Venho dizer isto com um atraso injustificável (e já depois desta pessoa que tem o mérito de ter tentado abrir os olhos da nação ainda antes de mim), mas cá vai: o Lourenço Viegas é a pessoa que mais gosto dá ler em toda a imprensa nacional. Trabalhando sozinho, o homem elevou a compra da Time Out a gesto heterossexualmente válido.
quinta-feira, fevereiro 19, 2009
Lourenço Viegas
Venho dizer isto com um atraso injustificável (e já depois desta pessoa que tem o mérito de ter tentado abrir os olhos da nação ainda antes de mim), mas cá vai: o Lourenço Viegas é a pessoa que mais gosto dá ler em toda a imprensa nacional. Trabalhando sozinho, o homem elevou a compra da Time Out a gesto heterossexualmente válido.
segunda-feira, fevereiro 16, 2009
Algumas citações da Biografia Não Autorizada de Tom Cruise (que os meus patrões me obrigaram a ler, no que assumo ter sido uma praxe atrasada)

«Observava os padres e dizia, oiçam, é isto que eu vou fazer»;
«Não posso ir. Eles vão comer-me vivo»;
«O fracasso é um companheiro silencioso e tristonho»;
«Quando comecei a filmar, tive de comprar um dicionário»;
«Paul Newman, um ícone da tela caracterizado por uns penetrantes olhos azuis e pelo à-vontade»;
«Toda a Humanidade rastejará aos meus pés sem saber porquê»;
«Sexo, sexo e nada mais do que sexo»;
«Flo suicidou-se em 1985 com três tiros de espingarda»;
«Os homens que são obcecados por tecidos denotam uma natureza feminina»;
«Ao que parece, ninguém gosta de estar só»;
«Pode passar-se horas a falar com o polegar, o cotovelo ou o olho do cu, mas nunca se será um semideus por isso»;
«A princesa preferia homens altos»;
«Em seguida o churrasco incendiou-se, Tom atirou-o borda fora»;
«Várias vezes ao dia, Tom pegava no seu electropsicómetro e prescrutava o corpo em busca de espíritos maléficos»;
«Na verdade, é difícil enviar ao domicílio tigres a sério»;
«Quando anunciou que tencionava comer a placenta do bebé, ninguém se surpreendeu por aí além»
«Ela dava de mamar à filha e ele fazia-a arrotar»
«A Alemanha é um território altamente desejável»
quarta-feira, fevereiro 11, 2009
Vou agora proceder à efectuação de mais um link
sexta-feira, fevereiro 06, 2009
Substituir o João Carlos Espada pelo Marcos Perestrelo não lembra ao diabo
"I Will Destroy Luxembourg and Join Arsenal Says Bugduv"
Teaser:
«Whoever engineered the prank left behind a calling card in the form of the fictional Moldovan newspaper Diario Mo Thon, described in one of the concocted AP stories as "the top sports daily in Balti." Diario means diary in several Romance languages, and mo thón is Irish for my ass—just the kind of nested, polyglot ass pun that every good imaginary-Moldovan prank requires.
It got better. After SoccerLens blogger McDonnell broke the story, Bugduv fans in Ireland noticed that the player's name was a phonetic twin for m'asal beag dubh, which is Irish for "my little black donkey." A second Irish ass pun, sure. But "My Little Black Donkey" is also the name of an Irish-language short story by early 20th-century writer Pádraic Ó Conaire about a man tricked into overpaying for a lazy donkey based on some vivid village gossip.»
quinta-feira, janeiro 29, 2009
segunda-feira, janeiro 26, 2009
A verdade é que não tenho sono nenhum

Vinte anos depois, continua a não ser arquivado nas secções de "Humor". A quantidade de gente que continua a levar este monte de entulho a sério é que nunca deixa de me surpreender. O Ibsen batia no cão, o Marx tinha bolhas na pilinha, o Edmund Wilson gostava de levar tau-tau - nunca houve reunião de costureiras com uma acta tão sofisticada.
