«A Federação Nacional dos Invisuais dos EUA está a preparar um protesto contra o filme “Blindness”, que estreia esta semana nos Estados Unidos. (...) o filme está a causar polémica entre os invisuais que se queixam da imagem que é passada no filme sobre os cegos.»
(Público)
quinta-feira, outubro 02, 2008
quarta-feira, outubro 01, 2008
A economia mundial desaba enquanto eu meto dez libras no Real Madrid
Nunca tive uma conta a prazo, nunca tive um cartão de crédito, nunca pedi um empréstimo bancário. Toda a minha gestão financeira pessoal desde 2001 tem sido orientada para a William Hill, e é com prazer que anuncio que nenhum dos seus executivos se matou nos últimos dias, que os lucros continuam a aumentar, e que os fundos na minha conta online cresceram (com a ajuda de Casillas) 150% desde ontem.
As últimas semanas validaram de tal maneira o meu estilo de vida que já me posso dar ao luxo de aparecer na próxima reunião de família.
As últimas semanas validaram de tal maneira o meu estilo de vida que já me posso dar ao luxo de aparecer na próxima reunião de família.
terça-feira, setembro 30, 2008
A Dieta Rochemback
Depois de avaliar a minha disponibilidade - técnica e emocional - para a não-actualização de blogues, decidi que estão reunidas todas as condições para começar a não-actualizar dois blogues em vez de um. A não-cisão temática daqui não-resultante não terá repercussões catastróficas que só o tempo não permitirá enquadrar, mas suspeito que, a partir de agora, A Dieta Rochemback passe a não albergar as minhas não-actualizações desportivas, e a Pastoral Portuguesa as minhas não-actualizações genéricas. Se as coisas correrem bem, é inteiramente possível que um terceiro blogue não-actualizável seja fundado para não hospedar as minhas aguarelas, poesia naif e listas de supermercado.
terça-feira, setembro 23, 2008
Estes cômplos
(THUNDERSTORM1, 1 ponto , 18:42 Segunda-feira, 22 de Set de 2008)
alinhar nestes cômplos a pouco mais de 5 dias do derbi.
Manifesto desde já o meu repúdio por esta campanha desestabilizatória.
Amanhã de manhã vou cortar a assinatura do expresso..........a não ser que se retratem
(Comentário do senhor THUNDERSTORM1 a este artigo do Expresso)
alinhar nestes cômplos a pouco mais de 5 dias do derbi.
Manifesto desde já o meu repúdio por esta campanha desestabilizatória.
Amanhã de manhã vou cortar a assinatura do expresso..........a não ser que se retratem
(Comentário do senhor THUNDERSTORM1 a este artigo do Expresso)
Odisseia na terra
(odisseia na terra, 1 ponto , 13:22 Segunda-feira, 22 de Set de 2008)
ESTA PERGUNTA É FEITA PARA QUE OS ADEPTOS DO CLUBE DO PASSARO POSSAM VERTER AS SUAS JÁ GASTAS OPINIÕES.
ALGUM CASPOSO DO FCP NÃO SABERÁ RESISTIR Á PERGUNTA.
SOLICITO A TODOS OS LEÕES QUE NÃO ADIRAM A ESTE EXERCICIO INTELECTUALMENTE GROSSEIRO E BASTANTE ESTÉRIL.
A CÔR É VERDE E O LEÃO ESTÁ IMPARAVEL. VIVA O SPORTING!
(Comentário do senhor "odisseia na terra" a este artigo do Expresso)
ESTA PERGUNTA É FEITA PARA QUE OS ADEPTOS DO CLUBE DO PASSARO POSSAM VERTER AS SUAS JÁ GASTAS OPINIÕES.
ALGUM CASPOSO DO FCP NÃO SABERÁ RESISTIR Á PERGUNTA.
SOLICITO A TODOS OS LEÕES QUE NÃO ADIRAM A ESTE EXERCICIO INTELECTUALMENTE GROSSEIRO E BASTANTE ESTÉRIL.
A CÔR É VERDE E O LEÃO ESTÁ IMPARAVEL. VIVA O SPORTING!
(Comentário do senhor "odisseia na terra" a este artigo do Expresso)
quinta-feira, setembro 18, 2008
O Grande Colisionador de Hadrões na óptica do utilizador

Primeiro vieram as Pessoas da Ciência, transportando a Ciência em baldes, e depositando-a debaixo da Suiça. A Ciência adquiriu a forma de um túnel circular, com 27 kms de perímetro. O túnel serve para acelerar partículas até estas atingirem sete TeV. Isto é mais difícil do que parece, dada a natureza obstinada das partículas, e a sua conhecida propensão para a indolência.
Uma equipa de Pessoas da Ciência incita grupos seleccionados de protões a entrarem no Grande Colisionador Hadrónico. Os protões são então neutralizados com poesia francesa e velhas músicas de Dean Martin. No outro lado do túnel, uma segunda equipa de Pessoas de Ciência acena com chocolates, rebuçados e confeitaria avulsa. Espera-se que os protões corram nessa direcção a uma velocidade de 99,9998% da velocidade da luz (unidade de medida conhecida em física de partículas como “David Suazo”). Os primeiros protões a completar o percurso serão recompensados com os melhores chocolates e apurados para a fase seguinte; os mais lentos receberão um certificado de participação e serão colocados a rodar num colisionador hadrónico com menos exigências competitivas.
A segunda fase envolve colocar os protões num anel de colisão, e fazê-los entrar em choque uns com os outros. Para este efeito, a reputação da mãe de um dos protões será questionada, através de rumor e insinuação, pelas Pessoas da Ciência. Espera-se que a confusão consequente provoque uma tumulto de recriminações e lavagem de roupa suja que ajude a explicar a origem da massa das partículas elementares.
Uma destas partículas é conhecida como “Bosão de Higgs”. A Ciência anda há décadas a perseguir o “Bosão de Higgs”. O “Bosão de Higgs” permanece irredutível na sua reclusividade, indiferente a ramos de flores, caixas de After Eight, e até àqueles postais que tocam o «Für Elise» quando são abertos. Os rumores apontam para que o “Bosão de Higgs” esteja escondido num Holiday Inn em Palma de Maiorca, com receio de ser chantageado pelo marido da Ciência.
O Grande Colisionador de Hadrões gerou alguns receios entre Pessoas da Ciência. Temia-se que fosse criado um buraco negro capaz de engolir o Universo. Na verdade, o pior que poderia acontecer seria uma reacção em cadeia através da qual toda a matéria fosse transformada em “matéria estranha”, um tipo de matéria apática e desinteressada, incapaz de participação cívica na sociedade, desejando nada mais do que ficar em casa o dia inteiro a ver televisão. As Pessoas da Ciência explicam que, mesmo que um buraco negro fosse produzido pelo Grande Colisionador de Hadrões, ele seria inofensivo - um buraco negro meio flâneur, passeando pelo planeta num bildungsroman sub-atómico, ganhando alguma espessura psicológica, mas desprovido de massa, e escrevinhando notas melancólicas nos bancos de jardim de Genebra, pelo que podemos todos dormir descansados.
terça-feira, setembro 16, 2008
Já tenho idade para não me irritar com estas coisas
Em 2005, David Foster Wallace escreveu um artigo para a Atlantic sobre apresentadores de talk-radio. Um deles, John Ziegler, decidiu partilhar com o mundo a sua sensível e ponderada opinião sobre o suicídio. (Não procurem a gramática nos excertos seguintes; ela não foi convidada):
«Wallace spent at least two months following my every move before and during the broadcast of my show. At the time, I found him to be more than a bit eccentric, but certainly nice enough not to be bothered too much by his presence. Most interestingly, I was not at all impressed by him in any significant way. The fact that I was completely ignorant of “who” he was, I think actually gives me great credibility in this evaluation and also may give me some insight into what eventually drove Wallace to kill himself. You see, I was in no way prejudiced by his reputation as a “genius” and therefore was not blinded to the rather obvious reality that there was very little “there,” there.»
(...)
«Being dubbed a “genius” at a young age (at least by the standards of the literary world) must have been a rather daunting burden for Wallace, especially when he probably knew deep down that he didn’t have the goods to back up those kind of elevated expectations.»
(...)
«I was a bit miffed at some of the inaccuracies and misrepresentations as well as the lack of any update to the storyline in the piece, but as a conservative you pretty much expect that from someone in academia who is clearly a liberal (after all, everyone in the elite literary world knows that conservatives are not smart enough to be worthy of their ranks and would certainly never attain the lofty level of “genius”).»
(...)
«I know that it is considered bad form, or worse, to speak ill of the newly dead, but to me all bets are off when one commits suicide, especially when that person is a husband and a father (speaking of bad form, when did the news media change their rule about not reporting extensively on the suicides of marginally famous people?). I strongly believe that a large ingredient of the toxic mix that ended up forming Wallace’s self-inflicted poison was the pressure he felt of living up to the hype surrounding his writing and the guilt he must have felt for not really having the true talent to back up his formidable reputation.
While I have absolutely no evidence to backup this assertion, I also think it is quite possible that he knew that killing himself in his “prime” and before he had been totally exposed as being a mere mortal in the literary realm would cement his status as a “genius” forever. After all, don’t tortured artists often kill themselves? Heck, based on the glowing and reverential reporting on his suicide, in some circles ending his on life may actually be seen as a badge of honor.»
