quarta-feira, julho 23, 2008

Está uma osga na minha sala, atrás da estante das enciclopédias...

... tem estado ali desde as quatro da manhã, e não mostra qualquer vontade em sair. O facto de eu ter decidido não dormir não está directamente relacionado com a presença da osga atrás da estante das enciclopédias. Creio que, dada a situação, a minha tranquilidade tem sido notável. O blogue da LER anuncia "com prazer" a contratação de Rodrigo Casanova (um astuto anagrama de «consagrar o vadio»). Não sei quem é o Rodrigo Casanova (um astuto anagrama de «socorro da vagina»), mas posso garantir que a minha mãe anda cada vez mais confusa com isto tudo. Tenho aqui dois exemplares cilindrados do Dica da Semana para o que der e vier. Nunca temi este tipo de confrontos. Há um «convida a osga» algures dentro das letras de Rodrigo Casanova, parece-me. Ia buscar um lápis para confirmar, se o lápis não estivesse tão perto da estante das enciclopédias. Não tenho só ficado aqui quietinho desde as quatro da manhã, a olhar para a estante das enciclopédias, que isto fique bem claro. Logisticamente impossibilitado de ir pesquisar osgas a uma enciclopédia, fui pequisar osgas ao google. O primeiro conselho que li foi "Join the Osga!". Muito menos surpreendente foi o facto de haver osgas no YouTube. O vídeo é comoventemente intitulado "Osga na casa-de-banho":

quinta-feira, julho 17, 2008

Slightly improved

Espero que, durante a minha ausência, as pessoas tenham tido o bom senso de fazer imensos links para este post de 20 de Junho no b-site:

«I don't like Robben. He is just a slightly improved Folha.
Folha? Who's Folha?
A portuguese player, he was a left winger and almost never right.
«Folha» sounds weird.
It means «sheet».
Oh, I see your point: Robben is shit.
Yeah, just slightly improved.
»

segunda-feira, julho 14, 2008

Mephisto



A imagem mais aterradora da semana apareceu sábado à noite, no fabuloso programa de Artur Albarran. Mostrava simplesmente uma mulher a escrever. Com um marcador de tinta fluorescente em cada mão, ela escrevia em simultâneo uma frase e o seu reflexo, num indefeso painel de vidro. «Não é difícil», explicou. «O mais complicado é decidir o que fazer com cada olho».
O neurocirurgião de serviço, Bandeira e Costa, debitou os subterfúgios da praxe. Falou de uma «invulgar disfunção cerebral» e de «ligações entre os dois hemisférios», sem nunca se atrever a enunciar a única verdade científica que o caso admite: a mulher é uma bruxa e deve ser lançada à fogueira o mais rapidamente possível.
Artur Albarran estava presente para providenciar o contexto histórico: «o espectador sabe que célebre figura tinha também esta capacidade?» Milhares de portugueses devem ter gritado o nome de Patrick Branwell Brontë. Alcoólico, desempregado crónico, e tristonho figurante na biografia das suas irmãs, Branwell tinha a transtornante habilidade de escrever duas cartas ao mesmo tempo (presumivelmente, uma para a Segurança Social e outra para a destilaria mais próxima). Albarran, contudo, tinha um ícone diferente no teleponto. «Isso mesmo: Leonardo Da Vinci!»
Pobre Leonardo; é retrospectivamente acusado de qualquer coisa de cinco em cinco minutos. Sabemos que, mais cedo ou mais tarde, qualquer observação mordaz será abtribuída a Oscar Wilde, qualquer insulto político a Winston Churchill e qualquer tecnologia moderna a Da Vinci, mas o seu currículo, até no que diz respeito a destreza manual e proezas atléticas, começa a estar ridiculamente inflacionado. Nunca li os famosos cadernos, mas pelo que pude aferir através de fontes secundárias, além de ter deixado esboços para o escafandro, a metralhadora, a bebida gaseificada, o leitor de mp3 e o metro de superfície do Porto, Leonardo terá sido também o primeiro ser humano a dançar o twist, a escalar o K2, e a preencher correctamente uma declaração de rendimentos. Nem a faculdade de escrever com as duas mãos ao mesmo tempo explica tamanha fecundidade.
Desconheço se Da Vinci também foi o precursor do autómato comunicativo que chegou aos nossos dias sob a designação de “Manuela Moura Guedes”. A primeira e mais natural reacção ao presenciar esta estonteante, ainda que rudimentar, manifestação de inteligência artificial é uma espécie de espanto religioso. Mas depressa o espanto dá lugar à desconfiança. Como aquelas populações boquiabertas que assistiram às triunfais exibições dos primeiros autómatos jogadores de xadrez, rapidamente nos perguntamos se não haverá um anão talentoso envolvido no processo. Na verdade, o últimos destes autómatos - o Mephisto - ao contrário dos seus ilustres predecessores (o Turco e o Ajeeb) era operado por controlo remoto, de uma sala diferente. Alguns dos melhores xadrezistas da época, como Isidor Gunsberg e Jean Taubenhaus, encarregaram-se de premir os botões certos. Não sei quem são os estagiários da TVI responsáveis pelo controlo remoto de “Manuela Moura Guedes”, mas creio que não estão minimamente à altura do legado de Gunsberg e Taubenhaus.
A entrevista ao futuro ex-treinador do Sport Lisboa e Benfica, no Jornal da Noite de sexta-feira, foi um exemplo invulgarmente confrangedor do que pode acontecer quando uma tecnologia a vapor colide com a era digital. O autómato esbracejou e balbuciou. Esperneou e suspirou. Microchips perdidos ziguezaguearam-lhe pelas córneas. O seu auricular berrava as instruções num volume tal que Quique Flores quase respondeu a duas perguntas antes de elas serem feitas. Mas o pobre andaluz foi um modelo de decoro. Começou por pedir desculpa aos telespectadores por não se exprimir fluentemente em português, algo que os operadores de “Manuela Moura Guedes” nunca tiveram a delicadeza de a pôr a fazer. A dada altura, o autómato tentou explicar a expressão “ferver em pouca água” com toda a eloquência de um curto-circuito. Quique ignorou-o com cavalheirismo e respondeu a perguntas que não chegaram a ser feitas. Só não confirmou se o Benfica 2008/09 vai jogar em 4-5-1 ou se, pelo contrário, vai ser a mais recente equipa nacional a aderir ao 4-4-2 em losango, táctica desenhada pela primeira vez em Florença no séc. XV, por uma das mãos de Leonardo Da Vinci.

