1.Benfica Helped by River Plate Reunion
2.Manure Raises a New Stink
terça-feira, março 30, 2010
segunda-feira, março 29, 2010
Vibrações em JavaScript
Durante a pavorosa conflagração que decidiu conflagrar a meros centímetros do meu nariz, dei por mim a confrontar corajosamente a minha própria mortalidade. Demonstrando típica ausência de egomania, pensei não em mim, mas no povo: se eu fenecesse, o que seria de vocês? Será possível moderar comentários a partir do Além? Será possível recordar passwords terrenas? Se a minha essência espiritual emitir um post ilustrado através de vibrações cósmicas, algum funcionário do Blogger será capaz de o interceptar, ou isso só no Sapo? Diversos monoteísmos tentaram obliquamente responder a estas perguntas, mas há mistérios metafísicos que só a televisão é capaz de elucidar. Felizmente, alguém na TVI deve ter passado recentemente por uma provação semelhante à minha, e decidiu transmitir um programa sobre o assunto.
A televisão anda há anos a explorar tangencialmente o contacto dos vivos com os mortos, seja através de séries ficcionais (Six Feet Under, Ghost Whisperer) ou de programas de entretenimento apresentados por hologramas de cadáveres (Larry King, Eládio Clímaco), pelo que a ideia de ir directo ao assunto sem eufemismos é menos revolucionária do que à partida poderia parecer. A empreitada foi enriquecida com um exemplo perfeito de casting tecnológico: um amplificador natural, capaz de transportar as suas vastas tonelagens decibélicas até ao estuário do Estige e aos arenques do Aqueronte, a voz de Júlia Pinheiro é possivelmente o instrumento mais adequado para qualquer tentativa de intimidar falecidos a falar on the record.
Foi, portanto, uma moderada desilusão descobrir que Júlia Pinheiro estaria presente apenas como tradutora («He's curious. Are you concentreite?»), e que o diálogo com os mortos estaria a cargo de uma médium britânica chamada Anne Germain. A necessidade de uma tradutora para os vivos, aliada ao facto de os mortos em questão serem aparentemente monolingues, tornou inviável qualquer manobra para evitar a pergunta óbvia: o contacto vai ser efectuado em que língua? Júlia Pinheiro apressou-se a esclarecer que no Além a língua "não é importante", uma vez que se comunica através de uma linguagem universal, como o Esperanto ou o JavaScript.
Nos anos 20, quando o espiritualismo ainda conquistava pentacampeonatos, ilusionistas profissionais como Houdini tentavam pacientemente explicar que falar com mortos era uma actividade equivalente a transformar um lenço numa pomba ou serrar assistentes ao meio, enquanto vultos do racionalismo, como os editores da Scientific American ou Sir Arthur Conan Doyle, se desdobravam em manifestações públicas de credulidade, demonstrando que o método científico é um instrumento de aplicabilidade limitada.
Francisco Moita Flores foi chamado ao palco para cumprir a mesma função de Conan Doyle: empregar todas as suas faculdades de raciocínio dedutivo no acto de ficar tão boquiaberto que uma inflamação auto-induzida dos seios perinasais provoque uma sinusopatia intelectual capaz de cancelar as mesmas faculdades de raciocínio dedutivo. A interacção proporcionou poucas oportunidades para o espanto. As tacteantes adivinhações da médium destacavam-se pela sua flagrante trivialidade, provando apenas que o dialecto formal dos mortos sofreu algumas transformações desde que os primeiros canais de comunicação foram abertos. Onde antes se expressavam por meio de fluentes epigramas vitorianos, os mortos utilizam agora uma curiosa mistura de poesia simbolista e generalização centrípeta que se vai limitando gradualmente até tropeçar numa hipótese concreta para significar.
Velhos favoritos como “sinto uma vibração” ou “sinto uma presença feminina” continuam a aparecer, por vezes em arrojadas combinações como “sinto a vibração de uma presença feminina”. A presença feminina vibratória podia perfeitamente ser Júlia Pinheiro que, após vários minutos de circunspecta tradução efectuada num volume praticamente humano parecia tão tensa como uma raquete de Roger Federer, mas Moita Flores decidiu fornecer a sua própria boquiaberta narrativa. A médium também topou logo, com admirável argúcia, que estava perante uma pessoa “muito ciosa da sua privacidade”, característica supostamente herdada da presença feminina vibratória, que agora envolvia Moita Flores com “asas de anjo”. Este feroz sentido de privacidade foi serenamente confirmado por Moita Flores - num estúdio de televisão e perante uma plateia, enquanto comunicava em diferido com a sua falecida mãe.
A médium transferiu de seguida a sua atenção para os membros do público. Uma pessoa foi informada de que alguém muito jovem pretendia fazer-lhe um link: "tenho uma vibração de muitas luzes fortes". Provavelmente uma daquelas janelas pop-up com publicidade a slot machines. Seguiram-se algumas sugestões vagas sobre alguém que estivera numa ambulância, ou possivelmente num hospital, onde "fizera muitos exames", expressão que, como sabemos através das escutas a Sócrates e Armando Vara, é código para "adquirir furtivamente um canal televisivo onde se fala com os mortos". Se se vier a provar que a extensão da conspiração para controlar os media inclui este tipo de comunicações, Pinto Monteiro ainda pode mandar destruir o Céu. Outro membro do público foi confrontado com uma fotografia que está, pelos vistos, sempre a cair - apenas a forma de o respectivo falecido dizer que está em casa. (Freddie Flinstone, salvo erro, usava o mesmo método, ainda quando estava vivo). Um motivo recorrente, aliás, era o tipo de manobras que os espíritos usam para sinalizar a sua presença: tombar fotografias, roubar brincos, espalhar penas de almofada pelo chão. Comportamentos típicos de uma criança na faixa etária dos 2-4 anos; provavelmente há espíritos que andam pela casa a roubar danoninhos do frigorífico ou a ligar a televisão no canal JimJam.
Tudo isto, evidentemente, e um bocadinho ridículo, pelos mesmos motivos que qualquer manifestação pública de extremos emocionais (amor, mágoa) é um bocadinho ridícula para qualquer pessoa que não os partilhe naquele momento. Eu, por exemplo, cada vez tenho mais dificuldades em ler poemas. Mas não me parece um sinal sociológico alarmante, nem uma razão forte para palmirasilvar a coisa, tentando sepultar a confusão debaixo de um pedagógico dilúvio de links para páginas do Skeptical Enquirer sobre "leitura a frio" ou "validação subjectiva".
Ao contrário do que parece pensar Carlos Fiolhais, este tipo de programa não é "profundamente prejudicial para as pessoas mais frágeis". As "pessoas mais frágeis" presentes no estúdio, aliás, pareceram-me todas extremamente satisfeitas com os resultados, e a forma como cada indivíduo decide processar o seu luto deve ser avaliada pela eficácia. Frágeis ou não-frágeis, quase todos nos encontramos em situações onde uma calibração da nossa incredulidade pode ter consequências positivas; como adepto de um clube condenado a ser dirigido nas próximas épocas pelo Cardeal Richelieu, eu sei isto melhor que ninguém.
A televisão anda há anos a explorar tangencialmente o contacto dos vivos com os mortos, seja através de séries ficcionais (Six Feet Under, Ghost Whisperer) ou de programas de entretenimento apresentados por hologramas de cadáveres (Larry King, Eládio Clímaco), pelo que a ideia de ir directo ao assunto sem eufemismos é menos revolucionária do que à partida poderia parecer. A empreitada foi enriquecida com um exemplo perfeito de casting tecnológico: um amplificador natural, capaz de transportar as suas vastas tonelagens decibélicas até ao estuário do Estige e aos arenques do Aqueronte, a voz de Júlia Pinheiro é possivelmente o instrumento mais adequado para qualquer tentativa de intimidar falecidos a falar on the record.
Foi, portanto, uma moderada desilusão descobrir que Júlia Pinheiro estaria presente apenas como tradutora («He's curious. Are you concentreite?»), e que o diálogo com os mortos estaria a cargo de uma médium britânica chamada Anne Germain. A necessidade de uma tradutora para os vivos, aliada ao facto de os mortos em questão serem aparentemente monolingues, tornou inviável qualquer manobra para evitar a pergunta óbvia: o contacto vai ser efectuado em que língua? Júlia Pinheiro apressou-se a esclarecer que no Além a língua "não é importante", uma vez que se comunica através de uma linguagem universal, como o Esperanto ou o JavaScript.
Nos anos 20, quando o espiritualismo ainda conquistava pentacampeonatos, ilusionistas profissionais como Houdini tentavam pacientemente explicar que falar com mortos era uma actividade equivalente a transformar um lenço numa pomba ou serrar assistentes ao meio, enquanto vultos do racionalismo, como os editores da Scientific American ou Sir Arthur Conan Doyle, se desdobravam em manifestações públicas de credulidade, demonstrando que o método científico é um instrumento de aplicabilidade limitada.
Francisco Moita Flores foi chamado ao palco para cumprir a mesma função de Conan Doyle: empregar todas as suas faculdades de raciocínio dedutivo no acto de ficar tão boquiaberto que uma inflamação auto-induzida dos seios perinasais provoque uma sinusopatia intelectual capaz de cancelar as mesmas faculdades de raciocínio dedutivo. A interacção proporcionou poucas oportunidades para o espanto. As tacteantes adivinhações da médium destacavam-se pela sua flagrante trivialidade, provando apenas que o dialecto formal dos mortos sofreu algumas transformações desde que os primeiros canais de comunicação foram abertos. Onde antes se expressavam por meio de fluentes epigramas vitorianos, os mortos utilizam agora uma curiosa mistura de poesia simbolista e generalização centrípeta que se vai limitando gradualmente até tropeçar numa hipótese concreta para significar.
Velhos favoritos como “sinto uma vibração” ou “sinto uma presença feminina” continuam a aparecer, por vezes em arrojadas combinações como “sinto a vibração de uma presença feminina”. A presença feminina vibratória podia perfeitamente ser Júlia Pinheiro que, após vários minutos de circunspecta tradução efectuada num volume praticamente humano parecia tão tensa como uma raquete de Roger Federer, mas Moita Flores decidiu fornecer a sua própria boquiaberta narrativa. A médium também topou logo, com admirável argúcia, que estava perante uma pessoa “muito ciosa da sua privacidade”, característica supostamente herdada da presença feminina vibratória, que agora envolvia Moita Flores com “asas de anjo”. Este feroz sentido de privacidade foi serenamente confirmado por Moita Flores - num estúdio de televisão e perante uma plateia, enquanto comunicava em diferido com a sua falecida mãe.
A médium transferiu de seguida a sua atenção para os membros do público. Uma pessoa foi informada de que alguém muito jovem pretendia fazer-lhe um link: "tenho uma vibração de muitas luzes fortes". Provavelmente uma daquelas janelas pop-up com publicidade a slot machines. Seguiram-se algumas sugestões vagas sobre alguém que estivera numa ambulância, ou possivelmente num hospital, onde "fizera muitos exames", expressão que, como sabemos através das escutas a Sócrates e Armando Vara, é código para "adquirir furtivamente um canal televisivo onde se fala com os mortos". Se se vier a provar que a extensão da conspiração para controlar os media inclui este tipo de comunicações, Pinto Monteiro ainda pode mandar destruir o Céu. Outro membro do público foi confrontado com uma fotografia que está, pelos vistos, sempre a cair - apenas a forma de o respectivo falecido dizer que está em casa. (Freddie Flinstone, salvo erro, usava o mesmo método, ainda quando estava vivo). Um motivo recorrente, aliás, era o tipo de manobras que os espíritos usam para sinalizar a sua presença: tombar fotografias, roubar brincos, espalhar penas de almofada pelo chão. Comportamentos típicos de uma criança na faixa etária dos 2-4 anos; provavelmente há espíritos que andam pela casa a roubar danoninhos do frigorífico ou a ligar a televisão no canal JimJam.
