terça-feira, fevereiro 19, 2008

domingo, fevereiro 17, 2008

Eu podia ser o Karl Rove da minha geração

Ando há meses a acompanhar o processo eleitoral americano sem perceber como é que ainda ninguém se lembrou de utilizar uma estratégia de ataque baseada na anagramática, Haverá algum método mais eficaz de enlamear um candidato do que misturar as letras que compõem o seu nome? Enfim, eu sempre estive muito à frente do meu tempo.
A verdade é que não há assunto de campanha que não possa ser analisado com este processo. Os candidatos podem ofuscar o melhor que quiserem durante os debates e discursos, mas ninguém engana o alfabeto. Vejamos, a título de exemplo, as preocupantes posições devolvidas pela selecção de caracteres "PRESIDENT BARACK OBAMA":

Personalidade - O humor sádico e colegial de Obama está a ser bem dissimulado pelos seus assessores, mas as letras não deixam dúvidas sobre o que podemos esperar assim que ele ganhar as eleições: "PRANK! I BECOME A BASTARD."

Economia - "MARKET ABSORBED A PANIC" dá alguns indicadores positivos, mas não nos deixemos enganar com tanta facilidade. A verdade é que, com Obama na Casa Branca "AMERICA'S A PRO-DEBT BANK", o que deve ter um significado sinistro para quem perceba alguma coisa de economia, o que não é o meu caso.

Cultura - O crime associado às diabólicas letras de hip-hop é, como sabemos, um dos grandes flagelos do nosso tempo. Impossível, portanto, depositar grande confiança num presidente cujo próprio nome parece apoiar implicitamente este estado de coisas: "RAP IS BARENAKED COMBAT".

Política Externa - Tal como já foi apontado por muitos comentadores astutos, Barack é um hawk disfarçado. As letras confirmam o modelo estratégico que ele pretende seguir: "RAMBO'S RECIPE DATABANK"

Valores Familiares - Talvez a categoria com sinais mais preocupantes. Uma presidência de Obama transformará a América numa autêntica Sodoma, onde estrelas hollywoodescas desnudadas vão percorrer os bosques à procura de veados fofinhos para violentar. Isto não é uma hipérbole, é a verdade literal: "NAKED ACTOR RAPES BAMBI". Talvez ainda mais perturbante é a sugestão de que um clone maligno do Pai-Natal poderá destruir um sagrado emblema da inocência universal: "MOCK SANTA RAPED BARBIE!" é a manchete que podem esperar um dia.
Mas não me restam dúvidas de que é este o tipo de acto que se vai generalizar numa presidência Obama, cuja natureza será talvez melhor encapsulada num último anagrama: "A BAD, OBSCENE KARMA TRIP".

***

As coisas não melhoram quando viramos a nossa atenção para a outra candidata Democrata; os caracteres presentes em "PRESIDENT HILLARY CLINTON" contam uma história ainda mais assustadora:

Competência e intelecto - A capacidade intelectual e o domínio dos factos são dois dos pilares em que assenta sua reputação. Um único anagrama chega para contrariar essa concepção, descrevendo com exactidão as suas faculdades mentais: "TINY PARIS HILTON NERD CELL"

Personalidade e Governação - "HELL TRIP ON SINCERITY LAND" é talvez o resumo mais apto do estilo de governação que podemos esperar de Hillary Clinton, que no fundo é "ONLY HITLER'S PLACID INTERN", e cujo discurso de inauguração promete ser um "ILL-PLANNED HYSTERIC INTRO"

Alimentação e Saúde Infantil - alguns indicadores enigmáticos parecem confirmar que o regime vai incluir uma grande dose de importações da China e Itália, com refeições de "TORTELLINI AND SPRY LICHEN" dando gradualmente lugar a uma dieta de "CHINA'S DINNER PILL LOTTERY", que não consigo descodificar, mas que me parece indubitavelmente perversa. O preconceito anti-criança de Hillary é indisfarçável, de resto, e amplamente confirmado pelas suas "LONELY ANTI-CHILDREN TRIPS", que só surpreendem quem não conhecer a sua opinião sobre os pais: "I LYNCHED A TRILLION PARENTS".

Valores Familiares - Consegue superar o carnaval babilónico de uma presidência Obama. Apesar das suas imaculadas credenciais de feminista radical ("DRY THRILL ANTI-PENIS CLONE"), e de haver, perdoem-me a franqueza, "PLENTY LAND IN HER CLITORIS", não podemos esquecer que uma presidência Hillary devolverá a Pensylvannia Avenue o seu mais dissoluto inquilino, Bill Clinton, ou, se preferirmos, "LADY HITLER'S CLIENT IN PORN", que já deve ter nomeado uma estagiária para efectuar "THE ORALLY INCLINED SPRINT" na sua direcção.

Os indícios são aterradores, mas o Partido Republicano ainda vai a tempo de impedir o Apocalipse. O meu mail está ali, do lado direito da página.

Fucking ourselves out com Pedro Arroja


(Contemporary Portugal)

Combater a artrose com Vasco Barreto

Provavelmente a forma mais eficaz de começar um post sobre extractos bancários

sábado, fevereiro 16, 2008

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

12 palavras

A Bomba, o maradona e o senhor arquitecto (ordem cronológica) imploraram-me que revelasse aqui as minhas doze palavras preferidas, o que não me parece nada razoável, pelo que vou revelar apenas sete:

bababadalgharaghtakamminarronnkonnbronntonnerronntuonnthunntrovarrhounawnskawntoohoohoordenenthurnuk. Aparece logo no início de Finnegans Wake, uma prolongada sessão de sodomia sintáctica a que me submeti durante quase vinte e oito páginas (aleatórias, incompletas e dolorosas). O livro conta - enfim, acho eu - a história de Humphrey Chimpden Earwicker, um pobre diabo irlandês que passa grande parte da sua vida a ser espancado por ferozes gangues de substantivos compostos. A comovente palavra que transcrevo, quando vertida de joyciês para terráqueo, significa "trambolhão".

Ex-namorada. Estrutura orgânica na qual substâncias como "orgulho" e "auto-estima" são arrefecidas, divididas, e reduzidas às suas mais encarquilhadas moléculas.. A ex-namorada é frequentemente encontrada no outro lado de um canal comunicativo analógico, em noites de bar aberto. As suas propriedades nunca foram rigorosamente catalogadas, embora teólogos medievais tenham especulado que estas incluem a intangibilidade, a omnipotência, e a vozinha irritante.

Aforismo. Um bom aforismo deve ter apenas uma frase. Uma segunda frase costuma estragar tudo. (Os que incluem uma terceira entre parênteses são um descalabro).

Ronaldo. Palavra inscrita em cédulas de nascimento e, posteriormente, através de um complexo algoritmo, convertida em vídeos do YouTube.

Punhal. Metáfora diligente e flexível, periodicamente depositada entre as omoplatas de líderes do PSD.

