quinta-feira, janeiro 07, 2010

Vocês são daquelas pessoas que eu fui incapaz de transformar em checoslovacos?


Bom dia, alegria! O pior já passou, e tudo se resolveu: a password do blogger afinal era "Alexi_Lalas", entretanto alterada para o nome de um futebolista com menos internacionalizações. Creio não estar a extravasar as minhas competências ao lembrar-vos a todos que tiveram muitas saudades minhas, e que a minha ausência vos fez sofrer muito. As pessoas do Albergue Espanhol (um nome a duas curtas vogais de distância de ter como anagrama "pus-lhe gel no rabo") ficaram tão transtornadas que chegaram ao ponto de omitir este blogue da sua extensa lista de links, um gesto inadvertido e facilmente rectificável, mas que me comoveu profundamente.
Quanto ao número de Natal do Economist, no fundo o assunto que nos trouxe aqui hoje, não haverá dúvidas em apontar o artigo The Art of abandonment como o grande vencedor, seguido de perto pelos artigos Older and richer e Tongue twisters («Turks coin fanciful phrases such as “Çekoslovakyalilastiramadiklarimizdanmissiniz?”, meaning “Were you one of those people whom we could not make into a Czechoslovakian?”»).
Também manifestamente incapaz de transformar pessoas como o Abel e o Hélder Postiga em checoslovacos, a direcção do Sporting Clube de Portugal tem aproveitado os intervalos da sua agenda normalmente preenchida com actividades destinadas à opressão de casais homossexuais para "mostrar interesse" na contratação de jogadores de futebol. A situação apanhou-me desprevenido, mas deixa-me confiante no futuro. O Pedro Mendes e o Ruben Micael não preenchem as lacunas mais urgentes, mas se o interesse for real revela uma nova maneira de pensar o reforço do plantel. Mais ou menos desde 1997 que a contratação de jogadores para o Sporting é subordinada à elaboração de um perfil: um treinador fazia um relatório no qual lamentava a falta que lhe fazia um avançado rápido que desse largura ao ataque e contratava-se o Giménez; ou um ponta-de-lança corpulento para proporcionar um modelo de jogo mais directo, e contratava-se o Purovic. Andámos assim nove anos a gastar dinheiro não em atletas profissionais, mas em formas platónicas. O novo rumo assenta em premissas diferentes: gasta-se o dinheiro que houver (outro mistério: acho que não sou o único que começou a contar cartas no blackjack) em qualidade, sem entrar em considerações sobre o sítio onde ela posteriormente se enfia. O Pedro Mendes e o Ruben Micael têm poucas características em comum, a não ser o facto de ambos exibirem uma insólita propensão para passar a bola a colegas de equipa. Não cumprem as fantasias centimétricas e curriculares dos adeptos mais lúcidos (ando a sonhar com um trinco africano de dois metros de altura há tanto tempo), mas um meio-campo de tísicos em câmara lenta que não perdem a bola parece-me uma melhor base de sustentação de um clube que luta activamente pelo terceiro lugar do que um meio-campo de tísicos em câmara lenta que perdem a bola. Os melhores autores de contos de todos os tempos foram o Isaac Babel e o Leonard Michaels, mas isso é assunto para outro post, e eu vou escrever muitos, muitos posts este ano.

terça-feira, dezembro 01, 2009

Arthur a grammar


A notícia {citation needed} que começou numa promoção concebida pelos Mad Men {citation needed} do departamento de marketing do Sporting, e que se começou a transformar em qualquer coisa diferente numa manchete do jornal i, chegou ao meu telemóvel às 15:14 de hoje, com este aspecto: "O que é isto de nós agora sermos homofóbicos? Já leste aquilo?" Não vou sequer tentar descrever os momentos aflitivos que passei até ter conseguido decifrar o dédalo semântico constituído por estas duas descontextualizadas construções verbais, nem os múltiplos fantasmas interpretativos que os vocábulos "nós", "agora", "leste" e "aquilo" evocaram na minha frequentemente aprazível {citation needed} paisagem interior. Basta garantir que eu sou uma pessoa extremamente ocupada {citation needed} e não me posso dar ao luxo de perder tardes inteiras {citation needed} a preocupar-me com problemas que não existem.
O título da notícia do jornal i que inaugurou todo este imbróglio é o seguinte: «A grammar is forgotten that there is a dog». Peço desculpa, isto é uma frase de Gertrude Stein. O título da notícia do jornal i que inaugurou todo este imbróglio é o seguinte: «Discriminação? Promoção do Sporting exclui casais homossexuais {enorme, imensa, descomunal citation needed}».
Com toda a honestidade, o título não é falso, mas pegar-lhe por essa ponta needed de uma profusão de citations; a promoção a que o artigo se refere exclui efectivamente casais homossexuais - da mesma forma que exclui um par de homossexuais do mesmo sexo que não sejam um casal, da mesma forma que exclui um casal de heterossexuais que não sejam sócios do Sporting, da mesma forma que exclui um casal de heterossexuais com menos de 18 anos de idade, da mesma forma que exclui uma hipotética dupla familiar constituída por um tenente-coronel homofóbico chamado Ramiro e pelo seu filho Xavier, membro do núcleo Almadense do Ku Klux Klan. As condições especificadas no site do clube, e que o próprio artigo cita, nunca falam sequer em "casais", muito menos em orientação sexual:

PREÇO ESPECIAL PARA 2 SÓCIOS DE SEXO OPOSTO QUE ADQUIRAM A SUA GAMEBOX EM SIMULTÂNEO E PARA O MESMO SECTOR!

- Campanha válida para renovação de Lugares Especiais (LE DUO), renovação e compra de Gamebox Sócio (GB DUO) e aderentes à Campanha de Novos Sócios;

- O preço da GB DUO inclui os dois lugares (desconto aplicado no lugar da mulher);

- Obrigatoriedade de serem Homem e Mulher com mais de 18 anos de idade (Sócios Efectivos);

