terça-feira, agosto 04, 2009

Grandes Momentos da História da Legendagem

Num episódio do novo Knight Rider transmitido este fim-de-semana pela TVI, podia ler-se a dada altura mais ou menos isto: «Queres rimar como um Beastie Boy/ Mas só consegues rimar como o Toy». Não faço ideia do que foi dito no inglês de origem, mas duvido que tenha sido melhor.
Entretanto, já em pleno estágio de preparação para ler o novo coiso do Pynchon, decidi que esta semana apenas vou ouvir músicas do Roky Erickson. A decisão revelou-se, até ver, extremamente benéfica, senão mesmo inspirada. (Queria meter aqui o «Burn the Flames», mas não está no YouTube; esta ausência, sublinhe-se, é uma das situações mais embaraçosas em que já apanhei a internet).





quinta-feira, julho 30, 2009

Digamos que as cinco melhores personagens do Wire, e depois a pior

Foi uma longa e árdua odisseia, que envolveu algumas noitadas indesculpáveis, copiosos pacotes de Bombay Mix e a revogação de inúmeros privilégios sexuais, mas tudo valeu a pena. A minha vida social atravessa agora uma fase de remodelação, em que todos os ex-amigos que não viram o Wire têm de ser substituídos por novos amigos que tenham visto o Wire, e não me encontro ainda nas condições ideiais para fornecer às massas uma opinião devidamente fundamentada, pelo que vou apenas fazer uma lista das cinco melhores personagens, indicando também a pior - um instrumento crítico de tremenda utilidade para futuras teses de mestrado. Aproveito este momento para aconselhar vivamente os leitores ainda não familiarizados com o Wire a não verem um único episódio antes de continuarem a ler, uma vez que a série contém vários spoilers que podem diminuir o intenso prazer que o resto do post vos vai inevitavelmente proporcionar.

1. Marlo Stanfield

Probabilidade de merecer uma fotografia em tronco nu no blogue A Causa Foi Modificada: 90%
Probabilidade de conseguir derrotar o elenco inteiro do Grey's Anatomy numa luta corpo a corpo: 100%
Probabilidade de achar que a direcção do Belenenses merece um pedido de desculpas: 0%

De longe, a personagem com maior quantidade de deixas memoráveis ("I wasn't made to play the son", "You want it to be one way, but it's the other way", etc etc). Dada a qualidade geral da escrita, e as múltiplas formas em que esta se manifesta, concentrar tanta frase boa no mesmo sítio parece batotoa - um atalho fácil e curtinho para a ressonância. Mas Marlo é bom por outro motivo. Se a tragédia é a diferença entre as circunstâncias e as aspirações, Marlo é a personagem mais trágica da série. O cruzamento de incompatibilidades a que chega é verdadeiramente espectacular: Marlo tem as características certas para ser Avon Barksdale (em melhor, porque menos volátil, e com precisamente zero laços emocionais); são-lhe apresentadas as circunstâncias para ser Stringer Bell (aquele circuito de reuniões de negócios no último episódio era a fantasia pela qual Stringer aparava a barba todas as manhãs); mas o seu único desejo é ser Omar: o mito, o nome, a reputação. O seu discurso que culmina no "My name is my name" tem um curioso precedente numa deixa do Grego na segunda temporada: "my name is not my name". Por isso é que o Grego se safa: sendo anónimo, sendo o velho a ler o jornal no café, ao mesmo tempo que dirige o império. Marlo quer ser a lenda, a história contada aos putos, quer que falem dele por aí, na rua, nos blogues, pobre coitado.


2. Proposition Joe

Probabilidade de merecer uma fotografia em tronco nu no blogue A Causa Foi Modificada: 20%
Probabilidade de conseguir derrotar o elenco inteiro do Grey's Anatomy numa luta corpo a corpo: 90%
Probabilidade de achar que a direcção do Belenenses merece um pedido de desculpas: 0%

O seu fim era esperado, mas doeu. Era o melhor patrão, o melhor bandido, e um dos traficantes de droga mais fofinhos que já vi num ecrã de televisão. Acabou por ter uma morte bastante digna, na medida em que não lhe interromperam nenhuma frase, nem estava a tentar comprar iogurtes antes de levar um balázio nos cornos.


3. Slim Charles

Probabilidade de merecer uma fotografia em tronco nu no blogue A Causa Foi Modificada: 100%
Probabilidade de conseguir derrotar o elenco inteiro do Grey's Anatomy numa luta corpo a corpo: 100%
Probabilidade de achar que a direcção do Belenenses merece um pedido de desculpas: 0%

Antes de mais tem o mérito de ter despachado o Cheese, uma das bestas mais repreensíveis que por ali andava, com pontos extra por tê-lo feito logo a seguir a Cheese se ter saído com aquela do "ain't no nostalgia to this shit here". Essa, enfim, besta, essa personificação da brutalidade cega e amnésica, que quer andar para a frente sem olhar para trás, é morto em nome dos princípios mais antigos: honra e vingança. Tudo no sítio certo, é impressionante.

4. Ellis Carver

Probabilidade de merecer uma fotografia em tronco nu no blogue A Causa Foi Modificada: 100%
Probabilidade de conseguir derrotar o elenco inteiro do Grey's Anatomy numa luta corpo a corpo: 100%
Probabilidade de achar que a direcção do Belenenses merece um pedido de desculpas: 1,7%

Num guião destituído de arcos morais, e onde todas as epifanias são tácticas, Carver é a única personagem que evolui visivelmente (há o Snydor, mas é diferente). Também tem uma frase muito boa, num diálogo com um dos putos, sobre o tamanho das algemas, mas agora não me lembro em que episódio é. Num curioso fenómeno fisionómico-hierárquico, vai perdendo as gritantes semelhanças com o internacional françês Florent Malouda à medida que vai subindo de escalão dentro da força policial.

5. Stan Valchek

Probabilidade de merecer uma fotografia em tronco nu no blogue A Causa Foi Modificada: 0,7%
Probabilidade de conseguir derrotar o elenco inteiro do Grey's Anatomy numa luta corpo a corpo: 75%
Probabilidade de achar que a direcção do Belenenses merece um pedido de desculpas: 0%

Com toda a honestidade, há provavelmente uma dezena e meia de personagens melhores (o Wee-Bey, meu Deus, o Wee-Bey dava 20 posts), mas assumo uma escolha sentimental. É a pronúncia, está tudo na pronúncia. Não me lembro de ficar mais satisfeito a ouvir alguém falar na televisão. Não sei como é que se faz, mas o produto final assemelha-se ao Leo McGarry do West Wing depois de sofrer uma esclerose lateral amiotrófica. E tudo com aquele aspecto de refugiado nostálgico da Academia de Polícia, com ar de quem pode a qualquer momento começar a gritar com o Mahoney por este lhe ter besuntado a toalha de banho com um afrodisíaco para bisontes.

