quinta-feira, janeiro 10, 2008

Thing fall apart



(Led Zeppelin, «It's a Stairway alright, but it doesn't lead where you think»)

Confrontado com situações que me fazem perder a fé, o que normalmente costumo fazer é tocar discos dos Led Zeppelin de trás para a frente, à escuta de mensagens satânicas. Foi o que fiz ontem à noite. As vozes disseram-me para eu interromper o blogue até o Sporting voltar a ganhar um jogo, e eu vou fazer o que as vozes me dizem. A caixa de comentários fica aberta. Tema livre.

(pssst, pssst)

terça-feira, janeiro 08, 2008

Exclusivo: Jerry Seinfeld defende Tiago Mendes

«If you read History, many of the three-name people do become assassins».

A Daucus carota dentro de cada um de nós

As Ciências Sociais são, por fama e proveito, um repositório de má prosa. As excepções à regra (que, em abono da verdade, também não são assim tão raras) costumam estar incluídas em uma de duas categorias: ou os pioneiros, que se anteciparam ao enrodilhanço conceptual e terminológico que eles próprios ajudaram a criar (Marx, por exemplo, que escrevia transtornantemente bem, o sacana); ou os casos extremos de vocação cancelada, como Geertz, que possuem o talento, o humor, e leveza de toque necessários para utilizarem o léxico disciplinar sem serem utilizados por ele, nem caírem na taralhoquice retórica.
José Machado Pais, investigador-coordenador no ICS e um homem bastante mais calvo do que eu, não que isso seja relevante para esta discussão, não cai em nenhuma dessas categorias. Seria incorrecto vir aqui chamar nomes feios à sua prosa (acima de tudo porque Quem sou eu?, não é verdade, além de um diletante com muito mais cabelo que ele), mas proporciona os melhores exemplos que conheço de um maneirismo bastante comum: o abuso impiedoso da metáfora. Quando percebe um quadro metafórico que o titila, Machado Pais nunca mais o larga. Se, para iluminar um qualquer fenómeno social, decide recorrer a uma analogia com uma fábrica de tintas, então o leitor pode estar certo de que, vinte parágrafos e trinta suspiros depois, ainda vai haver baldes da Robialac espalhados pela página.
No seu "Paradigmas sociológicos na análise da vida quotidiana", que tenho andado a ler por manifesta falta de vida quotidiana própria, detectamos um certo calorzinho pela classe dos insectos. E se, a dada altura, aprendemos que «as interpretações possíveis formigam através de perspectivas e discursos que, apesar de tudo, as disciplinam» então não seremos de todo surpreendidos quando, pouco depois, Machado Pais nos fala «desse formigueiro de interpretações», ou, ainda mais tarde, das «formigas à procura do retórico». Não do açúcar, mas do «retórico». E para que a flora não se sinta retoricamente desenfranchisada em relação à fauna, Machado Pais debruca-se depois sobre as raízes. De que é que se fala? De «delimitar um reportório fixo e simples de aspirações últimas em cuja realização se estimula o conformismo». Qual é a metáfora? Uma de Rubert de Ventós: «um asno anda sempre atrás de uma cenoura com que lhe acenem, mas detém-se frente a um campo cheio delas». Como é que se pode melhorar isto? «Daí a necessidade de redescobrir a cenoura interior». Uma estratégia retórica que permite proceder por iluminação gradual transforma-se assim numa involuntária redução ao absurdo. Pelo menos creio que é involuntária. Nunca se sabe, com este pessoal das cenouras interiores.

Lost in frustration



Não sei, também não fiquei nada convencido.

«I seem to be leaking. But I have this rare bladder condition. OK?»
«I Hailed to the Thief. But I think In Rainbows was a piss take. OK?»
«I saw two nuns kissing. But I'm trying to be mature about it. OK?»
«I feel like conceiving. But I lost both my nuts in Da Nang. OK?»
«My kitchen needs cleaning. But I'm not pressuring you into it. OK?»
«I'm sorry to be wheezing. But I've been smoking Camels since birth. OK?»


