sexta-feira, fevereiro 06, 2009

"I Will Destroy Luxembourg and Join Arsenal Says Bugduv"

Fortíssima candidata a melhor história do ano: a biografia da lenda moldava Masal Bugduv, explicada aqui pela Slate, com a condescendência que se impunha.

Teaser:
«Whoever engineered the prank left behind a calling card in the form of the fictional Moldovan newspaper Diario Mo Thon, described in one of the concocted AP stories as "the top sports daily in Balti." Diario means diary in several Romance languages, and mo thón is Irish for my ass—just the kind of nested, polyglot ass pun that every good imaginary-Moldovan prank requires.
It got better. After SoccerLens blogger McDonnell broke the story, Bugduv fans in Ireland noticed that the player's name was a phonetic twin for m'asal beag dubh, which is Irish for "my little black donkey." A second Irish ass pun, sure. But "My Little Black Donkey" is also the name of an Irish-language short story by early 20th-century writer Pádraic Ó Conaire about a man tricked into overpaying for a lazy donkey based on some vivid village gossip.»

quinta-feira, janeiro 29, 2009

Grande vitória da imprensa nacional



O Público e o DN acertaram à primeira tentativa no nome da pessoa que morreu.

segunda-feira, janeiro 26, 2009

A verdade é que não tenho sono nenhum


Vinte anos depois, continua a não ser arquivado nas secções de "Humor". A quantidade de gente que continua a levar este monte de entulho a sério é que nunca deixa de me surpreender. O Ibsen batia no cão, o Marx tinha bolhas na pilinha, o Edmund Wilson gostava de levar tau-tau - nunca houve reunião de costureiras com uma acta tão sofisticada.
Tentar invalidar um sistema de pensamento através da higiene pessoal não é uma metodologia particularmente revolucionária: a minha mãe anda a tentar a mesma coisa desde 1987. Mas não resulta, não resulta. Qualquer produção intelectual está enraizada numa personalidade, mas a correlação nunca é directa. Algumas abordagens conseguem ser interessantes mesmo quando são inadequadas; mas Paul Johnson tem o dom de induzir o desespero numa pessoa mesmo quando tem razão. O capítulo sobre Marx, valha-me Deus. O Aron e o Popper conseguiram demolir criticamente o marxismo sem precisarem de contar sabonetes. Há casos específicos em que a vida invalida as ideias, mas esses casos são raros. O facto de uma conduta pessoal não ser coerente com um conjunto de princípios não invalida os princípios - quando muito, invalida a conduta pessoal.
Paul Johnson critica a deficiente compreensão da História partilhada por Marx e Tolstoi, mas a sua própria compreensão é pouco mais do que uma caricatura sem bonecos. Para já, é possível ler-se as doze mil e setecentas páginas de Intellectuals sem perceber o que é um "intellectual". Segundo os atrapalhados parâmetros do autor, um intelectual é alguém que tenta usar a Razão para construir uma nova ordem social. A sério? Hemingway? Ibsen? Edmund Wilson? James Baldwin? A sério? E o Elton John? E o Eric Cantona? E o Carlos Daniel? Na tentativa de desmantelar bezerros de ouro, o Paul Johnson artilhou um de vapor. E ali está ele, entretido, a mandar cócó aos fantasmas.
Nessa elite espectral, Johnson vê uma espécie de clero secular: “aventureiros do espírito”, cujas inovações morais e ideológicas já não são limitadas pelos “cânones da autoridade externa” e pela “herança da tradição”. Mas esses mesmos limites foram eles próprios aventuras do espírito - sucessivamente melhorados e cronologicamente institucionalizados; a exterioridade que Johnson lhes atribui é uma mera convenção. Os grandes sistemas teóricos, e as restrições que os contêm, são manifestações humanas; mesmo ao seu melhor (e há poucos exemplos) limitam-se a resgatar uma aproximação à verdade e a intensificá-la. No processo, essa verdade é inevitavelmente distorcida, cabendo às gerações o trabalho de refinamento. Paul Johnson, que só é capaz de assimilar e aceitar uma cultura hierática, procura as vantagens de uma ideia na legitimidade de quem a professa. Quer idolatrar, não conteúdos falíveis, mas Livros inerrantes. Quer uma purezazinha aberrante que se possa seguir cegamente. O corolário lógico do seu catálogo de objecções é evidente: se uma teoria perigosamente deficiente, como o marxismo, tivesse sido Revelada no Monte Sinai, as suas deficiências teriam em Paul Johnson o seu mais infatigável acólito.
A conclusão de “Intelectuais” é que as pessoas têm sempre mais importância que os conceitos. Como conceito, isto é eminentemente defensável. Mas é um conceito; e um conceito pelo qual muitas pessoas entenderam que valia a pena morrer. O conceito no qual Paul Johnson predicou este livro indefensável é um mau conceito, que apenas se consegue invalidar a si próprio. Até o Paul Johnson - que passou a vida a beber que nem um mineiro siberiano, a bater em cães, e pelo menos treze anos numa relação adúltera com uma amante que lhe dava palmadinhas com implementos de cabedal - é mais importante do que isto.
Entretanto, na frente doméstica, tenho o prazer de anunciar que estou a abandonar tranquilamente a maionese:

