sexta-feira, fevereiro 08, 2008

A manchete do ano

Na Fox (embora escrita por um sub-editor que deve ter estagiado no The Onion):

Police: Crack Found in Man's Buttocks

(Via Language Log, naturalmente)

terça-feira, fevereiro 05, 2008

Uma semicolonoscopia ao Orlando

Chamo a vossa atenção, denisdutonicamente, para este artigo do Financial Times, um perfilzinho de James Wood (continuem a ler, se faz favor: o resto do post não tem nada a ver com o James Wood). Depois de um interessante desabafo sobre o rigor totalitário dos célebres fact-checkers da New Yorker, James Wood (última menção, juro) faz a seguinte confissão: «"I love semi-colons," he says with all the enthusiasm of a 10-year-old talking about chocolate.».
Isto deixou-me contentíssimo. Como tantas outras pessoas espalhadas por esse planeta fora, eu passo grande parte do meu tempo livre a fantasiar sobre o ponto e vírgula, e é sempre bom encontrar camaradas para o swing platónico. O ponto e vírgula é, com uma considerável vantagem sobre a concorrência, o meu sinal de pontuação favorito. Aliás, se fosse forçado a escolher entre o ponto e vírgula e os chocolates da Lindt, a decisão nem sequer seria problemática.
(E não é nada fácil de manusear, o ponto e vírgula; eu, por exemplo, nunca aprendi a fazê-lo; o que não me impede de continuar; a tentar).
Como qualquer alvo de obsessões, o ponto e vírgula tem a sua entourage, os seus cínicos detractores, e a sua biografia recheada de altos e baixos. A tragédia é concisamente relatada no canónico "The Rise and Fall of the Semicolon: English Punctuation Theory and English Teaching" de Paul Bruthiaux (disponível aqui, em ficheiro .pdf), onde aprendemos, por exemplo, que « . . . the popularity of the semicolon itself appears to have peaked in the eighteenth century, and its demise in the nineteenth century was almost as sudden and overwhelming as its rise to stardom had been two centuries earlier».
Para que serve, então, o ponto e vírgula no século XXI? As opiniões divergem. Donald Barthelme dizia que o ponto e vírgula é tão feio "como uma carraça na barriga de um cão". Lynne Truss, no seu divertido bestseller, alerta que o ponto e vírgula pode ser "perigosamente viciante", devendo ser usado com parcimónia, um pouco como uma carga policial, sempre que haja conflito entre vírgulas desordeiras. No meu caso específico, e isto fica só entre nós, o ponto e vírgula cumpre o mesmo propósito do par de tracinhos, ou da gaiola de parênteses: ostraciza por convenção o que eu não consegui conciliar por talento, e legitima graficamente o progresso soluçante daquilo que passa por raciocínio neste crânio fatigado. (Eu durmo muito pouco; é um problema sério).

Mas concentremo-nos antes em quem o utiliza com brio. Como é sabido por todas as pessoas que já tiveram o prazer de me aturar com uns copos a mais, cada sinal de pontuação tem o seu campeão literário. A vírgula tem Henry James, o ponto de exclamação tem Philip Roth, as reticências têm Thomas Pynchon, o ponto final tem Pedro Lomba Hemingway, e por aí fora. (Um dia desenvolvo isto melhor). O ponto e vírgula, apesar de quatrocentos anos de flirts, engates e rapidinhas mais ou menos efectivas, só foi competentemente aviado por Virginia Woolf.
Para todos os admiradores do ponto e vírgula, o Orlando é um espectáculo quase pornográfico (e não apenas por ser o único clássico da literatura universal com nome de chulo algarvio): não há parágrafo que não coreografe duas, três, cinco dessas híbridas e adoráveis criaturas em kamasutricas acrobacias. Uma pessoa pode passar uma vida inteira a treinar-se no uso do ponto e vírgula para chegar ao Orlando e desfalecer de incompreensão. Eu sabia que se podia fazer isto a um ponto e vírgula; mas aquilo? É transtornante. O parágrafo seguinte, extraído ao segundo capítulo, está amparado por duplos e triplos sublinhados no meu exemplar, com uma trémula notinha na margem sugerindo humildemente "esta gaja passou-se":

«He now commissioned Mr Isham of Norfolk to deliver to Mr Nicholas Greene of Clifford’s Inn a document which set forth Orlando’s admiration for his works (for Nick Greene was a very famous writer at that time) and his desire to make his acquaintance; which he scarcely dared ask; for he had nothing to offer in return; but if Mr Nicholas Greene would condescend to visit him, a coach and four would be at the corner of Fetter Lane at whatever hour Mr Greene chose to appoint, and bring him safely to Orlando’s house. One may fill up the phrases which then followed; and figure Orlando’s delight when, in no long time, Mr Greene signified his acceptance of the Noble Lord’s invitation; took his place in the coach and was set down in the hall to the south of the main building punctually at seven o’clock on Monday, April the twenty–first.»

Parece-me por esta altura incontroverso que Virginia Woolf era completamente maluca no que diz respeito ao ponto e virgula. E como aquelas almas sôfregas que gostam tanto de marmelada que acabam por sublimar a sua pulsão num desenfreio fetichista, Virginia não traduziu o seu arrebatamento gráfico na delicadeza do gourmet. The lady liked it rough; a sua pontuação vem coradinha e ensopada em suor, como uma empregada doméstica num filme de Tinto Brass. O Orlando deve ter mais ponto e vírgulas por centímetro quadrado do que qualquer outra obra literária, mas ao iniciado só vai trazer um perplexo e transpirado desalento.
A melhor defesa do ponto e vírgula terá forçosamente de ser uma defesa utilitarista, e começar por estabelecer que, nas mãos certas, o ponto e vírgula reduz o trabalho de sapa do leitor. A mais lúcida argumentação nesse sentido foi feita por Henry W. Fowler, no clássico The King's English.
Para Fowler, a pontuação era um problema moral: «Any one who finds himself putting down several commas close to one another should reflect that he is making himself disagreeable, and question his conscience, as severely as we ought to do about disagreeable conduct in real life, whether it is necessary.»
Qualquer um dos quatro sinais de pontuação que denotam uma pausa (a vírgula, o ponto e vírgula, os dois pontos e o ponto final) difere dos outros quantitativamente. Todos estabelecem graus distintos de separação temporal, cujo valor é relativo e nunca absoluto. Cada sinal de pausa cumpre uma dupla função: lógica e retórica. A função lógica é clarificar as relações gramaticais entre os componentes da frase; a retórica está relacionada com questões de tom, ênfase e gestão rítmica. O trabalho do escritor deve então ser um trabalho diplomático, regulando as dependências entre orações, e adjudicando a sua importância relativa.
A tendência geral da literatura moderna tem sido para uma progressiva erradicação do ponto e vírgula. A esmagadora maioria dos escritores rege-se pelo que Fowler, com o seu inigualável talento classificativo, chama de "spot-plague principle": nunca usar outro sinal quando o ponto final serve. Isto, para Fowler, é moralmente catastrófico. Ele sugere antes o princípio do agrupamento, argumentando que «a style that groups several complete sentences together, by the use of semicolons, because they are more closely connected in thought, is far more restful and easy - for the reader, that is - than the style that leaves him to do the grouping for himself».
Virginia Woolf, como é hiperbolicamente claro para todos, seguiu uma terceira via: fetichizou o ponto e vírgula, e usou-o não para benefício do leitor, mas porque lhe dava na real gana. Estes modernistas; francamente; não respeitavam ninguém.
Encontrado o imprescindível ponto de equilíbrio entre o entusiasmo e a anarquia, é possível fazer disto um instrumento formidável. Dar-me-ia um enorme prazer se a malta (começando por mim) passasse a tratar melhor este belo sinalito;.

