quarta-feira, março 25, 2009

The death of the dead guy that died

O segundo post de hoje é subordinado a este texto profundamente ofensivo, que foi descoberto e lincado de uma forma profundamente ofensiva pelo Bibliotecário de Babel. O texto tem a sua piada. Mas a piada que tem não deve nem por um instante distrair-nos do essencial, que é o facto de o texto me ter ofendido profundamente.
O texto quer ser um manual de receitas rápidas para a elefantíase literária. A comédia da coisa - que é, a espaços, ternurenta, e que distribui equitativamente as suas veladas antipatias - parte, ainda assim, de um princípio duvidoso, de um princípio, diria mesmo, profundamente ofensivo: o de que a elefantíase literária é uma coisa artifical, uma espécie de levedura retórica utilizada para insuflar desonestamente um parágrafo que podia ter sido mais curto. Quero deixar bem claro que isto é mais profundamente ofensivo do que uma conferência de imprensa do João Gabriel. Os minimalistas, esses animais, deviam todos ser compulsivamente tatuados na testa com uma citação completa do Thomas Wolfe, que, em resposta a uma carta profundamente ofensiva de F. Scott Fitzgerald sugerindo algum desbaste lexical, disse mais ou menos isto: «Well, don't forget, Scott, you bumbling anorexic faggot, that a great writer is not only a leaver-outter but also a putter-inner, and that Shakespeare and Cervantes and Dostoievsky were great putter-inners — greater putter-inners, in fact, than taker-outers — and will be remembered for what they put in — remembered, I venture to say, as long as that smelly cheese-eating-surrender-monkey Pedro Silva-chest-incident-denialist Monsieur Flaubert will be remembered for what he left out».
Um estilo literário, para reiterar o que deveria ser algospasmicamente evidente, não é um puzzle com peças opcionais. É uma maneira de pensar e de ver, uma ética orgânica cujos princípios não são negociáveis.
Este texto profundamente ofensivo tem o seu reflexo humanista noutro texto que eu, curiosamente, acabei de escrever, em língua inglesa, para o diário russo Kommersant. Um texto que inverte a maliciosa engenharia do protótipo e ensina o neófito escrivão a mirrar a sua arte à maneira afónica de Hemingway. Apresento agora uma versão resumida do meu texto em língua inglesa para o diário russo Kommersant, pelo qual peço imensas desculpas à população em geral e ao Filipe Guerra em particular:

Shrinking masterpieces with Ernest Hemingway

0. Begin with a masterpiece, such as «The Death of Ivan Ilyich» (Ex: «The Death of Ivan Ilyich»)

1. Force some complex anti-aesthetic surgery on the aforementioned masterpiece, removing what is known in literary circles as "every fucking detail that makes it a masterpiece".

2. You can accomplish this by covering the masterpiece in lubricant and subjecting it to a sweaty aerobics session, to the sound of pounding german techno.

3. Remove all symbols, unless they are painfully obvious, as well as all motifs, and lengthily developed themes; replace them all with faux-macho sentimental shit. And rain.

4. Cut off all organic links between your style and your subject matter; forget all your russian homosexual meditations on the senseless tragedy of death after a proper but unfulfilled life. Treat death as something that happens just before it rains.

5. Suffocate your language's vitality with a string of short sentences. Drown your rhythm in a vat of fake pathos. Add more rain.

6. Don't even think about setting up some high-falutin' dichotomy between the spiritual authenticity of a vaguely apprehended inner life and your actual decaying physical casket. Just focus on the rain, and shoot some more adjectives in the face with a big manly shotgun.

7. Give it that Hemingway shine. In the end, you will have turned «The Death of Ivan Ilych» into two simple, boring, suicide-inducing sentences:

"He looked very dead. It was raining."

9 comentários:

Lourenço Cordeiro disse...

Epá, eu tenho de ir trabalhar.

Anónimo disse...

"shoot some more adjectives in the face with a big manly shotgun"

hahahahahahahahahahaha

bloom disse...

"cheese-eating-surrender-monkey Pedro Silva-chest-incident-denialist"?
isso sim, é um insulto.
dito isto, ainda não foi desta que me automotivei para ler aquela coisa das lagostas ou isso...
acho que me vou ficar pelo hem.

JMSAndre disse...

Hmmm, remover tudo o que faça da obra uma prima? E acrescentar chuva (ou ranha, mas vou asumir que é chuva, segundo o que o meu dicionário diz - ou escreve)? E acabar com tudo o que seja sentimentalismo? E colocar frases curtas?

Não é mais simples pedir simplesmente a um holandês que trate do assunto? Parece-me coisa para ser feito entre a retrete e a casa de banho antes de se montarem na bicicleta. À chuva, evidentemente.

LB disse...

O Simarillion do Tolkien ou as lendas do hans christian andersen são exemplos de que me lembro de escritores "modenos" que conseguem uma escrita é descarnada ao ponto de ser legível por "crianças", num formato de lenda ou conto ou mito (também se inspiram em lendas populares nórdicas, pelo menos, o Tolkien sim). Recomendo, para além do Simarillion, com o mesmo fervor do moonwalk do Sandro, contos da mitologia da papua Nova guiné, normalmente recolhidos e compilados por antropólogos, por serem completamente fora do nosso esquema mental (mesmo quando forçamos o absurdo na poesia ou fantasia) e brutalmente simples ao mesmo tempo, pois falamos de tipos que andam descalços com canudos na pilinha e que caçam aves e macacos com zarabatanas e para quem as "histórias" são a explicação de coisas (vulcões, lua, sol, terra, vida, morte, Benfica, animais, sonhos etc.)

Pedro Jordão disse...

Para sinopse, o resultado não é mau. Talvez esteja aí toda uma nova carreira para alguns talentos.

Ricardo Morris disse...

Boooom!

GAF disse...

Quer-me parecer que a primeira coisa que os russos do Kommersant vão fazer é traduzir a receita em 7 pontos do inglês para russo porque vale bem a pena divulgá-la pelas massas. Agora, precisava do Guerra e Paz em meia folha a4 porque os miúdos têm teste de literatura russa para a semana.
Humor à parte, acho que é mesmo ofensivo dar aulas de multiplicação de palavras nas oficinas de criação literária ou em qualquer outro sítio minimamente alfabetizado.

António disse...

Consequências de ver no trabalho da escrita uma profissão de caracteres institucionalizados. Esse género de textos - uma vez sorvido o seu humor - apenas aproveitam a quem não tem nada para escrever, da mesma forma como ensinariam um assalariado a fingir trabalho para efeitos de empolamento pessoal e para deleite do patrão.

Para os escritores que ainda sentem a necessidade de comunicar algo através das palavras, há tragédia suficiente no putting-inning e naquilo que se tem de retirar em seu benefício.

De resto, se é para aprender a encher chouriços com a eficácia de um adereço descontrolado de um filme do Jacques Tati, prefiro ir tirar um curso de Direito. Oh wait.