sábado, abril 26, 2008
O meu amigo tem este problema
segunda-feira, abril 21, 2008
Ponto-e-vírgula update
- George Bernard Shaw to TE Lawrence, on The Seven Pillars of Wisdom
(... deste apressadote artigo no Guardian, que vale também por esta magnífica apresentação: «As the great early 20th-century Gallic novelist, essayist, playwright and Academician Henry Marie Joseph Frédéric Expedite Millon de Montherlant so succinctly put it in his Carnets...». Não me sentia tão bem informado desde que li uma vez um artigo na Vogue sobre o célebre atleta profissional português Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro.)
quinta-feira, abril 17, 2008
quarta-feira, abril 16, 2008
Brilliant sugar, turn over
(The National, «You've Done it Again, Virginia»)
A votação chegou ao redondíssimo número de cem, e a vontade do povo português parece ser que Virginia Woolf se dispa o mais rapidamente possível. Confesso a minha dificuldade em perceber os vinte e nove votos recolhidos por Edith Wharton. O comentário do Major (parabéns, também) ao post em questão acaba por ser, a alguns níveis, elucidativo: o temperamento conservador tem um longo e verificável historial de aversão ao círculo de Bloomsbury. Lembro-me de uma passagem deste livro em que Lady Thatcher se refere aos ditos como 'scabs of Englishness' ou uma coisa assim do género; e que Saul Bellow utilizou um dos seus mais conservadores protagonistas para despejar meio-litro de petróleo retórico nas cinzas da "pior espécie de elitismo intelectual", ou uma coisa assim do género.
Nada disto, evidentemente, deveria ter sido um factor decisivo. Abstendo-nos também de considerações de natureza psico-biográfica (o pormenor de Edith Wharton, com aquele ar de sopeira minhota, ter escrito livros que tresandam a sexo), há que realçar o fundamental, que é o extraordinário pescoço de Virginia Woolf: podem-se pendurar videiras naquele metro e meio de carne Modernista. Entre ela e a Nicole Kidman de prótese nasal, eu não hesitaria um segundo.
terça-feira, abril 15, 2008
Um post aprovado sem quaisquer reservas por Rufus Wainwright
É possível efectuar um cálculo probabilístico para qualquer ocorrência, até para a súbita aparição de um cliché no Los Angeles Times ao pequeno-almoço - mercado vergonhosamente sub-explorado pela William Hill. Houvesse odds para o número de obituários especulativos disfarçados de bandarrismo teórico que aparecem mensalmente em suplementos culturais, e eu já teria uma conta bancária ao nível da minha indisfarçável riqueza interior, facto que pode ser confirmado por Rufus Wainwright. Semana após semana, edifícios conceptuais inteiros são abalroados por mil e seiscentos caracteres. Assumo que a maioria dos jornais do planeta destaque um estagiário para manter estas coisas debaixo de olho: atravessamos uma era turbulenta; sopram ventos de mudança; o zeitgeist tem crises de pânico; a qualquer altura, em qualquer lugar, alguma coisa deve estar prestes a acabar e uma pessoa tem de estar atenta. A morte de Deus, o declínio do Romance, o desaparecimento do Autor, o suicídio do Jazz, o fim da História, (o fim do Fim da História), a obliteração da Verdade, a obsolescência da Masculinidade, o coma alcóolico do Ideal Olímpico, o sequestro e espancamento da Civilização Ocidental - as Letras Maiúsculas habitam uma realidade alternativa onde é sempre meia-noite no Poço do Bispo. A esperança média de vida de um conceito abstracto passou a depender directamente do coeficiente de tédio existencial de um editor. Em termos mais obtusos (devido às horas que são, ao Rufus Wainwright, e ao facto lamentável de se me terem acabado os maltesers) podemos dizer que quando x e y se cruzam, há 2/1 de probabilidades de z, sendo que z é um pastel astigmático como «The End of the Critic».
