terça-feira, março 23, 2010

"... And not least that of Voloshinov" (foto-reportagem doméstica)

Às 18 horas de hoje ("ontem", em terminologia humana), as minhas reflexões críticas sobre a futilidade inerente aos estratagemas da ficção pós-moderna para forjar autenticidade foram brutalmente interrompidas pelo som de pessoas a gritar fogo à janela. Mais um incidente provocado pelo incompreensível planeamento urbanístico português, que continua a construir edifícios em sítios onde um dia mais tarde há incêndios.



A resposta dos bombeiros foi rápida. Em menos de meia-hora, o Regimento de Sapadores, liderado por Ferris Bueller (foto abaixo) acolheu ao local, tendo negociado com sucesso sete viaturas mal estacionadas à porta da Pastelaria Alfacinha, um jogo de futebol à porta da mercearia, dezoito transeuntes libertários manifestando uma natural desconfiança sobre o papel do Estado, e dois pilares da EMEL.



O edifício em chamas, saliento, continuava em chamas, alguns metros à frente do espaço onde eu pondero a validade da solução meta-ficcional para os dilemas miméticos (sendo que a representação do real é sempre um acto de prestidigitação necessariamente parcial, modulado por uma entidade subjectiva - o eu - que não se pode representar a si própria sem que o processo colapse como um prédio devoluto) uma solução que implica simultaneamente representar e realçar os limites dessa representação.



Uma escada Magirus foi prontamente colocada à frente do restaurante Mesa de Frades, e erguida para a abóbada celeste, que permanecia altiva e azul-cinza, como Jesus.



É uma instituição muito especial, com créditos inigualáveis no scouting psicométrico, aquela que consegue substituir um sociopata moderado como Ricardo Sá Pinto por alguém que todas as evidências apontam ser uma mistura moderna de Robespierre e da professora da Helen Keller. Caso Costinha fosse director-desportivo em 1994, Cherbakov teria sido arrastado para o treino assim que os paramédicos conseguissem extrair a alavanca das mudanças do seu pâncreas, e teria jogado o 3-6 sob analgésicos, para bem da coesão do grupo. Quem sabe o rumo que a História teria seguido?



Entretanto o fogo continuava activo. Alguns residentes, alheios à coesão do grupo, exigiam cobardemente ser evacuados. As autoridades agiram de pronto, instalando um poderoso cordão moral para lhes bloquear a saída.



Um misterioso homem de capa fala com o pai do George.



Pouco depois das 19 horas, os bombeiros conseguiram finalmente controlar as chamas, com o auxílio de água e complexos tubos de borracha muito compridos, impedindo o alastramento aos edifícios contíguos.



«Anderson rightly upbraids linguistic or discursive imperialism, but he his himself too uncritical of Saussure, appearing to endorse his view of parole as some form of free individual contingency. On the contrary, discourse theory (and not least that of Voloshinov, in his Marxism and the Philosophy of Language) has revealed the rigorously constrained social determinations of all speech, the subject of which is never, as Anderson asserts, 'axiomatically individual' but always, as Bakhtin has shown, a dialogic subject.»



O fogo, nesta altura, desistiu, alegando não sentir a confiança e o oxigénio necessários para continuar a dar o seu contributo. Outros incêndios, em circunstâncias semelhantes, sacrificaram-se em nome da coesão do grupo, sabendo que o "nós" está acima do "eu".



O flagelo do trânsito citadino, e também um livro de Cynthia Ozick, que inclui os contos « Levitation» e «Usurpation (Other People's Stories)», sobre os quais eu tento reflectir um bocadinho, sempre que não há incêndios.



Uma profecia: num prazo máximo de seis meses, Costinha vai entrar em campo sozinho e o árbitro vai marcar um penalty a favor do Sporting, prontamente convertido pelo próprio. Vai tudo piar mais fino.

14 comentários:

Mª João Nogueira disse...

Este post está em destaque na Homepage do SAPO, tab "Radar".

Luísa disse...

Fantástico. Igual a isto só o Hegel a profetizar o fim da história com os exércitos do Napoleão à porta de Iéna. :-Dlyper

Lourenço Cordeiro disse...

O homem da capa parece-me o Larry David.

V. disse...

Nada disso. O senhor da capa é o Jean-François Lyotard.

Lourenço Cordeiro disse...

O Lyotard a falar com o pai do George? Acho pouco plausível.

Cláudia [ACV] disse...

O bookbombing é importante, mas não chega para nos distrair do enigma fundamental: por que razão o sr. Costanza usava balalaica? Hum?

bi-zinho disse...

Eh eh, então não é que o Casanova mora na minha rua? (Quanto ao Larry David, tenho as minhas dúvidas). Assim que a primavera trouxer uns dias com uma luz como se quer, venho aqui trazer-vos o retrato do artista quando jovem, a bem da coesão do grupo.

Anónimo disse...

não percebi nada mas, ao mesmo tempo, estou feliz pela agremiação de Alvalade estar a arder

1 Espectador SC disse...

Muito Boa Tarde,

Aproveito a minha regular visita ao seu espaço para informar a abertura de um novo blog dedicado exclusivamente ao debate de temas falados no programa de televisão Sociedade Civil. Como espectador, este meu novo espaço visa expressar as minhas opiniões sobre o assunto falado no dia. Aproveito a minha passagem pelo seu blog para divulgar, para que todos visitem e que sigam este blog. Serão todos bem vindos, bem como a colocação de links está em aberto. Se a colocação for feita neste seu espaço, colocarei também no meu, basta informar.

http://umespectador.blogspot.com/

Boa continuação e espero que apareçam.

Anónimo disse...

Anne Sullivan, a professora de Hellen Keller.
O seu sistema de comentário parece uma repartição púlbica.

vasco disse...

Ahahah. O melhor post da Blogosfera em geral, e do Universo em particular.

Trinity disse...

e foi escrever isto que nem o telemovel atendeste... eu já a imaginar-te churrasquinho...

Mono disse...

Muito bom. Obrigado por este momento. Também aposto no Larry David.

El Greco disse...

Bueller?... Bueller?... Bueller?