domingo, julho 08, 2007

Wimbledon


Apesar de um esforço nobre e valoroso, Roger Federer revelou-se incapaz de perder a final de Wimbledon. Mas, honra lhe seja feita, tentou mesmo tudo. Não se limitou ao já habitual dissipar de backhands simples, ou às devoluções para um court diferente; teve o cuidado de prepararar material novo, como a falta dupla, a despropositada subida à rede e o 2º serviço em câmara lenta.
Nada resultou. Mesmo reservando a sua melhor sucessão de erros não-forçados para uma altura crucial (o tie-break do 1º set), os pontos continuavam a cair para o seu lado. Teve então o rasgo necessário para produzir uma brilhante inovação estratégica, certamente improvisada. Decidindo que Nadal e ele próprio não eram obstáculos suficientes, abriu uma terceira frente de combate, e brindou-nos com uma mini-encenenação de 2001 - Odisseia no Espaço, acusando o Hawk-Eye de se comportar como o HAL, conspirando activamente contra si.
Mas Federer não tem a vivacidade linguística nem a capacidade vocal para emular as erupções de McEnroe, e toda a performance foi algo embaraçosa, um pouco como ver um pacato contabilista a tentar dançar hip-hop na festa de Natal da empresa. "The machine is killing me" e "I don't understand" não passam de frouxos arremedos de clássicos como "ANSWER THE QUESTION, JERK!" ou "YOU ARE A DISGRACE TO MANKIND!".
Mas o serviço de Federer (a parte do seu jogo que mais selvaticamente progrediu, de há três ou quatro anos para cá) continua a extraí-lo a ocasionais buracos e a estorvar o seu projecto para uma derrota digna. Num jogo crucial no 2º set, Federer respondeu a dois break-points de Nadal com um bocejo e três ases consecutivos.
Entretanto, Jimmy Connors, que comentava o encontro para a BBC, fez uma memorável demonstração da utilidade de uma boa analogia. O seu parceiro de caixa - o antigo tenista inglês John Lloyd - perdeu-se numa interminável tangente sobre a peculiar empunhadura de Nadal. Pressentindo o uso de diagramas ou marionetas para explicar a simples aplicação de força extra que essa empunhadura específica exige para os passing shots, Connors interrompeu-o e esclareceu tudo com duas frases: «He holds it like a frying-pan. But then, you know, his arms are like oak trees».
Em lugar de destaque na bancada, Bjorn Borg, o pioneiro da apatia perfumada de Federer e do "método frigideira" de Nadal, assistia impassivelmente ao igualar do seu recorde. Esbanjando quatro break-points em quinze minutos, Nadal entorpeceu; Federer, visivelmente contrariado, quebrou-lhe o serviço com dois enfastiados lances de génio.
No final do encontro, empunhando o troféu como uma urna, e o microfone como uma decadente cigarrilha, Roger agradeceu a Rafa o seu empenho em tornar-lhe a vida um pouco menos aborrecida e expressou o desejo de se voltarem a encontrar em breve.
O desejo será cumprido. Sem lesões, acidentes, ou novos milagres, os próximos cinco anos vão ser isto.

1 comentário:

Miguel disse...

Que rebuscado...acho (embora seja difícil sem ter a certeza da perspectiva de partida para a escrita deste texto) que falha numa coisa: a derrota digna. Quando este Aramis perde, não há dignidade possível, tal é a freakalhice do facto. É suposto não só ganhar, mas vencer de modo a que ao outro jogador só reste aplaudir. A vitória de ontem chegou até a ser embaraçosa por causa disso (Nadal "mereceu"). Bom, mas o embaraço dessa freakalhice está no post...
Esqueça.