Não sei, não sei.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

Os leitores do Abrupto não escrevem coisas assim

LB said...
Um preto a fazer surf é coisa que não vê todos os dias, até porque eles têm um medo instintivo da água. E o nome soa demasiado a Obama Bin Laden. Teria mais sorte se se chamasse Zippy Chippy.
14:58

Anónimo said...
ó lb pensa que o surf é uma velha tradição nórdica?
18:57

LB
said...
Claro. Quem não conhece o grande big wave rider do século IX, Haklang Skáldaspillir Rauða?
12:53

dude said...
Toda a gente sabe que o Haklang Skáldaspillir Rauða era do bodyboard.
15:37

cj
said...
Quanto ao surf, têm os dois uma certa razão, já que o dito desporto teve como principal impulsionador Duke Paoa Kahanamoku (havaiano), quando foi campeão olímpico de natação nos jogos olímpicos de... Estocolmo e se assumiu como surfista (um sair do armário, à época)
18:51

Vas Copulido said...
(. . .) Vou agora dedicar-me a estudar a biografia do senhor Haklang Skáldaspillir Rauða. O comentário deixado por cj recordou-me um trabalho dos tempos de juventude, sobre a vida e obra de Gunnlæif Ingulbjörn Viðförla, essa figura mítica que lançou as bases do que hoje conhecemos como kitesurf e também ele nadador olímpico nos Jogos de Estocolmo e que mais tarde veio a ser vereador da cultura em Harstad, Ostergötland. Faleceu em 1972, infelizmente.
20:13

cj
said...
Obviamente com o contributo do seu discípulo, muitas vezes esquecido, Æskil Iogæir Sturlubók, cujo fim foi bem mais enigmático, ao decidir deambular pelas ilhas do pacífico sul em busca do aperfeiçoamento da adaptação da vela à prancha e, ao que consta, muito próximo de Marcel Mauss, tendo influência, inclusive, na observação do potlatch e na teoria da troca desenvolvida pelo citado, que deu origem ao famoso ensaio sobre a dádiva.Regressou depois à Europa com este, vivendo os seus últimos dias em Saint-Tropez, com graves perturbações psíquicas, derivadas do uso prolongado do chá de um cacto alucinogénico das ilhas, mas de modo confortável, já que uma velha baronesa se apaixonou pelas suas aventuras e, não tendo herdeiros lhe deixou em herança a sua fortuna, a qual foi doada, em 1977, ano da sua morte, a Gilbertus Panhuise, que obteve a patente, usando uma prancha de windsurf.
22:59

Talvez o blogue com o melhor conjunto de caracteres da blogosfera

Doce mentor ranhoso, Seu cantor medonho, Senhor conde maroto, o libidinosamente burocrático Hormonas no decreto, e podia ficar aqui o resto da noite, mas tenho uma posta de salmão no meu George Foreman Grill (fabuloso, e muito fácil de limpar: basta atirar com um pano encharcado lá para cima, e recolhê-lo na manhã seguinte; é por prodígios tecnológicos como este que devemos continuar a subsidiar os cientistas e investigadores).
Já o do Zé Mário tem bês a mais. Os estranhamente monotemáticos «Tia! Bebi o licor de Babel!» e «Bobó! Bebi leite radical!» foram mesmo o melhor que consegui arranjar. Bobó, de seu nome completo Mamadu Bobó Djalo era um antigo médio do Boavista. Creio que desempenha actualmente funções na equipa técnica do mesmo clube, mas não tenho a certeza.

Eu no fundo até nem sou má pessoa




(Dedicado à minha tolerante prima Ana, a quem me esqueci de comprar prenda de Natal)

Juro que não fui eu quem começou o boato

Nesta página antiga da CNN, se forem andando para baixo até à secção "Related sites", encontrarão um muito sugestivo (e ominosamente inactivo) link para «Who Is Thomas Pynchon... Thomas Pynchon: Casanova?»

Publikumsbeschimpfung

«Só provincianos ou apedeutas se impressionam com quem escreve para impressionar.»

(João "offending the audience" Coutinho)

domingo, janeiro 06, 2008

"Arranja um emprego"


Existe um espaço no Second Life dedicado a Pierre Bourdieu. Tanto quanto sei, ainda não existe nenhum dedicado a Luiz Pacheco, um homem simples e regrado, que morreu ontem, creio que pela primeira vez, e que, tal como eu, classificava os amigos em categorias muito pertinentes (cf. "O Homem que Calculava" in Exercícios de Estilo).
Um apartamento alugado, um senhorio escrupuloso, e um bairro virtual, com um elevado índice de magalas e criaditas, é o mínimo que ele merece.