(Rapida, superflua, mas seriamente: entre os bloguers que leio, os que melhor utilizam o ponto e vírgula são o Ivan Nunes, o Mexia e o maradona. Este último, aliás, tem lá uma utilização exemplar da combinação "ponto e vírgula/dois pontos", por enquanto não-apagada, mas que merece ser aqui resgatada à efemeridade:
Não insinuo que o Henrique Raposo mereça as mesmas vilanias que a minha espectacular pessoa; com alguma arrogância, arrisco apenas que, em certo e muito restrito sentido (que espero, tantos posts depois, já evidente para todos), o Henrique Raposo exista neste mundo como se fosse a minha alma gémea do irmão que nunca tive (muito embora eu não possa ser considerado, tecnicamente, um anão): um gajo que, se fosse primeiro-ministro, nada disto acontecia.
Garanto-vos que, se virasse o olho cego à gramática, o Fowler aprovaria.)

sábado, fevereiro 02, 2008

James Joyce flash interview

«But abide Zeit's sumonserving, rise afterfall. Blueblitzbolted from there, knowing the hingeworms of the hallmirks of habitationlesness, buried burrowing in Gehinnon, to proliferate through all his Unterwealth, seam by seam, sheol om sheol, and revisit our Uppercrust Sideria of Utilitarios, the divine one, the hoarder hidden propaguting the plutorpopular progeniem of pots and pans and pokers and puns from biddenland to boughtenland, the spearway fore the spoorway.»

(Finnegans Wake)

* * *

Repórter: James Joyce, boa noite. Antes de mais, parabéns. Foi um parágrafo importante?

Joyce: Sem dúvida. Todos os parágrafos são importantes, mas era crucial para nós completarmos este parágrafo. Sabíamos de antemão que iríamos encontrar um ambiente complicado, mas trabalhámos a semana inteira neste parágrafo, e acho que vimos hoje aqui os frutos desse trabalho.

R.: Está satisfeito com a atitude das suas palavras?

J.: Não tenho rigorosamente nada a apontar às minhas palavras. Hoje, como sempre, estiveram irrepreensíveis em termos de atitude, deram o seu melhor em prol do parágrafo, e agora há que continuar a trabalhar da mesma maneira até ao final do livro.

R.: Chegou a passar por algumas dificuldades. . .

J.: Hoje em dia, no Modernismo, já não há parágrafos fáceis. Temos de encarar todos com a mesma humildade. Mas julgo que, com muito trabalho, é possível criar as condições necessárias para sermos felizes.
E não queria deixar passar a oportunidade para dar mérito aos adversários. A gramática e a semântica estão em grande forma e causaram-nos alguns problemas, mas no final acabou por ganhar o mais forte.

R.: Surpreendeu muita gente ao não colocar a palavra “plutorpopular” logo de início, mas acabaria por trazê-la já na segunda metade do parágrafo. Porquê essa decisão?

J.: Ouça, eu trabalho com estas palavras há muito tempo, conheço-as melhor que ninguém. e as pessoas têm de entender que as minhas decisões, em termos de meter palavras no início, no meio ou no fim, são sempre tomadas em função das necessidades do parágrafo. A palavra “plutorpopular” correspondeu, trabalhou bem, mas comigo não há palavras indiscutíveis.

R.: Que comentários lhe merecem aqueles incidentes no final do parágrafo?

J.: Não sei a que “incidentes” se refere.

R.: Aquele “the spearway fore the spoorway” deixou algumas dúvidas a muita gente. . .

J.: Eu não quero entrar em polémicas, acho que vocês é que têm de comentar esse tipo de questões. O que eu acho é que a gramática terá talvez acusado algum nervosismo, o que é perfeitamente natural, e terá reagido a quente.

R.: Está a responsabilizar a gramática pelo incidente?

J.: Não vamos por aí, eu não estou a responsabilizar ninguém. A gramática é uma grande profissional, tem uma longa carreira, mas se calhar não está habituada a ser dominada desta maneira ao longo de um parágrafo inteiro. Como disse, acho natural que se tenha esse tipo de reacções a quente.

R.: Não sente que tem sido beneficiado pela crítica literária, especialmente a de pendor mais académico?

J.: Acho que só alguém com grande má-fé poderá fazer insinuações desse calibre. Já tive parágrafos muito prejudicados pela crítica literária, e qualquer análise isenta e imparcial vai mostrar que, se há alguém com razões de queixa da crítica literária, esse alguém sou eu.

R.: Vem aí já o próximo parágrafo. . .

J.: É um facto, mas vamos pensar parágrafo a parágrafo. É um livro longo, hoje ultrapassámos aqui um parágrafo difícil, agora há que descansar e, a partir de amanhã, começar então a trabalhar no próximo parágrafo, que também será muito dificil.

R.: James Joyce, obrigado, e boa noite.

J.: Obrigado eu. Boa noite.

Ele pegou numa concha para ilustrar a sua sem-abriguice


Passei as últimas seis horas a ouvir «The Opposite of Hallelujah», faixa que, até há sete horas atrás, assumi ser um mero arremedo death-metal da canção de Cohen/Cale/Buckley. Não sei como, mas Jens Lekman passou-me ao lado em 2007, e ter-me-ia passado ao lado em 2008 não fosse a bondade de terceiros, a inqualificável porosidade do meu filtro anti-spam, e o facto de eu ter horas disponíveis em lotes de seis.
Sempre me guiei pelo sábio princípio de que os arranjos domésticos de Stephin Merritt - xilofone, castanhetas, órgão a pilhas oferecido pela madrinha no Natal, etc. - eram o pináculo de qualquer coisa que devia ser transcendentalmente calamitosa, mas não é. Lekman levou a coisa ao estágio seguinte, parece-me. A confirmação segue dentro de mais seis horas.

(Os canais terrestres estão uma miséria tão grande que cheguei a tirar o Finnegans Wake da estante. Já lá o arrumei outra vez, mas foram momentos preocupantes.)