Equadogue

Entalada entre duas telenovelas da TVI (uma das quais, Olhos nos Olhos, é a melhor coisa em exibição na televisão portuguesa) a adaptação de Equador continua a explorar delicadamente um tema pertinente: a epidemia de defeitos da fala no Portugal de início de século XX. A série tem muitas qualidades, mas é particularmente recomendável às pessoas que gaguejam: vão-se sentir muito melhor consigo próprias.
A melhor pirotecnia oral até agora (perdi o primeiro episódio) pertence ao actor Marco d'Almeida, que interpreta uma personagem inglesa. O seu sotaque faz um virtuoso périplo Miguelcadilheano pelas ilhas britânicas, antes de assentar arraiais na pequena localidade de Sean-Connery-on-Methadone. «Tree monshes?» pergunta ele, escandalizado, referindo-se a um período de tempo de três meses. Pede-se encarecidamente aos argumentistas que lhe escrevam tantos diálogos com consoantes sibilinas quanto possível, sem prejudicar a integridade do guião. As vogais, essas, estão por conta de São José Correia, que interpeta Pilar, uma prostituta espanhola. Pilar quer fugir para Madrid com Antero, para mostrar que é ela quem «mandá na sssuá bidá», mas antes tem de aconselhar uma prostituta mais nova, que anseia ela própria por mandár na sssua bidá: «Um diá también hás dé tér ú téu Antéro!» A prostituta mais nova acena resignadamente, antes de ir aviar o próximo cliente, um conde que troca os érres pelos guês: «Onde é que vais com tanta peguéssa a esta óga?». O conde é integpetado pelo actogue Gui Mendes, e, se a memória não me falha, deixa de aparecer quando a acção é transferida para São Tomé, o que deve estar quase a acontecer, dada a indignação com que a actriz inglesa (esta genuína) recebeu a novidade: «Sow Tommy Prince Yippie? That's one of the poorest regions on earth!» Pois é, pois é, mas temos a televisão nacional, que é uma das mais ricas, madam.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Coração cor-de-rosa das Trevas

Há fortes probabilidades de ter tido, na noite passada, um sonho homoerótico com Medeiros Ferreira. No sonho, eu e o Medeiros Ferreira estávamos os dois num barco, de camisolas de alças, a subir o Rio Zambeze, cujas águas eram muito escuras e cheias de enguias. Medeiros Ferreira falava-me da descolonização. Às tantas houve mergulhos, no meio das enguias.
Nada, em nenhum dos livros que li até agora, me preparou para lidar com isto. Nem no Hazlitt, que é, a partir desta semana, o melhor escritor do mundo de todos os tempos. A passagem que se segue é de um texto chamado «Character of Mr. Burke», que foi tão violentamente sublinhado no meu exemplar que a integridade do próprio livro está agora em perigo. Resta-me aguardar que a tendência suicida da libra continue, e que daqui a pouco tempo a Amazon me ofereça dinheiro para eu encomendar um exemplar de substituição:

«He applied the habit of reflection, which he had borrowed from his metaphysical studies, but which was not competent to the discovery of any elementary truth in that department, with great facility and success, to the mixed mass of human affairs. He knew more of the political machine than a recluse philosopher; and he speculated more profoundly on its principles and general results than a mere politician. He saw a number of fine distinctions and changeable aspects of things, the good mixed with the ill, and the ill mixed with the good; and with a sceptical indifference, in which the exercise of his own ingenuity was obviously the governing principle, suggested various topics to qualify or assist the judgment of others. But for this very reason, he was little calculated to become a leader or a partizan in any important practical measure. For the habit of his mind would lead him to find out a reason for or against any thing: and it is not on speculative refinements, (which belong to every side of a question), but on a just estimate of the aggregate mass and extended combinations of objections and advantages, that we ought to decide or act. Burke had the power of throwing true or false weights into the scales of political casuistry, but not firmness of mind (or, shall we say, honesty enough) to hold the balance. When he took a side, his vanity or his spleen more frequently gave the casting vote than his judgment; and the fieriness of his zeal was in exact proportion to the levity of his understanding, and the want of conscious sincerity

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Mandem-me correntes, sff. Estou mais ou menos de férias

Esta amável corrente que me foi passada pelo Impensado, e que demorei nove dias a decifrar, é uma boa corrente. Gostava que as pessoas me mandassem mais correntes. Passemos então à elaboração sobre a corrente.


Pede-se uma foto:


e uma banda, que decidi interpretar livremente como autorização para escolher as obras completas de Philip K. Dick (se percebi bem, agora responde-se ao questionário com títulos de canções da banda, que decidi interpretar livremente como etc etc. Não tenho rigorosamente nada que fazer neste momento.)

1. Homem ou mulher?
The Variable Man

2. Descreve-te.
The Divine Invasion

3. O que pensam de mim?
a) 75% das pessoas que me enviam spam: We Can Build You
b) a minha mãe: The Father-Thing
c) a população feminina em geral: Vulcan's Hammer

4. Como descreves o teu último relacionamento?
Flow My Tears, The Policeman Said

5. Descreve o estado actual da tua relação.
Mary and the Giant

6. Onde querias estar agora?
Puttering About in a Small Land

7. O que pensas do amor?
The Cosmic Puppets

8. Como é a tua vida?
The Crack in Space

9. O que pedirias se pudesses ter só um desejo?
We Can Remember It For You Wholesale

10. Escreve uma frase sábia:
Gather Yourselves Together

11. Descreve o 4-4-2 em losango com o Miguel Veloso na posição 6 e o Rochemback na posição 7:
A Maze of Death

12. Descreve as circunstâncias mais adequadas aos talentos específicos do Miguel Veloso e do Rochemback:
Counter-Clock World

13. Qual seria, na tua humilde opinião, um título muito mais adequado para as memórias de Paul Auster do que Hand to Mouth:
Confessions of a Crap Artist

14. Partindo do princípio de que ela existe, qual seria a audiência com mais probabilidades de tirar algum proveito intelectual do acompanhamento de uma conversa entre o Filipe Moura e o Carlos Vidal:
Clans of the Alphane Moon

15. Qual a solução que, nas alturas mais difíceis, te parece mais adequada para resolver o problema com que te deparas sempre que a Dona Feliciana, a tua vizinha surda, se põe a ver o Prós & Contras com o volume no máximo:
The Zap Gun

16. E o Carlos Daniel? Não tens nada a dizer sobre o Carlos Daniel?
Eye in the Sky

17. Que engenho é que gostarias de aplicar à pessoa do Carlos Daniel?
The Preserving Machine


Passo esta corrente, de acordo com os trâmites, ao Tiago Galvão e também ao Sérgio Gouveia, duas pessoas completamente diferentes.