(...)
«Wallace spent at least two months following my every move before and during the broadcast of my show. At the time, I found him to be more than a bit eccentric, but certainly nice enough not to be bothered too much by his presence. Most interestingly, I was not at all impressed by him in any significant way. The fact that I was completely ignorant of “who” he was, I think actually gives me great credibility in this evaluation and also may give me some insight into what eventually drove Wallace to kill himself. You see, I was in no way prejudiced by his reputation as a “genius” and therefore was not blinded to the rather obvious reality that there was very little “there,” there.»
(...)
«Being dubbed a “genius” at a young age (at least by the standards of the literary world) must have been a rather daunting burden for Wallace, especially when he probably knew deep down that he didn’t have the goods to back up those kind of elevated expectations.»
(...)
«I was a bit miffed at some of the inaccuracies and misrepresentations as well as the lack of any update to the storyline in the piece, but as a conservative you pretty much expect that from someone in academia who is clearly a liberal (after all, everyone in the elite literary world knows that conservatives are not smart enough to be worthy of their ranks and would certainly never attain the lofty level of “genius”).»
(...)
«I know that it is considered bad form, or worse, to speak ill of the newly dead, but to me all bets are off when one commits suicide, especially when that person is a husband and a father (speaking of bad form, when did the news media change their rule about not reporting extensively on the suicides of marginally famous people?). I strongly believe that a large ingredient of the toxic mix that ended up forming Wallace’s self-inflicted poison was the pressure he felt of living up to the hype surrounding his writing and the guilt he must have felt for not really having the true talent to back up his formidable reputation.
While I have absolutely no evidence to backup this assertion, I also think it is quite possible that he knew that killing himself in his “prime” and before he had been totally exposed as being a mere mortal in the literary realm would cement his status as a “genius” forever. After all, don’t tortured artists often kill themselves? Heck, based on the glowing and reverential reporting on his suicide, in some circles ending his on life may actually be seen as a badge of honor.»
(...)
«I honestly do believe that, based on my rather distinctive experience with him, that his suicide was about far more than just an illness and should in no way be a cause for praise.
David Foster Wallace was an overrated writer in life. His suicide should not be used to elevate him even further beyond what he deserved, in death. »
David Foster Wallace was an overrated writer in life. His suicide should not be used to elevate him even further beyond what he deserved, in death. »
segunda-feira, setembro 15, 2008
quarta-feira, agosto 27, 2008
Charlemagne
O início da Liga Sagres foi tão bom, tão repleto de momentos memoráveis, que nem os mais entusiásticos entusiastas dos Jogos Olímpicos (cujo acompanhamento me parece requerer uma devoção sobre-humana) terão tido tempo para sentir a ressaca emocional.
Começando pelo fim, é de saudar o regresso do Domingo Desportivo, agora apresentado pelo Carlos Daniel. A última edição do Domingo Desportivo de que tinha memória fora apresentada pelo Ribeiro Cristóvão, pelo que a diferença de qualidade é estarrecedora. O facto de Carlos Daniel representar uma melhoria significativa sobre qualquer outro português - vivo ou morto - que o tenha precedido em qualquer cargo pode ser hoje elevado com segurança à categoria de dogma.
O novo Domingo Desportivo tem três lugares para comentadores: dois permanentes e um rotativo. Num mundo ideal, Carlos Daniel ocuparia os três. Num mundo ideal, Carlos Daniel apresentaria, comentaria, faria as reportagens, desenharia os cenários, e governaria o país. Mas, como Rui Santos escreveu esta semana no Record, estamos condenados a viver na imperfeição imperfeita deste mundo apenas aparentemente perfeito, e temos de nos resignar às presenças de João Vieira Pinto (campeão em título do mergulho semântico) e Luís Freitas Lobo (ainda imbatível no arremesso do facto). Não tenho nada contra Luís Freitas Lobo. É difícil ter algum problema substancial com alguém que sabe mais sobre um avançado da Naval chamado Michel Simplício (ex-Esporte de Pelotas) do que eu sei sobre mim próprio. Aliás, Luís Freitas Lobo, algures no seu arquivo Borgesiano, deve ter uma ficha com o meu perfil, currículo e estatísticas completas. Luís Freitas Lobo existe neste mundo como argumento teológico: prova irrefutável de que a omnisciência é possível e está ao alcance de todos; mas dá imenso trabalho, e oblitera quaisquer outras virtudes.
Quanto ao futebol propriamente dito, os três grandes começaram exactamente como se esperava. É agora aparente para todos que Hulk representa um problema gravíssimo para a competitividade do campeonato. O golo foi fabuloso, mas a sua maior proeza foi a lesão que infligiu a Mariano González. Desta vez acertou no jogador errado, mas, com o acompanhamento técnico de Jesualdo Ferreira, será apenas uma questão de tempo até começar a contribuir activamente para a formação da lista de convocados, e para a resolução de eventuais problemas disciplinares. É provável que, nas próximas semanas, Guarín, Stepanov e o intrasferível Quaresma sejam discretamente convidados a formar barreira num treino.
Em Alvalade, o acidente geomorfológico conhecido como Rochemback continua a implementar a sua abordagem geológica à prática futebolística. As coisas acontecem lentamente no meio-campo do Sporting. Processos de erosão não observáveis a olho nu provocam o súbito colapso das defesas adversárias. Colisões entre placas litosféricas provocam compressões extremas, resultando na elevação de talentos tão improváveis como Djaló ou Izmailov. Se um jogo de futebol durasse dez milhões de anos, Rochemback seria melhor do que Platini. Em virtude deste inultrapassável obstáculo cronológico, o mais a que pode almejar é ser melhor do que a equipa à sua volta, tarefa na qual não terá grandes dificuldades.
Não vi o jogo de Vila do Conde, mas tanto a Rádio Renascença como o jornal Record elegeram Nuno Gomes como o melhor jogador em campo, um dado que dissipou aquele calorzinho de preocupação que as pré-temporadas do Benfica conseguem sempre - contra o mais elementar bom senso - fazer chegar às minhas axilas. Pablo Aimar, que meteu os papéis para a reforma antecipada em 2005, continua a sua tranquila transição administrativa: de substituto de Rui Costa a substituto de Caniggia em menos de doze jornadas. Suspeito que, no jogo contra o Porto, assim que Hulk se preparar para marcar um livre directo, Pablo Aimar será discretamente convidado a formar barreira sozinho.
Começando pelo fim, é de saudar o regresso do Domingo Desportivo, agora apresentado pelo Carlos Daniel. A última edição do Domingo Desportivo de que tinha memória fora apresentada pelo Ribeiro Cristóvão, pelo que a diferença de qualidade é estarrecedora. O facto de Carlos Daniel representar uma melhoria significativa sobre qualquer outro português - vivo ou morto - que o tenha precedido em qualquer cargo pode ser hoje elevado com segurança à categoria de dogma.
O novo Domingo Desportivo tem três lugares para comentadores: dois permanentes e um rotativo. Num mundo ideal, Carlos Daniel ocuparia os três. Num mundo ideal, Carlos Daniel apresentaria, comentaria, faria as reportagens, desenharia os cenários, e governaria o país. Mas, como Rui Santos escreveu esta semana no Record, estamos condenados a viver na imperfeição imperfeita deste mundo apenas aparentemente perfeito, e temos de nos resignar às presenças de João Vieira Pinto (campeão em título do mergulho semântico) e Luís Freitas Lobo (ainda imbatível no arremesso do facto). Não tenho nada contra Luís Freitas Lobo. É difícil ter algum problema substancial com alguém que sabe mais sobre um avançado da Naval chamado Michel Simplício (ex-Esporte de Pelotas) do que eu sei sobre mim próprio. Aliás, Luís Freitas Lobo, algures no seu arquivo Borgesiano, deve ter uma ficha com o meu perfil, currículo e estatísticas completas. Luís Freitas Lobo existe neste mundo como argumento teológico: prova irrefutável de que a omnisciência é possível e está ao alcance de todos; mas dá imenso trabalho, e oblitera quaisquer outras virtudes.
Quanto ao futebol propriamente dito, os três grandes começaram exactamente como se esperava. É agora aparente para todos que Hulk representa um problema gravíssimo para a competitividade do campeonato. O golo foi fabuloso, mas a sua maior proeza foi a lesão que infligiu a Mariano González. Desta vez acertou no jogador errado, mas, com o acompanhamento técnico de Jesualdo Ferreira, será apenas uma questão de tempo até começar a contribuir activamente para a formação da lista de convocados, e para a resolução de eventuais problemas disciplinares. É provável que, nas próximas semanas, Guarín, Stepanov e o intrasferível Quaresma sejam discretamente convidados a formar barreira num treino.