sexta-feira, julho 11, 2008

Excerto de um extraordinário ensaio de Edmund Wilson sobre Ronald Firbank, sacado em ficheiro .txt do tal depósito online ilegal

«By this time ‚ƒ„cˆŠ‹ŒŽ\˜™š›œžŸ ¡¤\¦N©ª«ハ®¯}²³Lµ·¸¹º»¼½¾¿ÀÁÂÃÄÅÆÇÈÉÊËÌÍÎÏÔÑÓþÿÿÿþÿÿÿþÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿo»

A minha transição para a meia idade vai progredindo a bom ritmo

Uma passagem que não me lembro de ter sublinhado, num livro cujo título agora me escapa, sugeriu-me uma eventual ligação indirecta com um acontecimento dos últimos dias que agora não recordo. Conversei sobre isto com não sei quem, que me disse suspeitar que teria dado um bom post, desde que não me esquecesse de mencionar qualquer coisa que me esqueci de mencionar.

quarta-feira, julho 09, 2008

Apesar de não gostar particularmente de trufas...

... este blogue apoia efusivamente Bento dos Santos e deplora as recentes acusações de elitismo culinário de que ele foi alvo. As férias acabaram. Alguém invadiu o quintal na minha ausência. Desapareceram dezenas de laranjas pré-podres, o que agradeço. Também desapareceram as silvas e o lixo, o que agradeço. Deixaram a sachola, o ancinho e o balde, um gesto certamente admonitório. Prometo ter isto em melhor estado da próxima vez que vierem cá roubar laranjas. Não vi a final de Wimbledon. Apenas um mini-resumo, e as fotos nos jornais. Federer com cara de quem chegou de férias para encontrar um quintal sem laranjas. Andava há anos a tentar perder um jogo em Wimbledon, coitado. A selecção ainda não tem seleccionador. Mas o seleccionador tem um perfil. Nada me assusta mais no futebol do que o perfil. Nem mesmo o projecto. Sempre que o Sporting formula um projecto para contratar um jogador que encaixe num perfil, temos de passar o Verão seguinte à procura de colocação para o Milan Purovic. O perfil do novo seleccionador, segundo o projecto idealizado por Gilberto Madaíl, assenta no domínio do português, o que exclui automaticamente Hiddink, Pekerman e Humberto Coelho. Não há nada a fazer. Descobri há menos de vinte e quatro horas que todos os textos de Edmund Wilson incluídos nas recentes edições da Library of America (à venda na Amazon por uma quantia incomportável para o meu projecto) estão disponíveis online, gratuita e ilegalissimamente. Disponibilizarei o endereço a todos os interessados que tenham o perfil adequado.

Bovine TB Partnership Group

«Yesterday provided intriguing material for an examination of class in Britain today. The environment secretary, Hilary Benn, announced that after long thought he had decided not to permit the culling of badgers to stop the spread of TB among cattle. He said there was not enough evidence that it worked, and that a cull might make matters worse.
As always with the Department for Environment, Food and Rural Affairs, there was bags of new jargon to entertain us. Benn talked about the "testing and slaughter of reactors", and "randomised culling". Everyone seemed to know exactly what he meant.
And, as always in the Brown government, no matter how long a problem has been around it is never too late to set up a quango. This will be the Bovine TB Partnership Group, which sounds like an organisation lonely cows join to find new friends.
But the Commons divided almost entirely along party lines: Labour MPs were pro-badger; Tories were all for slaughtering the lot and turning them into shaving brushes.
»

(Da coluna de Simon Hoggart, que continua a produzir o espaço tipográfico mais cómico da imprensa europeia, apesar da feroz concorrência de Rui Miguel Tovar.)

terça-feira, junho 17, 2008

Eu é só Camões

O Prós & Contras de ontem foi dedicado a estabelecer se o futebol serve como factor de alienação na sociedade portuguesa. Incrivelmente, não contou com a presença de José Peseiro, talvez o maior perito vivo em Marcuse, Fromm, e no conceito de alienação como condição objectiva independente da consciência e aceitação do indivíduo. Um dos convidados era um "gestor de marcas"; tinha o aspecto de uma axila bem-comportada que passou a vida inteira a ouvir conferências do Bob Proctor, e mostrou-se indignado com o que entende ser uma das maiores lacunas dos currículos escolares nacionais: o ensino do impossível. Aparentemente, não vamoms a lado nenhum enquanto a escolaridade obrigatória não for reorientada para o impossível. Para ilustrar o que era possível quando se é ensinado a tentar o impossível falou de uma bebida energética associada ao nome de Cristiano Ronaldo. Depois contou uma história apócrifa sobre D. João I. Depois referiu-se ao candidato Democrata à Presidência dos Estados Unidos como "Obana". Depois insurgiu-se contra a falta de onanismo dos portugueses. Fátima Campos Ferreira emendou-lhe a insurgência para "unanimidade". Ele concordou: "Sim, unanimidade ou onanismo, como preferir". Ao seu lado, Carlos Abreu Amorim recitou uma estrofe d' O Mostrengo. A plateia, formada exclusivamente por pessoas com pós-graduações no impossível, aplaudiu com entusiasmo. Fátima Campos Ferreira, ela própria com um doutoramento no verdadeiramente inacreditável, anunciou: "Eu é só Camões, não vou agora aqui recitar". Injectando uma nota de subtilismo no debate, Leonor Xavier falou nas pernas de Eusébio, utilizou a palavra inglesa accuracy e comparou Cristiano Ronaldo a Greta Garbo. Um historiador interveio para explicar que a selecção espanhola tem um meio-campo de tecnicistas. Daniel Oliveira esfregou a cabeça, com vigorismo. Em nenhum momento se colocou a hipótese de o Prós & Contras servir como factor de alienação na sociedade portuguesa.
Entretanto, o Europeu vai-se aproximando do fim, alienando um continente inteiro. Já é nesta altura aparente que as equipas que praticam o melhor futebol - Roménia, Croácia e Deco - não vão ganhar, deixando o caminho aberto a uma selecção onde Dirk Kuyt é titular. Não conheço em pormenor os currículos das escolas holandesas, mas desconfio que deixariam o gestor de marcas a saltitar de contentismo.