---. Brother Mouzone

Probabilidade de merecer uma fotografia em tronco nu no blogue A Causa Foi Modificada: 30%
Probabilidade de conseguir derrotar o elenco inteiro do Grey's Anatomy numa luta corpo a corpo: 85%
Probabilidade de achar que a direcção do Belenenses merece um pedido de desculpas: 0%

A maior concessão de Wire aos cânones narrativos de tudo aquilo que não é Wire. Eminentemente desculpável, mas não se deve negar que foi uma escusada digressão pelo "pitoresco". A ideia de colocar um avatar pós-colonialista do João Carlos Espada a ler a Harper's de pistola no bolso compreender-se-ia em séries menores, que tentam qualquer coisa desde que suspeitem que possa ser eficaz, porque têm de evitar que as pessoas se concentrem em todas as outras coisas que não são eficazes. Brother Mouzone é, vá lá, relativamente eficaz como personagem. Mas o guião não tinha a mínima necessidade dessa eficácia, especialmente a este preço. Seria uma boa personagem em qualquer outra série. Nesta, é um palhaço que ali anda.

terça-feira, julho 28, 2009

Under the paving stones—the beach!



Inherent Vice by Thomas Pynchon (Hardcover - 6 Aug 2009)
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(Espero que a semana que vem não me force a exigir um pedido de desculpas aos CTT)

Eu próprio ainda estou à espera de um pedido de desculpas do Belenenses pela situação do Mauro Soares

...sendo que, por tradição e convicção popular, o adjectivo 'manso' é normalmente aplicado aos bois...

Decidi interromper o bullying especista a que tenho submetido os caranguejos anões da Praia da Tamargueira apenas para vir aqui subscrever - com uma ênfase praticamente homoerótica - os quatro mil trezentos e quarenta e três caracteres do Luis Miguel Oliveira sobre a desempolgante polémica Bonifácio-Belenenses. Não há nada a acrescentar. Que um "comunicado" tão estarrecedoramente desonesto e oportunista, e cuja única característica redentora é o facto de me ter feito esquecer a cascata de press releases com que o Sporting decidiu comemorar o aniversário do Mandela, tenha feito um jornal de referência pestanejar só tem uma explicação: um dos mais elementares princípios de boa educação martelados nas crianças - aquele que diz que não se deve fazer pouco dos velhinhos - foi interpretado pela direcção do Público como um motivo para pedir desculpa aos velhinhos.

segunda-feira, julho 20, 2009

Holy Living Fuck


terça-feira, julho 07, 2009

Atenção, atenção

O Michael Lewis tem ali um artigo novo.

terça-feira, junho 30, 2009

MILF Hunter

Gostaria de avisar todas as pessoas que leram este post hipoglicémico do Lourenço Ataíde Cordeiro (nome não-fictício) e ficaram a pensar que o ensaio de David Foster Wallace intitulado «Consider the Lobster» é um panfleto da Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas cuja tese se resume a "Epá, baza lá comer relva que os animais são altamente" que o ensaio em questão passa por esse cubículo argumentativo apenas de passagem, para abanar a cabeça e prosseguir em direcção a salas muito maiores.
O único problema do ensaio é precisamente o facto de ser reduzido. As virtudes específicas de David Foster Wallace são directamente proporcionais ao espaço que ele tem para as exibir; o ensaio brontossáurico favorece-o de forma muito evidente. Ainda assim, «Consider the Lobster» tem virtudes assinaláveis. (Uma das quais é involuntária: o ensaio relata uma experiência no Maine Lobster Festival, evento que é designado como MLF ao longo das vinte páginas. E o acrónimo MLF, para um par de olhos débeis e um cérebro atolado na adolescência, assemelha-se a MILF, o que resulta em passagens bastante susceptíveis a humor classe-B, como por exemplo "locals do endorse and enjoy the MILF", "a lot of diehard MILF partisans" e "right out there in the MILF's northern grounds for everyone to see").
Já o problema do post do Lourenço é que acerta ao lado quando tenta isolar e definir as virtudes e defeitos de David Foster Wallace. Quando o Lourenço escreve, por exemplo, que "David Foster Wallace parece não transportar consigo nenhum preconceito em relação aos temas que aborda", há que dizer que não parece nada disto. O que parece é que David Foster Wallace transporta os preconceitos todos, e transporta também a consciência de que transporta os preconceitos todos, e a consciência de que essa consciência pode a qualquer momento deixar de ser vantajosa para se tornar incapacitante. Há uma propensão infantil em DFW para deixar a terra intelectual toda queimada à sua passagem, para não se contentar com nenhuma conclusão sem questionar as premissas e a possibilidade de o seu conhecimento dessas premissas poder ou não ter influência nas suas escolhas. DFW é (era) aquele tipo de pessoa incapaz de adoptar uma posição sem considerar a totalidade dos contextos em que essa posição já foi adoptada, uma característica muito útil para evitar um certo registo de escrita baseado na confiança absoluta de que se está a cindir o átomo naquele preciso momento, mas que, levada às últimas consequências, pode impossibilitar qualquer opinião que não esteja envolvida num mil-folhas de distanciamento irónico. No ensaio da lagosta, DFW sabe a que é que vai soar cada salto argumentativo porque já foi tudo dito e escrito antes, mas também sabe que é preciso parar em algum ponto, nem que seja num ponto rodeado de caveats.
Mais estranha ainda é a asserção do Lourenço de que "David Foster Wallace recorre a alguns argumentos, digamos, frágeis, como por exemplo «e se fosse com um carneirinho, como é que era?»", que eu só posso interpretar como uma paráfrase apressada que correu, digamos, mal. É que a única menção ao carneirinho no ensaio, para além de não ter rigorosamente nada a ver com o argumento que o Lourenço lhe imputa, está afundada não apenas em perguntas como em contra-argumentos explícitos: «And is “lamb”/“lamb” the counterexample that sinks the whole theory?».
Isto é (era) o homem. Outras duas citações dispersas são representativas não apenas do ensaio em questão, mas do estilo de pensamento de DFW em geral, que estava muito, muito longe do andar por aí a "recorrer" a "argumentos": «... and when it comes to defending such a belief, even to myself, I have to aknowledge that ...» e «Of course, the most common sort of counterargument here would begin by objecting that...". (É possível que DFW fosse aquele miúdo de três anos capaz de perder metade de uma tarde a considerar questões do género: "o facto de eu estar a pensar no acto de meter uma perna à frente da outra, e de saber que o estado de estar a pensar no acto de meter uma perna à frente da outra pode interferir no acto em si, terá algumas implicações práticas na minha capacidade de ir ali ao caixote buscar os Transformers?").
Vou agora citar um excerto de um conto do Poe ("The Purloined Letter"), uma decisão táctica que faz todo o sentido nesta altura:

I knew one [boy] about eight years of age, whose success at guessing in the game of 'even and odd' attracted universal admiration. This game is simple, and is played with marbles. One player holds in his hand a number of these toys, and demands of another whether that number is even or odd. If the guess is right, the guesser wins one; if wrong, he loses one. The boy to whom I allude won all the marbles of the school. Of course he had some principle of guessing; and this lay in mere observation and admeasurement of the astuteness of his opponents. For example, an arrant simpleton is his opponent, and, holding up his closed hand, asks, 'are they even or odd?' Our schoolboy replies, 'odd,' and loses; but upon the second trial he wins, for he then says to himself, the simpleton had them even upon the first trial, and his amount of cunning is just sufficient to make him have them odd upon the second; I will therefore guess odd'; --he guesses odd, and wins. Now, with a simpleton a degree above the first, he would have reasoned thus: 'This fellow finds that in the first instance I guessed odd, and, in the second, he will propose to himself upon the first impulse, a simple variation from even to odd, as did the first simpleton; but then a second thought will suggest that this is too simple a variation, and finally he will decide upon putting it even as before. I will therefore guess even' guesses even, and wins.

