domingo, março 23, 2008

Páscoa Revolucionária em Curso

O “Épico Bíblico” é um gosto minoritário, mas permanente. Adquirido na infância, agarra-nos para a vida inteira; só os felizardos conseguem uma desintoxicação eficaz em adultos. Os junkies vão alimentando a obsessão e acabam por abandonar qualquer padrão qualitativo; nas quadras festivas, o menor vestígio televisivo de túnicas ou sandálias provoca salivação imediata.
Na posse desta informação, gerações de produtores dedicaram as suas carreiras a testar os limites do bom senso, e a tentar conceber um produto rigorosamente intragável. Os Dez Mandamentos, mini-série que a TVI transmitiu na Sexta-feira Santa, foi um esforço apreciável nesse sentido. Trabalhando sob a ilustre sombra de DeMille, os responsáveis não tiveram outro remédio senão descer a fasquia abaixo da crosta terrestre. O mercado foi vasculhado à procura dos piores actores disponíveis; estivadores desempregados encarregaram-se dos efeitos especiais; chimpanzés em cativeiro foram fechados numa cave com máquinas de escrever até produzirem um guião consensualmente lamentável. Nada foi deixado ao acaso. Ainda assim, é com prazer que anuncio o fracasso do projecto: cinco horas de sublime incompetência não foram suficientes para me fazer desligar o aparelho e abrir um livro. Ainda não foi desta que a televisão ganhou uma batalha comigo; eles são fracos, eu sou muito mais fraco.
Os rudimentos do enredo são estabelecidos logo de início, para benefício dos neófitos. O Faraó do Egipto e um grupo de trabalhadores hebraicos não-assalariados estão envolvidos numa feroz disputa laboral sobre a posse dos meios de produção. Não há solução à vista. O elenco é submetido a uma cuidadosa estenografia visual, para que ninguém se perca nas profundidades da trama: o Faraó e os seus sacerdotes parecem adeptos de futebol ingleses com os olhos besuntados de kohl; a princesa e as suas cortesãs são todas clones de Eva Longoria; as crianças egípcias foram repescadas de um teledisco perdido dos Soft Cell; os escravos hebraicos têm todo o aspecto de figurantes judeus a receber o salário mínimo; e o Moisés menos semita da história dos épicos bíblicos parece um oficial das SS depois de um dia cansativo no escritório. Devidamente identificados, os intervenientes lançam-se em complexas rondas negociais. Torna-se rapidamente aparente que Moisés não está nada contente com a situação. O seu semblante atormentado traduz empatia com a dor dos trabalhadores. Desencantado com o sisudo conforto do palácio, inicia uma escalada revolucionária, que culmina num gesto irreflectido, seguido de fuga e exílio.
A travessia do deserto é dura: Moisés perde o manto real, as peúgas reais, e o cromado teutónico. Quando finalmente chega ao oásis já ostenta a barba cuidadosamente aparada indicativa de semanas de privação; e já é tão incontornavelmente judeu que até se dá ao luxo de gracejar (o único gracejo voluntário ao longo de 360 minutos). A sua rotina de “Homem-atormentado-com-passado-misterioso” é um grande sucesso no oásis: meia-hora depois de ter chegado, já o patriarca local lhe está a oferecer a filha mais velha. Moisés casa-se, e pasta umas ovelhas, atormentadamente. Mas continua a não estar nada contente com a situação e, quando chega a noite, lança olhares misteriosos à montanha.
“Não subas à montanha! Está amaldiçoada!”, diz-lhe a esposa. Na sequência seguinte, evidentemente, Moisés sobe à montanha e entabula um frutuoso diálogo com um Efeito Especial. O Efeito Especial sussurra-lhe coisas, com rouquidão de linha erótica: “Pega no teu cajado, Moisés. Pega-lhe.” Moisés pega no cajado, atormentadamente.
É estabelecido que o Efeito Especial tem toda uma série de ideias sobre a disputa laboral no Egípcio, e que Moisés foi escolhido como seu porta-voz. Regressado ao palácio, Moisés inicia as negociações com exigências que fariam corar os mais arrojados líderes da CGTP. Implementando a estratégia delineada pelo Efeito Especial, promete represálias apocalípticas: em vez de protestos e paralisações gerais, o patronato pode esperar olhares atormentados e fenómenos atmosféricos. O Faraó, envergando mais quilos de maquilhagem do que todas as Evas Longorias do palácio, limita-se a abanar a cabeça: “Que Efeito Especial é esse de que falas? Onde é que ele está?”. Moisés fita-o em silêncio, atormentadamente.
As negociações prosseguem, sem grandes cedências de parte a parte. “Queremos ouro e prata” exige o representante Moisés. “Queremos cabras”, “queremos leite”, “queremos chicotadas indexadas à inflacção”. Entretanto, a água transforma-se em sangria, há insectos por todos os lados, e um fogo-de-artifício corre espectacularmente mal; são as pragas do Efeito Especial, mas podia perfeitamente ser a descrição de uma viagem de finalistas a Loretta del Mar. Quando o Faraó dá finalmente o seu consentimento à emancipação do problemático bando de proletários, o espectador já não consegue disfarçar uma certa simpatia com o patronato. A velocidade com que a plebe segue Moisés a caminho do deserto deixa a dúvida no ar: será que se pisgaram com a cutelaria?
A viagem para a Terra Prometida é longa e árdua, e os proletários não param de azucrinar um Moisés cada vez mais impaciente com perguntinhas infantis (“Where are you leading us?”, “How will we survive?”, “Are we there yet? Are we there yet?”). A intervalos regulares, para manter a ordem entre a ralé, Moisés é forçado a pegar no seu cajado, atormentadamente, e a transformar petróleo em água.
Entretanto, no Egipto, o patronato dá pela falta do serviço de jantar e lança-se numa louca perseguição pelo deserto, culminando numa insólita competição de mergulho no Mar dos Papiros (os proletários ganham por voto unânime do júri).
Os anos passam, a Terra Prometida não se materializa, e Moisés tem cada vez mais dificuldades em manter o proletariado sob controlo: à mínima distracção sua, desatam a idolatrar gado caprino. O que fazer? Depois de uma longa ausência, o Efeito Especial regressa, envergando a sua sensual voz de gripe: “Do you remember me, Moses? Do you recognize my voice? Can you guess what I'm wearing?” Uma última reunião de trabalho é convocada, mais uma vez no topo da montanha. O Efeito Especial substitui o antigo código de trabalho por dez resplandecentes alíneas, novinhas em folha. Lá em baixo, em ambiente festivo, os proletários desobedecem alegremente a todas elas. O Efeito Especial ordena a punição dos infractores através de um processo disciplinar conhecido como “chacina”. Os anos passam. Moisés envelhece, atormentadamente. Nos seus últimos dias, é-lhe concedida a oportunidade de vislumbrar a Terra Prometida: uns patéticos hectares de terra, repletos de vegetação rasteira e membros do Hezbollah. Rolam os créditos.
Já só faltam nove meses para o Natal.

