dessa fase, até o Down in the Groove, pela minha saúde. Agora, quando aquele mafarrico, benza-o Deus, me chamou o Don Was para produtor lá no Under-não-sei-das-quantas, só aí senhor Casanova - e está aqui o meu marido que não me deixa mentir - só aí é que lancei as mãos à cabeça e olhe, nunca mais consegui pegar naquilo".
«Most of the Time» não é apenas a melhor canção desse álbum: é uma das minhas preferidas da obra inteira. Se concordo que a letra é de difícil tradução, acho igualmente que vale a pena o esforço:
Grande parte do tempo
Com esta visão periférica
Grande parte do tempo
Tenho os chispes assentes na Terra esférica
Leio as tabuletas, conheço um atalho
Vou sempre a direito, até ir para o caralho
Mas cá vou andando, sem tropeçar
A gaja foi-se, mas estou-me a cagar
Grande parte do tempo
Grande parte do tempo
Só não vê isto um burgesso
Grande parte do tempo
Não estou para virar tudo do avesso
Aguento-me à bronca, no meio da confusão
Sou gajo para toda e qualquer situação
E sobrevivo, sou uma fera
Quero lá saber da megera
Grande parte do tempo
Grande parte do tempo
Sinto-me zen e tal
Grande parte do tempo
Não guardo cá ódios ao pessoal
Não sonho acordado até ir ao grego
Há para aí uns sacanas, mas para eles eu chego
Consigo ser simpático com a malta fatela
E já nem me lembro das beijocas dela
Grande parte do tempo
Grande parte do tempo
Tenho a carola em paz
Nem sequer a reconheço, palavra de honra
Deixei-a algures lá para trás
Grande parte do tempo
Já nem me lembro bem
Na questão do sexo oral
Quem fazia o quê a quem
Grande parte do tempo
Sinto-me bem, obrigado
Grande parte do tempo
Tenho este carnaval todo controlado
Não me engano a mim próprio
Não me escondo das cenas
Enterradas cá dentro, até são pequenas
Não há cá compromissos, já disse e repito
Não me interessa que ela ande com um nhónhó mais bonito
Grande parte do tempo
terça-feira, dezembro 04, 2007
Dona Chepa
But Dona Chepa doesn't merely fail to win. "Solidly last" is how her exercise rider describes her typical performance.
"You know what to expect," said her trainer, Efrain Nieves, adding that he has never been disappointed by her.»
(O resto está aqui)
The Sound of the Shell
Esforço, dedicação, devoção e slapstick
Há outro clube no mundo inteiro que desgalvanize desta maneira as respostas emocionais dos seus adeptos? Não há. Este clube dá-nos tudo, mas para sofrer temos de ir a outro lado.sábado, dezembro 01, 2007
Strawberries with sugar

O melhor livro do ano - no sentido restrito em que me tem divertido bastante esta semana - apresenta-se com este pavoroso título: The New Kings of Nonfiction. (Seria menos mau se viesse a lançar um novo modelo para baptizar antologias: The Proud Presidents of Pansy Poetry, The Shit Sheriffs of the Short-Story, etc). Custa 14 euros e meio, e pode ser adquirido na Almedina, um facto, por si só, quase miraculoso. A política de preços do plantel Almedinense é notoriamente esotérica, e as esporádicas pérolas que se vão encontrando naquelas prateleiras costumam estar incluídas em duas categorias muito específicas: o "Se-Quiser-A-Gente-Paga-lhe-Para-Levar-Isto" (já lá vi um livro da Routledge mais barato do que um pacote de farelos), ou o "Declare-Aqui-A-Sua-Bancarrota" (como é o caso do The Penguin Guide to Blues Recordings, disponível na Amazon por menos de 15 libras, mas cuja etiqueta lusa anunciava uma quantia menos parecida com o preço de um livro do que com o Produto Interno Bruto do Canadá. Adiante).
O livrinho em questão, organizado por Ira Glass, recolhe algumas peças de reportagem literária publicadas na última década nas melhores revistas do mundo, que são, como se sabe, quase todas americanas. Alguns dos nomes são conhecidos (David Foster Wallace, Malcolm Gladwell, Susan Orlean, Bill Bufford), outros nem por isso, mas a qualidade é uniforme.
