sexta-feira, fevereiro 08, 2008
A manchete do ano
Police: Crack Found in Man's Buttocks
(Via Language Log, naturalmente)
terça-feira, fevereiro 05, 2008
Uma semicolonoscopia ao Orlando
Isto deixou-me contentíssimo. Como tantas outras pessoas espalhadas por esse planeta fora, eu passo grande parte do meu tempo livre a fantasiar sobre o ponto e vírgula, e é sempre bom encontrar camaradas para o swing platónico. O ponto e vírgula é, com uma considerável vantagem sobre a concorrência, o meu sinal de pontuação favorito. Aliás, se fosse forçado a escolher entre o ponto e vírgula e os chocolates da Lindt, a decisão nem sequer seria problemática.
(E não é nada fácil de manusear, o ponto e vírgula; eu, por exemplo, nunca aprendi a fazê-lo; o que não me impede de continuar; a tentar).
Como qualquer alvo de obsessões, o ponto e vírgula tem a sua entourage, os seus cínicos detractores, e a sua biografia recheada de altos e baixos. A tragédia é concisamente relatada no canónico "The Rise and Fall of the Semicolon: English Punctuation Theory and English Teaching" de Paul Bruthiaux (disponível aqui, em ficheiro .pdf), onde aprendemos, por exemplo, que « . . . the popularity of the semicolon itself appears to have peaked in the eighteenth century, and its demise in the nineteenth century was almost as sudden and overwhelming as its rise to stardom had been two centuries earlier».
Para que serve, então, o ponto e vírgula no século XXI? As opiniões divergem. Donald Barthelme dizia que o ponto e vírgula é tão feio "como uma carraça na barriga de um cão". Lynne Truss, no seu divertido bestseller, alerta que o ponto e vírgula pode ser "perigosamente viciante", devendo ser usado com parcimónia, um pouco como uma carga policial, sempre que haja conflito entre vírgulas desordeiras. No meu caso específico, e isto fica só entre nós, o ponto e vírgula cumpre o mesmo propósito do par de tracinhos, ou da gaiola de parênteses: ostraciza por convenção o que eu não consegui conciliar por talento, e legitima graficamente o progresso soluçante daquilo que passa por raciocínio neste crânio fatigado. (Eu durmo muito pouco; é um problema sério).
Mas concentremo-nos antes em quem o utiliza com brio. Como é sabido por todas as pessoas que já tiveram o prazer de me aturar com uns copos a mais, cada sinal de pontuação tem o seu campeão literário. A vírgula tem Henry James, o ponto de exclamação tem Philip Roth, as reticências têm Thomas Pynchon, o ponto final tem
Para todos os admiradores do ponto e vírgula, o Orlando é um espectáculo quase pornográfico (e não apenas por ser o único clássico da literatura universal com nome de chulo algarvio): não há parágrafo que não coreografe duas, três, cinco dessas híbridas e adoráveis criaturas em kamasutricas acrobacias. Uma pessoa pode passar uma vida inteira a treinar-se no uso do ponto e vírgula para chegar ao Orlando e desfalecer de incompreensão. Eu sabia que se podia fazer isto a um ponto e vírgula; mas aquilo? É transtornante. O parágrafo seguinte, extraído ao segundo capítulo, está amparado por duplos e triplos sublinhados no meu exemplar, com uma trémula notinha na margem sugerindo humildemente "esta gaja passou-se":
«He now commissioned Mr Isham of Norfolk to deliver to Mr Nicholas Greene of Clifford’s Inn a document which set forth Orlando’s admiration for his works (for Nick Greene was a very famous writer at that time) and his desire to make his acquaintance; which he scarcely dared ask; for he had nothing to offer in return; but if Mr Nicholas Greene would condescend to visit him, a coach and four would be at the corner of Fetter Lane at whatever hour Mr Greene chose to appoint, and bring him safely to Orlando’s house. One may fill up the phrases which then followed; and figure Orlando’s delight when, in no long time, Mr Greene signified his acceptance of the Noble Lord’s invitation; took his place in the coach and was set down in the hall to the south of the main building punctually at seven o’clock on Monday, April the twenty–first.»
Parece-me por esta altura incontroverso que Virginia Woolf era completamente maluca no que diz respeito ao ponto e virgula. E como aquelas almas sôfregas que gostam tanto de marmelada que acabam por sublimar a sua pulsão num desenfreio fetichista, Virginia não traduziu o seu arrebatamento gráfico na delicadeza do gourmet. The lady liked it rough; a sua pontuação vem coradinha e ensopada em suor, como uma empregada doméstica num filme de Tinto Brass. O Orlando deve ter mais ponto e vírgulas por centímetro quadrado do que qualquer outra obra literária, mas ao iniciado só vai trazer um perplexo e transpirado desalento.