Próximos ciclos de cinema ali na Barata Salgueiro

«Ninfetas e tusa metafísica: de Sue Lyon a Natalie Portman.»

«Gajas: o que é que elas querem, e porque é que não o dizem logo? Uma retrospectiva freudiana.»

«'Este filme não é sobre mim': um ciclo de cinema faux-confessional.»

«'Este filme não é sobre ti': um ciclo de cinema com faux-dedicatória (para C., M. e R.).»

«Bob Dylan: esse desconhecido.»

Tiveram saudades minhas?

Eu tive tantas saudades vossas.

domingo, março 16, 2008

As Quatro Nobres Verdades (em triplicado, e com carimbo, e entregues no gabinete do 2º andar, depois de tirar senha)

«The China Buddhist Association will issue living-Buddha permits. When the reincarnated living Buddha has been installed, the management at his monastery shall submit a training plan to the local Buddhist Association, which shall report to the provincial people's government for approval. Living Buddhas that have historically been recognized by drawing lots from the golden urn shall have their reincarnated soul-children recognized by drawing lots from the golden urn. Requests not to use the golden urn shall be reported by the provincial people's government to the State Administration of Religious Affairs for approval.
Once a reincarnated living Buddha soul-child has been recognized, it shall be reported to the provincial people's government for approval; those with a great impact shall be reported to the State Administration of Religious Affairs for approval; those with a particularly great impact shall be reported to the State Council for Approval. When there is debate over the size of a living Buddha's impact, the China Buddhist Association shall officiate.
Reincarnated living Buddhas may not reestablish feudal privileges that have already been abolished.
Applicants to be reincarnated living Buddhas may not be reincarnated if the provincial people's government does not allow reincarnations.
»

(De uma ordem emitida pelo Gabinete de Assuntos Religiosos do governo chinês, e traduzida na última Harper's. Provavelmente o mais fascinante exemplo de burocratização do misticismo que tive a oportunidade de ler neste meu presente ciclo kármico.)

A PT anda a brincar com a vida das pessoas

Isto pode parecer um post sobre este post, mas na verdade é um post sobre o efeito extraordinário que a falta de internet tem sobre a memória. Uma das primeiras coisas que li do Mexia - e isto deve ter sido para aí em 1993 - foi precisamente um contarelo: chamava-se «There is a Light That Never Goes Out». Havia alguém que pedia trocos numa lavandaria; aludia-se a um baile de finalistas; e duas personagens, salvo erro, rodopiavam mesmo nos calcanhares.
Uma semana e um dia sem internet em casa. Além de coisas que li no DN Jovem há quinze anos, também dei comigo a recordar nomes completos de jogadores do Sporting da década de noventa. Lembrei-me finalmente onde é que escondi um baralho de cartas eróticas que o meu primo Jorge me deu em 1995 (tem estado debaixo da caixa do Monopólio estes anos todos). Hoje de manhã limpei o exaustor duas vezes, construí um castelo com cotonetes e cola UHU, e li a Harper's de uma ponta à outra.

terça-feira, março 11, 2008

Já ando a fazer riscos na parede

Quarto dia seguido sem internet em casa. Tenho dado voltas à cabeça a tentar recordar em que é que consistia a minha rotina diária antes da internet me chegar a casa; recuperei umas nebulosas memórias de jornais, matraquilhos e psicanálise, mas pouco mais. A única coisa que sei é que já memorizei o teletexto da RTP e isso não pode ser bom para ninguém.