Existe neste modelo de raciocínio o potencial para a regressão infinita. A partir de um determinado ponto, avançar para o ponto seguinte deixa de representar um incremento de sofisticação, e passa a representar uma redução de bom-senso. Da mesma maneira, a partir de um determinado número de avanços, a estabilidade é ancorada num ponto arbitrário. Creio que muitas posições embaraçosas (políticas, morais e futebolísticas) são erguidas sobre versões deste duelo ontológico ("Eu sei porque é que tu achas que o Bush era um cromo, mas eu sobrevoei esse raciocínio numa asa-delta de lucidez e agora estou muito mais à frente").
O que eu encontrei em David Foster Wallace não foi só uma consciência invulgarmente extensa da gritante artificialidade deste processo, ou uma consciência da arbitrariedade do patamar em que a inteligência decide travá-lo, mas a percepção de que essa artificialidade acaba por ser essencial a um mínimo de estabilidade intelectual e emocional. É provável que possa ter encontrado isso noutras pessoas mortas que andei para aqui a ler, mas em nenhum caso me fez tanta aflição que a pessoa estivesse morta. E isto tem de ficar por aqui, uma vez que há pessoas vivas a tentar correr comigo do computador há mais de meia-hora com argumentos espectacularmente não-Wallacianos.

segunda-feira, junho 29, 2009

If you've forgotten what I'm naming


quinta-feira, junho 25, 2009

Sou tão prestável

Agora do que eu gostaria mesmo era que alguém sugerisse um de Robert Browning (gosto de simetrias). (Linha dos Nodos)

No The Sweet Hereafter do Egoyan, antes do acidente, a rapariga maluca lê um excerto do "The Pied Piper of Hamelin" (do Browning) aos seus coleguinhas.
Já agora, no The Trouble With Harry o médico tropeça no cadáver do Harry porque vai a ler um soneto de Shakespeare (tenho uma história parecida que aconteceu em Monsanto, mas conto noutra altura). E, por falar em sonetos, no a todos os níveis excelente Exorcista III (o filme que inclui um dos melhores diálogos sobre carpas da história do cinema), ouve-se aquele soneto do John Donne em que o sujeito poético aconselha a Morte a bater a bolinha baixa, na medida em que o guarda-redes é anão.

quarta-feira, junho 24, 2009

Aldaily temático, seguido de modesto exercício de tipologia e de final abrupto por motivos de pequeno-almoço

Tendo relido por ordem cronológica toda a não-ficção que o homem escreveu (o absurdo e embaraçoso contexto emocional não vai ser abordado, até porque a absurda e embaraçosa sensação de que o seu suicídio foi um gesto que me ofendeu directamente ainda não se dissipou), estou em condições de afirmar que David Foster Wallace foi a pessoa mais inteligente que li na minha vida.
A afirmação é discutível, a vida em questão é curta, e a inteligência é difícil de quantificar, mas acho que se impõe aqui o post chato que aqui se impõe. Antes, contudo, my own private aldaily:

«Tennis, Trigonometry, Tornadoes» (pdf) - a mais inteligente biografia psíquica, intelectual e biomecânica de todos os tempos. Tem nove páginas. Permitam-me que vos mostre um bocadinho de cueca: « ... The point is I just wasn't the same, somehow, without deformities to play around. I'm thinking now that the wind and bugs and chuckholes formed a kind of inner boundary, my own personal set of lines. Once I hit a certain level of tournament facilities, I was disabled because I was unable to accomodate the absence of disabilities to accomodate».

«The Empty Plenum» (pdf) - uma recensão crítica ao romance de David Markson, “Wittgenstein's Mistress”, publicada na Review of Contemporary Fiction. Evidentemente a recensão crítica mais inteligente de todos os tempos. É que não há competição por perto, sequer.

«The String Theory» e «How Tracy Austin Broke My Heart» (já houve link para este, agora não há) - Os mais inteligentes textos sobre ténis de todos os tempos (reparem no padrão). O texto sobre Federer, que fique bem claro, é o terceiro texto sobre ténis mais inteligente de todos os tempos, mas ainda assim a uma larga distância deste díptico. O primeiro texto foi publicado originalmente na Harper's e uma versão não-editada aparece na primeira colecção de ensaios de Wallace, com o título original (“Tennis Player Michael Joyce's Professional Artistry as a Paradigm of Certain Stuff about Choice, Freedom, Discipline, Joy, Grotesquerie and Human Completeness”). O segundo é uma pequena crítica à autobiografia de Tracy Austin e aparece na segunda colecção de ensaios. Em conjunto, e entre muitas outras coisas que fazem ao cérebro, propõem uma teoria sobre a constituição do génio desportivo, que postula que o talento atlético é indissociável de uma ausência ontológica, uma espécie de vácuo neo-Zen que permite computar um número ridículo de variáveis de uma forma hiper-consciente mas ao mesmo tempo puramente mecânica, e criar uma simbiose entre agência e acção assente na adopção literal de clichés motivacionais, etc etc etc. Além de estabelecerem a melhor defesa teórica da beleza estética do ténis (de todos os tempos), e de articularem a melhor defesa teórica das limitações intelectuais dos atletas profissionais (de todos os tempos), os textos também incluem piadas.

«The Weasel, Twelve Monkeys and the Shrub» - A célebre reportagem sobre a campanha de John McCain nas Primárias Rebublicanas de 2000. A Rolling Stone acabou por publicar apenas 50% do texto original, mas a versão restaurada, e com notas de rodapé, pode ser lida na colecção Consider the Lobster (com o título «Up, Simba»). Isto é muito mais do que a mais inteligente reportagem política (agora em coro) de todos os tempos, embora também o seja. É uma condensação daquilo que, à falta de melhor alternativa, se pode chamar o tipo específico de inteligência de Wallace, algo de que falarei para aqui sozinho um pouco mais à frente.

«A Supposedly Fun Thing I'll Never Do Again» (pdf) - Temos aqui o apogeu de qualquer coisa, parece-me. O relato de uma viagem de cruzeiro, escrito em 1995, também para a Harper's, é o texto (sem qualificativo) mais inteligente de todos os tempos. Esta histérica certidão pode muito bem ser o resultado não apenas de um processo emocional cumulativo, como também do calor que se tem feito sentir, possibilidades que não voltarão a ser exploradas.
Definir algo como "o mais inteligente" requer provavelmente que se defina o termo, portanto façamos um modesto exercício - inspirado em Howard Gardner - sobre a minha definição operativa de inteligência, atributo que tive o cuidado e as férias de separar (com a ajuda inestimável do alfabeto) em cinco categorias, e que, para este efeito, está limitado à inteligência que pode ser apreendida através da escrita:

Tipo A - A inteligência cuja principal característica é a clareza de raciocínio: a fluência intelectual e a facilidade de exposição que cinzelam a complexidade até um linear encadeamento de factos. O estilo é um factor determinante, mas o seu impacto não é notório. É a inteligência de David Hume, William Hazlitt, George Orwell, V. S. Pritchett, Eric Hobsbawm e, para esticar os exemplos a “pessoas portuguesas com blogs” (que também são gente), Ivan Nunes, António Figueira e Pedro Picoito.