A melhor defesa do ponto e vírgula terá forçosamente de ser uma defesa utilitarista, e começar por estabelecer que, nas mãos certas, o ponto e vírgula reduz o trabalho de sapa do leitor. A mais lúcida argumentação nesse sentido foi feita por Henry W. Fowler, no clássico The King's English.
Para Fowler, a pontuação era um problema moral: «Any one who finds himself putting down several commas close to one another should reflect that he is making himself disagreeable, and question his conscience, as severely as we ought to do about disagreeable conduct in real life, whether it is necessary.»
Qualquer um dos quatro sinais de pontuação que denotam uma pausa (a vírgula, o ponto e vírgula, os dois pontos e o ponto final) difere dos outros quantitativamente. Todos estabelecem graus distintos de separação temporal, cujo valor é relativo e nunca absoluto. Cada sinal de pausa cumpre uma dupla função: lógica e retórica. A função lógica é clarificar as relações gramaticais entre os componentes da frase; a retórica está relacionada com questões de tom, ênfase e gestão rítmica. O trabalho do escritor deve então ser um trabalho diplomático, regulando as dependências entre orações, e adjudicando a sua importância relativa.
A tendência geral da literatura moderna tem sido para uma progressiva erradicação do ponto e vírgula. A esmagadora maioria dos escritores rege-se pelo que Fowler, com o seu inigualável talento classificativo, chama de "spot-plague principle": nunca usar outro sinal quando o ponto final serve. Isto, para Fowler, é moralmente catastrófico. Ele sugere antes o princípio do agrupamento, argumentando que «a style that groups several complete sentences together, by the use of semicolons, because they are more closely connected in thought, is far more restful and easy - for the reader, that is - than the style that leaves him to do the grouping for himself».
Virginia Woolf, como é hiperbolicamente claro para todos, seguiu uma terceira via: fetichizou o ponto e vírgula, e usou-o não para benefício do leitor, mas porque lhe dava na real gana. Estes modernistas; francamente; não respeitavam ninguém.
(Rapida, superflua, mas seriamente: entre os bloguers que leio, os que melhor utilizam o ponto e vírgula são o Ivan Nunes, o Mexia e o maradona. Este último, aliás, tem lá uma utilização exemplar da combinação "ponto e vírgula/dois pontos", por enquanto não-apagada, mas que merece ser aqui resgatada à efemeridade:
Não insinuo que o Henrique Raposo mereça as mesmas vilanias que a minha espectacular pessoa; com alguma arrogância, arrisco apenas que, em certo e muito restrito sentido (que espero, tantos posts depois, já evidente para todos), o Henrique Raposo exista neste mundo como se fosse a minha alma gémea do irmão que nunca tive (muito embora eu não possa ser considerado, tecnicamente, um anão): um gajo que, se fosse primeiro-ministro, nada disto acontecia.
Garanto-vos que, se virasse o olho cego à gramática, o Fowler aprovaria.)
sábado, fevereiro 02, 2008
James Joyce flash interview
* * *
Repórter: James Joyce, boa noite. Antes de mais, parabéns. Foi um parágrafo importante?
Joyce: Sem dúvida. Todos os parágrafos são importantes, mas era crucial para nós completarmos este parágrafo. Sabíamos de antemão que iríamos encontrar um ambiente complicado, mas trabalhámos a semana inteira neste parágrafo, e acho que vimos hoje aqui os frutos desse trabalho.
R.: Está satisfeito com a atitude das suas palavras?
J.: Não tenho rigorosamente nada a apontar às minhas palavras. Hoje, como sempre, estiveram irrepreensíveis em termos de atitude, deram o seu melhor em prol do parágrafo, e agora há que continuar a trabalhar da mesma maneira até ao final do livro.
R.: Chegou a passar por algumas dificuldades. . .
J.: Hoje em dia, no Modernismo, já não há parágrafos fáceis. Temos de encarar todos com a mesma humildade. Mas julgo que, com muito trabalho, é possível criar as condições necessárias para sermos felizes.
R.: Surpreendeu muita gente ao não colocar a palavra “plutorpopular” logo de início, mas acabaria por trazê-la já na segunda metade do parágrafo. Porquê essa decisão?
J.: Ouça, eu trabalho com estas palavras há muito tempo, conheço-as melhor que ninguém. e as pessoas têm de entender que as minhas decisões, em termos de meter palavras no início, no meio ou no fim, são sempre tomadas em função das necessidades do parágrafo. A palavra “plutorpopular” correspondeu, trabalhou bem, mas comigo não há palavras indiscutíveis.
R.: Que comentários lhe merecem aqueles incidentes no final do parágrafo?