Em Alvalade, o acidente geomorfológico conhecido como Rochemback continua a implementar a sua abordagem geológica à prática futebolística. As coisas acontecem lentamente no meio-campo do Sporting. Processos de erosão não observáveis a olho nu provocam o súbito colapso das defesas adversárias. Colisões entre placas litosféricas provocam compressões extremas, resultando na elevação de talentos tão improváveis como Djaló ou Izmailov. Se um jogo de futebol durasse dez milhões de anos, Rochemback seria melhor do que Platini. Em virtude deste inultrapassável obstáculo cronológico, o mais a que pode almejar é ser melhor do que a equipa à sua volta, tarefa na qual não terá grandes dificuldades.
Não vi o jogo de Vila do Conde, mas tanto a Rádio Renascença como o jornal Record elegeram Nuno Gomes como o melhor jogador em campo, um dado que dissipou aquele calorzinho de preocupação que as pré-temporadas do Benfica conseguem sempre - contra o mais elementar bom senso - fazer chegar às minhas axilas. Pablo Aimar, que meteu os papéis para a reforma antecipada em 2005, continua a sua tranquila transição administrativa: de substituto de Rui Costa a substituto de Caniggia em menos de doze jornadas. Suspeito que, no jogo contra o Porto, assim que Hulk se preparar para marcar um livre directo, Pablo Aimar será discretamente convidado a formar barreira sozinho.
quinta-feira, agosto 14, 2008
Genes
No último número da revista do filho do Paul Johnson, pode ler-se um texto sobre uma tradução da Eneida, que começa assim:
«Translating the Latin of Vergil’s Aeneid into English verse requires first a Trojan war of interpretation, and then an odyssey of re-encryption.»
O autor do texto chama-se Louis Amis, e uma fotografia sua (com seis aninhos) pode ser vista no livro Experience, de Martin Amis (que um dia escreveu, sobre o gajo do Silêncio dos Inocentes: «Harris has become a serial murderer of English sentences, and Hannibal is a necropolis of prose.»)
Kingsley, Martin, e agora Louis. Não faço ideia como é que esta transmissão darwiniana funcionou tão bem, mas o Jordi Cruyff e o Jakob Dylan cada vez têm menos motivos para não se matarem.
terça-feira, agosto 12, 2008
Sinto-me tão pouco preocupado com o Benfica que chego a colocar a hipótese de ter entrado em pânico sem dar por isso
Foi com uma dilacerante sensação de orgulho ferido que notei que os bloggers Lourenço Cordeiro e Bruno Sena Martins se envolveram num debate sadio sobre os méritos de Saturday sem que nenhum deles me tenha endereçado um convite explícito para brincar com eles também. Até James Wood foi recomendado na minha ausência. Porque sei ler nas entrelinhas, e porque não gosto de me meter nas conversas das outras pessoas, vou circunscrever a minha intervenção a três frases que me causaram particular indignação, passando, logo de seguida, para a leitura dos artigos assinados por Rui Miguel Tovar no Record de hoje, garantindo ainda que nunca mais brincarei à literatura com os bloggers Lourenço Cordeiro e Bruno Sena Martins sem que justificações convincentes sejam antes providenciadas para todo este lamentável incidente.
«Saturday não é um romance político»
Vou ser generoso e interpretar esta frase como uma daquelas coisas que uma pessoa só escreve quando está sóbria, e às quais não se deve dar demasiada importância. Se Saturday é excluído da definição “romance político”, estamos a raquitizar (palavra que certamente existe, mãe) essa definição até ao tamanho de um quadrozinho de especificidades que só vai provavelmente admitir coisas escritas pelo Gorky. É possível falar de Saturday como um romance político sem o diminuir artisticamente, sem limitar os seus ruídos aos de um megafone propagandístico. E também é possível fazer isto sem cair no extremismo oposto de insuflar a definição de “romance político” até que seja possível falar de Enid Blyton como escritora de romances políticos, como ouvi eu um dia a uma senhora no supermercado. “Romance político” não é uma etiqueta reducionista, nem um atestado de obsolescência instantânea. A não ser que assim o queiramos.
«não se pode ler Saturday à luz do comentário político que daí se poderá extrair»
Mau. Então não pode porquê? Só é preciso substituir a palavra “comentário” por outra palavra qualquer, preferencialmente uma palavra que exista (ao contrário da palavra “raquitizar”, cuja não-existência acabei de confirmar com bastante mágoa). Pode ler-se Saturday a dúzias de luzes distintas; uma delas terá forçosamente de ser a difusa e tacteante reflexão política do seu protagonista. É claro que estas duas frases do Lourenço não são discordâncias em relação à categorização do romance, mas sim tentativas de o blindar a críticas de pendor ideológico, desviando o foco para a tal «mestria narrativa» (que é, diga-se, bastante menos evidente do que em Atonement, Amsterdam ou Enduring Love; não tendo ainda lido o recente One Chiseled Bitch, reservo o meu julgamento). Entre as duas formas de reducionismo, até sou capaz de preferir, também, a formalista. Mas não há nada de intrinsecamente errado num “romance político”, nem em fazer uma leitura política de um romance. E Saturday é um “romance político”, não é um panfleto. É um “romance político” em que se reflecte politicamente, não um em que se teoriza sobre Política. Não tenta ilustrar as virtudes de um determinado sistema, mas sim dramatizar a ausência de um sistema. Ideologicamente, os personagens de Saturday não são profundos; as suas trocas de opiniões reproduzem os debates de pessoas relativamente bem-informadas, mas cuja informação é principalmente mediada pela televisão e pelos jornais, não pelos livros de John Rawls ou Leo Strauss. Os seus argumentos rodopiam entre a ansiedade factualmente correcta, o lugar-comum bem-intencionado, e a episódica afirmação relevante.
O excerto de Bellow que serve de epígrafe ao romance fala, salvo erro (não tenho aqui o livro, estou num ciber-café, apelo à calma, não me venha com coisas, mãe) no “late failure of radical hopes”. É este o território intelectual em que as personagens do romance reflectem politicamente. E essa reflexão passa necessariamente pelo desencanto com agendas políticas de larga escala; pelo facto de pessoas como Perowne (e até o filho) se verem forçadas a reduzir o perímetro do seu contentamento civilizacional à escala do quotidiano aquisitivo e da pequena intimidade; e com o definhar da esperança em soluções políticas para problemas universais. Todas estas questões são políticas, e todas são cruciais nas reflexões do protagonista do livro. Se se defende que «não se pode ler Saturday» a esta luz, está-se a ser tão reducionista com os que o lêm apenas a essa luz.
«mestria narrativa à parte (talvez com excessivo “topem só este domínio”), convém dizer que Saturday tem a subtileza de um Levantado do Chão no que à presença da libido política do seu autor diz respeito»
Não percebo isto. Julgava que havia mais hipóteses de encontrar vestígios de sectarismo ideológico em bivalves do que neste livro. Se a libido política de McEwan está presente em Saturday, só posso concluir que se trata de uma libido política claramente bissexual-platónica; a libido de alguém cujas hormonas estão cheiinhas de vontade, mas se recusam a tomar decisões executivas. Saturday é um livro que faz um fetiche da recusa em adoptar uma posição inabalável. Acusar isto de falta de subtileza, sinceramente, não lembra à New Statesman.
A ambivalência de Perowne não é uma pose. A sua posição sobre qualquer assunto tem tendência a oscilar - isto é reiterado duas ou três vezes ao longo do romance - de acordo com a posição do seu interlocutor. Este é um género de oscilação que muitas pessoas devem ter experimentado nesse febril pedaço de contemporaneidade que foi Fevereiro de 2003. Numa altura em que o debate pós-Blix e pré-bombardeamento se resumia a uma simétrica enumeração de banalidades ideologicamente determinadas, era praticamente impossível lermos um artigo do António Ribeiro Ferreira sem sermos acometidos por um irreprimível desejo de sair pelas ruas a cantar o «Imagine», ou lermos outro do Fernando Rosas sem ficarmos cheios de vontade de napalmizar (mãe?) o Médio Oriente inteiro. Num território intelectual pejado de certezas ocas, os disparates momentaneamente não-ouvidos soavam sempre mais lúcidos do que aqueles à nossa frente. A “libido política” de Perowne (não sei se o Bruno a equivale à do autor) é uma desconfiança militante em relação aos argumentos de ambas as partes.
O discurso político de Saturday foi acusado de ser trivial (entre outros por John Banville, que escreveu uma crítica extravagantemente imbecil ao livro), mas o que é interpretado como trivial é na verdade uma resposta instintiva às frenéticas certezas dos que pareciam fazer gala em abdicar da ambivalência, e em espezinhar nuances debaixo dos seus pezinhos atarefados, enquanto dançavam as respectivas valsas marciais ou kizombas pacifistas.
Tenho a certeza de que há duas ou três citações do livro que demonstrariam inequivocamente a minha razão em tudo isto, mas o livro está noutra margem, eu deixei caducar o passe da Fertagus, e os bilhetes de ida-e-volta estão pela hora da morte, pelo que com licença.