Lol. Termo arcaico, muito usado na lírica Camoniana de pendor mais misógino, e que alude às propriedades cómicas de um indivíduo e/ou situação. Exemplo: "Ah, minha Dinamene, que encobres o Sol!/ Com tuas larachas desprovidas de lol."

Qualquer advérbio de modo terminado em -mente. Inquestionavelmente eficaz para prolongar artificialmente uma frase embaraçosamente curta.

Escafandro. De todas as palavras que não são insultos, "escafandro" é a melhor qualificada para ser um insulto.

Vaivaivaivaivaivai. Em microeconomia, é o vocábulo arremessado na direcção de um cavalo, numa tentativa desesperada de o fazer correr mais depressa. Deve ser acentuado em todas as sílabas. Costuma estilhaçar-se no momento do impacto, alterando dramaticamente a qualidade de vida do utilizador.

Technorati. Palavra derivada do calão Fenício para "mercador cujas bugigangas gozam de sucesso considerável entre os Hititas". Designa actualmente o instrumento utilizado para medir a relevância ontológica de um sujeito X, em relação a um padrão abstracto Z denominado, por convenção, "Pacheco Pereira".

Pessoa. Talvez a minha palavra preferida. A pessoa é uma composição química patenteada por uma divindade hebraica há cerca de seis mil anos atrás, e tentativamente replicada por um reduzido naipe de peritos nos momentos que se seguiram à Criação. O grande sucesso comercial das pessoas entre as pessoas previamente existentes abriu as portas à liberalização do mercado de pessoas, com o desmantelamento da regulação opressiva que impedia a produção de pessoas em larga escala. Apesar destas medidas, chegou-se a uma situação em que a oferta se revelou incapaz de corresponder à procura; as pessoas queriam cada vez mais pessoas e não havia pessoas suficientes. Este facto, aliado à crescente rudimentarização dos processos técnicos envolvidos, declarou o óbito do profissionalismo metódico, apregoando a era do amadorismo e do do-it-yourself: as pessoas, muitas delas sem qualquer experiência na manufactura de pessoas, passaram a reunir-se com outras pessoas para fabricar as suas próprias pessoas, com as inevitáveis consequências ao nível da qualidade
Apesar de tudo, a pessoa continua a ser um produto muito desejado. Fazer pessoas, em particular, é hoje uma das actividades mais populares entre as pessoas que já cá estão.


É estipulado que a corrente seja passada a doze pessoas, o que não me parece nada razoável, pelo que a vou passar apenas a sete: ao Eduardo, ao Bandeira e ao Filipe Guerra.

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Curiosamente

Curiosamente, foi neste alfarrabista em Inverness que um dia encontrei um livro de Júlio de Mattos. Curiosamente, falei disso aqui, num post escrito há exactamente um ano.
Curiosamente, ainda não tinha visto isto, mas já começava a estranhar a inexistência de uma paródia ao vídeo mais eminentemente parodiável dos últimos tempos. O facto de John McCain conhecer Vince Vance e formular política externa com um refrão em Do e Sol é um eficaz afrodisíaco intelectual.
Mas, por enquanto, o meu endorsement não é oficial. Fico à espera de saber a opinião de Rui Santos, sem a qual eu nunca consigo tomar decisões em relação a nada, curiosamente.

A campanha está a ficar feia

Argumentum blogspoticum

O que aconteceu foi o seguinte:
Porque há alturas em que me parece que a vida pode ser um bocadinho mais do que costuma ser, passei hoje uns minutos a fazer experiências com algumas das funcionalidades do blogger, essa plataforma tão amistosa e injustiçada, e à qual tenciono permanecer fiel durante as décadas vindouras.
Ocorreu-me que nunca tinha escrito um post sem caixa de comentários e manipulei os controlos necessários para o poder fazer (não digo que tenha sido muito complicado, mas uma pessoa com insónia crónica aprende a celebrar estas pequenas vitórias). Intitulei o post "Um post sem caixa de comentários" - porque não gosto de enganar ninguém - mas percebi instantaneamente que não havia mais para escrever: o propósito do post estava cumprido, não era preciso acrescentar nada no corpo do dito. Portanto re-intitulei o post "Um post sem caixa de comentários e sem nada escrito no corpo do dito". As coisas estavam a correr bem, sentia-me bastante lúcido.
Depressa cheguei à conclusão que um post sem caixa de comentários e sem nada escrito no corpo do dito não necessita realmente de título, portanto retirei o título, tendo ficado apenas com uma data e uma assinatura. Uma data e uma assinatura, no contexto certo, podem ser tremendamente eficazes. Porém, depois de breve ponderação, acabei por decidir que assinar e datar o que é essencialmente um espaço em branco poderia ser mal interpretado, portando retirei também esses elementos do post - post esse que, por esta altura, já não retinha nenhuma das características que normalmente associamos ao conceito de post. O resultado está à vista: fui forçado a escrever um segundo post - este post: este - a explicar as características de um post prévio que as categorias de percepção dos leitores não vão registar, e que todas as evidências apontam não estar, pura e simplesmente, lá.
Este processo é conhecido como teologia.
Assumo que os infiéis entre vocês vão optar por concluír que o post nunca existiu, mas estão tragicamente enganados.

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

YouTubing

Resultados para a pesquisa "James Joyce reading Finnegans Wake": 1 (Não é fácil perceber tudo, por causa daquele cerradíssimo sotaque irlandês. Com o João Villaret a ler o mesmo texto, as coisas seriam totalmente diferentes)

Resultados para a pesquisa "João Villaret reading Finnegans Wake": 0 (infelizmente não há maneira de demonstrar a validade desse raciocínio)

Resultados para a pesquisa "James and Norah Joyce making sweet sweet love": 0 (típico; nunca há celebrity porn de jeito na internet)

Resultados para a pesquisa "Pulido Valente and Filomena Mónica making sweet sweet love": 0 (típico; etc, etc.)

Resultados para a pesquisa "kittens": 43900 (já nos gatinhos, há sempre muito por onde escolher)

Resultados para a pesquisa "kitten reading Finnegans Wake": 0 (desde que não esperemos milagres, obviamente)

Resultados para a pesquisa "kitten falling down": 44 (isto, por exemplo, está dentro do esperado)

Resultados para a pesquisa "Gerald Ford falling down: 3 (tal como isto, de resto)

Resultados para a pesquisa "kitten flying": 177 (isto já é algo surpreendente)

Resultados para a pesquisa "Gerald Ford flying": 4 (bem, o rácio apresenta alguns problemas)

Resultados para a pesquisa "kitten flying over Gerald Ford reading Finnegans Wake": 0 (isto sim, foi uma grande desilusão)

Resultados para a pesquisa "gravity explained": 87 (mas acaba por fazer sentido)

Resultados para a pesquisa "Jorge Sampaio discurso": 0 (aqui, receio que tenhamos chegado ao domínio do inexplicável)

Resultados para a pesquisa "paint drying": 580 (mas, enfim, há compensações)

Resultados para a pesquisa "Nixon playing the piano": 7 (desta, sinceramente, não estava nada à espera)

Resultados para a pesquisa "Nixon meets Elvis": 12 (ah, um grande momento histórico)