Tudo isto, evidentemente, e um bocadinho ridículo, pelos mesmos motivos que qualquer manifestação pública de extremos emocionais (amor, mágoa) é um bocadinho ridícula para qualquer pessoa que não os partilhe naquele momento. Eu, por exemplo, cada vez tenho mais dificuldades em ler poemas. Mas não me parece um sinal sociológico alarmante, nem uma razão forte para palmirasilvar a coisa, tentando sepultar a confusão debaixo de um pedagógico dilúvio de links para páginas do Skeptical Enquirer sobre "leitura a frio" ou "validação subjectiva".
Ao contrário do que parece pensar Carlos Fiolhais, este tipo de programa não é "profundamente prejudicial para as pessoas mais frágeis". As "pessoas mais frágeis" presentes no estúdio, aliás, pareceram-me todas extremamente satisfeitas com os resultados, e a forma como cada indivíduo decide processar o seu luto deve ser avaliada pela eficácia. Frágeis ou não-frágeis, quase todos nos encontramos em situações onde uma calibração da nossa incredulidade pode ter consequências positivas; como adepto de um clube condenado a ser dirigido nas próximas épocas pelo Cardeal Richelieu, eu sei isto melhor que ninguém.
O grande acto sobrenatural da noite foi mesmo o tom de voz de Júlia Pinheiro, cuja curva entoacional sofreu misteriosas variações que a destituíram de 70% dos seus decibéis habituais: nada de guinchos bruscos ou gargalhadas simultaneamente exdrúxulas, graves e agudas, sinal inequívoco de que um espírito familiar andou pelo estúdio antes do programa a esconder-lhe as anfetaminas.
terça-feira, março 23, 2010
"... And not least that of Voloshinov" (foto-reportagem doméstica)
Às 18 horas de hoje ("ontem", em terminologia humana), as minhas reflexões críticas sobre a futilidade inerente aos estratagemas da ficção pós-moderna para forjar autenticidade foram brutalmente interrompidas pelo som de pessoas a gritar fogo à janela. Mais um incidente provocado pelo incompreensível planeamento urbanístico português, que continua a construir edifícios em sítios onde um dia mais tarde há incêndios.
A resposta dos bombeiros foi rápida. Em menos de meia-hora, o Regimento de Sapadores, liderado por Ferris Bueller (foto abaixo) acolheu ao local, tendo negociado com sucesso sete viaturas mal estacionadas à porta da Pastelaria Alfacinha, um jogo de futebol à porta da mercearia, dezoito transeuntes libertários manifestando uma natural desconfiança sobre o papel do Estado, e dois pilares da EMEL.
O edifício em chamas, saliento, continuava em chamas, alguns metros à frente do espaço onde eu pondero a validade da solução meta-ficcional para os dilemas miméticos (sendo que a representação do real é sempre um acto de prestidigitação necessariamente parcial, modulado por uma entidade subjectiva - o eu - que não se pode representar a si própria sem que o processo colapse como um prédio devoluto) uma solução que implica simultaneamente representar e realçar os limites dessa representação.
Uma escada Magirus foi prontamente colocada à frente do restaurante Mesa de Frades, e erguida para a abóbada celeste, que permanecia altiva e azul-cinza, como Jesus.
É uma instituição muito especial, com créditos inigualáveis no scouting psicométrico, aquela que consegue substituir um sociopata moderado como Ricardo Sá Pinto por alguém que todas as evidências apontam ser uma mistura moderna de Robespierre e da professora da Helen Keller. Caso Costinha fosse director-desportivo em 1994, Cherbakov teria sido arrastado para o treino assim que os paramédicos conseguissem extrair a alavanca das mudanças do seu pâncreas, e teria jogado o 3-6 sob analgésicos, para bem da coesão do grupo. Quem sabe o rumo que a História teria seguido?
Entretanto o fogo continuava activo. Alguns residentes, alheios à coesão do grupo, exigiam cobardemente ser evacuados. As autoridades agiram de pronto, instalando um poderoso cordão moral para lhes bloquear a saída.
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Um misterioso homem de capa fala com o pai do George.
Pouco depois das 19 horas, os bombeiros conseguiram finalmente controlar as chamas, com o auxílio de água e complexos tubos de borracha muito compridos, impedindo o alastramento aos edifícios contíguos.
«Anderson rightly upbraids linguistic or discursive imperialism, but he his himself too uncritical of Saussure, appearing to endorse his view of parole as some form of free individual contingency. On the contrary, discourse theory (and not least that of Voloshinov, in his Marxism and the Philosophy of Language) has revealed the rigorously constrained social determinations of all speech, the subject of which is never, as Anderson asserts, 'axiomatically individual' but always, as Bakhtin has shown, a dialogic subject.»
O fogo, nesta altura, desistiu, alegando não sentir a confiança e o oxigénio necessários para continuar a dar o seu contributo. Outros incêndios, em circunstâncias semelhantes, sacrificaram-se em nome da coesão do grupo, sabendo que o "nós" está acima do "eu".
O flagelo do trânsito citadino, e também um livro de Cynthia Ozick, que inclui os contos « Levitation» e «Usurpation (Other People's Stories)», sobre os quais eu tento reflectir um bocadinho, sempre que não há incêndios.
Uma profecia: num prazo máximo de seis meses, Costinha vai entrar em campo sozinho e o árbitro vai marcar um penalty a favor do Sporting, prontamente convertido pelo próprio. Vai tudo piar mais fino.
quinta-feira, março 11, 2010
Como devem proximamente ter reparado, daqui a três semanas não vou ter conseguido actualizar o blogue nas últimas três semanas
O índice remissivo da colecção de ensaios de Zadie Smith (Changing My Mind) não inclui uma única referência a James Wood. Inclui nove referências a Hans van den Broek (personagem de Joseph O'Neill), catorze a Dorothea Brooke (personagem de George Eliot), uma referência a Thierry Henry (personagem de Arsène Wenger), uma a Joan Baez (personagem de Bob Dylan), uma a John Locke (personagem de João Carlos Espada), duas a Truman Capote (personagem de Truman Capote), e três a Jews (personagem de Pedro Arroja), mas nenhuma referência a James Wood em trezentas páginas, o que só é digno de realce porque o livro é essencialmente sobre ele.
Pelo menos dois dos ensaios são respostas explícitas ao programa estético de Wood, com passagens que estão comicamente próximas de serem notas de rodapé a parágrafos do tal ensaio sobre o "Realismo Histérico", e outras que estão perigosamente próximas de serem pastiches estilísticos. Wood tem um «the author's porous scout», Zadie Smith tem um «the narrator's flawless interpreter»; Wood tem um «drawn, like a larcenous banker, to raid again and again the very source that sustained him», Zadie Smith tem um «like a lapsed High Anglican, Netherland hangs on to the rituals and garments of transcendence»; Wood tem um «The house of fiction has many windows, but only two or three doors», Zadie Smith tem um "The novels we know best have an architecture. Not only a door going in and another leading out, but rooms, hallways, stairs, trapdoors, hidden pasageways, et cetera». E no entanto, a única coisa vagamente parecida com uma menção indirecta é uma referência lá para o meio aos "nossos críticos mais proeminentes".
O que se pode concluir é que James Wood e Zadie Smith são secretamente casados e que a sua relação já atingiu aquele patamar evolutivo em que se pode discutir durante horas através de insinuações e remoques cifrados sem nunca nomear a outra parte: «certas pessoas cá em casa não arrumam a louça como prometeram», etc. O livro é muito bom, ao contrário do futebol em geral. Há algo de profundamente errado com o futebol em geral.
Os livros de Bolaño também são muito bons, mas estou cada vez mais convencido de que há algo de profundamente errado com eles todos. O que é que pode haver de errado com livros que gostei tanto de ler (apesar de não ter a mínima vontade de os reler)? O que me parece é que os livros de Bolaño, tal como o meu interesse pelos livros de Bolaño, são produtos do acaso; o meu prazer ao lê-los foi totalmente determinado pela forma que a minha sensibilidade literária adquiriu. Com quase todos os outros livros de que gostei tanto, houve uma sensação de inevitabilidade (mesmo que falsificada): a minha personalidade poderia ser outra, mas o efeito seria semelhante. Mas a sensação que tenho com os livros de Bolaño - que são caóticos, que não fazem sentido, que apelam a uma parcela dessa sensibilidade alicerçada em arbitrariedades tão concretas como o facto de gostar muito de "livros sobre pessoas que gostam de livros" - é que a minha opinião sobre eles poderia ser radicalmente diferente caso tivesse usado umas meias de cor diferente na última terça-feira, ou tivesse jantado salmão em vez de lasanha ontem à noite. Continuo a achar que os livros são todos muito bons, que fique bem claro, mas esta aura de contingência é um bocadinho desconcertante para alguém que gosta de coisas predestinadas, como o amor, a eliminação do Real Madrid, ou as cíclicas tentativas do Luís Miguel Oliveira em descrever a realidade visível a personagens de Louis Braille.
Pelo menos dois dos ensaios são respostas explícitas ao programa estético de Wood, com passagens que estão comicamente próximas de serem notas de rodapé a parágrafos do tal ensaio sobre o "Realismo Histérico", e outras que estão perigosamente próximas de serem pastiches estilísticos. Wood tem um «the author's porous scout», Zadie Smith tem um «the narrator's flawless interpreter»; Wood tem um «drawn, like a larcenous banker, to raid again and again the very source that sustained him», Zadie Smith tem um «like a lapsed High Anglican, Netherland hangs on to the rituals and garments of transcendence»; Wood tem um «The house of fiction has many windows, but only two or three doors», Zadie Smith tem um "The novels we know best have an architecture. Not only a door going in and another leading out, but rooms, hallways, stairs, trapdoors, hidden pasageways, et cetera». E no entanto, a única coisa vagamente parecida com uma menção indirecta é uma referência lá para o meio aos "nossos críticos mais proeminentes".
O que se pode concluir é que James Wood e Zadie Smith são secretamente casados e que a sua relação já atingiu aquele patamar evolutivo em que se pode discutir durante horas através de insinuações e remoques cifrados sem nunca nomear a outra parte: «certas pessoas cá em casa não arrumam a louça como prometeram», etc. O livro é muito bom, ao contrário do futebol em geral. Há algo de profundamente errado com o futebol em geral.
Os livros de Bolaño também são muito bons, mas estou cada vez mais convencido de que há algo de profundamente errado com eles todos. O que é que pode haver de errado com livros que gostei tanto de ler (apesar de não ter a mínima vontade de os reler)? O que me parece é que os livros de Bolaño, tal como o meu interesse pelos livros de Bolaño, são produtos do acaso; o meu prazer ao lê-los foi totalmente determinado pela forma que a minha sensibilidade literária adquiriu. Com quase todos os outros livros de que gostei tanto, houve uma sensação de inevitabilidade (mesmo que falsificada): a minha personalidade poderia ser outra, mas o efeito seria semelhante. Mas a sensação que tenho com os livros de Bolaño - que são caóticos, que não fazem sentido, que apelam a uma parcela dessa sensibilidade alicerçada em arbitrariedades tão concretas como o facto de gostar muito de "livros sobre pessoas que gostam de livros" - é que a minha opinião sobre eles poderia ser radicalmente diferente caso tivesse usado umas meias de cor diferente na última terça-feira, ou tivesse jantado salmão em vez de lasanha ontem à noite. Continuo a achar que os livros são todos muito bons, que fique bem claro, mas esta aura de contingência é um bocadinho desconcertante para alguém que gosta de coisas predestinadas, como o amor, a eliminação do Real Madrid, ou as cíclicas tentativas do Luís Miguel Oliveira em descrever a realidade visível a personagens de Louis Braille.
quinta-feira, fevereiro 04, 2010
Laura

Sobre as implicações éticas da publicação de The Original of Laura falarei oportunamente em sede própria (provavelmente numa esplanada), mas devo dizer que, como objecto artístico funcional, tem muito pouco que se lhe possa apontar.