«Saturday não é um romance político»
Vou ser generoso e interpretar esta frase como uma daquelas coisas que uma pessoa só escreve quando está sóbria, e às quais não se deve dar demasiada importância. Se Saturday é excluído da definição “romance político”, estamos a raquitizar (palavra que certamente existe, mãe) essa definição até ao tamanho de um quadrozinho de especificidades que só vai provavelmente admitir coisas escritas pelo Gorky. É possível falar de Saturday como um romance político sem o diminuir artisticamente, sem limitar os seus ruídos aos de um megafone propagandístico. E também é possível fazer isto sem cair no extremismo oposto de insuflar a definição de “romance político” até que seja possível falar de Enid Blyton como escritora de romances políticos, como ouvi eu um dia a uma senhora no supermercado. “Romance político” não é uma etiqueta reducionista, nem um atestado de obsolescência instantânea. A não ser que assim o queiramos.
«não se pode ler Saturday à luz do comentário político que daí se poderá extrair»
Mau. Então não pode porquê? Só é preciso substituir a palavra “comentário” por outra palavra qualquer, preferencialmente uma palavra que exista (ao contrário da palavra “raquitizar”, cuja não-existência acabei de confirmar com bastante mágoa). Pode ler-se Saturday a dúzias de luzes distintas; uma delas terá forçosamente de ser a difusa e tacteante reflexão política do seu protagonista. É claro que estas duas frases do Lourenço não são discordâncias em relação à categorização do romance, mas sim tentativas de o blindar a críticas de pendor ideológico, desviando o foco para a tal «mestria narrativa» (que é, diga-se, bastante menos evidente do que em Atonement, Amsterdam ou Enduring Love; não tendo ainda lido o recente One Chiseled Bitch, reservo o meu julgamento). Entre as duas formas de reducionismo, até sou capaz de preferir, também, a formalista. Mas não há nada de intrinsecamente errado num “romance político”, nem em fazer uma leitura política de um romance. E Saturday é um “romance político”, não é um panfleto. É um “romance político” em que se reflecte politicamente, não um em que se teoriza sobre Política. Não tenta ilustrar as virtudes de um determinado sistema, mas sim dramatizar a ausência de um sistema. Ideologicamente, os personagens de Saturday não são profundos; as suas trocas de opiniões reproduzem os debates de pessoas relativamente bem-informadas, mas cuja informação é principalmente mediada pela televisão e pelos jornais, não pelos livros de John Rawls ou Leo Strauss. Os seus argumentos rodopiam entre a ansiedade factualmente correcta, o lugar-comum bem-intencionado, e a episódica afirmação relevante.
O excerto de Bellow que serve de epígrafe ao romance fala, salvo erro (não tenho aqui o livro, estou num ciber-café, apelo à calma, não me venha com coisas, mãe) no “late failure of radical hopes”. É este o território intelectual em que as personagens do romance reflectem politicamente. E essa reflexão passa necessariamente pelo desencanto com agendas políticas de larga escala; pelo facto de pessoas como Perowne (e até o filho) se verem forçadas a reduzir o perímetro do seu contentamento civilizacional à escala do quotidiano aquisitivo e da pequena intimidade; e com o definhar da esperança em soluções políticas para problemas universais. Todas estas questões são políticas, e todas são cruciais nas reflexões do protagonista do livro. Se se defende que «não se pode ler Saturday» a esta luz, está-se a ser tão reducionista com os que o lêm apenas a essa luz.
«mestria narrativa à parte (talvez com excessivo “topem só este domínio”), convém dizer que Saturday tem a subtileza de um Levantado do Chão no que à presença da libido política do seu autor diz respeito»
Não percebo isto. Julgava que havia mais hipóteses de encontrar vestígios de sectarismo ideológico em bivalves do que neste livro. Se a libido política de McEwan está presente em Saturday, só posso concluir que se trata de uma libido política claramente bissexual-platónica; a libido de alguém cujas hormonas estão cheiinhas de vontade, mas se recusam a tomar decisões executivas. Saturday é um livro que faz um fetiche da recusa em adoptar uma posição inabalável. Acusar isto de falta de subtileza, sinceramente, não lembra à New Statesman.
A ambivalência de Perowne não é uma pose. A sua posição sobre qualquer assunto tem tendência a oscilar - isto é reiterado duas ou três vezes ao longo do romance - de acordo com a posição do seu interlocutor. Este é um género de oscilação que muitas pessoas devem ter experimentado nesse febril pedaço de contemporaneidade que foi Fevereiro de 2003. Numa altura em que o debate pós-Blix e pré-bombardeamento se resumia a uma simétrica enumeração de banalidades ideologicamente determinadas, era praticamente impossível lermos um artigo do António Ribeiro Ferreira sem sermos acometidos por um irreprimível desejo de sair pelas ruas a cantar o «Imagine», ou lermos outro do Fernando Rosas sem ficarmos cheios de vontade de napalmizar (mãe?) o Médio Oriente inteiro. Num território intelectual pejado de certezas ocas, os disparates momentaneamente não-ouvidos soavam sempre mais lúcidos do que aqueles à nossa frente. A “libido política” de Perowne (não sei se o Bruno a equivale à do autor) é uma desconfiança militante em relação aos argumentos de ambas as partes.
O discurso político de Saturday foi acusado de ser trivial (entre outros por John Banville, que escreveu uma crítica extravagantemente imbecil ao livro), mas o que é interpretado como trivial é na verdade uma resposta instintiva às frenéticas certezas dos que pareciam fazer gala em abdicar da ambivalência, e em espezinhar nuances debaixo dos seus pezinhos atarefados, enquanto dançavam as respectivas valsas marciais ou kizombas pacifistas.
Tenho a certeza de que há duas ou três citações do livro que demonstrariam inequivocamente a minha razão em tudo isto, mas o livro está noutra margem, eu deixei caducar o passe da Fertagus, e os bilhetes de ida-e-volta estão pela hora da morte, pelo que com licença.
quinta-feira, agosto 07, 2008
Coisas que enfurecem o mais pacato cidadão
Nas palavras cruzadas do jornal Público, a pista "Unidade de medida da irradiação ionizante absorvida" foi utilizada quatro vezes (quatro) nas últimas sete edições, duas delas (duas) em dias consecutivos. O que fazem as autoridades competentes enquanto este escândalo se perpetua? Nada, pois então. Fecham os olhos e fingem que nada se passa. E assim vai definhando a nossa civilização, num processo passivamente avalizado pela apatia da sociedade civil, e pelo silêncio conivente do João Miranda. Está à vista de todos o vácuo moral criado pela ausência total de valores. Que mundo é este que estamos a deixar aos nossos filhos?
(A solução é RAD, já agora)
A bowl of Martian fatworm soup
«... He crossed the waiting room to the Padre booth; seated inside he put a dime into the slot and dialed at random. The marker came to rest at Zen.
"Tell me your torments," the Padre said, in an elderly voice marked with compassion. And slowly; it spoke as if there were no rush, no pressure. All was timeless.
Joe said, "I haven't worked for seven months and now I've got a job that takes me out of the Solar System entirely, and I'm afraid. What if I can't do it?
The Padre's weightless voice floated reassuringly back to him. "You have worked and not worked. Not working is the hardest work of all."
That's what I get for dialling Zen, Joe said to himself. Before the Padre could intone further he switched to Puritan Ethic.
"Without work," the Padre said, in a somewhat more forceful voice, "a man is nothing. He ceases to exist."
Rapidly, Joe dialled Roman Catholic.
"God and God's love will accept you," the Padre said in a faraway and gentle voice. "You are safe in his arms. He will never - "
Joe dialled Allah.
"Kill your foe," the Padre said.
"I have no foe," Joe said. "Except for my ownweariness and fear of failure."
"Those are enemies," the Padre said, "which you must overcome in a jihad." (...)
Joe dialed Judaism.
"A bowl of Martian fatworm soup_" the Padre began soothingly, and then Joe's money wore out.»
(Philip K. Dick, Galactic Pot-Healer)
"Tell me your torments," the Padre said, in an elderly voice marked with compassion. And slowly; it spoke as if there were no rush, no pressure. All was timeless.
Joe said, "I haven't worked for seven months and now I've got a job that takes me out of the Solar System entirely, and I'm afraid. What if I can't do it?
The Padre's weightless voice floated reassuringly back to him. "You have worked and not worked. Not working is the hardest work of all."
That's what I get for dialling Zen, Joe said to himself. Before the Padre could intone further he switched to Puritan Ethic.
"Without work," the Padre said, in a somewhat more forceful voice, "a man is nothing. He ceases to exist."
Rapidly, Joe dialled Roman Catholic.
"God and God's love will accept you," the Padre said in a faraway and gentle voice. "You are safe in his arms. He will never - "
Joe dialled Allah.
"Kill your foe," the Padre said.
"I have no foe," Joe said. "Except for my ownweariness and fear of failure."
"Those are enemies," the Padre said, "which you must overcome in a jihad." (...)
Joe dialed Judaism.
"A bowl of Martian fatworm soup_" the Padre began soothingly, and then Joe's money wore out.»
(Philip K. Dick, Galactic Pot-Healer)
segunda-feira, agosto 04, 2008
Um monólogo de Sérgio Gouveia, por Sérgio Gouveia
Sérgio Gouveia: «Uma vez lá é mesmo difícil perceber como ouvir outro género qualquer. Torna-se chato. O que é que vai substituir o balanço, e o offbeat, aquela coisa tão orgânica? Embora acabe sempre nos mesmos discos, e às vezes temas, comigo foi um pouco diferente. Quis sempre ter tudo. Tudo do Miles Davis, tudo do Ellington, tudo do Charlie Parker e do Gillespie, e chegava a ter, por vezes. Mas o que ouvia e ouço acaba por se limitar ao mesmo de há anos atrás.