O hábito intelectual horoscopeiro de descortinar tendências com base numa vaga intuição de que as coisas não podem ficar como estão por causa de outras coisas que passam a estar como ficam não é intrinsecamente censurável. O que diverte nestes pitorescos exercícios de cosmética mortuária é a aparente e inabalável convicção de que dezenas de factores convergem por milagre sincrónico na mesma cabecinha nostradâmica, e que a pulsação cardíaca da História está a ser reproduzida num teclado da Apple, cinco minutos antes do prazo de entrega. A moribunda mas combativa verdade é que se podem passar horas e horas a esmiuçar os pesos, idades e registos competitivos de dezoito pilecas, na tentativa de erigir o mais sensato prognóstico do hemisfério Norte, mas o esplendidamente baptizado cavalinho High Five Society lá arranjará maneira de nos negar o acesso ao pequeno Estado da Micronésia que nos pertence por direito.
Creio, apesar de tudo, que esta é uma fórmula de enchimento de chouriços em vias de extinção, e que caminhamos a passos largos para o Fim do Artigo Sobre o Fim De, posição com a qual o Rufus Wainwright concordaria enfaticamente se aqui estivesse.
São Pedro Ramos
A atitude do Pedro Ramos, contudo, não me merece os mesmos aplausos. Qualquer troca verbal semelhante àquela que não termine com um silêncio de trinta segundos seguido de um «you.... lying.... fraudulent.... little..... shit» não pode ser encarada como outra coisa que não uma oportunidade perdida.
Entretanto, enfim/o Rufus acena, e diz que sim:
sexta-feira, abril 11, 2008
Ofereço...
quarta-feira, abril 09, 2008
Alguém, por amor de Deus, explique ao Pedro Arroja a diferença entre "paid" e "paid for"
Acabo de ler um artigo da Economic Botany em que os autores, e passo a citar, «searched the complete works of Cervantes, as historical ethnobotanical resources, for all references to plants, plant communities and products. (...) 167 species were registered in the 38 works, 110 cited in Don Quijote» pelo que me compreenderão se não estiver agora com cabeça para explicar os vários motivos pelos quais mais uma presença do Liverpool nas meias-finais da Liga dos Campeões é um pesadelo metafísico que ameaça o próprio tecido da realidade. E acho muito injusto estarem a pensar que esta aparente azia se deve exclusivamente ao dinheiro que apostei numa vitória do Arsenal, até porque o golo de Sami Hyypiä me rendeu 65 libras (£5 @ 12-1, 'anytime scorer', William Hill). Se me dedicasse a pesquisar as obras completas de Rafael Benítez à procura de 'plants', 'plant communities' ou mesmo 'cynical, neurasthenic, vegetable-like midfielders', encontraria muito mais do que cento e sessenta e sete espécies. Vi futebol no Reino Unido durante sete anos. O melhor futebol que lá se jogou foi invariavelmente jogado pelo Arsenal (mesmo na fase pós-Bergkamp), mas, em uma ou outra altura, dei comigo a disseminar a minha simpatia continental por quase todos os clubes federados, incluindo uma paixoneta de 3 meses pelo Redditch United da Conference League, cujo melhor jogador - um extremo-direito que acumulava funções de repositor de stock na loja da Staples - tentou um total de três fintas nos cinco jogos a que assisti, duas delas com relativo sucesso. Mas nunca - nunca - consegui sentir um borrifo de qualquer sentimento positivo pelo Liverpool, por motivos complexos que explicaria se não tivesse acabado de ler um artigo da Economic Botany.
A votação tem estado a decorrer ordeiramente (com Virginia Woolf, para já, em clara e governantíssima vantagem). Conto encerrar as urnas assim que o número de votos exceder o número de espécies de 'plants' ou 'plant communities' referenciadas no Antigo Testamento, segundo o estudo efectuado em 2002 por Moldenke e Moldenke, conhecidos como os Dupond et Dupont da etnobotânica. Aquela cantiga chama-se «Brand New Song» e é de um rancho escocês chamado The Pendulums.