sábado, janeiro 17, 2009

Sem olhos em casa



Este título era tão previsível que, do alto da minha intrigante conta à ordem no BPI, apostei na sua aparição num prazo de 48 horas depois de a primeira bomba ter caído. Falhei na data e no sítio (por pouco mais que um oceano), o que não prova rigorosamente nada, nem sequer que a perpétua busca de ressonância alusiva em títulos alusivamente ressonantes conduz quase sempre à previsibilidade.
Sem olhos em Gaza, de qualquer forma, é uma descrição que não parece despropositada ("Por Quem os Sinos Dobram", ou "A Angústia do Guarda-Redes no Momento do Penalty" seriam opções manifestamente piores). Ter uma "opinião" sobre o que se passa hoje em Gaza é o equivalente intelectual a brincar ao quarto escuro com duas primas gordas. Eu próprio, alguém cuja opinião tem sido ansiosamente aguardada, ainda não encontrei qualquer indício de possuir sequer as faculdades necessárias para emitir uma daquelas "opiniões" que se pode ter sobre "o assunto". Pela razão óbvia: tenho um preconceito inultrapassável em relação a Israel - um preconceito que, para agravar a coisa, tem uma forte componente racial. O preconceito em questão, por puro acaso (e é mesmo um acaso: um resultado de acidentes biográficos menores e de um sortido de motivos aflitivamente superficiais) é um preconceito positivo, mas, para o caso, isso não faz a menor diferença. O meu filo-semitismo (e devia haver uma maneira melhor de uma pessoa dizer que curte Judeus e lá as coisas deles) faz tanto sentido como o anti-semitismo de outro maluquinho qualquer. Como qualquer preconceito, é cego, monolítico, irracional e completamente estanque. Não permite gradações nem encoraja nuances. Terá uma inevitável e bastante limitada utilidade como ferramenta de configuração (cf. enfim, Burke, ou a dezena de chatos que o citam), mas é também uma forma muito boa de afunilar as respostas emocionais, e diminuir drasticamente as probabilidades de conseguirmos identificar a nossa própria imbecilidade.
Se a minha posição instintiva e imediata é acreditar que o IDF tem, não apenas o direito, mas o dever de bombardear todos os metros quadrados de planeta que bem quiser e entender, inclusivamente toda a área entre a farmácia velha de Fernão Ferro e ali o começo do pinhal, terei alguma justificação em colocar a hipótese de não estar realmente a pensar, mas sim de estar a sofrer um espasmo do neocórtex. Posso chegar a uma situação em que já nem terei a certeza de que as respostas continuam a obedecer ao mesmo cego preconceito positivo ou se são apenas já reacções tóxicas (e estive quase a falar do Benfica agora) às respostas motivadas pelos preconceitos opostos. Estes têm sido os melhores e mais consistentes motivos na história da humanidade para ficar calado, mas depois uma pessoa tem um blogue. É tudo muito complicado.
Alguém, digamos, extraordinário, chamou-me recentemente à atenção para uma feliz e acidental correspondência entre um dos greatest hits retóricos do Clive James (desenvolvido, por exemplo, em 3 ou 4 textos deste livro) e a sua própria forma de encarar o conhecimento. O argumento refere-se ao tipo de comportamento que podemos realisticamente esperar de indivíduos confrontados com o totalitarismo. A resposta lógica é que não é justo exigir a todos que cancelem o seu instinto para a auto-preservação em nome de de uma ética superlativa. Os casos excepcionais em que isso acontece são casos de heroísmo moral, um fenómeno que deve ser exaltado, mas não elevado a bitola. Clive James predicou uma das mais interessantes carreiras críticas do século XX numa versão intelectual desta prescrição. Não exigiu a si próprio o heroísmo da omnisciência, mas soube consolidar, com o zelo paciente e obsessivo do auto-didacta, uma base relativamente estável, assente nos requisitos mínimos elevados à máxima potência: a do senso-comum. A partir dessa plataforma, é possível efectuar incursões esporádicas para o desconhecido, sem grandes riscos retóricos no caso de a coisa correr mal.
Ter uma "opinião", enfim. O problema com o repertório de "opiniões" que se podem ter "sobre" Gaza é que não são comentário, mas caricatura. Não nos fazem pensar sobre o tema em questão; mas fazem-nos pensar duas vezes sobre quem as manifesta. Ter uma "opinião" pertinente sobre Gaza requer provavelmente um tipo muito intensificado de génio moral e, se a bitola for essa, ninguém tem legitimidade para fazer o log-in. O melhor a que se pode almejar é a um reduzido consenso que exclua o disparate. É possível intuir ali um terrenozinho entre o inócuo (que eu já devo ter anexado) e a barbaridade. Convém ocupá-lo antes que comecem a cair lá bombas também. A neutralidade absoluta não é uma expectativa racional; mas a tal estrutura de senso comum parece-me uma possibilidade razoável: apelar ao mínimo denominador comum e ao máximo que dele se pode extrair, utilizando os preconceitos como um mecanismo para seleccionar ênfases, e esperar que a competição de constrições de percepção opostas seja capaz de iluminar alguma coisa. Do alto da minha intrigante conta à ordem no BPI, nem sobre isto tenho certezas, mas espero que tenha ficado bem claro que tenho um blogue.
E com isto, deixo-vos este fofo gatinho com um yarmulke na cabeça


quarta-feira, janeiro 07, 2009

Enquanto as pessoas andavam entretidas a fazer balanços do ano...

