segunda-feira, março 02, 2009

Suction with Valchek



Tem sido extremamente difícil nos últimos dias não passar o tempo a chatear as pessoas com a minha recém-adquirida destreza no calão de Baltimore. Com o atraso espectacular que costuma caracterizar grande parte das minhas interacções com o mundo (exemplificado pelo absurdo número de emails a informar-me de que fui a última pessoa em Portugal continental a dizer bem do Lourenço Viegas) comecei esta semana a ver episódios da "melhor série de televisão de todos os tempos". Ainda é cedo para a apreciação global e fundamentada que a minha mãe se habituou a esperar de mim, mas creio não espatifar nenhum consenso se disser que a segunda melhor personagem da série é o Coronel Daniels, um Masai tecnocrata interpretado por um actor que tem provavelmente a melhor cara de todos os tempos a seguir à do Franck Ribéry, e que elevou o acto de remover o casaco exasperadamente a uma manifestação artística pela qual valia a pena dinamitar a Tate Gallery.
Só para ficar mais descansado, transformei o visionamento dos quatro primeiros episódios numa desesperada caça ao cliché. Não tive grande sucesso. A língua inglesa é claramente a actriz principal, mas vê-se que passou anos a treinar para isto. Está mais gorda, mas ganhou agilidade; consegue saltar por cima das coisas; consegue esconder-se atrás de outras coisas; é tudo muito bonito. O espremido livro de estilo do police procedural também foi brutalmente vandalizado. Há algum fervor antropófago na sequência em que o McNulty vai ver um jogo de futebol do filho e conversa sobre direitos de visita com a ex-mulher, mas regra geral os guiões têm-se comportado como se a televisão tivesse sido inventada ontem à tarde. Há uma enorme vala comum no meio daquilo tudo onde as convenções foram enterradas: os guiões limitam-se a ir lá de vez em quando para mijar em cima dos cadáveres.
Está mais do que decidido que nunca mais vou ter uma "opinião" sobre qualquer outra coisa durante o resto da minha vida, mas, evidentemente, uma pessoa tem saudades de clichés, pelo que foi uma sorte ter feito uma pausa nas festividades para fazer um micro-zapping pelos canais terráqueos, no meio do qual apanhei um dos Casos da Vida transmitido pela TVI, intitulado "Crime e Botox".
"Crime e Botox", curiosamente, é o nome de uma pequena peça em três actos que eu escrevi em 2004 e que transporto desde então na minha mochila, à espera do dia em que os meus frequentes encontros com figuras públicas nas ruas de Lisboa (é inacreditável a quantidade de vezes que já estive atrás do Carmona Rodrigues na fila para o multibanco) me proporcionem finalmente a oportunidade de passar as cento e oitenta páginas para as mãos do Diogo Infante, que eu "visualizo" no papel principal e também no orçamental.
A minha peça, no entanto, é um mero divertimento - daqueles assim despretensiosos e para a toda a família. Já a versão da TVI é uma arrojada variação sobre o mito de Pigmalião, que alardeia o seu despudor em relação ao facto de ter conseguido plagiar em simultâneo o Bernard Shaw, o Nip/Tuck, o Instinto Fatal, e o Apocalipse de São João.
A história começa com uma ex-actriz dos Morangos com Açúcar no bloco pós-operatório. A cirurgia plástica correu bem, mas os resultados não lhe agradam. O seu estado emocional é cintilantemente traduzido: «Ó Zé! Não era nada disto que eu te tinha pedido!». O "Zé", além de ser seu marido, também é um cirurgião-plástico diabético, um artifício narrativo que permite aos argumentistas utilizarem uma estrutura formal composta por versos perdidos de Daniel Maia-Pinto Rodrigues: «Há séculos que não jogas golfe, querido», «Amparo! Traga-me imediatamente um copo de água com açúcar!», e «Vá, toma lá a insulina para irmos jantar».
O espectador depressa se apercebe que o cirurgião-plástico diabético anda a testar os nervos da esposa («Essa tua obsessão pela perfeição está a ir longe de mais!») e que a esposa do cirurgião-plástico diabético anda a testar os limites da sintaxe («Tu tens é noção de falta do ridículo!»), mas tudo é facilmente ultrapassável por todos aqueles que não tenham sentido de falta de humor. A primeira parte, como espero ter tornado espatafurdiamente óbvio, é uma lenta versão hardcore do My Fair Lady («ele esculpiu-me a seu belo prazer», etc.). Mas a segunda parte é nada mais nada menos do que um pioneiríssimo CSI: Vialonga, com inspectores a afagarem paredes com escovinhas, a guardarem colheres de sobremesa em sacos de plástico, e a enviarem coisas "para o laboratório". Um dos inspectores possuiu a argúcia de Auguste Dupin e o registo emocional de Ivan Drago. Depois de ouvir que a vítima, na véspera de ser assassinado, recebera um telefonema anónimo que o fizera sair de casa a correr, ele raciocina em voz alta, com o instinto dos predestinados: «Sim, realmente ísso é estranho». Nesta altura já existem pelo menos quatro suspeitos diferentes para o assassinato do cirurgião-plástico diabético, e um dos diálogos entre os argumentistas foi acidentalmente incluído no produto final: «-Porque é que não tiramos umas férias? -Umas férias não vão resolver isto».
Não vi até ao fim, mas desconfio que foi a mulher quem o matou - provavelmente com uma dose de leite condensado. Entretanto, deixo-vos com três minutos de Shakespeare na Cova da Moura:

6 comentários:

ॐJohn disse...

"Eu nunca te vi assim" dito pela polícia astuta ao colega embeiçado pela viúva, foi uma frase que se ouviu 3 vezes. Se calhar mais enquanto fui buscar um leite com chocolate.

Lourenço Cordeiro disse...

Já deves estar a par, mas olha, cá vai: http://www.newyorker.com/fiction/features/2009/03/09/090309fi_fiction_wallace

Anónimo disse...

http://www.youtube.com/watch?v=EgztF8Fp160

isabel mendes ferreira disse...

:))))))))))))))))))




obrigada....saio muito mais esclarecida.

Garfield Heights disse...

Não venho comentar este último blogue, mas tenho estado a ler os seus textos, e não percebo tanta atenção ao Pynchon, bom escritor, sem dúvida, mas completamente sem humor na vida real. Poucos saberão que Pynchon, tal como Robert De Niro, visita Portugal de vez em vez. De Niro gosta de se sentir anónimo quando janta em Sintra, no Solmar nas Portas de Santo Antão, ou numa barraca em Portimão no pestilento Algarve. Pynchon sente-se duplamente anónimo: passa despercebido num país onde passaria despercebido mesmo se as pessoas soubessem quem era. Maravilha. Há alguns anos tive a oportunidade de almoçar com o De Niro no Solmar na companhia de alguns colegas do mundo do cinema. Quando De Niro apresentou o Pynchon ao grupo foi com a confiança de quem sabia que estava entre analfabetos, julgando-me, julgo eu, mero companheiro homossexual de um dos produtores presentes. Longe disso. Resolvi descobrir se a famosa falta de humor do Pynchon era verdade, e contei-lhe a piada votada a mais cómica de todos os tempos pela revista Playboy, e que passo a transcrever: “A man goes into the doctor’s and says, ‘Doctor, my penis is burning.’ And the doctor replies, ‘That’s ‘cause someone is talking about it.’” Ao que Pynchon disse, “There’s a novel in there somewhere.”

Anónimo disse...

Melhor série de sempre.

Nuno P