Tentar invalidar um sistema de pensamento através da higiene pessoal não é uma metodologia particularmente revolucionária: a minha mãe anda a tentar a mesma coisa desde 1987. Mas não resulta, não resulta. Qualquer produção intelectual está enraizada numa personalidade, mas a correlação nunca é directa. Algumas abordagens conseguem ser interessantes mesmo quando são inadequadas; mas Paul Johnson tem o dom de induzir o desespero numa pessoa mesmo quando tem razão. O capítulo sobre Marx, valha-me Deus. O Aron e o Popper conseguiram demolir criticamente o marxismo sem precisarem de contar sabonetes. Há casos específicos em que a vida invalida as ideias, mas esses casos são raros. O facto de uma conduta pessoal não ser coerente com um conjunto de princípios não invalida os princípios - quando muito, invalida a conduta pessoal.
Paul Johnson critica a deficiente compreensão da História partilhada por Marx e Tolstoi, mas a sua própria compreensão é pouco mais do que uma caricatura sem bonecos. Para já, é possível ler-se as doze mil e setecentas páginas de Intellectuals sem perceber o que é um "intellectual". Segundo os atrapalhados parâmetros do autor, um intelectual é alguém que tenta usar a Razão para construir uma nova ordem social. A sério? Hemingway? Ibsen? Edmund Wilson? James Baldwin? A sério? E o Elton John? E o Eric Cantona? E o Carlos Daniel? Na tentativa de desmantelar bezerros de ouro, o Paul Johnson artilhou um de vapor. E ali está ele, entretido, a mandar cócó aos fantasmas.
Equadogue
quinta-feira, janeiro 22, 2009
Coração cor-de-rosa das Trevas
Nada, em nenhum dos livros que li até agora, me preparou para lidar com isto. Nem no Hazlitt, que é, a partir desta semana, o melhor escritor do mundo de todos os tempos. A passagem que se segue é de um texto chamado «Character of Mr. Burke», que foi tão violentamente sublinhado no meu exemplar que a integridade do próprio livro está agora em perigo. Resta-me aguardar que a tendência suicida da libra continue, e que daqui a pouco tempo a Amazon me ofereça dinheiro para eu encomendar um exemplar de substituição:
«He applied the habit of reflection, which he had borrowed from his metaphysical studies, but which was not competent to the discovery of any elementary truth in that department, with great facility and success, to the mixed mass of human affairs. He knew more of the political machine than a recluse philosopher; and he speculated more profoundly on its principles and general results than a mere politician. He saw a number of fine distinctions and changeable aspects of things, the good mixed with the ill, and the ill mixed with the good; and with a sceptical indifference, in which the exercise of his own ingenuity was obviously the governing principle, suggested various topics to qualify or assist the judgment of others. But for this very reason, he was little calculated to become a leader or a partizan in any important practical measure. For the habit of his mind would lead him to find out a reason for or against any thing: and it is not on speculative refinements, (which belong to every side of a question), but on a just estimate of the aggregate mass and extended combinations of objections and advantages, that we ought to decide or act. Burke had the power of throwing true or false weights into the scales of political casuistry, but not firmness of mind (or, shall we say, honesty enough) to hold the balance. When he took a side, his vanity or his spleen more frequently gave the casting vote than his judgment; and the fieriness of his zeal was in exact proportion to the levity of his understanding, and the want of conscious sincerity.»
quarta-feira, janeiro 21, 2009
Mandem-me correntes, sff. Estou mais ou menos de férias
Pede-se uma foto:

e uma banda, que decidi interpretar livremente como autorização para escolher as obras completas de Philip K. Dick (se percebi bem, agora responde-se ao questionário com títulos de canções da banda, que decidi interpretar livremente como etc etc. Não tenho rigorosamente nada que fazer neste momento.)