... eu enfrentava com uma coragem e dignidade a toda a prova a segunda intoxicação alimentar da minha vida, provocada por uma Panini servida num voo da TAP para a qual cometi o erro de pedir um bocadinho de maionese, dando assim razão à minha avó Conceição que um dia me disse que esta brincadeira da maionese ainda me havia de me dar um grande desgosto. Não é o facto de já ser dia 7 de Janeiro que vai impedir certas e determinadas coisas, contudo. Os blogues do ano foram o Julinho e o Agrafo, evidentemente. O post do ano, do outro ano, enfim, foi escrito a 13 de Outubro e é um útil resumo (com extrapolação) da secção 6, parte iv, tomo I, do A Treatise of Human Nature. Era mesmo só isto, podem continuar com as vossas vidas:

«O João Miranda, blogger da minha particular estima, tem que perceber uma coisa: a minha opinião é sempre a da última coisa que li ou vi. Naturalmente que depois de ouvir o que o João Miranda me propõe vou absorver essa visão das coisas e faze-la como minha. Até que leio ou ouço a opinião seguinte, altura em que me transfiro para lá de corpo, alma e convicção. Notar que não há evolução de uma opinião para outra: há substituição pura e simples. No fundo, a minha pessoa é um conjunto de opiniões paralelas que se revezam com o tempo, e que não se comunicam. O trabalho e eventual sucesso de me educar para uma determinada causa tem mais a ver com o timing que com a inteligência da construção cognitiva que me é apresentada. Mas, em todo o caso, apreciou-se o esforço. Vou expor-me à proposta do João Miranda lá para o fim da tarde, altura em que escreverei um post a dizer que o João Miranda tem toda a razão.»

sábado, dezembro 27, 2008

Um singelo balanço

A melhor descoberta (minha, estou muito atrasado) de 2008:



E um pedido urgente (às editoras portuguesas, que estão muito atrasadas) para 2009:

quinta-feira, dezembro 25, 2008

Um Natal economicamente viável para todos

(Livraria Blackwell em Oxford, felizmente situada na mesma rua de uma loja de ferragens com carrinhos de mão muito em conta (e à porta da qual, na tarde de 21 de Dezembro, sete judeus celebravam ruidosamente o Hanukkah, pela minha saúde), e onde é possível gastar noventa e quatro libras em menos de hora e meia (em livros, não em judeus))

a) o Alexandre tem várias vezes razão ao longo deste post; aqueles parênteses sobre o câmbio só pecam por defeito. A queda da libra proporciona um dos gráficos mais deprimentes da história económica recente (creio que é evidente que não sei do que estou a falar), mas para o consumidor que deseje vir às livrarias inglesas gastar dinheiro português, a situação não poderia ser melhor. Aliás: o valor da libra desceu mais um bocadinho desde que comecei o post. Aliás: estou a escrever este post à luz de uma pequena fogueira ateada com notas de dez libras (tenho usado as notas de vinte para papel de embrulho);

b) por uma questão de enfim, não vou fazer listas, mas, uma vez que não vi mais do que sete filmes estreados este ano, parece-me pertinente afirmar que o melhor deles foi Du levande (Roy Andersson), do qual podem ver aqui um clip (o truque da toalha é uma tradição familiar a que procuro dar continuidade).

c) por motivos que não vamos aqui enfim, descobri uma coisa assombrosa: o tradutor automático do google transforma "João Miranda" em "John Coltrane".

d) das melhores coisas que li este ano, em qualquer sítio e em qualquer formato: o artigo na Economist sobre o farol de Fastnet.

e) a segunda melhor prenda deste Natal (desde os 15 anos que ninguém me oferecia brinquedos; estou muito feliz):

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Acabou por ser um bom fim-de-semana, só foi pena ter-me trancado a mim próprio fora de casa



Foi uma colossal empreitada logística, envolvendo um saco de desporto, um daqueles chouriços de lã que se colocam atrás das portas na Margem Sul para desencorajar as minhocas, um pezinho atarefado, uma chave do lado errado da porta, e um telemóvel a tocar. Nem o Fred Astaire se safaria dali com a dignidade intacta. Felizmente a situação já foi resolvida, graças à minha tia Micaela (um dos membros mais valorosos desse vasto exército de pessoas de famíla com chaves sobressalentes), e também à existência de outras casas, com outras pessoas e outras chaves.
Dói-me ligeiramente a cabeça por causa de tudo, mas creio não ser a única pessoa ansiosa por ver o que é que as manápulas gordurosas de Sam Mendes vão fazer de Revolutionary Road, um livro de que gosto quase tanto como de certos condimentos feitos à base de gemas de ovo e óleo vegetal (nunca vou perceber como é que não se entregou isto ao Paul Schrader). Estão aqui dois textos - que ainda não li, estou à espera que alguém me faça um café - sobre Revolutionary Road: um de James Wood, outro de Christopher Hitchens. Qual dos dois se assemelhará mais ao grunhido incoerente de um grande símio a besuntar as grades da jaula com as suas próprias fezes? Deixo a pergunta no ar, espalhando a sua essência.
Na imagem: caricatura de James Wood, aqui inexplicavelmente transformado por David Levine num italo-americano de Brooklyn, de camisa aberta e punhos cerrados, com ar ameaçador: "I will review the books, I will review your wife, and then I will review your momma".

Vou "linkar" um "blogue", como dizem os jovens

Nomeadamente este blogue, não só porque me parece um blogue passível de ser linkado, mas também, e acima de tudo, porque é o único blogue onde me lembro de ver uma citação do eminentemente citável Dwight Macdonald, um patusco americano de esquerda, que era, nos seus melhores momentos, uma espécie de Lester Bangs da crítica literária. Há para aqui algures um ensaio dele chamado "By Cozzens Possessed" do qual eu gosto tanto que estou disposto a transcrevê-lo na íntegra caso esta caixa de comentários chegue aos 500 comentários, ou aos 125 comentários - o que quer que aconteça primeiro.

Ah Lobo Antunes, és um cordeirinho

Birnbaum: Is it too early to know what the world thinks of this book?

Ford: I've heard some things. A terrible review in The Sunday New York Times.

Birnbaum: Are you going to go out and shoot it? Is that a true story that your wife took a pistol and shot a bad review Alice Hoffman gave you?

Ford: Yes, it is a true story. Shot her book. Seemed so good to do. We had another copy so I went out and shot it too. I don't read my reviews anymore.