segunda-feira, junho 02, 2008

Postiga

Na época de 2002/03 - que acompanhei à distância, através de uma complexa rede de informação que consistia em apreciações funcionalmente iletradas no Record online e em SMSs funcionalmente não-abstémios de amigos incompetentes - convenci-me de que o futuro do futebol português tinha um nome, e que esse nome era Hélder Postiga.
Numa altura em que Ronaldo e Quaresma eram submetidos à humilhação ritual por que têm de passar todos os extremos talentosos formados no Sporting (serem vaiados, num Domingo à noite, por oito mil e setecentos avatares dos velhos dos marretas) Hélder Postiga ia acumulando lances geniais a um ritmo positivamente alcochetense.
Esta perspectiva ignorante foi rapidamente corrigida. Ainda antes da desastrosa e esclarecedora transferência para o Tottenham (sancionada, com indisfarçável alívio, por José Mourinho) já Postiga começava a ser assolado pelo naipe de dúvidas existenciais que se colam, mais cedo ou mais tarde, a todos os avançados portugueses com as suas características físicas (pescoço frágil, maxilar inexistente) e técnicas (bom toque de bola, total ausência de velocidade ou potência): é um ponta-de-lança puro ou um segundo avançado? Joga melhor sozinho ou acompanhado? Numa linha ofensiva de dois ou de três? Com futebol directo ou apoiado? À chuva ou ao sol? De dia ou de noite? Fruta ou chocolate?
As perguntas acompanharam-no na meteórica passagem por Inglaterra, que foi puro vaudeville: uma calamitosa sucessão de choques frontais com postes, remates meticulosamente enrolados, e falhanços a trinta centímetros da baliza. O epíteto de "Postigoal", forjado pelos inacreditavelmente optimistas adeptos do Tottenham à sua chegada, acabaria por ser encurtado, no final da época, para um contundente "Posti_go!"
Adriaanse, com a presciência só ao alcance de um maluco holandês, tentou transformá-lo num número 10 - operação matemática que nem Georg Cantor seria capaz de executar. Foi preciso o pragmatismo de Jesualdo Ferreira para encontrar a melhor forma de o encaixar no sistema táctico do Porto: colocar o namorado da Marta Leite Castro na posição "nove", e colocar Postiga num voo da TAP para Atenas.
A reputação de Postiga assenta hoje em duas aparições ao serviço da Selecção. Um jogo circunstancialmente notável contra a (Eslovénia? Eslováquia? Não tenho tempo, ajudem-me), e um golo contra a Inglaterra no Euro 2004 resultante de um cabeceamento defeituoso, e que tem a particularidade histórica de ser o único golo em fases finais de Campeonatos da Europa marcado com o esternoclidomastóideo.
Não faço ideia se este intrigante conjunto de credenciais vale o quarto de milhão de euros de que o Sporting decidiu separar-se. Mas sei que Hélder Postiga vai acabar a época 2008/09 com precisamente cinco golos marcados: um desvio fortuito contra o Leixões; um hat-trick na Taça da Liga contra o Penafiel; e um golo decisivo ao minuto 90 contra o Porto (chapéu a Helton, depois de túneis a Bruno Alves e Fucile), sisudamente festejado com o dedo indicador colado aos lábios, em frente aos Super-Dragões.
Para o resto do ano teremos Yannick, Tiuí e as farmácias de serviço habituais.

domingo, junho 01, 2008

Há que recuperar mais bolas na zona cinco

«Quando, quase um século depois, leio o que Churchill conta das suas horas nas suas memórias sou... Churchill. Espantoso instrumento, o livro.»


- Paula Moura Pinheiro, Única, 31/05


(Poderosa exaltação da memória escrita - em contraponto à «leveza da imprensa, da rádio, da televisão» - feita por Paula Moura Pinheiro na revista do Expresso. Não poderia manifestar mais vigorosamente a minha concordância. Eu próprio, ao ler a coluna de Paula Moura Pinheiro, sou... Paula Moura Pinheiro. Espantoso instrumento, a revista do Expresso.)

sexta-feira, maio 30, 2008

Divine Command

What philosophy do you follow? (v1.03)

You scored as a person who is always right.
Trailblazing a glorious path of perfection across our tiny, inadequate Universe, you have maintained a strict adherence to the philosophy of always being right. Is there anything we can tell you that you do not already know? The notion is ridiculous. Take a look in the mirror: you have it all figured out. You have cracked the wise code. And you're taking this silly little test? You should be testing us! Anyway, to declare the obvious, you believe people should go on doing stuff in accordance with the stuff that was done by the people who came before, therefore allowing the people who come after to do a little stuff of their own without fucking the whole thing up too much. And how right you are in believing this! And handsome too. Do you even shave? Because, clearly, you don't need to, you gorgeous hunk of wisdom.

Being always right ----------- 100%

sábado, maio 24, 2008

«Por exemplo: despedimentos. Como é que é?«

O debate entre os candidatos à liderança do PSD no Jornal da Noite da TVI - competentemente moderado por Pedro Santana Lopes - foi útil em pelo menos um aspecto: permitiu que todos os participantes apresentassem uma versão reduzida mas não-adulterada da sua essência. Manuela Ferreira Leite, maquilhada pela mesma equipa de profissionais que transformou Cate Blanchett em Bob Dylan, falou menos e fez mais sentido, recorrendo ao seu expediente retórico habitual: declarar um domínio insuficiente sobre este ou aquele dossier, para logo na frase seguinte, insinuar toda uma galáxia de conhecimentos apreendidos sobre o mesmo dossier; tendo lido cento e quarenta mil páginas de relatórios sobre o TGV, a dra. Ferreira Leite está agora a apenas sessenta mil páginas de formar uma opinião sobre o assunto. Passos "the Voice" Coelho, que passou ao lado de uma grande carreira a passar trip-hop e música ambiente nas noites da RFM, teve direito a mais minutos do que qualquer outro candidato. Não retive uma única palavra do que disse, mas concordei com tudo, embora me pareça que os seus assessores devam insistir neste ponto no futuro: sempre que Passos Coelho falar, deve ser acompanhado por uma secção de cordas, e imagens de arquivo de florestas, nevoeiro e quedas de água. Patinha Antão mostrou notável contenção, resistindo heroicamente à tentação de chamar idiotas a todos os presentes. Gore Vidal costumava dizer que não havia problema no Mundo que não pudesse ser resolvido se lhe pedissem a opinião. Patinha parece alimentar a mesma convicção, mas com uma diferença crucial: não nos basta pedir a sua opinião - devemos implorá-la, espojados no chão, enquanto gememos e esfregamos gravilha no cabelo, até que ele aceda em resmungar alguma luz sobre o problema. Tenho um tio que se comporta exactamente como Patinha Antão e ninguém na família fala com ele. Vive hoje na Damaia, protegido por rotundas inegociáveis, e a única pessoa que o atura é uma mulher-a-dias da Eslováquia.
Tendo em conta a curta mas sólida tradição dos militantes do PSD em escolherem o candidato transtornantemente menos qualificado, um facto parece-me agora incontornável: o principal adversário do engenheiro Sócrates nas próximas eleições vai ser Manuela Moura Guedes.