1. Homem ou mulher?
The Variable Man
2. Descreve-te.
The Divine Invasion
3. O que pensam de mim?
a) 75% das pessoas que me enviam spam: We Can Build You
b) a minha mãe: The Father-Thing
c) a população feminina em geral: Vulcan's Hammer
4. Como descreves o teu último relacionamento?
Flow My Tears, The Policeman Said
5. Descreve o estado actual da tua relação.
Mary and the Giant
6. Onde querias estar agora?
Puttering About in a Small Land
7. O que pensas do amor?
The Cosmic Puppets
8. Como é a tua vida?
The Crack in Space
9. O que pedirias se pudesses ter só um desejo?
We Can Remember It For You Wholesale
10. Escreve uma frase sábia:
Gather Yourselves Together
11. Descreve o 4-4-2 em losango com o Miguel Veloso na posição 6 e o Rochemback na posição 7:
A Maze of Death
12. Descreve as circunstâncias mais adequadas aos talentos específicos do Miguel Veloso e do Rochemback:
Counter-Clock World
13. Qual seria, na tua humilde opinião, um título muito mais adequado para as memórias de Paul Auster do que Hand to Mouth:
Confessions of a Crap Artist
14. Partindo do princípio de que ela existe, qual seria a audiência com mais probabilidades de tirar algum proveito intelectual do acompanhamento de uma conversa entre o Filipe Moura e o Carlos Vidal:
Clans of the Alphane Moon
15. Qual a solução que, nas alturas mais difíceis, te parece mais adequada para resolver o problema com que te deparas sempre que a Dona Feliciana, a tua vizinha surda, se põe a ver o Prós & Contras com o volume no máximo:
The Zap Gun
16. E o Carlos Daniel? Não tens nada a dizer sobre o Carlos Daniel?
Eye in the Sky
17. Que engenho é que gostarias de aplicar à pessoa do Carlos Daniel?
The Preserving Machine
Passo esta corrente, de acordo com os trâmites, ao Tiago Galvão e também ao Sérgio Gouveia, duas pessoas completamente diferentes.
sábado, janeiro 17, 2009
Sem olhos em casa

Este título era tão previsível que, do alto da minha intrigante conta à ordem no BPI, apostei na sua aparição num prazo de 48 horas depois de a primeira bomba ter caído. Falhei na data e no sítio (por pouco mais que um oceano), o que não prova rigorosamente nada, nem sequer que a perpétua busca de ressonância alusiva em títulos alusivamente ressonantes conduz quase sempre à previsibilidade.
Sem olhos em Gaza, de qualquer forma, é uma descrição que não parece despropositada ("Por Quem os Sinos Dobram", ou "A Angústia do Guarda-Redes no Momento do Penalty" seriam opções manifestamente piores). Ter uma "opinião" sobre o que se passa hoje em Gaza é o equivalente intelectual a brincar ao quarto escuro com duas primas gordas. Eu próprio, alguém cuja opinião tem sido ansiosamente aguardada, ainda não encontrei qualquer indício de possuir sequer as faculdades necessárias para emitir uma daquelas "opiniões" que se pode ter sobre "o assunto". Pela razão óbvia: tenho um preconceito inultrapassável em relação a Israel - um preconceito que, para agravar a coisa, tem uma forte componente racial. O preconceito em questão, por puro acaso (e é mesmo um acaso: um resultado de acidentes biográficos menores e de um sortido de motivos aflitivamente superficiais) é um preconceito positivo, mas, para o caso, isso não faz a menor diferença. O meu filo-semitismo (e devia haver uma maneira melhor de uma pessoa dizer que curte Judeus e lá as coisas deles) faz tanto sentido como o anti-semitismo de outro maluquinho qualquer. Como qualquer preconceito, é cego, monolítico, irracional e completamente estanque. Não permite gradações nem encoraja nuances. Terá uma inevitável e bastante limitada utilidade como ferramenta de configuração (cf. enfim, Burke, ou a dezena de chatos que o citam), mas é também uma forma muito boa de afunilar as respostas emocionais, e diminuir drasticamente as probabilidades de conseguirmos identificar a nossa própria imbecilidade.
