“All the attention and engagement and work you need to get from the reader can’t be for your benefit; it’s got to be for hers.” - David Foster Wallace, citado aqui.
Nunca tinha visto isto: alguém a referir-se ao leitor, no abstracto, com um pronome feminino, como se faz com os navios. Não há aqui só uma tese, há todo um novo programa curricular nas Humanidades (provavelmente em Berkeley).
Mas na estafadíssima questão da historiografia antiga sobre Alexandre o Grande, eu estou completamente de acordo com o John Burrow: acho que o Curtius Rufus é muito mais empolgante que o Lucius Arrianus. Espero que a minha oportuna intervenção encerre o assunto de uma vez por todas.
O Sérgio Lavos acusa-me de ter falhado uma corrente. A ser verdade - e vou precisar de provas, exames ADN, etc. - isto vai obrigar-me a repensar toda uma série de coisas. É que eu gosto imenso de correntes e nunca me lembro de ter olhado para uma corrente e pensado, "olha que chatice, uma corrente". Até esta, da página 161; acho tudo espectacular, pelo que não me importo nada de responder outra vez (a corrente já tinha andado a circular há coisa de um ano, não sei se alguém se lembra).
Ora eu ando a ler dois livros ao mesmo tempo, uma vez que sou um grande maluco e apenas um de cada vez não me chega. Os livros que ando a ler ao mesmo tempo são o Trópico de Câncer e o Trópico de Capricórnio, ambos escritos por um autor que, curiosamente, também era um grande maluco para quem uma de cada vez simplesmente não chegava. A quinta frase completa da página 161 do Trópico de Câncer é: «Um tipo conhece os bêbados todos de Montparnasse». Para o Trópico de Capricórnio, o resultado é: «Tudo podia ser afastado facilmente, até os Himalaias».
Os restos dos respectivos livros contêm frases tão ou mais titilantes. É tudo a cem à hora, nos Trópicos. A estética literária de Henry Miller exige a substituição deliberada de sofisticação artística por autenticidade crua. O insanável defeito deste tipo de escrita torrencial (Whitman e Kerouac são duas encomendas semelhantes) é que o desleixo e a falta de clareza criam uma dissonância entre o ritmo do escritor - que se acha o maior - e o do leitor - que nem sempre concorda. Os frequentes achaques de levitação induzem uma irreprimível vontade de discordar factualmente do que está a ser dito: “Esta é a virgindade branca e glacial da lógica do amor” (Epá, não, não é). “Sou o gorila que sente as asas a crescerem, sou o gorila leviano no ventro de um vazio de cetim” (Epá, não, não és). “A noite também cresce como uma planta eléctrica, lançando rebentos candentes para o espaço” (Não, a noite não faz nada disso). Na verdade, a relação de Henry Miller com a linguagem é semelhante à sua relação com o género feminino. O homem dispara em todas as direcções. Tenta tantas coisas tantas vezes que acaba por acertar no alvo algumas delas. Trata a linguagem como se esta fosse uma ginasta romena. E, apesar de todo o seu priápico e transpirado entusiasmo, a linguagem fica quase sempre hirta debaixo dele, a fingir orgasmos múltiplos. Poderia continuar a falar sobre o assunto, mas prefiro guardar o resto para o meu longo texto crítico sobre Henry Miller, a publicar brevemente no Scunthorpe Telegraph. E porque nestas alturas de crise as pessoas gostam é de finais felizes, vou terminar o post com um gatinho dentro de uma caixa.
E também com a Venezuela, e o Anderson Polga, e a crise económica global, que me parece uma situação muito grave, e depois há a fragilidade do nosso tecido empresarial, e o desemprego, que também é uma situação muito grave, que afecta as pessoas, embora provavelmente não o Anderson Polga, mas que vai obrigar o hipotético mas existente senhor que trabalhou a vida inteira na linha de montagem a arrancar os coisinhos de plástico dos cinzeiros que aparelham os automóveis da marca Volvo a procurar outro emprego no meio de uma crise económica global muito muito grave, e o senhor não vai conseguir, evidentemente, pelo que vai ser forçado a improvisar e a lançar-se num negócio por conta própria com empréstimos garantidos pelo Estado e assim, mas sem qualquer preparação, e isto nunca dá bom resultado, como é demonstrado por histérica analogia no Suttree do Cormac McCarthy, em que um violador de melancias chamado Gene Harrogate sai da prisão sem quaisquer fundamentos, e o que é que faz uma pessoa sem quaisquer fundamentos no irrepreensível nexo metafórico que é o ferro-velho do capitalismo a não ser escavar túneis debaixo da cidade (e isto depois de o esquema de assassinar morcegos por dinheiro ter fracassado por insuficiência logística) para chegar ao não-ferro-velho do capitalismo pelo lado mais inesperado, que são os fundilhos do banco central? Uma pessoa com fundamentos teria arranjado os diagramas, as plantas subterrâneas de Knoxville, Tennessee, até o Tom Cruise sabe isto, mas o Gene Harrogate não sabia mais do que aquilo que sabia e dinamitou a estrutura errada, acabando por ser arrastado numa maré de merda