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Oswald was a fag

A não perder, na Atlântico de Fevereiro, um exercício especulativo de Rui Ramos sobre a situação em que estaria Portugal caso o Rei D. Carlos tivesse sobrevivido ao atentado de 1908.
A não perder, em Março, no Pastoral Portuguesa, um exercício especulativo sobre a situação em que estaria Portugal caso Rui Ramos não tivesse escrito, na Atlântico de Fevereiro, um exercício especulativo sobre a situação em que estaria Portugal caso o Rei D. Carlos tivesse sobrevivido ao atentado de 1908.
A não perder, em Abril, no Pastoral Portuguesa, um exercício especulativo sobre a situação em que estaria Portugal caso o Pastoral Portuguesa não tivesse incluido, em Março, um exercício especulativo sobre a situação em que estaria Portugal caso Rui Ramos não tivesse escrito, na Atlântico de Fevereiro, um exercício especulativo sobre a situação em que estaria Portugal caso o Rei D. Carlos tivesse sobrevivido ao atentado de 1908.

terça-feira, janeiro 29, 2008

Claxon, Cortázar, Cabinda

«(...) In Aspects of the Novel, EM Forster used the now-famous term "flat" to describe the kind of character who is awarded a single, essential attribute, which is repeated without change as the person appears and reappears in a novel. Often, such characters have a catchphrase or tagline or keyword, as Mrs Micawber, in David Copperfield, likes to repeat "I will never desert Mr Micawber". She says she will not, and she does not. Forster is genially snobbish about flat characters, and wants to demote them, reserving the highest category for rounder, or fuller, characters. Flat characters cannot be tragic, he asserts, they need to be comic. Round characters "surprise" us each time they reappear; they are not flimsily theatrical. Flat ones can't surprise us, and are generally monochromatically histrionic. Forster mentions a popular novel by a contemporary novelist whose main character, a flat one, is a farmer who is always saying "I'll plough up that bit of gorse". But, says Forster, we are so bored by the farmer's consistency that we do not care whether he does or doesn't.
But is this right? If by flatness we mean a character, often but not always a minor one, often but not always comic, who serves to illuminate an essential human truth or characteristic, then many of the most interesting characters are flat. I would be quite happy to abolish the very idea of "roundness" in characterisation, because it tyrannises us - readers, novelists, critics - with an impossible ideal. "Roundness" is impossible in fiction, because fictional characters, while very alive in their way, are not the same as real people. It is subtlety that matters - subtlety of analysis, of inquiry, of concern, of felt pressure - and for subtlety a very small point of entry will do. Forster's division grandly privileges novels over short stories, since characters in stories rarely have the space to become "round". But I learn more about the consciousness of the soldier in Chekhov's 10-page story "The Kiss" than I do about the consciousness of Waverley in Walter Scott's eponymous novel, because Chekhov's inquiry into how his soldier's mind works is more acute than Scott's episodic romanticism. (...)»


O artigo, que deve ser lido na íntegra antes que eu me irrite com vocês a sério, serve como aperitivo para o novo livro do senhor, que me vai ser entregue em mãos por um dos mais pontuais carteiros do Hemisfério Norte, no dia 11 de Fevereiro de 2008, às dez e vinte da manhã. Por falar em coisas que devem ser lidas na íntegra, este texto do Alexandre Andrade sobre Delmore Schwartz é a melhor e mais lúcida apreciação crítica não escrita por James Wood que li nos últimos tempos. O irritante biógrafo de Saul Bellow teimou em informar-me aqui há uns anos que Schwartz era o modelo para o poeta lunático de Humboldt's GiftHe was a wonderful talker, a hectic nonstop monologuist and improvisator, a champion detractor. To be loused up by Humboldt was really a kind of privilege. It was like being the subject of a two-nosed portrait by Picasso, or an eviscerated chicken by Soutine»). Agora que penso nisso, o programa de leituras integrais devia incluir também o Humboldt's Gift, mas eu não mando nas vossas vidas.
Nem na minha consigo mandar. Na semana passada, comprei um livro de Cortázar (Prosa do Observatório) naquele alfarrabista de esquina, perto da Biblioteca Nacional. Lá dentro - porque nunca comprei um livro de Cortázar em segunda mão que não viesse com brinde - achei um cartão de sócio do extinto Clube de Turismo do Atlântico, pertencente a um António Beato Teixeira e datado 29 de Janeiro de 1973. Nas costas do cartão, por motivos muito pouco claros, aparecem escritas a lápis as palavras "vai para cabinda". É este o estado de coisas: Deus dá-me instruções geográficas com 35 anos de atraso e através de livros baratos. E a minha sarça ardente, onde é que está?
Finalizando, queria dizer que isto, mesmo ajustado à inflacção, continua a parecer-me uma indiscutível pechincha:

domingo, janeiro 27, 2008

Artéria coronária direita

Artéria coronária direita é o nome de uma artéria que nasce no seio aórtico anterior (direito). Se as coisas lhe correm de feição, e os preparativos logísticos foram atempadamente concluídos, a artéria costuma fazer uns pequenos exercícios de aquecimento antes de tudo começar, dando uma corridinha para frente e para direita, pausando para alongamentos entre o tronco da pulmonar e aurícula direita. Pouco depois do apito inicial, a artéria prossegue o seu jogging taciturno, contornando a margem direita do coração, escrevendo cartas de suicídio imaginárias e implorando silenciosa clemência, enquanto se dedica a espoliar o frigorífico das suas diligentemente acumuladas garrafas de Sagres Boémia. O ambiente costuma ser pesado.
Aos treze minutos de jogo, contra as suas mais ridiculamente exacerbadas expectativas, a artéria observa a destreza cardiovascular de Helton, e volta-se para a esquerda, percorrendo aos gritos a parte posterior do ventrículo direito ao longo do sulco coronário até ao sulco interventricular posterior - tudo feito, atenção, sem entornar uma gota. Talvez seja útil, nesta altura, imaginar a artéria sentada à mesa da cozinha, com a Sagres Boémia tremulamente enrodilhada pelo rosário com o símbolo do SCP que a sua avó Maria da Conceição lhe trouxe um dia de Fátima, pensando que isto é bom demais para ser verdade.
A artéria coronária direita tem agora várias opções: pode emitir ramos atriais na direção do átrio, obviamente; ou pode relembrar tantas alturas igualmente promissoras no seu passado que resultaram em infâmia, cataclismo, ou passeios à chuva; a artéria decide regressar ao frigorífico e tentar controlar o optimismo. Mas eis que!, meros dois minutos depois - antes até de o seu primeiro ramo atrial ter tido tempo para nutrir o átrio direito, circundando o óstio da veia cava superior - Izmailov quase interrompe este singelo processo, tornando toda a situação coronariamente insustentável. A artéria está incrédula. A artéria está atónita. A artéria tem de ir até ao quintal apanhar ar fresco.
É certo e sabido que, na primeira metade do seu trajecto, a artéria coronária direita emite ramos que irão acudir ao cone arterial, mas entretanto há que trocar sms's frenéticos com outros vasos sanguíneos metafisicamente esclarecidos, que possam lançar alguma luz sobre este momento. Alguém esclarece esta pobre artéria? Esta irrigação desenfreada está mesmo a acontecer? As respostas são lúcidas e conclusivas: a ilusão cruel e passageira não é propriamente uma novidade neste percurso anatómico. A artéria é aconselhada a refrear os seus humores, a olhar para uma tabela classificativa, e a não escrever tantos palavrões nos seus sms's.
A segunda metade do trajecto é penosa, e durante grande parte do tempo a artéria mantém os olhos fechados, o que origina alguns derrames de Sagres Boémia, felizmente minimizados pela agilidade que a artéria sempre demonstra em alturas de sofrimento. Pontualmente, a artéria interroga-se sobre o que terá comido Pereirinha ao pequeno-almoço. Já na derradeira secção, a artéria emite mais um ramo, que percorre o sulco interventricular posterior. Isto pode parecer uma manobra desesperada, mas os peritos em anatomia garantem que faz todo o sentido. Perto do ápice, supostamente, esse ramo irá unir-se por anastomose com o ramo interventricular anterior da artéria coronária esquerda, permitindo suportar o interminável período de desconto sem ter de recorrer ao INEM. Nesta altura, claro, a artéria já ultrapassou todas e quaisquer intenções irrigativas; o que ela quer mesmo é flirtar com linfonodos, enviar ramos de flores a todos os gânglios, e praticar amor hippie com um cacho de vasos linfáticos, indiferente ao pormenor de este ter sido um pedaço de circulação que se deveu mais à sorte do que a uma dieta rigorosa ou a um estilo de vida saudável.
Pelo menos por agora, a artéria não quer saber. A artéria coronária direita fez o seu trabalho, encontra-se num sétimo céu de vascularização orgiástica, e vai permanecer assim até começar a drenagem. Ou até ver, na manhã seguinte, o estado em que deixou a cozinha.