(De uma entrevista antiga a Richard Ford, que é, depois da aposentação de Norman Mailer, claramente o escritor mais chanfrado em actividade)

quarta-feira, dezembro 03, 2008

terça-feira, novembro 25, 2008

Chama-se «Inherent Vice» e parece que é um lively yarn num unaccustomed genre


O catálogo da Penguin para 2009 já tem um título e um resumo:

«It’s been awhile since Doc Sportello has seen his ex-girlfriend. Suddenly out of nowhere she shows up with a story about a plot to kidnap a billionaire land developer whom she just happens to be in love with. Easy for her to say. It’s the tail end of the psychedelic sixties in L.A., and Doc knows that “love” is another of those words going around at the moment, like “trip” or “groovy,” except that this one usually leads to trouble. Despite which he soon finds himself drawn into a bizarre tangle of motives and passions whose cast of characters includes surfers, hustlers, dopers and rockers, a murderous loan shark, a tenor sax player working undercover, an ex-con with a swastika tattoo and a fondness for Ethel Merman, and a mysterious entity known as the Golden Fang, which may only be a tax dodge set up by some dentists.
In this lively yarn, Thomas Pynchon, working in an unaccustomed genre, provides a classic illustration of the principle that if you can remember the sixties, you weren’t there . . . or . . . if you were there, then you . . . or, wait, is it . . .
»

(via SMS misterioso)

domingo, novembro 23, 2008

Não se apanha o Carlos Vaz Marques ou a Anabela Mota Ribeiro a meter coisas destas em cima da mesa

James Marcus: Let's turn to Indignation. It seemed to me that the first fifty pages or so of the book were written in a more subdued style--

Philip Roth: More subdued than the remaining pages?

James Marcus: Yes, exactly. Well, let me put it this way. Joseph Brodsky once said: "The real history of consciousness starts with one's first lie." Your protagonist's history of consciousness seems to start with his first blowjob.

(daqui)

sábado, novembro 22, 2008

Crítico literário que se preze arranja uma gaja com dedos dos pés preênseis


«After their lovemaking, a supine McCarthy has playfully grasped a branch with her "prehensile toes" and triumphantly hoisted herself off the ground.»

(Deste artigo no New York Review of Books sobre Edmund Wilson e Mary McCarthy - talvez o texto mais titilante que li desde que Patrícia Lança deixou de escrever sobre sexo oral.)

sexta-feira, novembro 14, 2008

Process stories

"How he did it", na Newsweek (em sete capítulos)

"Battle plans", na New Yorker

"The Fall", na New Yorker

(Perdi a aposta, mas já estou melhor, obrigado)

segunda-feira, novembro 03, 2008

Tromba Rija



Aproxima-se a grande noite. 169 milhões de eleitores registados vão tentar tornar o mundo mais seguro para a Democracia e para a minha conta bancária. Estou nas condições ideais para acompanhar o evento, tendo já recuperado do trauma induzido pelas oito pessoas que simpaticamente me enviaram mails a corrigir a grafia da palavra “privilegiar” no post ali em baixo, num espectro de registos que variou entre a discreta consternação e a indisfarçável felicidade. (Trata-se de um combate perdido: é uma daquelas palavras, tal como “percussão”, “excluindo”, ou “Mississippi” que ataco sempre com temor, e com - no máximo - 50% de hipóteses de as escrever correctamente. A única coisa que me deu algum alento nestes dias negros foi a leitura da correspondência de Truman Capote. O homem não escreveu bem a palavra “disappointment” uma única vez na sua vida).
Depois de prolongada análise a um ridículo número de sondagens, decidi apostar numa partilha dos votos do colégio eleitoral a 326-212. Quer isto dizer que arrisquei um jantar cujo preço é francamente inexplicável (ou talvez não: as fotos das entradas são intrigantes) na probabilidade de Pennsylvania, Ohio, North Carolina e Nevada cairem para Obama, e Indiana, Missouri e Florida cairem para McCain. A minha previsão foi talvez demasiado impetuosa, particularmente tendo em conta que um eventual erro meu na leitura da situação na Florida (no fundo, estas eleições são sobre mim) não poderá sequer ser compensado por ganhos inesperados em outros pontos no mapa. Creio que, tal como em 2000, a Florida vai mesmo ser a chave, não tanto para o futuro do globo, como para a minha saúde - gástrica ou financeira - durante o resto do mês de Novembro. Espero que os velhos judeus não me deixem ficar mal e votem, como é habitual, na pessoa com o ar mais urgentemente aposentável.
Ainda assim, e porque não quero privar o mundo do privilégio, do privilégio, de fazer apostas com a minha pessoa, declaro-me disposto a submeter todas as sugestões interessantes que me cheguem à caixa de correio nas próximas 24 horas a atenta consideração, pelo menos até ao ponto em que a minha mãe me telefone a chorar, perguntando o que é que correu mal na educação que ela me deu.
Podem fazer o vosso mapa aqui, e enviar as propostas para aqui. Só respondo aos que mencionarem quantias específicas - quem me vier com histórias de restaurantes "muito bons" e "em conta" será imediatamente insultado.

terça-feira, outubro 28, 2008

A minha mãe obrigou-me a vir ao blogue um bocadinho, e continuo a sentir muito amor por James Wood