líquida, bocadinhos de papel higiénico e, salvo erro, bebés mortos, e bebés mortos é uma situação que me incomoda e que considero quase tão grave como a do Tibete, mas compreende-se a minha preocupação, creio eu, com o hipotético mas existente senhor que deixou de arrancar os coisinhos de plástico dos cinzeiros que aparelham os automóveis da marca Volvo no meio de uma crise económica global gravíssima, tendo em conta o que sabemos sobre o sub-solo da respectiva localidade, onde também deve haver doses substanciais de merda líquida e bocados de papel higiénico, se não mesmo bebés mortos, o melhor que o senhor tem a fazer é mesmo inscrever-se no centro de emprego mais próximo e esperar que o chamem para a formação de jardineiros da Junta, não deve é meter-se em avarias, do género ah vou pôr um anúncio no jornal a oferecer os meus serviços como palhaço contratado para ir a festas, até porque isto é uma terra diferente, não é um aglomerado suburbano em Montgomery onde as pessoas têm por hábito contratar despojos de meia-idade com a cara pintada e sapatos de meio metro para entreter as criancinhas, e o máximo a que o senhor pode almejar é atrair a atenção de um casal em Campo de Ourique com um pacote TV Cabo que lhes permita terem assimilado a esotérica noção de "palhaço contratado" numa sitcom qualquer, e os meios financeiros necessários para concretizar um "aniversário diferente" para o pequeno Diogo, e que portanto não desconfiem quando virem o anúncio no Correio da Manhã, mas mesmo assim a situação está minada com problemas, nomeadamente fisiológicos, porque não se passam quarenta anos a arrancar os coisinhos de plástico dos cinzeiros que aparelham os automóveis da marca Volvo sem acumular um considerável crédito negativo no funcionamento renal, o senhor é provavelmente incontinente, o que é já de si uma incapacidade debilitante num palhaço contratado, mas uma incapacidade que se pode gerir quando se vai a casas em Montgomery com sete casas-de-banho, mas em Campo de Ourique, com aqueles apartamentos só de uma casa-de-banho, meu Deus, é um perigo enorme, até porque numa festa à qual comparecem todos os amiguinhos do pequeno Diogo, e respectivos pais, vai haver sempre alguém enfiado na casa-de-banho, e o pobre palhaço (previamente designado hipotético mas existente senhor) não tem estamina para duas horas sem alívio, e nenhum dos métodos sugeridos pelo seu vizinho funcionará, nem sequer a clássica volta dupla do elástico à volta do escroto, pelo que o pobre palhaço vai passar duas horas a transpirar, o que apresenta desde logo um problema adicional, uma vez que a tinta facial branca que adquiriu por catálogo era a mais barata e não é de grande qualidade, e a transpiração faz daquilo uma avalanche grotesca pelo escanhoado abaixo, que é uma coisa de que as criancinhas não parecem gostar num palhaço, por motivos inapelavelmente sólidos, e o senhor pobre palhaço vai andar por ali a soprar plutos e mickeys em balões vermelhos, com a bexiga a latejar e a cara a transformar-se gradualmente num Monte de Santa Helena, há-de se chegar a um ponto sem retorno onde o pobre palhaço não terá outra possibilidade se não esquivar-se até às escadas do prédio e aliviar-se no vaso das buganvílias que tanto debate tem provocado na reunião de condóminos, mas os problemas não acabam aí, era o que faltava, porque um palhaço sem fundamentos para comprar uma tinta facial de qualidade também não terá investido devidamente no vestuário, e aquelas calças de palhaço trazem botões tão renitentes em abandonar as respectivas casas como agricultores brancos do Zimbabwe, uma mijinha lacónica de quarenta segundos transforma-se numa epopeia de dez minutos, o pequeno Diogo que anseia pelo próximo pluto insuflado no balão quer saber o que é que se passa com o senhor palhaço e decalca o esquivanço até às escadas do prédio, onde vai encontrar o senhor palhaço com a cara a derreter e um pluto rosáceo e resolutamente não-insuflado nas mãos, isto vai dar gritos do pequeno Diogo, de certeza, seguidos de desenfreada correria paternal cá para fora, onde o cenário que encontram - criancinha aos gritos, palhaço grotesco com as calças pelos joelhos - não pode deixar de afectar todos aqueles que, como eu se preocupam com o Tibete, a Venezuela, a crise económica global e as pessoas, genericamente. O Cormac McCarthy, ainda assim, escreve muito bem.
(Recensão crítica a Suttree, de Cormac McCarthy, publicada originalmente no Der Spiegel)
«... An overstrained enthusiasm produces a capriciousness in taste, as well as too much indifference. A person who sets no bounds to his admiration takes a surfeit of his favourites. He over-does the thing. He gets sick of his own everlasting praises, and affected raptures. His preferences are a great deal too violent to last. He wears out an author in a week, that might last him a year, or his life, by the eagerness with which he devours him. Every such favourite is in his turn the greatest writer in the world.»