Quando for grande quero ser Ben Marcus

De vez em quando (de três em três anos, se tivermos sorte) descobre-se um escritor que nos proporciona a oportunidade para sermos histéricos e perdermos todo e qualquer sentido das proporções. Ben Marcus - e vai ser esta a minha posição oficial durante os próximos tempos - representa o maior salto evolutivo da Humanidade desde a contratação do polegar oponível.

domingo, março 09, 2008

Telefoneless

Desde a manhã de ontem que a internet não acontece em minha casa. Após um colérico pedido de satisfações às pessoas responsáveis pela internet que me costuma acontecer em casa, fui informado de que o telefone também não está a acontecer em minha casa, e que acontecer telefone é um pré-requisito para acontecer internet. Perguntei ao meu interlocutor se ele não achava um pouco estranho que o telefone se recuse a acontecer na minha casa, uma vez que o meu dinheiro continua a acontecer mensalmente no sítio do telefone. O problema, afinal, era outro. Aparentemente, o sítio de Fernão Ferro onde o telefone recebe as suas instruções para acontecer na minha casa foi vandalizado na madrugada de Sábado por indivíduos que não gostam que o telefone e a internet aconteçam nas casas das pessoas. Estes indivíduos são conhecidos como Luditas (ou, em inglês, "unwashed acoustic hippie scum"). Espera-se que a situação seja regularizada amanhã.
Entretanto vim até ao Rio Sul do Fogueteiro, onde, para meu espanto, há zonas em que a internet acontece sem telefone. Perguntei a um indivíduo com aquele ar extraordinariamente bem-informado conferido pela combinação "óculos/barba/t-shirt dos Kraftwerk" qual era a explicação para este milagre, e ele disse-me que há sítios onde a internet acontece no ar. «No ar? Mas no ar normal?» «Não, no ar normal não funciona. Tem de ser um ar tratado. Mas se o ar for bem tratado, a internet acontece independentemente do acontecimento do telefone».
Não costumo levar este tipo de balela mística a sério, mas o indivíduo disse a verdade: este é o primeiro post do Pastoral Portuguesa escrito no meio do ar. Gostava de ter aproveitado melhor a ocasião, mas isto sem o sofá não é a mesma coisa.

quarta-feira, março 05, 2008

As coisas: como elas são e quando acontecem

Os blogues do Tiago Cavaco e do Alexandre Andrade comemoraram aniversários, o Real Madrid foi eliminado da Liga dos Campeões, o preço da maionese aumentou, o Andrew Sullivan está a hiperventilar por causa dos Clinton, e o Vasco Barreto acabou com o Memória Inventada.
São coisas que acontecem todos os anos - umas boas, outras não - mas uma pessoa nunca se habitua, nunca está preparada.
Não ando a dormir nada, espero que não se note muito.

segunda-feira, março 03, 2008

Blogspoticamente vosso

«The poet Glyn Maxwell likes to conduct the following test in his writing classes, one apparently used by Auden. He gives them Philip Larkin's poem 'The Whitsun Weddings', with certain words blacked out. He tells them what kind of words - nouns, verbs, adjectives - have been omitted, and how they complete the metre of the line. The aspiring poets must try to fill the blanks. Larkin is travelling by train from the north of England to London, and as he watches from the window, he records passing sights. One of these is a hothouse, which he renders: 'A hothouse flashed uniquely.' Maxwell excises 'uniquely', telling his students that a trisyllabic adverb is missing. Not once has a student supplied 'uniquely'..»

- James Wood, How Fiction Works

(Não sei o que é que será mais surpreendente nesta história: o facto de haver jovens aspirantes a poetas que não conheçam o 'The Whitsun Weddings', ou o facto de autorizarem um poeta a dar aulas. Há alguém que não goste de advérbios de modo? Infelizmente há. Há uma certa escola de composição literária que tem horror ao advérbio de modo. É composta, maioritariamente, pelas mesmas pessoas que têm horror ao ponto-e-vírgula, ao Sporting, à civilização, aos animaizinhos fofos do bosque. São pessoas muito más. A verdade é que não há nada de errado com advérbios de modo, desde que sejam bem utilizados. Frank Kermode, um homem que podia facilmente ser meu amigo se me conhecesse, explicou isto muito bem. neste texto sobre Martin Amis. Qualquer pessoa que dê pontapézinhos em Don DeLillo podia facilmente ser meu amigo:

«
An especially favoured site of cliché infection is the adverb. When Don DeLillo has a character say something ‘quietly’ you know he’s drawing on a long tradition of ‘said quietly’ as a conventional announcement that the remark it follows should be taken as particularly impressive. Ordinary reviewers, and even this extraordinary reviewer, cannot manage without the likes of ‘genuinely pleased’ or ‘brilliantly realised’, ‘brilliantly told’. These are rare instances of Amis himself catching a dose of the disease, and, like much of his rather less brilliant writing, they tend to occur in essays on the authors he most respects, in this case V.S. Naipaul.
Normally he protects his health and virtue by ranging as far as possible from adverbial conventionality. I made a list of recherché adverbs, of which this is a selection: ‘beamingly upbeat’, ‘lurchingly written’, ‘deeply unshocked’, ‘embarrassingly good’, ‘tremendously unrelaxed’, ‘fruitfully uneasy’ (Pritchett), ‘pitifully denuded’ (admittedly apt, for a Leavisian bookshelf), ‘janglingly discursive’, ‘remorselessly indulgent’, ‘scarily illusionless’, ‘hugely charmless’, ‘promiscuously absorbed’, ‘customarily rotted’, ‘chortlingly habituate’, ‘finessingly cruel’, ‘implacably talented’, ‘bicker halitotically’.
The great thing about these expressions is that the author can be fairly sure they will never be used again, much less become new enemies of clear thought and virtue.
»

