segunda-feira, setembro 15, 2008
quarta-feira, agosto 27, 2008
Charlemagne
Começando pelo fim, é de saudar o regresso do Domingo Desportivo, agora apresentado pelo Carlos Daniel. A última edição do Domingo Desportivo de que tinha memória fora apresentada pelo Ribeiro Cristóvão, pelo que a diferença de qualidade é estarrecedora. O facto de Carlos Daniel representar uma melhoria significativa sobre qualquer outro português - vivo ou morto - que o tenha precedido em qualquer cargo pode ser hoje elevado com segurança à categoria de dogma.
O novo Domingo Desportivo tem três lugares para comentadores: dois permanentes e um rotativo. Num mundo ideal, Carlos Daniel ocuparia os três. Num mundo ideal, Carlos Daniel apresentaria, comentaria, faria as reportagens, desenharia os cenários, e governaria o país. Mas, como Rui Santos escreveu esta semana no Record, estamos condenados a viver na imperfeição imperfeita deste mundo apenas aparentemente perfeito, e temos de nos resignar às presenças de João Vieira Pinto (campeão em título do mergulho semântico) e Luís Freitas Lobo (ainda imbatível no arremesso do facto). Não tenho nada contra Luís Freitas Lobo. É difícil ter algum problema substancial com alguém que sabe mais sobre um avançado da Naval chamado Michel Simplício (ex-Esporte de Pelotas) do que eu sei sobre mim próprio. Aliás, Luís Freitas Lobo, algures no seu arquivo Borgesiano, deve ter uma ficha com o meu perfil, currículo e estatísticas completas. Luís Freitas Lobo existe neste mundo como argumento teológico: prova irrefutável de que a omnisciência é possível e está ao alcance de todos; mas dá imenso trabalho, e oblitera quaisquer outras virtudes.
Quanto ao futebol propriamente dito, os três grandes começaram exactamente como se esperava. É agora aparente para todos que Hulk representa um problema gravíssimo para a competitividade do campeonato. O golo foi fabuloso, mas a sua maior proeza foi a lesão que infligiu a Mariano González. Desta vez acertou no jogador errado, mas, com o acompanhamento técnico de Jesualdo Ferreira, será apenas uma questão de tempo até começar a contribuir activamente para a formação da lista de convocados, e para a resolução de eventuais problemas disciplinares. É provável que, nas próximas semanas, Guarín, Stepanov e o intrasferível Quaresma sejam discretamente convidados a formar barreira num treino.
Em Alvalade, o acidente geomorfológico conhecido como Rochemback continua a implementar a sua abordagem geológica à prática futebolística. As coisas acontecem lentamente no meio-campo do Sporting. Processos de erosão não observáveis a olho nu provocam o súbito colapso das defesas adversárias. Colisões entre placas litosféricas provocam compressões extremas, resultando na elevação de talentos tão improváveis como Djaló ou Izmailov. Se um jogo de futebol durasse dez milhões de anos, Rochemback seria melhor do que Platini. Em virtude deste inultrapassável obstáculo cronológico, o mais a que pode almejar é ser melhor do que a equipa à sua volta, tarefa na qual não terá grandes dificuldades.
Não vi o jogo de Vila do Conde, mas tanto a Rádio Renascença como o jornal Record elegeram Nuno Gomes como o melhor jogador em campo, um dado que dissipou aquele calorzinho de preocupação que as pré-temporadas do Benfica conseguem sempre - contra o mais elementar bom senso - fazer chegar às minhas axilas. Pablo Aimar, que meteu os papéis para a reforma antecipada em 2005, continua a sua tranquila transição administrativa: de substituto de Rui Costa a substituto de Caniggia em menos de doze jornadas. Suspeito que, no jogo contra o Porto, assim que Hulk se preparar para marcar um livre directo, Pablo Aimar será discretamente convidado a formar barreira sozinho.
