quarta-feira, junho 24, 2009

Aldaily temático, seguido de modesto exercício de tipologia e de final abrupto por motivos de pequeno-almoço

Tendo relido por ordem cronológica toda a não-ficção que o homem escreveu (o absurdo e embaraçoso contexto emocional não vai ser abordado, até porque a absurda e embaraçosa sensação de que o seu suicídio foi um gesto que me ofendeu directamente ainda não se dissipou), estou em condições de afirmar que David Foster Wallace foi a pessoa mais inteligente que li na minha vida.
A afirmação é discutível, a vida em questão é curta, e a inteligência é difícil de quantificar, mas acho que se impõe aqui o post chato que aqui se impõe. Antes, contudo, my own private aldaily:

«Tennis, Trigonometry, Tornadoes» (pdf) - a mais inteligente biografia psíquica, intelectual e biomecânica de todos os tempos. Tem nove páginas. Permitam-me que vos mostre um bocadinho de cueca: « ... The point is I just wasn't the same, somehow, without deformities to play around. I'm thinking now that the wind and bugs and chuckholes formed a kind of inner boundary, my own personal set of lines. Once I hit a certain level of tournament facilities, I was disabled because I was unable to accomodate the absence of disabilities to accomodate».

«The Empty Plenum» (pdf) - uma recensão crítica ao romance de David Markson, “Wittgenstein's Mistress”, publicada na Review of Contemporary Fiction. Evidentemente a recensão crítica mais inteligente de todos os tempos. É que não há competição por perto, sequer.

«The String Theory» e «How Tracy Austin Broke My Heart» (já houve link para este, agora não há) - Os mais inteligentes textos sobre ténis de todos os tempos (reparem no padrão). O texto sobre Federer, que fique bem claro, é o terceiro texto sobre ténis mais inteligente de todos os tempos, mas ainda assim a uma larga distância deste díptico. O primeiro texto foi publicado originalmente na Harper's e uma versão não-editada aparece na primeira colecção de ensaios de Wallace, com o título original (“Tennis Player Michael Joyce's Professional Artistry as a Paradigm of Certain Stuff about Choice, Freedom, Discipline, Joy, Grotesquerie and Human Completeness”). O segundo é uma pequena crítica à autobiografia de Tracy Austin e aparece na segunda colecção de ensaios. Em conjunto, e entre muitas outras coisas que fazem ao cérebro, propõem uma teoria sobre a constituição do génio desportivo, que postula que o talento atlético é indissociável de uma ausência ontológica, uma espécie de vácuo neo-Zen que permite computar um número ridículo de variáveis de uma forma hiper-consciente mas ao mesmo tempo puramente mecânica, e criar uma simbiose entre agência e acção assente na adopção literal de clichés motivacionais, etc etc etc. Além de estabelecerem a melhor defesa teórica da beleza estética do ténis (de todos os tempos), e de articularem a melhor defesa teórica das limitações intelectuais dos atletas profissionais (de todos os tempos), os textos também incluem piadas.

«The Weasel, Twelve Monkeys and the Shrub» - A célebre reportagem sobre a campanha de John McCain nas Primárias Rebublicanas de 2000. A Rolling Stone acabou por publicar apenas 50% do texto original, mas a versão restaurada, e com notas de rodapé, pode ser lida na colecção Consider the Lobster (com o título «Up, Simba»). Isto é muito mais do que a mais inteligente reportagem política (agora em coro) de todos os tempos, embora também o seja. É uma condensação daquilo que, à falta de melhor alternativa, se pode chamar o tipo específico de inteligência de Wallace, algo de que falarei para aqui sozinho um pouco mais à frente.

«A Supposedly Fun Thing I'll Never Do Again» (pdf) - Temos aqui o apogeu de qualquer coisa, parece-me. O relato de uma viagem de cruzeiro, escrito em 1995, também para a Harper's, é o texto (sem qualificativo) mais inteligente de todos os tempos. Esta histérica certidão pode muito bem ser o resultado não apenas de um processo emocional cumulativo, como também do calor que se tem feito sentir, possibilidades que não voltarão a ser exploradas.
Definir algo como "o mais inteligente" requer provavelmente que se defina o termo, portanto façamos um modesto exercício - inspirado em Howard Gardner - sobre a minha definição operativa de inteligência, atributo que tive o cuidado e as férias de separar (com a ajuda inestimável do alfabeto) em cinco categorias, e que, para este efeito, está limitado à inteligência que pode ser apreendida através da escrita:

Tipo A - A inteligência cuja principal característica é a clareza de raciocínio: a fluência intelectual e a facilidade de exposição que cinzelam a complexidade até um linear encadeamento de factos. O estilo é um factor determinante, mas o seu impacto não é notório. É a inteligência de David Hume, William Hazlitt, George Orwell, V. S. Pritchett, Eric Hobsbawm e, para esticar os exemplos a “pessoas portuguesas com blogs” (que também são gente), Ivan Nunes, António Figueira e Pedro Picoito.

