quinta-feira, março 12, 2009

Ando muito preocupado com o destino do povo tibetano



E também com a Venezuela, e o Anderson Polga, e a crise económica global, que me parece uma situação muito grave, e depois há a fragilidade do nosso tecido empresarial, e o desemprego, que também é uma situação muito grave, que afecta as pessoas, embora provavelmente não o Anderson Polga, mas que vai obrigar o hipotético mas existente senhor que trabalhou a vida inteira na linha de montagem a arrancar os coisinhos de plástico dos cinzeiros que aparelham os automóveis da marca Volvo a procurar outro emprego no meio de uma crise económica global muito muito grave, e o senhor não vai conseguir, evidentemente, pelo que vai ser forçado a improvisar e a lançar-se num negócio por conta própria com empréstimos garantidos pelo Estado e assim, mas sem qualquer preparação, e isto nunca dá bom resultado, como é demonstrado por histérica analogia no Suttree do Cormac McCarthy, em que um violador de melancias chamado Gene Harrogate sai da prisão sem quaisquer fundamentos, e o que é que faz uma pessoa sem quaisquer fundamentos no irrepreensível nexo metafórico que é o ferro-velho do capitalismo a não ser escavar túneis debaixo da cidade (e isto depois de o esquema de assassinar morcegos por dinheiro ter fracassado por insuficiência logística) para chegar ao não-ferro-velho do capitalismo pelo lado mais inesperado, que são os fundilhos do banco central? Uma pessoa com fundamentos teria arranjado os diagramas, as plantas subterrâneas de Knoxville, Tennessee, até o Tom Cruise sabe isto, mas o Gene Harrogate não sabia mais do que aquilo que sabia e dinamitou a estrutura errada, acabando por ser arrastado numa maré de merda líquida, bocadinhos de papel higiénico e, salvo erro, bebés mortos, e bebés mortos é uma situação que me incomoda e que considero quase tão grave como a do Tibete, mas compreende-se a minha preocupação, creio eu, com o hipotético mas existente senhor que deixou de arrancar os coisinhos de plástico dos cinzeiros que aparelham os automóveis da marca Volvo no meio de uma crise económica global gravíssima, tendo em conta o que sabemos sobre o sub-solo da respectiva localidade, onde também deve haver doses substanciais de merda líquida e bocados de papel higiénico, se não mesmo bebés mortos, o melhor que o senhor tem a fazer é mesmo inscrever-se no centro de emprego mais próximo e esperar que o chamem para a formação de jardineiros da Junta, não deve é meter-se em avarias, do género ah vou pôr um anúncio no jornal a oferecer os meus serviços como palhaço contratado para ir a festas, até porque isto é uma terra diferente, não é um aglomerado suburbano em Montgomery onde as pessoas têm por hábito contratar despojos de meia-idade com a cara pintada e sapatos de meio metro para entreter as criancinhas, e o máximo a que o senhor pode almejar é atrair a atenção de um casal em Campo de Ourique com um pacote TV Cabo que lhes permita terem assimilado a esotérica noção de "palhaço contratado" numa sitcom qualquer, e os meios financeiros necessários para concretizar um "aniversário diferente" para o pequeno Diogo, e que portanto não desconfiem quando virem o anúncio no Correio da Manhã, mas mesmo assim a situação está minada com problemas, nomeadamente fisiológicos, porque não se passam quarenta anos a arrancar os coisinhos de plástico dos cinzeiros que aparelham os automóveis da marca Volvo sem acumular um considerável crédito negativo no funcionamento renal, o senhor é provavelmente incontinente, o que é já de si uma incapacidade debilitante num palhaço contratado, mas uma incapacidade que se pode gerir quando se vai a casas em Montgomery com sete casas-de-banho, mas em Campo de Ourique, com aqueles apartamentos só de uma casa-de-banho, meu Deus, é um perigo enorme, até porque numa festa à qual comparecem todos os amiguinhos do pequeno Diogo, e respectivos pais, vai haver sempre alguém enfiado na casa-de-banho, e o pobre palhaço (previamente designado hipotético mas existente senhor) não tem estamina para duas horas sem alívio, e nenhum dos métodos sugeridos pelo seu vizinho funcionará, nem sequer a clássica volta dupla do elástico à volta do escroto, pelo que o pobre palhaço vai passar duas horas a transpirar, o que apresenta desde logo um problema adicional, uma vez que a tinta facial branca que adquiriu por catálogo era a mais barata e não é de grande qualidade, e a transpiração faz daquilo uma avalanche grotesca pelo escanhoado abaixo, que é uma coisa de que as criancinhas não parecem gostar num palhaço, por motivos inapelavelmente sólidos, e o senhor pobre palhaço vai andar por ali a soprar plutos e mickeys em balões vermelhos, com a bexiga a latejar e a cara a transformar-se gradualmente num Monte de Santa Helena, há-de se chegar a um ponto sem retorno onde o pobre palhaço não terá outra possibilidade se não esquivar-se até às escadas do prédio e aliviar-se no vaso das buganvílias que tanto debate tem provocado na reunião de condóminos, mas os problemas não acabam aí, era o que faltava, porque um palhaço sem fundamentos para comprar uma tinta facial de qualidade também não terá investido devidamente no vestuário, e aquelas calças de palhaço trazem botões tão renitentes em abandonar as respectivas casas como agricultores brancos do Zimbabwe, uma mijinha lacónica de quarenta segundos transforma-se numa epopeia de dez minutos, o pequeno Diogo que anseia pelo próximo pluto insuflado no balão quer saber o que é que se passa com o senhor palhaço e decalca o esquivanço até às escadas do prédio, onde vai encontrar o senhor palhaço com a cara a derreter e um pluto rosáceo e resolutamente não-insuflado nas mãos, isto vai dar gritos do pequeno Diogo, de certeza, seguidos de desenfreada correria paternal cá para fora, onde o cenário que encontram - criancinha aos gritos, palhaço grotesco com as calças pelos joelhos - não pode deixar de afectar todos aqueles que, como eu se preocupam com o Tibete, a Venezuela, a crise económica global e as pessoas, genericamente. O Cormac McCarthy, ainda assim, escreve muito bem.