Tem sido extremamente difícil nos últimos dias não passar o tempo a chatear as pessoas com a minha recém-adquirida destreza no calão de Baltimore. Com o atraso espectacular que costuma caracterizar grande parte das minhas interacções com o mundo (exemplificado pelo absurdo número de emails a informar-me de que fui a última pessoa em Portugal continental a dizer bem do Lourenço Viegas) comecei esta semana a ver episódios da "melhor série de televisão de todos os tempos". Ainda é cedo para a apreciação global e fundamentada que a minha mãe se habituou a esperar de mim, mas creio não espatifar nenhum consenso se disser que a segunda melhor personagem da série é o Coronel Daniels, um Masai tecnocrata interpretado por um actor que tem provavelmente a melhor cara de todos os tempos a seguir à do Franck Ribéry, e que elevou o acto de remover o casaco exasperadamente a uma manifestação artística pela qual valia a pena dinamitar a Tate Gallery. Só para ficar mais descansado, transformei o visionamento dos quatro primeiros episódios numa desesperada caça ao cliché. Não tive grande sucesso. A língua inglesa é claramente a actriz principal, mas vê-se que passou anos a treinar para isto. Está mais gorda, mas ganhou agilidade; consegue saltar por cima das coisas; consegue esconder-se atrás de outras coisas; é tudo muito bonito. O espremido livro de estilo do police procedural também foi brutalmente vandalizado. Há algum fervor antropófago na sequência em que o McNulty vai ver um jogo de futebol do filho e conversa sobre direitos de visita com a ex-mulher, mas regra geral os guiões têm-se comportado como se a televisão tivesse sido inventada ontem à tarde. Há uma enorme vala comum no meio daquilo tudo onde as convenções foram enterradas: os guiões limitam-se a ir lá de vez em quando para mijar em cima dos cadáveres. Está mais do que decidido que nunca mais vou ter uma "opinião" sobre qualquer outra coisa durante o resto da minha vida, mas, evidentemente, uma pessoa tem saudades de clichés, pelo que foi uma sorte ter feito uma pausa nas festividades para fazer um micro-zapping pelos canais terráqueos, no meio do qual apanhei um dos Casos da Vida transmitido pela TVI, intitulado "Crime e Botox". "Crime e Botox", curiosamente, é o nome de uma pequena peça em três actos que eu escrevi em 2004 e que transporto desde então na minha mochila, à espera do dia em que os meus frequentes encontros com figuras públicas nas ruas de Lisboa (é inacreditável a quantidade de vezes que já estive atrás do Carmona Rodrigues na fila para o multibanco) me proporcionem finalmente a oportunidade de passar as cento e oitenta páginas para as mãos do Diogo Infante, que eu "visualizo" no papel principal e também no orçamental. A minha peça, no entanto, é um mero divertimento - daqueles assim despretensiosos e para a toda a família. Já a versão da TVI é uma arrojada variação sobre o mito de Pigmalião, que alardeia o seu despudor em relação ao facto de ter conseguido plagiar em simultâneo o Bernard Shaw, o Nip/Tuck, o Instinto Fatal, e o Apocalipse de São João. A história começa com uma ex-actriz dos Morangos com Açúcar no bloco pós-operatório. A cirurgia plástica correu bem, mas os resultados não lhe agradam. O seu estado emocional é cintilantemente traduzido: «Ó Zé! Não era nada disto que eu te tinha pedido!». O "Zé", além de ser seu marido, também é um cirurgião-plástico diabético, um artifício narrativo que permite aos argumentistas utilizarem uma estrutura formal composta por versos perdidos de Daniel Maia-Pinto Rodrigues: «Há séculos que não jogas golfe, querido», «Amparo! Traga-me imediatamente um copo de água com açúcar!», e «Vá, toma lá a insulina para irmos jantar». O espectador depressa se apercebe que o cirurgião-plástico diabético anda a testar os nervos da esposa («Essa tua obsessão pela perfeição está a ir longe de mais!») e que a esposa do cirurgião-plástico diabético anda a testar os limites da sintaxe («Tu tens é noção de falta do ridículo!»), mas tudo é facilmente ultrapassável por todos aqueles que não tenham sentido de falta de humor. A primeira parte, como espero ter tornado espatafurdiamente óbvio, é uma lenta versão hardcore do My Fair Lady («ele esculpiu-me a seu belo prazer», etc.). Mas a segunda parte é nada mais nada menos do que um pioneiríssimo CSI: Vialonga, com inspectores a afagarem paredes com escovinhas, a guardarem colheres de sobremesa em sacos de plástico, e a enviarem coisas "para o laboratório". Um dos inspectores possuiu a argúcia de Auguste Dupin e o registo emocional de Ivan Drago. Depois de ouvir que a vítima, na véspera de ser assassinado, recebera um telefonema anónimo que o fizera sair de casa a correr, ele raciocina em voz alta, com o instinto dos predestinados: «Sim, realmente ísso é estranho». Nesta altura já existem pelo menos quatro suspeitos diferentes para o assassinato do cirurgião-plástico diabético, e um dos diálogos entre os argumentistas foi acidentalmente incluído no produto final: «-Porque é que não tiramos umas férias? -Umas férias não vão resolver isto». Não vi até ao fim, mas desconfio que foi a mulher quem o matou - provavelmente com uma dose de leite condensado. Entretanto, deixo-vos com três minutos de Shakespeare na Cova da Moura:
A Associação de Telespectadores considerou o Jornal Nacional o pior programa. "Escorre sangue e bílis, num prenúncio deletério que acaba em mau serviço e desrespeito ético do jornalismo", lia-se no comunicado que acrescentava: "O paroxismo é atingido às sextas-feiras com a ígnea Manuela Moura Guedes, que, quando uma peça ou um comentador diz mata, se desgrenha qual girândola mortífera, a gritar: esfola, esfola!". Já Manuela Moura Guedes não vai desistir do seu estilo pois segundo a apresentadora do Jornal Nacional - 6.º Feira diz: "Não vou desistir".