A jóia da coroa é provavelmente o longo artigo de Michael Lewis para o New York Times sobre Jonathan Lebed. Quem é Jonathan Lebed? - pergunta o leitor, visivelmente desanimado. Lebed era, em 1999, um jovem de 14 anos. E, na idade em que muitos de nós passávamos as tardes a telefonar para a Vera Roquete, Lebed digeria quatro horas diárias de Canal Bloomberg. E achou tudo aquilo muito interessante. Munido apenas de um e-mail da AOL, uma conta-poupança aberta pelos pais, e uma insólita estrutura de apoio (já lá vamos), quase levou o sistema capitalista a um colapso nervoso.
Em cinco meses lucrou cerca de oitocentos mil dólares, colocou em causa os fundamentos do mercado de capitais e levou às fronteiras da apoplexia vários membros da SEC (Securities and Exchange Commission, entidade reguladora destas coisas nos Estados Unidos). Lebed foi acusado de influenciar artificialmente o preço das acções de inúmeras companhias, mas o caso acabou por nunca ir a tribunal, em parte porque a SEC se apercebeu que seria complicado provar que o que Lebed fazia era ilegal sem fazer ruir todo o edifício pelos alicerces.
Os melhores parágrafos da peça, contudo, são os dedicados à voz do rapaz, que rapidamente denunciam uma oleada (e potencialmente oleosa) máquina de fazer sentido. Isto é o próprio, na primeira pessoa - e volto a relembrar que a primeira pessoa em questão tinha nesta altura mais borbulhas do que anos de calendário:
«I was going over some old press releases about different companies. The best performing stock in 1999 on the Nasdaq was Qualcomm (QCOM). QCOM was up around 2000% for the year. On December 29th of last year, even after QCOM's run from 25 to 500, Paine Webber analyst Walter Piecky came out and issued a buy rating on QCOM with a target price of 1,000. QCOM finished the day up 156 to 662. There was nothing fundamentally that would make QCOM worth 1,000. There is no way that a company with sales under $4 billion, should be worth hundreds of billions. . . . QCOM has now fallen from 800 to under 300. It is no longer the hot play with all of the attention. Many people were able to successfully time QCOM and make a lot of money. The ones who had bad timing on QCOM, lost a lot of money.
People who trade stocks, trade based on what they feel will move and they can trade for profit. Nobody makes investment decisions based on reading financial filings. Whether a company is making millions or losing millions, it has no impact on the price of the stock. Whether it is analysts, brokers, advisors, Internet traders, or the companies, everybody is manipulating the market. If it wasn't for everybody manipulating the market, there wouldn't be a stock market at all. . . .''
Melhor ainda é a resposta às acusações de que certos e-mails seus postados publicamente num fórum da Yahoo, e contendo elogios a companhias das quais ele próprio era accionista, teriam "manipulado artificialmente o mercado":
«Every morning I watch Shop at Home, a show on cable television that sells such products as baseball cards, coins and electronics. Don West, the host of the show, always says things like, 'This is one of the best deals in the history of Shop at Home! This is a no-brainer folks! This is absolutely unbelievable, congratulations to everybody who got in on this! Folks, you got to get in on the line, this is a gift, I just can't believe this!' There is absolutely nothing wrong with him making quotes such as those. As long as he isn't lying about the condition of a baseball card or lying about how large a television is, he isn't committing any kind of a crime. The same thing applies to people who discuss stocks.»
* * *
Quantos membros da minha geração, nas suas gincanas sociais historicamente circunscritas entre recordes de pontos no Golden Axe, colossais arquitecturas de legos, obsessões semi-privadas com as sobrancelhas da Helena Ramos e discussões sobre os méritos relativos de Use Your Illusion vol. 1 versus Use Your Illusion vol. 2, quantos membros da geração de 80, dizia, tiveram percursos adolescentes merecedores de quinze mil palavras no New York Times?