quinta-feira, agosto 14, 2008
Genes
terça-feira, agosto 12, 2008
Sinto-me tão pouco preocupado com o Benfica que chego a colocar a hipótese de ter entrado em pânico sem dar por isso
«Saturday não é um romance político»
Vou ser generoso e interpretar esta frase como uma daquelas coisas que uma pessoa só escreve quando está sóbria, e às quais não se deve dar demasiada importância. Se Saturday é excluído da definição “romance político”, estamos a raquitizar (palavra que certamente existe, mãe) essa definição até ao tamanho de um quadrozinho de especificidades que só vai provavelmente admitir coisas escritas pelo Gorky. É possível falar de Saturday como um romance político sem o diminuir artisticamente, sem limitar os seus ruídos aos de um megafone propagandístico. E também é possível fazer isto sem cair no extremismo oposto de insuflar a definição de “romance político” até que seja possível falar de Enid Blyton como escritora de romances políticos, como ouvi eu um dia a uma senhora no supermercado. “Romance político” não é uma etiqueta reducionista, nem um atestado de obsolescência instantânea. A não ser que assim o queiramos.
«não se pode ler Saturday à luz do comentário político que daí se poderá extrair»
Mau. Então não pode porquê? Só é preciso substituir a palavra “comentário” por outra palavra qualquer, preferencialmente uma palavra que exista (ao contrário da palavra “raquitizar”, cuja não-existência acabei de confirmar com bastante mágoa). Pode ler-se Saturday a dúzias de luzes distintas; uma delas terá forçosamente de ser a difusa e tacteante reflexão política do seu protagonista. É claro que estas duas frases do Lourenço não são discordâncias em relação à categorização do romance, mas sim tentativas de o blindar a críticas de pendor ideológico, desviando o foco para a tal «mestria narrativa» (que é, diga-se, bastante menos evidente do que em Atonement, Amsterdam ou Enduring Love; não tendo ainda lido o recente One Chiseled Bitch, reservo o meu julgamento). Entre as duas formas de reducionismo, até sou capaz de preferir, também, a formalista. Mas não há nada de intrinsecamente errado num “romance político”, nem em fazer uma leitura política de um romance. E Saturday é um “romance político”, não é um panfleto. É um “romance político” em que se reflecte politicamente, não um em que se teoriza sobre Política. Não tenta ilustrar as virtudes de um determinado sistema, mas sim dramatizar a ausência de um sistema. Ideologicamente, os personagens de Saturday não são profundos; as suas trocas de opiniões reproduzem os debates de pessoas relativamente bem-informadas, mas cuja informação é principalmente mediada pela televisão e pelos jornais, não pelos livros de John Rawls ou Leo Strauss. Os seus argumentos rodopiam entre a ansiedade factualmente correcta, o lugar-comum bem-intencionado, e a episódica afirmação relevante.
O excerto de Bellow que serve de epígrafe ao romance fala, salvo erro (não tenho aqui o livro, estou num ciber-café, apelo à calma, não me venha com coisas, mãe) no “late failure of radical hopes”. É este o território intelectual em que as personagens do romance reflectem politicamente. E essa reflexão passa necessariamente pelo desencanto com agendas políticas de larga escala; pelo facto de pessoas como Perowne (e até o filho) se verem forçadas a reduzir o perímetro do seu contentamento civilizacional à escala do quotidiano aquisitivo e da pequena intimidade; e com o definhar da esperança em soluções políticas para problemas universais. Todas estas questões são políticas, e todas são cruciais nas reflexões do protagonista do livro. Se se defende que «não se pode ler Saturday» a esta luz, está-se a ser tão reducionista com os que o lêm apenas a essa luz.
«mestria narrativa à parte (talvez com excessivo “topem só este domínio”), convém dizer que Saturday tem a subtileza de um Levantado do Chão no que à presença da libido política do seu autor diz respeito»
Não percebo isto. Julgava que havia mais hipóteses de encontrar vestígios de sectarismo ideológico em bivalves do que neste livro. Se a libido política de McEwan está presente em Saturday, só posso concluir que se trata de uma libido política claramente bissexual-platónica; a libido de alguém cujas hormonas estão cheiinhas de vontade, mas se recusam a tomar decisões executivas. Saturday é um livro que faz um fetiche da recusa em adoptar uma posição inabalável. Acusar isto de falta de subtileza, sinceramente, não lembra à New Statesman.