São centro e trinta e oito fichas de arquivo manuscritas. As respectivas transcrições usam um tipo de fonte chamado Filosofia, desenhado pela senhora Zuzana Licko, esposa de Rudy VanderLans (dois nomes estupidamente nabokovianos). Cada uma das fichas é picotada, o que permite recortá-las e reorganizá-las; a utilidade desse gesto para a coerência narrativa é duvidosa, mas resulta num intrigante efeito colateral: proporciona um vazio no centro do livro com as dimensões certas para esconder dois maços de tabaco, e transforma o romance póstumo de Nabokov no instrumento ideal para visitar alguém na prisão. Se o nível exibicional do Sporting se mantiver nos próximos tempos, espero que tenham isso em conta (fumo Chesterfield lights).
sexta-feira, janeiro 22, 2010
So fucking cold

Ah, a farsa. Vou agora explicar-vos o segredo da boa farsa: o segredo da boa farsa é cercar o temperamento inadequado com as circunstâncias mais adequadas para revelar a inadequação desse temperamento. Esta simples fórmula de meter o homem certo no sítio errado foi utilizada para produzir algumas obras-primas da comédia, tais como a colocação de Basil Fawlty nas imediações de um hotel, David Brent nas imediações de uma empresa, Pacheco Pereira nas imediações de um partido político, e Ricardo Sá Pinto nas imediações de uma sociedade. Estou muito irritado com a situação do Ricardo Sá Pinto, mas não estou irritado com o Ricardo Sá Pinto. Ficar irritado com o Ricardo Sá Pinto faz tanto sentido como ficar irritado com o dióxido de carbono: ele anda cá para cumprir a sua função, que é produzir efervescência; a culpa dos acidentes é de quem o enfia na botija errada, ou, no caso em questão, lhe abriu indevidamente a porta da jaula.
Já temos um forte candidato a texto mais irritante do ano. Estou muito irritado com o texto, mas não estou irritado com o Christopher Hitchens. Ficar irritado com o Christopher Hitchens faz tanto sentido como ficar irritado com a fotossíntese: o homem é um cretino, sempre foi um cretino, e há-de continuar a ser um cretino enquanto houver dióxido de carbono.
É possível ver naquele panfleto anti-Vidal um caso extremo de projecção - uma espécie de roman à clef involuntário em que Hitchens cartografa o seu próprio declínio intelectual - mas nós somos melhores e muito mais profundos que isso, por isso é que andamos aqui todos metidos em blogues. A noção de projecção inconsciente é, de facto, amplamente justificada pelo texto - uma catástrofe de construção, argumentação e auto-flagelação: Hitchens acusa de Vidal de revisionismo paranóico ao acreditar que Roosevelt teve conhecimento prévio do ataque a Pearl Harbour, quando o próprio Hitchens andou anos a martelar a teoria revisionista paranóica de que Churchill teve conhecimento prévio do ataque ao Lusitania; Hitchens impugna Vidal (que viveu 40 anos com um judeu) com um “muito, muito leve” anti-semitismo, quando Hitchens, antes de descobrir as suas raízes judaicas já na meia-idade, foi um fervoroso apoiante de alguns negacionistas do Holocausto; etc. Mas esta sugestão de simetria é falsa, e está longe do essencial.
Já temos um forte candidato a texto mais irritante do ano. Estou muito irritado com o texto, mas não estou irritado com o Christopher Hitchens. Ficar irritado com o Christopher Hitchens faz tanto sentido como ficar irritado com a fotossíntese: o homem é um cretino, sempre foi um cretino, e há-de continuar a ser um cretino enquanto houver dióxido de carbono.
É possível ver naquele panfleto anti-Vidal um caso extremo de projecção - uma espécie de roman à clef involuntário em que Hitchens cartografa o seu próprio declínio intelectual - mas nós somos melhores e muito mais profundos que isso, por isso é que andamos aqui todos metidos em blogues. A noção de projecção inconsciente é, de facto, amplamente justificada pelo texto - uma catástrofe de construção, argumentação e auto-flagelação: Hitchens acusa de Vidal de revisionismo paranóico ao acreditar que Roosevelt teve conhecimento prévio do ataque a Pearl Harbour, quando o próprio Hitchens andou anos a martelar a teoria revisionista paranóica de que Churchill teve conhecimento prévio do ataque ao Lusitania; Hitchens impugna Vidal (que viveu 40 anos com um judeu) com um “muito, muito leve” anti-semitismo, quando Hitchens, antes de descobrir as suas raízes judaicas já na meia-idade, foi um fervoroso apoiante de alguns negacionistas do Holocausto; etc. Mas esta sugestão de simetria é falsa, e está longe do essencial.
Vou agora explicar-vos o segredo do essencial: uma linha clara de declínio é a consequência natural de uma longa carreira. E os intelectuais públicos - tal como pugilistas profissionais ou líderes do PSD - parecem estar constitucionalmente impedidos de encenar vénias graciosas, especialmente aqueles que atrelam o seu método argumentativo a uma personalidade que depende da consistência e não das circunstâncias. Estilos mais dependentes de uma inteligência difusa e especulativa, que cortejam activamente o ridículo - como Norman Mailer: o melhor exemplo do mundo de todos os tempos de uma inteligência difusa e especulativa, que corteja activamente o ridículo - têm mais facilidade em mascarar este declínio, pois refundam-se para acomodarem cada tendência cultural. As suas especulações são demasiado irregulares para se detectarem padrões: a esperança é de que, por puro acidente estatístico, a catarata de disparates produza ocasionalmente algo que se assemelhe a profecia.
Hitchens não pertence a nenhuma destas estirpes, e uma linha clara de declínio é precisamente o que não se consegue encontrar nele: um gráfico da sua carreira não teria a forma de uma gradual curva descendente, mas sim de uma epiléptica sucessão de trambolhões. De cima para baixo, de baixo para cima, de baixo para mais baixo - qualquer movimento do homem é sempre um espalhanço. Tal como a Natureza, o debate de ideias abomina o vácuo. No espectro das posições teoricamente passíveis de serem adoptadas sobre qualquer assunto, o bom senso tende a deixar espaços em branco; "Christopher Hitchens" é a forma que a Natureza arranjou para os preencher. Tendo ancorado a sua ontologia na infalibilidade, mede a sua proximidade à razão pelo número de pessoas que pensam exactamente o contrário. Mais do que provar que outros estão errados enquanto ele está certo, Hitchens efectua as suas calibrações argumentativas e sacudidelas posicionais em resposta a um impulso mais primordial: alguém, algures, tem uma opinião que exige uma opinião contrária; e lá vai Hitchens a correr, aos berros, com um espelho na mão, bêbado gordo feio que é.
Gore Vidal é sóbrio, bonito, magro. Os seus soundbytes recentes não demonstram, em rigor, um declínio intelectual, mas um declínio retórico, o que é perfeitamente compreensível, e deveria ser varrido para debaixo do tapete por qualquer pessoa suficientemente adulta para compreender o conceito de gratidão: aquilo são transparentes reduções ao absurdo de fórmulas exaustas, ricochetes de uma pose mecânica que já não consegue fingir espontaneidade através de mestria retórica. “Gore Vidal” foi uma convenção literária concebida por Gore Vidal para ter sempre muita razão num mundo repleto de estúpidos. A convenção, no entanto, emancipou-se muito cedo, e decidiu permitir-lhe apenas escrever muito bem num mundo repleto de pessoas que escrevem mal: escrever muito bem naquele tom patenteável de alegre e incrédula exasperação, como quem relata os disparates de um filho cretino (sendo que o filho cretino é a raça humana). O deleite na imaginação do desastre é uma pose cheia de limitações, que a longevidade tende a agravar, pois perpetua um ciclo vicioso: a pose serve para expressar uma sensibilidade literária e intelectual cuidadosamente artilhada, mas também para validar as suas manifestações, pois se ela não fosse uma consequência natural das respostas aos factos, nunca lhe permitiria escrever tão bem (isto é uma falácia na qual caíram pessoas bem melhores que nós, pelo que não vale a pena empertigarmo-nos). Com o tempo, todas as energias criativas são empregues num único propósito: evitar que a personalidade encontre os prosaicos atritos da realidade, que às vezes fazem uma pessoa (menos eu, que sou realmente infalível) mudar de ideias. Estas personalidades, esculpidas com tanto afinco, deixam por fim de ter a elasticidade suficiente para responder às necessidades, numa altura em que já não há capacidade nem paciência para explorar tácticas novas; e afundam-se no seu próprio ADN, como as pessoas de idade.
Vou agora explicar-vos o segredo das pessoas de idade: as pessoas de idade envelhecem, tornam-se abruptas e inconvenientes, perdem uma fracção das maneiras e a totalidade do timing, lançam piropos a enfermeiras e dizem mal dos brasileiros, babam-se nas golas da camisa e chamam José ao Luís. O que as pessoas que ainda não são de idade fazem é ignorar tudo isto, mantendo um silêncio decoroso, porque um dia aquela pessoa de idade seremos nós, e vamos precisar da tolerância de quem nos ature. Não se aproveita a oportunidade para apontar, como quem descobre a pólvora, que o avô já não é o que era, ou para ganhar as discussões que se perderam quando as regras eram outras.
A entrevista ao Independent que provocou em Hitchens aquela falsa e sórdida indignação é uma entrevista a um homem com 84 anos, que já respondeu a todas as perguntas muitas vezes, e já não se dá sequer ao trabalho de olhar para as cábulas; um homem que sobreviveu à família, aos amigos, aos inimigos, ao companheiro de toda a vida, e às suas próprias pernas; um homem que costumava saudar entrevistadores com abusos pansexuais e citações de Cícero, e que agora se limita a dizer "It is so cold in here," he says, by way of introduction. "So fucking cold"." É um homem que conquistou o direito a ser este homem, e a ter frio, a ter muito frio. Confrontado com isto, Christopher Hitchens foi abrir mais janelas, porque ainda pode. Nem o Ricardo Sá Pinto, por amor de Deus. Nem o Ricardo Sá Pinto.
quinta-feira, janeiro 21, 2010
Parágrafo que cobre a extensão das minhas opiniões sobre o Izmailov
« (...) ainda não consegui perceber se o Belluchi é bom ou mau futebolista. Também se pode dar o caso de estarmos perante um desses médios médios, mas aprofundar esta hipótese seria fugir ao problema. Julgo que ele é o tipo de jogador que, não entusiasmando nem se afundando em más decisões, tem, como suprema característica, a habilidade para nos alimentar uma dúvida permanente entre o insulto e a vénia ao seu trabalho; uma dúvida muito útil para quem persegue uma carreira longa no desporto de alta competição bem remunerada, mas não tem a sorte de poder contar com o talento do empresário de Abel Xavier. É triste porque queremos assobiar Belluchi mas temos medo que ele acabe como estrela do Sevilha, daqui a dois anos».