J.: Não sei a que “incidentes” se refere.
R.: Aquele “the spearway fore the spoorway” deixou algumas dúvidas a muita gente. . .
J.: Eu não quero entrar em polémicas, acho que vocês é que têm de comentar esse tipo de questões. O que eu acho é que a gramática terá talvez acusado algum nervosismo, o que é perfeitamente natural, e terá reagido a quente.
R.: Está a responsabilizar a gramática pelo incidente?
J.: Não vamos por aí, eu não estou a responsabilizar ninguém. A gramática é uma grande profissional, tem uma longa carreira, mas se calhar não está habituada a ser dominada desta maneira ao longo de um parágrafo inteiro. Como disse, acho natural que se tenha esse tipo de reacções a quente.
R.: Não sente que tem sido beneficiado pela crítica literária, especialmente a de pendor mais académico?
J.: Acho que só alguém com grande má-fé poderá fazer insinuações desse calibre. Já tive parágrafos muito prejudicados pela crítica literária, e qualquer análise isenta e imparcial vai mostrar que, se há alguém com razões de queixa da crítica literária, esse alguém sou eu.
R.: Vem aí já o próximo parágrafo. . .
J.: É um facto, mas vamos pensar parágrafo a parágrafo. É um livro longo, hoje ultrapassámos aqui um parágrafo difícil, agora há que descansar e, a partir de amanhã, começar então a trabalhar no próximo parágrafo, que também será muito dificil.
R.: James Joyce, obrigado, e boa noite.
J.: Obrigado eu. Boa noite.
Ele pegou numa concha para ilustrar a sua sem-abriguice

sexta-feira, fevereiro 01, 2008
Oswald was a fag
A não perder, em Março, no Pastoral Portuguesa, um exercício especulativo sobre a situação em que estaria Portugal caso Rui Ramos não tivesse escrito, na Atlântico de Fevereiro, um exercício especulativo sobre a situação em que estaria Portugal caso o Rei D. Carlos tivesse sobrevivido ao atentado de 1908.
A não perder, em Abril, no Pastoral Portuguesa, um exercício especulativo sobre a situação em que estaria Portugal caso o Pastoral Portuguesa não tivesse incluido, em Março, um exercício especulativo sobre a situação em que estaria Portugal caso Rui Ramos não tivesse escrito, na Atlântico de Fevereiro, um exercício especulativo sobre a situação em que estaria Portugal caso o Rei D. Carlos tivesse sobrevivido ao atentado de 1908.
terça-feira, janeiro 29, 2008
Claxon, Cortázar, Cabinda
But is this right? If by flatness we mean a character, often but not always a minor one, often but not always comic, who serves to illuminate an essential human truth or characteristic, then many of the most interesting characters are flat. I would be quite happy to abolish the very idea of "roundness" in characterisation, because it tyrannises us - readers, novelists, critics - with an impossible ideal. "Roundness" is impossible in fiction, because fictional characters, while very alive in their way, are not the same as real people. It is subtlety that matters - subtlety of analysis, of inquiry, of concern, of felt pressure - and for subtlety a very small point of entry will do. Forster's division grandly privileges novels over short stories, since characters in stories rarely have the space to become "round". But I learn more about the consciousness of the soldier in Chekhov's 10-page story "The Kiss" than I do about the consciousness of Waverley in Walter Scott's eponymous novel, because Chekhov's inquiry into how his soldier's mind works is more acute than Scott's episodic romanticism. (...)»
O artigo, que deve ser lido na íntegra antes que eu me irrite com vocês a sério, serve como aperitivo para o novo livro do senhor, que me vai ser entregue em mãos por um dos mais pontuais carteiros do Hemisfério Norte, no dia 11 de Fevereiro de 2008, às dez e vinte da manhã. Por falar em coisas que devem ser lidas na íntegra, este texto do Alexandre Andrade sobre Delmore Schwartz é a melhor e mais lúcida apreciação crítica não escrita por James Wood que li nos últimos tempos. O irritante biógrafo de Saul Bellow teimou em informar-me aqui há uns anos que Schwartz era o modelo para o poeta lunático de Humboldt's Gift («He was a wonderful talker, a hectic nonstop monologuist and improvisator, a champion detractor. To be loused up by Humboldt was really a kind of privilege. It was like being the subject of a two-nosed portrait by Picasso, or an eviscerated chicken by Soutine»). Agora que penso nisso, o programa de leituras integrais devia incluir também o Humboldt's Gift, mas eu não mando nas vossas vidas.