Resultados para a pesquisa "historical moment": 3900 (aliás, o YouTube está repleto de momentos históricos)

Resultados para a pesquisa "Miguel Garcia Alkmar": 2 (repleto, digo-vos)

Resultados para a pesquisa "Miguel Garcia reading Finnegans Wake": 0 (ocorreu-me; tinha de tentar)

Resultados para a pesquisa "Elvis is Alive": 501 (prosseguindo: creio que este dado é relevante)

Resultados para a pesquisa "Pontus Farnerud is alive": 0 (ainda mais relevante)

Resultados para a pesquisa "Carlos Freitas is alive": 0 (o café acabou mais ou menos nesta altura)

Resultados para a pesquisa "Nescafe": 1460 (nunca consegui perceber a diferença entre o Nescafé normal e o gold blend; acho que foram cinco anos de dinheiro mal gasto)

Resultados para a pesquisa "difference between regular and gold blend": 0 (uma questão que, pelos vistos, não preocupa a comunidade YouTube)

Resultados para a pesquisa "worries of the YouTube community": 37 (a comunidade YouTube tem trinta e sete preocupações declaradas, mas nenhuma delas está relacionada com os rótulos da Nescafé)

Resultados para a pesquisa "How not to waste your money": 288 (ainda assim, creio que não volto a comprar o gold blend)

Resultados para a pesquisa "this is a whole new level of time wasting": 1 (este valor é meramente simbólico)

Acordei cedo, fiz um cafézinho, vim ao YouTube, introduzi na caixa de busca a expressão "BOXING KANGAROO"

__ e, por incrível que pareça, só obtive 157 resultados. Este foi o mais satisfatório:

(Não quero que concluam da última frase que os vi todos: só os primeiros 20, se tanto, até porque muitos eram repetições. 157 é muito pouco. A segmentação dos mercados ainda não foi capaz de produzir um nicho de aficionados de "vídeos com cangurus pugilistas" facilmente identificável, e capaz de merecer maior etc., o que é, a todos os níveis, lamentável.)

.

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Derrick





Isto é absolutamente espectacular. Já não deve ser novidade para os que lêem o blogue do Sullivan, mas não resisti a espalhar a coisa.
Pensem bem no extraordinário azar do gajo do microfone: uma pessoa anda uma vida inteira a acumular desalento demográfico; a perder a fé numa adolescência que mal consegue assimilar o conceito de polissílabo; a construir pacientemente um paralisado clichézinho sobre o apoiante-padrão de um político que apela a uma espécie muito particular de idealista choné. Dá-se depois ao trabalho de ir a um comício para confirmar o caos; de nomear uma vítima escolhida a dedo - artefacto suspeito ao pescoço e tudo - para exemplificar o declínio da civilização; e no final deste processo desgastante sai-lhe essa ave rara: alguém mais informado e eloquente do que ele próprio. A gradual mudança de atitude do entrevistador - do armadilhante desprezo à admiração relutante, mas genuína - é uma coisa bonita de se ver, e ilumina melhor a essência do "movimento Obama" do que aquele embaraço dissonante que é o clip do "Yes We Can".
Se isto continua assim, ainda encomendo um pin.

(Continuo a gostar muito de McCain, e a ter impecáveis credenciais de cínico. Mas um homem não é de ferro.)

Roll your Pazuzu-eyes for the Gipper



Este artigo de Paul Waldman na Prospect americana - bastante satisfatório, apesar da quase escandalosa ausência de [ponto-e-vírgulas/pontos-e-vírgula/alguém me ajuda?] - apresenta o argumento estatístico mais esotericamente rebuscado que vi nos últimos tempos. Para demonstrar aquilo que é basicamente uma benigna evidência - a Reaganolatria do movimento conservador - Waldman sai-se com esta: «according to the Social Security Administration, Reagan was the 155th most popular name in America for girls in 2006».
Não duvido que muitos bebés nesta nossa galáxia tenham sido baptizados em homenagem a Ronald Reagan; um deles, como é sabido, foi criado num laboratório da Madeira e vive hoje em Manchester. Mas não se vai buscar o centésimo quinquagésimo quinto posicionado numa lista para reforçar positivamente um argumento. O centésimo quinquagésimo quinto posicionado numa lista não deve servir para mais nada, a não ser para ocupar o espaço livre entre o centésimo quinquagésimo quarto e o centésimo quinquagésimo sexto.
Até porque o resto da lista, analisada sob essa pespectiva Waldmaniana, devolve indicações bem mais intrigantes. O terceiro nome mais popular - para raparigas, atenção - foi Madison. Madison meus amigos; uma geração de raparigas chamadas Madison. Já o nome Hamilton não aparece sequer nos primeiros 500 lugares. Segundo o método-Waldman isto prova estatisticamente que o debate entre Federalistas e Anti-Federalistas continua a ser encenado em maternidades e registos civis por essa América fora.
A baça e desinteressante verdade, claro, é que a persistente popularidade onomástica de Madison não se deve ao campeão dos states'-rights, mas sim à Daryl Hannah, que se encontra assim cento e cinquenta e dois lugares acima do protagonista de Bedtime for Bonzo, com as estonteantes consequências ideológicas que o facto acarreta. Curiosamente, o nome Hillary, que era relativamente popular em 1992 (131º no ranking), viu a sua reputação cair aos trambolhões desde a inauguração de Bill Clinton, encontrando-se hoje na nonagésima octogésima segunda posição. Sem a ajuda de Waldman, contudo, não é possível retirar daqui quaisquer conclusões.

(Já agora, o nome mais popular é Emily, cujas conotações mais óbvias não parecem incomodar ninguém. A menina d' O Exorcista chamava-se Regan, e não Reagan; mas a fotografia fica no post, que mais não seja para irritar a minha mãe quando ela aqui vier.)

O senhor arquitecto anda a ler bons livros

E nem sequer é um dos argumentistas em greve

Por causa da minha extraordinária geekiness (fiz parte, em tempos longínquos, da mailing-list de uma Pynchon Society...) fiquei mais ou menos amigo de um americano de Miami, com quem troco e-mails regularmente. Na semana passada perguntei-lhe se tinha votado nas primárias da Florida (ele está registado como Republicano); resposta dele, recebida há minutos:

«Sure I did. Five times.»

"Your browser is not supporting cookies"

Em resposta à repetida, caluniosa e incomprehensive insinuação, por parte da página da Salon, de que o meu browser não support cookies, queria emitir o seguinte comunicado:

«My browser does support cookies. My browser has always supported cookies. My browser was supporting cookies long before it was even fashionable to support cookies. My browser categorically denies any attempt to undermine the cookies, and derides those accusations as the callous political ploy they so cookie-obviously are. Although my browser may have some misgivings regarding the current cookie deployment strategy, particularly the "cookie-surge", it also understands that cookies are a brave bunch, going where they're told to go, doing their cookie-like things wherever they're told to do their cookie-like things. Cookies play a vital role in sustaining our shiny and delightful cookie freedom. My browser's record shows a consistent resolve to stand by the cookie coalition and support the cookie effort. My browser's vocal moral commitment to cookies will continue, regardless of these shameful attempts at playing politics with our cookies»

Espero que isto resolva o assunto de uma vez por todas.