A certa altura achei que devia combater a minha falta de talento e ir para a escola do Hot Clube, aprender contrabaixo. Isto não é nenhuma falsa modéstia, é mesmo um ouvido muito mau, dedos pouco ágeis e coordenação motora sofrível. Ainda assim descobri exactamente o que tinha esperança ser verdade: é possível com muitas horas de trabalho um cepo tornar-se um músico medíocre e saber mais ou menos o que está a fazer. Lamentavelmente já eu tinha um emprego e uma licenciatura tirada sem grande razão. Isto foi com 28 anos. Agora tenho 32, desisti no fim do segundo porque já não tinha dinheiro para pagar aquilo. Mas valeu pelo que de lá tirei e descobrir que por mais que eu acredite que o jazz se aprende nas caves, num palco, também é possível ensiná-lo de alguma forma em salas de aula.
O mais comovente eram as aulas de História com o Bernardo Moreira, um fundador do Hot Clube com uns 70 e poucos anos e que viu os discos a serem lançados. Insultava-me bastante, sempre com razão. A certa altura divagava o homem por harmonias diatónicas e de como uma melodia em tom menor poderia estar encaixada numa harmonia em tom maior (estou a inventar) e pergunta-me 'acha isto possível?', ao que respondi que sim e o homem grita-me que eu acho que sim porque sou um crédulo, mas que não faço ideia se acho ou não que sim. E voltou a dizer com segurança "Crédulo!". Sempre que me insultava, no entanto, emprestava-me um ou dois discos no fim, para me explicar o que queria dizer. Aliás o que este homem passava para fazer os miudos ouvirem os discos. Quase todos eles tinham menos de 20 anos e 85% naquele ano estavam a aprender guitarra o que enfurecia naturalmente o Bernardo Moreira (que chegava a oferecer metade da propina - 850 € por semestre - a quem mudasse para trombone. Oferecia a propina e um trombone!).
A juntar a isto tinha as histórias do hot clube. Diz ele que foi tocar contrabaixo porque era mau musico e porque ninguem ia para contrabaixo, o que lhe serviu para tocar com toda a gente, e ser necessário em toda a parte. Ou que nos anos 40 o Hot era apenas um sítio onde os gajos se juntavam a ouvir discos. Ouviram tantas vezes os mesmos que quando alguem trazia algo novo faziam blindfold tests, adivinhando cada um dos músicos de um tema de ouvido. Segundo ele havia um tipo que identificava o estúdio onde foi gravado o álbum porque sabia distinguir entre pianos (e na altura cada estúdio tinha um piano apenas). Claro que nunca me interessou saber se alguma destas histórias era ou não verdade. Ou ainda como o Villas-Boas, que trabalhava no aeroporto, verificava as listas de passageiros de todos os vôos de Nova Iorque para Paris que faziam aqui escala por uma noite e caso encontrasse um nome que conhecesse convencia-o a vir ao Hot tocar. E se não estivesse lá tinha dado instruções a todos os colegas para o caso de algum preto lhes perguntar onde se podia fazer uma jam em Lisboa. Conseguiu assim ter a tocar em jam sessions com eles o Dexter Gordon, o Horace Silver e outros de quem os nomes esqueço sempre. Se andares por estes lados a uma terça-feira não deixes de ir lá. Às vezes tem-se sorte.»
A certa altura achei que devia combater a minha falta de talento e ir para a escola do Hot Clube, aprender contrabaixo. Isto não é nenhuma falsa modéstia, é mesmo um ouvido muito mau, dedos pouco ágeis e coordenação motora sofrível. Ainda assim descobri exactamente o que tinha esperança ser verdade: é possível com muitas horas de trabalho um cepo tornar-se um músico medíocre e saber mais ou menos o que está a fazer. Lamentavelmente já eu tinha um emprego e uma licenciatura tirada sem grande razão. Isto foi com 28 anos. Agora tenho 32, desisti no fim do segundo porque já não tinha dinheiro para pagar aquilo. Mas valeu pelo que de lá tirei e descobrir que por mais que eu acredite que o jazz se aprende nas caves, num palco, também é possível ensiná-lo de alguma forma em salas de aula.
O mais comovente eram as aulas de História com o Bernardo Moreira, um fundador do Hot Clube com uns 70 e poucos anos e que viu os discos a serem lançados. Insultava-me bastante, sempre com razão. A certa altura divagava o homem por harmonias diatónicas e de como uma melodia em tom menor poderia estar encaixada numa harmonia em tom maior (estou a inventar) e pergunta-me 'acha isto possível?', ao que respondi que sim e o homem grita-me que eu acho que sim porque sou um crédulo, mas que não faço ideia se acho ou não que sim. E voltou a dizer com segurança "Crédulo!". Sempre que me insultava, no entanto, emprestava-me um ou dois discos no fim, para me explicar o que queria dizer. Aliás o que este homem passava para fazer os miudos ouvirem os discos. Quase todos eles tinham menos de 20 anos e 85% naquele ano estavam a aprender guitarra o que enfurecia naturalmente o Bernardo Moreira (que chegava a oferecer metade da propina - 850 € por semestre - a quem mudasse para trombone. Oferecia a propina e um trombone!).
A juntar a isto tinha as histórias do hot clube. Diz ele que foi tocar contrabaixo porque era mau musico e porque ninguem ia para contrabaixo, o que lhe serviu para tocar com toda a gente, e ser necessário em toda a parte. Ou que nos anos 40 o Hot era apenas um sítio onde os gajos se juntavam a ouvir discos. Ouviram tantas vezes os mesmos que quando alguem trazia algo novo faziam blindfold tests, adivinhando cada um dos músicos de um tema de ouvido. Segundo ele havia um tipo que identificava o estúdio onde foi gravado o álbum porque sabia distinguir entre pianos (e na altura cada estúdio tinha um piano apenas). Claro que nunca me interessou saber se alguma destas histórias era ou não verdade. Ou ainda como o Villas-Boas, que trabalhava no aeroporto, verificava as listas de passageiros de todos os vôos de Nova Iorque para Paris que faziam aqui escala por uma noite e caso encontrasse um nome que conhecesse convencia-o a vir ao Hot tocar. E se não estivesse lá tinha dado instruções a todos os colegas para o caso de algum preto lhes perguntar onde se podia fazer uma jam em Lisboa. Conseguiu assim ter a tocar em jam sessions com eles o Dexter Gordon, o Horace Silver e outros de quem os nomes esqueço sempre. Se andares por estes lados a uma terça-feira não deixes de ir lá. Às vezes tem-se sorte.»
quarta-feira, julho 23, 2008
Está uma osga na minha sala, atrás da estante das enciclopédias...
... tem estado ali desde as quatro da manhã, e não mostra qualquer vontade em sair. O facto de eu ter decidido não dormir não está directamente relacionado com a presença da osga atrás da estante das enciclopédias. Creio que, dada a situação, a minha tranquilidade tem sido notável. O blogue da LER anuncia "com prazer" a contratação de Rodrigo Casanova (um astuto anagrama de «consagrar o vadio»). Não sei quem é o Rodrigo Casanova (um astuto anagrama de «socorro da vagina»), mas posso garantir que a minha mãe anda cada vez mais confusa com isto tudo. Tenho aqui dois exemplares cilindrados do Dica da Semana para o que der e vier. Nunca temi este tipo de confrontos. Há um «convida a osga» algures dentro das letras de Rodrigo Casanova, parece-me. Ia buscar um lápis para confirmar, se o lápis não estivesse tão perto da estante das enciclopédias. Não tenho só ficado aqui quietinho desde as quatro da manhã, a olhar para a estante das enciclopédias, que isto fique bem claro. Logisticamente impossibilitado de ir pesquisar osgas a uma enciclopédia, fui pequisar osgas ao google. O primeiro conselho que li foi "Join the Osga!". Muito menos surpreendente foi o facto de haver osgas no YouTube. O vídeo é comoventemente intitulado "Osga na casa-de-banho":
sábado, julho 19, 2008
No fundo, o pai só o levou a ver o gelo porque era um tipo muito atencioso
«Gabriel García Márquez's novel is One Hundred Years of Solitude, not One Hundred Years of Solicitude as we had it»
(Guardian, Corrections and Clarifications, 16/07/08)
(Guardian, Corrections and Clarifications, 16/07/08)
quinta-feira, julho 17, 2008
Slightly improved
Espero que, durante a minha ausência, as pessoas tenham tido o bom senso de fazer imensos links para este post de 20 de Junho no b-site:
«I don't like Robben. He is just a slightly improved Folha.
Folha? Who's Folha?
A portuguese player, he was a left winger and almost never right.
«Folha» sounds weird.
It means «sheet».
Oh, I see your point: Robben is shit.
Yeah, just slightly improved.»
«I don't like Robben. He is just a slightly improved Folha.
Folha? Who's Folha?
A portuguese player, he was a left winger and almost never right.
«Folha» sounds weird.
It means «sheet».
Oh, I see your point: Robben is shit.