Se a minha posição instintiva e imediata é acreditar que o IDF tem, não apenas o direito, mas o dever de bombardear todos os metros quadrados de planeta que bem quiser e entender, inclusivamente toda a área entre a farmácia velha de Fernão Ferro e ali o começo do pinhal, terei alguma justificação em colocar a hipótese de não estar realmente a pensar, mas sim de estar a sofrer um espasmo do neocórtex. Posso chegar a uma situação em que já nem terei a certeza de que as respostas continuam a obedecer ao mesmo cego preconceito positivo ou se são apenas já reacções tóxicas (e estive quase a falar do Benfica agora) às respostas motivadas pelos preconceitos opostos. Estes têm sido os melhores e mais consistentes motivos na história da humanidade para ficar calado, mas depois uma pessoa tem um blogue. É tudo muito complicado.
Alguém, digamos, extraordinário, chamou-me recentemente à atenção para uma feliz e acidental correspondência entre um dos greatest hits retóricos do Clive James (desenvolvido, por exemplo, em 3 ou 4 textos deste livro) e a sua própria forma de encarar o conhecimento. O argumento refere-se ao tipo de comportamento que podemos realisticamente esperar de indivíduos confrontados com o totalitarismo. A resposta lógica é que não é justo exigir a todos que cancelem o seu instinto para a auto-preservação em nome de de uma ética superlativa. Os casos excepcionais em que isso acontece são casos de heroísmo moral, um fenómeno que deve ser exaltado, mas não elevado a bitola. Clive James predicou uma das mais interessantes carreiras críticas do século XX numa versão intelectual desta prescrição. Não exigiu a si próprio o heroísmo da omnisciência, mas soube consolidar, com o zelo paciente e obsessivo do auto-didacta, uma base relativamente estável, assente nos requisitos mínimos elevados à máxima potência: a do senso-comum. A partir dessa plataforma, é possível efectuar incursões esporádicas para o desconhecido, sem grandes riscos retóricos no caso de a coisa correr mal.
quarta-feira, janeiro 07, 2009
Enquanto as pessoas andavam entretidas a fazer balanços do ano...
«O João Miranda, blogger da minha particular estima, tem que perceber uma coisa: a minha opinião é sempre a da última coisa que li ou vi. Naturalmente que depois de ouvir o que o João Miranda me propõe vou absorver essa visão das coisas e faze-la como minha. Até que leio ou ouço a opinião seguinte, altura em que me transfiro para lá de corpo, alma e convicção. Notar que não há evolução de uma opinião para outra: há substituição pura e simples. No fundo, a minha pessoa é um conjunto de opiniões paralelas que se revezam com o tempo, e que não se comunicam. O trabalho e eventual sucesso de me educar para uma determinada causa tem mais a ver com o timing que com a inteligência da construção cognitiva que me é apresentada. Mas, em todo o caso, apreciou-se o esforço. Vou expor-me à proposta do João Miranda lá para o fim da tarde, altura em que escreverei um post a dizer que o João Miranda tem toda a razão.»
sábado, dezembro 27, 2008
Um singelo balanço
quinta-feira, dezembro 25, 2008
Um Natal economicamente viável para todos
a) o Alexandre tem várias vezes razão ao longo deste post; aqueles parênteses sobre o câmbio só pecam por defeito. A queda da libra proporciona um dos gráficos mais deprimentes da história económica recente (creio que é evidente que não sei do que estou a falar), mas para o consumidor que deseje vir às livrarias inglesas gastar dinheiro português, a situação não poderia ser melhor. Aliás: o valor da libra desceu mais um bocadinho desde que comecei o post. Aliás: estou a escrever este post à luz de uma pequena fogueira ateada com notas de dez libras (tenho usado as notas de vinte para papel de embrulho);
b) por uma questão de enfim, não vou fazer listas, mas, uma vez que não vi mais do que sete filmes estreados este ano, parece-me pertinente afirmar que o melhor deles foi Du levande (Roy Andersson), do qual podem ver aqui um clip (o truque da toalha é uma tradição familiar a que procuro dar continuidade).
c) por motivos que não vamos aqui enfim, descobri uma coisa assombrosa: o tradutor automático do google transforma "João Miranda" em "John Coltrane".
d) das melhores coisas que li este ano, em qualquer sítio e em qualquer formato: o artigo na Economist sobre o farol de Fastnet.
e) a segunda melhor prenda deste Natal (desde os 15 anos que ninguém me oferecia brinquedos; estou muito feliz):

segunda-feira, dezembro 15, 2008
Acabou por ser um bom fim-de-semana, só foi pena ter-me trancado a mim próprio fora de casa

Vou "linkar" um "blogue", como dizem os jovens
Ah Lobo Antunes, és um cordeirinho
Ford: I've heard some things. A terrible review in The Sunday New York Times.