A manchete do ano

Na Fox (embora escrita por um sub-editor que deve ter estagiado no The Onion):

Police: Crack Found in Man's Buttocks

(Via Language Log, naturalmente)

terça-feira, fevereiro 05, 2008

Uma semicolonoscopia ao Orlando

Chamo a vossa atenção, denisdutonicamente, para este artigo do Financial Times, um perfilzinho de James Wood (continuem a ler, se faz favor: o resto do post não tem nada a ver com o James Wood). Depois de um interessante desabafo sobre o rigor totalitário dos célebres fact-checkers da New Yorker, James Wood (última menção, juro) faz a seguinte confissão: «"I love semi-colons," he says with all the enthusiasm of a 10-year-old talking about chocolate.».
Isto deixou-me contentíssimo. Como tantas outras pessoas espalhadas por esse planeta fora, eu passo grande parte do meu tempo livre a fantasiar sobre o ponto e vírgula, e é sempre bom encontrar camaradas para o swing platónico. O ponto e vírgula é, com uma considerável vantagem sobre a concorrência, o meu sinal de pontuação favorito. Aliás, se fosse forçado a escolher entre o ponto e vírgula e os chocolates da Lindt, a decisão nem sequer seria problemática.
(E não é nada fácil de manusear, o ponto e vírgula; eu, por exemplo, nunca aprendi a fazê-lo; o que não me impede de continuar; a tentar).
Como qualquer alvo de obsessões, o ponto e vírgula tem a sua entourage, os seus cínicos detractores, e a sua biografia recheada de altos e baixos. A tragédia é concisamente relatada no canónico "The Rise and Fall of the Semicolon: English Punctuation Theory and English Teaching" de Paul Bruthiaux (disponível aqui, em ficheiro .pdf), onde aprendemos, por exemplo, que « . . . the popularity of the semicolon itself appears to have peaked in the eighteenth century, and its demise in the nineteenth century was almost as sudden and overwhelming as its rise to stardom had been two centuries earlier».
Para que serve, então, o ponto e vírgula no século XXI? As opiniões divergem. Donald Barthelme dizia que o ponto e vírgula é tão feio "como uma carraça na barriga de um cão". Lynne Truss, no seu divertido bestseller, alerta que o ponto e vírgula pode ser "perigosamente viciante", devendo ser usado com parcimónia, um pouco como uma carga policial, sempre que haja conflito entre vírgulas desordeiras. No meu caso específico, e isto fica só entre nós, o ponto e vírgula cumpre o mesmo propósito do par de tracinhos, ou da gaiola de parênteses: ostraciza por convenção o que eu não consegui conciliar por talento, e legitima graficamente o progresso soluçante daquilo que passa por raciocínio neste crânio fatigado. (Eu durmo muito pouco; é um problema sério).

Mas concentremo-nos antes em quem o utiliza com brio. Como é sabido por todas as pessoas que já tiveram o prazer de me aturar com uns copos a mais, cada sinal de pontuação tem o seu campeão literário. A vírgula tem Henry James, o ponto de exclamação tem Philip Roth, as reticências têm Thomas Pynchon, o ponto final tem Pedro Lomba Hemingway, e por aí fora. (Um dia desenvolvo isto melhor). O ponto e vírgula, apesar de quatrocentos anos de flirts, engates e rapidinhas mais ou menos efectivas, só foi competentemente aviado por Virginia Woolf.
Para todos os admiradores do ponto e vírgula, o Orlando é um espectáculo quase pornográfico (e não apenas por ser o único clássico da literatura universal com nome de chulo algarvio): não há parágrafo que não coreografe duas, três, cinco dessas híbridas e adoráveis criaturas em kamasutricas acrobacias. Uma pessoa pode passar uma vida inteira a treinar-se no uso do ponto e vírgula para chegar ao Orlando e desfalecer de incompreensão. Eu sabia que se podia fazer isto a um ponto e vírgula; mas aquilo? É transtornante. O parágrafo seguinte, extraído ao segundo capítulo, está amparado por duplos e triplos sublinhados no meu exemplar, com uma trémula notinha na margem sugerindo humildemente "esta gaja passou-se":

«He now commissioned Mr Isham of Norfolk to deliver to Mr Nicholas Greene of Clifford’s Inn a document which set forth Orlando’s admiration for his works (for Nick Greene was a very famous writer at that time) and his desire to make his acquaintance; which he scarcely dared ask; for he had nothing to offer in return; but if Mr Nicholas Greene would condescend to visit him, a coach and four would be at the corner of Fetter Lane at whatever hour Mr Greene chose to appoint, and bring him safely to Orlando’s house. One may fill up the phrases which then followed; and figure Orlando’s delight when, in no long time, Mr Greene signified his acceptance of the Noble Lord’s invitation; took his place in the coach and was set down in the hall to the south of the main building punctually at seven o’clock on Monday, April the twenty–first.»

Parece-me por esta altura incontroverso que Virginia Woolf era completamente maluca no que diz respeito ao ponto e virgula. E como aquelas almas sôfregas que gostam tanto de marmelada que acabam por sublimar a sua pulsão num desenfreio fetichista, Virginia não traduziu o seu arrebatamento gráfico na delicadeza do gourmet. The lady liked it rough; a sua pontuação vem coradinha e ensopada em suor, como uma empregada doméstica num filme de Tinto Brass. O Orlando deve ter mais ponto e vírgulas por centímetro quadrado do que qualquer outra obra literária, mas ao iniciado só vai trazer um perplexo e transpirado desalento.
A melhor defesa do ponto e vírgula terá forçosamente de ser uma defesa utilitarista, e começar por estabelecer que, nas mãos certas, o ponto e vírgula reduz o trabalho de sapa do leitor. A mais lúcida argumentação nesse sentido foi feita por Henry W. Fowler, no clássico The King's English.
Para Fowler, a pontuação era um problema moral: «Any one who finds himself putting down several commas close to one another should reflect that he is making himself disagreeable, and question his conscience, as severely as we ought to do about disagreeable conduct in real life, whether it is necessary.»
Qualquer um dos quatro sinais de pontuação que denotam uma pausa (a vírgula, o ponto e vírgula, os dois pontos e o ponto final) difere dos outros quantitativamente. Todos estabelecem graus distintos de separação temporal, cujo valor é relativo e nunca absoluto. Cada sinal de pausa cumpre uma dupla função: lógica e retórica. A função lógica é clarificar as relações gramaticais entre os componentes da frase; a retórica está relacionada com questões de tom, ênfase e gestão rítmica. O trabalho do escritor deve então ser um trabalho diplomático, regulando as dependências entre orações, e adjudicando a sua importância relativa.
A tendência geral da literatura moderna tem sido para uma progressiva erradicação do ponto e vírgula. A esmagadora maioria dos escritores rege-se pelo que Fowler, com o seu inigualável talento classificativo, chama de "spot-plague principle": nunca usar outro sinal quando o ponto final serve. Isto, para Fowler, é moralmente catastrófico. Ele sugere antes o princípio do agrupamento, argumentando que «a style that groups several complete sentences together, by the use of semicolons, because they are more closely connected in thought, is far more restful and easy - for the reader, that is - than the style that leaves him to do the grouping for himself».
Virginia Woolf, como é hiperbolicamente claro para todos, seguiu uma terceira via: fetichizou o ponto e vírgula, e usou-o não para benefício do leitor, mas porque lhe dava na real gana. Estes modernistas; francamente; não respeitavam ninguém.
Encontrado o imprescindível ponto de equilíbrio entre o entusiasmo e a anarquia, é possível fazer disto um instrumento formidável. Dar-me-ia um enorme prazer se a malta (começando por mim) passasse a tratar melhor este belo sinalito;.