Bom, a votação ali de baixo foi adulterada por pessoas ligadas ao Sapo, numa manifestação de despudor anti-democrático que me deixou boquiaberto. O Sapo não quis deixar o povo decidir. Eu registo. O número de pessoas que suspira quando pensa neste blogue é também consideravelmente menor do que eu julgava. Eu registo. O novo livro de James Wood já está disponível na FNAC do Chiado (em capa mole, não percebo), por dezasseis euros, permitindo que a população lisboeta se torne finalmente tão chata quanto eu. Aquilo era penalty. Aquilo nem sequer era canto. Estou muito desencantado com toda uma série de coisas.)

sábado, março 01, 2008

Depois de muita pressão, oriunda de vários quadrantes:

O Pastoral Portuguesa deve mudar-se para o Sapo, como todos os outros Judas?
Nunca! Seria o maior desgosto da minha vida, sinceramente, senhor Casanova
Nao me incomoda, mas tambem nao vejo pressa. Pode decidir la para 2009, por exemplo
Eu acho que sim, que devia mudar (mas no meu intimo penso exactamente o oposto)
Desde que o possa continuar a ler todos os dias, nada mais me interessa (suspiro)
Nao tenho o menor interesse nesta questao ou neste blogue (acha? estou a brincar consigo, homem!)
pollcode.com free polls

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Mon prémier Rivette



Cerca de sessenta pessoas entraram na sala Dr. Félix Ribeiro para ver a versão integral de L'Amour Fou. Duzentos e cinquenta e três minutos depois, sete pessoas cambalearam de lá para fora, entreolhando-se com a cumplicidade culpada dos sobreviventes. Os outros desgraçados (feridos, mortos) pejavam o chão da sala como pipocas descartadas. Muita gente saiu a meio, assustada com la violence; cambada de pussies.
O filme (que, ao contrário do que me disseram, não é uma hilariante gross-out comedy na linha dos irmãos Farrelly) foi uma das experiências mais viscerais a que tive o prazer de assistir desde os célebres Benfica-Porto arbitrados por José Pratas na década de 90, que acabavam sempre com 5 jogadores expulsos.
Pontapé de saída! Quem vem lá? Sébastien Badass, um homem com quem não queres fazer farinha. Olhem para aquele porte, aquele estilo. Ninguém se mete com ele. O filme é a preto-e-branco, mas a camisa hawaiana não engana ninguém: aqui está um homem de quem até o espectro cromático tem medo. Há uma peça a ser ensaiada. Andromaque. Racine. Num ringue de luta livre, evidentemente. Ainda não desenharam um palco capaz de conter a pura badassness de Sébastien. Assistimos aos ensaios. Uns correm bem, outros correm mal. Sébastien fuma. Será que a peça existe mesmo? Se calhar não, e as pessoas têm medo de lhe dizer. E agora? Ok, vêm aí as mulheres. Há imensas mulheres no filme. Sébastien fuma. As mulheres também. Onde é que isto já se viu? Mas Sébastien não quer saber. Ele não quer saber de nada. Ele beija mulheres. Ele cospe no chão. Há uma loura. A loura entra na peça, e depois não entra. Sébastien fuma. Depois come pudim. Depois fuma. Esperem lá. Não acredito. Agora fuma e come pudim, ao mesmo tempo! Este meu não quer mesmo saber. Este meu doesn't give a damn. Isto é um buddy movie sem o buddy, um road movie sem a road. Sébastien não precisa de buddies nem de roads. Mais ensaios. Sébastien fuma. Sébastien gala as actrizes. As actrizes não têm outro remédio senão serem galadas. Há uma festa. As pessoas sentam-se em sofás e dizem coisas. Sébastien fuma. E agora? Tambores! Sébastien produz um tambor e cá vai disto. Incrível. O que é que ele irá fazer a seguir? Ninguém sabe. Eu não sei, tu não sabes, as mulheres não sabem, os homens tremem, os animais de estimação gemem apavorados.
Há mais ensaios. Dois actores sentam-se em cadeiras, mas Sébastien vira as cadeiras ao contrário. Sim, e os actores vão fazer o quê? Protestar? Não me façam rir. Sébastien fuma. Oh não. A camisa já não é hawaiana! Sébastien fuma, de camisa branca. O homem afugentou o Hawai da camisa, e fê-lo sozinho. Os ensaios prosseguem. Sébastien parece aborrecido. Há um ar de pânico em todas as pessoas que, por azar, não são Sébastien. Eu próprio tive de me amarrar à cadeira para não desatar a correr que nem um maluquinho. A loura, em particular, não parece estar a gostar das coisas. Há um cão. A loura quer o cão. O cão não quer a loura. Sébastien dorme. A loura não. Estranhamente, nenhum deles fuma. Algo de extraordinário vai acontecer. A loura pega num alfinete e aproxima-se de Sébastien. Pobre alfinete, parece aterrorizado. A situação é resolvida. Sébastien fuma.
Mmm, o que é isto agora? Uma pistola. Há uma pistola no apartamento. Sébastien oferece-a a várias pessoas. Ninguém aceita. Por fim, ele luta consigo próprio pela posse da pistola. E ganha! Estavam à espera de quê? Mais ensaios. Racine é complicado. Olá. A loura quer-se ir embora? Parece que Sébastien foi longe demais. Isto vai dar molho. É claro que Sébastien foi longe demais: é o que ele faz. Sébastien mostra-se vulnerável. Que charada. Talvez não. Ele é suficientemente rijo para a vulnerabilidade. Vestuário rasgado. Como o Hulk, mas ao contrário. (Ok, usou tesouras, mas o trabalho ficou feito). A loura cede. Ambos fumam.
Pausa nos ensaios. Já não era sem tempo. Sébastien ri! O homem é imprevisível. Está contente. A loura também. O dinheiro que esta gente deve gastar em tabaco. E quando julgamos que já lhe topámos o esquema todo, ele aparece, de cuecas e chapéu, a fazer desenhos nas paredes. A única coisa que lhe falta é vestir-se de mulher e destruir uma porta à machadada. Bingo! E com um machado pequenino. Podia ter usado um machado grande, mas não precisa. A badassness do homem é imensa.
Agora sai à rua. Agora fuma. Os prédios mexem-se. A música é ominosa. Sébastien passa por um espelho. O seu reflexo confunde-o. Pela primeira vez na sua vida, está a ver alguém tão badass como ele. Mais mulheres. Isto será boa ideia? Alguém lhe devia dar uma palavrinha. Mas já não há heróis. A loura grava cassetes e depila as sobrancelhas. A operação corre mal. O ringue de luta livre está deserto. Sébastien fuma. O tempo transborda. Fade out.

