quinta-feira, julho 30, 2009

Digamos que as cinco melhores personagens do Wire, e depois a pior

Foi uma longa e árdua odisseia, que envolveu algumas noitadas indesculpáveis, copiosos pacotes de Bombay Mix e a revogação de inúmeros privilégios sexuais, mas tudo valeu a pena. A minha vida social atravessa agora uma fase de remodelação, em que todos os ex-amigos que não viram o Wire têm de ser substituídos por novos amigos que tenham visto o Wire, e não me encontro ainda nas condições ideiais para fornecer às massas uma opinião devidamente fundamentada, pelo que vou apenas fazer uma lista das cinco melhores personagens, indicando também a pior - um instrumento crítico de tremenda utilidade para futuras teses de mestrado. Aproveito este momento para aconselhar vivamente os leitores ainda não familiarizados com o Wire a não verem um único episódio antes de continuarem a ler, uma vez que a série contém vários spoilers que podem diminuir o intenso prazer que o resto do post vos vai inevitavelmente proporcionar.

1. Marlo Stanfield

Probabilidade de merecer uma fotografia em tronco nu no blogue A Causa Foi Modificada: 90%
Probabilidade de conseguir derrotar o elenco inteiro do Grey's Anatomy numa luta corpo a corpo: 100%
Probabilidade de achar que a direcção do Belenenses merece um pedido de desculpas: 0%

De longe, a personagem com maior quantidade de deixas memoráveis ("I wasn't made to play the son", "You want it to be one way, but it's the other way", etc etc). Dada a qualidade geral da escrita, e as múltiplas formas em que esta se manifesta, concentrar tanta frase boa no mesmo sítio parece batotoa - um atalho fácil e curtinho para a ressonância. Mas Marlo é bom por outro motivo. Se a tragédia é a diferença entre as circunstâncias e as aspirações, Marlo é a personagem mais trágica da série. O cruzamento de incompatibilidades a que chega é verdadeiramente espectacular: Marlo tem as características certas para ser Avon Barksdale (em melhor, porque menos volátil, e com precisamente zero laços emocionais); são-lhe apresentadas as circunstâncias para ser Stringer Bell (aquele circuito de reuniões de negócios no último episódio era a fantasia pela qual Stringer aparava a barba todas as manhãs); mas o seu único desejo é ser Omar: o mito, o nome, a reputação. O seu discurso que culmina no "My name is my name" tem um curioso precedente numa deixa do Grego na segunda temporada: "my name is not my name". Por isso é que o Grego se safa: sendo anónimo, sendo o velho a ler o jornal no café, ao mesmo tempo que dirige o império. Marlo quer ser a lenda, a história contada aos putos, quer que falem dele por aí, na rua, nos blogues, pobre coitado.


2. Proposition Joe

Probabilidade de merecer uma fotografia em tronco nu no blogue A Causa Foi Modificada: 20%
Probabilidade de conseguir derrotar o elenco inteiro do Grey's Anatomy numa luta corpo a corpo: 90%
Probabilidade de achar que a direcção do Belenenses merece um pedido de desculpas: 0%

O seu fim era esperado, mas doeu. Era o melhor patrão, o melhor bandido, e um dos traficantes de droga mais fofinhos que já vi num ecrã de televisão. Acabou por ter uma morte bastante digna, na medida em que não lhe interromperam nenhuma frase, nem estava a tentar comprar iogurtes antes de levar um balázio nos cornos.


3. Slim Charles

Probabilidade de merecer uma fotografia em tronco nu no blogue A Causa Foi Modificada: 100%
Probabilidade de conseguir derrotar o elenco inteiro do Grey's Anatomy numa luta corpo a corpo: 100%
Probabilidade de achar que a direcção do Belenenses merece um pedido de desculpas: 0%

Antes de mais tem o mérito de ter despachado o Cheese, uma das bestas mais repreensíveis que por ali andava, com pontos extra por tê-lo feito logo a seguir a Cheese se ter saído com aquela do "ain't no nostalgia to this shit here". Essa, enfim, besta, essa personificação da brutalidade cega e amnésica, que quer andar para a frente sem olhar para trás, é morto em nome dos princípios mais antigos: honra e vingança. Tudo no sítio certo, é impressionante.

4. Ellis Carver

Probabilidade de merecer uma fotografia em tronco nu no blogue A Causa Foi Modificada: 100%
Probabilidade de conseguir derrotar o elenco inteiro do Grey's Anatomy numa luta corpo a corpo: 100%
Probabilidade de achar que a direcção do Belenenses merece um pedido de desculpas: 1,7%

Num guião destituído de arcos morais, e onde todas as epifanias são tácticas, Carver é a única personagem que evolui visivelmente (há o Snydor, mas é diferente). Também tem uma frase muito boa, num diálogo com um dos putos, sobre o tamanho das algemas, mas agora não me lembro em que episódio é. Num curioso fenómeno fisionómico-hierárquico, vai perdendo as gritantes semelhanças com o internacional françês Florent Malouda à medida que vai subindo de escalão dentro da força policial.