Your fountain pen has crashed

Na sua colecção de pequenas biografias de escritores, Javier Marías fala na irascibilidade eslava de Conrad, ilustrada com este ternurento exemplo: quando deixava cair ao chão a caneta com que escrevia, Conrad «dedicava vários minutos a tamborilar exasperado na mesa, à maneira de lamentação pelo acidente».
Só podemos especular sobre o desenvolvimento da carreira literária de Conrad caso tivesse tido o privilégio de se confrontar diariamente com o Windows Vista.

quarta-feira, maio 21, 2008

O 18 Brumário de Rodrigo Tiuí

Três dias depois da entrega do mais importante troféu do calendário desportivo nacional - que soterrou em prestígio e glória o seu justíssimo vencedor - e numa altura em que a botija de oxigénio do CAA já foi certamente reparada por um profissional, e o Bruno já mudou de operador de telemóvel*, será de bom tom prestar aqui um pequeno tributo ao conceito de narrativa no futebol, um princípio metafísico que tem regulado a actividade desde os primeiros pontapés de saída e que é parcialmente responsável pela sanidade mental daqueles que, como eu, atravessaram a puberdade atrelados à instituição psicologicamente menos recomendável da história da modalidade.
(Convém igualmente recordar os animadores das workshops anuais de reverberação saudosista que costumam entrar em funcionamento sempre que há jogos ao Domingo à tarde ("ah, o futebol em família") que a parafernália nostálgica a que aludem (o farnel, a almofada desdobrável, o transístor do papá) teve e tem o seu reflexo negro (o psiquiatra, o lenço de papel, a embalagem de Lexotam) naqueles para quem um jogo do seu clube, mais do que qualquer impulso recreativo, sempre representou um sólido motivo para ponderar a eutanásia. Fim de parênteses.)
A destreza no desenredamento da narrativa tem sido o mais fiável mecanismo de sobrevivência do adepto palmaresisticamente desafiado, mas o seu potencial oracular está acessível a todos. Reduzido ao essencial, o conceito pode ser formulado da seguinte maneira: «Em futebol, qualquer detalhe que contribua para um melhor arco dramático, vai geralmente ocorrer». Apoiado neste princípio, qualquer observador atento podia prever, por exemplo, que, depois do fiasco metabólico na final do Mundial de '98, a grande figura do Mundial de '02 seria Ronaldo; ou que, por mais apagada que fosse a sua época, era inevitável que Derlei marcasse um golo decisivo ao Benfica.
A partir do momento em que o Futebol Clube do Porto espoliou o Vitória Futebol Clube da hipótese de conquistar dois troféus na mesma época, dois factos tornaram-se instantaneamente evidentes: o Sporting iria ganhar a final, e a grande figura do jogo seria um avançado brasileiro destinado a acabar a carreira no Alpalhoense.
Havia ainda, contudo, muito trabalho pela frente. Perder, na mesma temporada, um terceiro jogo para o Sporting sem recorrer à falta de comparência ou à utilização de Stepanov implica uma operação só ao alcance da melhor organização desportiva nacional dos últimos 25 anos.
Apostando na quase sempre fiável táctica da inferioridade numérica, Jesualdo utilizou de início João Paulo e Mariano (este último, mostrando mais uma vez não se ter adaptado ao espírito do balneário, teve o descaramento de jogar relativamente bem); Lisandro foi submetido a uma semana de visionamento intensivo de cassetes de Nuno Gomes para tentar assimilar o conceito de que a bola não tem de ir sempre para dentro da baliza; Paulo Assunção, alimentado por nutricionistas americanos desde Abril, foi impedido de correr os habituais duzentos quilómetros por partida; e a criatura sobre-humana que é Lucho González recebeu a missão mais árdua de todas: com instruções rigorosas para imitar um jogador mediano, foi encarregue de proporcionar a Miguel Veloso a clareira de segurança de 15 metros quadrados necessária para que os trinta e sete olheiros ingleses na bancada pudessem escrevinhar furiosos elogios nos seus caderninhos.
O resto foi deixado aos pés de Tiuí, que encarnou com inusitada competência o princípio de que a mediocridade é um dos mais frequentes motores da História, fechando a narrativa com um lance que não conseguirá repetir até ao final da sua carreira, em 2019, nos distritais de Portalegre.
Duas notas finais para os dois heróis mudos do fim-de-semana: Grimi provou mais uma vez que é o homem certo no clube certo, e que merece o dinheiro que se pede por ele. Apesar da constante hemorragia de bolas para os adversários (os seus cruzamentos pareciam ter um pré-acordo com o champô de Bruno Alves), Grimi é o exemplo clássico do defesa cuja primeira prioridade não é o seu posicionamento táctico, mas sim a estrutura anatómica do oponente. É por causa dos antepassados de Leandro Grimi que os maqueiros são hoje uma classe profissional remunerada, mas é indiscutível que todos os clubes precisam de um lateral assim, particularmente se contam na faixa oposta com Abel, um jogador incapaz de aleijar alguém voluntariamente - todas as faltas que comete são acidentais - e cuja capacidade para intimidar está limitada aos seus companheiros de equipa e a mim próprio, que atravesso a rua sempre que o vejo na televisão.
O outro foi Derlei, que monitorizou todo o processo de celebração, guiando os caloiros nas intrincadas movimentações (é assim que se grita, é assim que se ergue os braços) necessárias para festejar um título. Espero que renove até 2012, e que o Tiuí seja emprestado ao Vizela. Para "rodar", para "rodar".

