quinta-feira, julho 11, 2019
O Twitter está em baixo, é tal e qual os anos 80
Mas não queria deixar de aproveitar esta oportunidade para dizer que o Stranger Things (a minha série preferida) é uma grande merda.
domingo, março 24, 2013
sexta-feira, fevereiro 08, 2013
Uma bonita paráfrase do Record
Bruno de Carvalho, ontem, no lançamento da sua candidatura:
«Não pedimos união, pedimos confiança. A união proporcionada pelo nosso amor pelo Sporting Clube de Portugal já existe, a união em torno do nosso projecto e das pessoas que o concretizarão será a óbvia consequência natural de um bom trabalho e de um bom desempenho.»
Capa do Record de hoje:
Bruno de Carvalho já em campanha: «Não preciso de união»
quarta-feira, fevereiro 06, 2013
sexta-feira, março 25, 2011
Dia de reflexão
Chega amanhã ao fim o período da minha vida em que tive menos vontade de ler livros. Tenciono ir às urnas bem cedinho (ando a fazer treino específico para melhorar os meus parâmetros de "estar acordado de manhã", treino que contempla desde quarta-feira a vertente “não dormir desde quarta-feira”), imbuído do mesmo espírito que imagino preencher muitos cidadãos norte-americanos que encaram cada eleição presidencial como a última oportunidade para impedir a construção de gulags nas planícies do Kansas, mas que para mim é uma experiência completamente nova: a urgência entusiasmada da participação cívica.
Ao contrário deles, no entanto, vou exercer com relativa paz de espírito o direito conquistado pelos meus antepassados, pois parece-me perfeitamente claro que o apocalipse não está para breve. Aconteça o que acontecer, o Sporting não vai ser campeão europeu daqui a um ano, nem vai ser desmantelado daqui a seis meses. As opções neste acto eleitoral são as mesmas do costume: as coisas podem melhorar um bocadinho, ficar na mesma, piorar um bocadinho, ou (distinção crucial que analisaremos mais tarde em conjunto) piorar um bocado; no fundo, o que acontece em qualquer acto eleitoral em que não participem alemães.
Vou votar com dúvidas. Mas, como fui uma vez forçado a explicar à minha mãe, depois de ter respondido ingenuamente a uma pergunta que ela me fez com as palavras "Cavaco Silva", não me lembro de alguma vez ter votado de outra maneira. Voto sempre com suores frios, repleto de inseguranças, receoso de não ter digerido toda a informação relevante, suspeitando estar a votar por motivos aflitivamente superficiais, e mais ou menos incrédulo com o facto de a democracia continuar a sobreviver mesmo permitindo que paradigmas de adolescência política como eu participem no processo. Como tive a felicidade de não nascer na Alemanha, tem sempre corrido tudo bem, ou pelo menos de forma não-catastrófica, algo que eu considero imensamente satisfatório.
Se aceitarmos este conceito de “não-catástrofe” como um resultado aprazível, as eleições de amanhã ganham logo outro brilho, pois esse resultado está garantido. Depois, o que há a fazer é um cálculo mental neo-Rumsfeldiano de known unknowns, unknown unknowns, etc., e quantificar na medida do possível as qualidades, defeitos, áreas cinzentas e pontos de interrogação de cada uma das opções, partindo sempre da mesma base aritmética emocional: este gajo pode ser um atrasado mental, mas enfim.
Vamos portanto praticar Matemática, altura em que abro um pequeno precedente para começar por Abrantes Mendes. Não quero cometer a indelicadeza de negar ao Abrantes Mendes uma molécula da sua humanidade, mas enquanto este argumento se desenrola, os leitores mais atentos vão reparar que, na minha cabeça, o Abrantes Mendes não é um ser humano – com opiniões, idiossincrasias, sentimentos, etc. – mas sim uma idealização. Abrantes Mendes é o arquétipo do sportinguista que só existe na cabeça de benfiquistas, portistas, e sportinguistas com idade suficiente para terem partilhado uma charrete com o bisavô do Francisco Stromp. “Abrantes Mendes” está para “Sporting” como “Barbas” está para “Benfica”, “João Carlos Espada” está para “Direita” e “Marlboro Man” está para “Marlboro Man”. Curiosamente é a opção eleitoral mais previsível. No meio de quatro semi-enigmas, Abrantes Mendes é um horóscopo feito por profetas, um ecrã sintonizado para o futuro: o Sporting que ele representa, o Sporting que ele sente, o Sporting que ele pensa, o único Sporting que ele é capaz de conceber, é o Sporting “diferente”, o Sporting do realismo, o Sporting da integridade, o Sporting da derrota digna, o Sporting que é enxovalhado de cabeça erguida. Evidentemente, admiro muito a postura digna, coerente e romântica que Abrantes Mendes conseguiu manter durante a campanha, mas também detesto o Abrantes Mendes e já não aguento ver aquelas trombas dignas, coerentes e românticas à frente.
Passemos com celeridade a Pedro Baltazar. Este é simples: claramente menos parvo do que me pareceu no início, e até com algumas qualidades inesperadas, mas ainda assim, e com larga vantagem, o líder nas preferências dos humoristas nacionais e dos adeptos adversários em idade escolar. Pedro Baltazar é o presidente de clube rival com quem todos sonhamos no ciclo preparatório. Alguém que percebe menos de futebol do que o Pedro Mexia e o Rui Tavares juntos, sempre a duas sílabas da gaffe mais próxima e a três espasmos musculares de uma saída chanfrada, comportando-se genericamente como um cocktail blasfemo de Dan Quayle e Basil Fawlty. É o candidato excêntrico, seria uma terceira opção deprimente, mas, assim como assim, quero-o longe dali.