A ambivalência de Perowne não é uma pose. A sua posição sobre qualquer assunto tem tendência a oscilar - isto é reiterado duas ou três vezes ao longo do romance - de acordo com a posição do seu interlocutor. Este é um género de oscilação que muitas pessoas devem ter experimentado nesse febril pedaço de contemporaneidade que foi Fevereiro de 2003. Numa altura em que o debate pós-Blix e pré-bombardeamento se resumia a uma simétrica enumeração de banalidades ideologicamente determinadas, era praticamente impossível lermos um artigo do António Ribeiro Ferreira sem sermos acometidos por um irreprimível desejo de sair pelas ruas a cantar o «Imagine», ou lermos outro do Fernando Rosas sem ficarmos cheios de vontade de napalmizar (mãe?) o Médio Oriente inteiro. Num território intelectual pejado de certezas ocas, os disparates momentaneamente não-ouvidos soavam sempre mais lúcidos do que aqueles à nossa frente. A “libido política” de Perowne (não sei se o Bruno a equivale à do autor) é uma desconfiança militante em relação aos argumentos de ambas as partes.
O discurso político de Saturday foi acusado de ser trivial (entre outros por John Banville, que escreveu uma crítica extravagantemente imbecil ao livro), mas o que é interpretado como trivial é na verdade uma resposta instintiva às frenéticas certezas dos que pareciam fazer gala em abdicar da ambivalência, e em espezinhar nuances debaixo dos seus pezinhos atarefados, enquanto dançavam as respectivas valsas marciais ou kizombas pacifistas.
Tenho a certeza de que há duas ou três citações do livro que demonstrariam inequivocamente a minha razão em tudo isto, mas o livro está noutra margem, eu deixei caducar o passe da Fertagus, e os bilhetes de ida-e-volta estão pela hora da morte, pelo que com licença.
quinta-feira, agosto 07, 2008
Coisas que enfurecem o mais pacato cidadão
(A solução é RAD, já agora)
A bowl of Martian fatworm soup
"Tell me your torments," the Padre said, in an elderly voice marked with compassion. And slowly; it spoke as if there were no rush, no pressure. All was timeless.
Joe said, "I haven't worked for seven months and now I've got a job that takes me out of the Solar System entirely, and I'm afraid. What if I can't do it?
The Padre's weightless voice floated reassuringly back to him. "You have worked and not worked. Not working is the hardest work of all."
That's what I get for dialling Zen, Joe said to himself. Before the Padre could intone further he switched to Puritan Ethic.
"Without work," the Padre said, in a somewhat more forceful voice, "a man is nothing. He ceases to exist."
Rapidly, Joe dialled Roman Catholic.
"God and God's love will accept you," the Padre said in a faraway and gentle voice. "You are safe in his arms. He will never - "
Joe dialled Allah.
"Kill your foe," the Padre said.
"I have no foe," Joe said. "Except for my ownweariness and fear of failure."
"Those are enemies," the Padre said, "which you must overcome in a jihad." (...)
Joe dialed Judaism.
"A bowl of Martian fatworm soup_" the Padre began soothingly, and then Joe's money wore out.»
(Philip K. Dick, Galactic Pot-Healer)
segunda-feira, agosto 04, 2008
Um monólogo de Sérgio Gouveia, por Sérgio Gouveia
A certa altura achei que devia combater a minha falta de talento e ir para a escola do Hot Clube, aprender contrabaixo. Isto não é nenhuma falsa modéstia, é mesmo um ouvido muito mau, dedos pouco ágeis e coordenação motora sofrível. Ainda assim descobri exactamente o que tinha esperança ser verdade: é possível com muitas horas de trabalho um cepo tornar-se um músico medíocre e saber mais ou menos o que está a fazer. Lamentavelmente já eu tinha um emprego e uma licenciatura tirada sem grande razão. Isto foi com 28 anos. Agora tenho 32, desisti no fim do segundo porque já não tinha dinheiro para pagar aquilo. Mas valeu pelo que de lá tirei e descobrir que por mais que eu acredite que o jazz se aprende nas caves, num palco, também é possível ensiná-lo de alguma forma em salas de aula.