Tipo B - É a inteligência que mais depende de um estilo literário, a que pode mais facilmente ser imitada por pessoas não-inteligentes, e também a menos estanque e mais sujeita a overlaps com outras categorias, pelo que me vou socorrer de números para chafurdar em dois sub-tipos.
tipo B1 - A inteligência céptica e iconoclasta. É um tipo de inteligência semi-narcisista, muito confortável com as suas características, que tende a adoptar uma pose cínica e preconceitos teóricos que muitas vezes dão a ideia de poderem perfeitamente ser outros. Mais do que em qualquer outro tipo, a estabilidade é ancorada numa fórmula estilística. Exemplos: Frederick Crews, Vasco Pulido Valente e Gore Vidal, este último com nítido overlap para o tipo A. (H. L. Mencken e João Gonçalves, já agora, são exemplos do que acontece quando os portadores destas características se apaixonam pelo próprio esqueleto e se tornam paródias privadas, asfixiando a ex-inteligência num transtornante aparato auto-erótico davidcarradinesco).
tipo B2 - a inteligência especulativa, arrojada e insolente. É o tipo de inteligência que mais corteja o ridículo. Há uma marcada predilecção pela ligação insólita, pela interpretação oblíqua, pela exploração de tudo o que é contra-intuitivo. É frequentemente o tipo de inteligência mais entusiasmante e com maior valor de entretenimento, mas também a que mais tende a decepcionar. Exemplos: Henry Adams, Norman Mailer, Susan Sontag, George Steiner, Pedro Arroja.
Como referi, é a categoria mais fluida. Isaiah Berlin é um potencial tipo A a escorregar para o B2. Malcolm Gladwell é um tipo B2 que finge ser tipo A. O maradona é uma síntese espiritual quase perfeita dos tipos B1 e B2 que, certamente por motivos acidentais e não-planeados, consegue quase sempre ser tipo A.
(Apesar de todas estas condicionantes, tenho o tipo B sob controlo, não se preocupem).

Tipo C - A inteligência volumétrica, cuja medida não é necessariamente a qualidade, mas a quantidade e a intensidade. Isto não faz do tipo C o Ramires da tipologia, atenção. O tipo C é tão ou mais digno de respeito e assombro do que os outros. É uma inteligência de seriedade, de trabalho, de rigor, de organização - e de energia. Se houvesse um símbolo que evocasse o tipo C seria um arquivo infinito espalhado ao longo de uma pista de tartan. Os exemplos óbvios são Edmund Wilson, Pacheco Pereira e João Miranda.

Tipo D - A inteligência mais avassaladora. É a mais profunda (uso o termo “profundo” no seu sentido superficial) mas também a de perímetro mais reduzido (uso o termo “reduzido” no seu sentido lato). É uma inteligência de fôlego, confortável com abstracções, que tende para a sistematização (é a mais frequente em académicos), e que extrai a maior densidade intelectual do menos promissor aglomerado factual. Tem lacunas, mas lacunas que costumam resultar de demolições controladas e auto-induzidas. Exemplos: Pierre Bourdieu, Frederic Jameson (ambos com laivos de B2, mas enfim), Clifford Geertz, João Galamba e Yesterday Man (embora este último caso seja muito mais complicado).

A inteligência de David Foster Wallace, com assinalável desrespeito pelo alfabeto e pelo meu trabalho, não cabe em nenhuma destas categorias. Reune características de todas elas (com a clara excepção do tipo B2), mas é falível, enrodilha-se em nós cegos e mete-se em becos sem saída, pois adiciona tantas camadas de auto-reflexividade a cada característica individual que, aplicadas à motricidade, fariam com que fosse impossível atar um sapato sem entrar em convulsões. É uma inteligência exaustiva, no duplo sentido da palavra: esgota-se a esgotar possiblidades.
Quando observa os outros (McCain, Michael Joyce ou o rapaz das toalhas no cruzeiro), quando se observa a si próprio, Wallace dá o benefício da dúvida a cada gesto, a cada frase; e dar o benefício da dúvida é uma das actividades mais fatigantes que conheço. É uma posição ética que nasce da curiosidade e da empatia, mas também resulta de um pânico filosófico genuíno sobre questões de autenticidade emocional, que pode ser forjada não apenas para terceiros, mas também (e isto para ele era uma história de terror) ao nível interno. Se a minha consciência sobre um determinado sentimento é total, como é que posso ter a certeza de que o sentimento é autêntico e não uma construção? (etc)
Wallace aprendeu que a liberdade mais importante é a auto-consciência, mas que esta (por definição) precisa de si própria para aprender a ser utilizada, o que inaugura dificuldades enormes nisto de ser pessoa. Também aprendeu que ser boa pessoa é a melhor forma de inteligência. A sua inteligência antecipa cada passo de quem o lê, mas também permite que os seus próprios passos sejam antecipados. É a inteligência que expande e eleva o que a rodeia. É a inteligência da civilização, e de tudo o que veio a seguir aos calhaus e aos bichos. E faz falta, faz tanta falta.

quinta-feira, junho 18, 2009

Algumas considerações sócio-políticas sobre a entrevista de José Sócrates à SIC

Estou a brincar, por amor de Deus. Mas não devo ter sido o único a reparar na nova voz estreada hoje em primeira mão na presença da Ana Lourenço. Como é sabido, o primeiro-ministro era, até hoje, talvez o único líder mundial que falava em jazz. Cada palavrinha era cuidadosamente sincopada, com a acentuação a ser sempre deslocada para a sílaba mais inesperada - os "tambéns" e os "portantos" de Sócrates pareciam os "powers" e os "peoples" de Stevie Wonder em «Higher Ground»:



Pelo pouco que ouvi, a noite de hoje marcou o momento em que passámos a ter um primeiro-ministro em compasso normal, o que provavelmente explica as dificuldades sentidas por Ana Lourenço em disfarçar aquele ar de quem se enganou a contar os sedativos. Tudo isto me deixou um bocadinho triste, mas rogo-vos que não se preocupem comigo que isto já passa. O importante é Portugal.

quarta-feira, junho 17, 2009

Ficção engomada


Foram umas férias excelentes, cuja excelência não foi sequer posta em causa pela súbita e inesperada revelação de que a direcção do Sporting prestes a ser substituída pelo tio do Pedro Granger poderia ter angariado fundos suficientes para financiar a recontratação do atleta português Cristiano Ronaldo através de um expediente logisticamente complexo, mas perfeitamente ao alcance da família sportinguista: matar oito milhões de criancinhas à fome. Não sei como é que nenhum núcleo se lembrou de fazer um abaixo-assinado.
Enfim, a ficção “experimental”. De vez em quando, normalmente quando estou a passar a ferro, dou comigo a reflectir sobre a ficção "experimental". Estas soberbas reflexões, que já colocaram em risco a integridade de inúmeras t-shirts do catálogo Printemps, não se costumam afastar muito da mesma crosta, que é o facto de a ficção "experimental" ser, regra geral, praticada por dois tipos de autores: génios aborrecidos com o seu próprio talento, e mediocridades indignadas com a sua ausência de talento.
A última vaga de reflexões foi despoletada por dois objectos recém-adquiridos: um exemplar do livro The Raw Shark Texts, de Steven Hall, e umas calças extraordinariamente obstinadas, adquiridas por 39 euros (para evocar a quantia em termos mais actuais, esclareço que o atleta português Cristiano Ronaldo poderia adquir 25 calças idênticas por hora durante os próximos cinco anos e ainda ficar com dinheiro suficiente para cobrir as despesas de alimentação do João Gobern). Como tantos outros livros hoje em dia, The Raw Shark Texts é a história de um homem perseguido por um tubarão conceptual. As perspectivas de vida não são boas, mas um capítulo intitulado "The Crypto-Zoology of Purely Conceptual Sharks, Dictaphone Defense Systems and Light Bulb Code Cracking" sugere algumas medidas preventivas. A mais segura é montar um sistema de defesa formado por quatro dictafones de reprodução contínua, cujo objectivo é “gerar um ciclo conceptual não divergente”, e presumivelmente permitir ao protagonista ser processado por plágio pelos herdeiros de John Cage.
O livro pertence a uma nova estirpe literária: o livro-evento. Evento, não no sentido publicitário, mas no sentido comunitário, em que o acto de estar sentado a virar páginas é apenas metade da experiência. Depois, num géiser de geekalhice, somos arremessados para os fóruns, para os wikis, à procura de ovos de Páscoa e de co-obcecados. Também há fotos e rabiscos,