Dias Ferreira. Considero o voto em Dias Ferreira (uma assustadíssima segunda opção) o voto mais arriscado de todos, por um simples motivo: votar em Dias Ferreira é votar exclusivamente numa personalidade. Esse elemento estará presente em qualquer voto, mas neste caso é o único elemento, pois estaremos a votar numa personalidade que acha que o seu atributo mais recomendável é a sua personalidade. Dias Ferreira é o candidato que admite sem quaisquer problemas que o seu “projecto” está no interior da sua cabeça, é o candidato que confia em si próprio para chegar lá e “ver como é que é”, é o candidato cuja estratégia se esgota na crença nas suas respostas intuititvas e capacidade de improviso – e que exige de cada apoiante a mesma crença, pois não há rigorosamente mais nada. A personalidade de Dias Ferreira, não me inspirando confiança absoluta, também não me desagrada, mas há ali um factor crucial – há ali uma fraqueza – que não se ultrapassa: a lealdade. Como demonstrou em situações passadas – por exemplo, na intransigência psicótica com que defendeu Carlos Queirós para lá dos limites de Mohandas Gandhi – Dias Ferreira é leal às pessoas até à morte, ou até ao suicídio. Como aquele muçulmano a quem o Kevin Costner salva a vida no "Robin dos Bosques" e que depois o segue até Inglaterra, Dias Ferreira acha que qualquer pessoa que aceite um convite seu merece gratidão irrevogável para toda a eternidade. Isto é problemático quando se gere qualquer instituição, ainda mais quando se trata de uma instituição tão específica como um clube de futebol e ainda mais quando se trata de uma instituição tão especificamente específica como o Sporting, onde a qualquer momento pode ser imperativo despedir um amigo de trinta anos, ou humilhar publicamente um antigo camarada da tropa. Para Dias Ferreira, a lealdade humana sobrepõe-se sempre ao que é melhor para a instituição, e isso num clube de futebol pode ser desastroso. Calculo que nesta altura já todos os cidadãos portugueses (inclusivamente o Pacheco Pereira) tenham visto a “apresentação de projecto” de Paulo Futre, portanto limito-me a salientar que apesar de o Dias Ferreira ter convidado o Paulo Futre para um cargo directivo por incompetência ou irresponsabilidade, vai manter-se com ele até ao fim, não por casmurrice ou teimosia, mas por lealdade. Não tenho dúvidas de que se o Inácio fizesse uma figura daquelas, o Bruno de Carvalho seria gajo para olhar vinte jornalistas nos olhos e garantir que não só não tinha qualquer ligação com Augusto Inácio como nunca sequer o conhecera pessoalmente. (Tal como não me custa nada a crer que, caso Rijkaard terminasse o campeonato no 8º lugar não seria despedido, mas que se Van Basten ficasse em 2º, a um ponto do primeiro, o seu cadáver seria encontrado duas semanas depois a boiar no Mar da Palha).
Falemos portanto de Godinho Lopes (quem ainda não desistiu até agora tem a minha incrédula admiração). Se a narrativa de “Mudança-radical-para-correr-com-o-lixo-da-última-década vs. Mudança-sustentada-para-também-evitar-o-abismo-populista” colar, é de esperar que a eleição se decida por uma versão sportinguista do “fear vote”: vacilar durante um mês, para chegar às urnas e acabar por escolher o “candidato mais seguro”. Que nesta altura das festividades, os conceitos “Godinho Lopes” e “candidato mais seguro” ainda coexistam na mesma estrutura semântica é um tributo à exaustivamente sebosa campanha dirigida pelo labrego do Cunha Vaz, mas também o mitema desta eleição que mais me custa a aceitar. Estamos a falar de um candidato que predicou a sua estratégia em questionar os pormenores do método de financiamento do seu oponente mais forte, mas que, quatro debates e mil e seiscentas perguntas depois, continua a explicar os pormenores do seu método de financiamento com variações estilísticas sobre os conhecidos poemas “Eu Sou Credível” e “Eu Efectuei Contactos Junto de Instituições”; um candidato que em duas ocasiões diferentes deu a ideia de que a sustentabilidade do Sporting pode ser garantida através de casamentos, baptizados e bombas de gasolina; um candidato que convocou os papões de “Vale e Azevedo” e “fim do Sporting” para a narrativa eleitoral no mesmo dia em que garantiu a uma rádio “não querer falar dos adversários” e no mesma semana em que permitiu a membros da sua lista fazerem um bombardeamento de lama na imprensa de que o próprio Vale e Azevedo se orgulharia; um candidato que conseguiu dotar o conceito de “continuidade” com propriedades da física quântica – ele é da “continuidade” das coisas boas durante os quatro anos em que lá esteve, mas não da “continuidade” das coisas más (em que se incluem a derrapagem financeira na construção do Estádio e a milagrosa multiplicação do passivo, entre outras proezas “credíveis”).
Apesar dos indefectíveis da narrativa do “candidato credível” serem uns quantos, suponho que o principal (talvez o único) motivo pelo qual Godinho Lopes ainda tem hipóteses de ganhar isto se chama Luís Duque. Compreendo, e admito que é também o único motivo pelo qual não me vou suicidar na eventualidade de esta gente ganhar. Nunca seria capaz de votar numa lista que incluisse o Paulo Pereira Cristóvão e o Carlos Barbosa nem que me mostrassem contratos-promessa com o Xavi e o Iniesta assinados a sangue, mas o Luis Duque é uma ténue réstia de esperança naquela carroça de esterco eleitoral. Mas convém lembrar também que o Luis Duque que guiou um plantel barato e limitado ao fim do jejum, foi o mesmo que destruiu o mesmo plantel em dois meses, trazendo uma dúzia de internacionais a “custo zero”, mas com salários absurdos e idades que excluiam qualquer possibilidade de lucro futuro – doutrina que me parece estar a preparar-se para repetir – e o mesmo homem volátil que, como na sua primeira passagem pelo clube, pode demitir-se se um dia acordar mal-disposto.
Estou claramente a divagar e a perder o interesse no meu próprio argumento, portanto siga para Bruno de Carvalho, que em dois meses passou de “candidato simpático” a Adolf Hitler, e que ofereceu aos seus leais oponentes um “fundo” para contaminar qualquer hipótese de debate. Quem viu o debate de quarta-feira na Sport TV não terá perdido os quinze esclarecedores minutos em que Dias Ferreira tentou martelar a tecla do “direito de veto” dos investidores, enquanto abanava a cabeça e confessava que “só queria perceber bem como funcionava”, naquele estilo de quem diz “mas o que é então essa modernice do facebook?”. Um argumentozinho tão demagógico e absurdo que o próprio Bruno de Carvalho emudeceu, certamente ocupado a recapitular as alíneas do código penal que o impediam de degolar todos os cretinos presentes no estúdio, tendo demorado dois dias a reagir e a obrigar Dias Ferreira e Godinho Lopes a admitir que nos seus próprios “fundos” (eles agora também já usam a palavra, realçando no entanto que são “fundos diferentes”) também vão ter direito de veto dos investidores, a coisa menos problemática e confusa da história da humanidade para qualquer pessoa capaz de entender que alguém que investe num negócio cujo lucro depende de se contratar um bom jogador para um dia vender mais caro não vai vetar jogadores só por insondáveis caprichos russos.
Mas até eu fraquejo, como vêem, e venho parar ao fundo, como se investimento estrangeiro em clubes de futebol fosse uma coisa inventada anteontem, como se a ideia de "investidores russos" fosse radicalmente diferente de “investimento árabe” ou “investimento estrangeiro”, como se Bruno de Carvalho se esgotasse no raio do fundo, e não fosse – de longe, de muito longe – o candidato que mais informação deu sobre quem é e o que pretende.