Confrontado com estas claras estipulações, o deputado Miguel Vale de Almeida fez a seguinte leitura: «If this was why they were to be the next to go to see the same that is that when that if that might that can that will be as likely as if compared». Peço desculpa, isto é uma frase de Gertrude Stein. Confrontado com estas claras estipulações, o deputado Miguel Vale de Almeida fez a seguinte leitura: «É absolutamente inaceitável. Pura maldade. Não há legislação que dê aval a uma discriminação dessas». (Suponho que a maldade foi descrita como "pura" para a distinguir daquelas outras maldades diluídas).
Tal como Gertrude Stein sempre revelou uma certa dificuldade em perceber que as discriminações impostas pelos conceitos de gramática, sintaxe e semântica não eram um ataque à sua liberdade pessoal, o Miguel Vale de Almeida também parece ter uma certa dificuldade em perceber que qualquer promoção ou actividade dirigida a um segmento limitado do público é, por definição, discriminatória. O Miguel Vale de Almeida e o seu parceiro não podem aderir a esta promoção pelos mesmo motivos que os impediram de defrontar a Carly Gullickson e o Travis Parrott na final de pares mistos do Open dos Estados Unidos. Esta promoção é oferecida apenas a sócios do clube, maiores de 18 anos, e de sexos diferentes. Quem não cumprir as condições estipuladas pelo Sporting para adquirir este produto específico, sejam casais homossexuais, sócios do Benfica, ou membros dos Ministars, não podem reclamar direito a ele, e terão de arranjar outra maneira de entrar no estádio - pagando o bilhete completo, aproveitando outra futura promoção, ou fazendo-se sócio, como eu, que nunca em quinze anos de quotas pagas consegui arrastar uma pessoa do sexo oposto para Alvalade, nem sequer com ameaças físicas {citation needed}. Se as condições fossem alteradas de forma a não discriminar os potenciais clientes que o Miguel Vale de Almeida acha que foram discriminados, a promoção ficaria reduzida a um "compre uma gamebox e tenha desconto na segunda", estratégia comercial que pode fazer sentido com os pacotes de ice tea do Lidl, mas que aplicada à venda de lugares para jogos do Sporting resultaria numa quebra de receitas inevitavelmente conducente à permanência de Pedro Silva no plantel até ao fim do calendário Maia, altura em que vamos todos morrer, menos as baratas e provavelmente o Pedro Silva.
O Sporting, por amor de Deus e de Freddie Mercury, não vedou o acesso ao estádio a casais homossexuais. Nem limitou os direitos fundamentais de nenhum casal homossexual, porque entre os direitos fundamentais de qualquer casal homossexual conta-se o direito de entrar no Alvalade XXI para observar as arrepiantes transições ofensivas da equipa principal, mas não o direito a usufruir de um desconto que, tal como os descontos para crianças, diplomatas e olheiros de clubes ingleses, não se aplica a eles.
A farsa, que poderia perfeitamente ter ficado por aqui, ganhou novas camadas de espessura esclerótica quando a direcção do Sporting decidiu interromper a prática da actividade para a qual tem menos competências (negociar contratações de treinadores com clubes em zona de despromoção), para se dedicar à segunda actividade para a qual tem menos competências (falar). Um dirigente foi prontamente encarregue de explicar ao jornal i que a campanha é "para mulheres e não para casais: as mulheres representam apenas 20% a 28% do público que vem ao estádio e considerámos ser um target interessante para a estratégia de aumento de sócios no Sporting". Quando confrontado com o facto de a promoção impossibilitar que o estádio se encha de lésbicas, o mesmo dirigente respondeu "Não pensámos nisso. Não está contemplado apenas porque não pensámos nisso".
Por amor de Deus, é óbvio que "não pensámos nisso". Há alguém que duvide que "não pensámos nisso"? Os dirigentes do Sporting têm um extenso e verificável currículo de "não pensámos nisso". A nossa longa história está pejada de momentos memoráveis em que "não pensámos nisso". Se eu tivesse de apostar todo o meu património na veracidade das declarações de um dirigente desportivo português, apostá-lo-ia sem hesitar num dirigente do Sporting que confessasse simplesmente que "não pensámos nisso".
Como é que o Miguel Vale de Almeida acha que a situação deve ser resolvida? Passo a citar: «There is some difference between having made it and carrying it about and how to use it and most of it is when they might be just as careful as ever». Peço desculpa, isto é outra frase de Gertrude Stein. Como é que o Miguel Vale de Almeida acha que a situação deve ser resolvida? Passo a citar: «Seria excelente enviar umas cópias da Constituição àquele clube de futebol. E, já agora, um belo processo.»
Eu percebo que o Miguel Vale de Almeida ache esta solução "excelente", mas posso garantir-lhe que, na lista de instrumentos de progresso que "seria excelente" enviar ao Sporting, um molho de exemplares da Constituição estaria significativamente abaixo de um lateral-direito que não padeça de nenhuma condição descrita no DSM - IV, um médio-defensivo de descendência africana com dois metros de altura e proveniente de uma tribo antropófoga, e um avançado cujo coeficiente de inteligência tenha pelo menos mais um dígito do que o seu índice de massa corporal.
Para ilustrar o que é, de facto, um caso de discriminação baseada na orientação sexual, os comentários deste blogue vão estar, durante o resto da semana, sujeitos a moderação, sendo que só serão aprovados aqueles escritos por casais heterossexuais maiores de 18 anos que achem que eu sou uma pessoa a todos os níveis brilhante {citation needed}.

Sanditon

Depois de "Jacobo e outras histórias", de Teresa Veiga, "Venâncio e outras histórias", de Joaquim Paço d'Arcos. É o segundo livro com um título da forma "[nome próprio masculino] e outras histórias" que eu leio num curto espaço de tempo. Alguém me saberá recomendar outro livro cujo título respeite este requisito formal?

(um blog sobre kleist)

Além do quase extinto Peter and Other Stories, da Willa Cather, há um livro de contos muito bom, de um escritor novinho e muito promissor chamado David Bezmozgis, que fica apenas a uma genitoplastia masculinizante do requisito formal exigido pelo Alexandre: Natasha e outras histórias, editado em Portugal, salvo erro, pela Teorema. Se a pergunta tivesse sido feita aqui há uns quatro anos, é provável que a minha resposta embaraçosa tivesse incluído uma referência a um livro da Jane Austen (que comprei, mas nunca cheguei a ler), intitulado Sanditon and other stories. Durante muito tempo, limitei-me a assumir que "Sanditon" era o título do romance inacabado de Jane Austen porque, tal como a Emma de Emma, a protagonista era uma jovem solteira e intrometida chamada Sanditon, por nenhum outro motivo que não o facto de Sanditon me parecer um nome eminentemente razoável para uma protagonista de Jane Austen. Sanditon, afinal, é o nome da cidade, mas o meu erro, ainda assim, não é sequer comparável ao erro daqueles que - como o Dave Eggers ou a gaja do Lost in Translation - caem em armadilhas onomásticas e passam uma vida inteira convencidos de que George Sand e George Eliot eram homens ou, pior ainda, que Evelyn Waugh e Gertrude Stein eram mulheres.

segunda-feira, novembro 23, 2009

Televisão e blackjack

Mais um blogue baptizado por David Simon, que se distingue deste outro blogue baptizado por David Simon pelo facto de se chamar «Why Always Boris?» e não «Why Always Borizsche? »

quarta-feira, novembro 18, 2009

Wasilla

Desde que acabei com o blogue, e deixei de sentir aquela pressão para o post diário que tanto me condicionou durante os últimos meses, tenho tido muito mais tempo para reflectir, nomeadamente sobre o papel decisivo que teve o Alexander Hamilton na história dos Estados Unidos (não se deve menosprezar a importância de ter uma pessoa tecnicamente chanfrada a pôr repetidamente o dedo no ar para embirrar com minúcias, a articular uma ideia diferente, e acima de tudo a não ter razão de uma forma muito inteligente, que mais não seja para obrigar todas as outras pessoas tecnicamente menos chanfradas a terem razão de forma igualmente inteligente; pela minha experiência isto é útil para organizar uma despedida de solteiro ou uma noite no casino, quanto mais para escrever o manual de utilização de um país), mas desde que a direcção do Sporting nomeou a Sarah Palin para treinar a equipa principal, e eu deixei de sentir aquela pressão diária para inalar oxigénio que tanto me condicionou durante os últimos vinte e nove anos, parece que bloqueei (bloqueei; bloqueei é provavelmente a palavra com o aspecto mais estrangeiro da língua portuguesa - não sei se será permitido usar a palavra "bloqueei" na literatura de campanha do PNR; quase que voltei a respirar oxigénio ao descobrir a palavra "bloqueei" no meio destas outras caucasianas sucessões de letras; parece o nome de um arpoador polinésio no Moby Dick, Queequeeg, Daggoo, Bloqueei), pelo que ficamos todos, literalmente, a perder.

terça-feira, novembro 17, 2009

O Record online agora faz deadpan humor

«A concorrência dos leões é forte, pois também os ingleses do Chelsea e os holandeses de Heerenveen, Ajax e AZ Alkmaar e, ainda, os alemães do Werder Bremen têm feito observações ao brasileiro de 23 anos que começou no Tiradentes»

sábado, novembro 07, 2009

Death Bed: The Bed That Eats



Filme de 1977 em que o realizador, o produtor, os actores e a equipa técnica não podiam, porque tinham todos Krav Maga.

sexta-feira, novembro 06, 2009

Paulo Bento



Um homem bom e lúcido, que a partir de hoje não pode, porque tem Krav Maga.