quinta-feira, janeiro 24, 2008

The Golden Days of Mu

Na oitava página de Masters of Atlantis, Lamar Jimmerson faz um inventário da sua situação. Desterrado num hotel em Valletta (frequentado por «english poets, greek honeymooners and poor tippers»), ele está tecnicamente falido, tem nas mãos um livro indecifrável repleto de cones e triângulos, na cabeça o chapéu sagrado de uma misteriosa sociedade secreta, e nos lábios trinta costuras, resultado de um choque frontal com o remo de um barco. As coisas começam finalmente a fazer sentido.
Se há algo em que as personagem de Portis são boas é a extrair um sentido de missão do mais puro caos, e a interpretar todo e qualquer imponderável como mais uma alínea no seu perplexo contrato com a realidade: «The sense of the message was obscure but there could be no doubt that the signal was genuine». O livro indecifrável é o Codex Pappus, um suposto repositório da antiga sabedoria dos Atlantes, e o texto fundador da Sociedade Gnómica. A natureza dessa sabedoria nunca é claramente definida, embora se depreenda que esteja relacionada com Geometria, Silêncio e Correntes Telúricas. Com a colaboração de um inglês chamado Sidney Hen, um organigrama da Sociedade vai sendo deduzido, com resultados previsivelmente enviesados. É assim que Jimmerson, um cabo do Corpo Expedicionário Americano, à deriva na Europa depois do final da I Guerra Mundial, se transforma no Primeiro Mestre Moderno do Novo Ciclo do Gnomonismo. Injectado com sangue novo, e simbolicamente renovado – o Mestre tem agora direito a usar o Cone do Destino e a empunhar o Ceptro da Correcção – o Gnomonismo faz o que fazem todas as fés alternativas: atravessam o Atlântico e vão procurar a prosperidade no único Continente não-afundado onde tudo, ideologicamente falando, continua a ser possível.
O esforço de implantação do Gnomonismo na América não tem um início auspicioso – Sydney Hen acaba mesmo por fundar uma Ordem alternativa – mas acelera com a entrada em cena de Austin Popper, a melhor personagem do livro, e talvez o mais inspirado golpe criativo da carreira de Portis. Popper é uma raridade – um mitómano inveterado e um populista genuíno, cuja demagogia nasce da sua irrevogável ingenuidade. É ele quem providencia os melhores e mais absurdos esquemas para levar o Gnomonismo às massas (o melhor é talvez uma fracassada manobra publicitária para reunir Jimmerson com Roosevelt, que culmina num périplo surreal pelo jardim zoológico de Washington); e é ele quem arrasta Jimmerson para uma calamitosa campanha para Governador do estado do Indiana:

«Mr. Jimmerson became agitated. It was such an incredible business and yet he had to admit that he liked the idea of being governor. Why not? Governors had to come from somewhere and it was his impression that more of them were elected by default, grudgingly, as the best of a poor lot, than by any roar of general approval. Who was the current one? Biggs? Baggs? Boggs? Bugg? But were people ready for a scholar? He thought not. They certainly weren’t ready for Gnomonism. But then it was not as though you had to meet some absolute standard of fitness; you just had to get a few more votes than the fellows who happened to be running against you at the time, each one defective in his own way. The country had been off the gold standard for years. You wouldn’t be running against George Washington, but only Baggs or Bugg. The swearing-in – that would be a grand moment. One hand on the Bible, the other raised, Fanny at his side. A solemn moment. Altogether a serious undertaking. Would he be a wise and serious ruler?»

Este soberbo monólogo interior demonstra o percurso mental típico de quase todas as criaturas que povoam o livro: do cepticismo ao entusiasmo em meia-dúzia de linhas.
Pode ser tentador ver em tudo isto uma sátira ao processo político americano, mas Portis não é esse tipo de escritor. O impulso satírico é sempre didáctico, e a sua fórmula cómica essencialmente estática e situacional: olhem para aqui e vejam como isto é ridículo; agora olhem para ali e vejam como aquilo é ridículo. Portis não é um artista de visão correctiva, mas de observação detalhada, e as suas criações não são os “tipos” do escritor-pedagogo nem os “grotescos” dos sulistas americanos, mas sim os excêntricos, reféns de uma sociedade que recusa aceitar a sua grandeza. Masters of Atlantis é, ao nível mais básico, uma espectacular coleccção de miniaturas humanas, animada pelo talento ventríloquo de Portis e pela sua capacidade para a empatia.
E se a montagem artificial do cânone Gnomonista, bem como a interminável sucessão de cismas e alianças dentro da Sociedade, parecem representar uma alegoria fácil sobre a forma como o conhecimento religioso vai sendo consolidado e institucionalizado, convém que o leitor ceda à tentação de adoptar a paranóica destreza hermenêutica dos personagens. Portis cancela quaisquer paralelos possíveis, deixando bem claro que os Gnómicos vão existindo fora do mundo, navegando à ilharga do século americano na jangada da sua insanável credulidade. Num certo sentido, quase todos os protagonistas de Masters of Atlantis são niilistas falhados (os iniciados Gnómicos são aconselhados a evitar transacções com os quatro Pês: «politicians, the press, the police and the Pope»). Com as categorias de percepção deformadas pela sua aversão congénita à matriz oficial da História, aprendem a respeitar apenas um passado irrecuperável, a desconfiar do presente e a cambalear cegamente na direcção do futuro. A sede genuína de conhecimento é saciada no escuro, onde os voluntariamente excluídos vão tacteando em busca de sistematizações próprias e de uma forma muito peculiar de comunhão. Não querendo acreditar em nada, acabam por acreditar em tudo.
Portis é particularmente bom a condensar o potencial cómico do autodidacta: a informação semi-digerida, os ziguezagues epistemológicos, as especulações anárquicas_

«Golescu became louder and more assertive, revealing himself as an independent thinker. Charles Darwin, he said, had bungled his research and gotten everything wrong. Organisms were changing, it was true enough, but instead of becoming more complex and, as it were, ascending, they were steadily degenerating into lower and lower forms, ultimately back to mud. In support of this he cited the poetic testimony of Hesiod, and gave the example of savages with complex languages, a vestige of better days. He had dubbed the process ‘bio-entropy’ and said it could clearly be seen at work in everyday life. One’s father was invariably a better man than one’s self, and one’s grandfather better still. And what a falling off there had been since the Golden Days of Mu, when man was indeed a noble creature.»