Birnbaum: Are you going to go out and shoot it? Is that a true story that your wife took a pistol and shot a bad review Alice Hoffman gave you?
Ford: Yes, it is a true story. Shot her book. Seemed so good to do. We had another copy so I went out and shot it too. I don't read my reviews anymore.
(De uma entrevista antiga a Richard Ford, que é, depois da aposentação de Norman Mailer, claramente o escritor mais chanfrado em actividade)
quarta-feira, dezembro 03, 2008
terça-feira, novembro 25, 2008
Chama-se «Inherent Vice» e parece que é um lively yarn num unaccustomed genre

«It’s been awhile since Doc Sportello has seen his ex-girlfriend. Suddenly out of nowhere she shows up with a story about a plot to kidnap a billionaire land developer whom she just happens to be in love with. Easy for her to say. It’s the tail end of the psychedelic sixties in L.A., and Doc knows that “love” is another of those words going around at the moment, like “trip” or “groovy,” except that this one usually leads to trouble. Despite which he soon finds himself drawn into a bizarre tangle of motives and passions whose cast of characters includes surfers, hustlers, dopers and rockers, a murderous loan shark, a tenor sax player working undercover, an ex-con with a swastika tattoo and a fondness for Ethel Merman, and a mysterious entity known as the Golden Fang, which may only be a tax dodge set up by some dentists.
In this lively yarn, Thomas Pynchon, working in an unaccustomed genre, provides a classic illustration of the principle that if you can remember the sixties, you weren’t there . . . or . . . if you were there, then you . . . or, wait, is it . . . »
(via SMS misterioso)
domingo, novembro 23, 2008
Não se apanha o Carlos Vaz Marques ou a Anabela Mota Ribeiro a meter coisas destas em cima da mesa
Philip Roth: More subdued than the remaining pages?
James Marcus: Yes, exactly. Well, let me put it this way. Joseph Brodsky once said: "The real history of consciousness starts with one's first lie." Your protagonist's history of consciousness seems to start with his first blowjob.
(daqui)
sábado, novembro 22, 2008
Crítico literário que se preze arranja uma gaja com dedos dos pés preênseis

«After their lovemaking, a supine McCarthy has playfully grasped a branch with her "prehensile toes" and triumphantly hoisted herself off the ground.»
(Deste artigo no New York Review of Books sobre Edmund Wilson e Mary McCarthy - talvez o texto mais titilante que li desde que Patrícia Lança deixou de escrever sobre sexo oral.)
sexta-feira, novembro 14, 2008
Process stories
"Battle plans", na New Yorker
"The Fall", na New Yorker
(Perdi a aposta, mas já estou melhor, obrigado)
segunda-feira, novembro 03, 2008
Tromba Rija
Aproxima-se a grande noite. 169 milhões de eleitores registados vão tentar tornar o mundo mais seguro para a Democracia e para a minha conta bancária. Estou nas condições ideais para acompanhar o evento, tendo já recuperado do trauma induzido pelas oito pessoas que simpaticamente me enviaram mails a corrigir a grafia da palavra “privilegiar” no post ali em baixo, num espectro de registos que variou entre a discreta consternação e a indisfarçável felicidade. (Trata-se de um combate perdido: é uma daquelas palavras, tal como “percussão”, “excluindo”, ou “Mississippi” que ataco sempre com temor, e com - no máximo - 50% de hipóteses de as escrever correctamente. A única coisa que me deu algum alento nestes dias negros foi a leitura da correspondência de Truman Capote. O homem não escreveu bem a palavra “disappointment” uma única vez na sua vida).
