sexta-feira, setembro 11, 2009

Eu também quero acrescentar o seguinte

A mesma extraordinária funcionalidade do google que me alertou aqui há uns anos para a existência de um dentista brasileiro chamado Rogério Casanova, alertou-me agora para o facto de o cidadão Hélder Beja alimentar algumas dúvidas quanto à minha mais elementar espectacularidade em matéria de dizer coisas sobre livros:

«Quero acrescentar o seguinte: Rogério Casanova, todos sabemos, venera Pynchon. Nenhum mal vem ao mundo, cada qual gosta do que quer. O que é grave é que Casanova, nesta crítica a O Leilão do Lote 49, escreva algo tão disparatado como que o livro tem «uma revisão competente e, a espaços, inspirada». A revisão é, só, do pior que me passou pelas mãos desde que ando nisto dos livros.»

Não sei há quanto tempo o cidadão Hélder Beja anda "nisto dos livros", e o equívoco até pode ser da minha inteira responsabilidade, mas reside aqui: quando falei na revisão, referia-me à revisão da tradução, como conseguirá perceber qualquer pessoa que leia o que vem antes e depois na mesma frase. Falo na correcção de tempos verbais em relação ao original inglês; falo na correcção de lapsos de tradução e na introdução de lapsos novos. De tradução. Sobre a revisão do texto, sobre a fiscalização gráfica, falo muito de raspão, e sempre a caminho do grande objectivo de 90% dos meus porejamentos sobre as massas, que é fazer uma piadinha antes de falar de coisas extremamente sérias do ponto de vista da seriedade antes de fazer outra piadinha. A tradução, no geral, e com uma ou outra falha (em particular quando decide editar a sintaxe do original), continua a parecer-me boa, ou pelo menos aceitável, tendo em conta a trabalheira sisífica que é traduzir Pynchon.
Quanto às gralhas, sendo mais ou menos consensual que o Thomas Pynchon não trabalha para a Relógio D'Água e não teve nada a ver com o assunto, estou-me moderadamente a cagar para elas, especialmente quando há ali um livro sobre o qual é preciso falar. Eu, por coincidência, falo sobre livros aí em sítios (ainda não tenho Meo em casa) e gastar um milímetro que seja do exíguo espaço que dão a uma pessoa como eu para andar aí nos sítios a falar de livros em pormenores como acentos graves e agudos parece-me tão pertinente como fazer uma crítica ao Inglourious Basterds falando nos estofos dos assentos no Alvaláxia. Regra geral (eu tenho regras gerais) gosto de pensar num livro traduzido como um artefacto cuja vulnerabilidade ao pacote mais inepto não deve ser reforçada por uma crítica que se centre no aparato em torno do livro (o aparato publicitário, o aparato gráfico) em vez de se centrar no seu objecto essencial que é, digamos assim, o conjunto de virtudes e defeitos estéticos de uma obra escrita por um gajo que provavelmente não sabe que a língua portuguesa desenvolveu acentos graves e agudos para lhe complicar a vida. As gralhas que me incomodam são gralhas de estilo, de inteligência, de imaginação. Quando falo de livros (eu falo de livros) eu tento falar disto e não de outras coisas. Cada um fala do que quiser quando fala de livros, evidentemente; mas o meu texto era essencialmente sobre O Leilão do Lote 49, não era sobre literacia, sobre a competência dos funcionários da Relógio D'Água ou sobre a qualidade das gráficas nacionais - tudo áreas que me interessam tanto como a programação dos quatro canais terrestres neste preciso momento.

27 comentários:

marta morais disse...

Informação importante a reter de todo este mal entendido: tu, lá de tempos a tempos, googlas-te (après tout, c'est humain!)

"Rogério Casanova" disse...

Sempre que ligo o pc, é a primeira coisa a fazer. Depois os mails, depois o record, etc. Sei quase tanto sobre a vida do dentista brasileiro como sei sobre a minha.

Anónimo disse...

Quanto tempo aqui? O «humour» foi-se. É incrível! Poucos meses e eis uma criatura azeda e cheia de importância!
Isto acabrunha qualquer um!
Apoveito a oportunidade para agradecer ao Sr. Dr. José Dias Ferreira, bisavô da Dra. MFL e primeiro ministro, o nunca ter dado um lugar em Portugal a Eça de Queiroz.

Anónimo disse...

Esta edição é um completo desastre: é um desastre ortográfico, sintáctico e semântico. O resultado é uma coisa praticamente ilegível.
E portanto eu gostaria é que todos os participaram nesta façanha – tradutores, revisores, etc. – juntamente com o Casanova – que crê que o desastre é não é digno de nota – fossem apanhar cu!

Anónimo disse...

mas quem é o hélder beja, caralho? agora estás a perder tempo com merdas? escreve mas é sobre o jogo da selecção na hungria e deixa lá os meninos fingirem que brincam aos livros.

bloom disse...

apanhar cu? apanha-se como o berbigão?

DT disse...