(* Não acho bem que se ande por aí a "raiar o insulto". Se o Bruno me enviar o seu número de telemóvel, comprometo-me a fazer um trabalho sério. Tenho bastante tempo livre, e o meu plano TMN inclui 250 SMSs gratuitos por mês: julgo reunir as condições necessárias para me aproximar mais do insulto do que os seus displicentes amigos.)

quarta-feira, maio 14, 2008

One pill makes you larger

Ontem, num comboio da Fertagus, um homem sentado ao meu lado foi aproximadamente vinte minutos a olhar para um puzzle sudoku recortado de um jornal. Só quase no fim da viagem me apercebi que ele estava a resolvê-lo - preenchendo os quadradinhos mentalmente, sem o auxílio de lápis. Um feito que não é assim tão extraordinário, sobretudo se comparado com o dos que jogam xadrês sem auxílio de tabuleiro (como Najdorf), futebol sem auxílio de bola (como a selecção Sueca no Mundial de 1994) ou política sem o auxílio de hipóteses (como Pedro Santana Lopes), mas ainda assim digno de realce. Eu próprio me tenho fartado de escrever aqui nas últimas semanas sem o auxílio de mim próprio; espero que tenham conseguido ler tudo sem o auxílio de letras.
Tudo isto para dizer que gostei muito deste post do Julinho:

«Enfim, claro que desde que rererererevi o Hatari! na televisão no início do mês (e que, claro, ao contrário da merda dos MIB ou do Ishtar ou do Evita, não vai repetir, pelo menos este mês, para poder finalmente gravar, embora nunca veja filmes gravados, mas às vezes gosto de saber que estão lá), tenho andado a ouvir as pessoas na rua a tratarem-me casualmente por bwana. Confesso que me pareceu inusitado de início, mas a verdade é que quando lhes digo para continuarem a fazer a sua vida como se o meu extraordinário poder de atracção carismática sobre eles não existisse, eles cumprem-no escrupulosamente. Estranhamente, quando me faço à população nativa é que a coisa não corre muito bem. Talvez porque não estava no guião, talvez porque não fosse uma fantasia colonial. É o problema de ficarmos cativos, por razões que não nos interessa explorar, em filmes que nos acompanham seguros desde o tempo em que as tardes de fim-de-semana da RTP1 tinham cinema clássico: não há margem de improvisação para um destino cujo fado é o de não se cumprir.»

terça-feira, maio 06, 2008

Rigor, transparência, honestidade

Tendo sido alertado pela minha infatigável rede de olheiros para o programa "Sexta à Noite" com José Carlos Malato, tratei de cancelar a minha reunião semanal do «Margem Sul Friday Night Mayonnaise & Bingo Happy-Fun Social Club» e de me instalar no sofá com um pacote de maltesers e um telecomando sem pilhas, preparado para olhar para o abismo enquanto o abismo olhava para mim. A troca de olhares não se concretizou nos temos esperados (o abismo olhou sobretudo para si próprio), mas quero aqui distanciar-me da corrente de opinião que defende que o "Sexta à Noite" é o maior amontoado de esterco actualmente em exibição fora da Tate Gallery. Não é.
Começando pelo apresentador, parece-me incontroverso afirmar que José Carlos Malato tem o cargo mais difícil da televisão portuguesa, e merece uma enxurrada de encómios. O conceito do programa, se é que não me escapou nada, é convidar figuras públicas e, através de toda uma panóplia de meios técnicos e retóricos, purgar as suas aparições de qualquer resíduo de interesse. Para este efeito, Malato recorre não apenas ao tried and tested (a súbita prestidigitação de fotografias antigas dos convidados, artifício que reduziu Miguel Portas a uma balbuciante massa de desespero, implorando sucessivos copos de água à produção), mas também ao estonteante improviso. O seu trabalho consiste em detectar o menor assomo de relevância no horizonte, preparar uma emboscada, e afundá-lo imediatamente no inócuo; não há cinco pessoas no país inteiro capazes de fazer isto com tamanho profissionalismo. A dada altura, um Miguel Portas que tinha visivelmente subestimado o talento do seu opositor, cometeu o erro de tentar dizer algo com interesse. Malato interrompeu-lhe a frase a meio com a eloquência dos predestinados, perguntando-lhe se havia alguma verdade "naquela história de que você não gostava de camisolas com picos". Atordoado, mas mantendo ainda uma digna lucidez, Portas lá conseguiu responder que sim, que a mãe, na sua infância, tinha o hábito de lhe vestir "camisolas que picavam", mas que hoje em dia era ele que comprava o seu próprio vestuário, e que esse problema, felizmente, já não se colocava. Não foi portanto em vão que se fez Abril.
A segunda convidada, Clara Ferreira Alves, não precisou de tantos cuidados. Revelando maior adaptação ao espírito do programa, tratou de evitar ela própria qualquer declaração saliente, ou mesmo não-soporífera. Precisou apenas de alguns minutos para descobrir que "o 11 de Setembro mudou a nossa visão do mundo", provocando na audiência um frisson de euforia certamente semelhante ao que percorreu a população chinesa no século IX, quando os seus alquimistas apareceram com uma substância chamada pólvora. Pouco depois, Clara assegurou todos os presentes que não só já tinha ido a Marrocos, como também "a muitos sítios bem piores do que Marrocos. A minha experiência de jornalista é precisamente a de estar em sítios onde há sarilhos", uma alusão um pouco óbvia aos anos que passou na redacção do Expresso. Que me lembre, não houve fotos de bebé de Clara Ferreira Alves, a não ser que tenham sido mostradas durante uma das minhas perdas de consciência.
Tendo recuperado os sentidos 24 horas depois, já não fui a tempo de participar na minha «Margem Sul Weekly Fantabulous Anagram Orgy», mas ainda consegui ver grande parte de um documentário chamado "À Procura da Revolução", ao longo do qual o realizador Rodrigo Vasquez percorre a Bolívia à procura do espírito de Che Guevara (Spoiler Alert: não o encontra).
O que encontra em abundância é miséria, corrupção, nepotismo e Evo Morales. Este pode ser visto, antes da subida ao poder, liderando uma marcha a favor da cocaína, e envergando uma camisola com todo o aspecto de picar bastante, facto escandalosamente escamoteado pela narração, uma vez que nem todas as nações do mundo têm ao seu dispor observadores do calibre de José Carlos Malato.
O documentário acompanha duas mulheres associadas à insurgência indígena. Uma delas, Jiovana, coordena um programa estatal para garantir emprego a mulheres desprivilegiadas, sendo que o emprego em questão consiste em calcetar as ruas de La Paz sem qualquer tipo de ferramentas. A outra, Esther, formada nos movimentos sindicais, é imediatamente reconhecível: repete a palavra "revolução" de 15 em 15 segundos, com a precisão de um relógio cubano, e passa grande parte dos restantes blocos de 14 segundos a alertar contra inimigos externos e internos.
Enquanto Esther vai "mobilizando", "educando", e embolsando pesos alheios um pouco por toda a Bolívia, Jiovana é eleita deputada na avalanche eleitoral que conduz Morales ao poder. O seu percurso político -desbravado sem qualquer indício aparente de cinismo - depressa se estabelece como uma interminável negociação de becos sem saída: dez meses depois da tomada de posse, o PLANE está retalhado em facções dissidentes, as mulheres do PLANE não voltaram a trabalhar, e Jiovana não consegue sequer uma reunião com o líder do executivo.
Evo Morales, envergando agora uma camisa revolucionariamente confortável, tem a bondade de explicar o problema perante as câmaras: «O grande problema da Bolívia é que não há dinheiro. Se não fosse isso, governar com rigor, transparência e honestidade seria fácil». Talvez fosse possível argumentar que o grande problema da Bolívia é que qualquer levantamento populista, por mais legítimas que sejam as reclamações de base, por mais Jiovanas que existam, estará quase sempre refém de pessoas que pensam e falam como Evo Morales, mas José Carlos Malato deve ter intervindo nesse momento e o documentário acabou pouco depois.
Mas o futuro pode não ser negro. Recorrendo aos meus literalmente enciclopédicos conhecimentos sobre a História recente da Bolívia (providenciados por meia esplêndida página na Enciclopédia Temática da Larrousse) recordo que a revolução de Victor Paz Estenssoro em 1952 também começou com um certo grau de emancipação para os índios, os rudimentos de uma reforma agrária, e a promessa de uma vaga de nacionalizações. Foram precisos 33 anos, 66 depressões, e 99 golpes e contra-golpes militares para que o mesmo Estenssoro, já num terceiro mandato não-sucessivo, descobrisse alquimicamente a pólvora, e abrisse o sector do Estado ao investimento privado, originando, nas palavras da Larrousse (que seria incapaz de me mentir) "uma espectacular recuperação económica".
É, portanto, concebível, que lá para 2037, um irreconhecível Morales consiga transformar a Bolívia num país tão livre de sarilhos que não correrá sequer o risco de ser visitado por Clara Ferreira Alves - seguramente um dos direitos fundamentais de qualquer democracia.