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Surf or nap?















(Apontamentos extraordinariamente úteis sobre o quiz de Vasco Pulido Valente: duas das citações (a de Vespasiano e a de Catão, o Velho) vêm no Suetónio; creio que a forma correcta é "sheep's clothing" e não "sheep's clothings"; o Catch-22 é muito menos engraçado do que julguei; Hans Johst tem as costas muito estreitas; tirando a do Candide, não consegui identificar nenhuma das citações em francês ("nem a do Madame Bovary??", como perguntou incredulamente um amigo irritante); não sei quem é o S. M. que foi comer uma merenda a Belém, mas se foi ao cafézinho em que eu estou a pensar, cometeu um grande erro.
A longo prazo, tendo a aborrecer-me com os políticos que me entusiasmam, e a entusiasmar-me com os que me aborrecem.)

Black Narcissus


(Porn poker: I see your lipstick and I'll raise you a Bible)

Já não se pode fumar na Cinemateca, mas ainda se pode escrever nas paredes da casa-de-banho. Em boa verdade, não entrava na casa-de-banho da Cinemateca para aí desde o ano 2000, e houve uma remodelação pelo meio. Creio que foi em 1999, numa maratona que incluiu o Nosferatu do Murnau, que tive a brilhante brilhante ideia de escrever REDRUM por cima dos urinóis, a caneta de feltro vermelha. (Fui um adolescente adorável, criativo, empreendedor, mas juro que não sei porque é que andava com canetas de feltro nos bolsos). De qualquer maneira, apraz-me revelar que a tradição foi mantida, se bem que, infelizmente, por alguém pouco dado ao feng shui Kubrickiano: o REDRUM actual encontra-se - num horrível azul-bebé, e com apenas metade das letras invertidas - numa parede perpendicular ao espelho, o que destrói totalmente o efeito pretendido.
Sobre o Black Narcissus propriamente dito é que este post não é, mas sobre isso já não há nada a fazer.

Claxon

(Um leitor parcialmente identificado teve a amabilidade de me enviar a imagem que faltava a um post ali em baixo. Não sendo fácil resistir à tentação de voltar a mencionar James Wood, cabe-me informar que um princípio ideológico normalmente não-negociável vai ser subvertido e que, nos próximos meses, vai vigorar neste blogue um sistema de quotas: James Wood vai ter direito, no máximo, a três citações mensais, e o Julinho a duas. Estas não contam; e se deixasse isto à mão invisível, acabava por não citar mais ninguém. Entretanto, esta campa deve estar neste momento a ser palco de incrédulas e acrobáticas contorções, mas isso é outro post, certamente, e não este. Tenho de começar a pôr ordem nisto dos posts.)