o mais arrojado dos quais se prolonga por quarenta e cinco páginas, e consiste na representação gráfica da aproximação de um tubarão feito de palavras, uma versão ligeiramente mais sofisticada daquilo que qualquer pessoa aprende a fazer aos sete anos, com duas tiras de papel e um lápis:

Isto é tudo muito divertido, e já se fizeram livros excelentes através de métodos semelhantes (o fabuloso House of Leaves estabeleceu o padrão de qualidade a que se deve almejar). Mas também sugere que a linha de evolução na ficção experimental - que começou por traduzir impaciência com um espartilho específico de convenções do realismo - começa agora a traduzir impaciência com tudo e mais alguma coisa. Uma coisa é usar as estratégias da ficção para explorar limites formais e estruturais; outra, bem diferente, é abraçar métodos tão radicalmente diferentes que resultarão inevitavelmente numa forma de expressão que só por hábito ou condescendência continuará a merecer a designação de literatura. Quando o foco do "experimentalismo" é apenas o moldar do texto à última inovação - ficção hiper-textual, ficção twitter, etc. - a literatura arrisca-se a ser apenas a expressão de uma tecnologia, o que não deve ser nada bom, e é provavelmente altura de perder uns minutinhos a passar a ferro e a pensar na vida. (Provavelmente havia escritores vitorianos entusiasmadíssimos com a ideia de "épico metalúrgico" ou de "poesia a vapor", mas os seus esforços não perduraram).
The Raw Shark Texts, já agora, foi recentemente traduzido e publicado pela Presença (com o título Memória de Tubarão), e pode ser adquirido por 22 euros. Para evocar a quantia em termos mais actuais, digamos que o atleta português Cristiano Ronaldo poderia adquirir um exemplar de dois em dois minutos durante os próximos cinco anos, e ainda ficar com dinheiro suficiente para snifar oitocentas linhas de cocaína directamente da nádega da esposa do autor através de uma palhinha com banho de ouro, rodeado por uma trupe de anões montados em uniciclos cantando versões a capella dos grandes êxitos dos Oasis.

Emo Kid is throwing slow-mo dove at my face

Horse montaaaage!

quinta-feira, maio 21, 2009

O meu nível de alerta com a situação James Wood está prestes a ser actualizado para 4

Tenho tantos, mas tantos problemas com este texto que o mais provável é que nunca comece a confessá-los. Uma pessoa deixa passar a ligeira sugestão de desonestidade em pelo menos duas conclusões. Uma pessoa deixa até passar a gritante confusão conceptual com um termo de Shklovsky. Uma pessoa deixa passar essas coisas todos os dias, no fundo, neste mundo cão. O que é realmente revolucionário no texto, suficientemente revolucionário para inaugurar novos canais de transpiração intelectual na minha pessoa, é o facto de ser o primeiro texto de James Wood com um parágrafo completamente incoerente. Não digo qual é, evidentemente, porque primeiro tenho de decidir o que é que vou fazer à minha vida. O primeiro passo será talvez admitir que estou muito, muito errado em relação a isto tudo e que James Wood tem toda a razão.

Estamos todos mais uma vez de parabéns

«O meu número favorito é nove, qualquer coisa nove. Há muito tempo que o é. Desde muito antes de, ainda vós nem. Aquilo de estar lá quase é muito bem conseguido. O seguir-se-lhe o zero, então, é perfeito. O nove, qualquer coisa nove, prova que afinal sempre somos capazes. Estamos todos mais uma vez de parabéns.»

(No Agrafo, que, para circunscrever a coisa o mais possível, é um dos três melhores blogues do mundo).

segunda-feira, maio 18, 2009

Watergate

Mais um fim-de-semana televisivo concluído com sucesso. A maratona começou a todo o vapor com uma sessãozinha de All The President's Men (um filme que hei-de rever todos os anos até atinar com a dicção de Jason Robards), e depois com o Festival da Eurovisão, que agora se encontra numa fase de expansão semelhante à que a Liga dos Campeões atravessou aqui há uns anos; muito em breve deveremos ter uma fase de grupos. Para já, tivemos direito a duas semi-finais - o que é mais ou menos equivalente a dizer que o Inferno de Dante tinha nove eliminatórias.
A apresentação dos participantes foi feita com recurso à habitual estenografia biográfica do certame: aprendemos, por exemplo, que os eslovenos são "bons esquiadores". Uma das cantoras foi descrita como uma "economista com formação em teatro", o que sugeriu uma panóplia de possibilidades interessantes para o futuro de Manuel Pinho, como emagrecer dezasseis quilos antes de uma conferência de imprensa, ou anunciar um pacote de medidas de incentivo às pequenas e médias empresas directamente baseado nos ensinamentos de Lee Strasberg ("Breathe! Breathe!").
O destaque da noite (além da estonteante representante do Azerbeijão, que piscava os olhos como se estivesse a preparar um esturgido) foi a delegação de um dos países de Leste, cujo nome não apanhei, mas que provavelmente é terra de bons esquiadores, e cuja vocalista berrou um par de estrofes escondida atrás de um biombo. Muita gente não sabe, mas foi assim que Mark Felt revelou a Bob Woodward os pormenores do caso Watergate: atrás de um biombo, e rodeado de violinistas eslavos de sapatos amarelos.
Na SIC, Bárbara Guimarães deu início à gala dos Globos de Ouro soprando um saxofone como se estivesse a ser atacada por ele. Antes disso, um especial de meia-hora subordinado ao tema "passadeira vermelha" revelara algumas informações pertinentes, nomeadamente o facto de a passadeira em questão ser cor-de-rosa. O repórter Daniel Nascimento revelou um notável talento para transformar a pergunta mais inócua num insulto. Ao falar com um dos candidatos ao galardão de melhor modelo, incluiu na pergunta uma sugestão de cambalacho: "Foste a nomeação mais inesperada do ano. Tens alguma ideia de que porque é que foste nomeado?". Ao falar com o Rui Reininho, incluiu na pergunta uma sugestão de obsolescência: "Rui, nessa idade... ainda faz algum sentido ganhar prémios?" Conseguiu, no entanto, redimir-se, terminando a entrevista com Manoel de Oliveira com os votos sinceros de "um brilhante futuro", para essa jovem promessa. Manoel de Oliveira, com palavras à altura das circunstâncias, revelou que não se sentia uma estrela, apenas "um pobre planeta".
Jesualdo Ferreira, com o ar inconfundível de quem se sente uma próspera supernova, cruzou-se por breves momentos com Gary Oldman, ainda envergando a maquilhagem que usou em Dracula, mas que a entrevistadora tratou estranhamente como "Lili Caneças". Ricardo Costa e Nuno Rogeiro assinalaram a sua seriedade com um permanente cruzar de braços; podiam muito bem marcar presença naquela Babilónia, mas ninguém os ia apanhar a esbracejar que nem plebeus.
A cerimónia progrediu a bom ritmo. Os prémios de representação, em que pessoas são reconhecidas pelo seu soberbo talento em fingir que são outras pessoas, foram entregues seguindo o modelo dos Óscares: um apresentador diferente recitava um pequeno poema em prosa a cada candidato. O estilo era consistentemente catastrófico, apesar de Ruy de Carvalho ter agido como se estivesse perante uma resma de pentâmetros iâmbicos. Soraia Chaves, lendo o teleponto como se fosse o Código de Hammurabi, deu por si a dizer que o trabalho de uma determinada actriz revelava "a dedicação de uma actriz dedicada". Maria José Paschoal e Nuno Lopes foram considerados os nomeados com mais talento para fingirem que não são Maria José Paschoal e Nuno Lopes. O seio esquerdo de Bárbara Guimarães, como Steve McQueen em The Great Escape, passou grande parte da noite a congeminar planos de fuga, mas sem grande sucesso. Cristiano Ronaldo entrou em directo, salientando a importância deste "globo de Portugal". Um convidado musical foi identificado como Pol Pot. Tudo acabou demasiado cedo, como o segundo mandato de Nixon.