O factor mais intrigante no artigo é um que obriga a reformular esta questão: quantos de nós tivémos um amigo como Jonathan Lebed? Pessoalmente, nunca tive um amigo como Jonathan Lebed; se o tivesse tido, isso não teria feito diferença nenhuma, pois ainda hoje não sou capaz de identificar uma boa dica de investimento, mesmo que ela caia no meu quintal ao lado do marmeleiro. Mas Jonathan Lebed tinha amigos como Jonathan Lebed, e isso fez toda a diferença do mundo.
Para perceber o que o tornou possível, e sem injectar um mililitro de determinismo na história, é importante notar que ele não representou uma mera explosão de talento num vácuo suburbano. Os pioneiros, seja em que área for, podem perfeitamente estilhaçar paradigmas no escuro, mas dá sempre jeito ter uma câmara de eco para testar o equipamento. Quando comecei a ler o artigo julguei (erradamente) que iria encontrar um protagonista familiar e rapidamente identificável: o idiot savant, com um cérebro colossal mas cheio de cavidades autistas, brilhante mas incapaz de atar os próprios sapatos, a babar-se num quarto escuro por cima de um teclado (ou de um tubo de ensaio, ou de um tabuleiro de xadrês, enfim. . .) e a reescrever a realidade às apalpadelas. Mas tornou-se gradualmente aparente que o protagonista da história não é tanto Jonathan Lebed como o Liceu de Cedar Grove em New Jersey, onde, num curto período de tempo entre 1999 e 2001, aproximadamente um terço da população estudantil (e alguns docentes que apanharam o comboio em movimento) passava as horas vagas a comprar e vender companhias:
«[Jonathan's] crowd of friends at Cedar Grove High School, most of whom owned pieces of Internet businesses and all of whom speculated in the stock market. ''There are three groups of kids in our school,'' one of them explained to me. ''There's the jocks, there's the druggies and there's us -- the more business oriented. The jocks and the druggies respect what we do. At first, a lot of the kids are, like, What are you doing? But once kids see money, they get excited.'' (. . .)»
A estrutura social de um liceu não é apenas uma estrutura de integração ou exclusão - pode ser também uma estrutura de capacitação, e servir para aglutinar intuições afortunadamente semelhantes, numa idade formativa. É por isso que os parâmetros que medem a qualidade de um estabelecimento de ensino são sempre reducionistas se se limitarem à qualidade dos recursos óbvios e tangíveis. Aqueles são os anos em que gravitamos na direcção de personalidades e interesses que espelhem e moldem os nossos, e em que começamos a construir pela base as redes sociais que nos vão sustentar na vida adulta. Uma boa escola, idealmente, não permite apenas o acesso a um bom professor e a uma boa biblioteca; deve permitir também o acesso a um bom recreio. Se não o encontramos - ou se temos o azar de estudar num liceu como o dos Morangos com Açúcar, onde as categorias disponíveis são "betos" e "motards" (isto era de uma série anterior, mas the point stands, em Cascais ou na Marmeleira) as perspectivas são reduzidas. Não eliminadas, como provam todos os génios socialmente equilibrados que nasceram e cresceram no Bronx ou no Prior Velho (eu conheço um), mas drasticamente reduzidas.
Os amigos de Jonathan Lebed não duplicaram o seu rasgo, mas compreenderam-no, e souberam gerir as consequências. Um dos cavalos de batalha da SEC tinha sido a noção de que a irresponsabilidade de Lebed causara males reais, com "vítimas" de carne e osso, algo que ressoa na cabeça do jornalista algumas páginas depois, quando descobre que Keith (16 anos, um dos amigos mais próximos de Jonathan) perdera dinheiro numa companhia chamada West Coast Video, depois de Jonathan ter saído da jogada: ''You're Jonathan's victim.'' A resposta é epigramática: ''Nah,'' Keith said. ''In the stock market, you go in knowing you can lose. We were just doing what Jon was doing, but not doing as good a job at it.''
Façam um favor a vocês próprios e comprem o livro: não há uma única página aborrecida. Sempre a pensar em vocês, tomei a liberdade de esconder os três exemplares que ficaram na Almedina debaixo do Penguin Guide to Blues Recordings.