(Rapida, superflua, mas seriamente: entre os bloguers que leio, os que melhor utilizam o ponto e vírgula são o Ivan Nunes, o Mexia e o maradona. Este último, aliás, tem lá uma utilização exemplar da combinação "ponto e vírgula/dois pontos", por enquanto não-apagada, mas que merece ser aqui resgatada à efemeridade:
Não insinuo que o Henrique Raposo mereça as mesmas vilanias que a minha espectacular pessoa; com alguma arrogância, arrisco apenas que, em certo e muito restrito sentido (que espero, tantos posts depois, já evidente para todos), o Henrique Raposo exista neste mundo como se fosse a minha alma gémea do irmão que nunca tive (muito embora eu não possa ser considerado, tecnicamente, um anão): um gajo que, se fosse primeiro-ministro, nada disto acontecia.
Garanto-vos que, se virasse o olho cego à gramática, o Fowler aprovaria.)

sábado, fevereiro 02, 2008

James Joyce flash interview

«But abide Zeit's sumonserving, rise afterfall. Blueblitzbolted from there, knowing the hingeworms of the hallmirks of habitationlesness, buried burrowing in Gehinnon, to proliferate through all his Unterwealth, seam by seam, sheol om sheol, and revisit our Uppercrust Sideria of Utilitarios, the divine one, the hoarder hidden propaguting the plutorpopular progeniem of pots and pans and pokers and puns from biddenland to boughtenland, the spearway fore the spoorway.»

(Finnegans Wake)

* * *

Repórter: James Joyce, boa noite. Antes de mais, parabéns. Foi um parágrafo importante?

Joyce: Sem dúvida. Todos os parágrafos são importantes, mas era crucial para nós completarmos este parágrafo. Sabíamos de antemão que iríamos encontrar um ambiente complicado, mas trabalhámos a semana inteira neste parágrafo, e acho que vimos hoje aqui os frutos desse trabalho.

R.: Está satisfeito com a atitude das suas palavras?

J.: Não tenho rigorosamente nada a apontar às minhas palavras. Hoje, como sempre, estiveram irrepreensíveis em termos de atitude, deram o seu melhor em prol do parágrafo, e agora há que continuar a trabalhar da mesma maneira até ao final do livro.

R.: Chegou a passar por algumas dificuldades. . .

J.: Hoje em dia, no Modernismo, já não há parágrafos fáceis. Temos de encarar todos com a mesma humildade. Mas julgo que, com muito trabalho, é possível criar as condições necessárias para sermos felizes.
E não queria deixar passar a oportunidade para dar mérito aos adversários. A gramática e a semântica estão em grande forma e causaram-nos alguns problemas, mas no final acabou por ganhar o mais forte.

R.: Surpreendeu muita gente ao não colocar a palavra “plutorpopular” logo de início, mas acabaria por trazê-la já na segunda metade do parágrafo. Porquê essa decisão?

J.: Ouça, eu trabalho com estas palavras há muito tempo, conheço-as melhor que ninguém. e as pessoas têm de entender que as minhas decisões, em termos de meter palavras no início, no meio ou no fim, são sempre tomadas em função das necessidades do parágrafo. A palavra “plutorpopular” correspondeu, trabalhou bem, mas comigo não há palavras indiscutíveis.

R.: Que comentários lhe merecem aqueles incidentes no final do parágrafo?

J.: Não sei a que “incidentes” se refere.

R.: Aquele “the spearway fore the spoorway” deixou algumas dúvidas a muita gente. . .

J.: Eu não quero entrar em polémicas, acho que vocês é que têm de comentar esse tipo de questões. O que eu acho é que a gramática terá talvez acusado algum nervosismo, o que é perfeitamente natural, e terá reagido a quente.

R.: Está a responsabilizar a gramática pelo incidente?

J.: Não vamos por aí, eu não estou a responsabilizar ninguém. A gramática é uma grande profissional, tem uma longa carreira, mas se calhar não está habituada a ser dominada desta maneira ao longo de um parágrafo inteiro. Como disse, acho natural que se tenha esse tipo de reacções a quente.

R.: Não sente que tem sido beneficiado pela crítica literária, especialmente a de pendor mais académico?

J.: Acho que só alguém com grande má-fé poderá fazer insinuações desse calibre. Já tive parágrafos muito prejudicados pela crítica literária, e qualquer análise isenta e imparcial vai mostrar que, se há alguém com razões de queixa da crítica literária, esse alguém sou eu.

R.: Vem aí já o próximo parágrafo. . .

J.: É um facto, mas vamos pensar parágrafo a parágrafo. É um livro longo, hoje ultrapassámos aqui um parágrafo difícil, agora há que descansar e, a partir de amanhã, começar então a trabalhar no próximo parágrafo, que também será muito dificil.

R.: James Joyce, obrigado, e boa noite.

J.: Obrigado eu. Boa noite.

Ele pegou numa concha para ilustrar a sua sem-abriguice


Passei as últimas seis horas a ouvir «The Opposite of Hallelujah», faixa que, até há sete horas atrás, assumi ser um mero arremedo death-metal da canção de Cohen/Cale/Buckley. Não sei como, mas Jens Lekman passou-me ao lado em 2007, e ter-me-ia passado ao lado em 2008 não fosse a bondade de terceiros, a inqualificável porosidade do meu filtro anti-spam, e o facto de eu ter horas disponíveis em lotes de seis.
Sempre me guiei pelo sábio princípio de que os arranjos domésticos de Stephin Merritt - xilofone, castanhetas, órgão a pilhas oferecido pela madrinha no Natal, etc. - eram o pináculo de qualquer coisa que devia ser transcendentalmente calamitosa, mas não é. Lekman levou a coisa ao estágio seguinte, parece-me. A confirmação segue dentro de mais seis horas.

(Os canais terrestres estão uma miséria tão grande que cheguei a tirar o Finnegans Wake da estante. Já lá o arrumei outra vez, mas foram momentos preocupantes.)

