sexta-feira, janeiro 12, 2007

O que fazer com €15M



Para começar: peguem no cheque e dirijam-se ao balcão do BPI mais próximo. Enquanto esperam, dancem a Lambada, pintem os formulários com lápis de cera, chorem como bebés, peçam a um funcionário para vos atar os sapatos, resmunguem sobre a falta de gosto de certas taxas de juro; enfiem o dinheiro em sacos de plástico, varram o piso com olhares devastadores e despeçam-se com uma gargalhada.
Voltem no dia seguinte com uma pistola na mão, uma meia de nylon na cabeça e sete bandidos contratados, gritem 'Mãos ao ar, escumalha!', ameacem o gerente com um dedo ríspido e gritos sincopados, arrombem o cofre, coloquem lá dentro palha, nozes, coisinhas brilhantes, e anunciem solenemente: "Isto é o meu ninho".
Sejam presos. Toquem músicas de Natal nas grades da cela, subornem guardas para vos trazerem gelados, paguem a fiança e deixem gorjeta, cocem as axilas no meio do tribunal, digam ao juiz que a Primavera é a melhor das estações, soprem-lhe beijos amorosos.
Construam uma casa no topo de um monte, um Xanadão com três pisos, oito garagens, court de ténis, cinema, piscina com trampolins de veludo endurecido, discoteca, sala de conferências, coreto, solário, jardim zoológico com golfinhos deprimidos e pandas confusos.
Convoquem a imprensa e denunciem o estado de coisas. Digam 'O estado das coisas é lamentável', e respondam a todas as perguntas com esta frase. Anunciem um projecto megalómano para fomentar a discórdia entre os espanhóis; ruminem horas a fio sobre o Destino Lusitano e depois digam: "um bulaquinho na palede". Façam-se convidados para um jantar oficial e abusem do ponche; agridam vereadores como uma balalaica prateada, interrompam anedotas a meio, empinem garfos na ponta do nariz, comentem um quadro de Paula Rego dizendo "Há ácidos próprios para este tipo de problema"; dedilhem as meias de renda da Primeira-Dama, ofereçam-lhe oitenta mil euros por um chocho.
Comprem um fato Armani e sapatos de pele de crocodilo, pavoneiem-se em frente dos mendigos gangrenados do Martim Moniz. Destroquem mil euros em moedas de cinco cêntimos e torturem até ao reumático o homem-estátua da Rua Augusta. Entrem numa carruagem do Metro na hora de ponta e gritem a plenos pulmões: "Eu é que tenho a bondade de vos auxiliar!", acenando notas estaladiças e perfumadas e depois fujam antes de as portas se fecharem. Vão a uma galeria de arte parisiense com um carrinho de supermercado, empilhem obras-primas como se fossem grades de Super-Bock, paguem o dobro do que é pedido, cliquem os tacões de felicidade, cantem. Repitam o processo cinco vezes.
Arvorem-se em mecenas renascentistas, contratem os pintores esfomeados de Florença para vos imortalizarem as feições, prometam horríveis torturas caso a verruga não seja aumentada, as sobrancelhas unidas. Marquem uma consulta com o melhor cirurgião plástico do planeta e exijam mais gordura nas coxas.
Trepem a encosta mais íngreme da Torre Vasco da Gama, atirem aviões de papel ao Tejo, façam chover cheques sobre Lisboa como um profeta Bíblico e depois gritem, "Esse dinheiro é meu!" Comprem um iate de luxo. Ou comprem dois e afundem um antes de ser usado. Baptizem o outro com um cálice de leite condensado. Chamem-lhe Afrodite, chamem-lhe Bananarama. Partam rumo ao alto mar.
Aluguem uma ilha remota no Pacífico ao governo das Filipinas, povoem-na com mercenários, hooligans, amoladores, cães salivantes, positivistas lógicos desempregados e coelhinhas da Playboy; alcem uma bandeira cor de mel, declarem uma cisão ideológica imaginária, formulem uma Constituição só de vogais, armem um exército de babuínos e declarem guerra à Lua. No solstício de Inverno, liderem uma procissão de escravos até ao ponto mais alto da ilha, e desvelem uma estátua oca - uma réplica perfeita da vossa divina figura. Revelem-se como a última descendência da linhagem dos Habsburgos e fuzilem quem tiver uma ideia melhor. Distribuam barras de ouro como tremoços. Sorriam para as câmaras e para o Céu.
Quando o dinheiro acabar, escondam-se dentro da vossa estátua e transformem-se em pedra para sempre.

3 comentários:

cj disse...

só as coelhinhas, please

Babsy! disse...

Acho que pela primeira vez desde que te conheço não lamento a tua falta de vida própria. O que é extremamente preocupante (para um dos dois).

Nuno Romano disse...

E que quantidade de ácidos é necessária para escrever algo assim? Fiquei interessado.