Termino com alguns exemplos de frases sobre Rafael Benítez inexplicavelmente não devolvidas pelo google:
«Ouvi dizer que o Rafael Benítez não respeita o meio-ambiente»; «Ouvi dizer que o Rafael Benítez tem um mamilo supranumerário»; «Ouvi dizer que o Rafael Benítez é um niilista Bakuniniano»; «Ouvi dizer que o Rafael Benítez faz mal a gatinhos»; «Ouvi dizer que o Rafael Benítez é um anagrama de Rabanete Feliz»; «"Ouvi dizer que o Rafael Benítez está a destruír a Civilização tal como a conhecemos"».
segunda-feira, abril 07, 2008
Virginia ou Edith?

Sondagem parcialmente inspirada por este este post do Pedro Mexia, e por uma peremptória declaração de Sir Isaiah Berlin nesta entrevista (a pornografia começa ao minuto 1:30), que passo a transcrever foneticamente, e de olhos bem fechados: «(...) Juan uhv a mowst biootiful weemin I have a sin in my life. She'd lie to bloo I's, and, um, round n'wondering like a gypsy's. She'd un ex-kwisit figure. She cud be sed to luke lie can kind uhv idealised govern ass. I mean dat too wards witch govern asses my twish two ass pire.»
Depois da respectiva votação, tratarei de revelar a minha opinião sobre esta matéria fundamental para os adolescentes de hoje.
domingo, abril 06, 2008
Not the worst, not the best, just the same old shit

É o maior acontecimento do calendário equestre: todos os anos, em Abril, eu dou 25 libras a um cavalo gordo e o cavalo gordo come-as. A Grand National veio e foi, alheia à minha não-presença. Slim Pickings, a pileca irlandesa por quem nutro uma inexplicável admiração desde 2005, voltou a fazer o que faz todos os anos: estabelecido pelas agências de apostas como o quarto favorito, tratou de terminar a prova na quarta posição. Se o mercado de capitais funcionasse com a mesma entediante consistência, seríamos todos bilionários, e um café custaria dois milhões de euros.
terça-feira, abril 01, 2008
"I must say there are some absolutely delightful motels where I've been very happy"
Ao minuto 2:11 do primeiro clip, Nabokov decide esticar as pernas e sentar-se num sofá no outro lado da sala; Trilling segue-o, obrigando o apresentador do programa a arrastar a cadeira para os acompanhar. Como represália, o apresentador pega na chávena de chá de Trilling e besunta-lhe o rebordo. Ao longo de toda a entrevista, Nabokov recorre escandalosamente às cábulas - as que tem nos cadernos, as que tem na cabeça - e Trilling deixa um cigarro arder até ao último milímetro de alcatrão. Discute-se Lolita.
Não sei o que é isto, mas quero que a minha televisão faça o mesmo.
On the rebound
«Famous sign outside a church in Northern Ireland in the 1970's
Jesus Saves
George Best scores on the rebound»
segunda-feira, março 31, 2008
Três posts para vosso entretenimento
(Terra Habitada)
«-Olhem para mim, sou como este Grande Intelectual Inglês mas em Portugal sou incompreendido!
-Não és nada! Eu mando muito mais estilo porque sou mais pobre e mais velho.
-Tenho aqui duas citações dele que mostram que a esquerda é estúpida e não manda estilo.
-Mentira! Ele pensava que a esquerda era bonita às vezes. Ele e o Outro Grande Intelectual Francês!
- Os franceses são todos de esquerda! Falo dos Grandes Intelectuais Ingleses!
- Não é verdade! Há Grandes Intelectuais Ingleses que são de esquerda!
- Comuna fascizante! Super Aaron! Mega Aaron!
- 25 de Abril sempre! Sartre Power! Abaixo o patronato e os Grandes Intelectuais de Direita!»