(o Daniel do b-site, agora aqui)
(o Daniel do b-site, agora aqui)
quinta-feira, janeiro 07, 2010
Vocês são daquelas pessoas que eu fui incapaz de transformar em checoslovacos?

Bom dia, alegria! O pior já passou, e tudo se resolveu: a password do blogger afinal era "Alexi_Lalas", entretanto alterada para o nome de um futebolista com menos internacionalizações. Creio não estar a extravasar as minhas competências ao lembrar-vos a todos que tiveram muitas saudades minhas, e que a minha ausência vos fez sofrer muito. As pessoas do Albergue Espanhol (um nome a duas curtas vogais de distância de ter como anagrama "pus-lhe gel no rabo") ficaram tão transtornadas que chegaram ao ponto de omitir este blogue da sua extensa lista de links, um gesto inadvertido e facilmente rectificável, mas que me comoveu profundamente.
Quanto ao número de Natal do Economist, no fundo o assunto que nos trouxe aqui hoje, não haverá dúvidas em apontar o artigo The Art of abandonment como o grande vencedor, seguido de perto pelos artigos Older and richer e Tongue twisters («Turks coin fanciful phrases such as “Çekoslovakyalilastiramadiklarimizdanmissiniz?”, meaning “Were you one of those people whom we could not make into a Czechoslovakian?”»).
Também manifestamente incapaz de transformar pessoas como o Abel e o Hélder Postiga em checoslovacos, a direcção do Sporting Clube de Portugal tem aproveitado os intervalos da sua agenda normalmente preenchida com actividades destinadas à opressão de casais homossexuais para "mostrar interesse" na contratação de jogadores de futebol. A situação apanhou-me desprevenido, mas deixa-me confiante no futuro. O Pedro Mendes e o Ruben Micael não preenchem as lacunas mais urgentes, mas se o interesse for real revela uma nova maneira de pensar o reforço do plantel. Mais ou menos desde 1997 que a contratação de jogadores para o Sporting é subordinada à elaboração de um perfil: um treinador fazia um relatório no qual lamentava a falta que lhe fazia um avançado rápido que desse largura ao ataque e contratava-se o Giménez; ou um ponta-de-lança corpulento para proporcionar um modelo de jogo mais directo, e contratava-se o Purovic. Andámos assim nove anos a gastar dinheiro não em atletas profissionais, mas em formas platónicas. O novo rumo assenta em premissas diferentes: gasta-se o dinheiro que houver (outro mistério: acho que não sou o único que começou a contar cartas no blackjack) em qualidade, sem entrar em considerações sobre o sítio onde ela posteriormente se enfia. O Pedro Mendes e o Ruben Micael têm poucas características em comum, a não ser o facto de ambos exibirem uma insólita propensão para passar a bola a colegas de equipa. Não cumprem as fantasias centimétricas e curriculares dos adeptos mais lúcidos (ando a sonhar com um trinco africano de dois metros de altura há tanto tempo), mas um meio-campo de tísicos em câmara lenta que não perdem a bola parece-me uma melhor base de sustentação de um clube que luta activamente pelo terceiro lugar do que um meio-campo de tísicos em câmara lenta que perdem a bola. Os melhores autores de contos de todos os tempos foram o Isaac Babel e o Leonard Michaels, mas isso é assunto para outro post, e eu vou escrever muitos, muitos posts este ano.
terça-feira, dezembro 01, 2009
Arthur a grammar

A notícia {citation needed} que começou numa promoção concebida pelos Mad Men {citation needed} do departamento de marketing do Sporting, e que se começou a transformar em qualquer coisa diferente numa manchete do jornal i, chegou ao meu telemóvel às 15:14 de hoje, com este aspecto: "O que é isto de nós agora sermos homofóbicos? Já leste aquilo?" Não vou sequer tentar descrever os momentos aflitivos que passei até ter conseguido decifrar o dédalo semântico constituído por estas duas descontextualizadas construções verbais, nem os múltiplos fantasmas interpretativos que os vocábulos "nós", "agora", "leste" e "aquilo" evocaram na minha frequentemente aprazível {citation needed} paisagem interior. Basta garantir que eu sou uma pessoa extremamente ocupada {citation needed} e não me posso dar ao luxo de perder tardes inteiras {citation needed} a preocupar-me com problemas que não existem.
O título da notícia do jornal i que inaugurou todo este imbróglio é o seguinte: «A grammar is forgotten that there is a dog». Peço desculpa, isto é uma frase de Gertrude Stein. O título da notícia do jornal i que inaugurou todo este imbróglio é o seguinte: «Discriminação? Promoção do Sporting exclui casais homossexuais {enorme, imensa, descomunal citation needed}».
Com toda a honestidade, o título não é falso, mas pegar-lhe por essa ponta needed de uma profusão de citations; a promoção a que o artigo se refere exclui efectivamente casais homossexuais - da mesma forma que exclui um par de homossexuais do mesmo sexo que não sejam um casal, da mesma forma que exclui um casal de heterossexuais que não sejam sócios do Sporting, da mesma forma que exclui um casal de heterossexuais com menos de 18 anos de idade, da mesma forma que exclui uma hipotética dupla familiar constituída por um tenente-coronel homofóbico chamado Ramiro e pelo seu filho Xavier, membro do núcleo Almadense do Ku Klux Klan. As condições especificadas no site do clube, e que o próprio artigo cita, nunca falam sequer em "casais", muito menos em orientação sexual:
PREÇO ESPECIAL PARA 2 SÓCIOS DE SEXO OPOSTO QUE ADQUIRAM A SUA GAMEBOX EM SIMULTÂNEO E PARA O MESMO SECTOR!
- Campanha válida para renovação de Lugares Especiais (LE DUO), renovação e compra de Gamebox Sócio (GB DUO) e aderentes à Campanha de Novos Sócios;
- O preço da GB DUO inclui os dois lugares (desconto aplicado no lugar da mulher);
- Obrigatoriedade de serem Homem e Mulher com mais de 18 anos de idade (Sócios Efectivos);
Confrontado com estas claras estipulações, o deputado Miguel Vale de Almeida fez a seguinte leitura: «If this was why they were to be the next to go to see the same that is that when that if that might that can that will be as likely as if compared». Peço desculpa, isto é uma frase de Gertrude Stein. Confrontado com estas claras estipulações, o deputado Miguel Vale de Almeida fez a seguinte leitura: «É absolutamente inaceitável. Pura maldade. Não há legislação que dê aval a uma discriminação dessas». (Suponho que a maldade foi descrita como "pura" para a distinguir daquelas outras maldades diluídas).
Tal como Gertrude Stein sempre revelou uma certa dificuldade em perceber que as discriminações impostas pelos conceitos de gramática, sintaxe e semântica não eram um ataque à sua liberdade pessoal, o Miguel Vale de Almeida também parece ter uma certa dificuldade em perceber que qualquer promoção ou actividade dirigida a um segmento limitado do público é, por definição, discriminatória. O Miguel Vale de Almeida e o seu parceiro não podem aderir a esta promoção pelos mesmo motivos que os impediram de defrontar a Carly Gullickson e o Travis Parrott na final de pares mistos do Open dos Estados Unidos. Esta promoção é oferecida apenas a sócios do clube, maiores de 18 anos, e de sexos diferentes. Quem não cumprir as condições estipuladas pelo Sporting para adquirir este produto específico, sejam casais homossexuais, sócios do Benfica, ou membros dos Ministars, não podem reclamar direito a ele, e terão de arranjar outra maneira de entrar no estádio - pagando o bilhete completo, aproveitando outra futura promoção, ou fazendo-se sócio, como eu, que nunca em quinze anos de quotas pagas consegui arrastar uma pessoa do sexo oposto para Alvalade, nem sequer com ameaças físicas {citation needed}. Se as condições fossem alteradas de forma a não discriminar os potenciais clientes que o Miguel Vale de Almeida acha que foram discriminados, a promoção ficaria reduzida a um "compre uma gamebox e tenha desconto na segunda", estratégia comercial que pode fazer sentido com os pacotes de ice tea do Lidl, mas que aplicada à venda de lugares para jogos do Sporting resultaria numa quebra de receitas inevitavelmente conducente à permanência de Pedro Silva no plantel até ao fim do calendário Maia, altura em que vamos todos morrer, menos as baratas e provavelmente o Pedro Silva.
O Sporting, por amor de Deus e de Freddie Mercury, não vedou o acesso ao estádio a casais homossexuais. Nem limitou os direitos fundamentais de nenhum casal homossexual, porque entre os direitos fundamentais de qualquer casal homossexual conta-se o direito de entrar no Alvalade XXI para observar as arrepiantes transições ofensivas da equipa principal, mas não o direito a usufruir de um desconto que, tal como os descontos para crianças, diplomatas e olheiros de clubes ingleses, não se aplica a eles.
A farsa, que poderia perfeitamente ter ficado por aqui, ganhou novas camadas de espessura esclerótica quando a direcção do Sporting decidiu interromper a prática da actividade para a qual tem menos competências (negociar contratações de treinadores com clubes em zona de despromoção), para se dedicar à segunda actividade para a qual tem menos competências (falar). Um dirigente foi prontamente encarregue de explicar ao jornal i que a campanha é "para mulheres e não para casais: as mulheres representam apenas 20% a 28% do público que vem ao estádio e considerámos ser um target interessante para a estratégia de aumento de sócios no Sporting". Quando confrontado com o facto de a promoção impossibilitar que o estádio se encha de lésbicas, o mesmo dirigente respondeu "Não pensámos nisso. Não está contemplado apenas porque não pensámos nisso".
Por amor de Deus, é óbvio que "não pensámos nisso". Há alguém que duvide que "não pensámos nisso"? Os dirigentes do Sporting têm um extenso e verificável currículo de "não pensámos nisso". A nossa longa história está pejada de momentos memoráveis em que "não pensámos nisso". Se eu tivesse de apostar todo o meu património na veracidade das declarações de um dirigente desportivo português, apostá-lo-ia sem hesitar num dirigente do Sporting que confessasse simplesmente que "não pensámos nisso".
Como é que o Miguel Vale de Almeida acha que a situação deve ser resolvida? Passo a citar: «There is some difference between having made it and carrying it about and how to use it and most of it is when they might be just as careful as ever». Peço desculpa, isto é outra frase de Gertrude Stein. Como é que o Miguel Vale de Almeida acha que a situação deve ser resolvida? Passo a citar: «Seria excelente enviar umas cópias da Constituição àquele clube de futebol. E, já agora, um belo processo.»
O título da notícia do jornal i que inaugurou todo este imbróglio é o seguinte: «A grammar is forgotten that there is a dog». Peço desculpa, isto é uma frase de Gertrude Stein. O título da notícia do jornal i que inaugurou todo este imbróglio é o seguinte: «Discriminação? Promoção do Sporting exclui casais homossexuais {enorme, imensa, descomunal citation needed}».
Com toda a honestidade, o título não é falso, mas pegar-lhe por essa ponta needed de uma profusão de citations; a promoção a que o artigo se refere exclui efectivamente casais homossexuais - da mesma forma que exclui um par de homossexuais do mesmo sexo que não sejam um casal, da mesma forma que exclui um casal de heterossexuais que não sejam sócios do Sporting, da mesma forma que exclui um casal de heterossexuais com menos de 18 anos de idade, da mesma forma que exclui uma hipotética dupla familiar constituída por um tenente-coronel homofóbico chamado Ramiro e pelo seu filho Xavier, membro do núcleo Almadense do Ku Klux Klan. As condições especificadas no site do clube, e que o próprio artigo cita, nunca falam sequer em "casais", muito menos em orientação sexual:
PREÇO ESPECIAL PARA 2 SÓCIOS DE SEXO OPOSTO QUE ADQUIRAM A SUA GAMEBOX EM SIMULTÂNEO E PARA O MESMO SECTOR!