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Oswald was a fag

A não perder, na Atlântico de Fevereiro, um exercício especulativo de Rui Ramos sobre a situação em que estaria Portugal caso o Rei D. Carlos tivesse sobrevivido ao atentado de 1908.
A não perder, em Março, no Pastoral Portuguesa, um exercício especulativo sobre a situação em que estaria Portugal caso Rui Ramos não tivesse escrito, na Atlântico de Fevereiro, um exercício especulativo sobre a situação em que estaria Portugal caso o Rei D. Carlos tivesse sobrevivido ao atentado de 1908.
A não perder, em Abril, no Pastoral Portuguesa, um exercício especulativo sobre a situação em que estaria Portugal caso o Pastoral Portuguesa não tivesse incluido, em Março, um exercício especulativo sobre a situação em que estaria Portugal caso Rui Ramos não tivesse escrito, na Atlântico de Fevereiro, um exercício especulativo sobre a situação em que estaria Portugal caso o Rei D. Carlos tivesse sobrevivido ao atentado de 1908.

terça-feira, janeiro 29, 2008

Claxon, Cortázar, Cabinda

«(...) In Aspects of the Novel, EM Forster used the now-famous term "flat" to describe the kind of character who is awarded a single, essential attribute, which is repeated without change as the person appears and reappears in a novel. Often, such characters have a catchphrase or tagline or keyword, as Mrs Micawber, in David Copperfield, likes to repeat "I will never desert Mr Micawber". She says she will not, and she does not. Forster is genially snobbish about flat characters, and wants to demote them, reserving the highest category for rounder, or fuller, characters. Flat characters cannot be tragic, he asserts, they need to be comic. Round characters "surprise" us each time they reappear; they are not flimsily theatrical. Flat ones can't surprise us, and are generally monochromatically histrionic. Forster mentions a popular novel by a contemporary novelist whose main character, a flat one, is a farmer who is always saying "I'll plough up that bit of gorse". But, says Forster, we are so bored by the farmer's consistency that we do not care whether he does or doesn't.
But is this right? If by flatness we mean a character, often but not always a minor one, often but not always comic, who serves to illuminate an essential human truth or characteristic, then many of the most interesting characters are flat. I would be quite happy to abolish the very idea of "roundness" in characterisation, because it tyrannises us - readers, novelists, critics - with an impossible ideal. "Roundness" is impossible in fiction, because fictional characters, while very alive in their way, are not the same as real people. It is subtlety that matters - subtlety of analysis, of inquiry, of concern, of felt pressure - and for subtlety a very small point of entry will do. Forster's division grandly privileges novels over short stories, since characters in stories rarely have the space to become "round". But I learn more about the consciousness of the soldier in Chekhov's 10-page story "The Kiss" than I do about the consciousness of Waverley in Walter Scott's eponymous novel, because Chekhov's inquiry into how his soldier's mind works is more acute than Scott's episodic romanticism. (...)»


O artigo, que deve ser lido na íntegra antes que eu me irrite com vocês a sério, serve como aperitivo para o novo livro do senhor, que me vai ser entregue em mãos por um dos mais pontuais carteiros do Hemisfério Norte, no dia 11 de Fevereiro de 2008, às dez e vinte da manhã. Por falar em coisas que devem ser lidas na íntegra, este texto do Alexandre Andrade sobre Delmore Schwartz é a melhor e mais lúcida apreciação crítica não escrita por James Wood que li nos últimos tempos. O irritante biógrafo de Saul Bellow teimou em informar-me aqui há uns anos que Schwartz era o modelo para o poeta lunático de Humboldt's GiftHe was a wonderful talker, a hectic nonstop monologuist and improvisator, a champion detractor. To be loused up by Humboldt was really a kind of privilege. It was like being the subject of a two-nosed portrait by Picasso, or an eviscerated chicken by Soutine»). Agora que penso nisso, o programa de leituras integrais devia incluir também o Humboldt's Gift, mas eu não mando nas vossas vidas.
Nem na minha consigo mandar. Na semana passada, comprei um livro de Cortázar (Prosa do Observatório) naquele alfarrabista de esquina, perto da Biblioteca Nacional. Lá dentro - porque nunca comprei um livro de Cortázar em segunda mão que não viesse com brinde - achei um cartão de sócio do extinto Clube de Turismo do Atlântico, pertencente a um António Beato Teixeira e datado 29 de Janeiro de 1973. Nas costas do cartão, por motivos muito pouco claros, aparecem escritas a lápis as palavras "vai para cabinda". É este o estado de coisas: Deus dá-me instruções geográficas com 35 anos de atraso e através de livros baratos. E a minha sarça ardente, onde é que está?
Finalizando, queria dizer que isto, mesmo ajustado à inflacção, continua a parecer-me uma indiscutível pechincha:

domingo, janeiro 27, 2008

Artéria coronária direita

Artéria coronária direita é o nome de uma artéria que nasce no seio aórtico anterior (direito). Se as coisas lhe correm de feição, e os preparativos logísticos foram atempadamente concluídos, a artéria costuma fazer uns pequenos exercícios de aquecimento antes de tudo começar, dando uma corridinha para frente e para direita, pausando para alongamentos entre o tronco da pulmonar e aurícula direita. Pouco depois do apito inicial, a artéria prossegue o seu jogging taciturno, contornando a margem direita do coração, escrevendo cartas de suicídio imaginárias e implorando silenciosa clemência, enquanto se dedica a espoliar o frigorífico das suas diligentemente acumuladas garrafas de Sagres Boémia. O ambiente costuma ser pesado.
Aos treze minutos de jogo, contra as suas mais ridiculamente exacerbadas expectativas, a artéria observa a destreza cardiovascular de Helton, e volta-se para a esquerda, percorrendo aos gritos a parte posterior do ventrículo direito ao longo do sulco coronário até ao sulco interventricular posterior - tudo feito, atenção, sem entornar uma gota. Talvez seja útil, nesta altura, imaginar a artéria sentada à mesa da cozinha, com a Sagres Boémia tremulamente enrodilhada pelo rosário com o símbolo do SCP que a sua avó Maria da Conceição lhe trouxe um dia de Fátima, pensando que isto é bom demais para ser verdade.
A artéria coronária direita tem agora várias opções: pode emitir ramos atriais na direção do átrio, obviamente; ou pode relembrar tantas alturas igualmente promissoras no seu passado que resultaram em infâmia, cataclismo, ou passeios à chuva; a artéria decide regressar ao frigorífico e tentar controlar o optimismo. Mas eis que!, meros dois minutos depois - antes até de o seu primeiro ramo atrial ter tido tempo para nutrir o átrio direito, circundando o óstio da veia cava superior - Izmailov quase interrompe este singelo processo, tornando toda a situação coronariamente insustentável. A artéria está incrédula. A artéria está atónita. A artéria tem de ir até ao quintal apanhar ar fresco.
É certo e sabido que, na primeira metade do seu trajecto, a artéria coronária direita emite ramos que irão acudir ao cone arterial, mas entretanto há que trocar sms's frenéticos com outros vasos sanguíneos metafisicamente esclarecidos, que possam lançar alguma luz sobre este momento. Alguém esclarece esta pobre artéria? Esta irrigação desenfreada está mesmo a acontecer? As respostas são lúcidas e conclusivas: a ilusão cruel e passageira não é propriamente uma novidade neste percurso anatómico. A artéria é aconselhada a refrear os seus humores, a olhar para uma tabela classificativa, e a não escrever tantos palavrões nos seus sms's.
A segunda metade do trajecto é penosa, e durante grande parte do tempo a artéria mantém os olhos fechados, o que origina alguns derrames de Sagres Boémia, felizmente minimizados pela agilidade que a artéria sempre demonstra em alturas de sofrimento. Pontualmente, a artéria interroga-se sobre o que terá comido Pereirinha ao pequeno-almoço. Já na derradeira secção, a artéria emite mais um ramo, que percorre o sulco interventricular posterior. Isto pode parecer uma manobra desesperada, mas os peritos em anatomia garantem que faz todo o sentido. Perto do ápice, supostamente, esse ramo irá unir-se por anastomose com o ramo interventricular anterior da artéria coronária esquerda, permitindo suportar o interminável período de desconto sem ter de recorrer ao INEM. Nesta altura, claro, a artéria já ultrapassou todas e quaisquer intenções irrigativas; o que ela quer mesmo é flirtar com linfonodos, enviar ramos de flores a todos os gânglios, e praticar amor hippie com um cacho de vasos linfáticos, indiferente ao pormenor de este ter sido um pedaço de circulação que se deveu mais à sorte do que a uma dieta rigorosa ou a um estilo de vida saudável.
Pelo menos por agora, a artéria não quer saber. A artéria coronária direita fez o seu trabalho, encontra-se num sétimo céu de vascularização orgiástica, e vai permanecer assim até começar a drenagem. Ou até ver, na manhã seguinte, o estado em que deixou a cozinha.