(O Nascer do Sol)
Uns excitam-se com luta-livre de lésbicas na lama. Outros excitam-se com a aliteração em "luta-livre de lésbicas na lama". Os segundos claramente onanistas depravados.
(Ainda Não Está Escuro)
domingo, março 30, 2008
MSN

R. Casanova diz:
Pssst. Estás aí?
Internet diz:
não vês k xxim?
R. Casanova diz:
Não dizias nada. Senti a tua falta.
Internet diz:
??
R. Casanova diz:
Senti a tua falta. Foram três semanas.
Internet diz:
ok
R. Casanova diz:
Ok? Não vais dizer mais nada?
Internet diz:
tipo O k? tive okupada, foi xó iXo
R. Casanova diz:
Esquece.
Internet diz:
ok
R. Casanova diz:
Mas está tudo bem contigo? Pareces-me distante...
Internet diz:
não komeces kom ixo, tipo larga-me
R. Casanova diz:
Porque é que me tratas sempre assim? Alguma vez te fiz mal?
Internet diz:
xATo. por ixo é k dps ngm te atUra.
Pastoral Portuguesa diz:
Dá-me atenção.
Internet diz:
olá
R. Casanova diz:
Espera aí um bocadinho.
Pastoral Portuguesa diz:
Porque é que não me dás atenção?
R. Casanova diz:
Eu dou, espera.
Internet diz:
voxês tão é bem 1 pó outro, LoLoL
Pastoral Portuguesa diz:
Não tens dito nada; ando preocupada.
R. Casanova diz:
Eu sei; já falamos.
Internet diz:
pontos-e-vírgulas... LMFAO
Televisão diz:
Internet, kadê Kasanova?
Internet diz:
td fx TV?
Televisão diz:
kadê Kasanova? tenho futebol
Pastoral Portuguesa diz:
Dá-me atenção.
R. Casanova diz:
Vocês as duas importam-se de esperar um bocado?
R. Casanova diz:
Internet?
Internet diz:
k foi?
R. Casanova diz:
Só queria confirmar que está tudo bem entre nós, que não vais voltar a desaparecer.
Internet diz:
eu faxo o k kero, larga-me
R. Casanova diz:
Não consigo perceber porque é que me tratas assim.
Televisão diz:
tenho futebol tenho sporting.
Pastoral Portuguesa diz:
Eu amo-te tanto. Fala comigo.
R. Casanova diz:
Internet?
R. Casanova diz:
Internet?
R. Casanova diz:
Internet?
sexta-feira, março 28, 2008
Internet Anagram Server 9,222 - Eu 0
Numa raquítica fracção de segundos, o programa em questão devolveu mais de cinquenta mil anagramas de "Pastoral Portuguesa", o que não deixa de ser impressionante, mesmo que nenhum dos meus dicionários reconheça as palavras "rstulo" e "pslo".
Não estão convencidos? Isto é fácil de testar. Imaginemos que há por aí um novo blogue colectivo chamado Sinusite Crónica, formado por seis pessoas e alojado na plataforma Sapo. Imaginemos agora que introduzimos os respectivos caracteres no Internet Anagram Server, tendo o cuidado de retirar o diacrítico ao 'o', porque o Internet Anagram Server é um beauty snob que não reconhece caracteres cicatrizados. Depois de imaginarmos isto tudo, imaginemos também que estes prodígios de sensatez ortográfica são apenas alguns dos nove mil duzentos e vinte e dois anagramas para Sinusite Crónica devolvidos pelo Internet Anagram Server : Estica Unicsrnio, Insinuar Esticco, Ca Sonsice Intuir, Ascensco Tinir Ui, Crustaceo Nini Si. Imaginemos por fim que eu estive ali quase meia-hora a brincar com lápis e papel, e que o melhor que consegui foi "Incitar seis no cu".