Bosco


Não vejo hipótese de alguém acreditar nisto (a não ser a minha mãe, que já sabe as despesas da casa), mas a verdade é que andei desde o fim-de-semana sem me lembrar da password do blogue. Durante noventa e seis escleróticas horas, a palavra não vinha. Partindo do sensato princípio que a minha alma não tem grandes profundezas, decidi que seria mais produtivo tentar adivinhar a password em vez de a recordar. Encarando assim o problema como um puzzle policial, reli algumas brilhantes deduções de Sherlock Holmes, Auguste Dupin, e do Pedro da série Uma Aventura. Concluí que a melhor forma de adivinhar uma password alheia é tentar pensar como a pessoa em questão. Dediquei-me, portanto, a tentar pensar como eu próprio, exercício que não recomendo a ninguém. O que é que me teria passado pela encriptante cabeça na altura do registo? Sporting? Pynchon? Um anagrama? Para grande espanto meu, escolhi uma solução pós-moderna e utilizei um termo já existente no zeitgeist como password: o seinfeldiano "Bosco", hoje substituído, ao fim de quase dois anos de competente serviço, pelo nome completo de um jogador de futebol tão obscuro que o próprio Luis Freitas Lobo teria dificuldade em balbuciar as suas estatísticas completas.

sábado, abril 26, 2008

O meu amigo tem este problema

Queria aqui apresentar, nos termos mais inequívocos, o meu protesto contra a rapidez com que os cafés e restaurantes deste país estão a aderir às luzes com detector de movimento para apetrecharem as suas casas-de-banho. O propósito, segundo me explicaram, é poupar energia, intenção contra a qual nada me move. Mas eu tenho, por acaso, um amigo que gosta de se instalar com o Record ou o Economist (ordem de preferência) no cubículo e passar lá uns confortáveis minutos de leitura. E acontece que há por aí determinados estabelecimentos em que o impulso conservacionista do detector de movimento é tão forte que não se vai lá com subtilezas: meras inclinações cranianas ou encolheres espaduares são ostensivamente ignorados. Não nego que haja óbvios benefícios económicos e ecológicos nestas rigorosas exigências motoras, mas custa-me que a dignidade do meu amigo - forçado a esbracejar como um lunático de 30 em 30 segundos para não ficar às escuras na retrete com o Record ou o Economist (ordem de preferência) - seja assim tão radicalmente relegada para segundo plano. Isto parece-me importante.
As minhas previsões para o resto da Liga dos Campeões são as seguintes: o Liverpool irá a Stamford Bridge virar a eliminatória, através de um lance tão inacreditavelmente deusexmachinista que o próprio Eurípedes abandonaria o estádio a meio, sob o pretexto de "escapar ao infernal trânsito londrino"; e Dirk Kuyt poderá tornar-se o pior jogador da história do futebol a marcar em duas finais consecutivas. A final da competição vai decorrer em Moscovo, no Estádio Luzhniki, um complexo desportivo cujas torres de iluminação não são activadas através de detectores de movimento (embora isso não me pareça a pior ideia do mundo neste momento).

segunda-feira, abril 21, 2008

Ponto-e-vírgula update

You practically do not use semicolons at all. This is a symptom of mental defectiveness, probably induced by camp life.