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Dedicado aos meus pais, Ayn Rand e Deus

Quebrei a minha própria regra - de nunca me aproximar de um texto que inclua a expressão «sociedade ocidental» - e li com bastante interesse 25% deste post do Lourenço. Também eu sou enfaticamente a favor da Oxford comma, em parte por motivos autobiográficos. Quando tinha 9 anos, a professora Irene explicou-me que as vírgulas que eu utilizava esporadicamente antes da conjunção "e" eram um erro. «Mas são sempre um erro, professora Irene?» «Sim, pequeno Casanova, um erro.» Claro que isto nunca me convenceu, mas só consegui adoptar uma posição semi-coerente sobre o assunto em 2003, quando trabalhei para uma revista em Edimburgo. (Escrevia recensões críticas a jogos de computador: 800 palavras e uma classificação qualitativa de 0 a 5 joysticks. Nunca me pagaram, e a revista faliu ao fim de 2 números, mas foi o melhor emprego que tive na vida. A minha peça seminal sobre o Fifa 2004 gerou um volume de correspondência sem precedentes: dois emails, um dos quais, afinal, não era para mim. Mas estou a dispersar-me).
O editor da dita revista - e uso o termo "editor" com a latitude mais Ptolomeica que o termo permite - chamou-me um dia ao gabinete - e uso o termo "gabinete com a latitude mais" etc, etc. - para discutir a minha pontuação:
«Just out of curiosity, little Casanova, do you have any ideia what the fuck you're doing when you type a comma into this nonsense you keep handing in?»
Devo, nesta altura, ter balbuciado alguma coisa pouco convincente (nunca me senti confortável a falar com homens em idade adulta que usam tranças e óculos escuros), e ele deu-me uma palestra de aproximadamente vinte minutos sobre a vírgula serial, que foi uma réplica quase verbatim do artigo da Wikipedia que o Lourenço cita. E a minha vida, pequeno leitor, nunca mais foi a mesma. O Lourenço é a favor da Oxford comma, eu sou a favor da Oxford comma, e um dia, num futuro iluminado, seremos todos a favor da Oxford comma.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Estatísticas dos Óscares

Número de pausas comerciais na transmissão da TVI: 5

Percentagem de pausas comerciais na transmissão da TVI mais interessantes do que os números musicais: 80%

Probabilidade de "George W. Bush ser o grande bobo da noite", segundo os comentadores da TVI: 100%

Número de piadas sobre George W. Bush: 0

Percentagem das piadas de Jon Stewart nitidamente improvisadas que me fizeram rir: 90%

Percentagem das piadas de Jon Stewart escritas pelos ex-grevistas que me fizeram rir: 66,6%

Percentagem das jogadas do Setúbal-Sporting que me fizeram rir: 66,6%

Percentagem de coisas do dia-a-dia que, no geral, me fazem rir: 66,6%

Percentagem das piadas de Eduardo Nogueira Pinto que me fizeram rir: 100%

Número de Maltesers que comi durante a cerimónia: 93

Número de situações na minha vida em que o tédio era tão grande que dei comigo a contar o número de maltesers que estava a comer: 3

Percentagem de homens presentes na cerimónia mais bonitos do que eu: 99,5%

Percentagem de homens presentes na cerimónia mais bonitos do que eu, não incluindo Philip Seymour Hoffman e Tilda Swinton: 100%

Percentagem de vencedores de Óscares que acham que devemos lutar para concretizar os nossos sonhos: 75%

Percentagem de vencedores de Óscares que não diriam disparates se soubessem que o sonho mais frequente da maioria das pessoas é estar em cuecas no recreio da antiga escola preparatória, com toda a gente a olhar e a apontar: 100%

Número de pessoas na plateia do Kodak Theatre que eu julgava estarem mortas: 4

Número de pessoas na plateia do Kodak Theatre realmente mortas: 1 ("John Travolta"? Perpetuado através de CGI desde 1999.)