Tipo B - É a inteligência que mais depende de um estilo literário, a que pode mais facilmente ser imitada por pessoas não-inteligentes, e também a menos estanque e mais sujeita a overlaps com outras categorias, pelo que me vou socorrer de números para chafurdar em dois sub-tipos.
tipo B1 - A inteligência céptica e iconoclasta. É um tipo de inteligência semi-narcisista, muito confortável com as suas características, que tende a adoptar uma pose cínica e preconceitos teóricos que muitas vezes dão a ideia de poderem perfeitamente ser outros. Mais do que em qualquer outro tipo, a estabilidade é ancorada numa fórmula estilística. Exemplos: Frederick Crews, Vasco Pulido Valente e Gore Vidal, este último com nítido overlap para o tipo A. (H. L. Mencken e João Gonçalves, já agora, são exemplos do que acontece quando os portadores destas características se apaixonam pelo próprio esqueleto e se tornam paródias privadas, asfixiando a ex-inteligência num transtornante aparato auto-erótico davidcarradinesco).
tipo B2 - a inteligência especulativa, arrojada e insolente. É o tipo de inteligência que mais corteja o ridículo. Há uma marcada predilecção pela ligação insólita, pela interpretação oblíqua, pela exploração de tudo o que é contra-intuitivo. É frequentemente o tipo de inteligência mais entusiasmante e com maior valor de entretenimento, mas também a que mais tende a decepcionar. Exemplos: Henry Adams, Norman Mailer, Susan Sontag, George Steiner, Pedro Arroja.
Como referi, é a categoria mais fluida. Isaiah Berlin é um potencial tipo A a escorregar para o B2. Malcolm Gladwell é um tipo B2 que finge ser tipo A. O maradona é uma síntese espiritual quase perfeita dos tipos B1 e B2 que, certamente por motivos acidentais e não-planeados, consegue quase sempre ser tipo A.
(Apesar de todas estas condicionantes, tenho o tipo B sob controlo, não se preocupem).

Tipo C - A inteligência volumétrica, cuja medida não é necessariamente a qualidade, mas a quantidade e a intensidade. Isto não faz do tipo C o Ramires da tipologia, atenção. O tipo C é tão ou mais digno de respeito e assombro do que os outros. É uma inteligência de seriedade, de trabalho, de rigor, de organização - e de energia. Se houvesse um símbolo que evocasse o tipo C seria um arquivo infinito espalhado ao longo de uma pista de tartan. Os exemplos óbvios são Edmund Wilson, Pacheco Pereira e João Miranda.

Tipo D - A inteligência mais avassaladora. É a mais profunda (uso o termo “profundo” no seu sentido superficial) mas também a de perímetro mais reduzido (uso o termo “reduzido” no seu sentido lato). É uma inteligência de fôlego, confortável com abstracções, que tende para a sistematização (é a mais frequente em académicos), e que extrai a maior densidade intelectual do menos promissor aglomerado factual. Tem lacunas, mas lacunas que costumam resultar de demolições controladas e auto-induzidas. Exemplos: Pierre Bourdieu, Frederic Jameson (ambos com laivos de B2, mas enfim), Clifford Geertz, João Galamba e Yesterday Man (embora este último caso seja muito mais complicado).

A inteligência de David Foster Wallace, com assinalável desrespeito pelo alfabeto e pelo meu trabalho, não cabe em nenhuma destas categorias. Reune características de todas elas (com a clara excepção do tipo B2), mas é falível, enrodilha-se em nós cegos e mete-se em becos sem saída, pois adiciona tantas camadas de auto-reflexividade a cada característica individual que, aplicadas à motricidade, fariam com que fosse impossível atar um sapato sem entrar em convulsões. É uma inteligência exaustiva, no duplo sentido da palavra: esgota-se a esgotar possiblidades.
Quando observa os outros (McCain, Michael Joyce ou o rapaz das toalhas no cruzeiro), quando se observa a si próprio, Wallace dá o benefício da dúvida a cada gesto, a cada frase; e dar o benefício da dúvida é uma das actividades mais fatigantes que conheço. É uma posição ética que nasce da curiosidade e da empatia, mas também resulta de um pânico filosófico genuíno sobre questões de autenticidade emocional, que pode ser forjada não apenas para terceiros, mas também (e isto para ele era uma história de terror) ao nível interno. Se a minha consciência sobre um determinado sentimento é total, como é que posso ter a certeza de que o sentimento é autêntico e não uma construção? (etc)
Wallace aprendeu que a liberdade mais importante é a auto-consciência, mas que esta (por definição) precisa de si própria para aprender a ser utilizada, o que inaugura dificuldades enormes nisto de ser pessoa. Também aprendeu que ser boa pessoa é a melhor forma de inteligência. A sua inteligência antecipa cada passo de quem o lê, mas também permite que os seus próprios passos sejam antecipados. É a inteligência que expande e eleva o que a rodeia. É a inteligência da civilização, e de tudo o que veio a seguir aos calhaus e aos bichos. E faz falta, faz tanta falta.