Em resposta ao comentador "jaa", e ao comentador "anónimo"


A minha opinião sobre Inherent Vice é muito positiva, por motivos que eu explicaria aqui detalhadamente caso não tivesse Krav Maga.

quarta-feira, novembro 04, 2009

Pierre Menard, nabo

É uma revelação cotejar o post "Ode ao nabo" no blogue Corta-Fitas com o post "Ode ao nabo" no blogue Cinco Dias. No primeiro, por exemplo, lê-se:
«O amor do nabo é pois um privilégio da idade, a nossa vingança sobre o triunfalismo vital das criancinhas ignaras».
Escrito no blogue Corta-Fitas, esta frase é um mero exercício de estilo: um elogio retórico de um tubérculo que, como o CDS/PP, é rico em cálcio e pobre em reputação. No blogue Cinco Dias, por outro lado, escreve-se o seguinte:
«O amor do nabo é pois um privilégio da idade, a nossa vingança sobre o triunfalismo vital das criancinhas ignaras».
O amor do nabo... um privilégio da idade: a ideia é assombrosa. Ao contrário do António Figueira do blogue Corta-Fitas (um leigo talentoso, mas pedante), o António Figueira do blogue Cinco Dias entalou entre um post sobre "excluídos" e outro sobre o "pensamento ideológico neoliberal" uma metonímia perfeita sobre o que implica crescer politicamente, sobre aprender a respeitar os inevitáveis compromissos que balizam esse percurso, sobre, inclusivamente, aprender a respeitar um quinze no blackjack contra um dez do dealer quando a true count vai em +6. Está ali a civilização ocidental, no post "Ode ao Nabo" do blogue Cinco Dias. (No outro não, está só outra coisa mais pequenina).

terça-feira, novembro 03, 2009

A piada com bases mais sólidas na realidade em toda a história do The Onion

Track Winnings Reinvested In Blackjack Futures

ATLANTIC CITY, NJ—Seeking to grow his financial assets, Piscataway, NJ, gambler Richard Pasquale shrewdly reinvested his $2,432 trifecta win in the third race at Belmont Park in high-yield blackjack futures Monday. "The thoroughbred game is so vulnerable to track fluctuations, I thought it would be better to transfer my funds into a more proven money-maker, one with a tremendous upside," said Pasquale, speaking from the blackjack pit at Harrah's Atlantic City casino. "Plus, I got a feeling I'm headed for a hot streak." He then instructed his dealer to hit him.

(aqui)

Aviso

Nos próximos tempos vou ter mais disponibilidade do que o normal, pelo que provavelmente não vou ser capaz de não actualizar o blogue. Até voltar a ter menos disponibilidade, aliás, a não-actualização do blogue será uma incógnita. Peço desculpa a todos e garanto que, assim que me for possível, voltarei a não meter aqui os pés com a frequência a que vos tenho habituado.

quarta-feira, outubro 28, 2009

No fundo é isto, mas com "card-counting"



«He had adopted a strict daily routine of botanical drawing, electrical experiments, animal dissections, deck-walking, bird-shooting and journal-writing.»

(Terceiro parágrafo da página 1 do melhor livro que li este ano)

segunda-feira, outubro 26, 2009

Flaming globes of Sigmund


Sempre gostei muito daquelas histórias - apócrifas ou não - de súbitas revelações nocturnas, em que uma pessoa se levanta a meio da noite depois de um espasmo de criatividade, anota tudo num papel e descobre horas mais tarde que a criatividade não sobreviveu à transferência de suporte. Hitchcock a sonhar uma ideia brilhante para um filme, a escrever a sinopse de olhos fechados, e a acordar para descobrir apenas um papelinho garatujado com a frase "boy meets girl"; Bolaño a sonhar um romance maior do que o Ulysses, a escrever a sinopse de olhos fechados, e a acordar para descobrir apenas um papelinho garatujado com o 2666; ou o caso ainda mais trágico de Carlos Azenha, a sonhar uma longa e respeitada carreira profissional no futebol europeu, a escrever a sinopse de olhos fechados, e a acordar para descobrir apenas um papelinho garatujado com o plantel do Vitória de Setúbal.
Estas histórias têm pathos, porque condensam numa narrativa limpinha um dos grandes mistérios humanos: as calamidades que podem acontecer à inspiração e às aspirações naquela fracção de segundos em que são transmitidas do córtex para o mundo.
Sempre gostei muito destas histórias, mas nunca tinha participado - até que há três noites atrás me levantei a meio da noite com uma solução para o problema do défice orçamental. Quando acordei de manhã, absolutamente convencido de que iria ganhar o próximo Nobel da Economia, encontrei apenas uma folha A5 ao lado da caminha com a seguinte frase: «O défice está no Brasil - é preciso fumá-lo».
Bem, o défice está no Brasil; e é preciso fumá-lo. Suponho que isto, como a Bíblia, não é para ser interpretado literalmente, até porque uma simples análise logística permite-nos verificar as dificuldades operacionais envolvidas: mesmo que o défice fosse efectivamente localizado no Brasil, seria complicadíssimo isolar as suas propriedades tangíveis de forma a conseguir emboscá-lo com mortalha e filtro. (Na verdade, uma segunda camada de complexidade é lançada sobre o versículo pelo duplo sentido do verbo fumar, que poderia até levar ao surgimento de uma corrente herética que pretendesse não aspirar o fumo resultante da combustão do défice, mas sim desidratar o défice num fumeiro, o que em princípio levaria à sua preservação, etc, etc, e é bom de ver que temos logo aqui um problema maior do que o Pelagianismo).
Tudo isto foi com certeza provocado pelo livro que li na noite anterior - Liar's Poker, de Michael Lewis - especificamente, uma passagem em que ele compara a assimilação do jargão financeiro à aprendizagem de uma língua estrangeira: primeiro faltam-nos as palavras para determinados conceitos, depois começam-nos a surgir palavras para conceitos que não sabíamos possuir, e finalmente acabamos a sonhar com derivativos japoneses. O livro é muito bom e proporcionou-me muita diversão mesmo antes de a palavra "blackjack" na página 125 me ter provocado o equivalente literário a uma ejaculação precoce. A história de Howie Rubin, o trader que perdeu 250 milhões à Merril Lynch em 1987, e que começou a carreira a contar cartas em Las Vegas, vale, só por si, o preço do livro (que não faço ideia qual seja; uma ignorância apropriada, até porque no mundo do livro ninguém sabe o preço de nada).
O elemento espectacular é este: Howie Rubin tornou-se bond trader porque aquilo lhe fazia lembrar o blackjack (o único jogo de casino em que eventos passados influenciam eventos futuros), mas chegou à conclusão de que a vida em Las Vegas era uma coisa muito mais digna e racional. A sua revelação, codificada implicitamente no axioma de que é mais arbitrário trocar obrigações hipotecárias do que jogar blackjack, é que o dinheiro é mais estúpido do que um baralho de cartas. Rubin ainda anda ali às voltas a tentar convencer-se de que o facto de eventos passados não influenciarem eventos futuros no mercado das obrigações hipotecárias está relacionado com o comportamento errático dos homeowners americanos, mas não engana ninguém. Os homeowners americanos e as pilhas de 312 cartas bem baralhadas podem ser volúveis, mas são um modelo de estabilidade comparados com o dinheiro. O fio condutor de Liar's Poker é este: o dinheiro é completamente maluco. Não se pode confiar nele. Num momento pode estar ali ao canto, tranquilo, ocupado a ser muito, e no momento seguinte pode estar deitado numa viela, a vomitar na sarjeta, sem se lembrar quem é nem onde mora. Bom, este blogue acaba aqui. Obrigado a todos por terem vindo, foram três anos extraordinários, mas agora a minha vida é isto:

segunda-feira, outubro 12, 2009

Eu nasci heterossexual, não há qualquer problema

Sondagem Aximage/Liedson

Numa pequena sondagem à boca da baliza efectuada na noite de Sábado, foi revelado que três elementos destabilizadores no café aqui da rua não festejaram o segundo golo da selecção. Foi portanto sem qualquer surpresa que, através deste esplêndido site, verifiquei a existência de quatro nazis na minha freguesia (o quarto deve ser o careca que mora no prédio à frente do meu, e que passa a noite a jogar Metal Gear Solid com o volume no máximo, mas que dá a ideia de até nem ser má pessoa).
É muito bonito quando o "político" e o "social" coincidem assim de uma forma tão evidente que até eu consigo perceber tudo.