Nem na minha consigo mandar. Na semana passada, comprei um livro de Cortázar (Prosa do Observatório) naquele alfarrabista de esquina, perto da Biblioteca Nacional. Lá dentro - porque nunca comprei um livro de Cortázar em segunda mão que não viesse com brinde - achei um cartão de sócio do extinto Clube de Turismo do Atlântico, pertencente a um António Beato Teixeira e datado 29 de Janeiro de 1973. Nas costas do cartão, por motivos muito pouco claros, aparecem escritas a lápis as palavras "vai para cabinda". É este o estado de coisas: Deus dá-me instruções geográficas com 35 anos de atraso e através de livros baratos. E a minha sarça ardente, onde é que está?
Finalizando, queria dizer que isto, mesmo ajustado à inflacção, continua a parecer-me uma indiscutível pechincha:
segunda-feira, janeiro 28, 2008
domingo, janeiro 27, 2008
Artéria coronária direita
A artéria coronária direita tem agora várias opções: pode emitir ramos atriais na direção do átrio, obviamente; ou pode relembrar tantas alturas igualmente promissoras no seu passado que resultaram em infâmia, cataclismo, ou passeios à chuva; a artéria decide regressar ao frigorífico e tentar controlar o optimismo. Mas eis que!, meros dois minutos depois - antes até de o seu primeiro ramo atrial ter tido tempo para nutrir o átrio direito, circundando o óstio da veia cava superior - Izmailov quase interrompe este singelo processo, tornando toda a situação coronariamente insustentável. A artéria está incrédula. A artéria está atónita. A artéria tem de ir até ao quintal apanhar ar fresco.
quinta-feira, janeiro 24, 2008
The Golden Days of Mu
Se há algo em que as personagem de Portis são boas é a extrair um sentido de missão do mais puro caos, e a interpretar todo e qualquer imponderável como mais uma alínea no seu perplexo contrato com a realidade: «The sense of the message was obscure but there could be no doubt that the signal was genuine». O livro indecifrável é o Codex Pappus, um suposto repositório da antiga sabedoria dos Atlantes, e o texto fundador da Sociedade Gnómica. A natureza dessa sabedoria nunca é claramente definida, embora se depreenda que esteja relacionada com Geometria, Silêncio e Correntes Telúricas. Com a colaboração de um inglês chamado Sidney Hen, um organigrama da Sociedade vai sendo deduzido, com resultados previsivelmente enviesados. É assim que Jimmerson, um cabo do Corpo Expedicionário Americano, à deriva na Europa depois do final da I Guerra Mundial, se transforma no Primeiro Mestre Moderno do Novo Ciclo do Gnomonismo. Injectado com sangue novo, e simbolicamente renovado – o Mestre tem agora direito a usar o Cone do Destino e a empunhar o Ceptro da Correcção – o Gnomonismo faz o que fazem todas as fés alternativas: atravessam o Atlântico e vão procurar a prosperidade no único Continente não-afundado onde tudo, ideologicamente falando, continua a ser possível.
O esforço de implantação do Gnomonismo na América não tem um início auspicioso – Sydney Hen acaba mesmo por fundar uma Ordem alternativa – mas acelera com a entrada em cena de Austin Popper, a melhor personagem do livro, e talvez o mais inspirado golpe criativo da carreira de Portis. Popper é uma raridade – um mitómano inveterado e um populista genuíno, cuja demagogia nasce da sua irrevogável ingenuidade. É ele quem providencia os melhores e mais absurdos esquemas para levar o Gnomonismo às massas (o melhor é talvez uma fracassada manobra publicitária para reunir Jimmerson com Roosevelt, que culmina num périplo surreal pelo jardim zoológico de Washington); e é ele quem arrasta Jimmerson para uma calamitosa campanha para Governador do estado do Indiana:
«Mr. Jimmerson became agitated. It was such an incredible business and yet he had to admit that he liked the idea of being governor. Why not? Governors had to come from somewhere and it was his impression that more of them were elected by default, grudgingly, as the best of a poor lot, than by any roar of general approval. Who was the current one? Biggs? Baggs? Boggs? Bugg? But were people ready for a scholar? He thought not. They certainly weren’t ready for Gnomonism. But then it was not as though you had to meet some absolute standard of fitness; you just had to get a few more votes than the fellows who happened to be running against you at the time, each one defective in his own way. The country had been off the gold standard for years. You wouldn’t be running against George Washington, but only Baggs or Bugg. The swearing-in – that would be a grand moment. One hand on the Bible, the other raised, Fanny at his side. A solemn moment. Altogether a serious undertaking. Would he be a wise and serious ruler?»
Este soberbo monólogo interior demonstra o percurso mental típico de quase todas as criaturas que povoam o livro: do cepticismo ao entusiasmo em meia-dúzia de linhas.