- George Bernard Shaw to TE Lawrence, on The Seven Pillars of Wisdom

(... deste apressadote artigo no Guardian, que vale também por esta magnífica apresentação: «As the great early 20th-century Gallic novelist, essayist, playwright and Academician Henry Marie Joseph Frédéric Expedite Millon de Montherlant so succinctly put it in his Carnets...». Não me sentia tão bem informado desde que li uma vez um artigo na Vogue sobre o célebre atleta profissional português Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro.)

quinta-feira, abril 17, 2008

Táctica para o Jamor


quarta-feira, abril 16, 2008

Brilliant sugar, turn over




(The National, «You've Done it Again, Virginia»)

A votação chegou ao redondíssimo número de cem, e a vontade do povo português parece ser que Virginia Woolf se dispa o mais rapidamente possível. Confesso a minha dificuldade em perceber os vinte e nove votos recolhidos por Edith Wharton. O comentário do Major (parabéns, também) ao post em questão acaba por ser, a alguns níveis, elucidativo: o temperamento conservador tem um longo e verificável historial de aversão ao círculo de Bloomsbury. Lembro-me de uma passagem deste livro em que Lady Thatcher se refere aos ditos como 'scabs of Englishness' ou uma coisa assim do género; e que Saul Bellow utilizou um dos seus mais conservadores protagonistas para despejar meio-litro de petróleo retórico nas cinzas da "pior espécie de elitismo intelectual", ou uma coisa assim do género.
Nada disto, evidentemente, deveria ter sido um factor decisivo. Abstendo-nos também de considerações de natureza psico-biográfica (o pormenor de Edith Wharton, com aquele ar de sopeira minhota, ter escrito livros que tresandam a sexo), há que realçar o fundamental, que é o extraordinário pescoço de Virginia Woolf: podem-se pendurar videiras naquele metro e meio de carne Modernista. Entre ela e a Nicole Kidman de prótese nasal, eu não hesitaria um segundo.

terça-feira, abril 15, 2008

Um post aprovado sem quaisquer reservas por Rufus Wainwright

A William Hill, agência de apostas que há mais de seis anos coloca semanalmente em causa as minhas possibilidades de vir a constituir família, fornece odds para quase tudo. Se quiserem apostar na temperatura máxima que vai ser registada nas ilhas britânicas, no melhor marcador do campeonato belga, no próximo vice-presidente dos Estados Unidos, ou na eventualidade de Elvis Presley vir a ser encontrado vivo num kibbutz israelita, os diligentes funcionários da William Hill terão todo o gosto em aceitar o vosso dinheiro, atitude muito do agrado de Rufus Wainwright.
É possível efectuar um cálculo probabilístico para qualquer ocorrência, até para a súbita aparição de um cliché no Los Angeles Times ao pequeno-almoço - mercado vergonhosamente sub-explorado pela William Hill. Houvesse odds para o número de obituários especulativos disfarçados de bandarrismo teórico que aparecem mensalmente em suplementos culturais, e eu já teria uma conta bancária ao nível da minha indisfarçável riqueza interior, facto que pode ser confirmado por Rufus Wainwright. Semana após semana, edifícios conceptuais inteiros são abalroados por mil e seiscentos caracteres. Assumo que a maioria dos jornais do planeta destaque um estagiário para manter estas coisas debaixo de olho: atravessamos uma era turbulenta; sopram ventos de mudança; o zeitgeist tem crises de pânico; a qualquer altura, em qualquer lugar, alguma coisa deve estar prestes a acabar e uma pessoa tem de estar atenta. A morte de Deus, o declínio do Romance, o desaparecimento do Autor, o suicídio do Jazz, o fim da História, (o fim do Fim da História), a obliteração da Verdade, a obsolescência da Masculinidade, o coma alcóolico do Ideal Olímpico, o sequestro e espancamento da Civilização Ocidental - as Letras Maiúsculas habitam uma realidade alternativa onde é sempre meia-noite no Poço do Bispo. A esperança média de vida de um conceito abstracto passou a depender directamente do coeficiente de tédio existencial de um editor. Em termos mais obtusos (devido às horas que são, ao Rufus Wainwright, e ao facto lamentável de se me terem acabado os maltesers) podemos dizer que quando x e y se cruzam, há 2/1 de probabilidades de z, sendo que z é um pastel astigmático como «The End of the Critic».
O hábito intelectual horoscopeiro de descortinar tendências com base numa vaga intuição de que as coisas não podem ficar como estão por causa de outras coisas que passam a estar como ficam não é intrinsecamente censurável. O que diverte nestes pitorescos exercícios de cosmética mortuária é a aparente e inabalável convicção de que dezenas de factores convergem por milagre sincrónico na mesma cabecinha nostradâmica, e que a pulsação cardíaca da História está a ser reproduzida num teclado da Apple, cinco minutos antes do prazo de entrega. A moribunda mas combativa verdade é que se podem passar horas e horas a esmiuçar os pesos, idades e registos competitivos de dezoito pilecas, na tentativa de erigir o mais sensato prognóstico do hemisfério Norte, mas o esplendidamente baptizado cavalinho High Five Society lá arranjará maneira de nos negar o acesso ao pequeno Estado da Micronésia que nos pertence por direito.
Creio, apesar de tudo, que esta é uma fórmula de enchimento de chouriços em vias de extinção, e que caminhamos a passos largos para o Fim do Artigo Sobre o Fim De, posição com a qual o Rufus Wainwright concordaria enfaticamente se aqui estivesse.

São Pedro Ramos

Ávido coleccionador que sou de motivos sólidos (por oposição a motivos puramente instintivos) para detestar o eminentemente espancável Rufus Wainwright, não posso deixar de chamar a vossa atenção para este admirável chibanço, pelo qual, de resto, me sinto parcialmente responsável (fui, não fui?)
A atitude do Pedro Ramos, contudo, não me merece os mesmos aplausos. Qualquer troca verbal semelhante àquela que não termine com um silêncio de trinta segundos seguido de um «you.... lying.... fraudulent.... little..... shit» não pode ser encarada como outra coisa que não uma oportunidade perdida.
Entretanto, enfim/o Rufus acena, e diz que sim:

sexta-feira, abril 11, 2008

Ulysses

«Experts estimate that, by 10 p.m. Tuesday night, Blume had survived exposure to approximately 1,700 advertising images of epic banality, at least 35 emotionless interactions with complete strangers without making any real human contact, and more than 25,000 moments of soul-crushing inner emptiness throughout the almost day-long struggle. In addition, he also surmounted the onslaught of more than 150 separate anxiety-producing forces, including credit card debt, weight gain, hair loss, sexual inferiority, loneliness, a dead-end job, geographical isolation from extended family, virus-laden spam, the need to keep his cell phone charged, in-store Muzak, mortality, mounting laundry and dishes, his cable bill, indefinable longing, fear of terrorism, online gossip, the unavoidable certainty of his own unimportance, nostalgia for a past that never was, severe lower-back pain, and general ennui.»