terça-feira, janeiro 01, 2008

Isaac, the tailor

Por motivos que, na imortal formulação de Valdemar Duarte na Rádio Renascença, não vale a pena estar agora aqui a escalpelizar, passei a noite de ano novo no meu sofá, a beber ice-tea da Lipton, e a comer amendoins. (Os líquidos e salgadinhos consumidos no resto da casa também não vão ser agora aqui escalpelizados). Nada diz "réveillon" como três horas de sobriedade.
Houve sobriedade em abundância na RTP2, que passou a versão heterossexual de Brokeback Mountain, também conhecida pelo título original As Pontes de Madison County. Ao longo de um interminável flashback, foi sobriamente demonstrado que Meryl Streep era uma mulher e que Clint Eastwood era um homem. Nenhum deles era um cowboy hermafrodita alcoólico, facto que teria porventura resultado num filme mais imprevisível.
A RTP1 decidiu inovar. O conceito era "comédia em directo". Os executantes eram os Gato Fedorento. O shtick era "réveillon dos anos 80". Precedendo o programa propriamente dito, um especial de 45 minutos revelou a cornucópia de meios técnicos necessários para que "a comédia" pudesse acontecer "em directo". Um operador de câmara confidenciou à repórter de serviço que o seu equipamento tinha uma extensão de nove metros e pesava uma tonelada, mas disse-o num tom demasiado sóbrio para o efeito brejeiro desejado.
Grande parte do impacto inovador foi amortecido pela espionagem industrial da SIC e da TVI, que decidiram também elas transmitir em directo programas de humor com uma forte atmosfera anos-80, traiçoeiramente camuflados de concursos do século XXI. Se os Gatos tinham na manga um trunfo internacional chamado Sabrina (uma irónica e pós-moderna referência cultural para pessoas com 3 ou 4 anos a mais que eu), a TVI sacou de um astro chamado Isaac Alfaiate, um jovem saído de um conto de Bernard Malamud, que rapidamente se impôs como a grande estrela da noite.
Presos a um formato que não os beneficia (o sofá, e falo por experiência, não potencia a excelência criativa), os Gatos fizeram o seu melhor, mas a imaginação por detrás dos sketches da TVI era claramente superior. Isaac Alfaiate, ainda assombrado por memórias de Buchenwald, e acompanhado por outro personagem de nome "João Cajuda", lançou-se numa elaborada rotina chamada "Cama Elástica", que consistia em estar aproximadamente oito minutos aos saltos em cima de uma cama elástica. Júlia Pinheiro tentou pôr as coisas em perspectiva: "Já alguma vez tinhas saltado em cima de uma cama elástica?" "Não, nunca", confessou Isaac. "De uma cama normal já, mas de uma cama elástica, nunca". "Como é que foi?", perguntou Júlia, curiosa. "Não tenho palavras", explicou Isaac, eloquente.
A escassez de palavras era, aliás, generalizada. Na SIC, onde, pelo que consegui perceber, três famílias (Cardoso, Azevedo e Adams) testavam novos métodos de interrogação para a CIA, o problema era ainda mais sério. Os membros do júri indicavam constantemente, através de palavras, que não tinham palavras para descrever o que sentiam. Bárbara Guimarães, cuja capacidade para improvisar em directo faz Júlia Pinheiro parecer o Johnny Carson, bem insistia, mas ninguém era capaz de produzir as palavras que a situação merecia. Tozé Brito encolhia os ombros e dizia que não tinha palavras. As sobrancelhas de Tozé Brito, duas entidades autónomas que mereciam o seu próprio filme de David Lynch, contorciam-se silenciosamente. Clara de Sousa confessou também ela ter sido separada das suas palavras. A situação só não era desesperante porque, do outro lado de Lisboa, Júlia Pinheiro, em plena hemorragia lexical, produzia correntes ternárias de palavras para aplicar a qualquer coisa que lhe passasse pela frente. Um passo de dança não era apenas "belíssimo"; era "belíssimo", "mágico" e "poderoso". Um vestido não era apenas "belíssimo"; era "belíssimo", "magnífico" e "poderoso". Isaac Alfaiate, cujo talento apenas posso descrever como soberbo, inquestionável e poderoso, regressou ao palco acompanhado por uma rapariga chamada Magali, para uma rotina chamada "Salsa", que consistia em parodiar os passos de dança habitualmente associados à Salsa. Isaac, que é filho de um merceeiro judeu de Newark que deve dinheiro ao seu senhorio gentio, agarrou em dois dos membros de Magali e fingiu arremessá-la com violência na direcção do palco. Magali fechou os olhos e sorriu, o seu rosto rodopiando a centímetros do chão, perante o olhar aprovador do noivo, que se encontrava na audiência, e que a deve ter achado mais do que preparada para a vida conjugal.
Na SIC, a família Azevedo celebrava efusivamente o que assumo ter sido a sua vitória. Receberam cinquenta mil euros e foram logo enfiados num Hércules C-130 para Langley, Virginia, onde têm um briefing às mil e seiscentas horas. Abu Ghraib treme. Uma comovida Bárbara Guimarães anunciou que Camilo Castelo Branco iria cantar "Diamonds Are a Girl's Best Friends"; meros segundos depois, José Castelo Branco cantou "Diamonds Are Forever". Luisa Castelo Branco podia ter cantado "Diamond Dogs", mas estava na TVI, frustradíssima com a língua portuguesa. Isaac Alfaiate, com o olhar perdido no horizonte, pensava na sua infância remota, num shtetl lituano. Magali venceu e foi autorizada a casar-se com o noivo, ali mesmo, em directo. Os derrotados vão ter de passar pela vergonha e ostracismo social associados a um mero casamento com transmissão em diferido. 2008, segundo a opinião consensual, vai ser "excelente", "espectacular" e "poderoso". 2008 está já aqui. Não há palavras para o que vai ser 2008.