Corta-mato na Jordânia

Ocorreu-me recentemente a indecência de nunca se ter aqui feito um link para este blogue, nomeadamente quando no blogue em questão se podem ler coisas como este post, ou um post ainda melhor, que é este post, do qual passo a apresentar um excerto relevante, em itálico:

«Liguei a televisão e, ao meio-dia, a RTP2 passava um filme de Abbas Kiarostami. A cena mostra em primeiro plano uma mulher de lenço branco na cabeça a caminhar ao lado de um homem de parka vermelha. Ao fundo, uma multidão em movimento rápido aproxima-se. A câmara ignora o casal e foca o grupo que se desloca em passo de corrida. Percebe-se agora que são na sua maioria mulheres negras, provavelmente masai. Só quando passam junto à câmara é que me apercebo que estou a ver o campeonato do mundo de corta-mato, na Jordânia. »

(O autor do blogue é a pessoa com três nomes atlânticos Bruno Vieira Amaral, uma das poucas pessoas com três nomes atlânticos cujos três nomes atlânticos nunca se vão tornar intercambiáveis na minha cabeça fatigada. Os avanços na ciência neurológica podem fazer-me chegar aos noventa anos: tenho a certeza absoluta de que nunca lhe vou chamar Bruno Andrade Neves ou Bruno Azevedo Abrantes.)

quinta-feira, maio 14, 2009

Os dias sem vocês não são a mesma coisa

Tenho estado ocupado a consubstanciar dilematicamente conceitos prévios tolhidos pelas dificuldades operacionais da metacomunicação interna, mas tirando isso está tudo relativamente bem. Não queria deixar de realçar a grande notícia que vem escondidinha na secção "In Production" da Sight & Sound de Maio, e que passo a transcrever, com a delicadeza e amabilidade que me caracterizam nestes períodos pré-eleitorais (por favor, não votem na lista do Pedro Souto, o homem é claramente louco):

«The Coen Brothers follow their forthcoming black comedy 'A Serious Man' with an adaptation of CHARLES PORTIS' [as maiúsculas e negritos histéricos são meus] western novel 'True Grit', about a 14-year-old girl who travels with two lawmen to track down her father's killer. The novel was of course previously adapted in 1969, with John Wayne winning an Oscar for his iconic portrayal of ageing lawman Rooster Cogburn. The Coens promise a different spin on the story by telling it from the point of view of the girl [o que, no fundo, é tudo o que pedi]».

E tu, não dizes nada? Hã?

quinta-feira, abril 23, 2009

Italo Calvino e a Máquina dos Peidos


Os meus vastos conhecimentos sobre a internet já me permitiram topar uma coisa espantosa que vai com certeza revolucionar a maneira como todos vocês olham para o mundo: a internet sabe onde é que nós estamos. A internet sabe onde é que nós estamos! Várias pistas contribuiram para esta descoberta, nomeadamente a quantidade de sites a prometer-me que "nasty sluts from Cova da Piedade want to strum your banjo", e o facto de a William Hill me tentar convencer com alguma insistência a apostar nos jogos do Vitória de Setúbal. Mas devia haver uma maneira qualquer de impedir que um blog literário americano encaixasse a Máquina dos Peidos entre posts sobre Calvino e Sebald. Entre Burroughs e Bukowski uma pessoa aceita estas coisas, mas Calvino e Sebald? Eu sou uma pessoa séria. Tão séria, aliás, que consegui terminar este post sem elaborar uma piada com a Máquina dos Peidos e a expressão "tracking cookie".

quinta-feira, abril 16, 2009

Que ninguém volte a dizer mal da internet à minha frente


O que aconteceu foi o seguinte. No final dos anos oitenta, o Canal 1 da RTP passou um filme. Eu vi o filme. Depois esqueci o filme. No final dos anos noventa, meti na cabeça que me queria lembrar do filme. Um colega de faculdade chamado Nuno falou-me numa coisa chamada google. Mostrou-me o que era a coisa chamada google. A minha primeira pergunta ao google foi "Como é que se chama aquele filme dos anos oitenta em que há assim uma família num subúrbio, e depois um gajo que quer entrar no Inferno, mas num Inferno onde só se pode entrar com fato de astronauta, sabes? Obrigado." Mas nada aconteceu. Fiquei desiludido com o google. Repeti a pergunta a umas duzentas pessoas ao longo dos anos seguintes. Em vão. Fiquei desiludido com as pessoas. Decidi esquecer-me outra vez do filme. Entretanto, a internet cresceu. Eu não. Voltei a querer lembrar-me do filme. E ontem à noite, com os termos de busca menos promissores da história dos termos de busca, cheguei a um fórum com o comovente título «Post The Plot Of That Movie That You Can't Remember The Name Of Here», onde alguém chamado Mr. Hat colocava a seguinte questão, que eu li com uma sensação muito próxima daquilo a que vocês humanos se referem como felicidade:
«I seem to recall something that involved a guy who ends up using a spacesuit (or similar) to visit hell. Or possibly that hell somehow came to earth and he used the suit to survive in it. I think the suit had a special HUD as well.
Probably either a film around the 80's or maybe a Twilight-zone style thing.Anyone got a clue what it was called?»
O filme chama-se Invitation to Hell. Há aqui um clip e tudo, por amor de Deus. Que ninguém volte a dizer mal da internet à minha frente.