Eu não creio que haja um equívoco, creio que há dois. Um é o Casanova conhecer (e apreciar) demasiado bem o original para conseguir ver, ou dar importância, ao trabalho fraquinho que a edição portuguesa de facto é. O outro equívoco é o Casanova achar que merece a pena perder tempo e a dar importância a quem só o menciona porque quer aparecer. Subscrevo as palavras do anónimo das 13:10, post sobre a selecção, já!

Anónimo disse...

Percebi tudo logo à primeira. É o seguinte. Os críticos nacionais pensam no livro como um produto e nos leitores como consumidores. O Casanova pensa no conteúdo do livro como uma forma platónica e nem sequer pensa em leitores, apenas num Leitor abstracto. O Casanova no fundo é um conas snob e elitista. Mas também é muito melhor do que os outros todos e a única pessoa neste país cuja crítica literária vale a pena ser lida. Era só isto. Beijinhos.

Ana Cláudia Vicente disse...

Sei absolutamente nada de Pynchon, mas o verbo porejar soa-me horrível, canalítico (sim, esta palavra não existe). Ressumar também soa um bocado esdrúxulo, mas menos mal. Enfim. Digo eu.

Joel disse...

Já não é a primeira vez que o apanho a cascar em alvos fáceis. A sua famosa mãe não lhe ensinou que não se deve bater nos mais fracos? É que mesmo que não tenha razão (e neste caso acho que é 50/50) vai sempre ganhar.

Gabri El'Viegas disse...

Sobre livros, há 2 gajos cujas opiniões leio habitualmente: O Rogério Casanova e o Zé Mário Silva. Sugiro que leiam uma "receita" do RC que vem na última Ler e mete Lobo Antunes que é um deslumbre... Mas concordo que esta tradução abusa à grande das gralhas e que isso prejudica um bocado o produto final. Comprei o último de Pynchon pelo Amazon em inglês para evitar a mesma cagada e só espero que o meu nível de inglês tenha pedalada para o acompanhar

Anónimo disse...

ahahah, por-ra-da, por-ra-da!
O Casanova e o maradona dão as melhores porradas da bloga. Gosto muito de os ler quando estão irritados e já não via o Casanova irritado desde uma coisa qualquer com o Tintim.

alf disse...

Uma das actividades mais emocionantes da actualidade, e todos sabem como eu gosto de fazer variações comportamentais aos padrões estéticos da actualidade, passa pela leitura exaustiva de críticas empíro-despretenciosas, mas repletas do sebo dos predestinados, em torno de calhamaços da autoria de cidadãos norte-americanos, há muito identificados pelos instrumentos da psiquiatria como tolinhos, excepção ao sumo-sacerdote Harold Bloom, e cuja exegese implica comentários a todas as formas de erudição semiológica, sem tirar o adestramento nos rankings da originalidade com frases do estilo «eu sou o único ser-vivo capaz de prescrutar os profundos significados ocultos na obra de Thomas Pynchon». O problema é que isto implica que indíviduos como o Casanova, em vez de consagrarem o seu precioso tempo ao comentário dos impactos das tatuagens de Raul Meireles no índice de probabilidades do apuramento da selecção, se percam em exercícios pequeno-burgueses sobre os seus interesses pessoais, assunto que me interessa tanto como a probabilidade da marca de baton utilizada ontem por Manuela Ferreira Leite ter sido também utilizada por um electricista da Brandoa na marcação dos roços das caixas de derivação numa obra clandestina.

nome disse...

E o Inherent Vice, "Rogério"? Engenhoso? Inteligente? Transpassado de frases absolutamente geniais? Gostava de saber as tuas impressões.
Abraço, Sir.

marta morais disse...

Lá estão vocês a afastar-se do assunto que realmente interessa. Qual é o vosso palpite para esta autogooglação frequente do nosso anfitrião? a minha aposta vai para um secreto desejo de ser 'descoberto' (leia-se: que caia, sem ser pelas próprias mãos, a máscara que criou para se proteger).
É o que eu acho.
O Rogério está desejoso do dia em que ao googlar-se um dos resultados seja uma manchete da Caras Online "Descobrimos onde (e com quem) mora Rogério Casanova" ao lado de uma fotografia com muito grão, de tanta ampliação, do Rogério a entrar no 67 e a mostrar o passe social e "clique aqui para ler toda a notícia" (parece que é vizinho da Elsa Raposo e foi assim que a Caras o descobriu).
É o que eu acho.

Anónimo disse...

Eu não queria praguejar, pá, mas... foda-se.

Tenho duas certezas: o Casanova não leu O Leilão do Lote 49.
(Leu The Crying of Lot 49, e sentiu-se autorizado para falar da tradução, confiando que nada o trairia, lição severa sobre confiança e traição.)

Também não leu os livros dos vampiros da fofíssima Ms. Meyer. Ou não os leu a todos do princípio ao fim. Um gajo lê o texto do penúltimo sábado e "sabe". Não é "intui", um gajo vai percorrendo as frases e percebe que aquilo já está evasivo, abstracto, pega só no mínimo que acontece nos livros, até porque gastou o espaço todo na cansativa troca de olhares (uma disputa feroz pelo ponto num jogo de ténis). Portanto, é um comportamento regular e compulsivo.