Número de pessoas na plateia do Kodak Theatre que estariam mortas a esta hora, se a cerimónia tivesse sido escrita pelos irmãos Coen: todas

Número de Óscares atribuídos a franceses: 3

Número de Óscares atribuídos a alemães: 1

Número de franceses que devolveriam imediatamente os seus Óscares, se ameaçados pelo alemão: 3

Número de páginas de At Swim-Two Birds de Flann O'Brien que eu poderia ter lido durante a cerimónia: 80

Número de vezes que adormeci durante a cerimónia: 2

Número de vezes que acordei aliviado pelo facto de aquela gente toda a apontar para as minhas cuecas no recreio da minha antiga escola preparatória ser apenas um sonho: 2

Probabilidade de voltar a ver a cerimónia na íntegra no ano que vem: 0,5%

Número de vezes que já disse isto antes: 15

Probabilidade de Bertrand Russell ter tido toda a razão quando escreveu "The only rational attitude is one of unyielding despair": 100%

Cobertura da cobertura

O arquitecto está em boa forma, o Alexandre Borges da Atlântico está a ser descaradamente plagiado pelo Alexandre Borges do Noite Americana, perante o conivente silêncio do Alexandre Borges do 31 da Armada. Pacheco Pereira, para surpresa geral, ainda não se pronunciou. A minha mãe está no Messenger, a perguntar se eu estou bem agasalhado.

Pardoning the turkey

C.J.: They sent me two turkeys. The more photo-friendly of the two gets a presidential pardon and a full life at a children's zoo, and the runner-up gets eaten.
Bartlet: If the Oscars were like that, I'd watch.

(The West Wing, "Shibboleth", Season 2)

domingo, fevereiro 24, 2008

Coisas que só acontecem aos outros

«Punter wins £1m for 50p horse bet: A punter in North Yorkshire has become the first betting shop millionaire after he placed a 50p bet on eight horses with odds of two million to one.
(...)
The punter discovered he had won at 1200 GMT on Saturday when he went into another William Hill branch in Bedale, 15 miles (24km) away from the branch where he placed his 50p bet.
Graham Sharpe from the bookmakers said: "He placed five more 50p bets for Saturday's racing, then asked staff to check his betting slip from the day before.
"When they told him he had £1m to come but would have to collect it from the Thirsk shop, he went visibly pale before saying that he would have to go and tell his wife."»


(BBC)

Não sei se estão bem a ver a coisa: ele acertou nos vencedores de OITO corridas consecutivas (as acumuladas deste tipo nem sequer permitem "each-way bets"). Apenas dois dos cavalos que escolheu estavam entre os três favoritos para as respectivas corridas; um deles estava a 9 para 1, outro a 10 para 1. A notícia da BBC fala em probabilidades de 2000000/1, mas acho que anda mais perto das 2750000/1.
Pelos meus cálculos, são mais ou menos as mesmas probabilidades de eu acordar amanhã cedo e encontrar o Thomas Pynchon a varrer-me o quintal.

(Trágico fragmento autobiográfico: há cinco anos atrás, só não ganhei noventa mil libras numa acumulada por causa do Ricardo, na altura guarda-redes do Boavista. Acertei nos resultados de dezassete jogos das competições europeias e do campeonato escocês. O décimo-oitavo era o Boavista-Málaga, para a Taça Uefa. Tinha apostado num empate, e consequente eliminação do Boavista. O jogo foi para penalties, o Ricardo marcou um, defendeu outro, o Boavista passou, e eu tive de substituir todo o mobiliário que danifiquei nessa noite. 18 de Março de 2003: ainda tenho o talão da William Hill.
Hoje já estou muito melhor, mas durante anos não conseguia sequer dizer o nome do homem sem me começar a latejar a pálpebra direita.)

sábado, fevereiro 23, 2008


Moda Primavera/Verão: aqui.

(Ao contrário do Sapo, o Blogger permite escrever posts sem título. É uma plataforma espectacular, esta.)