Nem tudo nele me agrada: mas agrada-me aquela cara, agrada-me aquela voz, agrada-me aquela sugestão de violência contida, agrada-me aquele verdete de esperteza saloia que é um salutar contraponto à conice engomada dos últimos tempos, agrada-me a intuição (e não passa disso) de que está ali uma tremenda raridade: um fanático competente. Para já, isso chega. Isto não é um Messias; é um gajo cujos defeitos e áreas cinzentas não são mais preocupantes do que os dos outros, mas cujas qualidades são, não apenas mais promissoras, como também promissoras num sentido perpendicular ao passado recente.
Isto não vai ser um “Yes, we can”. Vai ser um “oh well, maybe, what the hell”, que é preferível a dois “mmm, not that shit again” e a dois “eh? wtf, I don't think so”.
Dito isto, é bom que votem na pessoa Bruno, porque se isto não corre como eu quero sou capaz de tranferir a minha nova energia participativa para os problemas do país, e imaginem bem o que seria este blogue nos próximos dois meses.
Ao contrário deles, no entanto, vou exercer com relativa paz de espírito o direito conquistado pelos meus antepassados, pois parece-me perfeitamente claro que o apocalipse não está para breve. Aconteça o que acontecer, o Sporting não vai ser campeão europeu daqui a um ano, nem vai ser desmantelado daqui a seis meses. As opções neste acto eleitoral são as mesmas do costume: as coisas podem melhorar um bocadinho, ficar na mesma, piorar um bocadinho, ou (distinção crucial que analisaremos mais tarde em conjunto) piorar um bocado; no fundo, o que acontece em qualquer acto eleitoral em que não participem alemães.
Vou votar com dúvidas. Mas, como fui uma vez forçado a explicar à minha mãe, depois de ter respondido ingenuamente a uma pergunta que ela me fez com as palavras "Cavaco Silva", não me lembro de alguma vez ter votado de outra maneira. Voto sempre com suores frios, repleto de inseguranças, receoso de não ter digerido toda a informação relevante, suspeitando estar a votar por motivos aflitivamente superficiais, e mais ou menos incrédulo com o facto de a democracia continuar a sobreviver mesmo permitindo que paradigmas de adolescência política como eu participem no processo. Como tive a felicidade de não nascer na Alemanha, tem sempre corrido tudo bem, ou pelo menos de forma não-catastrófica, algo que eu considero imensamente satisfatório.
Se aceitarmos este conceito de “não-catástrofe” como um resultado aprazível, as eleições de amanhã ganham logo outro brilho, pois esse resultado está garantido. Depois, o que há a fazer é um cálculo mental neo-Rumsfeldiano de known unknowns, unknown unknowns, etc., e quantificar na medida do possível as qualidades, defeitos, áreas cinzentas e pontos de interrogação de cada uma das opções, partindo sempre da mesma base aritmética emocional: este gajo pode ser um atrasado mental, mas enfim.
Vamos portanto praticar Matemática, altura em que abro um pequeno precedente para começar por Abrantes Mendes. Não quero cometer a indelicadeza de negar ao Abrantes Mendes uma molécula da sua humanidade, mas enquanto este argumento se desenrola, os leitores mais atentos vão reparar que, na minha cabeça, o Abrantes Mendes não é um ser humano – com opiniões, idiossincrasias, sentimentos, etc. – mas sim uma idealização. Abrantes Mendes é o arquétipo do sportinguista que só existe na cabeça de benfiquistas, portistas, e sportinguistas com idade suficiente para terem partilhado uma charrete com o bisavô do Francisco Stromp. “Abrantes Mendes” está para “Sporting” como “Barbas” está para “Benfica”, “João Carlos Espada” está para “Direita” e “Marlboro Man” está para “Marlboro Man”. Curiosamente é a opção eleitoral mais previsível. No meio de quatro semi-enigmas, Abrantes Mendes é um horóscopo feito por profetas, um ecrã sintonizado para o futuro: o Sporting que ele representa, o Sporting que ele sente, o Sporting que ele pensa, o único Sporting que ele é capaz de conceber, é o Sporting “diferente”, o Sporting do realismo, o Sporting da integridade, o Sporting da derrota digna, o Sporting que é enxovalhado de cabeça erguida. Evidentemente, admiro muito a postura digna, coerente e romântica que Abrantes Mendes conseguiu manter durante a campanha, mas também detesto o Abrantes Mendes e já não aguento ver aquelas trombas dignas, coerentes e românticas à frente.
Passemos com celeridade a Pedro Baltazar. Este é simples: claramente menos parvo do que me pareceu no início, e até com algumas qualidades inesperadas, mas ainda assim, e com larga vantagem, o líder nas preferências dos humoristas nacionais e dos adeptos adversários em idade escolar. Pedro Baltazar é o presidente de clube rival com quem todos sonhamos no ciclo preparatório. Alguém que percebe menos de futebol do que o Pedro Mexia e o Rui Tavares juntos, sempre a duas sílabas da gaffe mais próxima e a três espasmos musculares de uma saída chanfrada, comportando-se genericamente como um cocktail blasfemo de Dan Quayle e Basil Fawlty. É o candidato excêntrico, seria uma terceira opção deprimente, mas, assim como assim, quero-o longe dali.
Dias Ferreira. Considero o voto em Dias Ferreira (uma assustadíssima segunda opção) o voto mais arriscado de todos, por um simples motivo: votar em Dias Ferreira é votar exclusivamente numa personalidade. Esse elemento estará presente em qualquer voto, mas neste caso é o único elemento, pois estaremos a votar numa personalidade que acha que o seu atributo mais recomendável é a sua personalidade. Dias Ferreira é o candidato que admite sem quaisquer problemas que o seu “projecto” está no interior da sua cabeça, é o candidato que confia em si próprio para chegar lá e “ver como é que é”, é o candidato cuja estratégia se esgota na crença nas suas respostas intuititvas e capacidade de improviso – e que exige de cada apoiante a mesma crença, pois não há rigorosamente mais nada. A personalidade de Dias Ferreira, não me inspirando confiança absoluta, também não me desagrada, mas há ali um factor crucial – há ali uma fraqueza – que não se ultrapassa: a lealdade. Como demonstrou em situações passadas – por exemplo, na intransigência psicótica com que defendeu Carlos Queirós para lá dos limites de Mohandas Gandhi – Dias Ferreira é leal às pessoas até à morte, ou até ao suicídio. Como aquele muçulmano a quem o Kevin Costner salva a vida no "Robin dos Bosques" e que depois o segue até Inglaterra, Dias Ferreira acha que qualquer pessoa que aceite um convite seu merece gratidão irrevogável para toda a eternidade. Isto é problemático quando se gere qualquer instituição, ainda mais quando se trata de uma instituição tão específica como um clube de futebol e ainda mais quando se trata de uma instituição tão especificamente específica como o Sporting, onde a qualquer momento pode ser imperativo despedir um amigo de trinta anos, ou humilhar publicamente um antigo camarada da tropa. Para Dias Ferreira, a lealdade humana sobrepõe-se sempre ao que é melhor para a instituição, e isso num clube de futebol pode ser desastroso. Calculo que nesta altura já todos os cidadãos portugueses (inclusivamente o Pacheco Pereira) tenham visto a “apresentação de projecto” de Paulo Futre, portanto limito-me a salientar que apesar de o Dias Ferreira ter convidado o Paulo Futre para um cargo directivo por incompetência ou irresponsabilidade, vai manter-se com ele até ao fim, não por casmurrice ou teimosia, mas por lealdade. Não tenho dúvidas de que se o Inácio fizesse uma figura daquelas, o Bruno de Carvalho seria gajo para olhar vinte jornalistas nos olhos e garantir que não só não tinha qualquer ligação com Augusto Inácio como nunca sequer o conhecera pessoalmente. (Tal como não me custa nada a crer que, caso Rijkaard terminasse o campeonato no 8º lugar não seria despedido, mas que se Van Basten ficasse em 2º, a um ponto do primeiro, o seu cadáver seria encontrado duas semanas depois a boiar no Mar da Palha).