(A internet ainda não foi capaz de solucionar esta outra dúvida, mas é só uma questão de tempo).

domingo, abril 05, 2009

I am a bankruptcy


Ainda estou a recuperar do facto de uma pileca anoréxica a 100/1 ter ganho a Grand National deste ano. Tinha já as férias planeadas com as 25 libras da praxe no State of Play - odds modestas a 14/1, mas apostar que a próxima corrida vai favorecer o State of Play costuma ser o equivalente a apostar que o próximo livro do Philip Roth vai favorecer a nostalgia do bóbó em Newark. Ainda vasculhei a lista de participantes à procura de referências ao The Wire para uma apostazinha suplente, mas em vão.
O que não significa que não tenha achado referências ao The Wire noutro sítio - elas hoje aparecem nos sítios mais insólitos. Uma das coisas que me incomodara a memória nos primeiros episódios tinha sido a utilização de construções do género "he's a good police", que eu sabia ter já ter lido algures no meu passado selvagem. Para grande consternação de membros da família mais chegados (inclusivamente aqueles que subscrevem a dúbia teoria de que «a maionese te anda a deixar queimadinho») só demorei três semanas a lá chegar. O Night Train do Martin Amis começa assim:
"I am a police. That may sound like an unusual statement -- or an unusual construction. But it's a parlance we have. Among ourselves, we would never say I am a policeman or I am a policewoman or I am a police officer. We would just say I am a police".
Uma pesquisa exaustiva entretanto efectuada por mim, envolvendo aproximadamente um copy-paste para o google, revelou que este parágrafo deu origem a uma resposta histérica de John Update, que, na crítica que fez ao livro no Sunday Times, terá afirmado "'I am a police' . . . the first of a number of American locutions new to this native speaker". John Update, evidentemente, é o primeiro escritor americano que vem à cabeça quando se pensa numa autoridade em calão policial.
Curiosamente, uma segunda pesquisa exaustiva entretanto efectuada por mim, envolvendo aproximadamente um segundo copy-paste para o google, recuperou a seguinte resposta de Martin Amis: "There's nothing strange about it," Amis says, bristling slightly. "I got a lot of my stuff from David Simon's book Homicide. His city is Baltimore, and that's what they say there, and I'll bet they say it in a few other cities, too. It's a wonderful book, and a great help to me. That's where I point people like John Update".

quinta-feira, abril 02, 2009

Certifying the nonexistence of elves

Um artigo do espectacular Michael Lewis na Vanity Fair que é citável de uma ponta à outra. De uma ponta à outra:

«(...) The best way to see any city is to walk it, but everywhere I walk Icelandic men plow into me without so much as a by-your-leave. Just for fun I march up and down the main shopping drag, playing chicken, to see if any Icelandic male would rather divert his stride than bang shoulders. Nope. On party nights—Thursday, Friday, and Saturday—when half the country appears to take it as a professional obligation to drink themselves into oblivion and wander the streets until what should be sunrise, the problem is especially acute. The bars stay open until five a.m., and the frantic energy with which the people hit them seems more like work than work. Within minutes of entering a nightclub called Boston I get walloped, first by a bearded troll who, I’m told, ran an Icelandic hedge fund. Just as I’m recovering I get plowed over by a drunken senior staffer at the Central Bank. Perhaps because he is drunk, or perhaps because we had actually met a few hours earlier, he stops to tell me, “Vee try to tell them dat our problem was not a solfency problem but a likvitity problem, but they did not agree,” then stumbles off.
(...)
Because Iceland is really just one big family, it’s simply annoying to go around asking Icelanders if they’ve met Björk. Of course they’ve met Björk; who hasn’t met Björk? Who, for that matter, didn’t know Björk when she was two? “Yes, I know Björk,” a professor of finance at the University of Iceland says in reply to my question, in a weary tone. “She can’t sing, and I know her mother from childhood, and they were both crazy. That she is so well known outside of Iceland tells me more about the world than it does about Björk.”
(...)
When Neil Armstrong took his small step from Apollo 11 and looked around, he probably thought, Wow, sort of like Iceland—even though the moon was nothing like Iceland. But then, he was a tourist, and a tourist can’t help but have a distorted opinion of a place: he meets unrepresentative people, has unrepresentative experiences, and runs around imposing upon the place the fantastic mental pictures he had in his head when he got there. When Iceland became a tourist in global high finance it had the same problem as Neil Armstrong.
(...)
There’s a charming lack of financial experience in Icelandic financial-policymaking circles. The minister for business affairs is a philosopher. The finance minister is a veterinarian. The Central Bank governor is a poet.
(...)
Alcoa, the biggest aluminum company in the country, encountered two problems peculiar to Iceland when, in 2004, it set about erecting its giant smelting plant. The first was the so-called “hidden people”—or, to put it more plainly, elves—in whom some large number of Icelanders, steeped long and thoroughly in their rich folkloric culture, sincerely believe. Before Alcoa could build its smelter it had to defer to a government expert to scour the enclosed plant site and certify that no elves were on or under it. It was a delicate corporate situation, an Alcoa spokesman told me, because they had to pay hard cash to declare the site elf-free but, as he put it, “we couldn’t as a company be in a position of acknowledging the existence of hidden people.”
(...)
Back away from the Icelandic economy and you can’t help but notice something really strange about it: the people have cultivated themselves to the point where they are unsuited for the work available to them. All these exquisitely schooled, sophisticated people, each and every one of whom feels special, are presented with two mainly horrible ways to earn a living: trawler fishing and aluminum smelting. There are, of course, a few jobs in Iceland that any refined, educated person might like to do. Certifying the nonexistence of elves, for instance. (“This will take at least six months—it can be very tricky.”) But not nearly so many as the place needs, given its talent for turning cod into Ph.D.’s. (...)»

terça-feira, março 31, 2009

Jeeves and the Trilateral Commission


Como qualquer artefacto literário do género "Teoria Unificada da Conspiração" (e acreditem que ando a tentar lê-los todos), Toda a Verdade sobre o Clube Bilderberg é um relatório psiquiátrico banhado por um colossal autoclismo de pesquisa bibliográfica. Não sei onde é que estes malucos arranjam tempo para ler todos os malucos que vieram antes deles; eu praticamente já não durmo e, mesmo assim, sinto que ainda nem vou a meio.
Há algo de francamente intimidante em ver uma patologia política tão rigorosamente sistematizada. Uma pessoa quer chamar os bombeiros, mas fica reduzida a ponderar temas ponderosos - as ansiedades epistemológicas da pós-modernidade, a caricatura da Razão produzida pelo cepticismo radical das novas sub-culturas do tédio, etc etc.
O mesmo material, evidentemente, teria dado um romance esplêndido. Daniel Estulin (que nome tão bom) revela um talento muito peculiar, e provavelmente involuntário, para a farsa aristo-burocrática. Há aqui passagens que podiam ter sido escritas por um P. G. Wodehouse com acesso à internet:
«... a ideia foi de Alastair Buchan (membro da administração do RIIA e da Távola Redonda, bem como filho de Lord Tweedsmuir) e Duncan Sandys (político de renome e genro de Winston Churchill), que era amigo de Rettinger, e também ele padre jesuíta e pedreiro-livre em 33º grau».
Há dúzias de coisas assim, dúzias. E também se aprende que o escândalo Casa Pia foi orquestrado "nos bastidores" por membros do Clube Bilderberg para possibilitar a ascensão política de José Sócrates (pela minha saúde). Para mais pormenores terão de comprar o livro, que foi traduzido para português pela Europa-América, e publicado na sua colecção "Biblioteca das Ideias", onde vai fazer companhia ao Pascal Bruckner, ao Marc Ferro e ao Paulo Tunhas, que devem estar todos felicíssimos.