Fui alertado por milhares de pessoas para um problema técnico de origem misteriosa no acesso a este blogue. Aparentemente, quando o acesso é feito através de http://www.pastoralportuguesa.blogspot.com corre tudo bem; se o acesso é feito através de http://pastoralportuguesa.blogspot.com encontra-se um ecrã vazio conducente a tentativas de suicídio. Agora que penso nisso, este post serve para alertar precisamente as pessoas que vão ser incapazes de o ler. Porque é que tem de ser tudo tão complicado?
Venho dizer isto com um atraso injustificável (e já depois desta pessoa que tem o mérito de ter tentado abrir os olhos da nação ainda antes de mim), mas cá vai: o Lourenço Viegas é a pessoa que mais gosto dá ler em toda a imprensa nacional. Trabalhando sozinho, o homem elevou a compra da Time Out a gesto heterossexualmente válido.
Quando eu morava em Inglaterra, aproveitava as noites de sexta-feira para relaxar em casa, bebendo uns tragos de chá preto do Lidl e vendo um dos meus velhos vídeos de giant japanese hornets:
Fortíssima candidata a melhor história do ano: a biografia da lenda moldava Masal Bugduv, explicada aqui pela Slate, com a condescendência que se impunha.
Teaser: «Whoever engineered the prank left behind a calling card in the form of the fictional Moldovan newspaper Diario Mo Thon, described in one of the concocted AP stories as "the top sports daily in Balti." Diario means diary in several Romance languages, and mo thón is Irish for my ass—just the kind of nested, polyglot ass pun that every good imaginary-Moldovan prank requires. It got better. After SoccerLens blogger McDonnell broke the story, Bugduv fans in Ireland noticed that the player's name was a phonetic twin for m'asal beag dubh, which is Irish for "my little black donkey." A second Irish ass pun, sure. But "My Little Black Donkey" is also the name of an Irish-language short story by early 20th-century writer Pádraic Ó Conaire about a man tricked into overpaying for a lazy donkey based on some vivid village gossip.»
Vinte anos depois, continua a não ser arquivado nas secções de "Humor". A quantidadedegente que continua a levar este monte de entulho a sério é que nunca deixa de me surpreender. O Ibsen batia no cão, o Marx tinha bolhas na pilinha, o Edmund Wilson gostava de levar tau-tau - nunca houve reunião de costureiras com uma acta tão sofisticada. Tentar invalidar um sistema de pensamento através da higiene pessoal não é uma metodologia particularmente revolucionária: a minha mãe anda a tentar a mesma coisa desde 1987. Mas não resulta, não resulta. Qualquer produção intelectual está enraizada numa personalidade, mas a correlação nunca é directa. Algumas abordagens conseguem ser interessantes mesmo quando são inadequadas; mas Paul Johnson tem o dom de induzir o desespero numa pessoa mesmo quando tem razão. O capítulo sobre Marx, valha-me Deus. O Aron e o Popper conseguiram demolir criticamente o marxismo sem precisarem de contar sabonetes. Há casos específicos em que a vida invalida as ideias, mas esses casos são raros. O facto de uma conduta pessoal não ser coerente com um conjunto de princípios não invalida os princípios - quando muito, invalida a conduta pessoal. Paul Johnson critica a deficiente compreensão da História partilhada por Marx e Tolstoi, mas a sua própria compreensão é pouco mais do que uma caricatura sem bonecos. Para já, é possível ler-se as doze mil e setecentas páginas de Intellectuals sem perceber o que é um "intellectual". Segundo os atrapalhados parâmetros do autor, um intelectual é alguém que tenta usar a Razão para construir uma nova ordem social. A sério? Hemingway? Ibsen? Edmund Wilson? James Baldwin? A sério? E o Elton John? E o Eric Cantona? E o Carlos Daniel? Na tentativa de desmantelar bezerros de ouro, o Paul Johnson artilhou um de vapor. E ali está ele, entretido, a mandar cócó aos fantasmas.