O mais comovente eram as aulas de História com o Bernardo Moreira, um fundador do Hot Clube com uns 70 e poucos anos e que viu os discos a serem lançados. Insultava-me bastante, sempre com razão. A certa altura divagava o homem por harmonias diatónicas e de como uma melodia em tom menor poderia estar encaixada numa harmonia em tom maior (estou a inventar) e pergunta-me 'acha isto possível?', ao que respondi que sim e o homem grita-me que eu acho que sim porque sou um crédulo, mas que não faço ideia se acho ou não que sim. E voltou a dizer com segurança "Crédulo!". Sempre que me insultava, no entanto, emprestava-me um ou dois discos no fim, para me explicar o que queria dizer. Aliás o que este homem passava para fazer os miudos ouvirem os discos. Quase todos eles tinham menos de 20 anos e 85% naquele ano estavam a aprender guitarra o que enfurecia naturalmente o Bernardo Moreira (que chegava a oferecer metade da propina - 850 € por semestre - a quem mudasse para trombone. Oferecia a propina e um trombone!).
A juntar a isto tinha as histórias do hot clube. Diz ele que foi tocar contrabaixo porque era mau musico e porque ninguem ia para contrabaixo, o que lhe serviu para tocar com toda a gente, e ser necessário em toda a parte. Ou que nos anos 40 o Hot era apenas um sítio onde os gajos se juntavam a ouvir discos. Ouviram tantas vezes os mesmos que quando alguem trazia algo novo faziam blindfold tests, adivinhando cada um dos músicos de um tema de ouvido. Segundo ele havia um tipo que identificava o estúdio onde foi gravado o álbum porque sabia distinguir entre pianos (e na altura cada estúdio tinha um piano apenas). Claro que nunca me interessou saber se alguma destas histórias era ou não verdade. Ou ainda como o Villas-Boas, que trabalhava no aeroporto, verificava as listas de passageiros de todos os vôos de Nova Iorque para Paris que faziam aqui escala por uma noite e caso encontrasse um nome que conhecesse convencia-o a vir ao Hot tocar. E se não estivesse lá tinha dado instruções a todos os colegas para o caso de algum preto lhes perguntar onde se podia fazer uma jam em Lisboa. Conseguiu assim ter a tocar em jam sessions com eles o Dexter Gordon, o Horace Silver e outros de quem os nomes esqueço sempre. Se andares por estes lados a uma terça-feira não deixes de ir lá. Às vezes tem-se sorte.»
quarta-feira, julho 23, 2008
Está uma osga na minha sala, atrás da estante das enciclopédias...
sábado, julho 19, 2008
No fundo, o pai só o levou a ver o gelo porque era um tipo muito atencioso
(Guardian, Corrections and Clarifications, 16/07/08)
quinta-feira, julho 17, 2008
Slightly improved
«I don't like Robben. He is just a slightly improved Folha.
Folha? Who's Folha?
A portuguese player, he was a left winger and almost never right.
«Folha» sounds weird.
It means «sheet».
Oh, I see your point: Robben is shit.
Yeah, just slightly improved.»
segunda-feira, julho 14, 2008
Mephisto

A imagem mais aterradora da semana apareceu sábado à noite, no fabuloso programa de Artur Albarran. Mostrava simplesmente uma mulher a escrever. Com um marcador de tinta fluorescente em cada mão, ela escrevia em simultâneo uma frase e o seu reflexo, num indefeso painel de vidro. «Não é difícil», explicou. «O mais complicado é decidir o que fazer com cada olho».
O neurocirurgião de serviço, Bandeira e Costa, debitou os subterfúgios da praxe. Falou de uma «invulgar disfunção cerebral» e de «ligações entre os dois hemisférios», sem nunca se atrever a enunciar a única verdade científica que o caso admite: a mulher é uma bruxa e deve ser lançada à fogueira o mais rapidamente possível.
