terça-feira, abril 15, 2008

Um post aprovado sem quaisquer reservas por Rufus Wainwright

A William Hill, agência de apostas que há mais de seis anos coloca semanalmente em causa as minhas possibilidades de vir a constituir família, fornece odds para quase tudo. Se quiserem apostar na temperatura máxima que vai ser registada nas ilhas britânicas, no melhor marcador do campeonato belga, no próximo vice-presidente dos Estados Unidos, ou na eventualidade de Elvis Presley vir a ser encontrado vivo num kibbutz israelita, os diligentes funcionários da William Hill terão todo o gosto em aceitar o vosso dinheiro, atitude muito do agrado de Rufus Wainwright.
É possível efectuar um cálculo probabilístico para qualquer ocorrência, até para a súbita aparição de um cliché no Los Angeles Times ao pequeno-almoço - mercado vergonhosamente sub-explorado pela William Hill. Houvesse odds para o número de obituários especulativos disfarçados de bandarrismo teórico que aparecem mensalmente em suplementos culturais, e eu já teria uma conta bancária ao nível da minha indisfarçável riqueza interior, facto que pode ser confirmado por Rufus Wainwright. Semana após semana, edifícios conceptuais inteiros são abalroados por mil e seiscentos caracteres. Assumo que a maioria dos jornais do planeta destaque um estagiário para manter estas coisas debaixo de olho: atravessamos uma era turbulenta; sopram ventos de mudança; o zeitgeist tem crises de pânico; a qualquer altura, em qualquer lugar, alguma coisa deve estar prestes a acabar e uma pessoa tem de estar atenta. A morte de Deus, o declínio do Romance, o desaparecimento do Autor, o suicídio do Jazz, o fim da História, (o fim do Fim da História), a obliteração da Verdade, a obsolescência da Masculinidade, o coma alcóolico do Ideal Olímpico, o sequestro e espancamento da Civilização Ocidental - as Letras Maiúsculas habitam uma realidade alternativa onde é sempre meia-noite no Poço do Bispo. A esperança média de vida de um conceito abstracto passou a depender directamente do coeficiente de tédio existencial de um editor. Em termos mais obtusos (devido às horas que são, ao Rufus Wainwright, e ao facto lamentável de se me terem acabado os maltesers) podemos dizer que quando x e y se cruzam, há 2/1 de probabilidades de z, sendo que z é um pastel astigmático como «The End of the Critic».
O hábito intelectual horoscopeiro de descortinar tendências com base numa vaga intuição de que as coisas não podem ficar como estão por causa de outras coisas que passam a estar como ficam não é intrinsecamente censurável. O que diverte nestes pitorescos exercícios de cosmética mortuária é a aparente e inabalável convicção de que dezenas de factores convergem por milagre sincrónico na mesma cabecinha nostradâmica, e que a pulsação cardíaca da História está a ser reproduzida num teclado da Apple, cinco minutos antes do prazo de entrega. A moribunda mas combativa verdade é que se podem passar horas e horas a esmiuçar os pesos, idades e registos competitivos de dezoito pilecas, na tentativa de erigir o mais sensato prognóstico do hemisfério Norte, mas o esplendidamente baptizado cavalinho High Five Society lá arranjará maneira de nos negar o acesso ao pequeno Estado da Micronésia que nos pertence por direito.
Creio, apesar de tudo, que esta é uma fórmula de enchimento de chouriços em vias de extinção, e que caminhamos a passos largos para o Fim do Artigo Sobre o Fim De, posição com a qual o Rufus Wainwright concordaria enfaticamente se aqui estivesse.

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