Nessa elite espectral, Johnson vê uma espécie de clero secular: “aventureiros do espírito”, cujas inovações morais e ideológicas já não são limitadas pelos “cânones da autoridade externa” e pela “herança da tradição”. Mas esses mesmos limites foram eles próprios aventuras do espírito - sucessivamente melhorados e cronologicamente institucionalizados; a exterioridade que Johnson lhes atribui é uma mera convenção. Os grandes sistemas teóricos, e as restrições que os contêm, são manifestações humanas; mesmo ao seu melhor (e há poucos exemplos) limitam-se a resgatar uma aproximação à verdade e a intensificá-la. No processo, essa verdade é inevitavelmente distorcida, cabendo às gerações o trabalho de refinamento. Paul Johnson, que só é capaz de assimilar e aceitar uma cultura hierática, procura as vantagens de uma ideia na legitimidade de quem a professa. Quer idolatrar, não conteúdos falíveis, mas Livros inerrantes. Quer uma purezazinha aberrante que se possa seguir cegamente. O corolário lógico do seu catálogo de objecções é evidente: se uma teoria perigosamente deficiente, como o marxismo, tivesse sido Revelada no Monte Sinai, as suas deficiências teriam em Paul Johnson o seu mais infatigável acólito.
A conclusão de “Intelectuais” é que as pessoas têm sempre mais importância que os conceitos. Como conceito, isto é eminentemente defensável. Mas é um conceito; e um conceito pelo qual muitas pessoas entenderam que valia a pena morrer. O conceito no qual Paul Johnson predicou este livro indefensável é um mau conceito, que apenas se consegue invalidar a si próprio. Até o Paul Johnson - que passou a vida a beber que nem um mineiro siberiano, a bater em cães, e pelo menos treze anos numa relação adúltera com uma amante que lhe dava palmadinhas com implementos de cabedal - é mais importante do que isto.
Entretanto, na frente doméstica, tenho o prazer de anunciar que estou a abandonar tranquilamente a maionese:
Entalada entre duas telenovelas da TVI (uma das quais, Olhos nos Olhos, é a melhor coisa em exibição na televisão portuguesa) a adaptação de Equador continua a explorar delicadamente um tema pertinente: a epidemia de defeitos da fala no Portugal de início de século XX. A série tem muitas qualidades, mas é particularmente recomendável às pessoas que gaguejam: vão-se sentir muito melhor consigo próprias.
A melhor pirotecnia oral até agora (perdi o primeiro episódio) pertence ao actor Marco d'Almeida, que interpreta uma personagem inglesa. O seu sotaque faz um virtuoso périplo Miguelcadilheano pelas ilhas britânicas, antes de assentar arraiais na pequena localidade de Sean-Connery-on-Methadone. «Tree monshes?» pergunta ele, escandalizado, referindo-se a um período de tempo de três meses. Pede-se encarecidamente aos argumentistas que lhe escrevam tantos diálogos com consoantes sibilinas quanto possível, sem prejudicar a integridade do guião. As vogais, essas, estão por conta de São José Correia, que interpeta Pilar, uma prostituta espanhola. Pilar quer fugir para Madrid com Antero, para mostrar que é ela quem «mandá na sssuá bidá», mas antes tem de aconselhar uma prostituta mais nova, que anseia ela própria por mandár na sssua bidá: «Um diá también hás dé tér ú téu Antéro!» A prostituta mais nova acena resignadamente, antes de ir aviar o próximo cliente, um conde que troca os érres pelos guês: «Onde é que vais com tanta peguéssa a esta óga?». O conde é integpetado pelo actogue Gui Mendes, e, se a memória não me falha, deixa de aparecer quando a acção é transferida para São Tomé, o que deve estar quase a acontecer, dada a indignação com que a actriz inglesa (esta genuína) recebeu a novidade: «Sow Tommy Prince Yippie? That's one of the poorest regions on earth!» Pois é, pois é, mas temos a televisão nacional, que é uma das mais ricas, madam.