A ascensão e declínio da Sociedade Gnómica é contada em menos de 250 páginas. Na derradeira – e fabulosa – secção do livro, uma reunião é orquestrada entre as facções dissidentes (num “trailer park” texano, naturalmente). O Grande Templo de granito e mármore, palco dos escassos dias de glória do Gnomonismo, desabou num apocalipse financeiro de proporções Atlantes, e o novo Templo é agora o Cape Codder, uma caravana topo-de-gama com «cathedral roof and shingles of incorruptible polystyrene».
Actores falhados, imigrantes ilegais, e os dois Mestres, Jimmerson e Sydney Hen (finalmente reconciliados, e passando os dias em silenciosa ponderação à beira do golfo do México) participam num festivo jantar de Natal, onde se trocam votos optimistas e hipóteses de regeneração. As Correntes Telúricas são fortes. Um dos personagens propõe um brinde, afirmando muito correctamente: «This is the best party I’ve ever been to!».
Comprem isto, pela vossa saúde.

(Foi só à procura do link na Amazon que descobri mais um membro do restrito círculo de fãs de Charles Portis: Stephen Malkmus, o gajo dos Pavement. Precisam de mais recomendações?)

terça-feira, janeiro 22, 2008

Everybody loves Marion

Quero deixar bem claro que não tenho rigorosamente nada contra o facto de um Oscar™ ter sido atribuído a John Wayne, tal como não teria rigorosamente nada contra se um Wayne™ tivesse um dia sido atribuído a Óscar de Lemos. A importância que eu dou aos Oscares™ (e até ao Óscar de Lemos) é consideravelmente menor do que a importância que dou a John Wayne, e a importância que dou a ambos é consideravelmente menor do que a importância que dou ao aumento dos preços de certos bens essenciais, como a maionese. Ainda assim, bastar-lhe-ia ter feito o The Searchers ou ter recusado o Dirty Harry para garantir a minha eterna, se bem que tranquila, admiração. E mesmo se não fosse isso, um homem que interpretou aproximadamente cento e cinquenta vezes o difícil papel de John Wayne™ mereceria sempre todo o meu respeito. (Desconfio que não se nota, mas estou a falar a sério).
Quando muito, quando muito, quando muito, poder-se-à ter notado alguma irritação mal-direccionada pelo facto de o True Grit, que, no original, era a história de Mattie, ter sido transformada na história de John Wayne. Mas acho que nem isso se notou, sinceramente, dada a minha inexcedível capacidade para a ofuscação. Por exemplo, vejam este gatinho:

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Este livro está disponível na Fnac do Chiado (alguém deve ter cometido um erro) e vocês estão aí sentados a ler blogues


Charles Portis, para circunscrevermos as coisas, é o melhor escritor americano de que muitos de vocês nunca ouviram falar, situação que está prestes a ser corrigida. Aqueles para quem o nome é familiar devem provavelmente conhecer o segundo romance do senhor: um western atípico chamado True Grit, cuja publicação despoletou uma reacção em cadeia que viria a culminar na entrega de um Oscar™ a John Wayne, mas acho que não devemos culpar Portis por isso. Mais tarde (ele é da escola um-livro-de-nove-em-nove-anos) viriam The Dog of the South e Masters of Atlantis, duas das coisas mais cómicas que li nesta minha vida longa e repleta de excitação. Quase toda a bibliografia de Portis esteve inexplicavelmente esgotada durante a década de 90, até que uma pequena editora americana chamada Overlook reequilibrou o Cosmos, começando a lançar novas edições em 2000. A decisão foi, em parte, uma resposta ao apelo público de um dos mais vocais adeptos de Portis, o jornalista Ron Rosenbaum, que escreveu um texto sobre ele para a Esquire, através do qual eu próprio cheguei a Portis, e que, curiosamente, é a mesma pessoa que escreveu o texto linkado em simultâneo na Causa e no Dias Felizes, porque isto anda tudo ligado. Admitam lá: ficaram todos arrepiados, agora.

O Denis Dutton anda a encolher o mundo

Um momento blogosférico que poucos terão adivinhado: o Dias Felizes e o maradona fizeram um post praticamente igual.

sábado, janeiro 19, 2008

O rei das cenouras interiores




(Neutral Milk Hotel, «The King of Carrot Flowers, Pts. 2 & 3)

Foram dias difíceis, mas, graças a mirabolantes doses de sangue-frio e a um intrincado sistema de superstições (que envolveu peúgas desirmanadas, um babete que me acompanha desde o Colégio São Miguel Arcanjo, e um ícone de Nossa Senhora de Fátima que já não me lembro onde roubei), lá consegui reunir as condições necessárias para voltar a usar este espaço. Espero que os mais cínicos entre vós não venham com argumentos aborrecidamente literais para questionar o inquestionável: o meu mérito pessoal em tudo isto. Parece-me evidente que o Sporting não tem, nesta altura, o plantel necessário para golear um clube que joga apenas três escalões abaixo do seu sem a minha colaboração activa.
Registei também a preocupação (ou "preocupação") do Bruno e a homenagem (no fundo a "homenagem") do Francisco José Viegas, dois adeptos de futebol emocionalmente equilibrados, e cuja ideia de um mau momento desportivo é ganhar títulos com apenas 10 pontos de avanço. Deve ser fácil mostrar jocosidade e munificência quando se anda há tantos anos a fazer safaris nas crises espirituais de terceiros. Mas não guardo rancores; e aprendi valiosas lições esta semana, algo que, de resto, vou demonstrar já no parágrafo seguinte.
Se o Sporting não ganhar ao Porto comprometo-me a ler na íntegra aquele livro do José Rodrigues dos Santos sobre filatelia, e a postar aqui um exaustivo relatório no prazo máximo de sete dias úteis após o apito final. Eu sou assim, miúdas, vivo no limite.

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Thing fall apart



(Led Zeppelin, «It's a Stairway alright, but it doesn't lead where you think»)

Confrontado com situações que me fazem perder a fé, o que normalmente costumo fazer é tocar discos dos Led Zeppelin de trás para a frente, à escuta de mensagens satânicas. Foi o que fiz ontem à noite. As vozes disseram-me para eu interromper o blogue até o Sporting voltar a ganhar um jogo, e eu vou fazer o que as vozes me dizem. A caixa de comentários fica aberta. Tema livre.

(pssst, pssst)

terça-feira, janeiro 08, 2008

Exclusivo: Jerry Seinfeld defende Tiago Mendes

«If you read History, many of the three-name people do become assassins».