Insulto gratuito póstumo do mês

Sobre Katharine Hepburn: «She had Parkinson’s. She shook like a leper in the wind.»
Adivinhem lá.

sexta-feira, outubro 09, 2009

Vamos dar-lhes porrada nas praias

Não me lembro que idade tinha, mas não era ainda idade suficiente para ter aprendido a distinguir a palavra "irónicos" da palavra "eróticos" (situação que entretanto já rectifiquei), pelo que o primeiro livro que li de um escritor Nobelizado foi o Contos Irónicos, do Heinrich Böll . A edição portuguesa tinha na capa a imagem de um porco numa banheira, o que me pareceu indicação suficiente de que aquilo devia ser tudo uma enorme e fisiologicamente lucrativa javardice. Na verdade eram trezentas páginas de órfãos e padres deprimidos, que me afastaram da pornografia durante os melhores meses da minha pré-puberdade - um tempo precioso, que desperdicei a ler o Livro de Job e os Federalist Papers, e que nunca consegui recuperar.
Como já devem ter adivinhado, fui hoje barbaramente acordado às duas da tarde por alguém que pretende ser meu amigo, mesmo não tendo ainda assimilado as noções mais básicas sobre o meu calendário de repouso: «Já leste esta gaja?». Não só não li esta gaja, como nunca tinha ouvido falar desta gaja, embora tenha sido informado poucos minutos depois que sou a única pessoa cá em casa que não leu esta gaja nem nunca tinha ouvido falar desta gaja. Omiti este dado ontem porque sou um saloio supersticioso, mas tinha apostado 15 libras no Magris e outras 10 no poeta coreano cujo nome, apesar de consistir em apenas quatro letras, vai ser um profundo mistério durante o resto da minha vida. A minha opinião genérica sobre a atribuição do Nobel a Herta Müller é, segundo me informaram, extremamente positiva.
De realçar também que, enquanto eu andava por aí a cruzar-me com o João Botelho em oitenta e sete ruas lisboetas, o Eduardo Nogueira Pinto, o Pedro Lomba e o Miguel Góis fizeram um blogue novo. Perdi quase uma hora a teorizar sobre o facto de o blogue se chamar "Suction with Valcheck" em vez de "Suction with Valchek", porque os fãs do Wire costumam jogar esta coisa toda a um nível muito superior e - digo-o sem pinga de erotismo - tive medo que me estivesse a escapar alguma coisa.
Tendo em conta que já há iluminações de Natal à venda no sétimo piso do El Corte Inglês, decidi antecipar a minha lista de melhores blogues do ano, por ordem de qualidade, e em número de sete:

1. A Causa Foi Modificada
2. Yesterday Man
3. b-site
4. Ouriquense
5. um blog sobre kleist
6. Circo da Lama
7. Gravidade Intermédia

Tenho-me preocupado bastante nos últimos tempos com a falta de preocupação dos adeptos do Sporting em relação ao Benfica. Como um judeu alemão em 1933, o adepto do Sporting insiste em abanar a cabeça e sorrir, ao mesmo tempo que tenta convencer os pequenos Joshua e Sapphira de que vai correr tudo bem. Continuar a defender publicamente a ideia de que o Benfica é só ímpeto e entusiasmo artificial é neste momento blasfemo. Os noventa minutos do Benfica contra o Borisov, que eu fui ver ali com o Sérgio aqui há umas semanas, antes de tropeçar no João Botelho na Bica - noventa minutos de Benfica a meio-gás e sem três titulares importantes - foram francamente aterrorizantes. Já devia ser evidente para todos que estamos na presença do Mal absoluto.
Não é o facto de não ter havido um único lance de ataque inconsequente até aos 82 minutos. Não é o facto de não se ter visto uma única jogada começar com um passe longo de um dos centrais para o jogging acéfalo de um dos avançados (o gambito Polga-charuto-Djaló que tem sido o plano B do Sporting em todas as ocasiões em que não é o plano A). Não é o facto de jogadores do Benfica fazerem agora passes com força e a meia altura para a linha lateral, sem exibirem qualquer sinal de dúvida sobre a capacidade do colega de equipa para controlar a bola (a única pessoa a fazer isto no Sporting no passado recente foi o Rochemback, por inconsciência). Não é sequer o facto de dois antigos YouTubes de 5 minutos chamados Di Maria e Fábio Coentrão andarem agora por ali a ter aplicação prática constante - uma conversão de fantasia em realidade tão obscena como se duas actrizes pornográficas quisessem de repente casar connosco pela igreja.
O que foi realmente assustador foram as exibições de César Peixoto e Rúben Amorim: dois funcionários competentes, que se tivessem nascido dez anos mais cedo estariam hoje condenados a lugares de destaque em qualquer lista de barretes famosos do Benfica. O César Peixoto e o Rúben Amorim não são melhores do que o Nelo e o Tavares; mas vão andar por ali, vão ser esporádicos titulares "úteis", vão ser frequentes suplentes "eficazes". E depois disto, por duas vezes, o Benfica jogou mal e ganhou, como os Nazis na Batalha de Creta em 1941. Por amor de Deus, eu tenho visto o João Botelho com mais frequência do que vejo a minha mãe: aquilo é um homem sorridente e descansado da vida, porque sabe que pertence a uma raça superior. Ou o Jesualdo will fight them on the beaches ou estamos todos perdidos.

quarta-feira, outubro 07, 2009

Noble horses


Esta listinha de probabilidades para o Nobel não envergonha ninguém, mas também não exalta propriamente a Ladbrokes. Pelo menos cinco dos nomes estavam mal grafados (dois foram entretanto corrigidos, embora os misteriosos Umberto Ecco e Antoni Tabucchi continuem lá), mas o mais grave é a quantidade de candidatos com odds tão baixas, o que sugere que estão a manter as bases todas cobertas e que, ao contrário do ano passado, quando a súbita escalada de Le Clézio denunciou um maroto em Estocolmo que desatou a enviar SMS aos amigos, ninguém faz a menor ideia do que se vai passar. Em abono da verdade, suspeito que se pedissem ao Times Literary Supplement para organizar uma lista de favoritos para a Grand National, o resultado não seria muito mais edificante.
Debrucemo-nos então sobre algumas pilecas improváveis:

Thomas Pynchon, 9/1 - As odds de 9/1 mais inexplicáveis desde que as mesmas foram atribuídas a um golo do Polga num jogo contra o Bolton aqui há 2 anos. Têm-se ouvido sugestões de que um americano poderia voltar a ganhar este ano, mas creio que o Jon Bon Jovi ou o Steven Seagal têm mais probabilidades do que Pynchon. Dois dos últimos três americanos a receberem o galardão foram citados, respectivamente, "for his impassioned narrative art which, with roots in a Polish-Jewish cultural tradition, brings universal human conditions to life" (Singer, 1978) e " (...) novels characterized by visionary force and poetic import, gives life to an essential aspect of American reality" (Toni Morrison, 1993). Pynchon escreve os melhores desenhos animados da literatura, mas sejamos sérios: ele nunca give life to essential aspects of reality na sua vida inteira.