Há fortes probabilidades de ter tido, na noite passada, um sonho homoerótico com Medeiros Ferreira. No sonho, eu e o Medeiros Ferreira estávamos os dois num barco, de camisolas de alças, a subir o Rio Zambeze, cujas águas eram muito escuras e cheias de enguias. Medeiros Ferreira falava-me da descolonização. Às tantas houve mergulhos, no meio das enguias. Nada, em nenhum dos livros que li até agora, me preparou para lidar com isto. Nem no Hazlitt, que é, a partir desta semana, o melhor escritor do mundo de todos os tempos. A passagem que se segue é de um texto chamado «Character of Mr. Burke», que foi tão violentamente sublinhado no meu exemplar que a integridade do próprio livro está agora em perigo. Resta-me aguardar que a tendência suicida da libra continue, e que daqui a pouco tempo a Amazon me ofereça dinheiro para eu encomendar um exemplar de substituição:
«He applied the habit of reflection, which he had borrowed from his metaphysical studies, but which was not competent to the discovery of any elementary truth in that department, with great facility and success, to the mixed mass of human affairs. He knew more of the political machine than a recluse philosopher; and he speculated more profoundly on its principles and general results than a mere politician. He saw a number of fine distinctions and changeable aspects of things, the good mixed with the ill, and the ill mixed with the good; and with a sceptical indifference, in which the exercise of his own ingenuity was obviously the governing principle, suggested various topics to qualify or assist the judgment of others. But for this very reason, he was little calculated to become a leader or a partizan in any important practical measure. For the habit of his mind would lead him to find out a reason for or against any thing: and it is not on speculative refinements, (which belong to every side of a question), but on a just estimate of the aggregate mass and extended combinations of objections and advantages, that we ought to decide or act. Burke had the power of throwing true or false weights into the scales of political casuistry, but not firmness of mind (or, shall we say, honesty enough) to hold the balance. When he took a side, his vanity or his spleen more frequently gave the casting vote than his judgment; and the fieriness of his zeal was in exact proportion to the levity of his understanding, and the want of conscious sincerity.»
Esta amável corrente que me foi passada pelo Impensado, e que demorei nove dias a decifrar, é uma boa corrente. Gostava que as pessoas me mandassem mais correntes. Passemos então à elaboração sobre a corrente.
Pede-se uma foto:
e uma banda, que decidi interpretar livremente como autorização para escolher as obras completas de Philip K. Dick (se percebi bem, agora responde-se ao questionário com títulos de canções da banda, que decidi interpretar livremente como etc etc. Não tenho rigorosamente nada que fazer neste momento.)
11. Descreve o 4-4-2 em losango com o Miguel Veloso na posição 6 e o Rochemback na posição 7: A Maze of Death
12. Descreve as circunstâncias mais adequadas aos talentos específicos do Miguel Veloso e do Rochemback: Counter-Clock World
13. Qual seria, na tua humilde opinião, um título muito mais adequado para as memórias de Paul Auster do que Hand to Mouth: Confessions of a Crap Artist
14. Partindo do princípio de que ela existe, qual seria a audiência com mais probabilidades de tirar algum proveito intelectual do acompanhamento de uma conversa entre o Filipe Moura e o Carlos Vidal: Clans of the Alphane Moon
15. Qual a solução que, nas alturas mais difíceis, te parece mais adequada para resolver o problema com que te deparas sempre que a Dona Feliciana, a tua vizinha surda, se põe a ver o Prós & Contras com o volume no máximo: The Zap Gun
16. E o Carlos Daniel? Não tens nada a dizer sobre o Carlos Daniel? Eye in the Sky
17. Que engenho é que gostarias de aplicar à pessoa do Carlos Daniel? The Preserving Machine
Passo esta corrente, de acordo com os trâmites, ao Tiago Galvão e também ao Sérgio Gouveia, duas pessoas completamente diferentes.
Este título era tão previsível que, do alto da minha intrigante conta à ordem no BPI, apostei na sua aparição num prazo de 48 horas depois de a primeira bomba ter caído. Falhei na data e no sítio (por pouco mais que um oceano), o que não prova rigorosamente nada, nem sequer que a perpétua busca de ressonância alusiva em títulos alusivamente ressonantes conduz quase sempre à previsibilidade. Sem olhos em Gaza, de qualquer forma, é uma descrição que não parece despropositada ("Por Quem os Sinos Dobram", ou "A Angústia do Guarda-Redes no Momento do Penalty" seriam opções manifestamente piores). Ter uma "opinião" sobre o que se passa hoje em Gaza é o equivalente intelectual a brincar ao quarto escuro com duas primas gordas. Eu próprio, alguém cuja opinião tem sido ansiosamente aguardada, ainda não encontrei qualquer indício de possuir sequer as faculdades necessárias para emitir uma daquelas "opiniões" que se pode ter sobre "o assunto". Pela razão óbvia: tenho um preconceito inultrapassável em relação a Israel - um preconceito que, para agravar a coisa, tem uma forte componente racial. O preconceito em questão, por puro acaso (e é mesmo um acaso: um resultado de acidentes biográficos menores e de um sortido de motivos aflitivamente superficiais) é um preconceito positivo, mas, para o caso, isso não faz a menor diferença. O meu filo-semitismo (e devia haver uma maneira melhor de uma pessoa dizer que curte Judeus e lá as coisas deles) faz tanto sentido como o anti-semitismo de outro maluquinho qualquer. Como qualquer