Falemos portanto de Godinho Lopes (quem ainda não desistiu até agora tem a minha incrédula admiração). Se a narrativa de “Mudança-radical-para-correr-com-o-lixo-da-última-década vs. Mudança-sustentada-para-também-evitar-o-abismo-populista” colar, é de esperar que a eleição se decida por uma versão sportinguista do “fear vote”: vacilar durante um mês, para chegar às urnas e acabar por escolher o “candidato mais seguro”. Que nesta altura das festividades, os conceitos “Godinho Lopes” e “candidato mais seguro” ainda coexistam na mesma estrutura semântica é um tributo à exaustivamente sebosa campanha dirigida pelo labrego do Cunha Vaz, mas também o mitema desta eleição que mais me custa a aceitar. Estamos a falar de um candidato que predicou a sua estratégia em questionar os pormenores do método de financiamento do seu oponente mais forte, mas que, quatro debates e mil e seiscentas perguntas depois, continua a explicar os pormenores do seu método de financiamento com variações estilísticas sobre os conhecidos poemas “Eu Sou Credível” e “Eu Efectuei Contactos Junto de Instituições”; um candidato que em duas ocasiões diferentes deu a ideia de que a sustentabilidade do Sporting pode ser garantida através de casamentos, baptizados e bombas de gasolina; um candidato que convocou os papões de “Vale e Azevedo” e “fim do Sporting” para a narrativa eleitoral no mesmo dia em que garantiu a uma rádio “não querer falar dos adversários” e no mesma semana em que permitiu a membros da sua lista fazerem um bombardeamento de lama na imprensa de que o próprio Vale e Azevedo se orgulharia; um candidato que conseguiu dotar o conceito de “continuidade” com propriedades da física quântica – ele é da “continuidade” das coisas boas durante os quatro anos em que lá esteve, mas não da “continuidade” das coisas más (em que se incluem a derrapagem financeira na construção do Estádio e a milagrosa multiplicação do passivo, entre outras proezas “credíveis”).
Apesar dos indefectíveis da narrativa do “candidato credível” serem uns quantos, suponho que o principal (talvez o único) motivo pelo qual Godinho Lopes ainda tem hipóteses de ganhar isto se chama Luís Duque. Compreendo, e admito que é também o único motivo pelo qual não me vou suicidar na eventualidade de esta gente ganhar. Nunca seria capaz de votar numa lista que incluisse o Paulo Pereira Cristóvão e o Carlos Barbosa nem que me mostrassem contratos-promessa com o Xavi e o Iniesta assinados a sangue, mas o Luis Duque é uma ténue réstia de esperança naquela carroça de esterco eleitoral. Mas convém lembrar também que o Luis Duque que guiou um plantel barato e limitado ao fim do jejum, foi o mesmo que destruiu o mesmo plantel em dois meses, trazendo uma dúzia de internacionais a “custo zero”, mas com salários absurdos e idades que excluiam qualquer possibilidade de lucro futuro – doutrina que me parece estar a preparar-se para repetir – e o mesmo homem volátil que, como na sua primeira passagem pelo clube, pode demitir-se se um dia acordar mal-disposto.
Estou claramente a divagar e a perder o interesse no meu próprio argumento, portanto siga para Bruno de Carvalho, que em dois meses passou de “candidato simpático” a Adolf Hitler, e que ofereceu aos seus leais oponentes um “fundo” para contaminar qualquer hipótese de debate. Quem viu o debate de quarta-feira na Sport TV não terá perdido os quinze esclarecedores minutos em que Dias Ferreira tentou martelar a tecla do “direito de veto” dos investidores, enquanto abanava a cabeça e confessava que “só queria perceber bem como funcionava”, naquele estilo de quem diz “mas o que é então essa modernice do facebook?”. Um argumentozinho tão demagógico e absurdo que o próprio Bruno de Carvalho emudeceu, certamente ocupado a recapitular as alíneas do código penal que o impediam de degolar todos os cretinos presentes no estúdio, tendo demorado dois dias a reagir e a obrigar Dias Ferreira e Godinho Lopes a admitir que nos seus próprios “fundos” (eles agora também já usam a palavra, realçando no entanto que são “fundos diferentes”) também vão ter direito de veto dos investidores, a coisa menos problemática e confusa da história da humanidade para qualquer pessoa capaz de entender que alguém que investe num negócio cujo lucro depende de se contratar um bom jogador para um dia vender mais caro não vai vetar jogadores só por insondáveis caprichos russos.
Mas até eu fraquejo, como vêem, e venho parar ao fundo, como se investimento estrangeiro em clubes de futebol fosse uma coisa inventada anteontem, como se a ideia de "investidores russos" fosse radicalmente diferente de “investimento árabe” ou “investimento estrangeiro”, como se Bruno de Carvalho se esgotasse no raio do fundo, e não fosse – de longe, de muito longe – o candidato que mais informação deu sobre quem é e o que pretende.
Nem tudo nele me agrada: mas agrada-me aquela cara, agrada-me aquela voz, agrada-me aquela sugestão de violência contida, agrada-me aquele verdete de esperteza saloia que é um salutar contraponto à conice engomada dos últimos tempos, agrada-me a intuição (e não passa disso) de que está ali uma tremenda raridade: um fanático competente. Para já, isso chega. Isto não é um Messias; é um gajo cujos defeitos e áreas cinzentas não são mais preocupantes do que os dos outros, mas cujas qualidades são, não apenas mais promissoras, como também promissoras num sentido perpendicular ao passado recente.
Isto não vai ser um “Yes, we can”. Vai ser um “oh well, maybe, what the hell”, que é preferível a dois “mmm, not that shit again” e a dois “eh? wtf, I don't think so”.
Dito isto, é bom que votem na pessoa Bruno, porque se isto não corre como eu quero sou capaz de tranferir a minha nova energia participativa para os problemas do país, e imaginem bem o que seria este blogue nos próximos dois meses.
quinta-feira, março 17, 2011
Só faltam nove dias para isto acabar e voltarmos a ler livros
Comentário de um arquétipo ao post anterior:
«Anónimo disse...