15 comentários:

Anónimo disse...

Bravo!

Uli Sequeira disse...

Que maravilha.

Artur Corvelo disse...

"um espetáculo, digo eu"

Anónimo disse...

não se entende nada. devias escrever mais para as "massas".

Plúvio disse...

hiperconsciente
subtipos
seminarcisista
reúne

Não fosse a translineação, receio pelo que sucederia àquela «auto-
consciência». Mas a 'modéstia' e a 'inteligência' do Rogério merecem o benefício da dúvida; tanto mais que nem estou assim tão cansado*.

* [...] dar o benefício da dúvida é uma das actividades mais fatigantes que conheço.

P., modestíssimo, uma voz das massas.

azeite disse...

qual é a cláusula de rescisão deste post? se tiver os dentes bons, procederei à devida aquisição do seu passe.

R. Casanova disse...

Boa noite a todos. Gosto muito de vocês.

alf disse...

A consideração do post O ataque à política de verdade acabou de destronar Jorge Jesus no ranking que define pessoas ou objectos que despertem em mim um desejo absurdo de sofrer e que era liderado há já alguns anos, antes destes últimos e agitados dias, pelo famoso poema de Cesário, Sentimento de um Ocidental. A verdade é que a política de verdade vai fazendo o seu caminho como a mula de um marquês da corte de D. João V que no caminho das Caldas até à Corte acabou por projectar o referido aristocrata causando-lhe uma morte inesperada e muito chorada pela fidalguia, olé. A analogia erra por completo o alvo, é certo, mas o blogue onde pontificam indivíduos com apelidos do género Homem de Cristo, Van Zeller e Picoito turvou de tal forma a minha capacidade de entendimento que estou agora a tentar encontrar séries logarítmicas em textos biblícos que apontem no sentido da concretização da política de verdade, isto sem contar com as listas bibliográficas que tenho recolhido no blogue de Casanova a fim de as confrontar com os últimos números do Borda de Água, no sentido de destacar afinidades entre a cultura da beterraba e a circunscrição dos tipos de inteligência mais comuns em espécimes com opinião sobre um vasto conjunto de questões que vão da análise etnográfica da zona de Famalicão à teoria simbólica de Geertz, enfim um modesto exercício de tipologia que espero seja profícuo na descodificação das razões que tenham levado Pacheco Pereira a proibir a sua entrevista ao jornal "I" ou a escrever frase enigmáticas digitadas em capslock como por exemplo «OS ABCESSOS DE FIXAÇÃO». Isto tudo ocorreu muito antes de ter verificado, com grande perplexidade e alguma indigstão, as possibilidades de Adu ser reintegrado no plantel do Benfica acontecimento que destronou, sem apelo nem agravo, o post «Ataque à política de verdade» no ranking do sofrimento pessoal, facto que não preciso de justificar de tal forma se torna evidente as repercussões da gestão benfiquista neste defeso do ponto de vista das probabilidades de um vitória no campeonato num espaço mínimo de dez anos.

Anónimo disse...

Estou completamente esmagado. Digo isto sem ponta de ironia. Que arrancada. Se te apanhasse matava-te de pancada, só por conseguires escreveres assim e eu enfim...

Pá, porra. Estava na dúvida mas agora vou mesmo comprar o teu livro.

P.S. Reavalia-me o João Miranda... aquilo não é categoria para ele.

Abraços

woman that rains disse...

não dá para incluir este post no plano nacional de leitura?

Anónimo disse...

O que acima de tudo importa é ter bom carácter.
Junho 18, 25, 26, vejo com gosto que volta ao blog.

Anónimo disse...

E está em casa, ou atento ao blog. Isto é um P.S. A fusão de estilos b1 e b2 a esprair-se em A que V. verifica em maradona dá-lhe para não conceber outro Portugal que não o de Sócrates. Assim falece uma análise.

Anónimo disse...

Teci umas considerações no blogue de esquerda da Sábado, que provavelmente não lês. VMB

Lourenço Cordeiro disse...

O ensaio do porno não é extraordinário.

R. Casanova disse...

Oh pá, enganei-me. Onde escrevi "Reune características de todas elas (com a clara excepção do tipo B2)" deve ler-se "Reune características de todas elas (com a clara excepção do tipo B1)".
Peço desculpa a todos, espero não ter estragado a vida a ninguém.