preconceito, é cego, monolítico, irracional e completamente estanque. Não permite gradações nem encoraja nuances. Terá uma inevitável e bastante limitada utilidade como ferramenta de configuração (cf. enfim, Burke, ou a dezena de chatos que o citam), mas é também uma forma muito boa de afunilar as respostas emocionais, e diminuir drasticamente as probabilidades de conseguirmos identificar a nossa própria imbecilidade. Se a minha posição instintiva e imediata é acreditar que o IDF tem, não apenas o direito, mas o dever de bombardear todos os metros quadrados de planeta que bem quiser e entender, inclusivamente toda a área entre a farmácia velha de Fernão Ferro e ali o começo do pinhal, terei alguma justificação em colocar a hipótese de não estar realmente a pensar, mas sim de estar a sofrer um espasmo do neocórtex. Posso chegar a uma situação em que já nem terei a certeza de que as respostas continuam a obedecer ao mesmo cego preconceito positivo ou se são apenas já reacções tóxicas (e estive quase a falar do Benfica agora) às respostas motivadas pelos preconceitos opostos. Estes têm sido os melhores e mais consistentes motivos na história da humanidade para ficar calado, mas depois uma pessoa tem um blogue. É tudo muito complicado. Alguém, digamos, extraordinário, chamou-me recentemente à atenção para uma feliz e acidental correspondência entre um dos greatest hits retóricos do Clive James (desenvolvido, por exemplo, em 3 ou 4 textos deste livro) e a sua própria forma de encarar o conhecimento. O argumento refere-se ao tipo de comportamento que podemos realisticamente esperar de indivíduos confrontados com o totalitarismo. A resposta lógica é que não é justo exigir a todos que cancelem o seu instinto para a auto-preservação em nome de de uma ética superlativa. Os casos excepcionais em que isso acontece são casos de heroísmo moral, um fenómeno que deve ser exaltado, mas não elevado a bitola. Clive James predicou uma das mais interessantes carreiras críticas do século XX numa versão intelectual desta prescrição. Não exigiu a si próprio o heroísmo da omnisciência, mas soube consolidar, com o zelo paciente e obsessivo do auto-didacta, uma base relativamente estável, assente nos requisitos mínimos elevados à máxima potência: a do senso-comum. A partir dessa plataforma, é possível efectuar incursões esporádicas para o desconhecido, sem grandes riscos retóricos no caso de a coisa correr mal.
Ter uma "opinião", enfim. O problema com o repertório de "opiniões" que se podem ter "sobre" Gaza é que não são comentário, mas caricatura. Não nos fazem pensar sobre o tema em questão; mas fazem-nos pensar duas vezes sobre quem as manifesta. Ter uma "opinião" pertinente sobre Gaza requer provavelmente um tipo muito intensificado de génio moral e, se a bitola for essa, ninguém tem legitimidade para fazer o log-in. O melhor a que se pode almejar é a um reduzido consenso que exclua o disparate. É possível intuir ali um terrenozinho entre o inócuo (que eu já devo ter anexado) e a barbaridade. Convém ocupá-lo antes que comecem a cair lá bombas também. A neutralidade absoluta não é uma expectativa racional; mas a tal estrutura de senso comum parece-me uma possibilidade razoável: apelar ao mínimo denominador comum e ao máximo que dele se pode extrair, utilizando os preconceitos como um mecanismo para seleccionar ênfases, e esperar que a competição de constrições de percepção opostas seja capaz de iluminar alguma coisa. Do alto da minha intrigante conta à ordem no BPI, nem sobre isto tenho certezas, mas espero que tenha ficado bem claro que tenho um blogue.
E com isto, deixo-vos este fofo gatinho com um yarmulke na cabeça
... eu enfrentava com uma coragem e dignidade a toda a prova a segunda intoxicação alimentar da minha vida, provocada por uma Panini servida num voo da TAP para a qual cometi o erro de pedir um bocadinho de maionese, dando assim razão à minha avó Conceição que um dia me disse que esta brincadeira da maionese ainda me havia de me dar um grande desgosto. Não é o facto de já ser dia 7 de Janeiro que vai impedir certas e determinadas coisas, contudo. Os blogues do ano foram o Julinho e o Agrafo, evidentemente. O post do ano, do outro ano, enfim, foi escrito a 13 de Outubro e é um útil resumo (com extrapolação) da secção 6, parte iv, tomo I, do A Treatise of Human Nature. Era mesmo só isto, podem continuar com as vossas vidas:
(Livraria Blackwell em Oxford, felizmente situada na mesma rua de uma loja de ferragens com carrinhos de mão muito em conta (e à porta da qual, na tarde de 21 de Dezembro, sete judeus celebravam ruidosamente o Hanukkah, pela minha saúde), e onde é possível gastar noventa e quatro libras em menos de hora e meia (em livros, não em judeus))
a) o Alexandre tem várias vezes razão ao longo deste post; aqueles parênteses sobre o câmbio só pecam por defeito. A queda da libra proporciona um dos gráficos mais deprimentes da história económica recente (creio que é evidente que não sei do que estou a falar), mas para o consumidor que deseje vir às livrarias inglesas gastar dinheiro português, a situação não poderia ser melhor. Aliás: o valor da libra desceu mais um bocadinho desde que comecei o post. Aliás: estou a escrever este post à luz de uma pequena fogueira ateada com notas de dez libras (tenho usado as notas de vinte para papel de embrulho);
b) por uma questão de enfim, não vou fazer listas, mas, uma vez que não vi mais do que sete filmes estreados este ano, parece-me pertinente afirmar que o melhor deles foi Du levande (Roy Andersson), do qual podem ver aqui um clip (o truque da toalha é uma tradição familiar a que procuro dar continuidade).