quinta-feira, janeiro 24, 2008

The Golden Days of Mu

Na oitava página de Masters of Atlantis, Lamar Jimmerson faz um inventário da sua situação. Desterrado num hotel em Valletta (frequentado por «english poets, greek honeymooners and poor tippers»), ele está tecnicamente falido, tem nas mãos um livro indecifrável repleto de cones e triângulos, na cabeça o chapéu sagrado de uma misteriosa sociedade secreta, e nos lábios trinta costuras, resultado de um choque frontal com o remo de um barco. As coisas começam finalmente a fazer sentido.
Se há algo em que as personagem de Portis são boas é a extrair um sentido de missão do mais puro caos, e a interpretar todo e qualquer imponderável como mais uma alínea no seu perplexo contrato com a realidade: «The sense of the message was obscure but there could be no doubt that the signal was genuine». O livro indecifrável é o Codex Pappus, um suposto repositório da antiga sabedoria dos Atlantes, e o texto fundador da Sociedade Gnómica. A natureza dessa sabedoria nunca é claramente definida, embora se depreenda que esteja relacionada com Geometria, Silêncio e Correntes Telúricas. Com a colaboração de um inglês chamado Sidney Hen, um organigrama da Sociedade vai sendo deduzido, com resultados previsivelmente enviesados. É assim que Jimmerson, um cabo do Corpo Expedicionário Americano, à deriva na Europa depois do final da I Guerra Mundial, se transforma no Primeiro Mestre Moderno do Novo Ciclo do Gnomonismo. Injectado com sangue novo, e simbolicamente renovado – o Mestre tem agora direito a usar o Cone do Destino e a empunhar o Ceptro da Correcção – o Gnomonismo faz o que fazem todas as fés alternativas: atravessam o Atlântico e vão procurar a prosperidade no único Continente não-afundado onde tudo, ideologicamente falando, continua a ser possível.
O esforço de implantação do Gnomonismo na América não tem um início auspicioso – Sydney Hen acaba mesmo por fundar uma Ordem alternativa – mas acelera com a entrada em cena de Austin Popper, a melhor personagem do livro, e talvez o mais inspirado golpe criativo da carreira de Portis. Popper é uma raridade – um mitómano inveterado e um populista genuíno, cuja demagogia nasce da sua irrevogável ingenuidade. É ele quem providencia os melhores e mais absurdos esquemas para levar o Gnomonismo às massas (o melhor é talvez uma fracassada manobra publicitária para reunir Jimmerson com Roosevelt, que culmina num périplo surreal pelo jardim zoológico de Washington); e é ele quem arrasta Jimmerson para uma calamitosa campanha para Governador do estado do Indiana:

«Mr. Jimmerson became agitated. It was such an incredible business and yet he had to admit that he liked the idea of being governor. Why not? Governors had to come from somewhere and it was his impression that more of them were elected by default, grudgingly, as the best of a poor lot, than by any roar of general approval. Who was the current one? Biggs? Baggs? Boggs? Bugg? But were people ready for a scholar? He thought not. They certainly weren’t ready for Gnomonism. But then it was not as though you had to meet some absolute standard of fitness; you just had to get a few more votes than the fellows who happened to be running against you at the time, each one defective in his own way. The country had been off the gold standard for years. You wouldn’t be running against George Washington, but only Baggs or Bugg. The swearing-in – that would be a grand moment. One hand on the Bible, the other raised, Fanny at his side. A solemn moment. Altogether a serious undertaking. Would he be a wise and serious ruler?»

Este soberbo monólogo interior demonstra o percurso mental típico de quase todas as criaturas que povoam o livro: do cepticismo ao entusiasmo em meia-dúzia de linhas.
Pode ser tentador ver em tudo isto uma sátira ao processo político americano, mas Portis não é esse tipo de escritor. O impulso satírico é sempre didáctico, e a sua fórmula cómica essencialmente estática e situacional: olhem para aqui e vejam como isto é ridículo; agora olhem para ali e vejam como aquilo é ridículo. Portis não é um artista de visão correctiva, mas de observação detalhada, e as suas criações não são os “tipos” do escritor-pedagogo nem os “grotescos” dos sulistas americanos, mas sim os excêntricos, reféns de uma sociedade que recusa aceitar a sua grandeza. Masters of Atlantis é, ao nível mais básico, uma espectacular coleccção de miniaturas humanas, animada pelo talento ventríloquo de Portis e pela sua capacidade para a empatia.
E se a montagem artificial do cânone Gnomonista, bem como a interminável sucessão de cismas e alianças dentro da Sociedade, parecem representar uma alegoria fácil sobre a forma como o conhecimento religioso vai sendo consolidado e institucionalizado, convém que o leitor ceda à tentação de adoptar a paranóica destreza hermenêutica dos personagens. Portis cancela quaisquer paralelos possíveis, deixando bem claro que os Gnómicos vão existindo fora do mundo, navegando à ilharga do século americano na jangada da sua insanável credulidade. Num certo sentido, quase todos os protagonistas de Masters of Atlantis são niilistas falhados (os iniciados Gnómicos são aconselhados a evitar transacções com os quatro Pês: «politicians, the press, the police and the Pope»). Com as categorias de percepção deformadas pela sua aversão congénita à matriz oficial da História, aprendem a respeitar apenas um passado irrecuperável, a desconfiar do presente e a cambalear cegamente na direcção do futuro. A sede genuína de conhecimento é saciada no escuro, onde os voluntariamente excluídos vão tacteando em busca de sistematizações próprias e de uma forma muito peculiar de comunhão. Não querendo acreditar em nada, acabam por acreditar em tudo.
Portis é particularmente bom a condensar o potencial cómico do autodidacta: a informação semi-digerida, os ziguezagues epistemológicos, as especulações anárquicas_