Pode ser tentador ver em tudo isto uma sátira ao processo político americano, mas Portis não é esse tipo de escritor. O impulso satírico é sempre didáctico, e a sua fórmula cómica essencialmente estática e situacional: olhem para aqui e vejam como isto é ridículo; agora olhem para ali e vejam como aquilo é ridículo. Portis não é um artista de visão correctiva, mas de observação detalhada, e as suas criações não são os “tipos” do escritor-pedagogo nem os “grotescos” dos sulistas americanos, mas sim os excêntricos, reféns de uma sociedade que recusa aceitar a sua grandeza. Masters of Atlantis é, ao nível mais básico, uma espectacular coleccção de miniaturas humanas, animada pelo talento ventríloquo de Portis e pela sua capacidade para a empatia.
E se a montagem artificial do cânone Gnomonista, bem como a interminável sucessão de cismas e alianças dentro da Sociedade, parecem representar uma alegoria fácil sobre a forma como o conhecimento religioso vai sendo consolidado e institucionalizado, convém que o leitor ceda à tentação de adoptar a paranóica destreza hermenêutica dos personagens. Portis cancela quaisquer paralelos possíveis, deixando bem claro que os Gnómicos vão existindo fora do mundo, navegando à ilharga do século americano na jangada da sua insanável credulidade. Num certo sentido, quase todos os protagonistas de Masters of Atlantis são niilistas falhados (os iniciados Gnómicos são aconselhados a evitar transacções com os quatro Pês: «politicians, the press, the police and the Pope»). Com as categorias de percepção deformadas pela sua aversão congénita à matriz oficial da História, aprendem a respeitar apenas um passado irrecuperável, a desconfiar do presente e a cambalear cegamente na direcção do futuro. A sede genuína de conhecimento é saciada no escuro, onde os voluntariamente excluídos vão tacteando em busca de sistematizações próprias e de uma forma muito peculiar de comunhão. Não querendo acreditar em nada, acabam por acreditar em tudo.
Portis é particularmente bom a condensar o potencial cómico do autodidacta: a informação semi-digerida, os ziguezagues epistemológicos, as especulações anárquicas_
«Golescu became louder and more assertive, revealing himself as an independent thinker. Charles Darwin, he said, had bungled his research and gotten everything wrong. Organisms were changing, it was true enough, but instead of becoming more complex and, as it were, ascending, they were steadily degenerating into lower and lower forms, ultimately back to mud. In support of this he cited the poetic testimony of Hesiod, and gave the example of savages with complex languages, a vestige of better days. He had dubbed the process ‘bio-entropy’ and said it could clearly be seen at work in everyday life. One’s father was invariably a better man than one’s self, and one’s grandfather better still. And what a falling off there had been since the Golden Days of Mu, when man was indeed a noble creature.»
A ascensão e declínio da Sociedade Gnómica é contada em menos de 250 páginas. Na derradeira – e fabulosa – secção do livro, uma reunião é orquestrada entre as facções dissidentes (num “trailer park” texano, naturalmente). O Grande Templo de granito e mármore, palco dos escassos dias de glória do Gnomonismo, desabou num apocalipse financeiro de proporções Atlantes, e o novo Templo é agora o Cape Codder, uma caravana topo-de-gama com «cathedral roof and shingles of incorruptible polystyrene».
Actores falhados, imigrantes ilegais, e os dois Mestres, Jimmerson e Sydney Hen (finalmente reconciliados, e passando os dias em silenciosa ponderação à beira do golfo do México) participam num festivo jantar de Natal, onde se trocam votos optimistas e hipóteses de regeneração. As Correntes Telúricas são fortes. Um dos personagens propõe um brinde, afirmando muito correctamente: «This is the best party I’ve ever been to!».
(Foi só à procura do link na Amazon que descobri mais um membro do restrito círculo de fãs de Charles Portis: Stephen Malkmus, o gajo dos Pavement. Precisam de mais recomendações?)
terça-feira, janeiro 22, 2008
Everybody loves Marion
Quando muito, quando muito, quando muito, poder-se-à ter notado alguma irritação mal-direccionada pelo facto de o True Grit, que, no original, era a história de Mattie, ter sido transformada na história de John Wayne. Mas acho que nem isso se notou, sinceramente, dada a minha inexcedível capacidade para a ofuscação. Por exemplo, vejam este gatinho:
segunda-feira, janeiro 21, 2008
Este livro está disponível na Fnac do Chiado (alguém deve ter cometido um erro) e vocês estão aí sentados a ler blogues

O Denis Dutton anda a encolher o mundo
sábado, janeiro 19, 2008
O rei das cenouras interiores

(Neutral Milk Hotel, «The King of Carrot Flowers, Pts. 2 & 3)
Foram dias difíceis, mas, graças a mirabolantes doses de sangue-frio e a um intrincado sistema de superstições (que envolveu peúgas desirmanadas, um babete que me acompanha desde o Colégio São Miguel Arcanjo, e um ícone de Nossa Senhora de Fátima que já não me lembro onde roubei), lá consegui reunir as condições necessárias para voltar a usar este espaço. Espero que os mais cínicos entre vós não venham com argumentos aborrecidamente literais para questionar o inquestionável: o meu mérito pessoal em tudo isto. Parece-me evidente que o Sporting não tem, nesta altura, o plantel necessário para golear um clube que joga apenas três escalões abaixo do seu sem a minha colaboração activa.