Yeah, just slightly improved.»
segunda-feira, julho 14, 2008
Mephisto

A imagem mais aterradora da semana apareceu sábado à noite, no fabuloso programa de Artur Albarran. Mostrava simplesmente uma mulher a escrever. Com um marcador de tinta fluorescente em cada mão, ela escrevia em simultâneo uma frase e o seu reflexo, num indefeso painel de vidro. «Não é difícil», explicou. «O mais complicado é decidir o que fazer com cada olho».
O neurocirurgião de serviço, Bandeira e Costa, debitou os subterfúgios da praxe. Falou de uma «invulgar disfunção cerebral» e de «ligações entre os dois hemisférios», sem nunca se atrever a enunciar a única verdade científica que o caso admite: a mulher é uma bruxa e deve ser lançada à fogueira o mais rapidamente possível.
Artur Albarran estava presente para providenciar o contexto histórico: «o espectador sabe que célebre figura tinha também esta capacidade?» Milhares de portugueses devem ter gritado o nome de Patrick Branwell Brontë. Alcoólico, desempregado crónico, e tristonho figurante na biografia das suas irmãs, Branwell tinha a transtornante habilidade de escrever duas cartas ao mesmo tempo (presumivelmente, uma para a Segurança Social e outra para a destilaria mais próxima). Albarran, contudo, tinha um ícone diferente no teleponto. «Isso mesmo: Leonardo Da Vinci!»
Pobre Leonardo; é retrospectivamente acusado de qualquer coisa de cinco em cinco minutos. Sabemos que, mais cedo ou mais tarde, qualquer observação mordaz será abtribuída a Oscar Wilde, qualquer insulto político a Winston Churchill e qualquer tecnologia moderna a Da Vinci, mas o seu currículo, até no que diz respeito a destreza manual e proezas atléticas, começa a estar ridiculamente inflacionado. Nunca li os famosos cadernos, mas pelo que pude aferir através de fontes secundárias, além de ter deixado esboços para o escafandro, a metralhadora, a bebida gaseificada, o leitor de mp3 e o metro de superfície do Porto, Leonardo terá sido também o primeiro ser humano a dançar o twist, a escalar o K2, e a preencher correctamente uma declaração de rendimentos. Nem a faculdade de escrever com as duas mãos ao mesmo tempo explica tamanha fecundidade.
Desconheço se Da Vinci também foi o precursor do autómato comunicativo que chegou aos nossos dias sob a designação de “Manuela Moura Guedes”. A primeira e mais natural reacção ao presenciar esta estonteante, ainda que rudimentar, manifestação de inteligência artificial é uma espécie de espanto religioso. Mas depressa o espanto dá lugar à desconfiança. Como aquelas populações boquiabertas que assistiram às triunfais exibições dos primeiros autómatos jogadores de xadrez, rapidamente nos perguntamos se não haverá um anão talentoso envolvido no processo. Na verdade, o últimos destes autómatos - o Mephisto - ao contrário dos seus ilustres predecessores (o Turco e o Ajeeb) era operado por controlo remoto, de uma sala diferente. Alguns dos melhores xadrezistas da época, como Isidor Gunsberg e Jean Taubenhaus, encarregaram-se de premir os botões certos. Não sei quem são os estagiários da TVI responsáveis pelo controlo remoto de “Manuela Moura Guedes”, mas creio que não estão minimamente à altura do legado de Gunsberg e Taubenhaus.
A entrevista ao futuro ex-treinador do Sport Lisboa e Benfica, no Jornal da Noite de sexta-feira, foi um exemplo invulgarmente confrangedor do que pode acontecer quando uma tecnologia a vapor colide com a era digital. O autómato esbracejou e balbuciou. Esperneou e suspirou. Microchips perdidos ziguezaguearam-lhe pelas córneas. O seu auricular berrava as instruções num volume tal que Quique Flores quase respondeu a duas perguntas antes de elas serem feitas. Mas o pobre andaluz foi um modelo de decoro. Começou por pedir desculpa aos telespectadores por não se exprimir fluentemente em português, algo que os operadores de “Manuela Moura Guedes” nunca tiveram a delicadeza de a pôr a fazer. A dada altura, o autómato tentou explicar a expressão “ferver em pouca água” com toda a eloquência de um curto-circuito. Quique ignorou-o com cavalheirismo e respondeu a perguntas que não chegaram a ser feitas. Só não confirmou se o Benfica 2008/09 vai jogar em 4-5-1 ou se, pelo contrário, vai ser a mais recente equipa nacional a aderir ao 4-4-2 em losango, táctica desenhada pela primeira vez em Florença no séc. XV, por uma das mãos de Leonardo Da Vinci.
sexta-feira, julho 11, 2008
Excerto de um extraordinário ensaio de Edmund Wilson sobre Ronald Firbank, sacado em ficheiro .txt do tal depósito online ilegal
«By this time ‚ƒ„cˆŠ‹ŒŽ\˜™š›œžŸ ¡¤\¦N©ª«ハ®¯}²³Lµ·¸¹º»¼½¾¿ÀÁÂÃÄÅÆÇÈÉÊËÌÍÎÏÔÑÓþÿÿÿþÿÿÿþÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿÿo»
A minha transição para a meia idade vai progredindo a bom ritmo
Uma passagem que não me lembro de ter sublinhado, num livro cujo título agora me escapa, sugeriu-me uma eventual ligação indirecta com um acontecimento dos últimos dias que agora não recordo. Conversei sobre isto com não sei quem, que me disse suspeitar que teria dado um bom post, desde que não me esquecesse de mencionar qualquer coisa que me esqueci de mencionar.
quarta-feira, julho 09, 2008
Apesar de não gostar particularmente de trufas...
... este blogue apoia efusivamente Bento dos Santos e deplora as recentes acusações de elitismo culinário de que ele foi alvo. As férias acabaram. Alguém invadiu o quintal na minha ausência. Desapareceram dezenas de laranjas pré-podres, o que agradeço. Também desapareceram as silvas e o lixo, o que agradeço. Deixaram a sachola, o ancinho e o balde, um gesto certamente admonitório. Prometo ter isto em melhor estado da próxima vez que vierem cá roubar laranjas. Não vi a final de Wimbledon. Apenas um mini-resumo, e as fotos nos jornais. Federer com cara de quem chegou de férias para encontrar um quintal sem laranjas. Andava há anos a tentar perder um jogo em Wimbledon, coitado. A selecção ainda não tem seleccionador. Mas o seleccionador tem um perfil. Nada me assusta mais no futebol do que o perfil. Nem mesmo o projecto. Sempre que o Sporting formula um projecto para contratar um jogador que encaixe num perfil, temos de passar o Verão seguinte à procura de colocação para o Milan Purovic. O perfil do novo seleccionador, segundo o projecto idealizado por Gilberto Madaíl, assenta no domínio do português, o que exclui automaticamente Hiddink, Pekerman e Humberto Coelho. Não há nada a fazer. Descobri há menos de vinte e quatro horas que todos os textos de Edmund Wilson incluídos nas recentes edições da Library of America (à venda na Amazon por uma quantia incomportável para o meu projecto) estão disponíveis online, gratuita e ilegalissimamente. Disponibilizarei o endereço a todos os interessados que tenham o perfil adequado.
Bovine TB Partnership Group
«Yesterday provided intriguing material for an examination of class in Britain today. The environment secretary, Hilary Benn, announced that after long thought he had decided not to permit the culling of badgers to stop the spread of TB among cattle. He said there was not enough evidence that it worked, and that a cull might make matters worse.
As always with the Department for Environment, Food and Rural Affairs, there was bags of new jargon to entertain us. Benn talked about the "testing and slaughter of reactors", and "randomised culling". Everyone seemed to know exactly what he meant.
And, as always in the Brown government, no matter how long a problem has been around it is never too late to set up a quango. This will be the Bovine TB Partnership Group, which sounds like an organisation lonely cows join to find new friends.
But the Commons divided almost entirely along party lines: Labour MPs were pro-badger; Tories were all for slaughtering the lot and turning them into shaving brushes.»
(Da coluna de Simon Hoggart, que continua a produzir o espaço tipográfico mais cómico da imprensa europeia, apesar da feroz concorrência de Rui Miguel Tovar.)
As always with the Department for Environment, Food and Rural Affairs, there was bags of new jargon to entertain us. Benn talked about the "testing and slaughter of reactors", and "randomised culling". Everyone seemed to know exactly what he meant.
And, as always in the Brown government, no matter how long a problem has been around it is never too late to set up a quango. This will be the Bovine TB Partnership Group, which sounds like an organisation lonely cows join to find new friends.
But the Commons divided almost entirely along party lines: Labour MPs were pro-badger; Tories were all for slaughtering the lot and turning them into shaving brushes.»