Depois de prolongada análise a um ridículo número de sondagens, decidi apostar numa partilha dos votos do colégio eleitoral a 326-212. Quer isto dizer que arrisquei um jantar cujo preço é francamente inexplicável (ou talvez não: as fotos das entradas são intrigantes) na probabilidade de Pennsylvania, Ohio, North Carolina e Nevada cairem para Obama, e Indiana, Missouri e Florida cairem para McCain. A minha previsão foi talvez demasiado impetuosa, particularmente tendo em conta que um eventual erro meu na leitura da situação na Florida (no fundo, estas eleições são sobre mim) não poderá sequer ser compensado por ganhos inesperados em outros pontos no mapa. Creio que, tal como em 2000, a Florida vai mesmo ser a chave, não tanto para o futuro do globo, como para a minha saúde - gástrica ou financeira - durante o resto do mês de Novembro. Espero que os velhos judeus não me deixem ficar mal e votem, como é habitual, na pessoa com o ar mais urgentemente aposentável.
Ainda assim, e porque não quero privar o mundo do privilégio, do privilégio, de fazer apostas com a minha pessoa, declaro-me disposto a submeter todas as sugestões interessantes que me cheguem à caixa de correio nas próximas 24 horas a atenta consideração, pelo menos até ao ponto em que a minha mãe me telefone a chorar, perguntando o que é que correu mal na educação que ela me deu.
Podem fazer o vosso mapa aqui, e enviar as propostas para aqui. Só respondo aos que mencionarem quantias específicas - quem me vier com histórias de restaurantes "muito bons" e "em conta" será imediatamente insultado.
terça-feira, outubro 28, 2008
A minha mãe obrigou-me a vir ao blogue um bocadinho, e continuo a sentir muito amor por James Wood
O repertório habitual está todo presente: elogios a Norman Rush (amén); utilização copiosa da expressão «joy, simple joy»; e piadas sobre televisão. Mas também respostas indirectas a pessoas que nem sequer estão presentes, hábito que pode levar algumas pessoas a pensarem nele como um cafageste invertebrado (não eu, que considero a estrutura óssea de Wood de uma inimpugnável solidez); um dogmatismo miópico sobre o que é o Realismo, característica assumidamente irritante que pode levar algumas pessoas a sentirem uma compulsão de atingir a douta cabeça de Wood com um rectângulo de contraplacado (não eu, esclareço, que apenas tenho a compulsão de acariciar a douta cabeça de Wood com um aglomerado de plumas); e a já clássica implicação com Pynchon, por motivos indiscutivelmente ignóbeis, posição crítica infundada que pode levar os emocionalmente voláteis a etiquetarem Wood como um pederasta cocainómano (não eu, insisto, que olho para Wood como um modelo de sã sexualidade e saudabilíssimo sistema linfático).
O nosso crítico literário preferido não suporta o nosso escritor preferido (plural majestático), e uma pessoa anda há anos a tentar reconciliar estas duas preferências numa Teoria de Campo Unificado, tarefa tão complicada como explicar a relatividade e o electromagnetismo com o mesmo conjunto de equações.
Wood raciocina como se o modelo de ficção que ele prefere fosse o único merecedor de atenção crítica séria; e escreve como se o seu naipe idiossincrático de princípios estéticos tivesse saliência universal. Obviamente, isto irrita muitas pessoas de bem (não é o meu caso; volto a realçar que acho Wood um querubim).
Estas características tornam-no uma figura tão polarizante como Leavis (com quem tem, aliás, bastante em comum), e repelem muitos potenciais admiradores (que não eu), que confundem a primeira característica com uma incapacidade congénita para reconhecer o potencial lúdico da literatura (o que é demonstravelmente falso), e a segunda com um autoritarismo congelado (o que já está mais perto da verdade, mas ele é tão fofinho que eu desculpo-lhe tudo).
O que me parece é que Wood terá sucumbido à maldição do crítico: a pressão da coerência. A partir do momento em que uma série de argumentos justíssimos contra um tipo de excesso recorrente cristaliza numa teoria estética, o crítico vê quase sempre, paradoxalmente, o seu leque de ferramentas reduzido, pois depara-se com a necessidade de deformar as suas análises futuras para que coincidam com o novo ângulo de visão. E um instrumento de curto-alcance, que surgiu como resposta a um objecto artístico específico, transforma-se agora num obstáculo permanente a juízos imparciais.