Se o Sporting não ganhar ao Porto comprometo-me a ler na íntegra aquele livro do José Rodrigues dos Santos sobre filatelia, e a postar aqui um exaustivo relatório no prazo máximo de sete dias úteis após o apito final. Eu sou assim, miúdas, vivo no limite.
quinta-feira, janeiro 10, 2008
Thing fall apart
(Led Zeppelin, «It's a Stairway alright, but it doesn't lead where you think»)
Confrontado com situações que me fazem perder a fé, o que normalmente costumo fazer é tocar discos dos Led Zeppelin de trás para a frente, à escuta de mensagens satânicas. Foi o que fiz ontem à noite. As vozes disseram-me para eu interromper o blogue até o Sporting voltar a ganhar um jogo, e eu vou fazer o que as vozes me dizem. A caixa de comentários fica aberta. Tema livre.
terça-feira, janeiro 08, 2008
A Daucus carota dentro de cada um de nós
Lost in frustration
Não sei, também não fiquei nada convencido.
«I seem to be leaking. But I have this rare bladder condition. OK?»
«I Hailed to the Thief. But I think In Rainbows was a piss take. OK?»
«I saw two nuns kissing. But I'm trying to be mature about it. OK?»
«I feel like conceiving. But I lost both my nuts in Da Nang. OK?»
«My kitchen needs cleaning. But I'm not pressuring you into it. OK?»
«I'm sorry to be wheezing. But I've been smoking Camels since birth. OK?»
Não sei, não sei.
segunda-feira, janeiro 07, 2008
Os leitores do Abrupto não escrevem coisas assim
Um preto a fazer surf é coisa que não vê todos os dias, até porque eles têm um medo instintivo da água. E o nome soa demasiado a Obama Bin Laden. Teria mais sorte se se chamasse Zippy Chippy.
14:58
Anónimo said...
ó lb pensa que o surf é uma velha tradição nórdica?
18:57
LB said...
Claro. Quem não conhece o grande big wave rider do século IX, Haklang Skáldaspillir Rauða?
12:53
dude said...
Toda a gente sabe que o Haklang Skáldaspillir Rauða era do bodyboard.
15:37
cj said...
Quanto ao surf, têm os dois uma certa razão, já que o dito desporto teve como principal impulsionador Duke Paoa Kahanamoku (havaiano), quando foi campeão olímpico de natação nos jogos olímpicos de... Estocolmo e se assumiu como surfista (um sair do armário, à época)
18:51
Vas Copulido said...
(. . .) Vou agora dedicar-me a estudar a biografia do senhor Haklang Skáldaspillir Rauða. O comentário deixado por cj recordou-me um trabalho dos tempos de juventude, sobre a vida e obra de Gunnlæif Ingulbjörn Viðförla, essa figura mítica que lançou as bases do que hoje conhecemos como kitesurf e também ele nadador olímpico nos Jogos de Estocolmo e que mais tarde veio a ser vereador da cultura em Harstad, Ostergötland. Faleceu em 1972, infelizmente.
20:13
cj said...
Obviamente com o contributo do seu discípulo, muitas vezes esquecido, Æskil Iogæir Sturlubók, cujo fim foi bem mais enigmático, ao decidir deambular pelas ilhas do pacífico sul em busca do aperfeiçoamento da adaptação da vela à prancha e, ao que consta, muito próximo de Marcel Mauss, tendo influência, inclusive, na observação do potlatch e na teoria da troca desenvolvida pelo citado, que deu origem ao famoso ensaio sobre a dádiva.Regressou depois à Europa com este, vivendo os seus últimos dias em Saint-Tropez, com graves perturbações psíquicas, derivadas do uso prolongado do chá de um cacto alucinogénico das ilhas, mas de modo confortável, já que uma velha baronesa se apaixonou pelas suas aventuras e, não tendo herdeiros lhe deixou em herança a sua fortuna, a qual foi doada, em 1977, ano da sua morte, a Gilbertus Panhuise, que obteve a patente, usando uma prancha de windsurf.