Haruki Murakami, 9/1 - Um recente e preocupante acrescento às listas de favoritos (o ano passado, salvo erro, estava a 25/1). O que é que se passa com esta gente? Murakami é uma daquelas modas orientais, como o yoga ou o sushi, que aterram de repente em Londres e Telheiras e nunca mais de lá saem. O mais intrigante é que esta moda específica é brutalmente ocidentalizada: Murakami é um yakisoba de referências americanas (Carver, Philip K. Dick, jazz, film noir). Temos aqui uma pessoa a traduzir o Ocidente de volta a si próprio como um Babelfish demente, mas não temos um Edward Said local para meter ordem na situação. Os romances que dele li nunca foram menos nem mais do que moderadamente interessantes, embora sejam todos reféns daquela inventividade estéril, fraudulenta e sem humor, em que as coisas acontecem porque sim: um adolescente apreciador de jazz apaixona-se pela rapariga da loja de discos e vão os dois passear pela praia, onde são surpreendidos por um veterano de guerra filósofo e um gato falante, antes de passarem para outra dimensão, onde há unicórnios e chove bacalhau. Enfim, isto tem o seu charme, mas chamar "génio literário" a Murakami, como já li em dois jornais, é como chamar génio científico ao Lysenko.

Ko Un, 16/1 - O algoritmo selectivo da Academia Sueca pode também voltar a apontar para um poeta com um nome esquisito, o que já não acontece desde 1996. Ko Un é um poeta coreano, facto incontroversamente confirmado pela wikipedia: «He has written poems in almost every conceivable form on virtually every topic», o que prenuncia uma espécie de António Ramos Rosa com logogramas.

Ian McEwan, 100/1 - A carreira de McEwan está em ponto morto. A expansão anunciada por Atonement (um daqueles livros characterized by visionary force and poetic import, que gives life a toda uma panóplia de essential aspects) parece ter abrandado, mas a Academia nunca se preocupou muito com picos de forma. Mais problemático, para mim, é o facto de o próximo livro, que é mais ou menos "sobre" o Aquecimento Global, chegar tão perto do penúltimo, que era mais ou menos "sobre" a invasão do Iraque. Se isto continua por este caminho, ainda vamos ver o homem a escrever sobre a gripe suína ou o grande colisionador de hadrões, e eu prefiro-o a escrever sobre Dunquerque e crianças sociopatas. A perseguição febril ao tópico noticioso mais próximo pode correr bem, mas implica um risco desnecessário: o registo histórico, tal como a wikipedia, é actualizado a cada minuto; o tema evolui, mas o seu tratamento literário literal fica ali gravado no papel, sem se poder adaptar. Pode parecer uma excelente e ousada ideia na altura, mas o autor arrisca-se a tentar entrar na posteridade de calças à boca de sino. Vou de seguida enviar um mail sucinto ao Ian McEwan, expondo as minhas preocupações.

Paul Auster, 100/1 - É muito simples: no dia em que isto acontecer eu mato-me.

Yesterday Man, I love him so

Aqui:

«Francamente, trocava quase toda a carreira do Pollack por vê-lo a despachar mais uma pêga no Eyes Wide Shut».

«Vi a encenação do Siegfried gravada no São Carlos (all four hours of it), com germanos vestidos de hooligans a falar com passarinhos dependurados de uma vara movida por uma badass chick (ah, sim, a desconstrução, murmurei, impávido) e valquírias com pinta de knackwurst embrulhada em lingerie a receber um extra por baixo do camarote ao fazerem em palco o teste industrial dos limites de elasticidade dos modelos da Victoria's Secret e que só saíam out of character (ah, pois, a desconstrução da desconstrução, cogitei, involuntariamente, impávido) pela ausência de um fiozinho de sauerkraut infiltrado no canto da boca».

« E só não vi o seu spin-off Jail, porque andam (juro) a promovê-lo como o desenvolvimento natural do cinéma verité (coisa hilariante para designar, a tomar pelo modelo, um produto visual cujas condições de verdade são precisamente o que deliberadamente se mantém fora de campo, o que a torna mais tv aldrabée que a ficção mais artificiosa; mas que, enfim, até dá para o cinéma verité que se intitulou cinéma vérité aprender no que é que dá intitular-se cinéma vérité) e eu não gosto que cauções intelectuais (não há nada mais abjecto do que pretender traficar elevação junto com o contrabando vaginal em dia de visitas) interfiram na minha fruição de exercícios panópticos propedêuticos sobre massa crocante de estereótipos sociais (só o genérico, com uma música, reggae, intitulada Bad Boys, e os seus disclaimers de innocent until proven guilty in a court of law, devem ocupar a totalidade da cadeira de Dimwit Semiotics na UCLA)».

Etc, etc, etc.

segunda-feira, setembro 14, 2009

Gilgamesh

Estes três momentos são momentos-espelho em que os personagens são confrontados com o Eu que é Outro, a lenda erguida em torno das façanhas de cada um. Dom Quixote torna-se grave e sério, temendo que o infiel não seja fiel à verdade. Ulisses comove-se, consciente do tempo que passou. Hadji-Murat sente-se lisonjeado com a possibilidade de ser personagem de uma leitura do czar. Nas histórias vemo-nos reflectidos. São as histórias que fecham o círculo que começa na acção e que, ao regressar ao mesmo ponto, já se fez narrativa; que começa no homem e, seja a enfrentar moinhos, ciclopes ou russos, acaba no herói.

Neste post fabuloso, o Bruno Vieira Amaral fala de um truque literário que eu acreditei durante anos ter sido prefigurado na Epopeia de Gilgamesh: confrontar o protagonista, dentro da narrativa, com uma representação das suas façanhas. Quando digo que acreditei durante anos que isto estava tudo no Gilgamesh, não o faço apenas para falar no Gilgamesh e ter portanto uma oportunidade para escrever Gilgamesh, pois embora Gilgamesh seja uma palavra engraçada, não é esse o aspecto mais importante desta situação do Gilgamesh. Li um texto de alguém, algures (não me lembro se numa revista, ou num texto de apoio da faculdade, mas gostava imenso de saber quem foi o sacana) que não só fazia um resumo inacreditavelmente distorcido da história de Gilgamesh, como tinha até a desfaçatez de a melhorar. Lembro-me que a paráfrase da tábua XI indicava que ao regressar a Uruk, depois da sua longa e infrutífera procura da imortalidade física, Gilgamesh via um grupo de pessoas a desenharem as suas façanhas nas muralhas da cidade, e compreendia que essa era a única imortalidade a que podia aspirar. Isto, para um texto que, salvo erro, precede Homero em para aí uns mil anos, pareceu-me na altura impossivelmente adulto.
O problema é que as duas versões existentes da Epopeia não confirmam aquela sinopse fantasma. O que acontece na tábua XI é que Gilgamesh aponta para as muralhas que ele próprio ajudou a erguer e pergunta (creio que retoricamente, embora haja ali um conveniente barqueiro):

300. Then Gilgamesh said this to the boatman:
"Rise up now, Urshanabi, and examine
Uruk's wall. Study the base, the brick,
the old design. is it permanent as can be?
Does it look like wisdom designed it?