Óbvio, entre isto e os russos que metem aqui 50 milhões por amor Sporting, venha o diabo e escolha.
Por amor de deus, tu queres o Inácio a director? Mais o Virgílio?
Eu percebo que gostem de ouvir o rapaz, que o rapaz anime o espírito num debate face ao iPdad do Godinho e o Ba ba baltazar. Mas russos? Com 50 milhões? Só porque sim? E não podem vir cá os russos a Lisboa se isto tanto lhes interessa? É preciso o Bruno ir a Moscovo? E a CMVC come o fundo sem chatices?
Mais o Inácio e o Virgílio na estrutura directiva? Não se arranja mais ninguém? Mais os gritos histéricos de defesa do Eduardo Barroso?
Isto tem pouco de Obama, pá.»
Isto é útil. Vamos respirar fundo e dialogar.
Antes de mais, e começando pelo fim, eu nunca participei em duas eleições pelos mesmos motivos. Umas eleições servem para eleger alguém espectacular, outras para eleger alguém adequado, outras para derrotar as Forças de Satanás, outras para impedir a vitória de um candidato deprimente, bastando para isso votar em alguém que seja um bocadinho menos deprimente. Não se vota só para eleger o Obama. Nem os meus quatro votos nestas eleições servem só para eleger o Bruno de Carvalho e "querer" o Inácio e o Virgílio na estrutura directiva; servem igualmente para não eleger os outros, e para "não querer" o Futre, o Zico, o Paulo Pereira Cristóvão, o Carlos Barbosa - e o Cunha e Vaz, que tem coordenado a campanha de Godinho Lopes com esta eloquência. Especialmente os últimos três, eu não os quero associados ao Sporting nem besuntados em maionese. Mas vamos às objecções.
«Mas russos? Com 50 milhões? Só porque sim?»
Um clube na situação do Sporting tem três maneiras de arranjar dinheiro para financiar uma equipa de futebol: ou consegue mais crédito da banca, agravando o passivo; ou vende 3 ou 4 activos por valores que lhe permitam reinvestir em 8 ou 9, com lucro financeiro e ganhos qualitativos; ou encontra investidores externos dispostos a fazer o que, nesta altura, não deixa de ser um investimento de risco. Activos valiosos não temos nem um, portanto sobram duas alternativas. Vejamos então como os três candidatos à presidência do Sporting propõem resolver o problema (digo três candidatos, porque o Abrantes Mendes é o Garcia Pereira, e porque, apesar de admitir a forte hipótese de o Pedro Baltazar não ser tão pateta como parece - ninguém pode ser tão pateta como ele parece - também acho que não deve andar muito longe):
Godinho Lopes - Disse que o Sporting precisa de 100 milhões a curto prazo, incluindo 40 para reforçar a equipa já no Verão. Garantiu também já ter esses 100 milhões. Explicou como? Não. Mas como nunca disse em voz alta a palavra "russos", está tudo bem, e não vale a pena ter dúvidas sobre a palavra de alguém com tanta credibilidade.
Dias Ferreira - Começou por dizer que o Sporting "terá um orçamento", que será feito por ele, ou por outras pessoas, não há crise, a malta desenrasca-se. Agora já veio dizer publicamente que a única solução realista passa por "investimento estrangeiro". Há algum problema com isto? Evidentemente que não, pois a palavra "russos" nunca foi utilizada, e os investidores estrangeiros talvez sejam do Canadá ou das Ilhas Vanuatu.
Bruno de Carvalho - Anunciou muito cedo um fundo fechado de 50 milhões de euros para investir no futebol. Admitiu que palmou a ideia ao Braz da Silva, porque a ideia não só tem sido usada com sucesso por outros clubes, como é a única forma de financiar aquisições sem recorrer ao BES ou a um mecenas qualquer. Não inventou a pólvora. Estamos a falar de um método de financiamento semelhante (embora com algumas diferenças) ao que permitiu ao Benfica ter o Ramires durante 2 anos. É verdade que envolve russos, ao contrário do Benfica Stars Fund, que envolve iranianos e angolanos. Aqui compreendo a perturbação de muitas pessoas, pois como se sabe o Rasputine era russo, tal como o Lenine, o Beria, o Yuran, o Kulkov, o inventor do morteiro, e aquele soldado psicótico do Guerra e Paz que embriagava ursos em casa.
Isto não é solidariedade entre nações irmãs, nem é uma obra de caridade. É um investimento que, como qualquer investimento, implica perdas se correr mal e ganhos se correr bem. O sucesso do mesmo depende das mesmas variáveis de outros acordos semelhantes: os jogadores adquiridos terão de ser bons, e pelo menos alguns deles terão de ser revendidos por verbas superiores. É só isto.
«E não podem vir cá os russos a Lisboa se isto tanto lhes interessa? É preciso o Bruno ir a Moscovo?»
Outro mistério terrível. O Bruno de Carvalho prometeu com muita antecedência que ia apresentar os investidores no dia 16 de Março. Acontece que os investidores só teriam disponibilidade para estarem todos em Lisboa no dia 21. Não querendo falhar uma promessa, o Bruno de Carvalho decidiu ir a Moscovo para os apresentar no dia anunciado. Porquê? Epá, porque pode, tendo um passaporte. Ter um passaporte é muito útil nos dias que correm. O director-desportivo da lista do Godinho Lopes, por exemplo, não podia ter ido a Moscovo, pois está com termo de identidade e residência.
«E a CMVC come o fundo sem chatices?»
Presumo que a CMVC seja a Câmara Municipal de Vale de Cambra, mas não percebo o papel da mesma nesta questão. É possível que estejamos a falar da Comissão do Mercado de Valores Imobiliários, mas, ao contrário do que a excelente e ultra-competente imprensa desportiva tem dado a entender, esta também não tem qualquer relevância para isto. Descobriu-se agora que os "fundos" demoram 6 meses a ser mastigados, digeridos e aprovados pela CMVM, e o facto de o fundo conter essa tóxica substância pelo nome de "russos" talvez alargue o prazo para anos e anos.
Meia hora no google e no site da CMVM é suficiente para perceber que nada disto é relevante. Oregime jurídico de facto fala nos prazos citados pelo Record, mas os mesmos referem-se a "organismos de investimento colectivo", que são fundos de investimento abertos a subscrição pública por investidores indeterminados, que se dirijam a pelo menos 100 investidores, e precedidos por actividades de prospecção e promoção. Acho que o Benfica Stars Fund funciona nesses moldes, mas o "fundo" apresentado pelo Bruno de Carvalho não partilha nenhuma destas características. A recolha de capitais não se fez por subscrição pública. É um fundo "fechado", só com três investidores, não estando por isso sujeito ao mesmo regulamento, nem precisando de autorização prévia da CMVM ou da Câmara Municipal de Vale de Cambra.