Só que o Casanova é ágil. Então, tenta obstinadamente salvar o coiro com um malabarismo seguido de outro, alguns impróprios para flores de estufa calvinistas (o destinatário "sabe").

A Ms. Meyer é mesmo um cúmulo de fofa, já encontraram à venda a versão pisa-papéis?



Luck

Luís (Lisboa) disse...

E quem se está "a cagar" para o Rogério Casanova, dirige-se onde? É que a tripa está cheia e já tenho aqui o EXPRESSO à mão para o que der... e vier.

Caesar disse...

Eu sugiro aqui ao Luís (Lisboa) que segure na extremidade sul da sua tripa e vá à Relógio d'Água dar-lhes os parabéns por edição tão cuidada.

É que ninguém tem tomates para criticar a editora, e o Luís parece disponibilizar o que há de anatomicamente mais próximo ao par de tomates.

Segure bem.

Luís (Lisboa) disse...

Caesar, Caesar, que jogos tão estranhos você e o Rogério praticam... Agora se percebe algum do perfume da prosa casanóvica... Bem, já tenho aqui 3 numeros da ACTUAL (abençoada porosidade!), já dá para ir ali e "cagar-me" para o seu ... companheiro de "jogos".

Anónimo disse...

Para o caso da gerência não se ter autogooglado a passada madrugada, informa-se que os Luises de Lisboa que aqui pairam foram com certeza recambiados por uma perfumada exalação do tal de Senhor Palomar que as modas querem que seja moda - http://senhorpalomar.com/300659.html

Tradução do post -
"Casanova dái-me atenção! Porque dais atenção a outros e não a mim? CASANOVA DÁI-ME ATENÇÃO!"

Caesar disse...

Ai, ai, ai, Luís... espero que tenho mais números do Actual, porque acabou de defecar tudo pela extremidade norte.

E ainda vem com o dedo apontado queixar-se de jogos estranhos?

Explique-me por que iria dar melhor tratamento cultural ao seu ânus, do que manifestamente dá ao seu cérebro.

Explique também por que razão louva a porosidade do papel, quando lhe o dá o uso que confessa, e os poros funcionam, sente algum prazer especial na ponta dos dedos?

Conte-nos tudo, eu estou encantado.

Não encontro outra explicação.

(Ah, me no Casa, me no Nova, me no any tribe, não seja primário.)

Anónimo disse...

Casanova quer ser (Luiz) Pacheco mas só lhe saem Vilhenadas pela metafórica pena... Estou a vê-lo daqui a 3 anos a escrever as palavras cruzadas do Destak...

charly braun disse...

elá! devia haver tanto pessoal com espinhas atravessadas que veio tudo cá vomitar na mesma altura. o casanova pode malhar nas rubéolas pintos, nos tom wolfes, nas lilis caneças e nos benficas, mas calha a meter-se com alguém do meio e veio logo a máfia palomar a atirar-se às rótulas do ex bijou.
nada que seja surpresa. qualquer gajo com este talento que caísse aqui de paraquedas era só contar os dias até alguém lhe querer fazer a folha. porque a malta não quer ondas e quer é continuar a ler os bejas e os palomares com tranquilidade.

Anónimo disse...

50% dos comentários soam a escaramuças na corte, só para entendidos. Posso estar muito enganado, mas isto parece é tudo uma guerrinha entre gente das editoras em que o Casanova foi apanhado no meio porque meteu o cachaço a jeito ao julgar que estava a escrever para adultos. Só espero é que ele cague com força em cima desta merda toda e continue a fazer o que faz melhor que ninguém neste país pequenino que é ler e escrever.

marta morais disse...

ena, ena, isto é sempre assim tão escatológico?

Susaninha disse...

Credo, quanta confusão. Pelo que deu para compreender Casanova fez cafuné em livrinho Relógio de Água que muita gente preferia que desse tau-tau. Então veio o minino Beja dar tau-tau em livrinho Relógio de Água mas dizendo que ama Relógio de Água e dando tau tau em Casanova por fazer cafuné no livrinho, mas dizendo que ama o Casanova. Depois Casanova deu um porradão em minino Beja, que por acaso é queriduxo de gatão Palomar, que também queria que Casanova desse tau-tau em livrinho Relógio de Água e que acabou dando tau-tau em Casanova por ele dar porradão em minino Beja em vez de tau-tau em livrinho Relógio d'Água, mas dizendo que ama Casanova. Casanova, safadinho, em vez de dar um valente cafuné-porradão em gatão Palomar dizendo que também o ama, que é a coisa que gatão Palomar mais anseia, deve ter levado seu cafuné para outro lado mais legal, deixando toda a galera a berrar sozinha.
...
Novelão, viu? Pena que em duas semanas ninguém se lembre de nada.

Tolan disse...

Eu faço imensos lapsos na escrita mas não foi isso que me impediu de ser lido e apreciado por muita gente. Foram outras coisas mais graves ainda :\