c) por motivos que não vamos aqui enfim, descobri uma coisa assombrosa: o tradutor automático do google transforma "João Miranda" em "John Coltrane".
d) das melhores coisas que li este ano, em qualquer sítio e em qualquer formato: o artigo na Economist sobre o farol de Fastnet.
e) a segunda melhor prenda deste Natal (desde os 15 anos que ninguém me oferecia brinquedos; estou muito feliz):
Foi uma colossal empreitada logística, envolvendo um saco de desporto, um daqueles chouriços de lã que se colocam atrás das portas na Margem Sul para desencorajar as minhocas, um pezinho atarefado, uma chave do lado errado da porta, e um telemóvel a tocar. Nem o Fred Astaire se safaria dali com a dignidade intacta. Felizmente a situação já foi resolvida, graças à minha tia Micaela (um dos membros mais valorosos desse vasto exército de pessoas de famíla com chaves sobressalentes), e também à existência de outras casas, com outras pessoas e outras chaves.
Dói-me ligeiramente a cabeça por causa de tudo, mas creio não ser a única pessoa ansiosa por ver o que é que as manápulas gordurosas de Sam Mendes vão fazer de Revolutionary Road, um livro de que gosto quase tanto como de certos condimentos feitos à base de gemas de ovo e óleo vegetal (nunca vou perceber como é que não se entregou isto ao Paul Schrader). Estão aqui dois textos - que ainda não li, estou à espera que alguém me faça um café - sobre Revolutionary Road: um de James Wood, outro de Christopher Hitchens. Qual dos dois se assemelhará mais ao grunhido incoerente de um grande símio a besuntar as grades da jaula com as suas próprias fezes? Deixo a pergunta no ar, espalhando a sua essência.
Na imagem: caricatura de James Wood, aqui inexplicavelmente transformado por David Levine num italo-americano de Brooklyn, de camisa aberta e punhos cerrados, com ar ameaçador: "I will review the books, I will review your wife, and then I will review your momma".
Nomeadamente este blogue, não só porque me parece um blogue passível de ser linkado, mas também, e acima de tudo, porque é o único blogue onde me lembro de ver uma citação do eminentemente citável Dwight Macdonald, um patusco americano de esquerda, que era, nos seus melhores momentos, uma espécie de Lester Bangs da crítica literária. Há para aqui algures um ensaio dele chamado "By Cozzens Possessed" do qual eu gosto tanto que estou disposto a transcrevê-lo na íntegra caso esta caixa de comentários chegue aos 500 comentários, ou aos 125 comentários - o que quer que aconteça primeiro.
Birnbaum: Is it too early to know what the world thinks of this book?
Ford: I've heard some things. A terrible review in The Sunday New York Times.
Birnbaum: Are you going to go out and shoot it? Is that a true story that your wife took a pistol and shot a bad review Alice Hoffman gave you?
Ford: Yes, it is a true story. Shot her book. Seemed so good to do. We had another copy so I went out and shot it too. I don't read my reviews anymore.
(De uma entrevista antiga a Richard Ford, que é, depois da aposentação de Norman Mailer, claramente o escritor mais chanfrado em actividade)
«It’s been awhile since Doc Sportello has seen his ex-girlfriend. Suddenly out of nowhere she shows up with a story about a plot to kidnap a billionaire land developer whom she just happens to be in love with. Easy for her to say. It’s the tail end of the psychedelic sixties in L.A., and Doc knows that “love” is another of those words going around at the moment, like “trip” or “groovy,” except that this one usually leads to trouble. Despite which he soon finds himself drawn into a bizarre tangle of motives and passions whose cast of characters includes surfers, hustlers, dopers and rockers, a murderous loan shark, a tenor sax player working undercover, an ex-con with a swastika tattoo and a fondness for Ethel Merman, and a mysterious entity known as the Golden Fang, which may only be a tax dodge set up by some dentists. In this lively yarn, Thomas Pynchon, working in an unaccustomed genre, provides a classic illustration of the principle that if you can remember the sixties, you weren’t there . . . or . . . if you were there, then you . . . or, wait, is it . . . »
James Marcus: Let's turn to Indignation. It seemed to me that the first fifty pages or so of the book were written in a more subdued style--
Philip Roth: More subdued than the remaining pages?
James Marcus: Yes, exactly. Well, let me put it this way. Joseph Brodsky once said: "The real history of consciousness starts with one's first lie." Your protagonist's history of consciousness seems to start with his first blowjob.