Que tem andado em autêntica campanha eleitoral nas últimas semanas: podcast no New York Review of Books com o Pim Fortuyn da crítica literária (Daniel Mendelsohn); podcast no Bookworm com o Vasco Granja da crítica literária (Michael Silverblatt, eu depois explico), e um cameo inesperado como detective na nova série da RTP, Liberdade 21 - (vi-o sentado num sofá, a explicar a um advogado o que era o "segredo profissional").
O repertório habitual está todo presente: elogios a Norman Rush (amén); utilização copiosa da expressão «joy, simple joy»; e piadas sobre televisão. Mas também respostas indirectas a pessoas que nem sequer estão presentes, hábito que pode levar algumas pessoas a pensarem nele como um cafageste invertebrado (não eu, que considero a estrutura óssea de Wood de uma inimpugnável solidez); um dogmatismo miópico sobre o que é o Realismo, característica assumidamente irritante que pode levar algumas pessoas a sentirem uma compulsão de atingir a douta cabeça de Wood com um rectângulo de contraplacado (não eu, esclareço, que apenas tenho a compulsão de acariciar a douta cabeça de Wood com um aglomerado de plumas); e a já clássica implicação com Pynchon, por motivos indiscutivelmente ignóbeis, posição crítica infundada que pode levar os emocionalmente voláteis a etiquetarem Wood como um pederasta cocainómano (não eu, insisto, que olho para Wood como um modelo de sã sexualidade e saudabilíssimo sistema linfático).
O nosso crítico literário preferido não suporta o nosso escritor preferido (plural majestático), e uma pessoa anda há anos a tentar reconciliar estas duas preferências numa Teoria de Campo Unificado, tarefa tão complicada como explicar a relatividade e o electromagnetismo com o mesmo conjunto de equações.
Wood raciocina como se o modelo de ficção que ele prefere fosse o único merecedor de atenção crítica séria; e escreve como se o seu naipe idiossincrático de princípios estéticos tivesse saliência universal. Obviamente, isto irrita muitas pessoas de bem (não é o meu caso; volto a realçar que acho Wood um querubim).
Estas características tornam-no uma figura tão polarizante como Leavis (com quem tem, aliás, bastante em comum), e repelem muitos potenciais admiradores (que não eu), que confundem a primeira característica com uma incapacidade congénita para reconhecer o potencial lúdico da literatura (o que é demonstravelmente falso), e a segunda com um autoritarismo congelado (o que já está mais perto da verdade, mas ele é tão fofinho que eu desculpo-lhe tudo).
O que me parece é que Wood terá sucumbido à maldição do crítico: a pressão da coerência. A partir do momento em que uma série de argumentos justíssimos contra um tipo de excesso recorrente cristaliza numa teoria estética, o crítico vê quase sempre, paradoxalmente, o seu leque de ferramentas reduzido, pois depara-se com a necessidade de deformar as suas análises futuras para que coincidam com o novo ângulo de visão. E um instrumento de curto-alcance, que surgiu como resposta a um objecto artístico específico, transforma-se agora num obstáculo permanente a juízos imparciais.
Trocado por miúdos: o crítico da New Yorker não pode correr o risco de elogiar um autor pelos mesmos motivos usados seis meses antes para criticar outro, que, por convenção jornalística ou pessoal, é encaixado na mesma "escola" ou "geração".
(Ou, à falta de melhor, aposto que o meu pai era capaz de dar porrada no pai de Wood).
Nos seus melhores ensaios negativos, Wood exalta aquilo que é específico na ficção, que nasceu com os Modernistas, e que não pode ser feito por qualquer outra forma de arte: a representação dos processos de consciência. Para Wood, o realismo psicológico é tudo. E com essa alavanca, ele atingiu uma posição previlegiada, a partir da qual conseguiu apontar astutamente algumas das deficiências de muita ficção contemporânea, cristalizada na sua apta definição de "Realismo Histérico":

«Hysterical realism is not exactly magical realism, but magical realism's next stop. It is characterised by a fear of silence. This kind of realism is a perpetual motion machine that appears to have been embarrassed into velocity. Stories and sub-stories sprout on every page. There is a pursuit of vitality at all costs.»

Este parágrafo é dolorosamente apropriado para descrever muitos dos magno-romances dos últimos 10/15 anos, cuja reputação é, e aí estou do lado de Wood, algo exagerada: White Teeth, The Corrections, Middlesex, Underworld, e quase tudo o que Rushdie escreveu depois de 1981. O problema, evidentemente, é que os mesmos "defeitos" podem ser apontados a muitas obras-primas indiscutíveis (no sentido em que uma pessoa gosta muito delas, e não admite cá discussões, ou isto dá para o torto), como Tristram Shandy, Almas Mortas, Ulysses, Gravity's Rainbow ou Infinite Jest. E em última instância, só são defeitos na medida em que afastam a literatura do ideal Chekhoviano de Wood. Ele aborda cada romance contemporâneo com a sua lupa astigmática, à procura de sinais exteriores de realismo histérico; é lógico que os vai encontrar.
O seu texto sobre Against the Day é um tour-de-force de apontar a luneta ao quarto escuro. Quando Pynchon usa algumas das convenções do realismo, e descarta outras, Wood interpreta negativamente essa triagem como um desequilíbrio, quase como uma falha moral. A estrutura da história policial, por exemplo, na qual os personagens (e o leitor) vão recebendo parcelas de informação que tentam organizar e hierarquizar, é constantemente subvertida por Pynchon, que tranca todas as portas antes da derradeira pista, obrigando-nos a retroceder os passos sem qualquer resposta. Isto porque Pynchon não vê nesta convenção a metáfora habitual do puzzle e das peças, mas algo mais parecido com as fractais de Mandelbrot: a incompreensão localizada existe para que o leitor deduza, com a mesma lógica paranóica do autor, que o todo é igualmente caótico; há padrões, mas são sempre fugazes.
A questão do "significado", que tanto frustra Wood, ecoa a célebre crítica de Leavis ao Heart of Darkness: o abuso por parte de Conrad de expressões como "unsayable", "inscrutable" ou "impenetrable". Não me parece que isto sejam meros borrões cognitivos. Pynchon não relativiza a Verdade; apenas reconhece que a nossa apreensão da Verdade é sempre relativa. A sua preocupação está, não tanto em extrair significado, mas em detectar padrões, um modelo narrativo que pode ou não merecer reprovação, mas que merece, pelo menos, ser avaliado nos seus próprios termos. O erro é potenciado quando Wood coteja três descrições de três lugares diferentes (separadas por seiscentas páginas) e aponta triunfantemente as semelhanças, como se estas fossem evidências de desleixe, ou pior, provas da imaterialidade do universo Pynchoniano. Qualquer leitor atento de Pynchon reconhece aqui o intento autorial: a magnificação apofénica das semelhanças entre locais ou eventos distantes. Isto não revela falta de arte, mas sim toda uma forma de ver o mundo, e não se pode criticá-la sem primeiro a entender.
Um dia destes eu vou a Nova Iorque explicar-lhe isto tudo, prometo.

quarta-feira, outubro 08, 2008

Escrita em Dia live

23:13 - Os participantes são apresentados. Fala-se do Nobel, mas não, estranhamente, da crise económica.

23:13 - Eduardo Pitta refere-se a "um homem tonto": o secretário Engdahl. Eu aceno, sorridente.