Ofereço...

... um quilo de laranjas ("são ácidas") do meu quintal ("precisa de ser limpo") a quem me enviar uma imagem do rosto do Pereirinha ("porquê?") no lance do segundo ("barbitúricos") golo do Rangers ("quero ouvir Amália") - concretamente uma imagem do rosto do Pereirinha ("mas porquê?") no momento em que o rosto do Pereirinha ("quero ouvir Delta blues") se condensa num pequeno cristalzinho de sportinguismo ("estive quase para nascer no Porto"), e o mesmo rosto do mesmo Pereirinha ("coitado, coitados") desata a gritar com as pernas incredulamente ultrapassantes do adversário ("isto já será em câmara lenta?"), como mostrado na segunda repetição ("vou vê-las todas, muitas vezes") do golo ("porquê? porquê?") em câmara lenta ("agora sim, vejo claramente").

Obrigado ("isto custa tanto").

quarta-feira, abril 09, 2008

Alguém, por amor de Deus, explique ao Pedro Arroja a diferença entre "paid" e "paid for"





Acabo de ler um artigo da Economic Botany em que os autores, e passo a citar, «searched the complete works of Cervantes, as historical ethnobotanical resources, for all references to plants, plant communities and products. (...) 167 species were registered in the 38 works, 110 cited in Don Quijote» pelo que me compreenderão se não estiver agora com cabeça para explicar os vários motivos pelos quais mais uma presença do Liverpool nas meias-finais da Liga dos Campeões é um pesadelo metafísico que ameaça o próprio tecido da realidade. E acho muito injusto estarem a pensar que esta aparente azia se deve exclusivamente ao dinheiro que apostei numa vitória do Arsenal, até porque o golo de Sami Hyypiä me rendeu 65 libras (£5 @ 12-1, 'anytime scorer', William Hill). Se me dedicasse a pesquisar as obras completas de Rafael Benítez à procura de 'plants', 'plant communities' ou mesmo 'cynical, neurasthenic, vegetable-like midfielders', encontraria muito mais do que cento e sessenta e sete espécies. Vi futebol no Reino Unido durante sete anos. O melhor futebol que lá se jogou foi invariavelmente jogado pelo Arsenal (mesmo na fase pós-Bergkamp), mas, em uma ou outra altura, dei comigo a disseminar a minha simpatia continental por quase todos os clubes federados, incluindo uma paixoneta de 3 meses pelo Redditch United da Conference League, cujo melhor jogador - um extremo-direito que acumulava funções de repositor de stock na loja da Staples - tentou um total de três fintas nos cinco jogos a que assisti, duas delas com relativo sucesso. Mas nunca - nunca - consegui sentir um borrifo de qualquer sentimento positivo pelo Liverpool, por motivos complexos que explicaria se não tivesse acabado de ler um artigo da Economic Botany.
A votação tem estado a decorrer ordeiramente (com Virginia Woolf, para já, em clara e governantíssima vantagem). Conto encerrar as urnas assim que o número de votos exceder o número de espécies de 'plants' ou 'plant communities' referenciadas no Antigo Testamento, segundo o estudo efectuado em 2002 por Moldenke e Moldenke, conhecidos como os Dupond et Dupont da etnobotânica. Aquela cantiga chama-se «Brand New Song» e é de um rancho escocês chamado The Pendulums.
Termino com alguns exemplos de frases sobre Rafael Benítez inexplicavelmente não devolvidas pelo google:

«Ouvi dizer que o Rafael Benítez não respeita o meio-ambiente»; «Ouvi dizer que o Rafael Benítez tem um mamilo supranumerário»; «Ouvi dizer que o Rafael Benítez é um niilista Bakuniniano»; «Ouvi dizer que o Rafael Benítez faz mal a gatinhos»; «Ouvi dizer que o Rafael Benítez é um anagrama de Rabanete Feliz»; «"Ouvi dizer que o Rafael Benítez está a destruír a Civilização tal como a conhecemos"».

segunda-feira, abril 07, 2008

Virginia ou Edith?



Dada a oportunidade, com qual das duas?
Virginia Woolf
Edith Wharton
pollcode.com free polls


Sondagem parcialmente inspirada por este este post do Pedro Mexia, e por uma peremptória declaração de Sir Isaiah Berlin nesta entrevista (a pornografia começa ao minuto 1:30), que passo a transcrever foneticamente, e de olhos bem fechados: «(...) Juan uhv a mowst biootiful weemin I have a sin in my life. She'd lie to bloo I's, and, um, round n'wondering like a gypsy's. She'd un ex-kwisit figure. She cud be sed to luke lie can kind uhv idealised govern ass. I mean dat too wards witch govern asses my twish two ass pire.»
Depois da respectiva votação, tratarei de revelar a minha opinião sobre esta matéria fundamental para os adolescentes de hoje.

domingo, abril 06, 2008

Not the worst, not the best, just the same old shit


É o maior acontecimento do calendário equestre: todos os anos, em Abril, eu dou 25 libras a um cavalo gordo e o cavalo gordo come-as. A Grand National veio e foi, alheia à minha não-presença. Slim Pickings, a pileca irlandesa por quem nutro uma inexplicável admiração desde 2005, voltou a fazer o que faz todos os anos: estabelecido pelas agências de apostas como o quarto favorito, tratou de terminar a prova na quarta posição. Se o mercado de capitais funcionasse com a mesma entediante consistência, seríamos todos bilionários, e um café custaria dois milhões de euros.
O leitor pode admirar Slim Pickings na imagem acima: é aquele plácido borrão cognitivo no lado direito.

terça-feira, abril 01, 2008

"I must say there are some absolutely delightful motels where I've been very happy"









Ao minuto 2:11 do primeiro clip, Nabokov decide esticar as pernas e sentar-se num sofá no outro lado da sala; Trilling segue-o, obrigando o apresentador do programa a arrastar a cadeira para os acompanhar. Como represália, o apresentador pega na chávena de chá de Trilling e besunta-lhe o rebordo. Ao longo de toda a entrevista, Nabokov recorre escandalosamente às cábulas - as que tem nos cadernos, as que tem na cabeça - e Trilling deixa um cigarro arder até ao último milímetro de alcatrão. Discute-se Lolita.
Não sei o que é isto, mas quero que a minha televisão faça o mesmo.