- Campanha válida para renovação de Lugares Especiais (LE DUO), renovação e compra de Gamebox Sócio (GB DUO) e aderentes à Campanha de Novos Sócios;
- O preço da GB DUO inclui os dois lugares (desconto aplicado no lugar da mulher);
- Obrigatoriedade de serem Homem e Mulher com mais de 18 anos de idade (Sócios Efectivos);
Confrontado com estas claras estipulações, o deputado Miguel Vale de Almeida fez a seguinte leitura: «If this was why they were to be the next to go to see the same that is that when that if that might that can that will be as likely as if compared». Peço desculpa, isto é uma frase de Gertrude Stein. Confrontado com estas claras estipulações, o deputado Miguel Vale de Almeida fez a seguinte leitura: «É absolutamente inaceitável. Pura maldade. Não há legislação que dê aval a uma discriminação dessas». (Suponho que a maldade foi descrita como "pura" para a distinguir daquelas outras maldades diluídas).
Tal como Gertrude Stein sempre revelou uma certa dificuldade em perceber que as discriminações impostas pelos conceitos de gramática, sintaxe e semântica não eram um ataque à sua liberdade pessoal, o Miguel Vale de Almeida também parece ter uma certa dificuldade em perceber que qualquer promoção ou actividade dirigida a um segmento limitado do público é, por definição, discriminatória. O Miguel Vale de Almeida e o seu parceiro não podem aderir a esta promoção pelos mesmo motivos que os impediram de defrontar a Carly Gullickson e o Travis Parrott na final de pares mistos do Open dos Estados Unidos. Esta promoção é oferecida apenas a sócios do clube, maiores de 18 anos, e de sexos diferentes. Quem não cumprir as condições estipuladas pelo Sporting para adquirir este produto específico, sejam casais homossexuais, sócios do Benfica, ou membros dos Ministars, não podem reclamar direito a ele, e terão de arranjar outra maneira de entrar no estádio - pagando o bilhete completo, aproveitando outra futura promoção, ou fazendo-se sócio, como eu, que nunca em quinze anos de quotas pagas consegui arrastar uma pessoa do sexo oposto para Alvalade, nem sequer com ameaças físicas {citation needed}. Se as condições fossem alteradas de forma a não discriminar os potenciais clientes que o Miguel Vale de Almeida acha que foram discriminados, a promoção ficaria reduzida a um "compre uma gamebox e tenha desconto na segunda", estratégia comercial que pode fazer sentido com os pacotes de ice tea do Lidl, mas que aplicada à venda de lugares para jogos do Sporting resultaria numa quebra de receitas inevitavelmente conducente à permanência de Pedro Silva no plantel até ao fim do calendário Maia, altura em que vamos todos morrer, menos as baratas e provavelmente o Pedro Silva.
O Sporting, por amor de Deus e de Freddie Mercury, não vedou o acesso ao estádio a casais homossexuais. Nem limitou os direitos fundamentais de nenhum casal homossexual, porque entre os direitos fundamentais de qualquer casal homossexual conta-se o direito de entrar no Alvalade XXI para observar as arrepiantes transições ofensivas da equipa principal, mas não o direito a usufruir de um desconto que, tal como os descontos para crianças, diplomatas e olheiros de clubes ingleses, não se aplica a eles.
A farsa, que poderia perfeitamente ter ficado por aqui, ganhou novas camadas de espessura esclerótica quando a direcção do Sporting decidiu interromper a prática da actividade para a qual tem menos competências (negociar contratações de treinadores com clubes em zona de despromoção), para se dedicar à segunda actividade para a qual tem menos competências (falar). Um dirigente foi prontamente encarregue de explicar ao jornal i que a campanha é "para mulheres e não para casais: as mulheres representam apenas 20% a 28% do público que vem ao estádio e considerámos ser um target interessante para a estratégia de aumento de sócios no Sporting". Quando confrontado com o facto de a promoção impossibilitar que o estádio se encha de lésbicas, o mesmo dirigente respondeu "Não pensámos nisso. Não está contemplado apenas porque não pensámos nisso".
Por amor de Deus, é óbvio que "não pensámos nisso". Há alguém que duvide que "não pensámos nisso"? Os dirigentes do Sporting têm um extenso e verificável currículo de "não pensámos nisso". A nossa longa história está pejada de momentos memoráveis em que "não pensámos nisso". Se eu tivesse de apostar todo o meu património na veracidade das declarações de um dirigente desportivo português, apostá-lo-ia sem hesitar num dirigente do Sporting que confessasse simplesmente que "não pensámos nisso".
Como é que o Miguel Vale de Almeida acha que a situação deve ser resolvida? Passo a citar: «There is some difference between having made it and carrying it about and how to use it and most of it is when they might be just as careful as ever». Peço desculpa, isto é outra frase de Gertrude Stein. Como é que o Miguel Vale de Almeida acha que a situação deve ser resolvida? Passo a citar: «Seria excelente enviar umas cópias da Constituição àquele clube de futebol. E, já agora, um belo processo.»
Eu percebo que o Miguel Vale de Almeida ache esta solução "excelente", mas posso garantir-lhe que, na lista de instrumentos de progresso que "seria excelente" enviar ao Sporting, um molho de exemplares da Constituição estaria significativamente abaixo de um lateral-direito que não padeça de nenhuma condição descrita no DSM - IV, um médio-defensivo de descendência africana com dois metros de altura e proveniente de uma tribo antropófoga, e um avançado cujo coeficiente de inteligência tenha pelo menos mais um dígito do que o seu índice de massa corporal.
Para ilustrar o que é, de facto, um caso de discriminação baseada na orientação sexual, os comentários deste blogue vão estar, durante o resto da semana, sujeitos a moderação, sendo que só serão aprovados aqueles escritos por casais heterossexuais maiores de 18 anos que achem que eu sou uma pessoa a todos os níveis brilhante {citation needed}.
Para ilustrar o que é, de facto, um caso de discriminação baseada na orientação sexual, os comentários deste blogue vão estar, durante o resto da semana, sujeitos a moderação, sendo que só serão aprovados aqueles escritos por casais heterossexuais maiores de 18 anos que achem que eu sou uma pessoa a todos os níveis brilhante {citation needed}.
Sanditon
Depois de "Jacobo e outras histórias", de Teresa Veiga, "Venâncio e outras histórias", de Joaquim Paço d'Arcos. É o segundo livro com um título da forma "[nome próprio masculino] e outras histórias" que eu leio num curto espaço de tempo. Alguém me saberá recomendar outro livro cujo título respeite este requisito formal?
(um blog sobre kleist)
Além do quase extinto Peter and Other Stories, da Willa Cather, há um livro de contos muito bom, de um escritor novinho e muito promissor chamado David Bezmozgis, que fica apenas a uma genitoplastia masculinizante do requisito formal exigido pelo Alexandre: Natasha e outras histórias, editado em Portugal, salvo erro, pela Teorema. Se a pergunta tivesse sido feita aqui há uns quatro anos, é provável que a minha resposta embaraçosa tivesse incluído uma referência a um livro da Jane Austen (que comprei, mas nunca cheguei a ler), intitulado Sanditon and other stories. Durante muito tempo, limitei-me a assumir que "Sanditon" era o título do romance inacabado de Jane Austen porque, tal como a Emma de Emma, a protagonista era uma jovem solteira e intrometida chamada Sanditon, por nenhum outro motivo que não o facto de Sanditon me parecer um nome eminentemente razoável para uma protagonista de Jane Austen. Sanditon, afinal, é o nome da cidade, mas o meu erro, ainda assim, não é sequer comparável ao erro daqueles que - como o Dave Eggers ou a gaja do Lost in Translation - caem em armadilhas onomásticas e passam uma vida inteira convencidos de que George Sand e George Eliot eram homens ou, pior ainda, que Evelyn Waugh e Gertrude Stein eram mulheres.
(um blog sobre kleist)
Além do quase extinto Peter and Other Stories, da Willa Cather, há um livro de contos muito bom, de um escritor novinho e muito promissor chamado David Bezmozgis, que fica apenas a uma genitoplastia masculinizante do requisito formal exigido pelo Alexandre: Natasha e outras histórias, editado em Portugal, salvo erro, pela Teorema. Se a pergunta tivesse sido feita aqui há uns quatro anos, é provável que a minha resposta embaraçosa tivesse incluído uma referência a um livro da Jane Austen (que comprei, mas nunca cheguei a ler), intitulado Sanditon and other stories. Durante muito tempo, limitei-me a assumir que "Sanditon" era o título do romance inacabado de Jane Austen porque, tal como a Emma de Emma, a protagonista era uma jovem solteira e intrometida chamada Sanditon, por nenhum outro motivo que não o facto de Sanditon me parecer um nome eminentemente razoável para uma protagonista de Jane Austen. Sanditon, afinal, é o nome da cidade, mas o meu erro, ainda assim, não é sequer comparável ao erro daqueles que - como o Dave Eggers ou a gaja do Lost in Translation - caem em armadilhas onomásticas e passam uma vida inteira convencidos de que George Sand e George Eliot eram homens ou, pior ainda, que Evelyn Waugh e Gertrude Stein eram mulheres.
segunda-feira, novembro 23, 2009
Televisão e blackjack
Mais um blogue baptizado por David Simon, que se distingue deste outro blogue baptizado por David Simon pelo facto de se chamar «Why Always Boris?» e não «Why Always Borizsche? »
quarta-feira, novembro 18, 2009
Wasilla
Desde que acabei com o blogue, e deixei de sentir aquela pressão para o post diário que tanto me condicionou durante os últimos meses, tenho tido muito mais tempo para reflectir, nomeadamente sobre o papel decisivo que teve o Alexander Hamilton na história dos Estados Unidos (não se deve menosprezar a importância de ter uma pessoa tecnicamente chanfrada a pôr repetidamente o dedo no ar para embirrar com minúcias, a articular uma ideia diferente, e acima de tudo a não ter razão de uma forma muito inteligente, que mais não seja para obrigar todas as outras pessoas tecnicamente menos chanfradas a terem razão de forma igualmente inteligente; pela minha experiência isto é útil para organizar uma despedida de solteiro ou uma noite no casino, quanto mais para escrever o manual de utilização de um país), mas desde que a direcção do Sporting nomeou a Sarah Palin para treinar a equipa principal, e eu deixei de sentir aquela pressão diária para inalar oxigénio que tanto me condicionou durante os últimos vinte e nove anos, parece que bloqueei (bloqueei; bloqueei é provavelmente a palavra com o aspecto mais estrangeiro da língua portuguesa - não sei se será permitido usar a palavra "bloqueei" na literatura de campanha do PNR; quase que voltei a respirar oxigénio ao descobrir a palavra "bloqueei" no meio destas outras caucasianas sucessões de letras; parece o nome de um arpoador polinésio no Moby Dick, Queequeeg, Daggoo, Bloqueei), pelo que ficamos todos, literalmente, a perder.
terça-feira, novembro 17, 2009
O Record online agora faz deadpan humor
«A concorrência dos leões é forte, pois também os ingleses do Chelsea e os holandeses de Heerenveen, Ajax e AZ Alkmaar e, ainda, os alemães do Werder Bremen têm feito observações ao brasileiro de 23 anos que começou no Tiradentes»
domingo, novembro 15, 2009
sábado, novembro 07, 2009
Death Bed: The Bed That Eats
Filme de 1977 em que o realizador, o produtor, os actores e a equipa técnica não podiam, porque tinham todos Krav Maga.
sexta-feira, novembro 06, 2009
Em resposta ao comentador "jaa", e ao comentador "anónimo"

A minha opinião sobre Inherent Vice é muito positiva, por motivos que eu explicaria aqui detalhadamente caso não tivesse Krav Maga.
quarta-feira, novembro 04, 2009
Pierre Menard, nabo
É uma revelação cotejar o post "Ode ao nabo" no blogue Corta-Fitas com o post "Ode ao nabo" no blogue Cinco Dias. No primeiro, por exemplo, lê-se:
«O amor do nabo é pois um privilégio da idade, a nossa vingança sobre o triunfalismo vital das criancinhas ignaras».