A Daucus carota dentro de cada um de nós

As Ciências Sociais são, por fama e proveito, um repositório de má prosa. As excepções à regra (que, em abono da verdade, também não são assim tão raras) costumam estar incluídas em uma de duas categorias: ou os pioneiros, que se anteciparam ao enrodilhanço conceptual e terminológico que eles próprios ajudaram a criar (Marx, por exemplo, que escrevia transtornantemente bem, o sacana); ou os casos extremos de vocação cancelada, como Geertz, que possuem o talento, o humor, e leveza de toque necessários para utilizarem o léxico disciplinar sem serem utilizados por ele, nem caírem na taralhoquice retórica.
José Machado Pais, investigador-coordenador no ICS e um homem bastante mais calvo do que eu, não que isso seja relevante para esta discussão, não cai em nenhuma dessas categorias. Seria incorrecto vir aqui chamar nomes feios à sua prosa (acima de tudo porque Quem sou eu?, não é verdade, além de um diletante com muito mais cabelo que ele), mas proporciona os melhores exemplos que conheço de um maneirismo bastante comum: o abuso impiedoso da metáfora. Quando percebe um quadro metafórico que o titila, Machado Pais nunca mais o larga. Se, para iluminar um qualquer fenómeno social, decide recorrer a uma analogia com uma fábrica de tintas, então o leitor pode estar certo de que, vinte parágrafos e trinta suspiros depois, ainda vai haver baldes da Robialac espalhados pela página.
No seu "Paradigmas sociológicos na análise da vida quotidiana", que tenho andado a ler por manifesta falta de vida quotidiana própria, detectamos um certo calorzinho pela classe dos insectos. E se, a dada altura, aprendemos que «as interpretações possíveis formigam através de perspectivas e discursos que, apesar de tudo, as disciplinam» então não seremos de todo surpreendidos quando, pouco depois, Machado Pais nos fala «desse formigueiro de interpretações», ou, ainda mais tarde, das «formigas à procura do retórico». Não do açúcar, mas do «retórico». E para que a flora não se sinta retoricamente desenfranchisada em relação à fauna, Machado Pais debruca-se depois sobre as raízes. De que é que se fala? De «delimitar um reportório fixo e simples de aspirações últimas em cuja realização se estimula o conformismo». Qual é a metáfora? Uma de Rubert de Ventós: «um asno anda sempre atrás de uma cenoura com que lhe acenem, mas detém-se frente a um campo cheio delas». Como é que se pode melhorar isto? «Daí a necessidade de redescobrir a cenoura interior». Uma estratégia retórica que permite proceder por iluminação gradual transforma-se assim numa involuntária redução ao absurdo. Pelo menos creio que é involuntária. Nunca se sabe, com este pessoal das cenouras interiores.

Lost in frustration



Não sei, também não fiquei nada convencido.

«I seem to be leaking. But I have this rare bladder condition. OK?»
«I Hailed to the Thief. But I think In Rainbows was a piss take. OK?»
«I saw two nuns kissing. But I'm trying to be mature about it. OK?»
«I feel like conceiving. But I lost both my nuts in Da Nang. OK?»
«My kitchen needs cleaning. But I'm not pressuring you into it. OK?»
«I'm sorry to be wheezing. But I've been smoking Camels since birth. OK?»


Não sei, não sei.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

Os leitores do Abrupto não escrevem coisas assim

LB said...
Um preto a fazer surf é coisa que não vê todos os dias, até porque eles têm um medo instintivo da água. E o nome soa demasiado a Obama Bin Laden. Teria mais sorte se se chamasse Zippy Chippy.
14:58

Anónimo said...
ó lb pensa que o surf é uma velha tradição nórdica?
18:57

LB
said...
Claro. Quem não conhece o grande big wave rider do século IX, Haklang Skáldaspillir Rauða?
12:53

dude said...
Toda a gente sabe que o Haklang Skáldaspillir Rauða era do bodyboard.
15:37

cj
said...
Quanto ao surf, têm os dois uma certa razão, já que o dito desporto teve como principal impulsionador Duke Paoa Kahanamoku (havaiano), quando foi campeão olímpico de natação nos jogos olímpicos de... Estocolmo e se assumiu como surfista (um sair do armário, à época)
18:51

Vas Copulido said...
(. . .) Vou agora dedicar-me a estudar a biografia do senhor Haklang Skáldaspillir Rauða. O comentário deixado por cj recordou-me um trabalho dos tempos de juventude, sobre a vida e obra de Gunnlæif Ingulbjörn Viðförla, essa figura mítica que lançou as bases do que hoje conhecemos como kitesurf e também ele nadador olímpico nos Jogos de Estocolmo e que mais tarde veio a ser vereador da cultura em Harstad, Ostergötland. Faleceu em 1972, infelizmente.
20:13

cj
said...
Obviamente com o contributo do seu discípulo, muitas vezes esquecido, Æskil Iogæir Sturlubók, cujo fim foi bem mais enigmático, ao decidir deambular pelas ilhas do pacífico sul em busca do aperfeiçoamento da adaptação da vela à prancha e, ao que consta, muito próximo de Marcel Mauss, tendo influência, inclusive, na observação do potlatch e na teoria da troca desenvolvida pelo citado, que deu origem ao famoso ensaio sobre a dádiva.Regressou depois à Europa com este, vivendo os seus últimos dias em Saint-Tropez, com graves perturbações psíquicas, derivadas do uso prolongado do chá de um cacto alucinogénico das ilhas, mas de modo confortável, já que uma velha baronesa se apaixonou pelas suas aventuras e, não tendo herdeiros lhe deixou em herança a sua fortuna, a qual foi doada, em 1977, ano da sua morte, a Gilbertus Panhuise, que obteve a patente, usando uma prancha de windsurf.
22:59

Talvez o blogue com o melhor conjunto de caracteres da blogosfera

Doce mentor ranhoso, Seu cantor medonho, Senhor conde maroto, o libidinosamente burocrático Hormonas no decreto, e podia ficar aqui o resto da noite, mas tenho uma posta de salmão no meu George Foreman Grill (fabuloso, e muito fácil de limpar: basta atirar com um pano encharcado lá para cima, e recolhê-lo na manhã seguinte; é por prodígios tecnológicos como este que devemos continuar a subsidiar os cientistas e investigadores).
Já o do Zé Mário tem bês a mais. Os estranhamente monotemáticos «Tia! Bebi o licor de Babel!» e «Bobó! Bebi leite radical!» foram mesmo o melhor que consegui arranjar. Bobó, de seu nome completo Mamadu Bobó Djalo era um antigo médio do Boavista. Creio que desempenha actualmente funções na equipa técnica do mesmo clube, mas não tenho a certeza.

Eu no fundo até nem sou má pessoa




(Dedicado à minha tolerante prima Ana, a quem me esqueci de comprar prenda de Natal)

Juro que não fui eu quem começou o boato

Nesta página antiga da CNN, se forem andando para baixo até à secção "Related sites", encontrarão um muito sugestivo (e ominosamente inactivo) link para «Who Is Thomas Pynchon... Thomas Pynchon: Casanova?»

Publikumsbeschimpfung

«Só provincianos ou apedeutas se impressionam com quem escreve para impressionar.»