sábado, dezembro 29, 2007

Agradeço a P. o seu negrito, mas também

Bom, se fosse um teste, vocês tinham falhado. É claro que não foi ao James Wood que cresceu uma vulva no abdómen (post anterior). O crítico literário da New Yorker não anda por aí com vulvas no abdómen. Referia-me, naturalmente, ao actor James Woods, que se pode ver abaixo, enfiando a mão enfim, de uma forma que só alguém muito cínico poderia descrever como "fazendo crítica literária para a New Yorker":



O verdadeiro James Wood é este senhor_


_ que nesta imagem específica foi apanhado a fazer, não crítica literária para a New Yorker, mas sim uma mímica quase-perfeita daquele actor português que interpretou o detective privado Claxon, e que também entrou no Major Alvega. Graças à IMDb, descobri que o senhor se chama António Cordeiro, informação que se viria a revelar inútil na demanda de uma imagem sua de tamanho blogável. A introdução dos termos de busca "António Cordeiro" no Google Images levou-me à página da cidade brasileira de Congonhas, a um site sobre Antonio Gramsci, e a inúmeras ilustrações de modelismo náutico, mas, para grande desilusão minha, a nenhum retrato icónico de António Cordeiro, de sobretudo e fedora cinzento, "fazendo crítica literária para a New Yorker" na personagem de Margarida Reis.
Tudo isto é grave, mas não tão grave como a inconsistência gráfica que rodeia o nome "Rogério Casanova". Se as pessoas insistem em não colocar aspas à minha volta (o que acho inconcebível), o mínimo que podiam fazer era mostrar um bocadinho de criatividade; como o Lourenço, por exemplo, que insiste em chamar-me Rodrigo Casanova (sem aspas, mas com dignidade). Uma excelente passagem de ano para ele, e para todos vós, são os meus votos, diria, quase ardentes.

(Por falar em Lourenços: o Claxon não é um primo afastado, não?)

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Cold turkey



Gosto muito de David Cronenberg. Sempre gostei, mais até do que seria razoável gostar de qualquer canadiano (atravesso um problema semelhante com algumas bandas recentes). E todos aqueles que, como eu, encontram pacatas epifanias em metáforas toxicológicas, já devem ter reparado no seguinte: Cronenberg é um canadiano que, artisticamente falando, não se mete nas drogas. O que nunca impediu alguns dos seus filmes mais antigos de serem descritos como "alucinatórios", como se o homem andasse por aí a impingir ácido às crianças
Quando o abdómen de James Wood se transforma numa vulva para ler VHS, ou a máquina de escrever de Peter Weller começa a mexer as antenas e a falar, não estamos no meio do deserto com os xamãs de Oliver Stone, nem sequer no domínio lúdico do "surreal" (outro termo crítico tão escorregadio que é impossível agarrá-lo sem expor o derrière aos sodomitas semânticos), mas sim numa espécie de realidade intensificada. Nas mãos de outro realizador, essas cenas seriam fragmentos etéreos, observados ao ralenti, através de uma névoa de mescalina. Cronenberg arregaça as pálpebras e salpica tudo com diluente. Se há uma analogia tóxica a utilizar, esta não envolve drops ou cogumelos, mas sim o processo de desintoxicação. A imaginação visual de Cronenberg sempre foi a do ex-alcoólico: aquele que não toca numa gota há anos, e cujos sentidos assimilam tudo com a clareza suja da privação. Isto, pelo menos, é a maneira como as coisas se me afiguram nesta quadra festiva.
Eastern Promises, apesar do meticuloso esforço de Vincent Cassell para estragar todas as cenas em que entra, é um grande filme. Aquele fotograma, que encontrei por pura sorte num site francês, é da minha sequência preferida, a primeira visita da enfermeira ao restaurante. É um momentozinho de nada, antes das tatuagens à Caravaggio, da gorjeta iconográfica, do wrestling na sauna: a caminho da cozinha, o personagem de Mueller-Stahl faz uma pausa para corrigir o ensaio musical das duas crianças, e Naomi Watts fica ali especada no enquadramento, à vontade uns trinta segundos, alheada da cena, sem sequer representar.
Naomi Watts a fazer de figurante enquanto um mafioso careca de avental toca violino: isto sim, é cinema. Ou, pelo menos, é a maneira como as coisas se me afiguram nesta quadra festiva.