«Anónimo disse...
Óbvio, entre isto e os russos que metem aqui 50 milhões por amor Sporting, venha o diabo e escolha.
Por amor de deus, tu queres o Inácio a director? Mais o Virgílio?
Eu percebo que gostem de ouvir o rapaz, que o rapaz anime o espírito num debate face ao iPdad do Godinho e o Ba ba baltazar. Mas russos? Com 50 milhões? Só porque sim? E não podem vir cá os russos a Lisboa se isto tanto lhes interessa? É preciso o Bruno ir a Moscovo? E a CMVC come o fundo sem chatices?
Mais o Inácio e o Virgílio na estrutura directiva? Não se arranja mais ninguém? Mais os gritos histéricos de defesa do Eduardo Barroso?
Isto tem pouco de Obama, pá.»
Isto é útil. Vamos respirar fundo e dialogar.
Antes de mais, e começando pelo fim, eu nunca participei em duas eleições pelos mesmos motivos. Umas eleições servem para eleger alguém espectacular, outras para eleger alguém adequado, outras para derrotar as Forças de Satanás, outras para impedir a vitória de um candidato deprimente, bastando para isso votar em alguém que seja um bocadinho menos deprimente. Não se vota só para eleger o Obama. Nem os meus quatro votos nestas eleições servem só para eleger o Bruno de Carvalho e "querer" o Inácio e o Virgílio na estrutura directiva; servem igualmente para não eleger os outros, e para "não querer" o Futre, o Zico, o Paulo Pereira Cristóvão, o Carlos Barbosa - e o Cunha e Vaz, que tem coordenado a campanha de Godinho Lopes com esta eloquência. Especialmente os últimos três, eu não os quero associados ao Sporting nem besuntados em maionese. Mas vamos às objecções.
«Mas russos? Com 50 milhões? Só porque sim?»
Um clube na situação do Sporting tem três maneiras de arranjar dinheiro para financiar uma equipa de futebol: ou consegue mais crédito da banca, agravando o passivo; ou vende 3 ou 4 activos por valores que lhe permitam reinvestir em 8 ou 9, com lucro financeiro e ganhos qualitativos; ou encontra investidores externos dispostos a fazer o que, nesta altura, não deixa de ser um investimento de risco. Activos valiosos não temos nem um, portanto sobram duas alternativas. Vejamos então como os três candidatos à presidência do Sporting propõem resolver o problema (digo três candidatos, porque o Abrantes Mendes é o Garcia Pereira, e porque, apesar de admitir a forte hipótese de o Pedro Baltazar não ser tão pateta como parece - ninguém pode ser tão pateta como ele parece - também acho que não deve andar muito longe):
Godinho Lopes - Disse que o Sporting precisa de 100 milhões a curto prazo, incluindo 40 para reforçar a equipa já no Verão. Garantiu também já ter esses 100 milhões. Explicou como? Não. Mas como nunca disse em voz alta a palavra "russos", está tudo bem, e não vale a pena ter dúvidas sobre a palavra de alguém com tanta credibilidade.
Dias Ferreira - Começou por dizer que o Sporting "terá um orçamento", que será feito por ele, ou por outras pessoas, não há crise, a malta desenrasca-se. Agora já veio dizer publicamente que a única solução realista passa por "investimento estrangeiro". Há algum problema com isto? Evidentemente que não, pois a palavra "russos" nunca foi utilizada, e os investidores estrangeiros talvez sejam do Canadá ou das Ilhas Vanuatu.
Bruno de Carvalho - Anunciou muito cedo um fundo fechado de 50 milhões de euros para investir no futebol. Admitiu que palmou a ideia ao Braz da Silva, porque a ideia não só tem sido usada com sucesso por outros clubes, como é a única forma de financiar aquisições sem recorrer ao BES ou a um mecenas qualquer. Não inventou a pólvora. Estamos a falar de um método de financiamento semelhante (embora com algumas diferenças) ao que permitiu ao Benfica ter o Ramires durante 2 anos. É verdade que envolve russos, ao contrário do Benfica Stars Fund, que envolve iranianos e angolanos. Aqui compreendo a perturbação de muitas pessoas, pois como se sabe o Rasputine era russo, tal como o Lenine, o Beria, o Yuran, o Kulkov, o inventor do morteiro, e aquele soldado psicótico do Guerra e Paz que embriagava ursos em casa.
Isto não é solidariedade entre nações irmãs, nem é uma obra de caridade. É um investimento que, como qualquer investimento, implica perdas se correr mal e ganhos se correr bem. O sucesso do mesmo depende das mesmas variáveis de outros acordos semelhantes: os jogadores adquiridos terão de ser bons, e pelo menos alguns deles terão de ser revendidos por verbas superiores. É só isto.
«E não podem vir cá os russos a Lisboa se isto tanto lhes interessa? É preciso o Bruno ir a Moscovo?»
Outro mistério terrível. O Bruno de Carvalho prometeu com muita antecedência que ia apresentar os investidores no dia 16 de Março. Acontece que os investidores só teriam disponibilidade para estarem todos em Lisboa no dia 21. Não querendo falhar uma promessa, o Bruno de Carvalho decidiu ir a Moscovo para os apresentar no dia anunciado. Porquê? Epá, porque pode, tendo um passaporte. Ter um passaporte é muito útil nos dias que correm. O director-desportivo da lista do Godinho Lopes, por exemplo, não podia ter ido a Moscovo, pois está com termo de identidade e residência.
«E a CMVC come o fundo sem chatices?»
Presumo que a CMVC seja a Câmara Municipal de Vale de Cambra, mas não percebo o papel da mesma nesta questão. É possível que estejamos a falar da Comissão do Mercado de Valores Imobiliários, mas, ao contrário do que a excelente e ultra-competente imprensa desportiva tem dado a entender, esta também não tem qualquer relevância para isto. Descobriu-se agora que os "fundos" demoram 6 meses a ser mastigados, digeridos e aprovados pela CMVM, e o facto de o fundo conter essa tóxica substância pelo nome de "russos" talvez alargue o prazo para anos e anos.
Meia hora no google e no site da CMVM é suficiente para perceber que nada disto é relevante. O
Admito que se tenham dúvidas sobre isto; eu próprio talvez tivesse mais dúvidas, não fosse a blindagem fornecida pela minha iliteracia económica. Mas no que diz respeito a métodos de financiamento, a candidatura do Bruno de Carvalho é a única sobre a qual é possível ter dúvidas, por ser a única que até agora deu pormenores concretos. Sobre as outras não há nada. Temos uma pessoa a falar em termos vagos em "investimento estrangeiro"; outra a falar em termos ainda mais vagos em 100 milhões de euros, sobre os quais se limita a explicar que "tem as condições necessárias para obter esse montante através da apresentação de um projecto credível"; e temos o Bruno de Carvalho que explicou quanto, como, de quem, e para quê. Mas ele é que é o problema, ele é que é um embuste e um aventureiro perigoso. Não percebo, juro que não percebo, mas estou aqui até dia 26, disponível para ser esclarecido.
terça-feira, março 15, 2011
É um suspiro que será dado por mim. Hei-de saber arranjar um esquema para suspirar.