5. Stan Valchek

Probabilidade de merecer uma fotografia em tronco nu no blogue A Causa Foi Modificada: 0,7%
Probabilidade de conseguir derrotar o elenco inteiro do Grey's Anatomy numa luta corpo a corpo: 75%
Probabilidade de achar que a direcção do Belenenses merece um pedido de desculpas: 0%

Com toda a honestidade, há provavelmente uma dezena e meia de personagens melhores (o Wee-Bey, meu Deus, o Wee-Bey dava 20 posts), mas assumo uma escolha sentimental. É a pronúncia, está tudo na pronúncia. Não me lembro de ficar mais satisfeito a ouvir alguém falar na televisão. Não sei como é que se faz, mas o produto final assemelha-se ao Leo McGarry do West Wing depois de sofrer uma esclerose lateral amiotrófica. E tudo com aquele aspecto de refugiado nostálgico da Academia de Polícia, com ar de quem pode a qualquer momento começar a gritar com o Mahoney por este lhe ter besuntado a toalha de banho com um afrodisíaco para bisontes.

---. Brother Mouzone

Probabilidade de merecer uma fotografia em tronco nu no blogue A Causa Foi Modificada: 30%
Probabilidade de conseguir derrotar o elenco inteiro do Grey's Anatomy numa luta corpo a corpo: 85%
Probabilidade de achar que a direcção do Belenenses merece um pedido de desculpas: 0%

A maior concessão de Wire aos cânones narrativos de tudo aquilo que não é Wire. Eminentemente desculpável, mas não se deve negar que foi uma escusada digressão pelo "pitoresco". A ideia de colocar um avatar pós-colonialista do João Carlos Espada a ler a Harper's de pistola no bolso compreender-se-ia em séries menores, que tentam qualquer coisa desde que suspeitem que possa ser eficaz, porque têm de evitar que as pessoas se concentrem em todas as outras coisas que não são eficazes. Brother Mouzone é, vá lá, relativamente eficaz como personagem. Mas o guião não tinha a mínima necessidade dessa eficácia, especialmente a este preço. Seria uma boa personagem em qualquer outra série. Nesta, é um palhaço que ali anda.

9 comentários:

António disse...

"Man you got to. This America."

Já não me lembro do tipo que diz isto no primeiro episódio mas dificilmente se conseguiria abrir melhor uma série. Talvez só com um suction with Valchek, mas aí teríamos de mandar as criancinhas para a cama.

Eu também punha aí o Bubbles. Não é um tipo com muitas deixas lapidares, mas tem os seus momentos. Aliás, ele conseguiria derrotar o elenco do Grey's Anatomy despindo apenas uma peúga enquanto arromba a farmácia do hospital. Isso tem de ser premiado.

O Mouzone é uma auto-sabotagem voluntária, uma espécie de caricatura daquilo que o Omar seria se estivesse noutra série. Também noutra série o confronto acabaria com muito sangue, pólvora e hip-hop. Aqui, acaba com os dois a descarregarem simultaneamente vinte cartuchos de munições sobre um terceiro tipo, o que é sempre uma maneira balsâmica de resolver as divergências.

Daniel Pereira disse...

Leio este post a dois episódios de terminar. Poderei voltar a comentar.

Ricardo disse...

Malik «Poot» Carr: «The world is going one way, people are going the other».
Deixaste de fora o ex-presidiário instrutor de boxeur para putos, Dennis Cutty Wise. Imperdoável.

Ricardo disse...

Dominic West a ler a Lady Chatterley do DH Lawrence:

http://www.cartenoire.co.uk/lady-chatterleys-lover

e o Orgulho e Preconceito da Jane Austen:

http://www.cartenoire.co.uk/pride-and-prejudice

Lourenço Cordeiro disse...

Apesar de ainda continuar de férias, devo dizer o seguinte, que é o seguinte:

1. E o Omar? Não há nenhum critério pós-moderno que justifique a ausência do Omar numa lista do melhor que seja do The Wire, nem mesmo se seguirmos uma atitude de fuga do óbvio. Homofobia descarada. Escândalo.

2. Bom.

3. E o porto? E o clã Sobotka? Frank Sobotka é a personagem que inventa toda a segunda temporada, tida por muitos como a melhor. Merecia aqui uma menção honrosa.

4. Tenho muitos problemas com o Malouda aí. Se é verdade que a personagem evolui para onde deveria ter evoluído (assim uma espécie de Di Maria ou David Luiz), não consigo apagar da memória o fraquíssimo desempenho dele nas primeiras temporadas.

5. Tenho imensos problemas com esta lista.

6. Reparaste no cameo do David Simon no último episódio?

Anónimo disse...

Estou actualmente a ver a série 4, portanto farei o equivalente na internet a pôr os dedos nos ouvidos enquanto canto alto "NHANHANHANHA" para não ouvir nada do que para aqui está.

Capitão Coração de Bife disse...

Não há Clay Davis? Sheeeeeit....

Ricardo disse...

O jovem Wallace regressa a west baltimore depois de um séjour campestre. D'angelo pergunta-lhe porque é que não ficou no campo, longe do «jogo» e da vida de sempre, a fazer planos para o futuro. Wallace vira-se, abre os braços para os low rises e diz «This is me, yo. Right here." E eu, que nunca gostei de fado, fiquei a pensar no assunto. Podes tirar um homem de West baltimore, mas não podes tirar west baltimore de um homem.

Miguel Vaz disse...

De facto, há tantas personagens marcantes em The Wire que é difícil escolher as melhores. Este assunto dava para mais uns dois ou três Tops 5. Mesmo assim, a ausência de Omar é gritante e indesculpável. E já agora, falta uma menção para a Snoop.