Ali v Frazier

«(. . .) the feud is escalating into philosophy's equivalent of a prize fight between two former colleagues who are both among the showiest brawlers in the philosophy dojo. In one corner is McGinn, 57, West Hartlepool-born professor of philosophy at the University of Miami, and the self-styled hard man of philosophy book reviewing. In the other corner is Honderich, 74, Ontario-born Grote Professor Emeritus of the philosophy of mind and logic at University College London, and a man once described by fellow philosopher Roger Scruton as the "thinking man's unthinking man". They are using all the modern weapons at their disposal - blogs, emails, demands for compensation from the academic journal that published the original review, an online counter-review, and an online counter-counter-review.
The heart of their dispute, though, may not be over intellectual matters at all, but about something one of them said more than a quarter of a century ago about the other's ex-girlfriend (of which more later).»


O resto aqui.

E o vosso Natal, como foi?

Eu levei a minha mãe ao Saldanha Residence, para ver o último filme do Cronenberg.

Lavem as mãos, infiéis!

terça-feira, dezembro 25, 2007

Almanaque (2)

Almanaque (1)

"a bola já não chega de uma baliza à outra"

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Discos do ano (1)




The National, "Slow Show"

domingo, dezembro 23, 2007

Discos do ano (2)




Yo La Tengo, «Fourth Time Around»

Discos do ano (3)




Arcade Fire, «The Well and the Lighthouse»

Discos do ano (4)





Thurston Moore, «Fri./End»

Discos do ano (5)















Mariee Sioux, «Wizard Flurry Home»

Discos do ano (6)




Iron and Wine, «Pagan Angel and a Borrowed Car»

Discos do ano (7)





Panda Bear, «Comfy in Nautica»

Seis euros e meio


«Miss Obrestad's route to the grand prize - dumped on the final table in bundles of $50 notes, as in the World Series tradition - required her to see off such modern-day poker luminaries as Chris "Jesus" Ferguson, a hirsute scholar of game theory, Dave "Devilfish" Ulliott, a somewhat less cerebral but wily British professional who wears diamond-encrusted knuckle-dusters, and Phil "Poker Brat" Hellmuth, arguably the most celebrated (not least by himself) modern player.»

("Poker: A big deal")


«The captive panda breeding programme has undergone a remarkable transformation. Long-held beliefs about the animal's reproductive capacities have been shattered. No longer are desperate keepers feeding Viagra to underperforming males (that didn't work anyway). Researchers have given up ideas of cloning them. Good old-fashioned sex is now doing the trick. . .»

("The sex life of the panda: Black and white and red all over")


«There are prayer books in everyday vernacular or even street slang ("And even though I walk through/the Hood of death/ I don't back down/ 'coz you have my back"). Or consider innovation. In 2003 Thomas Nelson dreamt up the idea of Bible-zines - crosses between Bibles and teenage magazines. The pioneer was Revolve, which intercuts the New Testament with beauty tips and relationship advice ("are you dating a Godly guy?"). (. . .) There are toddler-friendly versions of the most famous Bible stories. The Boy's Bible promises "gross and gory Bible stuff". God's Little Princess Devotional Bible is pink and sparkly.»