domingo, março 23, 2008
Jeremy Bentham, Miguel Veloso, e este implemento esférico que aqui temos

O que aconteceu foi isto: no seguimento de um típico lance de ataque do Sporting - que esta época consiste em tentar transportar a bola até ao último terço do campo na vaga esperança de que algo misterioso e inefável aconteça - o Abel encontrou-se subitamente com a dita bola ao alcance do seu pé direito. Um imponderável destes exige uma resposta firme, e Abel tratou de afastar o problema dali o mais rapidamente possível, para se poder concentrar no seu trabalho: correr de um lado para o outro com um ar determinado, se possível obrigando um adversário a correr ao lado dele. As surpresas começaram aqui. A bola que Abel afastou com tanta diligência violou pelo menos sete princípios geométricos e chegou ao pé direito de Izmailov, talvez o imigrante de Leste com menos qualificações a residir em território nacional. Compreensivelmente alarmado, Izmailov correu na direcção da linha de meio-campo, tentando devolver algum equilíbrio euclidiano a uma situação insustentável. Quando viu que o caminho estava barrado, e que não tinha outra hipótese senão tentar fintar um adversário, entrou em pânico, rodopiou, fechou os olhos, e afugentou a bola na direcção geral da linha de fundo. Ora acontece que, neste breve interlúdio eslavo, o Abel tinha continuado a correr na mesma direcção, e a bola, dinamitando séculos de progresso na Física desde Newton, chegou-lhe outra vez aos pés. Sem tempo para raciocinar - a única forma de retirar algo positivo da sua pessoa durante um jogo é confiar apenas nas respostas da sua memória muscular - o Abel estendeu instintivamente a perna; a bola ricocheteou na sua chuteira e atravessou o que apenas posso descrever como seis pernas pertencentes a atletas do Vitória de Setúbal para chegar, inacreditavelmente sã e salva, às imediações de Miguel Veloso.
Miguel Veloso, não vale a pena dourar a pílula, está num horrendo momento de forma, e fez um péssimo jogo. (Passou de um jogador inquestionavelmente superior ao seu pai para um ao mesmo nível do meu pai). Mas continua a ser um dos poucos membros do plantel do Sporting (juntamente com o Moutinho, coitado) com a capacidade para assimilar a ideia de que, em qualquer situação de jogo, existem, no mínimo, duas ou três maneiras de prosseguir a jogada. E talvez o único (além do Moutinho, coitado) que não se importa de fazer pausas de micro-segundos para emitir desapaixonados juízos de valor sobre os trolhas que o rodeiam. Miguel Veloso levantou a cabeça, viu Abel e Izmailov teoricamente “desmarcados” e, leitor atento de Bentham que é, tomou a opção utilitarista (as consequências do acto sendo mais importantes que a sua natureza intrínseca, etc.): endossou-a ao adversário que considerou menos capaz de iniciar um contra-ataque perigoso (creio que foi o Auri, talvez o único jogador do Vitória que não seria titular de caras neste Sporting). Ao minuto 60 da final da Taça da Liga, em pleno lance de ataque do Sporting, a melhor hipótese de maximizar a felicidade geral da sua equipa era ceder a bola ao adversário menos talentoso. O passe Benthamista de Miguel Veloso arrancou-me o único aplauso da noite, e provou de uma vez por todas três verdades que deviam ser óbvias para todos os Sportinguistas para aí desde Setembro:
1. o Miguel Veloso é um bom jogador e um excelente filósofo;
2. o Universo é um lugar desolado;
3. um dia, mais tarde ou mais cedo, vamos todos morrer.
Não queria deixar de endereçar os meus sinceros parabéns ao Vitória Futebol Clube: são da segunda melhor margem do Tejo, praticam o segundo melhor futebol do país, e venceram com toda a justiça o segundo troféu mais inútil da temporada.