22:59
Talvez o blogue com o melhor conjunto de caracteres da blogosfera
Já o do Zé Mário tem bês a mais. Os estranhamente monotemáticos «Tia! Bebi o licor de Babel!» e «Bobó! Bebi leite radical!» foram mesmo o melhor que consegui arranjar. Bobó, de seu nome completo Mamadu Bobó Djalo era um antigo médio do Boavista. Creio que desempenha actualmente funções na equipa técnica do mesmo clube, mas não tenho a certeza.
Eu no fundo até nem sou má pessoa
(Dedicado à minha tolerante prima Ana, a quem me esqueci de comprar prenda de Natal)
Juro que não fui eu quem começou o boato
Publikumsbeschimpfung
(João "offending the audience" Coutinho)
domingo, janeiro 06, 2008
"Arranja um emprego"

Existe um espaço no Second Life dedicado a Pierre Bourdieu. Tanto quanto sei, ainda não existe nenhum dedicado a Luiz Pacheco, um homem simples e regrado, que morreu ontem, creio que pela primeira vez, e que, tal como eu, classificava os amigos em categorias muito pertinentes (cf. "O Homem que Calculava" in Exercícios de Estilo).
sexta-feira, janeiro 04, 2008
Surf or nap?


(Apontamentos extraordinariamente úteis sobre o quiz de Vasco Pulido Valente: duas das citações (a de Vespasiano e a de Catão, o Velho) vêm no Suetónio; creio que a forma correcta é "sheep's clothing" e não "sheep's clothings"; o Catch-22 é muito menos engraçado do que julguei; Hans Johst tem as costas muito estreitas; tirando a do Candide, não consegui identificar nenhuma das citações em francês ("nem a do Madame Bovary??", como perguntou incredulamente um amigo irritante); não sei quem é o S. M. que foi comer uma merenda a Belém, mas se foi ao cafézinho em que eu estou a pensar, cometeu um grande erro.
A longo prazo, tendo a aborrecer-me com os políticos que me entusiasmam, e a entusiasmar-me com os que me aborrecem.)
Black Narcissus

(Porn poker: I see your lipstick and I'll raise you a Bible)
Claxon
(Um leitor parcialmente identificado teve a amabilidade de me enviar a imagem que faltava a um post ali em baixo. Não sendo fácil resistir à tentação de voltar a mencionar James Wood, cabe-me informar que um princípio ideológico normalmente não-negociável vai ser subvertido e que, nos próximos meses, vai vigorar neste blogue um sistema de quotas: James Wood vai ter direito, no máximo, a três citações mensais, e o Julinho a duas. Estas não contam; e se deixasse isto à mão invisível, acabava por não citar mais ninguém. Entretanto, esta campa deve estar neste momento a ser palco de incrédulas e acrobáticas contorções, mas isso é outro post, certamente, e não este. Tenho de começar a pôr ordem nisto dos posts.)terça-feira, janeiro 01, 2008
Isaac, the tailor
Houve sobriedade em abundância na RTP2, que passou a versão heterossexual de Brokeback Mountain, também conhecida pelo título original As Pontes de Madison County. Ao longo de um interminável flashback, foi sobriamente demonstrado que Meryl Streep era uma mulher e que Clint Eastwood era um homem. Nenhum deles era um cowboy hermafrodita alcoólico, facto que teria porventura resultado num filme mais imprevisível.
A RTP1 decidiu inovar. O conceito era "comédia em directo". Os executantes eram os Gato Fedorento. O shtick era "réveillon dos anos 80". Precedendo o programa propriamente dito, um especial de 45 minutos revelou a cornucópia de meios técnicos necessários para que "a comédia" pudesse acontecer "em directo". Um operador de câmara confidenciou à repórter de serviço que o seu equipamento tinha uma extensão de nove metros e pesava uma tonelada, mas disse-o num tom demasiado sóbrio para o efeito brejeiro desejado.
Grande parte do impacto inovador foi amortecido pela espionagem industrial da SIC e da TVI, que decidiram também elas transmitir em directo programas de humor com uma forte atmosfera anos-80, traiçoeiramente camuflados de concursos do século XXI. Se os Gatos tinham na manga um trunfo internacional chamado Sabrina (uma irónica e pós-moderna referência cultural para pessoas com 3 ou 4 anos a mais que eu), a TVI sacou de um astro chamado Isaac Alfaiate, um jovem saído de um conto de Bernard Malamud, que rapidamente se impôs como a grande estrela da noite.