Escrito no blogue Corta-Fitas, esta frase é um mero exercício de estilo: um elogio retórico de um tubérculo que, como o CDS/PP, é rico em cálcio e pobre em reputação. No blogue Cinco Dias, por outro lado, escreve-se o seguinte:
«O amor do nabo é pois um privilégio da idade, a nossa vingança sobre o triunfalismo vital das criancinhas ignaras».
O amor do nabo... um privilégio da idade: a ideia é assombrosa. Ao contrário do António Figueira do blogue Corta-Fitas (um leigo talentoso, mas pedante), o António Figueira do blogue Cinco Dias entalou entre um post sobre "excluídos" e outro sobre o "pensamento ideológico neoliberal" uma metonímia perfeita sobre o que implica crescer politicamente, sobre aprender a respeitar os inevitáveis compromissos que balizam esse percurso, sobre, inclusivamente, aprender a respeitar um quinze no blackjack contra um dez do dealer quando a true count vai em +6. Está ali a civilização ocidental, no post "Ode ao Nabo" do blogue Cinco Dias. (No outro não, está só outra coisa mais pequenina).
«O amor do nabo é pois um privilégio da idade, a nossa vingança sobre o triunfalismo vital das criancinhas ignaras».
Escrito no blogue Corta-Fitas, esta frase é um mero exercício de estilo: um elogio retórico de um tubérculo que, como o CDS/PP, é rico em cálcio e pobre em reputação. No blogue Cinco Dias, por outro lado, escreve-se o seguinte:
«O amor do nabo é pois um privilégio da idade, a nossa vingança sobre o triunfalismo vital das criancinhas ignaras».
O amor do nabo... um privilégio da idade: a ideia é assombrosa. Ao contrário do António Figueira do blogue Corta-Fitas (um leigo talentoso, mas pedante), o António Figueira do blogue Cinco Dias entalou entre um post sobre "excluídos" e outro sobre o "pensamento ideológico neoliberal" uma metonímia perfeita sobre o que implica crescer politicamente, sobre aprender a respeitar os inevitáveis compromissos que balizam esse percurso, sobre, inclusivamente, aprender a respeitar um quinze no blackjack contra um dez do dealer quando a true count vai em +6. Está ali a civilização ocidental, no post "Ode ao Nabo" do blogue Cinco Dias. (No outro não, está só outra coisa mais pequenina).
terça-feira, novembro 03, 2009
A piada com bases mais sólidas na realidade em toda a história do The Onion
Track Winnings Reinvested In Blackjack Futures
ATLANTIC CITY, NJ—Seeking to grow his financial assets, Piscataway, NJ, gambler Richard Pasquale shrewdly reinvested his $2,432 trifecta win in the third race at Belmont Park in high-yield blackjack futures Monday. "The thoroughbred game is so vulnerable to track fluctuations, I thought it would be better to transfer my funds into a more proven money-maker, one with a tremendous upside," said Pasquale, speaking from the blackjack pit at Harrah's Atlantic City casino. "Plus, I got a feeling I'm headed for a hot streak." He then instructed his dealer to hit him.
(aqui)
ATLANTIC CITY, NJ—Seeking to grow his financial assets, Piscataway, NJ, gambler Richard Pasquale shrewdly reinvested his $2,432 trifecta win in the third race at Belmont Park in high-yield blackjack futures Monday. "The thoroughbred game is so vulnerable to track fluctuations, I thought it would be better to transfer my funds into a more proven money-maker, one with a tremendous upside," said Pasquale, speaking from the blackjack pit at Harrah's Atlantic City casino. "Plus, I got a feeling I'm headed for a hot streak." He then instructed his dealer to hit him.
(aqui)
Aviso
Nos próximos tempos vou ter mais disponibilidade do que o normal, pelo que provavelmente não vou ser capaz de não actualizar o blogue. Até voltar a ter menos disponibilidade, aliás, a não-actualização do blogue será uma incógnita. Peço desculpa a todos e garanto que, assim que me for possível, voltarei a não meter aqui os pés com a frequência a que vos tenho habituado.
quarta-feira, outubro 28, 2009
No fundo é isto, mas com "card-counting"
segunda-feira, outubro 26, 2009
Flaming globes of Sigmund

Sempre gostei muito daquelas histórias - apócrifas ou não - de súbitas revelações nocturnas, em que uma pessoa se levanta a meio da noite depois de um espasmo de criatividade, anota tudo num papel e descobre horas mais tarde que a criatividade não sobreviveu à transferência de suporte. Hitchcock a sonhar uma ideia brilhante para um filme, a escrever a sinopse de olhos fechados, e a acordar para descobrir apenas um papelinho garatujado com a frase "boy meets girl"; Bolaño a sonhar um romance maior do que o Ulysses, a escrever a sinopse de olhos fechados, e a acordar para descobrir apenas um papelinho garatujado com o 2666; ou o caso ainda mais trágico de Carlos Azenha, a sonhar uma longa e respeitada carreira profissional no futebol europeu, a escrever a sinopse de olhos fechados, e a acordar para descobrir apenas um papelinho garatujado com o plantel do Vitória de Setúbal.
Estas histórias têm pathos, porque condensam numa narrativa limpinha um dos grandes mistérios humanos: as calamidades que podem acontecer à inspiração e às aspirações naquela fracção de segundos em que são transmitidas do córtex para o mundo.
Sempre gostei muito destas histórias, mas nunca tinha participado - até que há três noites atrás me levantei a meio da noite com uma solução para o problema do défice orçamental. Quando acordei de manhã, absolutamente convencido de que iria ganhar o próximo Nobel da Economia, encontrei apenas uma folha A5 ao lado da caminha com a seguinte frase: «O défice está no Brasil - é preciso fumá-lo».
Bem, o défice está no Brasil; e é preciso fumá-lo. Suponho que isto, como a Bíblia, não é para ser interpretado literalmente, até porque uma simples análise logística permite-nos verificar as dificuldades operacionais envolvidas: mesmo que o défice fosse efectivamente localizado no Brasil, seria complicadíssimo isolar as suas propriedades tangíveis de forma a conseguir emboscá-lo com mortalha e filtro. (Na verdade, uma segunda camada de complexidade é lançada sobre o versículo pelo duplo sentido do verbo fumar, que poderia até levar ao surgimento de uma corrente herética que pretendesse não aspirar o fumo resultante da combustão do défice, mas sim desidratar o défice num fumeiro, o que em princípio levaria à sua preservação, etc, etc, e é bom de ver que temos logo aqui um problema maior do que o Pelagianismo).
Tudo isto foi com certeza provocado pelo livro que li na noite anterior - Liar's Poker, de Michael Lewis - especificamente, uma passagem em que ele compara a assimilação do jargão financeiro à aprendizagem de uma língua estrangeira: primeiro faltam-nos as palavras para determinados conceitos, depois começam-nos a surgir palavras para conceitos que não sabíamos possuir, e finalmente acabamos a sonhar com derivativos japoneses. O livro é muito bom e proporcionou-me muita diversão mesmo antes de a palavra "blackjack" na página 125 me ter provocado o equivalente literário a uma ejaculação precoce. A história de Howie Rubin, o trader que perdeu 250 milhões à Merril Lynch em 1987, e que começou a carreira a contar cartas em Las Vegas, vale, só por si, o preço do livro (que não faço ideia qual seja; uma ignorância apropriada, até porque no mundo do livro ninguém sabe o preço de nada).
O elemento espectacular é este: Howie Rubin tornou-se bond trader porque aquilo lhe fazia lembrar o blackjack (o único jogo de casino em que eventos passados influenciam eventos futuros), mas chegou à conclusão de que a vida em Las Vegas era uma coisa muito mais digna e racional. A sua revelação, codificada implicitamente no axioma de que é mais arbitrário trocar obrigações hipotecárias do que jogar blackjack, é que o dinheiro é mais estúpido do que um baralho de cartas. Rubin ainda anda ali às voltas a tentar convencer-se de que o facto de eventos passados não influenciarem eventos futuros no mercado das obrigações hipotecárias está relacionado com o comportamento errático dos homeowners americanos, mas não engana ninguém. Os homeowners americanos e as pilhas de 312 cartas bem baralhadas podem ser volúveis, mas são um modelo de estabilidade comparados com o dinheiro. O fio condutor de Liar's Poker é este: o dinheiro é completamente maluco. Não se pode confiar nele. Num momento pode estar ali ao canto, tranquilo, ocupado a ser muito, e no momento seguinte pode estar deitado numa viela, a vomitar na sarjeta, sem se lembrar quem é nem onde mora. Bom, este blogue acaba aqui. Obrigado a todos por terem vindo, foram três anos extraordinários, mas agora a minha vida é isto:

segunda-feira, outubro 12, 2009
Sondagem Aximage/Liedson
Numa pequena sondagem à boca da baliza efectuada na noite de Sábado, foi revelado que três elementos destabilizadores no café aqui da rua não festejaram o segundo golo da selecção. Foi portanto sem qualquer surpresa que, através deste esplêndido site, verifiquei a existência de quatro nazis na minha freguesia (o quarto deve ser o careca que mora no prédio à frente do meu, e que passa a noite a jogar Metal Gear Solid com o volume no máximo, mas que dá a ideia de até nem ser má pessoa).
É muito bonito quando o "político" e o "social" coincidem assim de uma forma tão evidente que até eu consigo perceber tudo.
É muito bonito quando o "político" e o "social" coincidem assim de uma forma tão evidente que até eu consigo perceber tudo.
Insulto gratuito póstumo do mês
Sobre Katharine Hepburn: «She had Parkinson’s. She shook like a leper in the wind.»
Adivinhem lá.
Adivinhem lá.
sexta-feira, outubro 09, 2009
Vamos dar-lhes porrada nas praias
Não me lembro que idade tinha, mas não era ainda idade suficiente para ter aprendido a distinguir a palavra "irónicos" da palavra "eróticos" (situação que entretanto já rectifiquei), pelo que o primeiro livro que li de um escritor Nobelizado foi o Contos Irónicos, do Heinrich Böll . A edição portuguesa tinha na capa a imagem de um porco numa banheira, o que me pareceu indicação suficiente de que aquilo devia ser tudo uma enorme e fisiologicamente lucrativa javardice. Na verdade eram trezentas páginas de órfãos e padres deprimidos, que me afastaram da pornografia durante os melhores meses da minha pré-puberdade - um tempo precioso, que desperdicei a ler o Livro de Job e os Federalist Papers, e que nunca consegui recuperar.