Páscoa Revolucionária em Curso
Na posse desta informação, gerações de produtores dedicaram as suas carreiras a testar os limites do bom senso, e a tentar conceber um produto rigorosamente intragável. Os Dez Mandamentos, mini-série que a TVI transmitiu na Sexta-feira Santa, foi um esforço apreciável nesse sentido. Trabalhando sob a ilustre sombra de DeMille, os responsáveis não tiveram outro remédio senão descer a fasquia abaixo da crosta terrestre. O mercado foi vasculhado à procura dos piores actores disponíveis; estivadores desempregados encarregaram-se dos efeitos especiais; chimpanzés em cativeiro foram fechados numa cave com máquinas de escrever até produzirem um guião consensualmente lamentável. Nada foi deixado ao acaso. Ainda assim, é com prazer que anuncio o fracasso do projecto: cinco horas de sublime incompetência não foram suficientes para me fazer desligar o aparelho e abrir um livro. Ainda não foi desta que a televisão ganhou uma batalha comigo; eles são fracos, eu sou muito mais fraco.
Os rudimentos do enredo são estabelecidos logo de início, para benefício dos neófitos. O Faraó do Egipto e um grupo de trabalhadores hebraicos não-assalariados estão envolvidos numa feroz disputa laboral sobre a posse dos meios de produção. Não há solução à vista. O elenco é submetido a uma cuidadosa estenografia visual, para que ninguém se perca nas profundidades da trama: o Faraó e os seus sacerdotes parecem adeptos de futebol ingleses com os olhos besuntados de kohl; a princesa e as suas cortesãs são todas clones de Eva Longoria; as crianças egípcias foram repescadas de um teledisco perdido dos Soft Cell; os escravos hebraicos têm todo o aspecto de figurantes judeus a receber o salário mínimo; e o Moisés menos semita da história dos épicos bíblicos parece um oficial das SS depois de um dia cansativo no escritório. Devidamente identificados, os intervenientes lançam-se em complexas rondas negociais. Torna-se rapidamente aparente que Moisés não está nada contente com a situação. O seu semblante atormentado traduz empatia com a dor dos trabalhadores. Desencantado com o sisudo conforto do palácio, inicia uma escalada revolucionária, que culmina num gesto irreflectido, seguido de fuga e exílio.
A travessia do deserto é dura: Moisés perde o manto real, as peúgas reais, e o cromado teutónico. Quando finalmente chega ao oásis já ostenta a barba cuidadosamente aparada indicativa de semanas de privação; e já é tão incontornavelmente judeu que até se dá ao luxo de gracejar (o único gracejo voluntário ao longo de 360 minutos). A sua rotina de “Homem-atormentado-com-passado-misterioso” é um grande sucesso no oásis: meia-hora depois de ter chegado, já o patriarca local lhe está a oferecer a filha mais velha. Moisés casa-se, e pasta umas ovelhas, atormentadamente. Mas continua a não estar nada contente com a situação e, quando chega a noite, lança olhares misteriosos à montanha.
“Não subas à montanha! Está amaldiçoada!”, diz-lhe a esposa. Na sequência seguinte, evidentemente, Moisés sobe à montanha e entabula um frutuoso diálogo com um Efeito Especial. O Efeito Especial sussurra-lhe coisas, com rouquidão de linha erótica: “Pega no teu cajado, Moisés. Pega-lhe.” Moisés pega no cajado, atormentadamente.
É estabelecido que o Efeito Especial tem toda uma série de ideias sobre a disputa laboral no Egípcio, e que Moisés foi escolhido como seu porta-voz. Regressado ao palácio, Moisés inicia as negociações com exigências que fariam corar os mais arrojados líderes da CGTP. Implementando a estratégia delineada pelo Efeito Especial, promete represálias apocalípticas: em vez de protestos e paralisações gerais, o patronato pode esperar olhares atormentados e fenómenos atmosféricos. O Faraó, envergando mais quilos de maquilhagem do que todas as Evas Longorias do palácio, limita-se a abanar a cabeça: “Que Efeito Especial é esse de que falas? Onde é que ele está?”. Moisés fita-o em silêncio, atormentadamente.