«Que dinheiro teria disponível para contratação de jogadores para a próxima época?
Não sei, mas não estou muito preocupado. É um orçamento que será feito por mim. Hei-de saber arranjar um esquema para saber montar... e se não souber, saberão outras pessoas por mim. Há esquemas de engenharia financeira para montar uma equipa competitiva.»
(Dias Ferreira, entrevista ao SOL, 11/03/2011)
Não sei, mas não estou muito preocupado. É um orçamento que será feito por mim. Hei-de saber arranjar um esquema para saber montar... e se não souber, saberão outras pessoas por mim. Há esquemas de engenharia financeira para montar uma equipa competitiva.»
(Dias Ferreira, entrevista ao SOL, 11/03/2011)
Vales e Azevedos
«Bruno de Carvalho não tem passado no Sporting - parece que tem uma secção de hóquei em patins, contra a qual nada tenho. O que está em causa é que a sua ligação a um projecto de sucesso no Sporting não existe, e, além disso, na sua vida particular deixa muito a desejar. Acho inacreditável aparecerem Vales e Azevedos de terceira categoria, que não têm nível sequer para serem Vales e Azevedos.»
(Godinho Lopes, O Jogo, 11/03/2011)
«Onze anos depois, um dos processos mais longos da justiça portuguesa chega ao fim com a absolvição dos quatro arguidos. O tribunal não encontrou prova suficiente para condenar pelo crime de corrupção os responsáveis pelo fretamento de três navios-hotel na Expo-98.
(...)
O colectivo da 5ª Vara Criminal de Lisboa concluiu que não foi feita prova, mas não deixou de vincar que as dúvidas subsistiram, nomeadamente em relação à conduta de Godinho Lopes e Januário Rodrigues. No entanto, como salientou a juíza Cristina Cerdeira, em caso de dúvida a decisão "abona sempre o réu".
(...)
O tribunal entendeu que não foi reunida prova suficiente para condenar os dois arguidos, mas a juíza asseverou que também neste caso ficou com dúvidas, por exemplo no que concerne a uma alegada transferência de um milhão de euros que Godinho Lopes terá realizado: "Não ficou provado que tal dinheiro fosse para pagar qualquer comissão. Ficaram algumas pontas soltas".»
(JN, 31/07/2010)
(Godinho Lopes, O Jogo, 11/03/2011)
«Onze anos depois, um dos processos mais longos da justiça portuguesa chega ao fim com a absolvição dos quatro arguidos. O tribunal não encontrou prova suficiente para condenar pelo crime de corrupção os responsáveis pelo fretamento de três navios-hotel na Expo-98.
(...)
O colectivo da 5ª Vara Criminal de Lisboa concluiu que não foi feita prova, mas não deixou de vincar que as dúvidas subsistiram, nomeadamente em relação à conduta de Godinho Lopes e Januário Rodrigues. No entanto, como salientou a juíza Cristina Cerdeira, em caso de dúvida a decisão "abona sempre o réu".
(...)
O tribunal entendeu que não foi reunida prova suficiente para condenar os dois arguidos, mas a juíza asseverou que também neste caso ficou com dúvidas, por exemplo no que concerne a uma alegada transferência de um milhão de euros que Godinho Lopes terá realizado: "Não ficou provado que tal dinheiro fosse para pagar qualquer comissão. Ficaram algumas pontas soltas".»
(JN, 31/07/2010)
sexta-feira, março 11, 2011
sexta-feira, fevereiro 25, 2011
quarta-feira, fevereiro 23, 2011
Se eu me matar no dia 26 de Março, prometo deixar-vos um youtube de despedida
Diário de Notícias: «Quique e Paulo Sousa na lista de Futre para os leões»
A Bola: «Ângelo Correia é trunfo de Godinho Lopes»
A Bola: «Ângelo Correia é trunfo de Godinho Lopes»
terça-feira, fevereiro 22, 2011
Sporting: it's not you, it's me
Como sabereis, a Sport TV transmitiu na noite passada um repousado treino de conjunto a que o Benfica se submeteu em Alvalade com o intuito de descontrair os jogadores para a Liga Europa e ensaiar em simultâneo situações técnico-tácticas específicas, precavendo a eventualidade de o Estugarda se apresentar ao jogo de quinta-feira com um onze inicial formado por elementos do seu escalão de Juvenis Paraolímpicos. Sabereis também que, no vasto mundo lá fora, Mubarak se demitiu antes de Paulo Sérgio, embora do ponto de vista humanitário os pretextos para as respectivas demissões sejam equivalentes.
Pergunto-me, no entanto, se sabereis da epifania que eu experimentei há duas semanas, no lugar 22F da Bancada CGD (topo) do Estádio Alvalade XXI, por ocasião daquilo que a imprensa descreveu falaciosamente como um "jogo de futebol" contra a Naval. A batofóbica localização permitiu-me pela primeira vez em muitos anos perceber, não apenas o "sistema táctico" do Sporting (nessa noite, um ousadíssimo 4-0-3), mas o seu ainda mais importante "modelo de jogo", algo que nunca esteve perto de me acontecer, por exemplo, na última época de Paulo Bento. A determinada altura na primeira parte, e pela sexta vez em quinze minutos (muito para lá do acidente estatístico) notei quatro jogadores do Sporting - os três avançados e um dos médios - alinhados a régua e esquadro com o quarteto defensivo da Naval, completamente estáticos se não considerarmos "movimento" uma sucessão pinabauschiana de espasmos nas omoplatas em flirt sincronizado com a bandeira do árbitro auxiliar, enquanto um improvisado quarterback geriátrico (Polga ou Pedro Mendes) esperava o momento certo para torpedear a linha de fundo com isco para os galgos. A sexta tentativa de executar esta jogada-padrão fracassou como as cinco anteriores, mas o mais impressionante não foi isso; o mais impressionante não foi sequer a compreensão de que aquilo eram jogadas planeadas, que havia ali trabalho; o mais impressionante foi reparar que essas seis jogadas não teriam resultado em ocasiões de golo mesmo que nenhum jogador adversário estivesse em campo. (E estavam, como se veio a provar). O que aconteceu ao futebol do Sporting esta época configura uma situação sem precedentes na história da modalidade: implementou-se um conjunto de processos de jogo que já seriam potenciais fósseis teóricos na terceira divisão inglesa, que não têm qualquer utilidade prática, e que ainda assim continuam a ser repetidos - e isto é que é verdadeiramente revolucionário - com evidente decréscimo de qualidade de jogo para jogo. É a coisa mais feia do mundo.