Como já devem ter adivinhado, fui hoje barbaramente acordado às duas da tarde por alguém que pretende ser meu amigo, mesmo não tendo ainda assimilado as noções mais básicas sobre o meu calendário de repouso: «Já leste esta gaja?». Não só não li esta gaja, como nunca tinha ouvido falar desta gaja, embora tenha sido informado poucos minutos depois que sou a única pessoa cá em casa que não leu esta gaja nem nunca tinha ouvido falar desta gaja. Omiti este dado ontem porque sou um saloio supersticioso, mas tinha apostado 15 libras no Magris e outras 10 no poeta coreano cujo nome, apesar de consistir em apenas quatro letras, vai ser um profundo mistério durante o resto da minha vida. A minha opinião genérica sobre a atribuição do Nobel a Herta Müller é, segundo me informaram, extremamente positiva.
De realçar também que, enquanto eu andava por aí a cruzar-me com o João Botelho em oitenta e sete ruas lisboetas, o Eduardo Nogueira Pinto, o Pedro Lomba e o Miguel Góis fizeram um blogue novo. Perdi quase uma hora a teorizar sobre o facto de o blogue se chamar "Suction with Valcheck" em vez de "Suction with Valchek", porque os fãs do Wire costumam jogar esta coisa toda a um nível muito superior e - digo-o sem pinga de erotismo - tive medo que me estivesse a escapar alguma coisa.
Tendo em conta que já há iluminações de Natal à venda no sétimo piso do El Corte Inglês, decidi antecipar a minha lista de melhores blogues do ano, por ordem de qualidade, e em número de sete:
1. A Causa Foi Modificada
2. Yesterday Man
3. b-site
4. Ouriquense
5. um blog sobre kleist
6. Circo da Lama
7. Gravidade Intermédia
Tenho-me preocupado bastante nos últimos tempos com a falta de preocupação dos adeptos do Sporting em relação ao Benfica. Como um judeu alemão em 1933, o adepto do Sporting insiste em abanar a cabeça e sorrir, ao mesmo tempo que tenta convencer os pequenos Joshua e Sapphira de que vai correr tudo bem. Continuar a defender publicamente a ideia de que o Benfica é só ímpeto e entusiasmo artificial é neste momento blasfemo. Os noventa minutos do Benfica contra o Borisov, que eu fui ver ali com o Sérgio aqui há umas semanas, antes de tropeçar no João Botelho na Bica - noventa minutos de Benfica a meio-gás e sem três titulares importantes - foram francamente aterrorizantes. Já devia ser evidente para todos que estamos na presença do Mal absoluto.
Não é o facto de não ter havido um único lance de ataque inconsequente até aos 82 minutos. Não é o facto de não se ter visto uma única jogada começar com um passe longo de um dos centrais para o jogging acéfalo de um dos avançados (o gambito Polga-charuto-Djaló que tem sido o plano B do Sporting em todas as ocasiões em que não é o plano A). Não é o facto de jogadores do Benfica fazerem agora passes com força e a meia altura para a linha lateral, sem exibirem qualquer sinal de dúvida sobre a capacidade do colega de equipa para controlar a bola (a única pessoa a fazer isto no Sporting no passado recente foi o Rochemback, por inconsciência). Não é sequer o facto de dois antigos YouTubes de 5 minutos chamados Di Maria e Fábio Coentrão andarem agora por ali a ter aplicação prática constante - uma conversão de fantasia em realidade tão obscena como se duas actrizes pornográficas quisessem de repente casar connosco pela igreja.
O que foi realmente assustador foram as exibições de César Peixoto e Rúben Amorim: dois funcionários competentes, que se tivessem nascido dez anos mais cedo estariam hoje condenados a lugares de destaque em qualquer lista de barretes famosos do Benfica. O César Peixoto e o Rúben Amorim não são melhores do que o Nelo e o Tavares; mas vão andar por ali, vão ser esporádicos titulares "úteis", vão ser frequentes suplentes "eficazes". E depois disto, por duas vezes, o Benfica jogou mal e ganhou, como os Nazis na Batalha de Creta em 1941. Por amor de Deus, eu tenho visto o João Botelho com mais frequência do que vejo a minha mãe: aquilo é um homem sorridente e descansado da vida, porque sabe que pertence a uma raça superior. Ou o Jesualdo will fight them on the beaches ou estamos todos perdidos.
Como já devem ter adivinhado, fui hoje barbaramente acordado às duas da tarde por alguém que pretende ser meu amigo, mesmo não tendo ainda assimilado as noções mais básicas sobre o meu calendário de repouso: «Já leste esta gaja?». Não só não li esta gaja, como nunca tinha ouvido falar desta gaja, embora tenha sido informado poucos minutos depois que sou a única pessoa cá em casa que não leu esta gaja nem nunca tinha ouvido falar desta gaja. Omiti este dado ontem porque sou um saloio supersticioso, mas tinha apostado 15 libras no Magris e outras 10 no poeta coreano cujo nome, apesar de consistir em apenas quatro letras, vai ser um profundo mistério durante o resto da minha vida. A minha opinião genérica sobre a atribuição do Nobel a Herta Müller é, segundo me informaram, extremamente positiva.
De realçar também que, enquanto eu andava por aí a cruzar-me com o João Botelho em oitenta e sete ruas lisboetas, o Eduardo Nogueira Pinto, o Pedro Lomba e o Miguel Góis fizeram um blogue novo. Perdi quase uma hora a teorizar sobre o facto de o blogue se chamar "Suction with Valcheck" em vez de "Suction with Valchek", porque os fãs do Wire costumam jogar esta coisa toda a um nível muito superior e - digo-o sem pinga de erotismo - tive medo que me estivesse a escapar alguma coisa.
Tendo em conta que já há iluminações de Natal à venda no sétimo piso do El Corte Inglês, decidi antecipar a minha lista de melhores blogues do ano, por ordem de qualidade, e em número de sete:
1. A Causa Foi Modificada
2. Yesterday Man
3. b-site
4. Ouriquense
5. um blog sobre kleist
6. Circo da Lama
7. Gravidade Intermédia
Tenho-me preocupado bastante nos últimos tempos com a falta de preocupação dos adeptos do Sporting em relação ao Benfica. Como um judeu alemão em 1933, o adepto do Sporting insiste em abanar a cabeça e sorrir, ao mesmo tempo que tenta convencer os pequenos Joshua e Sapphira de que vai correr tudo bem. Continuar a defender publicamente a ideia de que o Benfica é só ímpeto e entusiasmo artificial é neste momento blasfemo. Os noventa minutos do Benfica contra o Borisov, que eu fui ver ali com o Sérgio aqui há umas semanas, antes de tropeçar no João Botelho na Bica - noventa minutos de Benfica a meio-gás e sem três titulares importantes - foram francamente aterrorizantes. Já devia ser evidente para todos que estamos na presença do Mal absoluto.
Não é o facto de não ter havido um único lance de ataque inconsequente até aos 82 minutos. Não é o facto de não se ter visto uma única jogada começar com um passe longo de um dos centrais para o jogging acéfalo de um dos avançados (o gambito Polga-charuto-Djaló que tem sido o plano B do Sporting em todas as ocasiões em que não é o plano A). Não é o facto de jogadores do Benfica fazerem agora passes com força e a meia altura para a linha lateral, sem exibirem qualquer sinal de dúvida sobre a capacidade do colega de equipa para controlar a bola (a única pessoa a fazer isto no Sporting no passado recente foi o Rochemback, por inconsciência). Não é sequer o facto de dois antigos YouTubes de 5 minutos chamados Di Maria e Fábio Coentrão andarem agora por ali a ter aplicação prática constante - uma conversão de fantasia em realidade tão obscena como se duas actrizes pornográficas quisessem de repente casar connosco pela igreja.
O que foi realmente assustador foram as exibições de César Peixoto e Rúben Amorim: dois funcionários competentes, que se tivessem nascido dez anos mais cedo estariam hoje condenados a lugares de destaque em qualquer lista de barretes famosos do Benfica. O César Peixoto e o Rúben Amorim não são melhores do que o Nelo e o Tavares; mas vão andar por ali, vão ser esporádicos titulares "úteis", vão ser frequentes suplentes "eficazes". E depois disto, por duas vezes, o Benfica jogou mal e ganhou, como os Nazis na Batalha de Creta em 1941. Por amor de Deus, eu tenho visto o João Botelho com mais frequência do que vejo a minha mãe: aquilo é um homem sorridente e descansado da vida, porque sabe que pertence a uma raça superior. Ou o Jesualdo will fight them on the beaches ou estamos todos perdidos.
quarta-feira, outubro 07, 2009
Noble horses

Esta listinha de probabilidades para o Nobel não envergonha ninguém, mas também não exalta propriamente a Ladbrokes. Pelo menos cinco dos nomes estavam mal grafados (dois foram entretanto corrigidos, embora os misteriosos Umberto Ecco e Antoni Tabucchi continuem lá), mas o mais grave é a quantidade de candidatos com odds tão baixas, o que sugere que estão a manter as bases todas cobertas e que, ao contrário do ano passado, quando a súbita escalada de Le Clézio denunciou um maroto em Estocolmo que desatou a enviar SMS aos amigos, ninguém faz a menor ideia do que se vai passar. Em abono da verdade, suspeito que se pedissem ao Times Literary Supplement para organizar uma lista de favoritos para a Grand National, o resultado não seria muito mais edificante.
Debrucemo-nos então sobre algumas pilecas improváveis:
Thomas Pynchon, 9/1 - As odds de 9/1 mais inexplicáveis desde que as mesmas foram atribuídas a um golo do Polga num jogo contra o Bolton aqui há 2 anos. Têm-se ouvido sugestões de que um americano poderia voltar a ganhar este ano, mas creio que o Jon Bon Jovi ou o Steven Seagal têm mais probabilidades do que Pynchon. Dois dos últimos três americanos a receberem o galardão foram citados, respectivamente, "for his impassioned narrative art which, with roots in a Polish-Jewish cultural tradition, brings universal human conditions to life" (Singer, 1978) e " (...) novels characterized by visionary force and poetic import, gives life to an essential aspect of American reality" (Toni Morrison, 1993). Pynchon escreve os melhores desenhos animados da literatura, mas sejamos sérios: ele nunca give life to essential aspects of reality na sua vida inteira.
Haruki Murakami, 9/1 - Um recente e preocupante acrescento às listas de favoritos (o ano passado, salvo erro, estava a 25/1). O que é que se passa com esta gente? Murakami é uma daquelas modas orientais, como o yoga ou o sushi, que aterram de repente em Londres e Telheiras e nunca mais de lá saem. O mais intrigante é que esta moda específica é brutalmente ocidentalizada: Murakami é um yakisoba de referências americanas (Carver, Philip K. Dick, jazz, film noir). Temos aqui uma pessoa a traduzir o Ocidente de volta a si próprio como um Babelfish demente, mas não temos um Edward Said local para meter ordem na situação. Os romances que dele li nunca foram menos nem mais do que moderadamente interessantes, embora sejam todos reféns daquela inventividade estéril, fraudulenta e sem humor, em que as coisas acontecem porque sim: um adolescente apreciador de jazz apaixona-se pela rapariga da loja de discos e vão os dois passear pela praia, onde são surpreendidos por um veterano de guerra filósofo e um gato falante, antes de passarem para outra dimensão, onde há unicórnios e chove bacalhau. Enfim, isto tem o seu charme, mas chamar "génio literário" a Murakami, como já li em dois jornais, é como chamar génio científico ao Lysenko.