As negociações prosseguem, sem grandes cedências de parte a parte. “Queremos ouro e prata” exige o representante Moisés. “Queremos cabras”, “queremos leite”, “queremos chicotadas indexadas à inflacção”. Entretanto, a água transforma-se em sangria, há insectos por todos os lados, e um fogo-de-artifício corre espectacularmente mal; são as pragas do Efeito Especial, mas podia perfeitamente ser a descrição de uma viagem de finalistas a Loretta del Mar. Quando o Faraó dá finalmente o seu consentimento à emancipação do problemático bando de proletários, o espectador já não consegue disfarçar uma certa simpatia com o patronato. A velocidade com que a plebe segue Moisés a caminho do deserto deixa a dúvida no ar: será que se pisgaram com a cutelaria?
A viagem para a Terra Prometida é longa e árdua, e os proletários não param de azucrinar um Moisés cada vez mais impaciente com perguntinhas infantis (“Where are you leading us?”, “How will we survive?”, “Are we there yet? Are we there yet?”). A intervalos regulares, para manter a ordem entre a ralé, Moisés é forçado a pegar no seu cajado, atormentadamente, e a transformar petróleo em água.
Entretanto, no Egipto, o patronato dá pela falta do serviço de jantar e lança-se numa louca perseguição pelo deserto, culminando numa insólita competição de mergulho no Mar dos Papiros (os proletários ganham por voto unânime do júri).
Os anos passam, a Terra Prometida não se materializa, e Moisés tem cada vez mais dificuldades em manter o proletariado sob controlo: à mínima distracção sua, desatam a idolatrar gado caprino. O que fazer? Depois de uma longa ausência, o Efeito Especial regressa, envergando a sua sensual voz de gripe: “Do you remember me, Moses? Do you recognize my voice? Can you guess what I'm wearing?” Uma última reunião de trabalho é convocada, mais uma vez no topo da montanha. O Efeito Especial substitui o antigo código de trabalho por dez resplandecentes alíneas, novinhas em folha. Lá em baixo, em ambiente festivo, os proletários desobedecem alegremente a todas elas. O Efeito Especial ordena a punição dos infractores através de um processo disciplinar conhecido como “chacina”. Os anos passam. Moisés envelhece, atormentadamente. Nos seus últimos dias, é-lhe concedida a oportunidade de vislumbrar a Terra Prometida: uns patéticos hectares de terra, repletos de vegetação rasteira e membros do Hezbollah. Rolam os créditos.
Já só faltam nove meses para o Natal.
Próximos ciclos de cinema ali na Barata Salgueiro
«Gajas: o que é que elas querem, e porque é que não o dizem logo? Uma retrospectiva freudiana.»
«'Este filme não é sobre mim': um ciclo de cinema faux-confessional.»
«'Este filme não é sobre ti': um ciclo de cinema com faux-dedicatória (para C., M. e R.).»
«Bob Dylan: esse desconhecido.»
domingo, março 16, 2008
As Quatro Nobres Verdades (em triplicado, e com carimbo, e entregues no gabinete do 2º andar, depois de tirar senha)
Once a reincarnated living Buddha soul-child has been recognized, it shall be reported to the provincial people's government for approval; those with a great impact shall be reported to the State Administration of Religious Affairs for approval; those with a particularly great impact shall be reported to the State Council for Approval. When there is debate over the size of a living Buddha's impact, the China Buddhist Association shall officiate.
Reincarnated living Buddhas may not reestablish feudal privileges that have already been abolished.
Applicants to be reincarnated living Buddhas may not be reincarnated if the provincial people's government does not allow reincarnations.»
(De uma ordem emitida pelo Gabinete de Assuntos Religiosos do governo chinês, e traduzida na última Harper's. Provavelmente o mais fascinante exemplo de burocratização do misticismo que tive a oportunidade de ler neste meu presente ciclo kármico.)