Trocado por miúdos: o crítico da New Yorker não pode correr o risco de elogiar um autor pelos mesmos motivos usados seis meses antes para criticar outro, que, por convenção jornalística ou pessoal, é encaixado na mesma "escola" ou "geração".
(Ou, à falta de melhor, aposto que o meu pai era capaz de dar porrada no pai de Wood).
Nos seus melhores ensaios negativos, Wood exalta aquilo que é específico na ficção, que nasceu com os Modernistas, e que não pode ser feito por qualquer outra forma de arte: a representação dos processos de consciência. Para Wood, o realismo psicológico é tudo. E com essa alavanca, ele atingiu uma posição previlegiada, a partir da qual conseguiu apontar astutamente algumas das deficiências de muita ficção contemporânea, cristalizada na sua apta definição de "Realismo Histérico":
«Hysterical realism is not exactly magical realism, but magical realism's next stop. It is characterised by a fear of silence. This kind of realism is a perpetual motion machine that appears to have been embarrassed into velocity. Stories and sub-stories sprout on every page. There is a pursuit of vitality at all costs.»
Este parágrafo é dolorosamente apropriado para descrever muitos dos magno-romances dos últimos 10/15 anos, cuja reputação é, e aí estou do lado de Wood, algo exagerada: White Teeth, The Corrections, Middlesex, Underworld, e quase tudo o que Rushdie escreveu depois de 1981. O problema, evidentemente, é que os mesmos "defeitos" podem ser apontados a muitas obras-primas indiscutíveis (no sentido em que uma pessoa gosta muito delas, e não admite cá discussões, ou isto dá para o torto), como Tristram Shandy, Almas Mortas, Ulysses, Gravity's Rainbow ou Infinite Jest. E em última instância, só são defeitos na medida em que afastam a literatura do ideal Chekhoviano de Wood. Ele aborda cada romance contemporâneo com a sua lupa astigmática, à procura de sinais exteriores de realismo histérico; é lógico que os vai encontrar.
O seu texto sobre Against the Day é um tour-de-force de apontar a luneta ao quarto escuro. Quando Pynchon usa algumas das convenções do realismo, e descarta outras, Wood interpreta negativamente essa triagem como um desequilíbrio, quase como uma falha moral. A estrutura da história policial, por exemplo, na qual os personagens (e o leitor) vão recebendo parcelas de informação que tentam organizar e hierarquizar, é constantemente subvertida por Pynchon, que tranca todas as portas antes da derradeira pista, obrigando-nos a retroceder os passos sem qualquer resposta. Isto porque Pynchon não vê nesta convenção a metáfora habitual do puzzle e das peças, mas algo mais parecido com as fractais de Mandelbrot: a incompreensão localizada existe para que o leitor deduza, com a mesma lógica paranóica do autor, que o todo é igualmente caótico; há padrões, mas são sempre fugazes.
A questão do "significado", que tanto frustra Wood, ecoa a célebre crítica de Leavis ao Heart of Darkness: o abuso por parte de Conrad de expressões como "unsayable", "inscrutable" ou "impenetrable". Não me parece que isto sejam meros borrões cognitivos. Pynchon não relativiza a Verdade; apenas reconhece que a nossa apreensão da Verdade é sempre relativa. A sua preocupação está, não tanto em extrair significado, mas em detectar padrões, um modelo narrativo que pode ou não merecer reprovação, mas que merece, pelo menos, ser avaliado nos seus próprios termos. O erro é potenciado quando Wood coteja três descrições de três lugares diferentes (separadas por seiscentas páginas) e aponta triunfantemente as semelhanças, como se estas fossem evidências de desleixe, ou pior, provas da imaterialidade do universo Pynchoniano. Qualquer leitor atento de Pynchon reconhece aqui o intento autorial: a magnificação apofénica das semelhanças entre locais ou eventos distantes. Isto não revela falta de arte, mas sim toda uma forma de ver o mundo, e não se pode criticá-la sem primeiro a entender.
quarta-feira, outubro 08, 2008
Escrita em Dia live
23:13 - Eduardo Pitta refere-se a "um homem tonto": o secretário Engdahl. Eu aceno, sorridente.