Artur Albarran estava presente para providenciar o contexto histórico: «o espectador sabe que célebre figura tinha também esta capacidade?» Milhares de portugueses devem ter gritado o nome de Patrick Branwell Brontë. Alcoólico, desempregado crónico, e tristonho figurante na biografia das suas irmãs, Branwell tinha a transtornante habilidade de escrever duas cartas ao mesmo tempo (presumivelmente, uma para a Segurança Social e outra para a destilaria mais próxima). Albarran, contudo, tinha um ícone diferente no teleponto. «Isso mesmo: Leonardo Da Vinci!»
Pobre Leonardo; é retrospectivamente acusado de qualquer coisa de cinco em cinco minutos. Sabemos que, mais cedo ou mais tarde, qualquer observação mordaz será abtribuída a Oscar Wilde, qualquer insulto político a Winston Churchill e qualquer tecnologia moderna a Da Vinci, mas o seu currículo, até no que diz respeito a destreza manual e proezas atléticas, começa a estar ridiculamente inflacionado. Nunca li os famosos cadernos, mas pelo que pude aferir através de fontes secundárias, além de ter deixado esboços para o escafandro, a metralhadora, a bebida gaseificada, o leitor de mp3 e o metro de superfície do Porto, Leonardo terá sido também o primeiro ser humano a dançar o twist, a escalar o K2, e a preencher correctamente uma declaração de rendimentos. Nem a faculdade de escrever com as duas mãos ao mesmo tempo explica tamanha fecundidade.
Desconheço se Da Vinci também foi o precursor do autómato comunicativo que chegou aos nossos dias sob a designação de “Manuela Moura Guedes”. A primeira e mais natural reacção ao presenciar esta estonteante, ainda que rudimentar, manifestação de inteligência artificial é uma espécie de espanto religioso. Mas depressa o espanto dá lugar à desconfiança. Como aquelas populações boquiabertas que assistiram às triunfais exibições dos primeiros autómatos jogadores de xadrez, rapidamente nos perguntamos se não haverá um anão talentoso envolvido no processo. Na verdade, o últimos destes autómatos - o Mephisto - ao contrário dos seus ilustres predecessores (o Turco e o Ajeeb) era operado por controlo remoto, de uma sala diferente. Alguns dos melhores xadrezistas da época, como Isidor Gunsberg e Jean Taubenhaus, encarregaram-se de premir os botões certos. Não sei quem são os estagiários da TVI responsáveis pelo controlo remoto de “Manuela Moura Guedes”, mas creio que não estão minimamente à altura do legado de Gunsberg e Taubenhaus.
A entrevista ao futuro ex-treinador do Sport Lisboa e Benfica, no Jornal da Noite de sexta-feira, foi um exemplo invulgarmente confrangedor do que pode acontecer quando uma tecnologia a vapor colide com a era digital. O autómato esbracejou e balbuciou. Esperneou e suspirou. Microchips perdidos ziguezaguearam-lhe pelas córneas. O seu auricular berrava as instruções num volume tal que Quique Flores quase respondeu a duas perguntas antes de elas serem feitas. Mas o pobre andaluz foi um modelo de decoro. Começou por pedir desculpa aos telespectadores por não se exprimir fluentemente em português, algo que os operadores de “Manuela Moura Guedes” nunca tiveram a delicadeza de a pôr a fazer. A dada altura, o autómato tentou explicar a expressão “ferver em pouca água” com toda a eloquência de um curto-circuito. Quique ignorou-o com cavalheirismo e respondeu a perguntas que não chegaram a ser feitas. Só não confirmou se o Benfica 2008/09 vai jogar em 4-5-1 ou se, pelo contrário, vai ser a mais recente equipa nacional a aderir ao 4-4-2 em losango, táctica desenhada pela primeira vez em Florença no séc. XV, por uma das mãos de Leonardo Da Vinci.
sexta-feira, julho 11, 2008
Excerto de um extraordinário ensaio de Edmund Wilson sobre Ronald Firbank, sacado em ficheiro .txt do tal depósito online ilegal
A minha transição para a meia idade vai progredindo a bom ritmo
Uma passagem que não me lembro de ter sublinhado, num livro cujo título agora me escapa, sugeriu-me uma eventual ligação indirecta com um acontecimento dos últimos dias que agora não recordo. Conversei sobre isto com não sei quem, que me disse suspeitar que teria dado um bom post, desde que não me esquecesse de mencionar qualquer coisa que me esqueci de mencionar.
quarta-feira, julho 09, 2008
Apesar de não gostar particularmente de trufas...