(Da coluna de Simon Hoggart, que continua a produzir o espaço tipográfico mais cómico da imprensa europeia, apesar da feroz concorrência de Rui Miguel Tovar.)
terça-feira, junho 17, 2008
Eu é só Camões
O Prós & Contras de ontem foi dedicado a estabelecer se o futebol serve como factor de alienação na sociedade portuguesa. Incrivelmente, não contou com a presença de José Peseiro, talvez o maior perito vivo em Marcuse, Fromm, e no conceito de alienação como condição objectiva independente da consciência e aceitação do indivíduo. Um dos convidados era um "gestor de marcas"; tinha o aspecto de uma axila bem-comportada que passou a vida inteira a ouvir conferências do Bob Proctor, e mostrou-se indignado com o que entende ser uma das maiores lacunas dos currículos escolares nacionais: o ensino do impossível. Aparentemente, não vamoms a lado nenhum enquanto a escolaridade obrigatória não for reorientada para o impossível. Para ilustrar o que era possível quando se é ensinado a tentar o impossível falou de uma bebida energética associada ao nome de Cristiano Ronaldo. Depois contou uma história apócrifa sobre D. João I. Depois referiu-se ao candidato Democrata à Presidência dos Estados Unidos como "Obana". Depois insurgiu-se contra a falta de onanismo dos portugueses. Fátima Campos Ferreira emendou-lhe a insurgência para "unanimidade". Ele concordou: "Sim, unanimidade ou onanismo, como preferir". Ao seu lado, Carlos Abreu Amorim recitou uma estrofe d' O Mostrengo. A plateia, formada exclusivamente por pessoas com pós-graduações no impossível, aplaudiu com entusiasmo. Fátima Campos Ferreira, ela própria com um doutoramento no verdadeiramente inacreditável, anunciou: "Eu é só Camões, não vou agora aqui recitar". Injectando uma nota de subtilismo no debate, Leonor Xavier falou nas pernas de Eusébio, utilizou a palavra inglesa accuracy e comparou Cristiano Ronaldo a Greta Garbo. Um historiador interveio para explicar que a selecção espanhola tem um meio-campo de tecnicistas. Daniel Oliveira esfregou a cabeça, com vigorismo. Em nenhum momento se colocou a hipótese de o Prós & Contras servir como factor de alienação na sociedade portuguesa.
Entretanto, o Europeu vai-se aproximando do fim, alienando um continente inteiro. Já é nesta altura aparente que as equipas que praticam o melhor futebol - Roménia, Croácia e Deco - não vão ganhar, deixando o caminho aberto a uma selecção onde Dirk Kuyt é titular. Não conheço em pormenor os currículos das escolas holandesas, mas desconfio que deixariam o gestor de marcas a saltitar de contentismo.
Entretanto, o Europeu vai-se aproximando do fim, alienando um continente inteiro. Já é nesta altura aparente que as equipas que praticam o melhor futebol - Roménia, Croácia e Deco - não vão ganhar, deixando o caminho aberto a uma selecção onde Dirk Kuyt é titular. Não conheço em pormenor os currículos das escolas holandesas, mas desconfio que deixariam o gestor de marcas a saltitar de contentismo.
segunda-feira, junho 02, 2008
Postiga
Na época de 2002/03 - que acompanhei à distância, através de uma complexa rede de informação que consistia em apreciações funcionalmente iletradas no Record online e em SMSs funcionalmente não-abstémios de amigos incompetentes - convenci-me de que o futuro do futebol português tinha um nome, e que esse nome era Hélder Postiga.
Numa altura em que Ronaldo e Quaresma eram submetidos à humilhação ritual por que têm de passar todos os extremos talentosos formados no Sporting (serem vaiados, num Domingo à noite, por oito mil e setecentos avatares dos velhos dos marretas) Hélder Postiga ia acumulando lances geniais a um ritmo positivamente alcochetense.
Esta perspectiva ignorante foi rapidamente corrigida. Ainda antes da desastrosa e esclarecedora transferência para o Tottenham (sancionada, com indisfarçável alívio, por José Mourinho) já Postiga começava a ser assolado pelo naipe de dúvidas existenciais que se colam, mais cedo ou mais tarde, a todos os avançados portugueses com as suas características físicas (pescoço frágil, maxilar inexistente) e técnicas (bom toque de bola, total ausência de velocidade ou potência): é um ponta-de-lança puro ou um segundo avançado? Joga melhor sozinho ou acompanhado? Numa linha ofensiva de dois ou de três? Com futebol directo ou apoiado? À chuva ou ao sol? De dia ou de noite? Fruta ou chocolate?
As perguntas acompanharam-no na meteórica passagem por Inglaterra, que foi puro vaudeville: uma calamitosa sucessão de choques frontais com postes, remates meticulosamente enrolados, e falhanços a trinta centímetros da baliza. O epíteto de "Postigoal", forjado pelos inacreditavelmente optimistas adeptos do Tottenham à sua chegada, acabaria por ser encurtado, no final da época, para um contundente "Posti_go!"
Adriaanse, com a presciência só ao alcance de um maluco holandês, tentou transformá-lo num número 10 - operação matemática que nem Georg Cantor seria capaz de executar. Foi preciso o pragmatismo de Jesualdo Ferreira para encontrar a melhor forma de o encaixar no sistema táctico do Porto: colocar o namorado da Marta Leite Castro na posição "nove", e colocar Postiga num voo da TAP para Atenas.
A reputação de Postiga assenta hoje em duas aparições ao serviço da Selecção. Um jogo circunstancialmente notável contra a (Eslovénia? Eslováquia? Não tenho tempo, ajudem-me), e um golo contra a Inglaterra no Euro 2004 resultante de um cabeceamento defeituoso, e que tem a particularidade histórica de ser o único golo em fases finais de Campeonatos da Europa marcado com o esternoclidomastóideo.
Não faço ideia se este intrigante conjunto de credenciais vale o quarto de milhão de euros de que o Sporting decidiu separar-se. Mas sei que Hélder Postiga vai acabar a época 2008/09 com precisamente cinco golos marcados: um desvio fortuito contra o Leixões; um hat-trick na Taça da Liga contra o Penafiel; e um golo decisivo ao minuto 90 contra o Porto (chapéu a Helton, depois de túneis a Bruno Alves e Fucile), sisudamente festejado com o dedo indicador colado aos lábios, em frente aos Super-Dragões.
Para o resto do ano teremos Yannick, Tiuí e as farmácias de serviço habituais.
domingo, junho 01, 2008
Há que recuperar mais bolas na zona cinco
«Quando, quase um século depois, leio o que Churchill conta das suas horas nas suas memórias sou... Churchill. Espantoso instrumento, o livro.»
- Paula Moura Pinheiro, Única, 31/05
(Poderosa exaltação da memória escrita - em contraponto à «leveza da imprensa, da rádio, da televisão» - feita por Paula Moura Pinheiro na revista do Expresso. Não poderia manifestar mais vigorosamente a minha concordância. Eu próprio, ao ler a coluna de Paula Moura Pinheiro, sou... Paula Moura Pinheiro. Espantoso instrumento, a revista do Expresso.)
- Paula Moura Pinheiro, Única, 31/05
(Poderosa exaltação da memória escrita - em contraponto à «leveza da imprensa, da rádio, da televisão» - feita por Paula Moura Pinheiro na revista do Expresso. Não poderia manifestar mais vigorosamente a minha concordância. Eu próprio, ao ler a coluna de Paula Moura Pinheiro, sou... Paula Moura Pinheiro. Espantoso instrumento, a revista do Expresso.)
sexta-feira, maio 30, 2008
Divine Command
What philosophy do you follow? (v1.03)
You scored as a person who is always right.
Trailblazing a glorious path of perfection across our tiny, inadequate Universe, you have maintained a strict adherence to the philosophy of always being right. Is there anything we can tell you that you do not already know? The notion is ridiculous. Take a look in the mirror: you have it all figured out. You have cracked the wise code. And you're taking this silly little test? You should be testing us! Anyway, to declare the obvious, you believe people should go on doing stuff in accordance with the stuff that was done by the people who came before, therefore allowing the people who come after to do a little stuff of their own without fucking the whole thing up too much. And how right you are in believing this! And handsome too. Do you even shave? Because, clearly, you don't need to, you gorgeous hunk of wisdom.
Being always right ----------- 100%
You scored as a person who is always right.
Trailblazing a glorious path of perfection across our tiny, inadequate Universe, you have maintained a strict adherence to the philosophy of always being right. Is there anything we can tell you that you do not already know? The notion is ridiculous. Take a look in the mirror: you have it all figured out. You have cracked the wise code. And you're taking this silly little test? You should be testing us! Anyway, to declare the obvious, you believe people should go on doing stuff in accordance with the stuff that was done by the people who came before, therefore allowing the people who come after to do a little stuff of their own without fucking the whole thing up too much. And how right you are in believing this! And handsome too. Do you even shave? Because, clearly, you don't need to, you gorgeous hunk of wisdom.