«Golescu became louder and more assertive, revealing himself as an independent thinker. Charles Darwin, he said, had bungled his research and gotten everything wrong. Organisms were changing, it was true enough, but instead of becoming more complex and, as it were, ascending, they were steadily degenerating into lower and lower forms, ultimately back to mud. In support of this he cited the poetic testimony of Hesiod, and gave the example of savages with complex languages, a vestige of better days. He had dubbed the process ‘bio-entropy’ and said it could clearly be seen at work in everyday life. One’s father was invariably a better man than one’s self, and one’s grandfather better still. And what a falling off there had been since the Golden Days of Mu, when man was indeed a noble creature.»

A ascensão e declínio da Sociedade Gnómica é contada em menos de 250 páginas. Na derradeira – e fabulosa – secção do livro, uma reunião é orquestrada entre as facções dissidentes (num “trailer park” texano, naturalmente). O Grande Templo de granito e mármore, palco dos escassos dias de glória do Gnomonismo, desabou num apocalipse financeiro de proporções Atlantes, e o novo Templo é agora o Cape Codder, uma caravana topo-de-gama com «cathedral roof and shingles of incorruptible polystyrene».
Actores falhados, imigrantes ilegais, e os dois Mestres, Jimmerson e Sydney Hen (finalmente reconciliados, e passando os dias em silenciosa ponderação à beira do golfo do México) participam num festivo jantar de Natal, onde se trocam votos optimistas e hipóteses de regeneração. As Correntes Telúricas são fortes. Um dos personagens propõe um brinde, afirmando muito correctamente: «This is the best party I’ve ever been to!».
Comprem isto, pela vossa saúde.

(Foi só à procura do link na Amazon que descobri mais um membro do restrito círculo de fãs de Charles Portis: Stephen Malkmus, o gajo dos Pavement. Precisam de mais recomendações?)

terça-feira, janeiro 22, 2008

Everybody loves Marion

Quero deixar bem claro que não tenho rigorosamente nada contra o facto de um Oscar™ ter sido atribuído a John Wayne, tal como não teria rigorosamente nada contra se um Wayne™ tivesse um dia sido atribuído a Óscar de Lemos. A importância que eu dou aos Oscares™ (e até ao Óscar de Lemos) é consideravelmente menor do que a importância que dou a John Wayne, e a importância que dou a ambos é consideravelmente menor do que a importância que dou ao aumento dos preços de certos bens essenciais, como a maionese. Ainda assim, bastar-lhe-ia ter feito o The Searchers ou ter recusado o Dirty Harry para garantir a minha eterna, se bem que tranquila, admiração. E mesmo se não fosse isso, um homem que interpretou aproximadamente cento e cinquenta vezes o difícil papel de John Wayne™ mereceria sempre todo o meu respeito. (Desconfio que não se nota, mas estou a falar a sério).
Quando muito, quando muito, quando muito, poder-se-à ter notado alguma irritação mal-direccionada pelo facto de o True Grit, que, no original, era a história de Mattie, ter sido transformada na história de John Wayne. Mas acho que nem isso se notou, sinceramente, dada a minha inexcedível capacidade para a ofuscação. Por exemplo, vejam este gatinho:

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Este livro está disponível na Fnac do Chiado (alguém deve ter cometido um erro) e vocês estão aí sentados a ler blogues


Charles Portis, para circunscrevermos as coisas, é o melhor escritor americano de que muitos de vocês nunca ouviram falar, situação que está prestes a ser corrigida. Aqueles para quem o nome é familiar devem provavelmente conhecer o segundo romance do senhor: um western atípico chamado True Grit, cuja publicação despoletou uma reacção em cadeia que viria a culminar na entrega de um Oscar™ a John Wayne, mas acho que não devemos culpar Portis por isso. Mais tarde (ele é da escola um-livro-de-nove-em-nove-anos) viriam The Dog of the South e Masters of Atlantis, duas das coisas mais cómicas que li nesta minha vida longa e repleta de excitação. Quase toda a bibliografia de Portis esteve inexplicavelmente esgotada durante a década de 90, até que uma pequena editora americana chamada Overlook reequilibrou o Cosmos, começando a lançar novas edições em 2000. A decisão foi, em parte, uma resposta ao apelo público de um dos mais vocais adeptos de Portis, o jornalista Ron Rosenbaum, que escreveu um texto sobre ele para a Esquire, através do qual eu próprio cheguei a Portis, e que, curiosamente, é a mesma pessoa que escreveu o texto linkado em simultâneo na Causa e no Dias Felizes, porque isto anda tudo ligado. Admitam lá: ficaram todos arrepiados, agora.

O Denis Dutton anda a encolher o mundo

Um momento blogosférico que poucos terão adivinhado: o Dias Felizes e o maradona fizeram um post praticamente igual.

sábado, janeiro 19, 2008

O rei das cenouras interiores




(Neutral Milk Hotel, «The King of Carrot Flowers, Pts. 2 & 3)

Foram dias difíceis, mas, graças a mirabolantes doses de sangue-frio e a um intrincado sistema de superstições (que envolveu peúgas desirmanadas, um babete que me acompanha desde o Colégio São Miguel Arcanjo, e um ícone de Nossa Senhora de Fátima que já não me lembro onde roubei), lá consegui reunir as condições necessárias para voltar a usar este espaço. Espero que os mais cínicos entre vós não venham com argumentos aborrecidamente literais para questionar o inquestionável: o meu mérito pessoal em tudo isto. Parece-me evidente que o Sporting não tem, nesta altura, o plantel necessário para golear um clube que joga apenas três escalões abaixo do seu sem a minha colaboração activa.
Registei também a preocupação (ou "preocupação") do Bruno e a homenagem (no fundo a "homenagem") do Francisco José Viegas, dois adeptos de futebol emocionalmente equilibrados, e cuja ideia de um mau momento desportivo é ganhar títulos com apenas 10 pontos de avanço. Deve ser fácil mostrar jocosidade e munificência quando se anda há tantos anos a fazer safaris nas crises espirituais de terceiros. Mas não guardo rancores; e aprendi valiosas lições esta semana, algo que, de resto, vou demonstrar já no parágrafo seguinte.
Se o Sporting não ganhar ao Porto comprometo-me a ler na íntegra aquele livro do José Rodrigues dos Santos sobre filatelia, e a postar aqui um exaustivo relatório no prazo máximo de sete dias úteis após o apito final. Eu sou assim, miúdas, vivo no limite.