23:15 - O "anti-americanismo da Academia" faz a sua primeira aparição, seguido de perto pelo "conservadorismo da Academia". As coisas estão renhidas. Até agora, eu ainda não falei, mas nota-se o meu domínio profundo sobre as matérias.

23:19 - O apresentador comete uma inconfidência que acaba de lixar o meu karma orçamental para o resto do ano. Enfim.

23:23 - "O funcionamento da Academia parece uma coisa maçónica", José Mário Silva. Há apertos de mão secretos, e ritos de iniciação envolvendo sumo de uva e focas amestradas. Isto é do conhecimento público. Vamos falar de coisas sérias, senhores.

23:24 - A dicção perfeita de Eduardo Pitta está a deixar-me perturbado.

23:28 - Aproveito o intervalo musical para perguntar ao Francisco José Viegas: "Para que é que serve este botão? Este aqui, a piscar: serve para quê?"

23:31 - Não percebo os comentários depreciativos dos meus colegas de emissão. Eu até acho esta morna cabo-verdiana muito bonita.

23:35 - Tal como McCain fez com Obama no primeiro debate, Eduardo Pitta ainda não estabeleceu contacto visual comigo a noite inteira.

23:37 - Fala-se do optimismo dos premiados. Eu estou ocupado com o copo de água que a produção gentilmente me ofereceu, mas não concordo com nada disto.

23:39 - Enumera-se a malta que "nunca chegou lá". Eduardo Pitta informa-me que Naipaul é indiano. Estou com tanta sede.

23:43 - José Mário Silva diz, e muito bem, que se houvesse mais transparência, o processo perderia a graça. Ando há anos a tentar explicar esta teoria aos meus gerentes bancários, mas sem sucesso.

23:45 - Reparei agora que o meu microfone não está ligado.

23:47 - Engasguei-me num salgadinho, o que originou aquele comentário do Pitta em que ele diz que não é médico. Foi mauzinho. A propósito do Pynchon ir ou não a Estocolmo, o homem enviou um comediante (Prof. Irwin Corey) para receber o National Book Award em nome dele.

23:49 - Frank Sinatra diz que tem de nos ter todos os dias. Há um frisson silencioso no estúdio.

23:51 - Eduardo Pitta diz que Roth não tem parado de crescer nos últimos 10 anos. É aquela comida que os judeus comem.

23:53 - Francisco José Viegas evoca um cenário que eu pagava para ver: dezenas de fãs de Doris Lessing a celebrarem destruindo quartos de hotel.

23:56 - "Namibianos, sei lá, não sei". Preciso urgentemente de um copo de água. Vou só meter mais uma morna à revelia do apresentador e vou-me embora. Boa noite.

00:04 - Apanhei um táxi à saída do estúdio. Passei pela Isabel Coutinho, que ia a entrar, ligeiramente atrasada.

E para o meu próximo truque vou fazer qualquer coisa com malabares

A partir das 23h, vou comentar em directo, aqui no Pastoral Portuguesa, a minha participação no programa Escrita em Dia, na Antena 1.

segunda-feira, outubro 06, 2008

Notícia lida apenas 22 minutos depois do golo do Wesley

«New Thomas Pynchon novel confirmed

This morning, Carolyn Kellogg reported on web rumors about a new novel by Thomas Pynchon. Now, Penguin Press, Pynchon's publisher, confirms that there is, indeed, a new novel by the reclusive author, to be published in August 2009.

As for the other rumored details -- that it's a noir novel of about 400 pages, set in the world of 1960s psychedelia -- Penguin is remaining silent ... for the time being.»

(LA Times)

quinta-feira, outubro 02, 2008

Os gajos do Inimigo Público agora estagiam no caderno principal

«A Federação Nacional dos Invisuais dos EUA está a preparar um protesto contra o filme “Blindness”, que estreia esta semana nos Estados Unidos. (...) o filme está a causar polémica entre os invisuais que se queixam da imagem que é passada no filme sobre os cegos.»

(Público)

quarta-feira, outubro 01, 2008

A economia mundial desaba enquanto eu meto dez libras no Real Madrid

Nunca tive uma conta a prazo, nunca tive um cartão de crédito, nunca pedi um empréstimo bancário. Toda a minha gestão financeira pessoal desde 2001 tem sido orientada para a William Hill, e é com prazer que anuncio que nenhum dos seus executivos se matou nos últimos dias, que os lucros continuam a aumentar, e que os fundos na minha conta online cresceram (com a ajuda de Casillas) 150% desde ontem.
As últimas semanas validaram de tal maneira o meu estilo de vida que já me posso dar ao luxo de aparecer na próxima reunião de família.

terça-feira, setembro 30, 2008

A Dieta Rochemback

Depois de avaliar a minha disponibilidade - técnica e emocional - para a não-actualização de blogues, decidi que estão reunidas todas as condições para começar a não-actualizar dois blogues em vez de um. A não-cisão temática daqui não-resultante não terá repercussões catastróficas que só o tempo não permitirá enquadrar, mas suspeito que, a partir de agora, A Dieta Rochemback passe a não albergar as minhas não-actualizações desportivas, e a Pastoral Portuguesa as minhas não-actualizações genéricas. Se as coisas correrem bem, é inteiramente possível que um terceiro blogue não-actualizável seja fundado para não hospedar as minhas aguarelas, poesia naif e listas de supermercado.

terça-feira, setembro 23, 2008

Estes cômplos

(THUNDERSTORM1, 1 ponto , 18:42 Segunda-feira, 22 de Set de 2008)

alinhar nestes cômplos a pouco mais de 5 dias do derbi.
Manifesto desde já o meu repúdio por esta campanha desestabilizatória.
Amanhã de manhã vou cortar a assinatura do expresso..........a não ser que se retratem

(Comentário do senhor THUNDERSTORM1 a este artigo do Expresso)

Odisseia na terra

(odisseia na terra, 1 ponto , 13:22 Segunda-feira, 22 de Set de 2008)

ESTA PERGUNTA É FEITA PARA QUE OS ADEPTOS DO CLUBE DO PASSARO POSSAM VERTER AS SUAS JÁ GASTAS OPINIÕES.