A natureza da revelação é evidentemente semelhante: isto é uma manifestação de orgulho no seu trabalho, uma aceitação de que a sua proeza funcionou tanto ao nível comunitário (deu ali uma parede às pessoas), como ao nível pessoal e egocêntrico (é esse trabalho que tornará a sua memória permanente). Mas chamo a vossa atenção para o facto de não haver nada nas muralhas que se assemelhe às tais representações pictóricas dos feitos de Gilgamesh. Quem é que me enganou? Se alguém me conseguir esclarecer este mistério, ficarei eternamente grato. Andei anos a pensar injustamente que um qualquer blogger anónimo da Suméria tinha sido melhor do que Homero.

(Na quinta e última secção de 2666, Reiter regressa, já depois do final da II Guerra, à aldeia russa de Kostekino. No edifício onde se escondera durante o Inverno de 1942, descobre que «alguém se tinha entretido a desenhar nas paredes - e no tecto! - cenas quotidianas dos alemães que lá tinham vivido». No meio dos desenhos, Reiter descobre-se a si próprio. Quando li esta cena, pensei imediatamente "olha: isto é como no Gilgamesh"; afinal aquilo não é bem como no Gilgamesh).

sexta-feira, setembro 11, 2009

Eu também quero acrescentar o seguinte

A mesma extraordinária funcionalidade do google que me alertou aqui há uns anos para a existência de um dentista brasileiro chamado Rogério Casanova, alertou-me agora para o facto de o cidadão Hélder Beja alimentar algumas dúvidas quanto à minha mais elementar espectacularidade em matéria de dizer coisas sobre livros:

«Quero acrescentar o seguinte: Rogério Casanova, todos sabemos, venera Pynchon. Nenhum mal vem ao mundo, cada qual gosta do que quer. O que é grave é que Casanova, nesta crítica a O Leilão do Lote 49, escreva algo tão disparatado como que o livro tem «uma revisão competente e, a espaços, inspirada». A revisão é, só, do pior que me passou pelas mãos desde que ando nisto dos livros.»

Não sei há quanto tempo o cidadão Hélder Beja anda "nisto dos livros", e o equívoco até pode ser da minha inteira responsabilidade, mas reside aqui: quando falei na revisão, referia-me à revisão da tradução, como conseguirá perceber qualquer pessoa que leia o que vem antes e depois na mesma frase. Falo na correcção de tempos verbais em relação ao original inglês; falo na correcção de lapsos de tradução e na introdução de lapsos novos. De tradução. Sobre a revisão do texto, sobre a fiscalização gráfica, falo muito de raspão, e sempre a caminho do grande objectivo de 90% dos meus porejamentos sobre as massas, que é fazer uma piadinha antes de falar de coisas extremamente sérias do ponto de vista da seriedade antes de fazer outra piadinha. A tradução, no geral, e com uma ou outra falha (em particular quando decide editar a sintaxe do original), continua a parecer-me boa, ou pelo menos aceitável, tendo em conta a trabalheira sisífica que é traduzir Pynchon.
Quanto às gralhas, sendo mais ou menos consensual que o Thomas Pynchon não trabalha para a Relógio D'Água e não teve nada a ver com o assunto, estou-me moderadamente a cagar para elas, especialmente quando há ali um livro sobre o qual é preciso falar. Eu, por coincidência, falo sobre livros aí em sítios (ainda não tenho Meo em casa) e gastar um milímetro que seja do exíguo espaço que dão a uma pessoa como eu para andar aí nos sítios a falar de livros em pormenores como acentos graves e agudos parece-me tão pertinente como fazer uma crítica ao Inglourious Basterds falando nos estofos dos assentos no Alvaláxia. Regra geral (eu tenho regras gerais) gosto de pensar num livro traduzido como um artefacto cuja vulnerabilidade ao pacote mais inepto não deve ser reforçada por uma crítica que se centre no aparato em torno do livro (o aparato publicitário, o aparato gráfico) em vez de se centrar no seu objecto essencial que é, digamos assim, o conjunto de virtudes e defeitos estéticos de uma obra escrita por um gajo que provavelmente não sabe que a língua portuguesa desenvolveu acentos graves e agudos para lhe complicar a vida. As gralhas que me incomodam são gralhas de estilo, de inteligência, de imaginação. Quando falo de livros (eu falo de livros) eu tento falar disto e não de outras coisas. Cada um fala do que quiser quando fala de livros, evidentemente; mas o meu texto era essencialmente sobre O Leilão do Lote 49, não era sobre literacia, sobre a competência dos funcionários da Relógio D'Água ou sobre a qualidade das gráficas nacionais - tudo áreas que me interessam tanto como a programação dos quatro canais terrestres neste preciso momento.

sexta-feira, setembro 04, 2009

O último filósofo comunista do século XX

2666, cujas mil páginas eu vou reler pela terceira vez durante o pequeno-almoço só para afrontar os koalas, está atulhado de sonhos. Os sonhos na literatura costumam ter má imprensa ("tell a dream, lose a reader", etc). O argumento canónico é o mesmo argumento contra o uso excessivo de símbolos: se encaixam organicamente, se funcionam, parecem artificiais e afectados; se não encaixam, se a sua incongruência é demasiado boa para ser eficaz, então é tudo uma grande perda de tempo. Há sementes de verdade neste quintal, mas não se deve atirar para o lixo um mecanismo narrativo que já cá andava a funcionar desde que o Agamemnon sonhou com a glória e que vai continuar a funcionar pelo menos durante o meu pequeno-almoço.
2666 está atulhado de sonhos; e todos funcionam. A maneira como funcionam já é outra conversa, pois estamos a falar de um romance que trata aquilo que nós mortais chamamos "significado" mais ou menos como um camionista mexicano trata uma prostituta. Os sonhos são quase todos sobre buracos: buracos metafóricos - que sepultam a memória da dor e da violência - e buracos reais - onde se enterram coisas, ou cadáveres. Um buraco em particular, que cumpre a função dupla de enterrar uma memória e uma resma de cadáveres é cavado por um Nazi chamado Sammer; e é o mesmo tipo de buraco de onde um judeu chamado Sammler saiu para ressuscitar a civilização. (Encontramos os amigos todos em 2666, é como ir ao café do bairro).
O segundo melhor sonho de 2666 tem a participação de Boris Yeltsin. É isto:

« ... Amalfitano sonhou que via aparecer num pátio de mármore cor-de-rosa o último filósofo comunista do século XX. Falava em russo. Ou melhor dizendo: cantava uma canção em russo enquanto o seu corpanzil se deslocava, fazendo esses, em direcção a um conjunto de majólicas listadas de vermelho intenso que sobressaía no plano regular do pátio como uma espécie de cratera ou latrina. (...) Quando o último filósofo do comunismo já estava finalmente a chegar à cratera ou à latrina, Amalfitano descobria com estupefacção que se tratava nem mais nem menos de Boris Yeltsin. É este o último filósofo do comunismo? Em que espécie de louco me estou a transformar se sou capaz de sonhar disparates? O sonho, contudo, estava em paz com o espírito de Amalfitano. Não era um pesadelo. Além disso, proporcionava-lhe uma espécie de bem-estar leve como uma pena. Então Boris Yeltsin olhava para Amalfitano com curiosidade, como se fosse Amalfitano a irromper no seu sonho e não ele no sonho de Amalfitano. E dizia-lhe: escuta as minhas palavras com atenção, camarada. Vou explicar-te qual é a terceira perna da mesa humana. Eu vou explicar-te. E depois deixa-me em paz. A vida é procura e oferta, ou oferta e procura, tudo se limita a isso, mas assim não se pode viver. É necessária uma terceira perna para que a mesa não caia nas lixeiras da História, que por sua vez está permanentemente a desmoronar-se nas lixeiras do vazio. Por isso toma nota. A equação é esta: oferta + procura + magia. E o que é a magia? Magia é épica e também é sexo, e bruma dionísiaca e jogo. E depois Yeltsin sentava-se na cratera ou latrina, mostrava a Amalfitano os dedos que lhe faltavam e falava da sua infância, e dos Urales, e da Sibéria, e de um tigre branco que errava pelos infinitos espaços nevados. Seguidamente tirava uma garrafa de vodka da algibeira e dizia:
- Creio que está na hora de beber um copinho.
»