quarta-feira, março 25, 2009

The death of the dead guy that died

O segundo post de hoje é subordinado a este texto profundamente ofensivo, que foi descoberto e lincado de uma forma profundamente ofensiva pelo Bibliotecário de Babel. O texto tem a sua piada. Mas a piada que tem não deve nem por um instante distrair-nos do essencial, que é o facto de o texto me ter ofendido profundamente.
O texto quer ser um manual de receitas rápidas para a elefantíase literária. A comédia da coisa - que é, a espaços, ternurenta, e que distribui equitativamente as suas veladas antipatias - parte, ainda assim, de um princípio duvidoso, de um princípio, diria mesmo, profundamente ofensivo: o de que a elefantíase literária é uma coisa artifical, uma espécie de levedura retórica utilizada para insuflar desonestamente um parágrafo que podia ter sido mais curto. Quero deixar bem claro que isto é mais profundamente ofensivo do que uma conferência de imprensa do João Gabriel. Os minimalistas, esses animais, deviam todos ser compulsivamente tatuados na testa com uma citação completa do Thomas Wolfe, que, em resposta a uma carta profundamente ofensiva de F. Scott Fitzgerald sugerindo algum desbaste lexical, disse mais ou menos isto: «Well, don't forget, Scott, you bumbling anorexic faggot, that a great writer is not only a leaver-outter but also a putter-inner, and that Shakespeare and Cervantes and Dostoievsky were great putter-inners — greater putter-inners, in fact, than taker-outers — and will be remembered for what they put in — remembered, I venture to say, as long as that smelly cheese-eating-surrender-monkey Pedro Silva-chest-incident-denialist Monsieur Flaubert will be remembered for what he left out».
Um estilo literário, para reiterar o que deveria ser algospasmicamente evidente, não é um puzzle com peças opcionais. É uma maneira de pensar e de ver, uma ética orgânica cujos princípios não são negociáveis.
Este texto profundamente ofensivo tem o seu reflexo humanista noutro texto que eu, curiosamente, acabei de escrever, em língua inglesa, para o diário russo Kommersant. Um texto que inverte a maliciosa engenharia do protótipo e ensina o neófito escrivão a mirrar a sua arte à maneira afónica de Hemingway. Apresento agora uma versão resumida do meu texto em língua inglesa para o diário russo Kommersant, pelo qual peço imensas desculpas à população em geral e ao Filipe Guerra em particular:

Shrinking masterpieces with Ernest Hemingway

0. Begin with a masterpiece, such as «The Death of Ivan Ilyich» (Ex: «The Death of Ivan Ilyich»)

1. Force some complex anti-aesthetic surgery on the aforementioned masterpiece, removing what is known in literary circles as "every fucking detail that makes it a masterpiece".

2. You can accomplish this by covering the masterpiece in lubricant and subjecting it to a sweaty aerobics session, to the sound of pounding german techno.

3. Remove all symbols, unless they are painfully obvious, as well as all motifs, and lengthily developed themes; replace them all with faux-macho sentimental shit. And rain.

4. Cut off all organic links between your style and your subject matter; forget all your russian homosexual meditations on the senseless tragedy of death after a proper but unfulfilled life. Treat death as something that happens just before it rains.

5. Suffocate your language's vitality with a string of short sentences. Drown your rhythm in a vat of fake pathos. Add more rain.

6. Don't even think about setting up some high-falutin' dichotomy between the spiritual authenticity of a vaguely apprehended inner life and your actual decaying physical casket. Just focus on the rain, and shoot some more adjectives in the face with a big manly shotgun.

7. Give it that Hemingway shine. In the end, you will have turned «The Death of Ivan Ilych» into two simple, boring, suicide-inducing sentences:

"He looked very dead. It was raining."

Sandro! (& chocolate chip cookies)

O post de hoje é subordinado ao tema "Sandro!", como é utilmente sugerido logo no título. O vocábulo "Sandro!" que deve ser sempre gritado, e nunca, em circunstância alguma, pronunciado com indiferença, refere-se ao imortal Sandro de América - uma combinação blasfema de Tom (Jones), Tony (de Matos), e Tourette's (syndrome), que anda a humedecer cuecas sul-americanas desde a década de 60, e que continua a apresentar intrigantes desafios à inquestionável heterossexualidade de todos nós, os inquestionavelmente heterossexuais. Passo agora à apresentação de exemplos:



Chamo a atenção das vossas já lubrificadas retinas para o trepidante passo de dança entre os 0:23 e os 0:26 segundos - um espástico moonwalking medieval executado, nas palavras profundamente invejosas de um dos comentadores do vídeo, por "um rapazinho com poliomelite". Avancemos em direcção ao trigal:



Nota-se já aqui uma evolução estética. As calças prescindiram do cinto porque, francamente, quem precisa de um? A dança é feita com um braço atrás das costas porque, francamente, quem precisa de dois? A transpiração fica para ali quietinha na cara dele, aterrorizada por se ter encontrado subitamente numa estátua da Ilha de Páscoa. Sandro afirma com serenidade que é o "dueño" do nosso "fruto", o que me parece irrefutável. Realce também para o gesto proto-Paulobentino ao minuto 1:16, demonstrando a existência de um consenso atemporal sobre o facto de a bola ter batido no peito do Pedro Silva. Por último, Sandro fala-nos do seu amigo, o Puma:



Um cinto foi novamente adicionado ao caldeirão hormonal, mas a camisa já abandonou quaisquer intenções diplomáticas, tendo-se rendido à superioridade do oponente. Este vídeo é particularmente útil para observar a relação de amizade entre o Puma e as suas amigas. O puma, "frente a las mujeres/ Pierde su timidez", enquanto que as mujeres, frente a lo puma, pierden as suas cuecas a um ritmo preocupante, como se pode ver no dilúvio ao minuto 3:03.
E agora, porque dá azar meter três YouTubes seguidos num post sem terminar com um non sequitur, aqui fica o «(Nothing but) Flowers», uma das minhas oito canções preferidas de todos os tempos, cantada por David Byrne, um homem a quem eu acho que a Humanidade em geral não tem atirado cuecas suficientes.



(p.s.: não se esqueçam também que amanhã à noite têm uma excelente oportunidade para atirarem as vossas cuecas ao Samuel Úria)

sexta-feira, março 20, 2009

HMS Reader

All the attention and engagement and work you need to get from the reader can’t be for your benefit; it’s got to be for hers.” - David Foster Wallace, citado aqui.

Nunca tinha visto isto: alguém a referir-se ao leitor, no abstracto, com um pronome feminino, como se faz com os navios. Não há aqui só uma tese, há todo um novo programa curricular nas Humanidades (provavelmente em Berkeley).

quinta-feira, março 19, 2009

Já não há pachorra para esta polémica

Mas na estafadíssima questão da historiografia antiga sobre Alexandre o Grande, eu estou completamente de acordo com o John Burrow: acho que o Curtius Rufus é muito mais empolgante que o Lucius Arrianus. Espero que a minha oportuna intervenção encerre o assunto de uma vez por todas.