ALGUM CASPOSO DO FCP NÃO SABERÁ RESISTIR Á PERGUNTA.

SOLICITO A TODOS OS LEÕES QUE NÃO ADIRAM A ESTE EXERCICIO INTELECTUALMENTE GROSSEIRO E BASTANTE ESTÉRIL.

A CÔR É VERDE E O LEÃO ESTÁ IMPARAVEL. VIVA O SPORTING!

(Comentário do senhor "odisseia na terra" a este artigo do Expresso)

quinta-feira, setembro 18, 2008

O Grande Colisionador de Hadrões na óptica do utilizador


Primeiro vieram as Pessoas da Ciência, transportando a Ciência em baldes, e depositando-a debaixo da Suiça. A Ciência adquiriu a forma de um túnel circular, com 27 kms de perímetro. O túnel serve para acelerar partículas até estas atingirem sete TeV. Isto é mais difícil do que parece, dada a natureza obstinada das partículas, e a sua conhecida propensão para a indolência.
Uma equipa de Pessoas da Ciência incita grupos seleccionados de protões a entrarem no Grande Colisionador Hadrónico. Os protões são então neutralizados com poesia francesa e velhas músicas de Dean Martin. No outro lado do túnel, uma segunda equipa de Pessoas de Ciência acena com chocolates, rebuçados e confeitaria avulsa. Espera-se que os protões corram nessa direcção a uma velocidade de 99,9998% da velocidade da luz (unidade de medida conhecida em física de partículas como “David Suazo”). Os primeiros protões a completar o percurso serão recompensados com os melhores chocolates e apurados para a fase seguinte; os mais lentos receberão um certificado de participação e serão colocados a rodar num colisionador hadrónico com menos exigências competitivas.
A segunda fase envolve colocar os protões num anel de colisão, e fazê-los entrar em choque uns com os outros. Para este efeito, a reputação da mãe de um dos protões será questionada, através de rumor e insinuação, pelas Pessoas da Ciência. Espera-se que a confusão consequente provoque uma tumulto de recriminações e lavagem de roupa suja que ajude a explicar a origem da massa das partículas elementares.
Uma destas partículas é conhecida como “Bosão de Higgs”. A Ciência anda há décadas a perseguir o “Bosão de Higgs”. O “Bosão de Higgs” permanece irredutível na sua reclusividade, indiferente a ramos de flores, caixas de After Eight, e até àqueles postais que tocam o «Für Elise» quando são abertos. Os rumores apontam para que o “Bosão de Higgs” esteja escondido num Holiday Inn em Palma de Maiorca, com receio de ser chantageado pelo marido da Ciência.
O Grande Colisionador de Hadrões gerou alguns receios entre Pessoas da Ciência. Temia-se que fosse criado um buraco negro capaz de engolir o Universo. Na verdade, o pior que poderia acontecer seria uma reacção em cadeia através da qual toda a matéria fosse transformada em “matéria estranha”, um tipo de matéria apática e desinteressada, incapaz de participação cívica na sociedade, desejando nada mais do que ficar em casa o dia inteiro a ver televisão. As Pessoas da Ciência explicam que, mesmo que um buraco negro fosse produzido pelo Grande Colisionador de Hadrões, ele seria inofensivo - um buraco negro meio flâneur, passeando pelo planeta num bildungsroman sub-atómico, ganhando alguma espessura psicológica, mas desprovido de massa, e escrevinhando notas melancólicas nos bancos de jardim de Genebra, pelo que podemos todos dormir descansados.

terça-feira, setembro 16, 2008

Já tenho idade para não me irritar com estas coisas

Em 2005, David Foster Wallace escreveu um artigo para a Atlantic sobre apresentadores de talk-radio. Um deles, John Ziegler, decidiu partilhar com o mundo a sua sensível e ponderada opinião sobre o suicídio. (Não procurem a gramática nos excertos seguintes; ela não foi convidada):

«Wallace spent at least two months following my every move before and during the broadcast of my show. At the time, I found him to be more than a bit eccentric, but certainly nice enough not to be bothered too much by his presence. Most interestingly, I was not at all impressed by him in any significant way. The fact that I was completely ignorant of “who” he was, I think actually gives me great credibility in this evaluation and also may give me some insight into what eventually drove Wallace to kill himself. You see, I was in no way prejudiced by his reputation as a “genius” and therefore was not blinded to the rather obvious reality that there was very little “there,” there.»
(...)
«Being dubbed a “genius” at a young age (at least by the standards of the literary world) must have been a rather daunting burden for Wallace, especially when he probably knew deep down that he didn’t have the goods to back up those kind of elevated expectations.»
(...)
«I was a bit miffed at some of the inaccuracies and misrepresentations as well as the lack of any update to the storyline in the piece, but as a conservative you pretty much expect that from someone in academia who is clearly a liberal (after all, everyone in the elite literary world knows that conservatives are not smart enough to be worthy of their ranks and would certainly never attain the lofty level of “genius”).»
(...)
«I know that it is considered bad form, or worse, to speak ill of the newly dead, but to me all bets are off when one commits suicide, especially when that person is a husband and a father (speaking of bad form, when did the news media change their rule about not reporting extensively on the suicides of marginally famous people?). I strongly believe that a large ingredient of the toxic mix that ended up forming Wallace’s self-inflicted poison was the pressure he felt of living up to the hype surrounding his writing and the guilt he must have felt for not really having the true talent to back up his formidable reputation.
While I have absolutely no evidence to backup this assertion, I also think it is quite possible that he knew that killing himself in his “prime” and before he had been totally exposed as being a mere mortal in the literary realm would cement his status as a “genius” forever. After all, don’t tortured artists often kill themselves? Heck, based on the glowing and reverential reporting on his suicide, in some circles ending his on life may actually be seen as a badge of honor.»
(...)
«I honestly do believe that, based on my rather distinctive experience with him, that his suicide was about far more than just an illness and should in no way be a cause for praise.
David Foster Wallace was an overrated writer in life. His suicide should not be used to elevate him even further beyond what he deserved, in death. »