quarta-feira, abril 16, 2008

Brilliant sugar, turn over




(The National, «You've Done it Again, Virginia»)

A votação chegou ao redondíssimo número de cem, e a vontade do povo português parece ser que Virginia Woolf se dispa o mais rapidamente possível. Confesso a minha dificuldade em perceber os vinte e nove votos recolhidos por Edith Wharton. O comentário do Major (parabéns, também) ao post em questão acaba por ser, a alguns níveis, elucidativo: o temperamento conservador tem um longo e verificável historial de aversão ao círculo de Bloomsbury. Lembro-me de uma passagem deste livro em que Lady Thatcher se refere aos ditos como 'scabs of Englishness' ou uma coisa assim do género; e que Saul Bellow utilizou um dos seus mais conservadores protagonistas para despejar meio-litro de petróleo retórico nas cinzas da "pior espécie de elitismo intelectual", ou uma coisa assim do género.
Nada disto, evidentemente, deveria ter sido um factor decisivo. Abstendo-nos também de considerações de natureza psico-biográfica (o pormenor de Edith Wharton, com aquele ar de sopeira minhota, ter escrito livros que tresandam a sexo), há que realçar o fundamental, que é o extraordinário pescoço de Virginia Woolf: podem-se pendurar videiras naquele metro e meio de carne Modernista. Entre ela e a Nicole Kidman de prótese nasal, eu não hesitaria um segundo.

7 comentários:

major disse...

Meu caro amigo, registo as congratulações e agradeço. Agora: há quanto tempo não sais à noite, Casanova? Pelo amor de Deus: há vida para além dos pescoços - e no caso da Virginia, por mais brilhante que ela tenha sido (enfim, o Orlando e tal...) está documentado para além da sombra de dúvida que devia ser uma chata de primeiro escalão. Edith? Não sei. chama-me romântico (depressa, antes que o acordo nos proíba), mas tinha uma visão muito mais superior e sacana do poder da mulher. Manners before morals, não é o que defendo? A outra era o contrário. E isso maça-me e a prova é que o Scorcese nem lhe pegou.
a Edith é gira, pá.

R. Casanova disse...

Bom bom bom, vamos por partes:

«há vida para além dos pescoços»

Custa-me bastante a assimilar, esse conceito de "vida para além dos pescoços".

«está documentado para além da sombra de dúvida que devia ser uma chata de primeiro escalão»

Eu quero ver esses documentos que descrevem como "chata de primeiro escalão" uma mulher com uma desordem bi-polar, com marcadíssima tendência para desviar amigas para o lesbianismo, que conseguiu provocar uma erecção ao Isaiah Berlin, e que escreveu "the older one grows the more one likes indecency".

«mas tinha uma visão muito mais superior e sacana do poder da mulher»

Não sei o que isto quer dizer, mas estou terrivelmente assustado.

«a prova é que o Scorcese nem lhe pegou»

Sempre achei que o nome do Scorsese merecia por si só um acordo ortográfico.

«a Edith é gira, pá»

Não só não é gira, como gostava de jardinagem, e escolheu morrer em França, dois dados que encerram logo aqui o argumento.

Juninho Pernambucano disse...

também eu meus caros tenho montes de merdas para dizer sobre estes tópicos bem como outros, sobretudo teria muitíssimas anotações para despejar aqui, parafraseando autores conhecidos a partir de textos menos reconhecíveis, ou autores quase desconhecidos a partir de grandes textos, mas agra isso seria uma chatice do caralho!

vou arrumar o leite e os iogurtes que estão ali no chão da cozinha há bués de bués, e depois talvez vá ver um chaplin ou assim.

beijocas para todos
nuno

Anónimo disse...

Creio que subavalia os charmes das criadas minhotas.

MANHENTE disse...

Subscrevo o comentário do anónimo que me precede, com excepção da palavra "criadas".

Há quanto tempo não comem um sarrabulho?

major disse...

Então, e apelando à tua paciência, certamente potenciada pelo jogo de ontem:

* Deixemos para já os pescoços em paz, território em que estamos de lados incompatíveis (eu é mais ombros e pernas). Propuseste uma escolha dificil, como o disse logo no comentário: nem uma nem outra são rainhas de beleza e francamente nenhuma dá vontade de ceder à «oportunidade», que eu, javardo, interpretei como um momento para fazer qualquer coisa muito marota a uma das senhoras à escolha.

* Beleza posta de parte, e como qualquer conservador, escolhe-se o mal menor: Edith Wharton, que na minha opinião é menos feia do que a would-be Ofelia. Com menos talento? Concedo.


* Tudo o que citas para contra-argumentar que a senhora Woolf era a alma da festa (patologia incluída) apenas reforça a grande maçada que seria partilhar o quotidiano com a escritora. Would you? Não me parece. Os outros cripto-hippies de Bloomsbury não aguentaram, e no limite ela própria deixou de se suportar. Quem teria medo de Virginia Woolf? Eu.

* Agradeço no entanto a referência da erecção de Sir Isaiah, imagem que me há-de perseguir até ao fim dos meus dias. Mais uma razão para gostar de Oakeshott.

* Touché no Scorsese. Por outro lado, o Vila Meão 2003 que tinha bebido antes de escrever o comentário estava estupendo.

«Não sei o que é que isto quer dizer mas estou terrivelmente assustado».
Não vale a pena. O Abel a correr de um lado para o outro é imagem mais aterradora. Mas mesmo assim: o que é A Idade da Inocência senão uma elipse elegantíssima sobre os patetas que os homens são e o elogio descarado da mulheres, guardiãs da palavra mágica: «sim» ? Nesse sentido, não dizendo diz mais do que alguma tendencia panfletária da tua eleita. E disso gosto mais.

* Quanto à França e à jardinagem, é de facto lamentável, mas parece um padrão recorrente: muitos foam os que escolheram a Gália para morrer, de Wilde aos conceitos de higiene básica. Não se percebe. Quanto à jardinagem, apenas peca por ser uma actividade masculina.

E venham mais destas escolhas, que isto é engraçado.Um abraço.

Anónimo disse...

By Jove! E eu que estava preocupado por uma vez me ter sucedido com Edith Sitwell. Acham que Woolf também era Plantagenetas? É que as Plantagenetas têm sempre esse efeito em mim.