Ko Un, 16/1 - O algoritmo selectivo da Academia Sueca pode também voltar a apontar para um poeta com um nome esquisito, o que já não acontece desde 1996. Ko Un é um poeta coreano, facto incontroversamente confirmado pela wikipedia: «He has written poems in almost every conceivable form on virtually every topic», o que prenuncia uma espécie de António Ramos Rosa com logogramas.
Ian McEwan, 100/1 - A carreira de McEwan está em ponto morto. A expansão anunciada por Atonement (um daqueles livros characterized by visionary force and poetic import, que gives life a toda uma panóplia de essential aspects) parece ter abrandado, mas a Academia nunca se preocupou muito com picos de forma. Mais problemático, para mim, é o facto de o próximo livro, que é mais ou menos "sobre" o Aquecimento Global, chegar tão perto do penúltimo, que era mais ou menos "sobre" a invasão do Iraque. Se isto continua por este caminho, ainda vamos ver o homem a escrever sobre a gripe suína ou o grande colisionador de hadrões, e eu prefiro-o a escrever sobre Dunquerque e crianças sociopatas. A perseguição febril ao tópico noticioso mais próximo pode correr bem, mas implica um risco desnecessário: o registo histórico, tal como a wikipedia, é actualizado a cada minuto; o tema evolui, mas o seu tratamento literário literal fica ali gravado no papel, sem se poder adaptar. Pode parecer uma excelente e ousada ideia na altura, mas o autor arrisca-se a tentar entrar na posteridade de calças à boca de sino. Vou de seguida enviar um mail sucinto ao Ian McEwan, expondo as minhas preocupações.
Paul Auster, 100/1 - É muito simples: no dia em que isto acontecer eu mato-me.
Yesterday Man, I love him so
Aqui:
«Francamente, trocava quase toda a carreira do Pollack por vê-lo a despachar mais uma pêga no Eyes Wide Shut».
«Vi a encenação do Siegfried gravada no São Carlos (all four hours of it), com germanos vestidos de hooligans a falar com passarinhos dependurados de uma vara movida por uma badass chick (ah, sim, a desconstrução, murmurei, impávido) e valquírias com pinta de knackwurst embrulhada em lingerie a receber um extra por baixo do camarote ao fazerem em palco o teste industrial dos limites de elasticidade dos modelos da Victoria's Secret e que só saíam out of character (ah, pois, a desconstrução da desconstrução, cogitei, involuntariamente, impávido) pela ausência de um fiozinho de sauerkraut infiltrado no canto da boca».
« E só não vi o seu spin-off Jail, porque andam (juro) a promovê-lo como o desenvolvimento natural do cinéma verité (coisa hilariante para designar, a tomar pelo modelo, um produto visual cujas condições de verdade são precisamente o que deliberadamente se mantém fora de campo, o que a torna mais tv aldrabée que a ficção mais artificiosa; mas que, enfim, até dá para o cinéma verité que se intitulou cinéma vérité aprender no que é que dá intitular-se cinéma vérité) e eu não gosto que cauções intelectuais (não há nada mais abjecto do que pretender traficar elevação junto com o contrabando vaginal em dia de visitas) interfiram na minha fruição de exercícios panópticos propedêuticos sobre massa crocante de estereótipos sociais (só o genérico, com uma música, reggae, intitulada Bad Boys, e os seus disclaimers de innocent until proven guilty in a court of law, devem ocupar a totalidade da cadeira de Dimwit Semiotics na UCLA)».
Etc, etc, etc.
«Francamente, trocava quase toda a carreira do Pollack por vê-lo a despachar mais uma pêga no Eyes Wide Shut».
«Vi a encenação do Siegfried gravada no São Carlos (all four hours of it), com germanos vestidos de hooligans a falar com passarinhos dependurados de uma vara movida por uma badass chick (ah, sim, a desconstrução, murmurei, impávido) e valquírias com pinta de knackwurst embrulhada em lingerie a receber um extra por baixo do camarote ao fazerem em palco o teste industrial dos limites de elasticidade dos modelos da Victoria's Secret e que só saíam out of character (ah, pois, a desconstrução da desconstrução, cogitei, involuntariamente, impávido) pela ausência de um fiozinho de sauerkraut infiltrado no canto da boca».
« E só não vi o seu spin-off Jail, porque andam (juro) a promovê-lo como o desenvolvimento natural do cinéma verité (coisa hilariante para designar, a tomar pelo modelo, um produto visual cujas condições de verdade são precisamente o que deliberadamente se mantém fora de campo, o que a torna mais tv aldrabée que a ficção mais artificiosa; mas que, enfim, até dá para o cinéma verité que se intitulou cinéma vérité aprender no que é que dá intitular-se cinéma vérité) e eu não gosto que cauções intelectuais (não há nada mais abjecto do que pretender traficar elevação junto com o contrabando vaginal em dia de visitas) interfiram na minha fruição de exercícios panópticos propedêuticos sobre massa crocante de estereótipos sociais (só o genérico, com uma música, reggae, intitulada Bad Boys, e os seus disclaimers de innocent until proven guilty in a court of law, devem ocupar a totalidade da cadeira de Dimwit Semiotics na UCLA)».
Etc, etc, etc.
segunda-feira, setembro 14, 2009
Gilgamesh
Estes três momentos são momentos-espelho em que os personagens são confrontados com o Eu que é Outro, a lenda erguida em torno das façanhas de cada um. Dom Quixote torna-se grave e sério, temendo que o infiel não seja fiel à verdade. Ulisses comove-se, consciente do tempo que passou. Hadji-Murat sente-se lisonjeado com a possibilidade de ser personagem de uma leitura do czar. Nas histórias vemo-nos reflectidos. São as histórias que fecham o círculo que começa na acção e que, ao regressar ao mesmo ponto, já se fez narrativa; que começa no homem e, seja a enfrentar moinhos, ciclopes ou russos, acaba no herói.
Neste post fabuloso, o Bruno Vieira Amaral fala de um truque literário que eu acreditei durante anos ter sido prefigurado na Epopeia de Gilgamesh: confrontar o protagonista, dentro da narrativa, com uma representação das suas façanhas. Quando digo que acreditei durante anos que isto estava tudo no Gilgamesh, não o faço apenas para falar no Gilgamesh e ter portanto uma oportunidade para escrever Gilgamesh, pois embora Gilgamesh seja uma palavra engraçada, não é esse o aspecto mais importante desta situação do Gilgamesh. Li um texto de alguém, algures (não me lembro se numa revista, ou num texto de apoio da faculdade, mas gostava imenso de saber quem foi o sacana) que não só fazia um resumo inacreditavelmente distorcido da história de Gilgamesh, como tinha até a desfaçatez de a melhorar. Lembro-me que a paráfrase da tábua XI indicava que ao regressar a Uruk, depois da sua longa e infrutífera procura da imortalidade física, Gilgamesh via um grupo de pessoas a desenharem as suas façanhas nas muralhas da cidade, e compreendia que essa era a única imortalidade a que podia aspirar. Isto, para um texto que, salvo erro, precede Homero em para aí uns mil anos, pareceu-me na altura impossivelmente adulto.
O problema é que as duas versões existentes da Epopeia não confirmam aquela sinopse fantasma. O que acontece na tábua XI é que Gilgamesh aponta para as muralhas que ele próprio ajudou a erguer e pergunta (creio que retoricamente, embora haja ali um conveniente barqueiro):
300. Then Gilgamesh said this to the boatman:
"Rise up now, Urshanabi, and examine
Uruk's wall. Study the base, the brick,
the old design. is it permanent as can be?
Does it look like wisdom designed it?
A natureza da revelação é evidentemente semelhante: isto é uma manifestação de orgulho no seu trabalho, uma aceitação de que a sua proeza funcionou tanto ao nível comunitário (deu ali uma parede às pessoas), como ao nível pessoal e egocêntrico (é esse trabalho que tornará a sua memória permanente). Mas chamo a vossa atenção para o facto de não haver nada nas muralhas que se assemelhe às tais representações pictóricas dos feitos de Gilgamesh. Quem é que me enganou? Se alguém me conseguir esclarecer este mistério, ficarei eternamente grato. Andei anos a pensar injustamente que um qualquer blogger anónimo da Suméria tinha sido melhor do que Homero.
(Na quinta e última secção de 2666, Reiter regressa, já depois do final da II Guerra, à aldeia russa de Kostekino. No edifício onde se escondera durante o Inverno de 1942, descobre que «alguém se tinha entretido a desenhar nas paredes - e no tecto! - cenas quotidianas dos alemães que lá tinham vivido». No meio dos desenhos, Reiter descobre-se a si próprio. Quando li esta cena, pensei imediatamente "olha: isto é como no Gilgamesh"; afinal aquilo não é bem como no Gilgamesh).
Neste post fabuloso, o Bruno Vieira Amaral fala de um truque literário que eu acreditei durante anos ter sido prefigurado na Epopeia de Gilgamesh: confrontar o protagonista, dentro da narrativa, com uma representação das suas façanhas. Quando digo que acreditei durante anos que isto estava tudo no Gilgamesh, não o faço apenas para falar no Gilgamesh e ter portanto uma oportunidade para escrever Gilgamesh, pois embora Gilgamesh seja uma palavra engraçada, não é esse o aspecto mais importante desta situação do Gilgamesh. Li um texto de alguém, algures (não me lembro se numa revista, ou num texto de apoio da faculdade, mas gostava imenso de saber quem foi o sacana) que não só fazia um resumo inacreditavelmente distorcido da história de Gilgamesh, como tinha até a desfaçatez de a melhorar. Lembro-me que a paráfrase da tábua XI indicava que ao regressar a Uruk, depois da sua longa e infrutífera procura da imortalidade física, Gilgamesh via um grupo de pessoas a desenharem as suas façanhas nas muralhas da cidade, e compreendia que essa era a única imortalidade a que podia aspirar. Isto, para um texto que, salvo erro, precede Homero em para aí uns mil anos, pareceu-me na altura impossivelmente adulto.
O problema é que as duas versões existentes da Epopeia não confirmam aquela sinopse fantasma. O que acontece na tábua XI é que Gilgamesh aponta para as muralhas que ele próprio ajudou a erguer e pergunta (creio que retoricamente, embora haja ali um conveniente barqueiro):
300. Then Gilgamesh said this to the boatman:
"Rise up now, Urshanabi, and examine
Uruk's wall. Study the base, the brick,
the old design. is it permanent as can be?
Does it look like wisdom designed it?
A natureza da revelação é evidentemente semelhante: isto é uma manifestação de orgulho no seu trabalho, uma aceitação de que a sua proeza funcionou tanto ao nível comunitário (deu ali uma parede às pessoas), como ao nível pessoal e egocêntrico (é esse trabalho que tornará a sua memória permanente). Mas chamo a vossa atenção para o facto de não haver nada nas muralhas que se assemelhe às tais representações pictóricas dos feitos de Gilgamesh. Quem é que me enganou? Se alguém me conseguir esclarecer este mistério, ficarei eternamente grato. Andei anos a pensar injustamente que um qualquer blogger anónimo da Suméria tinha sido melhor do que Homero.
(Na quinta e última secção de 2666, Reiter regressa, já depois do final da II Guerra, à aldeia russa de Kostekino. No edifício onde se escondera durante o Inverno de 1942, descobre que «alguém se tinha entretido a desenhar nas paredes - e no tecto! - cenas quotidianas dos alemães que lá tinham vivido». No meio dos desenhos, Reiter descobre-se a si próprio. Quando li esta cena, pensei imediatamente "olha: isto é como no Gilgamesh"; afinal aquilo não é bem como no Gilgamesh).
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