(João "offending the audience" Coutinho)

domingo, janeiro 06, 2008

"Arranja um emprego"


Existe um espaço no Second Life dedicado a Pierre Bourdieu. Tanto quanto sei, ainda não existe nenhum dedicado a Luiz Pacheco, um homem simples e regrado, que morreu ontem, creio que pela primeira vez, e que, tal como eu, classificava os amigos em categorias muito pertinentes (cf. "O Homem que Calculava" in Exercícios de Estilo).
Um apartamento alugado, um senhorio escrupuloso, e um bairro virtual, com um elevado índice de magalas e criaditas, é o mínimo que ele merece.

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Surf or nap?















(Apontamentos extraordinariamente úteis sobre o quiz de Vasco Pulido Valente: duas das citações (a de Vespasiano e a de Catão, o Velho) vêm no Suetónio; creio que a forma correcta é "sheep's clothing" e não "sheep's clothings"; o Catch-22 é muito menos engraçado do que julguei; Hans Johst tem as costas muito estreitas; tirando a do Candide, não consegui identificar nenhuma das citações em francês ("nem a do Madame Bovary??", como perguntou incredulamente um amigo irritante); não sei quem é o S. M. que foi comer uma merenda a Belém, mas se foi ao cafézinho em que eu estou a pensar, cometeu um grande erro.
A longo prazo, tendo a aborrecer-me com os políticos que me entusiasmam, e a entusiasmar-me com os que me aborrecem.)

Black Narcissus


(Porn poker: I see your lipstick and I'll raise you a Bible)

Já não se pode fumar na Cinemateca, mas ainda se pode escrever nas paredes da casa-de-banho. Em boa verdade, não entrava na casa-de-banho da Cinemateca para aí desde o ano 2000, e houve uma remodelação pelo meio. Creio que foi em 1999, numa maratona que incluiu o Nosferatu do Murnau, que tive a brilhante brilhante ideia de escrever REDRUM por cima dos urinóis, a caneta de feltro vermelha. (Fui um adolescente adorável, criativo, empreendedor, mas juro que não sei porque é que andava com canetas de feltro nos bolsos). De qualquer maneira, apraz-me revelar que a tradição foi mantida, se bem que, infelizmente, por alguém pouco dado ao feng shui Kubrickiano: o REDRUM actual encontra-se - num horrível azul-bebé, e com apenas metade das letras invertidas - numa parede perpendicular ao espelho, o que destrói totalmente o efeito pretendido.
Sobre o Black Narcissus propriamente dito é que este post não é, mas sobre isso já não há nada a fazer.

Claxon

(Um leitor parcialmente identificado teve a amabilidade de me enviar a imagem que faltava a um post ali em baixo. Não sendo fácil resistir à tentação de voltar a mencionar James Wood, cabe-me informar que um princípio ideológico normalmente não-negociável vai ser subvertido e que, nos próximos meses, vai vigorar neste blogue um sistema de quotas: James Wood vai ter direito, no máximo, a três citações mensais, e o Julinho a duas. Estas não contam; e se deixasse isto à mão invisível, acabava por não citar mais ninguém. Entretanto, esta campa deve estar neste momento a ser palco de incrédulas e acrobáticas contorções, mas isso é outro post, certamente, e não este. Tenho de começar a pôr ordem nisto dos posts.)

terça-feira, janeiro 01, 2008

Isaac, the tailor

Por motivos que, na imortal formulação de Valdemar Duarte na Rádio Renascença, não vale a pena estar agora aqui a escalpelizar, passei a noite de ano novo no meu sofá, a beber ice-tea da Lipton, e a comer amendoins. (Os líquidos e salgadinhos consumidos no resto da casa também não vão ser agora aqui escalpelizados). Nada diz "réveillon" como três horas de sobriedade.
Houve sobriedade em abundância na RTP2, que passou a versão heterossexual de Brokeback Mountain, também conhecida pelo título original As Pontes de Madison County. Ao longo de um interminável flashback, foi sobriamente demonstrado que Meryl Streep era uma mulher e que Clint Eastwood era um homem. Nenhum deles era um cowboy hermafrodita alcoólico, facto que teria porventura resultado num filme mais imprevisível.
A RTP1 decidiu inovar. O conceito era "comédia em directo". Os executantes eram os Gato Fedorento. O shtick era "réveillon dos anos 80". Precedendo o programa propriamente dito, um especial de 45 minutos revelou a cornucópia de meios técnicos necessários para que "a comédia" pudesse acontecer "em directo". Um operador de câmara confidenciou à repórter de serviço que o seu equipamento tinha uma extensão de nove metros e pesava uma tonelada, mas disse-o num tom demasiado sóbrio para o efeito brejeiro desejado.
Grande parte do impacto inovador foi amortecido pela espionagem industrial da SIC e da TVI, que decidiram também elas transmitir em directo programas de humor com uma forte atmosfera anos-80, traiçoeiramente camuflados de concursos do século XXI. Se os Gatos tinham na manga um trunfo internacional chamado Sabrina (uma irónica e pós-moderna referência cultural para pessoas com 3 ou 4 anos a mais que eu), a TVI sacou de um astro chamado Isaac Alfaiate, um jovem saído de um conto de Bernard Malamud, que rapidamente se impôs como a grande estrela da noite.
Presos a um formato que não os beneficia (o sofá, e falo por experiência, não potencia a excelência criativa), os Gatos fizeram o seu melhor, mas a imaginação por detrás dos sketches da TVI era claramente superior. Isaac Alfaiate, ainda assombrado por memórias de Buchenwald, e acompanhado por outro personagem de nome "João Cajuda", lançou-se numa elaborada rotina chamada "Cama Elástica", que consistia em estar aproximadamente oito minutos aos saltos em cima de uma cama elástica. Júlia Pinheiro tentou pôr as coisas em perspectiva: "Já alguma vez tinhas saltado em cima de uma cama elástica?" "Não, nunca", confessou Isaac. "De uma cama normal já, mas de uma cama elástica, nunca". "Como é que foi?", perguntou Júlia, curiosa. "Não tenho palavras", explicou Isaac, eloquente.
A escassez de palavras era, aliás, generalizada. Na SIC, onde, pelo que consegui perceber, três famílias (Cardoso, Azevedo e Adams) testavam novos métodos de interrogação para a CIA, o problema era ainda mais sério. Os membros do júri indicavam constantemente, através de palavras, que não tinham palavras para descrever o que sentiam. Bárbara Guimarães, cuja capacidade para improvisar em directo faz Júlia Pinheiro parecer o Johnny Carson, bem insistia, mas ninguém era capaz de produzir as palavras que a situação merecia. Tozé Brito encolhia os ombros e dizia que não tinha palavras. As sobrancelhas de Tozé Brito, duas entidades autónomas que mereciam o seu próprio filme de David Lynch, contorciam-se silenciosamente. Clara de Sousa confessou também ela ter sido separada das suas palavras. A situação só não era desesperante porque, do outro lado de Lisboa, Júlia Pinheiro, em plena hemorragia lexical, produzia correntes ternárias de palavras para aplicar a qualquer coisa que lhe passasse pela frente. Um passo de dança não era apenas "belíssimo"; era "belíssimo", "mágico" e "poderoso". Um vestido não era apenas "belíssimo"; era "belíssimo", "magnífico" e "poderoso". Isaac Alfaiate, cujo talento apenas posso descrever como soberbo, inquestionável e poderoso, regressou ao palco acompanhado por uma rapariga chamada Magali, para uma rotina chamada "Salsa", que consistia em parodiar os passos de dança habitualmente associados à Salsa. Isaac, que é filho de um merceeiro judeu de Newark que deve dinheiro ao seu senhorio gentio, agarrou em dois dos membros de Magali e fingiu arremessá-la com violência na direcção do palco. Magali fechou os olhos e sorriu, o seu rosto rodopiando a centímetros do chão, perante o olhar aprovador do noivo, que se encontrava na audiência, e que a deve ter achado mais do que preparada para a vida conjugal.
Na SIC, a família Azevedo celebrava efusivamente o que assumo ter sido a sua vitória. Receberam cinquenta mil euros e foram logo enfiados num Hércules C-130 para Langley, Virginia, onde têm um briefing às mil e seiscentas horas. Abu Ghraib treme. Uma comovida Bárbara Guimarães anunciou que Camilo Castelo Branco iria cantar "Diamonds Are a Girl's Best Friends"; meros segundos depois, José Castelo Branco cantou "Diamonds Are Forever". Luisa Castelo Branco podia ter cantado "Diamond Dogs", mas estava na TVI, frustradíssima com a língua portuguesa. Isaac Alfaiate, com o olhar perdido no horizonte, pensava na sua infância remota, num shtetl lituano. Magali venceu e foi autorizada a casar-se com o noivo, ali mesmo, em directo. Os derrotados vão ter de passar pela vergonha e ostracismo social associados a um mero casamento com transmissão em diferido. 2008, segundo a opinião consensual, vai ser "excelente", "espectacular" e "poderoso". 2008 está já aqui. Não há palavras para o que vai ser 2008.