("The Bible v the Koran: the battle of the books")

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Fui à Byblos

Uma livraria que, fazendo jus à sua designação, está repleta de livros. É sempre o primeiro erro que estes sítios cometem.
E encontrá-la? Não foi nada fácil de encontrar, a Byblos. Não sei por que carga de água, tinha metido na cabeça que a Byblos ficava no edifício do Amoreiras. Não fica. Tive de pedir indicações a dois transeuntes (que me confessaram, algo embaraçadamente, que também não sabiam onde ficava a Byblos) até que um segurança me salvou a tarde: «Aquela nova loja grande, que vende livros do Miguel Sousa Tavares? Isso não é aqui, é naquele edifício espelhado lá ao fundo».
Não foi nada fácil de achar, aquele edifício espelhado lá ao fundo. Tive de pedir indicações a dois transeuntes (que me confessaram, algo embaraçadamente, que também não sabiam onde ficava aquele edifício espelhado lá ao fundo), até que vi um terceiro transeunte com um livro de Miguel Sousa Tavares debaixo do braço: «É por aqui é, amigo! Pode entrar por aquela portinha giratória naquele edifício espelhado já ali ao fundo, está a ver? Não se preocupe que ainda lá têm muitos livros do Miguel Sousa Tavares».
O que vi lá dentro excedeu todas a minhas expectativas, no sentido em que não fez nada disso, e não me refiro apenas ao número disponível de livros de Miguel Sousa Tavares. A configuração do espaço, para começar, é original, na medida em que não me remeteu para nenhum dos modelos que conheço para superfícies deste género (tem muito pouco a ver com as Fnacs ou com as Waterstones). Há toques verdadeiramente inspirados, como a alcatifa estilo-Weimar, a iluminação sociopata, uns candeeiros nas zonas de leitura claramente modelados nos secadores de um salão de cabeleireira, e as ubíquas pilhas de livros de Miguel Sousa Tavares. Toda a atmosfera, aliás (com excepção dos livros de Miguel Sousa Tavares), evoca um pouco aquelas festas muito populares nos anos 70, em que se metiam as chaves do carro numa terrina de vidro. Não faço ideia quem terá sido o responsável pela decoração, mas aposto que tem bigode, que usa um roupão bordado com as suas iniciais, e que gosta de Barry White.
A arrumação nas secções revelou alguns sinais de espirituoso anarquismo, mas tudo pode não ser mais do que, como disse o Zé Mário, a "vertigem da urgência". Ainda assim, foi transtornante encontrar o Fora do Mundo, do Pedro Mexia, na estante da Sociologia, entre um livro de entrevistas a Carlos Pinto Coelho e um romance histórico de Miguel Sousa Tavares.
A secção de Ficção em português é imensa, e está competentemente dividida em cinco sub-secções: Literatura Portuguesa, Literatura Brasileira, Literatura Africana, Autores Traduzidos, e Miguel Sousa Tavares. A dos livros estrangeiros foi uma semi-desilusão: pareceu-me ficar aquém da Fnac do Chiado. Ainda assim, vale a pena espreitar a estante dos Penguins, onde os 20th Century Classics, os Modern Classics e aqueloutros Classics baratinhos, com capas cor-de-sabonete-Dove, têm todos direito a duas prateleiras cada. Entre os primeiros - lombadas cinzentas - podem encontrar o Call it Sleep, escrito por um Roth que não era Philip nem Joseph nem Miguel Sousa Tavares, mas que era tão bom quanto eles. Custa 16 euros e 20. E mesmo ao lado, no estaminé das novidades, um belíssimo paperback do Against the Day! Tomei a liberdade de lá enfiar um papelinho com o meu nome e número de telefone, na eventualidade de o comprador querer esclarecer alguma dúvida, ou simplesmente ser meu amigo. Realço também o ecletismo, que não se limita à habitual tríade Inglês-Francês-Castelhano; podem encontrar, para dar um exemplo, traduções do último romance de Miguel Sousa Tavares em italiano, romeno, bengali, mandarim, esperanto, braille e hobbit. Para breve, seguramente, uma edição interactiva em linguagem gestual.
Uma nota final sobre a secção de Ciência-Para-Os-Muito-Muito-Leigos, que também me pareceu algo fraquinha: cinco míseras prateleiras, estrategicamente colocadas de forma a que quem venha de lá com o The Ancestor's Tale do Dawkins (13 euros e 20), tenha de passar por quarenta edições ilustradas do Antigo Testamento (com comentário e notas de Miguel Sousa Tavares) antes de chegar à caixa. Gostei muito das escadas rolantes. O aspecto mais negativo de todos é a chuva. Não é que chova lá dentro, mas ainda assim, acho que deviam fazer alguma coisa sobre o assunto.