Being always right ----------- 100%
sábado, maio 24, 2008
«Por exemplo: despedimentos. Como é que é?«
O debate entre os candidatos à liderança do PSD no Jornal da Noite da TVI - competentemente moderado por Pedro Santana Lopes - foi útil em pelo menos um aspecto: permitiu que todos os participantes apresentassem uma versão reduzida mas não-adulterada da sua essência. Manuela Ferreira Leite, maquilhada pela mesma equipa de profissionais que transformou Cate Blanchett em Bob Dylan, falou menos e fez mais sentido, recorrendo ao seu expediente retórico habitual: declarar um domínio insuficiente sobre este ou aquele dossier, para logo na frase seguinte, insinuar toda uma galáxia de conhecimentos apreendidos sobre o mesmo dossier; tendo lido cento e quarenta mil páginas de relatórios sobre o TGV, a dra. Ferreira Leite está agora a apenas sessenta mil páginas de formar uma opinião sobre o assunto. Passos "the Voice" Coelho, que passou ao lado de uma grande carreira a passar trip-hop e música ambiente nas noites da RFM, teve direito a mais minutos do que qualquer outro candidato. Não retive uma única palavra do que disse, mas concordei com tudo, embora me pareça que os seus assessores devam insistir neste ponto no futuro: sempre que Passos Coelho falar, deve ser acompanhado por uma secção de cordas, e imagens de arquivo de florestas, nevoeiro e quedas de água. Patinha Antão mostrou notável contenção, resistindo heroicamente à tentação de chamar idiotas a todos os presentes. Gore Vidal costumava dizer que não havia problema no Mundo que não pudesse ser resolvido se lhe pedissem a opinião. Patinha parece alimentar a mesma convicção, mas com uma diferença crucial: não nos basta pedir a sua opinião - devemos implorá-la, espojados no chão, enquanto gememos e esfregamos gravilha no cabelo, até que ele aceda em resmungar alguma luz sobre o problema. Tenho um tio que se comporta exactamente como Patinha Antão e ninguém na família fala com ele. Vive hoje na Damaia, protegido por rotundas inegociáveis, e a única pessoa que o atura é uma mulher-a-dias da Eslováquia.
Tendo em conta a curta mas sólida tradição dos militantes do PSD em escolherem o candidato transtornantemente menos qualificado, um facto parece-me agora incontornável: o principal adversário do engenheiro Sócrates nas próximas eleições vai ser Manuela Moura Guedes.
Your fountain pen has crashed
Na sua colecção de pequenas biografias de escritores, Javier Marías fala na irascibilidade eslava de Conrad, ilustrada com este ternurento exemplo: quando deixava cair ao chão a caneta com que escrevia, Conrad «dedicava vários minutos a tamborilar exasperado na mesa, à maneira de lamentação pelo acidente».
Só podemos especular sobre o desenvolvimento da carreira literária de Conrad caso tivesse tido o privilégio de se confrontar diariamente com o Windows Vista.
quarta-feira, maio 21, 2008
O 18 Brumário de Rodrigo Tiuí
Três dias depois da entrega do mais importante troféu do calendário desportivo nacional - que soterrou em prestígio e glória o seu justíssimo vencedor - e numa altura em que a botija de oxigénio do CAA já foi certamente reparada por um profissional, e o Bruno já mudou de operador de telemóvel*, será de bom tom prestar aqui um pequeno tributo ao conceito de narrativa no futebol, um princípio metafísico que tem regulado a actividade desde os primeiros pontapés de saída e que é parcialmente responsável pela sanidade mental daqueles que, como eu, atravessaram a puberdade atrelados à instituição psicologicamente menos recomendável da história da modalidade.
(Convém igualmente recordar os animadores das workshops anuais de reverberação saudosista que costumam entrar em funcionamento sempre que há jogos ao Domingo à tarde ("ah, o futebol em família") que a parafernália nostálgica a que aludem (o farnel, a almofada desdobrável, o transístor do papá) teve e tem o seu reflexo negro (o psiquiatra, o lenço de papel, a embalagem de Lexotam) naqueles para quem um jogo do seu clube, mais do que qualquer impulso recreativo, sempre representou um sólido motivo para ponderar a eutanásia. Fim de parênteses.)
A destreza no desenredamento da narrativa tem sido o mais fiável mecanismo de sobrevivência do adepto palmaresisticamente desafiado, mas o seu potencial oracular está acessível a todos. Reduzido ao essencial, o conceito pode ser formulado da seguinte maneira: «Em futebol, qualquer detalhe que contribua para um melhor arco dramático, vai geralmente ocorrer». Apoiado neste princípio, qualquer observador atento podia prever, por exemplo, que, depois do fiasco metabólico na final do Mundial de '98, a grande figura do Mundial de '02 seria Ronaldo; ou que, por mais apagada que fosse a sua época, era inevitável que Derlei marcasse um golo decisivo ao Benfica.
A partir do momento em que o Futebol Clube do Porto espoliou o Vitória Futebol Clube da hipótese de conquistar dois troféus na mesma época, dois factos tornaram-se instantaneamente evidentes: o Sporting iria ganhar a final, e a grande figura do jogo seria um avançado brasileiro destinado a acabar a carreira no Alpalhoense.
(Convém igualmente recordar os animadores das workshops anuais de reverberação saudosista que costumam entrar em funcionamento sempre que há jogos ao Domingo à tarde ("ah, o futebol em família") que a parafernália nostálgica a que aludem (o farnel, a almofada desdobrável, o transístor do papá) teve e tem o seu reflexo negro (o psiquiatra, o lenço de papel, a embalagem de Lexotam) naqueles para quem um jogo do seu clube, mais do que qualquer impulso recreativo, sempre representou um sólido motivo para ponderar a eutanásia. Fim de parênteses.)
A destreza no desenredamento da narrativa tem sido o mais fiável mecanismo de sobrevivência do adepto palmaresisticamente desafiado, mas o seu potencial oracular está acessível a todos. Reduzido ao essencial, o conceito pode ser formulado da seguinte maneira: «Em futebol, qualquer detalhe que contribua para um melhor arco dramático, vai geralmente ocorrer». Apoiado neste princípio, qualquer observador atento podia prever, por exemplo, que, depois do fiasco metabólico na final do Mundial de '98, a grande figura do Mundial de '02 seria Ronaldo; ou que, por mais apagada que fosse a sua época, era inevitável que Derlei marcasse um golo decisivo ao Benfica.
A partir do momento em que o Futebol Clube do Porto espoliou o Vitória Futebol Clube da hipótese de conquistar dois troféus na mesma época, dois factos tornaram-se instantaneamente evidentes: o Sporting iria ganhar a final, e a grande figura do jogo seria um avançado brasileiro destinado a acabar a carreira no Alpalhoense.
Havia ainda, contudo, muito trabalho pela frente. Perder, na mesma temporada, um terceiro jogo para o Sporting sem recorrer à falta de comparência ou à utilização de Stepanov implica uma operação só ao alcance da melhor organização desportiva nacional dos últimos 25 anos.
Apostando na quase sempre fiável táctica da inferioridade numérica, Jesualdo utilizou de início João Paulo e Mariano (este último, mostrando mais uma vez não se ter adaptado ao espírito do balneário, teve o descaramento de jogar relativamente bem); Lisandro foi submetido a uma semana de visionamento intensivo de cassetes de Nuno Gomes para tentar assimilar o conceito de que a bola não tem de ir sempre para dentro da baliza; Paulo Assunção, alimentado por nutricionistas americanos desde Abril, foi impedido de correr os habituais duzentos quilómetros por partida; e a criatura sobre-humana que é Lucho González recebeu a missão mais árdua de todas: com instruções rigorosas para imitar um jogador mediano, foi encarregue de proporcionar a Miguel Veloso a clareira de segurança de 15 metros quadrados necessária para que os trinta e sete olheiros ingleses na bancada pudessem escrevinhar furiosos elogios nos seus caderninhos.
O resto foi deixado aos pés de Tiuí, que encarnou com inusitada competência o princípio de que a mediocridade é um dos mais frequentes motores da História, fechando a narrativa com um lance que não conseguirá repetir até ao final da sua carreira, em 2019, nos distritais de Portalegre.
Duas notas finais para os dois heróis mudos do fim-de-semana: Grimi provou mais uma vez que é o homem certo no clube certo, e que merece o dinheiro que se pede por ele. Apesar da constante hemorragia de bolas para os adversários (os seus cruzamentos pareciam ter um pré-acordo com o champô de Bruno Alves), Grimi é o exemplo clássico do defesa cuja primeira prioridade não é o seu posicionamento táctico, mas sim a estrutura anatómica do oponente. É por causa dos antepassados de Leandro Grimi que os maqueiros são hoje uma classe profissional remunerada, mas é indiscutível que todos os clubes precisam de um lateral assim, particularmente se contam na faixa oposta com Abel, um jogador incapaz de aleijar alguém voluntariamente - todas as faltas que comete são acidentais - e cuja capacidade para intimidar está limitada aos seus companheiros de equipa e a mim próprio, que atravesso a rua sempre que o vejo na televisão.
O outro foi Derlei, que monitorizou todo o processo de celebração, guiando os caloiros nas intrincadas movimentações (é assim que se grita, é assim que se ergue os braços) necessárias para festejar um título. Espero que renove até 2012, e que o Tiuí seja emprestado ao Vizela. Para "rodar", para "rodar".
(* Não acho bem que se ande por aí a "raiar o insulto". Se o Bruno me enviar o seu número de telemóvel, comprometo-me a fazer um trabalho sério. Tenho bastante tempo livre, e o meu plano TMN inclui 250 SMSs gratuitos por mês: julgo reunir as condições necessárias para me aproximar mais do insulto do que os seus displicentes amigos.)
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