(Roberto Bolaño, 2666, pp. 267-268)

Santa Teresa


terça-feira, setembro 01, 2009

文表示願為台灣這塊土地承受所有苦難。

Devido ao marketing agressivo da indústria hoteleira do sudoeste asiático, as pessoas e autómatos que quiserem comentar a qualidade dos numerosos posts semanais deste blogue vão ter, a partir de agora, de copiar letras para um formulário. Peço desculpas sinceras a todos pelo incómodo, mas acredito que a partir de um certo limite, qualquer informação adicional sobre brides from mainland China e thermostat-free chocolate se torna redundante.
Entretanto, o Pedro Mexia tem um blogue novo. Para as pessoas não julgarem que era um impostor, tratou de colocar, no espaço de cinco posts, uma referência a um filme do James Gray, um youtube dos Smiths, e um diálogo com um taxista. Pessoalmente, enquanto não aparecer lá uma foto da Eva Mendes e um recibo da Fnac, não vou dormir descansado. E agora, um anagrama: "Pedro+Mexia+A+Lei+Seca = Sai a morcela de peixe". Faltava só uma letra para conseguir "Ele deixa meias porcas". Perdemos aqui uma grande oportunidade.
O melhor post do Verão chama-se "Caderno de Palermo" e está aqui.

quarta-feira, agosto 26, 2009

Elvis Oitavo


A televisão dotada de um apreciável pacote TV Cabo a que tenho tido acesso nos últimos dias foi sintonizada com tamanha anarquia (a SIC é o canal 17, o Hollywood é o 4, etc.) que as probabilidades de encontrar qualquer coisa decente num zapping fortuito são tão desoladas como as odds da lotaria italiana. Tanto quanto pude perceber, acabei de perder uma transmissão do Tootsie (um dos melhores guiões cómicos de sempre, eu um dia explico) para ficar a ver os últimos 25 minutos do que suponho ser uma mini-série sobre a vida de Elvis Presley, em que o papel de Elvis é representado por Jonathan Rhys Meyers, um buraco negro de carisma que consegue sugar qualquer vestígio de qualidade que passe nas suas imediações para um funil cósmico.
Elvis representa a experiência quintessencial do século XX sobre fenómenos de sucesso global: uma alteração cultural geológica efectuada a cem à hora e condensada em poucos anos. O processo já é suficientemente transtornante. Condensá-lo nas poucas horas de uma mini-série é transtornante ao quadrado. Condensar essa experiência nos últimos 25 minutos de uma mini-série pode ser conducente à catalepsia. A primeira coisa que eu vi foi Elvis a disparar uma arma contra um jornal. Depois vi Elvis a comprar um carro. Depois vi Elvis a perguntar ao seu cabeleireiro Larry "O que é a verdade, Larry?". Depois vi Elvis a dizer a um grupo de amigos que Deus existe. Depois vi Elvis à procura de comprimidos ("Devem estar na casa-de-banho. Vou lá!") Depois vi Elvis a ter um filho, e a garantir a Priscilla que não gostava de ir para a cama com gajas que já tivessem tido filhos.
Um célebre momento da sua biografia é recriado (com intrigantes e desnecessárias alterações, mas vá lá). Durantes as preparações para o '68 Comeback Special, o produtor Steve Binder, ao ver Elvis rodeado com um pequeno exército de guarda-costas e penduras, apostou que ele seria capaz de sair à rua sem protecção, porque ninguém o reconheceria. A mini-série mostra um estupefacto Elvis a percorrer Sunset Boulevard perante a indiferença geral de uma multidão de hippies, sintonizados numa onda alternativa. A história é boa (e melhor contada aqui), mas há que colocar a hipótese de a multidão de hippies se ter limitado a pensar que não valia a pena arrancar os cabelos e entrar em parafuso só porque estava ali a passar o Jonathan Rhys-Meyers
Rhys Meyers já tinha interpretado o papel de Henrique VIII como se Henrique VIII fosse o Joaquin Phoenix, e agora interpretou o papel de Elvis Presley como se o Rei do Rock fosse um Robbie Williams anoréxico e atarantado, a estremecer no palco à espera que os restantes Take That se materializem à sua volta. Se Elvis tivesse aquele aspecto, francamente, nunca teria sido Elvis: teria sido apenas Jonathan Rhys-Meyers.
(Interlúdio homoerótico: o rosto de Elvis não correspondia rigorosamente às noções clássicas de beleza masculina. Na verdade pode dizer-se que Elvis, juntamente com Brando, inventou as noções modernas de beleza masculina. Elvis tinha o rosto de uma estátua grega injectada com colagénio e depois esmurrada repetidamente em todos os sítios certos. O rosto de Rhys-Meyers não é clássico, nem moderno, nem sequer pós-moderno. É apático. Não se passa nada. Tem aquele ar permanentemente espantado, com boquinha indignada, e sobrancelhas vegetarianas, de quem abre o frigorífico a meio da noite para descobrir que se acabaram os espargos. Fim de interlúdio homoerótico).
A última sequência mostra um Elvis VIII sozinho no palco com um backdrop de néon, vestido de branco, com a poupa já na sua fase agnóstica, os ombros a tremer, os olhos esbugalhados, a balbuciar o «If I Can Dream» como se fosse o Demis Roussos. Só que o Demis Roussos não teria feito pior. O Dustin Hoffman vestido de Dorothy não teria feito pior. Eu próprio, mesmo tendo de me levantar às 9:10 para ir jogar ténis de praia, não teria feito pior.

Correntes!

Recebi nas últimas semanas, pela minha saúde, três mails diferentes de três pessoas que não conheço a perguntarem-me a minha opinião sobre aquilo do ponto de exclamação. As coisas chegaram mesmo a este ponto? Três mails de três pessoas que, tanto quanto sei, nem sequer têm blogues (estamos em 2009, por amor de Deus). Se me vão enviar mails, sugiro que seja com apostas sobre a próxima jornada. Mas era preferível abrirem um blogue e mandarem-me correntes - como aquela corrente dos 15 filmes na qual ainda ninguém teve a decência de me incluir.
Quanto ao ponto de exclamação, a verdade é que tentei, na altura própria, emitir a minha opinião, mas acabei sempre por perder os sentidos e desmaiar em cima do computador, o que fez com que minha empregada moldava tivesse de me vir acordar ao nascer do sol, descolando-me a cabeça do teclado com o cabo do espanador. As minhas perdas de consciência costumam ocorrer com timing perfeito, e é evidente que a polémica foi tão escandalosamente artificial que só pessoas extremamente com blogue a poderiam levar a sério. Ainda por cima está tudo facilitado - esta é daquelas em que basta um único exemplo contrário para embaraçar a oposição. O Portnoy's Complaint deve ter aproximadamente trezentos e noventa pontos de exclamação e não há um único que possa ser retirado sem tornar o livro pior. De resto, creio que a proposta de banir o uso de uma convenção gráfica por causa da minoria que a abusa é tão absurda que se refuta a si própria. Seria como banir o uso de gravatas apenas porque alguns excêntricos a gostam de usar virada para as costas, ou dentro das calças, enrolada à volta do Portnoy. Se todas as discordâncias retóricas fossem tão fáceis de resolver, nunca teria havido necessidade de inventar o diálogo socrático, o argumento crítico sofisticado, ou o Pacheco Pereira. É evidente que há maus escritores que usam mal o ponto de exclamação; mas é altamente provável que os que o fazem também usem mal as reticências, a vírgula, a metáfora, e a cabeça. Nas imediações de um ponto de exclamação abusivo há sempre delinquências tão ou mais relevantes a serem cometidas. E isto acaba por dizer mais sobre as pessoas que quiseram levar a arma do crime a tribunal - não como prova, mas como réu - do que sobre os esporádicos infractores. Se num mau livro, ou numa passagem particularmente má de um mau livro, o maior defeito que o equipamento estético do leitor consegue detectar é um ponto de exclamação mal posicionado tacticamente, então o leitor é tão superficial quanto o escritor que está a tentar denunciar. Três mails sobre isto, três, numa altura em que eu tenho de me levantar às 9:10 da manhã para ir jogar ténis de praia.