Bovine TB Partnership Group
As always with the Department for Environment, Food and Rural Affairs, there was bags of new jargon to entertain us. Benn talked about the "testing and slaughter of reactors", and "randomised culling". Everyone seemed to know exactly what he meant.
And, as always in the Brown government, no matter how long a problem has been around it is never too late to set up a quango. This will be the Bovine TB Partnership Group, which sounds like an organisation lonely cows join to find new friends.
But the Commons divided almost entirely along party lines: Labour MPs were pro-badger; Tories were all for slaughtering the lot and turning them into shaving brushes.»
(Da coluna de Simon Hoggart, que continua a produzir o espaço tipográfico mais cómico da imprensa europeia, apesar da feroz concorrência de Rui Miguel Tovar.)
terça-feira, junho 17, 2008
Eu é só Camões
Entretanto, o Europeu vai-se aproximando do fim, alienando um continente inteiro. Já é nesta altura aparente que as equipas que praticam o melhor futebol - Roménia, Croácia e Deco - não vão ganhar, deixando o caminho aberto a uma selecção onde Dirk Kuyt é titular. Não conheço em pormenor os currículos das escolas holandesas, mas desconfio que deixariam o gestor de marcas a saltitar de contentismo.
segunda-feira, junho 02, 2008
Postiga
domingo, junho 01, 2008
Há que recuperar mais bolas na zona cinco
- Paula Moura Pinheiro, Única, 31/05
(Poderosa exaltação da memória escrita - em contraponto à «leveza da imprensa, da rádio, da televisão» - feita por Paula Moura Pinheiro na revista do Expresso. Não poderia manifestar mais vigorosamente a minha concordância. Eu próprio, ao ler a coluna de Paula Moura Pinheiro, sou... Paula Moura Pinheiro. Espantoso instrumento, a revista do Expresso.)
sexta-feira, maio 30, 2008
Divine Command
You scored as a person who is always right.
Trailblazing a glorious path of perfection across our tiny, inadequate Universe, you have maintained a strict adherence to the philosophy of always being right. Is there anything we can tell you that you do not already know? The notion is ridiculous. Take a look in the mirror: you have it all figured out. You have cracked the wise code. And you're taking this silly little test? You should be testing us! Anyway, to declare the obvious, you believe people should go on doing stuff in accordance with the stuff that was done by the people who came before, therefore allowing the people who come after to do a little stuff of their own without fucking the whole thing up too much. And how right you are in believing this! And handsome too. Do you even shave? Because, clearly, you don't need to, you gorgeous hunk of wisdom.
Being always right ----------- 100%
sábado, maio 24, 2008
«Por exemplo: despedimentos. Como é que é?«
Your fountain pen has crashed
quarta-feira, maio 21, 2008
O 18 Brumário de Rodrigo Tiuí
(Convém igualmente recordar os animadores das workshops anuais de reverberação saudosista que costumam entrar em funcionamento sempre que há jogos ao Domingo à tarde ("ah, o futebol em família") que a parafernália nostálgica a que aludem (o farnel, a almofada desdobrável, o transístor do papá) teve e tem o seu reflexo negro (o psiquiatra, o lenço de papel, a embalagem de Lexotam) naqueles para quem um jogo do seu clube, mais do que qualquer impulso recreativo, sempre representou um sólido motivo para ponderar a eutanásia. Fim de parênteses.)