23:15 - O "anti-americanismo da Academia" faz a sua primeira aparição, seguido de perto pelo "conservadorismo da Academia". As coisas estão renhidas. Até agora, eu ainda não falei, mas nota-se o meu domínio profundo sobre as matérias.
23:19 - O apresentador comete uma inconfidência que acaba de lixar o meu karma orçamental para o resto do ano. Enfim.
23:23 - "O funcionamento da Academia parece uma coisa maçónica", José Mário Silva. Há apertos de mão secretos, e ritos de iniciação envolvendo sumo de uva e focas amestradas. Isto é do conhecimento público. Vamos falar de coisas sérias, senhores.
23:24 - A dicção perfeita de Eduardo Pitta está a deixar-me perturbado.
23:28 - Aproveito o intervalo musical para perguntar ao Francisco José Viegas: "Para que é que serve este botão? Este aqui, a piscar: serve para quê?"
23:31 - Não percebo os comentários depreciativos dos meus colegas de emissão. Eu até acho esta morna cabo-verdiana muito bonita.
23:35 - Tal como McCain fez com Obama no primeiro debate, Eduardo Pitta ainda não estabeleceu contacto visual comigo a noite inteira.
23:37 - Fala-se do optimismo dos premiados. Eu estou ocupado com o copo de água que a produção gentilmente me ofereceu, mas não concordo com nada disto.
23:39 - Enumera-se a malta que "nunca chegou lá". Eduardo Pitta informa-me que Naipaul é indiano. Estou com tanta sede.
23:43 - José Mário Silva diz, e muito bem, que se houvesse mais transparência, o processo perderia a graça. Ando há anos a tentar explicar esta teoria aos meus gerentes bancários, mas sem sucesso.
23:45 - Reparei agora que o meu microfone não está ligado.
23:47 - Engasguei-me num salgadinho, o que originou aquele comentário do Pitta em que ele diz que não é médico. Foi mauzinho. A propósito do Pynchon ir ou não a Estocolmo, o homem enviou um comediante (Prof. Irwin Corey) para receber o National Book Award em nome dele.
23:49 - Frank Sinatra diz que tem de nos ter todos os dias. Há um frisson silencioso no estúdio.
23:51 - Eduardo Pitta diz que Roth não tem parado de crescer nos últimos 10 anos. É aquela comida que os judeus comem.
23:53 - Francisco José Viegas evoca um cenário que eu pagava para ver: dezenas de fãs de Doris Lessing a celebrarem destruindo quartos de hotel.
23:56 - "Namibianos, sei lá, não sei". Preciso urgentemente de um copo de água. Vou só meter mais uma morna à revelia do apresentador e vou-me embora. Boa noite.
00:04 - Apanhei um táxi à saída do estúdio. Passei pela Isabel Coutinho, que ia a entrar, ligeiramente atrasada.
E para o meu próximo truque vou fazer qualquer coisa com malabares
segunda-feira, outubro 06, 2008
Notícia lida apenas 22 minutos depois do golo do Wesley
This morning, Carolyn Kellogg reported on web rumors about a new novel by Thomas Pynchon. Now, Penguin Press, Pynchon's publisher, confirms that there is, indeed, a new novel by the reclusive author, to be published in August 2009.
As for the other rumored details -- that it's a noir novel of about 400 pages, set in the world of 1960s psychedelia -- Penguin is remaining silent ... for the time being.»
(LA Times)
quinta-feira, outubro 02, 2008
Os gajos do Inimigo Público agora estagiam no caderno principal
(Público)
quarta-feira, outubro 01, 2008
A economia mundial desaba enquanto eu meto dez libras no Real Madrid
As últimas semanas validaram de tal maneira o meu estilo de vida que já me posso dar ao luxo de aparecer na próxima reunião de família.