A PT anda a brincar com a vida das pessoas
terça-feira, março 11, 2008
Já ando a fazer riscos na parede
Quando for grande quero ser Ben Marcus
De vez em quando (de três em três anos, se tivermos sorte) descobre-se um escritor que nos proporciona a oportunidade para sermos histéricos e perdermos todo e qualquer sentido das proporções. Ben Marcus - e vai ser esta a minha posição oficial durante os próximos tempos - representa o maior salto evolutivo da Humanidade desde a contratação do polegar oponível.domingo, março 09, 2008
Telefoneless
quarta-feira, março 05, 2008
As coisas: como elas são e quando acontecem
segunda-feira, março 03, 2008
Blogspoticamente vosso
- James Wood, How Fiction Works
(Não sei o que é que será mais surpreendente nesta história: o facto de haver jovens aspirantes a poetas que não conheçam o 'The Whitsun Weddings', ou o facto de autorizarem um poeta a dar aulas. Há alguém que não goste de advérbios de modo? Infelizmente há. Há uma certa escola de composição literária que tem horror ao advérbio de modo. É composta, maioritariamente, pelas mesmas pessoas que têm horror ao ponto-e-vírgula, ao Sporting, à civilização, aos animaizinhos fofos do bosque. São pessoas muito más. A verdade é que não há nada de errado com advérbios de modo, desde que sejam bem utilizados. Frank Kermode, um homem que podia facilmente ser meu amigo se me conhecesse, explicou isto muito bem. neste texto sobre Martin Amis. Qualquer pessoa que dê pontapézinhos em Don DeLillo podia facilmente ser meu amigo:
«An especially favoured site of cliché infection is the adverb. When Don DeLillo has a character say something ‘quietly’ you know he’s drawing on a long tradition of ‘said quietly’ as a conventional announcement that the remark it follows should be taken as particularly impressive. Ordinary reviewers, and even this extraordinary reviewer, cannot manage without the likes of ‘genuinely pleased’ or ‘brilliantly realised’, ‘brilliantly told’. These are rare instances of Amis himself catching a dose of the disease, and, like much of his rather less brilliant writing, they tend to occur in essays on the authors he most respects, in this case V.S. Naipaul.
Normally he protects his health and virtue by ranging as far as possible from adverbial conventionality. I made a list of recherché adverbs, of which this is a selection: ‘beamingly upbeat’, ‘lurchingly written’, ‘deeply unshocked’, ‘embarrassingly good’, ‘tremendously unrelaxed’, ‘fruitfully uneasy’ (Pritchett), ‘pitifully denuded’ (admittedly apt, for a Leavisian bookshelf), ‘janglingly discursive’, ‘remorselessly indulgent’, ‘scarily illusionless’, ‘hugely charmless’, ‘promiscuously absorbed’, ‘customarily rotted’, ‘chortlingly habituate’, ‘finessingly cruel’, ‘implacably talented’, ‘bicker halitotically’.
The great thing about these expressions is that the author can be fairly sure they will never be used again, much less become new enemies of clear thought and virtue.»
Bom, a votação ali de baixo foi adulterada por pessoas ligadas ao Sapo, numa manifestação de despudor anti-democrático que me deixou boquiaberto. O Sapo não quis deixar o povo decidir. Eu registo. O número de pessoas que suspira quando pensa neste blogue é também consideravelmente menor do que eu julgava. Eu registo. O novo livro de James Wood já está disponível na FNAC do Chiado (em capa mole, não percebo), por dezasseis euros, permitindo que a população lisboeta se torne finalmente tão chata quanto eu. Aquilo era penalty. Aquilo nem sequer era canto. Estou muito desencantado com toda uma série de coisas.)
sábado, março 01, 2008
quarta-feira, fevereiro 27, 2008
Mon prémier Rivette