sábado, dezembro 29, 2007

Agradeço a P. o seu negrito, mas também

Bom, se fosse um teste, vocês tinham falhado. É claro que não foi ao James Wood que cresceu uma vulva no abdómen (post anterior). O crítico literário da New Yorker não anda por aí com vulvas no abdómen. Referia-me, naturalmente, ao actor James Woods, que se pode ver abaixo, enfiando a mão enfim, de uma forma que só alguém muito cínico poderia descrever como "fazendo crítica literária para a New Yorker":



O verdadeiro James Wood é este senhor_


_ que nesta imagem específica foi apanhado a fazer, não crítica literária para a New Yorker, mas sim uma mímica quase-perfeita daquele actor português que interpretou o detective privado Claxon, e que também entrou no Major Alvega. Graças à IMDb, descobri que o senhor se chama António Cordeiro, informação que se viria a revelar inútil na demanda de uma imagem sua de tamanho blogável. A introdução dos termos de busca "António Cordeiro" no Google Images levou-me à página da cidade brasileira de Congonhas, a um site sobre Antonio Gramsci, e a inúmeras ilustrações de modelismo náutico, mas, para grande desilusão minha, a nenhum retrato icónico de António Cordeiro, de sobretudo e fedora cinzento, "fazendo crítica literária para a New Yorker" na personagem de Margarida Reis.
Tudo isto é grave, mas não tão grave como a inconsistência gráfica que rodeia o nome "Rogério Casanova". Se as pessoas insistem em não colocar aspas à minha volta (o que acho inconcebível), o mínimo que podiam fazer era mostrar um bocadinho de criatividade; como o Lourenço, por exemplo, que insiste em chamar-me Rodrigo Casanova (sem aspas, mas com dignidade). Uma excelente passagem de ano para ele, e para todos vós, são os meus votos, diria, quase ardentes.

(Por falar em Lourenços: o Claxon não é um primo afastado, não?)

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Cold turkey



Gosto muito de David Cronenberg. Sempre gostei, mais até do que seria razoável gostar de qualquer canadiano (atravesso um problema semelhante com algumas bandas recentes). E todos aqueles que, como eu, encontram pacatas epifanias em metáforas toxicológicas, já devem ter reparado no seguinte: Cronenberg é um canadiano que, artisticamente falando, não se mete nas drogas. O que nunca impediu alguns dos seus filmes mais antigos de serem descritos como "alucinatórios", como se o homem andasse por aí a impingir ácido às crianças
Quando o abdómen de James Wood se transforma numa vulva para ler VHS, ou a máquina de escrever de Peter Weller começa a mexer as antenas e a falar, não estamos no meio do deserto com os xamãs de Oliver Stone, nem sequer no domínio lúdico do "surreal" (outro termo crítico tão escorregadio que é impossível agarrá-lo sem expor o derrière aos sodomitas semânticos), mas sim numa espécie de realidade intensificada. Nas mãos de outro realizador, essas cenas seriam fragmentos etéreos, observados ao ralenti, através de uma névoa de mescalina. Cronenberg arregaça as pálpebras e salpica tudo com diluente. Se há uma analogia tóxica a utilizar, esta não envolve drops ou cogumelos, mas sim o processo de desintoxicação. A imaginação visual de Cronenberg sempre foi a do ex-alcoólico: aquele que não toca numa gota há anos, e cujos sentidos assimilam tudo com a clareza suja da privação. Isto, pelo menos, é a maneira como as coisas se me afiguram nesta quadra festiva.
Eastern Promises, apesar do meticuloso esforço de Vincent Cassell para estragar todas as cenas em que entra, é um grande filme. Aquele fotograma, que encontrei por pura sorte num site francês, é da minha sequência preferida, a primeira visita da enfermeira ao restaurante. É um momentozinho de nada, antes das tatuagens à Caravaggio, da gorjeta iconográfica, do wrestling na sauna: a caminho da cozinha, o personagem de Mueller-Stahl faz uma pausa para corrigir o ensaio musical das duas crianças, e Naomi Watts fica ali especada no enquadramento, à vontade uns trinta segundos, alheada da cena, sem sequer representar.
Naomi Watts a fazer de figurante enquanto um mafioso careca de avental toca violino: isto sim, é cinema. Ou, pelo menos, é a maneira como as coisas se me afiguram nesta quadra festiva.

Ali v Frazier

«(. . .) the feud is escalating into philosophy's equivalent of a prize fight between two former colleagues who are both among the showiest brawlers in the philosophy dojo. In one corner is McGinn, 57, West Hartlepool-born professor of philosophy at the University of Miami, and the self-styled hard man of philosophy book reviewing. In the other corner is Honderich, 74, Ontario-born Grote Professor Emeritus of the philosophy of mind and logic at University College London, and a man once described by fellow philosopher Roger Scruton as the "thinking man's unthinking man". They are using all the modern weapons at their disposal - blogs, emails, demands for compensation from the academic journal that published the original review, an online counter-review, and an online counter-counter-review.
The heart of their dispute, though, may not be over intellectual matters at all, but about something one of them said more than a quarter of a century ago about the other's ex-girlfriend (of which more later).»


O resto aqui.