"oh yes, diz o zétolas, a teodiceia c'est moi"

Declaro, fukuyamamente, o fim dos blogues; o Julinho ganhou. Acabei de testemunhar o fim da evolução blogosférica da humanidade. Daqui para a frente, estamos reduzidos a patéticos micro-conflitos (não nesse sentido, não sejam crianças):

«- bored of having same, tiring sex every night? spice up your life, add inches to your d1ck and increase her pleasure (assinale-se a preocupação em cobrir as lógicas de recurso à extensão com todas as motivações/legitimações possíveis, interpelando todas as nuances da frustração. Por exemplo, só a magnanimidade desta fórmula me fez perceber o egoísmo grotesco de andar no mercado sexual com laughable goods, impondo um cativeiro ignóbil a essa gente que ainda se agarra ao que quase nada tem para agarrar, com fantasias emocionais de amor romântico)

- keep your girlfriend by your side when you have this (mais uma vez, uma eye(not that one; especially not now)-opening elucidação da natureza do amor. Quem disse que o amor não é quantificável? Um cientista social diminuto, sem dúvida)

- women love a man with a huge c0ck and spades of confidence (provavelmente a correlação estatística mais inabalável à espera (que eu saiba, embora duvide) de validação psico-biologista)

- don't let hot women laugh at your small tool, because you can change it today (how do they KNOW these things?!...)

- i used to have a tiny c0ck and it was embarrasing, now i'm huge and loving it (a comoção do discurso confessional e directo à comunidade de sofredores com uma mensagem de esperança, comunidade essa instaurada desde logo na recorrente totalização ontológica linguística do membro, neste caso, até da adjectivação do membro da pessoa (um reducionismo associativo de terceiro grau!; veja-se bem how huge "I" am) - movimento linguístico exponenciado, à imagem do seu produto, pela pressão para a criatividade que, tal qual produção artística em contexto de ditadura, é induzida pela vil censura dos filtros de spam ou assim a falos-chave (estão-me a acompanhar, repararam nos nºs a substituir letras nos nominalismos penianos, certo?) à bem-aventurada promoção dos schl0ngs everywhere. Em busca de uma causa meritória para apoiar? Look no further)
»

E há mais, muito mais (não nesse sentido, não sejam crianças). Leiam o resto, se tiverem coragem.

O meu plano blogosférico para os próximos tempos é ir ali ler um bocadinho de Flann O'Brien e depois vir aqui citar um bocadinho de Flann O'Brien

«Afterwards, near Lad Lane police station, a small man in black fell in with us and tapping me often about the chest, talked to me earnestly on the subject of Rousseau, a member of the French nation. He was animated, his pale features striking in the starlight and his voice going up and falling in the lilt of his argumentum. I did not understand his talk and was personally unacquainted with him. But Kelly was taking in all he said, for he stood near him, his taller head inclined in an attitude of close attention. Kelly then made a low noise and opened his mouth and covered the small man from shoulder to knee with a coating of unpleasant buff-coloured puke. Many other things happened on that night now imperfectly recorded in my memory but that incident is still very clear to me in my mind. Afterwards the small man was some distance from us in the lane, shaking his divested coat and rubbing it along the wall. He is a little man that the name of Rousseau will always recall to me.»

(Flann O'Brien, At Swim-Two-Birds)

A ONU, obviamente, não faz nada

Fui na semana passada informado de que foi cometida uma versão francesa do The Office. Uma breve pesquisa no YouTube (com o auxílio de um dicionário de bolso da Larousse) confirmou a gravidade da situação:




O único comentário a este clip é de um comovido cidadão britânico (provavelmente sem o auxílio de um dicionário de bolso da Larousse): «C'est merde. Desole france.»

(Como se isto não fosse suficiente, fiquei a saber que existe também uma versão alemã, cujo protagonista tem o nome de um antigo avançado do Benfica. Limito-me a apresentar estes factos; caberá à comunidade internacional debatê-los em sede própria.)

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Relatório da SEDES afirma que há uma lua maligna a nascer

Lisboa, 22 fev (Lusa) - Num relatório divulgado hoje no seu site, a SEDES, uma das mais antigas associações cívicas nacionais, afirma que se vê na sociedade portuguesa “uma lua maligna a nascer”, e também “sarilhos no caminho”, resultantes dessa mesma “lua maligna a nascer”.
O comunicado afirma ainda que se podem esperar “terramotos e relâmpagos” e “furacões soprando”, devido a essa “lua maligna a nascer”. Os dados recolhidos pela associação parecem indicar uma situação em que se escutará a “voz da raiva e da ruína”, no mesmo quadro genérico de “uma lua maligna a nascer”.
O relatório da SEDES termina aconselhando a sociedade civil a “não ir lá para fora esta noite”, uma vez que o acto poderá ter consequências nefastas, directamente relacionadas com a mesma “lua maligna” que está, ao que tudo indica, “a nascer”.

A versão legível de Finnegans Wake


«Who has heard honey-talk from Finn before strangers, Finn that is wind-quick, Finn that is a better man than God? Or who has seen the like of Finn or seen the living semblance of him standing in the world, Finn that could best God at ball-throw or wrestling or pig-trailing or at the honeyed discourse of sweet Irish with jewels and gold for bards, or at the listening of distant harpers in a black hole at evening? Or where is the living human man who could beat Finn at the making of generous cheese, at the spearing of ganders, at the magic of thumb-suck, at the shaving of hog-hair, or at the unleashing of long hounds from a golden thong in the full chase, sweet-fingered corn-yellow Finn, Finn that could carry an armed host from Almha to Slieve Luachra in the craw of his gut-hung knickers.»

(Flann O'Brien, At Swim-Two-Birds)

terça-feira, fevereiro 19, 2008

"He's a video game, he's not a real person"



(Via um dos estagiários do Andrew Sullivan. Não cometam o meu erro: planeiem as coisas de forma a que não tenham um gole de Capri-Sonne na boca ao minuto 6.)