A destreza no desenredamento da narrativa tem sido o mais fiável mecanismo de sobrevivência do adepto palmaresisticamente desafiado, mas o seu potencial oracular está acessível a todos. Reduzido ao essencial, o conceito pode ser formulado da seguinte maneira: «Em futebol, qualquer detalhe que contribua para um melhor arco dramático, vai geralmente ocorrer». Apoiado neste princípio, qualquer observador atento podia prever, por exemplo, que, depois do fiasco metabólico na final do Mundial de '98, a grande figura do Mundial de '02 seria Ronaldo; ou que, por mais apagada que fosse a sua época, era inevitável que Derlei marcasse um golo decisivo ao Benfica.
A partir do momento em que o Futebol Clube do Porto espoliou o Vitória Futebol Clube da hipótese de conquistar dois troféus na mesma época, dois factos tornaram-se instantaneamente evidentes: o Sporting iria ganhar a final, e a grande figura do jogo seria um avançado brasileiro destinado a acabar a carreira no Alpalhoense.
quarta-feira, maio 14, 2008
One pill makes you larger
Tudo isto para dizer que gostei muito deste post do Julinho:
«Enfim, claro que desde que rererererevi o Hatari! na televisão no início do mês (e que, claro, ao contrário da merda dos MIB ou do Ishtar ou do Evita, não vai repetir, pelo menos este mês, para poder finalmente gravar, embora nunca veja filmes gravados, mas às vezes gosto de saber que estão lá), tenho andado a ouvir as pessoas na rua a tratarem-me casualmente por bwana. Confesso que me pareceu inusitado de início, mas a verdade é que quando lhes digo para continuarem a fazer a sua vida como se o meu extraordinário poder de atracção carismática sobre eles não existisse, eles cumprem-no escrupulosamente. Estranhamente, quando me faço à população nativa é que a coisa não corre muito bem. Talvez porque não estava no guião, talvez porque não fosse uma fantasia colonial. É o problema de ficarmos cativos, por razões que não nos interessa explorar, em filmes que nos acompanham seguros desde o tempo em que as tardes de fim-de-semana da RTP1 tinham cinema clássico: não há margem de improvisação para um destino cujo fado é o de não se cumprir.»
terça-feira, maio 06, 2008
Rigor, transparência, honestidade
Bosco

sábado, abril 26, 2008
O meu amigo tem este problema
segunda-feira, abril 21, 2008
Ponto-e-vírgula update
- George Bernard Shaw to TE Lawrence, on The Seven Pillars of Wisdom
(... deste apressadote artigo no Guardian, que vale também por esta magnífica apresentação: «As the great early 20th-century Gallic novelist, essayist, playwright and Academician Henry Marie Joseph Frédéric Expedite Millon de Montherlant so succinctly put it in his Carnets...». Não me sentia tão bem informado desde que li uma vez um artigo na Vogue sobre o célebre atleta profissional português Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro.)
quinta-feira, abril 17, 2008
quarta-feira, abril 16, 2008
Brilliant sugar, turn over
(The National, «You've Done it Again, Virginia»)
A votação chegou ao redondíssimo número de cem, e a vontade do povo português parece ser que Virginia Woolf se dispa o mais rapidamente possível. Confesso a minha dificuldade em perceber os vinte e nove votos recolhidos por Edith Wharton. O comentário do Major (parabéns, também) ao post em questão acaba por ser, a alguns níveis, elucidativo: o temperamento conservador tem um longo e verificável historial de aversão ao círculo de Bloomsbury. Lembro-me de uma passagem deste livro em que Lady Thatcher se refere aos ditos como 'scabs of Englishness' ou uma coisa assim do género; e que Saul Bellow utilizou um dos seus mais conservadores protagonistas para despejar meio-litro de petróleo retórico nas cinzas da "pior espécie de elitismo intelectual", ou uma coisa assim do género.
Nada disto, evidentemente, deveria ter sido um factor decisivo. Abstendo-nos também de considerações de natureza psico-biográfica (o pormenor de Edith Wharton, com aquele ar de sopeira minhota, ter escrito livros que tresandam a sexo), há que realçar o fundamental, que é o extraordinário pescoço de Virginia Woolf: podem-se pendurar videiras naquele metro e meio de carne Modernista. Entre ela e a Nicole Kidman de prótese nasal, eu não hesitaria um segundo.