terça-feira, agosto 18, 2009

Que fazer? (as questões palpitantes do nosso movimento)

Bom dia. É uma da tarde. Creio estar a cingir-me aos factos quando digo que é terça-feira. Estou prestes a deitar-me. Escrevo estas linhas na cidade de L. no ano de 20__ enquanto saboreio gressinos torinesi besuntados com maionese do Lidl. Estão 25 graus, e o gentil leitor enverga significativamente mais cuecas do que eu. Não pego no livro do Pynchon há dez horas e meia, embora, no mesmo período de tempo, tenha lido na íntegra os quarenta e sete textos linkados ontem pelo Bookforum. A não ser que o conhecimento de uma estrada em Malta que liga Zebbug e Mdina me venha um dia a safar de uma situação delicada com, hipoteticamente, ciganos, não me lembro de ter aprendido nada de relevante. O meu esquentador faz um barulho esquisito, mas é provável que ele pense o mesmo de mim. Já emigrei por muito menos. Faltam pouco mais de seis horas para o Sporting entrar em campo contra a Fiorentina, uma equipa italiana da classe média-alta. Ao longo da sua história, várias equipas do Sporting, em diferentes e variadíssimos estados de consciência, foram tranquilamente eliminados de provas onde não deviam ter entrado por equipas italianas da classe média-alta, imunes ao desenvolvimento político das forças produtivas. Esta eliminatória não vai ser excepção. Não vejo qualquer hipótese de a Fiorentina não conseguir vencer o Sporting. Na verdade, a única hipótese de o Sporting não perder esta eliminatória de uma forma catastrófica seria artilhar uma exibição de tão confrangedora incompetência que a Fiorentina se sinta embaraçada por estar a praticar aquilo que é, essencialmente, a mesma modalidade desportiva, e se torne transigente, permissiva, decadente, antes de nos fazer o mesmo que o Mr. Miyagi faz ao Kreese no princípio de Karate Kid II: apertar-nos o nariz em amável galhofa, em vez de nos transferir o septo para o hipotálamo, pagando a respectiva cláusula de rescisão.
E contudo, há pessoas felizes. Alguns amigos e conhecidos sportinguistas, nem todos psicopatas, apresentam um transtornante optimismo nas suas esporádicas interacções comigo. Não percebo. Alguns falam de tácticas, mas também não percebo. Vi o Nacional-Sporting do primeiro ao último minuto e não percebi. Passei os primeiros minutos a tentar identificar o sistema táctico utilizado pelo Sporting (na companhia de pelo menos cinco dos jogadores titulares). O Bruno Sena Martins ("Paulo Bento ensaiou uma alteração táctica de molde a converter o losango (4-4-2) num 4-2-3-1.") quer convencer o país de que percebeu tudo, mas eu tenho as minhas dúvidas. Aceito aquele '4' inicial, mas rejeito enfaticamente todos os algarismos subsequentes. Eu não sei o que se passou em campo no Sábado à noite e duvido que alguém saiba. O sistema táctico do Sporting 2009/2010 é mais instável do que um mapa interactivo da Polónia. O cosmos deu uma volta tão grande que o enredo de um livro do Pynchon é mais fácil de seguir do que o sistema táctico do Sporting. Isto é particularmente doloroso para mim. Desde pequenino que consigo identificar o mais dedáleo sistema táctico em dois minutos de televisionamento. Desta vez, ao fim de vinte minutos tive de ir buscar papel e lápis. A última vez que tinha ido buscar papel e lápis foi em 1994, ao ver a selecção da Bulgária no Mundial dos Estados Unidos. Qualquer conversa de losangos e triângulos nesta fase dos acontecimentos é um insulto, não apenas a Euclides e Hipócrates de Quíos, como a mim e à minha pobre mãe, que está cheia de saudades minhas.
O que é o que o Miguel Veloso tentou fazer na primeira parte do jogo? Ninguém sabe. Qualquer pessoa que diga que sabe está a mentir. O Miguel Veloso por quem me apaixonei na sua estreia contra o Inter em 2006 tinha a missão de receber a bola à frente da defesa, rodopiar duas vezes para cada lado, e depois telegrafar a bola a uma pessoa com um projecto de vida sensivelmente parecido com o seu. O Miguel Veloso de Sábado estava, nas palavras de um optimista comentador da TSF, "descaído sobre a meia-esquerda", encarando cada lance que se desenrolava à sua volta com a mesma perplexidade com que Hamlet encarava o fantasma do pai. Sem um jogador à frente da defesa que possa interromper a potencialmente infinita troca de bola entre os dois centrais mais nervosos da história do futebol, a chamemos-lhe "construção de jogo" do Sporting passa agora por Abel - o mesmo Abel que consegue receber a bola a cinco metros da linha de meio-campo, e sem um único adversário num raio de dez, com a mesma serenidade de um guarda-redes a receber um atraso com os pés pressionado pelo Romário. Algures mais lá para a frente, o João Moutinho que se parece cada vez menos com o João Moutinho e cada vez mais com o Bob Geldof em 1985, anda de um lado para o outro a tentar furiosamente alimentar a África inteira com duas barras de nougat. O Djaló, que numa encarnação anterior deve ter chegado de avião à Fantasy Island e pedido ao Ricardo Montalban para ser extremo-direito, recebe a bola com a canela junto à linha lateral, simula uma breve lesão osteocondral em frente ao lateral contrário, corre três metros para a frente e efectua um passe em profundidade para um dos jogadores prestes a fazer exercícios de aquecimento. O Postiga, cuja missão em campo me parece agora consistir em recuperar a bola quando o Sporting tem a bola, e manter a bola quando o Sporting não tem a bola, passou grande parte do jogo a pressionar adversários imaginários perto de uma bandeirola de canto imaginária. O Rochemback. O Rochemback continua a ser um excelente futebolista e gostaria que a SAD efectuasse um esforço financeiro no sentido de comprar o seu passe a Satanás. Gosto muito muito do André Marques, que tem duas das qualidades essenciais num lateral moderno: quando a bola é cruzada da faixa oposta consegue não sofrer um súbito aneurisma cerebral; e quando tem a bola aos seus pés esforça-se activamente por endossá-la a alguém que apresente notórias semelhanças físicas com um colega de equipa. O Daniel Carriço também me agrada muito. Assumo que tenha recebido a rigorosa educação que a Academia reserva para os defesas-centrais. Os defesas-centrais de um clube grande, dizem os docentes, passam 75% do jogo sem nada para fazer, portanto a sua virtude essencial deve ser a concentração. Infelizmente, depois de uma época a titular, a concentração é a única qualidade do Daniel Carriço impossível de avaliar. O Daniel Carriço passa o jogo inteiro a acudir a emergências, e deve chegar ao final dos noventa minutos numa pilha de nervos, com vontade de ir percorrer a estrada entre Zebbug e Mdina à procura de uma prostituta para assassinar. A minha vida, basicamente, acabou. Mas quero que sejam felizes quando eu já cá não estiver, porque a existência é uma dádiva e não devemos desperdiçá-la.