Pontuação fonética, com Victor Borge e Dean Martin

domingo, fevereiro 17, 2008

Eu podia ser o Karl Rove da minha geração

Ando há meses a acompanhar o processo eleitoral americano sem perceber como é que ainda ninguém se lembrou de utilizar uma estratégia de ataque baseada na anagramática, Haverá algum método mais eficaz de enlamear um candidato do que misturar as letras que compõem o seu nome? Enfim, eu sempre estive muito à frente do meu tempo.
A verdade é que não há assunto de campanha que não possa ser analisado com este processo. Os candidatos podem ofuscar o melhor que quiserem durante os debates e discursos, mas ninguém engana o alfabeto. Vejamos, a título de exemplo, as preocupantes posições devolvidas pela selecção de caracteres "PRESIDENT BARACK OBAMA":

Personalidade - O humor sádico e colegial de Obama está a ser bem dissimulado pelos seus assessores, mas as letras não deixam dúvidas sobre o que podemos esperar assim que ele ganhar as eleições: "PRANK! I BECOME A BASTARD."

Economia - "MARKET ABSORBED A PANIC" dá alguns indicadores positivos, mas não nos deixemos enganar com tanta facilidade. A verdade é que, com Obama na Casa Branca "AMERICA'S A PRO-DEBT BANK", o que deve ter um significado sinistro para quem perceba alguma coisa de economia, o que não é o meu caso.

Cultura - O crime associado às diabólicas letras de hip-hop é, como sabemos, um dos grandes flagelos do nosso tempo. Impossível, portanto, depositar grande confiança num presidente cujo próprio nome parece apoiar implicitamente este estado de coisas: "RAP IS BARENAKED COMBAT".

Política Externa - Tal como já foi apontado por muitos comentadores astutos, Barack é um hawk disfarçado. As letras confirmam o modelo estratégico que ele pretende seguir: "RAMBO'S RECIPE DATABANK"

Valores Familiares - Talvez a categoria com sinais mais preocupantes. Uma presidência de Obama transformará a América numa autêntica Sodoma, onde estrelas hollywoodescas desnudadas vão percorrer os bosques à procura de veados fofinhos para violentar. Isto não é uma hipérbole, é a verdade literal: "NAKED ACTOR RAPES BAMBI". Talvez ainda mais perturbante é a sugestão de que um clone maligno do Pai-Natal poderá destruir um sagrado emblema da inocência universal: "MOCK SANTA RAPED BARBIE!" é a manchete que podem esperar um dia.
Mas não me restam dúvidas de que é este o tipo de acto que se vai generalizar numa presidência Obama, cuja natureza será talvez melhor encapsulada num último anagrama: "A BAD, OBSCENE KARMA TRIP".

***

As coisas não melhoram quando viramos a nossa atenção para a outra candidata Democrata; os caracteres presentes em "PRESIDENT HILLARY CLINTON" contam uma história ainda mais assustadora:

Competência e intelecto - A capacidade intelectual e o domínio dos factos são dois dos pilares em que assenta sua reputação. Um único anagrama chega para contrariar essa concepção, descrevendo com exactidão as suas faculdades mentais: "TINY PARIS HILTON NERD CELL"

Personalidade e Governação - "HELL TRIP ON SINCERITY LAND" é talvez o resumo mais apto do estilo de governação que podemos esperar de Hillary Clinton, que no fundo é "ONLY HITLER'S PLACID INTERN", e cujo discurso de inauguração promete ser um "ILL-PLANNED HYSTERIC INTRO"

Alimentação e Saúde Infantil - alguns indicadores enigmáticos parecem confirmar que o regime vai incluir uma grande dose de importações da China e Itália, com refeições de "TORTELLINI AND SPRY LICHEN" dando gradualmente lugar a uma dieta de "CHINA'S DINNER PILL LOTTERY", que não consigo descodificar, mas que me parece indubitavelmente perversa. O preconceito anti-criança de Hillary é indisfarçável, de resto, e amplamente confirmado pelas suas "LONELY ANTI-CHILDREN TRIPS", que só surpreendem quem não conhecer a sua opinião sobre os pais: "I LYNCHED A TRILLION PARENTS".

Valores Familiares - Consegue superar o carnaval babilónico de uma presidência Obama. Apesar das suas imaculadas credenciais de feminista radical ("DRY THRILL ANTI-PENIS CLONE"), e de haver, perdoem-me a franqueza, "PLENTY LAND IN HER CLITORIS", não podemos esquecer que uma presidência Hillary devolverá a Pensylvannia Avenue o seu mais dissoluto inquilino, Bill Clinton, ou, se preferirmos, "LADY HITLER'S CLIENT IN PORN", que já deve ter nomeado uma estagiária para efectuar "THE ORALLY INCLINED SPRINT" na sua direcção.

Os indícios são aterradores, mas o Partido Republicano ainda vai a tempo de impedir o Apocalipse. O meu mail está ali, do lado direito da página.

Fucking ourselves out com Pedro Arroja


(Contemporary Portugal)

Combater a artrose com Vasco Barreto

Provavelmente a forma mais eficaz de começar um post sobre extractos bancários

sábado, fevereiro 16, 2008