(Recensão crítica a Suttree, de Cormac McCarthy, publicada originalmente no Der Spiegel)

13 comentários:

jorge disse...

Ufa... Consegui acabar! E não posso estar mais de acordo... em especial naquela parte que diz respeito ao Anderson Polga, embora ache que falta uma referência metafórica aos revoltos cabelos do Veloso filho!

Plúvio disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Plúvio disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Plúvio disse...

subsolo | senão esquivar-se | aqueles que, como eu,

Genial, genial, genial.

PS
Ainda ensaiei "volta dupla do elástico ao escroto", "volta dupla do elástico em torno do escroto", "volta dupla do elástico ...", mas quanto mais ensaiava mais doía.
Ia-me mijando a rir.

MGP disse...

Nem um comentário ao famoso jantar onde Rogério Casanova (himself) apareceu, nem ao facto de todos os relatos manifestarem (estranheza?!) pelo facto de o célebre bloguista gostar de bacalhau com grão?!

Anónimo disse...

Textozinho aborrecido.

Anónimo disse...

Grande texto. Comentariozinhos aborrecidos.

Anónimo disse...

Aborrecidos mas breves, meu Caro Anónimo das 15:30. Breves.

Anónimo das 15:09

Conde de Waldstein-Wartenberg disse...

Vai ser giro quando se perceber que o Rogério Casanova não passa de uma ficção elaborada por uns tipos com mais outros com menos piada, ligados à revista Ler e ao Expresso. Esse ganguezito rodeando o moçoilo engravatado no tal jantar para convidados muito muito especiais.

Anónimo disse...

gdes invejosos este srs...

LB disse...

Ha dias vi o batatoon a conduzir uma velha carrinha batatoon ford transit 91 a cair aos bocados. So vi o condutor de relance, mas devia ser ele, ia com ar mal humorado e a fumar.
A vida é assim.

Anónimo disse...

olha lá, porque é que num bais mas é cunbersar cu caralho!

pedro s

residente de campo de ourique com as quotas em dia

Maria das Flores disse...

Isto lembra-me um bocadinho a parte da prosa do "FMI" do Ze Mario Branco, mas com menos palavroes. "e o senhor pobre palhaço vai andar por ali a soprar plutos e mickeys em balões vermelhos, com a bexiga a latejar e a cara a transformar-se gradualmente num Monte de Santa Helena. FMI dida didadi dadi dadi da didi. E o que é que faz uma pessoa sem quaisquer fundamentos no irrepreensível nexo metafórico que é o ferro-velho do capitalismo a não ser escavar túneis debaixo da cidade. FMI dida didadi dadi dadi da didi."

(Cf.: "Consolida, filho, consolida": http://www.a-praia.blogspot.com/2006_04_01_archive.html#114555857191819705#114555857191819705)