Se é que aprendi alguma coisa esta semana sobre como "manipular artificialmente o mercado", aposto que ainda ninguém lhes mexeu.
(Jonathan Lebed, hoje um milionário de 22 anos, tem uma página online com dicas de investimento. Não é tão divertido como ir ver as pilecas a Newmarket, mas quem quiser pode espreitá-la aqui.)
(Adenda: O Filipe Guerra leu um post qualquer noutra galáxia e, por motivos não aparentes, linkou este. Ou então leu mesmo este, mas em braille defeituoso, ou numa tradução do babelfish.
Também é preciso ter em conta que tropeçar nas palavras "América" e "dinheiro" assim, logo de manhã, é suficiente para estragar o resto do dia a qualquer pessoa de bem.)
sexta-feira, novembro 30, 2007
Bota de ouro

O simplesmente genial Rui Miguel Tovar, no Record de hoje (juro, está na página 42). Ignoremos os autogolos gramaticais e concentremo-nos no essencial: aquele prodigioso golpe de casting revisionista.
quinta-feira, novembro 29, 2007
Se isto não é a canção do ano, não sei qual será a canção do ano
Sonic Youth - «I'm Not There»
(p.s. 1: O Lifelogger é realmente muito prático e amistoso. Agradecimentos a todos os que o recomendaram, em especial ao Irmão Lúcia, a quem só faltou explicar-me todo o processo com bonifrates e lápis de cera.)
(p.s. 2: E vocês aí, não me metam em sarilhos, por favor. Já deixei queimar um arroz de pato por me ter distraído a pensar nessa brincadeira. A minha primeira reacção foi a óbvia: numa quinella irlandesa seria indiferente a ordem dos dois cavalos na aposta, que é uma each-way efectiva sem o mesmo investimento. Mas a maneira como a pergunta é formulada torna esta resposta um bocadinho ridícula. O que se pretende é um benefício objectivo de apostar num cavalo que se sabe não ter hipóteses - independentemente de a aposta ser win-win, de lugar ou each-way. E no sistema parimutuel, isto só faz sentido se envolver um esquema daqueles praticados por mafiosos das Midlands, cujo nome é quase sempre Robbie ou Dave, e cujas unhas são quase sempre da mesma cor dos sapatos. Por exemplo, apostando maquias avulsas a intervalos irregulares nas cabines da pista para inflacionar artificialmente o preço de um cavalo manco e vesgo - aproveitando depois as ofertas daltónicas das grandes agências off-track, que monitorizam o galope das cotações de pista de uma forma surpreendentemente superficial, e cuja preocupação com oscilações súbitas é subordinada à preocupação de poder continuar a prometer aos seus clientes percentagens idênticas sem o peso da breakage. Quer-me parecer que este hipotético esquema teria maiores probabilidades de sucesso antes do advento das betting exchanges online, mas neste ponto, como em tantos outros, é perfeitamente plausível que esteja a dizer um grande disparate, até porque a questão original pode partir de uma idiossincrasia do sistema de apostas americano que desconheça por completo. Parece-me igualmente pertinente salientar que eu agora me dedico mais à fruta.)
A sul do Tejo nem a natureza funciona
segunda-feira, novembro 26, 2007
Tenham a bondade de me auxiliar
Dos benefícios criativos da escritura de compra e venda
- Gore Vidal, "The Golden Bowl of Henry James"
(Larga lá a volumetria: pelos meus cálculos, tens uma janela de 3 meses para completar projectos estagnados.)
sábado, novembro 24, 2007
quinta-feira, novembro 22, 2007
Efficiency, efficiency they say
(Isto é tão, mas tão bom, que uma pessoa até lhe perdoa ter começado a trocar alguns dos soberbos "la-las" do refrão original por uns desleixados "na-nas". Será da idade? Possivelmente. E se o pior que a velhice nos reserva é começarmos a trocar "la-las" por "na-nas" podemos dar-nos todos por satisfeitos. John Cale é deste planeta e nós também: é preciso ter sorte.)
Barzã
(Já agora, o centenário é este mês.)