Presos a um formato que não os beneficia (o sofá, e falo por experiência, não potencia a excelência criativa), os Gatos fizeram o seu melhor, mas a imaginação por detrás dos sketches da TVI era claramente superior. Isaac Alfaiate, ainda assombrado por memórias de Buchenwald, e acompanhado por outro personagem de nome "João Cajuda", lançou-se numa elaborada rotina chamada "Cama Elástica", que consistia em estar aproximadamente oito minutos aos saltos em cima de uma cama elástica. Júlia Pinheiro tentou pôr as coisas em perspectiva: "Já alguma vez tinhas saltado em cima de uma cama elástica?" "Não, nunca", confessou Isaac. "De uma cama normal já, mas de uma cama elástica, nunca". "Como é que foi?", perguntou Júlia, curiosa. "Não tenho palavras", explicou Isaac, eloquente.
sábado, dezembro 29, 2007
Agradeço a P. o seu negrito, mas também

O verdadeiro James Wood é este senhor_

_ que nesta imagem específica foi apanhado a fazer, não crítica literária para a New Yorker, mas sim uma mímica quase-perfeita daquele actor português que interpretou o detective privado Claxon, e que também entrou no Major Alvega. Graças à IMDb, descobri que o senhor se chama António Cordeiro, informação que se viria a revelar inútil na demanda de uma imagem sua de tamanho blogável. A introdução dos termos de busca "António Cordeiro" no Google Images levou-me à página da cidade brasileira de Congonhas, a um site sobre Antonio Gramsci, e a inúmeras ilustrações de modelismo náutico, mas, para grande desilusão minha, a nenhum retrato icónico de António Cordeiro, de sobretudo e fedora cinzento, "fazendo crítica literária para a New Yorker" na personagem de Margarida Reis.
Tudo isto é grave, mas não tão grave como a inconsistência gráfica que rodeia o nome "Rogério Casanova". Se as pessoas insistem em não colocar aspas à minha volta (o que acho inconcebível), o mínimo que podiam fazer era mostrar um bocadinho de criatividade; como o Lourenço, por exemplo, que insiste em chamar-me Rodrigo Casanova (sem aspas, mas com dignidade). Uma excelente passagem de ano para ele, e para todos vós, são os meus votos, diria, quase ardentes.
(Por falar em Lourenços: o Claxon não é um primo afastado, não?)
quinta-feira, dezembro 27, 2007
Cold turkey

Gosto muito de David Cronenberg. Sempre gostei, mais até do que seria razoável gostar de qualquer canadiano (atravesso um problema semelhante com algumas bandas recentes). E todos aqueles que, como eu, encontram pacatas epifanias em metáforas toxicológicas, já devem ter reparado no seguinte: Cronenberg é um canadiano que, artisticamente falando, não se mete nas drogas. O que nunca impediu alguns dos seus filmes mais antigos de serem descritos como "alucinatórios", como se o homem andasse por aí a impingir ácido às crianças
Quando o abdómen de James Wood se transforma numa vulva para ler VHS, ou a máquina de escrever de Peter Weller começa a mexer as antenas e a falar, não estamos no meio do deserto com os xamãs de Oliver Stone, nem sequer no domínio lúdico do "surreal" (outro termo crítico tão escorregadio que é impossível agarrá-lo sem expor o derrière aos sodomitas semânticos), mas sim numa espécie de realidade intensificada. Nas mãos de outro realizador, essas cenas seriam fragmentos etéreos, observados ao ralenti, através de uma névoa de mescalina. Cronenberg arregaça as pálpebras e salpica tudo com diluente. Se há uma analogia tóxica a utilizar, esta não envolve drops ou cogumelos, mas sim o processo de desintoxicação. A imaginação visual de Cronenberg sempre foi a do ex-alcoólico: aquele que não toca numa gota há anos, e cujos sentidos assimilam tudo com a clareza suja da privação. Isto, pelo menos, é a maneira como as coisas se me afiguram nesta quadra festiva.
Eastern Promises, apesar do meticuloso esforço de Vincent Cassell para estragar todas as cenas em que entra, é um grande filme. Aquele fotograma, que encontrei por pura sorte num site francês, é da minha sequência preferida, a primeira visita da enfermeira ao restaurante. É um momentozinho de nada, antes das tatuagens à Caravaggio, da gorjeta iconográfica, do wrestling na sauna: a caminho da cozinha, o personagem de Mueller-Stahl faz uma pausa para corrigir o ensaio musical das duas crianças, e Naomi Watts fica ali especada no enquadramento, à vontade uns trinta segundos, alheada da cena, sem sequer representar.
Naomi Watts a fazer de figurante enquanto um mafioso careca de avental toca violino: isto sim, é cinema. Ou, pelo menos, é a maneira como as coisas se me afiguram nesta quadra festiva.
Ali v Frazier
The heart of their dispute, though, may not be over intellectual matters at all, but about something one of them said more than a quarter of a century ago about the other's ex-girlfriend (of which more later).»
O resto aqui.