O que nos transporta para a situação do Grimi, um problema pelo qual eu só não sou responsável porque nunca tive responsabilidades, mas cuja génese aplaudi que nem um maluquinho. O Grimi, resumidamente, além de ser o pior jogador de futebol alguma vez nascido em território sul-americano, é um activo da SAD que custou mais ao Sporting do que o Maxi Pereira, o Fábio Coentrão e o Fucile juntos custaram a Benfica e Porto. Mas no Verão de 2008, eu estava plenamente convencido de que o Grimi era um bom investimento, e que o problema da lateral-esquerda estaria resolvido pelo menos durante meia década. (Estou a falar-vos das profundezas da mesma cabeça que acreditou, até cinco minutos antes de começar o Mundial, que o Coentrão era o ponto fraco da selecção portuguesa; percebo tanto de "esquerdas" como a Helena Matos). Se um adepto moral e intelectualmente infalível como eu é capaz de semelhante jackpot de opiniões catastróficas, o que esperar de pessoas normais, ou mesmo de dirigentes do Sporting?
O Grimi, vocês estão a ver bem o que é o Grimi? Ontem, perto dos 5 ou 6 minutos de jogo, o Sálvio aplicou ao Grimi duas brutais fintas curtas e deixou-o para trás com um arranque ciclónico. Na repetição do lance, reparei que não fora o Sálvio, mas sim o Maxi Pereira. Isto não deixa de ser um elogio ao Maxi Pereira, mas chamo a vossa atenção para um pormenor mais importante, que é o de o Grimi ser alguém que quando é fintado pelo Maxi Pereira faz o Maxi Pereira parecer o Sálvio. Esta conclusão foi reforçada na jogada seguinte quando o Grimi foi de facto fintado pelo Sálvio e fez o Sálvio parecer o Overmars, o que sugere uma décalage óptica progressiva, e potencialmente infinita, entre a realidade real e a lânguida realidade alternativa na qual Grimi funciona como uma espécie de prisma e acelerador cósmico. E funciona para os dois lados: suponho que a única maneira de me parecer que o Grimi acabou de ser fintado pelo Maxi Pereira é o Grimi ser fintado pelo Urbano Tavares Rodrigues.
Este lamentável estado de coisas não foi suavizado pelo árbitro, que, numa desavergonhada repetição daquela farsa no jogo com o Porto, conseguiu sabotar toda a organização ofensiva do Sporting expulsando um central adversário. Não quero com isto arranjar desculpas: apesar de ser mais fácil anular o Sporting jogando com dez, admito que mesmo sem a habilidosa expulsão do Sidnei o resultado seria igual.
Este pode muito bem ser o plantel mais fraco da história recente do Sporting, mas a falta de qualidade tem sido potenciada com rigor soviético por um modelo de jogo - e nesta altura não me resta dúvidas de que é mesmo um modelo intencional, com dedo do treinador - baseado em longas parábolas para desmarcações espectrais de um avançado que além de não ter arranque ou pique curto, encara a armadilha do fora-de-jogo como uma tecnologia misteriosa proveniente de uma civilização superior: como se não houvesse nada a fazer. E ao contrário dos macacos do Kubrick, aquilo é gente que não se prestará a nenhum salto evolutivo por mero contacto com artefactos alienígenas. Nenhuma das bolas primitivas arremessadas pelo Polga na direcção geral da área adversária corre o risco de se transformar numa nave espacial em plena trajectória. O máximo que podemos esperar é que se transforme em osso e se espatife nos cornos do Postiga. Muito embora, se bem conheço este clube, o mais provável é que lhe passe a "escassos centímetros" do crânio. Entretanto vai-me doendo tudo cá dentro, e acho melhor darmos um tempo.
Pergunto-me, no entanto, se sabereis da epifania que eu experimentei há duas semanas, no lugar 22F da Bancada CGD (topo) do Estádio Alvalade XXI, por ocasião daquilo que a imprensa descreveu falaciosamente como um "jogo de futebol" contra a Naval. A batofóbica localização permitiu-me pela primeira vez em muitos anos perceber, não apenas o "sistema táctico" do Sporting (nessa noite, um ousadíssimo 4-0-3), mas o seu ainda mais importante "modelo de jogo", algo que nunca esteve perto de me acontecer, por exemplo, na última época de Paulo Bento. A determinada altura na primeira parte, e pela sexta vez em quinze minutos (muito para lá do acidente estatístico) notei quatro jogadores do Sporting - os três avançados e um dos médios - alinhados a régua e esquadro com o quarteto defensivo da Naval, completamente estáticos se não considerarmos "movimento" uma sucessão pinabauschiana de espasmos nas omoplatas em flirt sincronizado com a bandeira do árbitro auxiliar, enquanto um improvisado quarterback geriátrico (Polga ou Pedro Mendes) esperava o momento certo para torpedear a linha de fundo com isco para os galgos. A sexta tentativa de executar esta jogada-padrão fracassou como as cinco anteriores, mas o mais impressionante não foi isso; o mais impressionante não foi sequer a compreensão de que aquilo eram jogadas planeadas, que havia ali trabalho; o mais impressionante foi reparar que essas seis jogadas não teriam resultado em ocasiões de golo mesmo que nenhum jogador adversário estivesse em campo. (E estavam, como se veio a provar). O que aconteceu ao futebol do Sporting esta época configura uma situação sem precedentes na história da modalidade: implementou-se um conjunto de processos de jogo que já seriam potenciais fósseis teóricos na terceira divisão inglesa, que não têm qualquer utilidade prática, e que ainda assim continuam a ser repetidos - e isto é que é verdadeiramente revolucionário - com evidente decréscimo de qualidade de jogo para jogo. É a coisa mais feia do mundo.
O que nos transporta para a situação do Grimi, um problema pelo qual eu só não sou responsável porque nunca tive responsabilidades, mas cuja génese aplaudi que nem um maluquinho. O Grimi, resumidamente, além de ser o pior jogador de futebol alguma vez nascido em território sul-americano, é um activo da SAD que custou mais ao Sporting do que o Maxi Pereira, o Fábio Coentrão e o Fucile juntos custaram a Benfica e Porto. Mas no Verão de 2008, eu estava plenamente convencido de que o Grimi era um bom investimento, e que o problema da lateral-esquerda estaria resolvido pelo menos durante meia década. (Estou a falar-vos das profundezas da mesma cabeça que acreditou, até cinco minutos antes de começar o Mundial, que o Coentrão era o ponto fraco da selecção portuguesa; percebo tanto de "esquerdas" como a Helena Matos). Se um adepto moral e intelectualmente infalível como eu é capaz de semelhante jackpot de opiniões catastróficas, o que esperar de pessoas normais, ou mesmo de dirigentes do Sporting?
O Grimi, vocês estão a ver bem o que é o Grimi? Ontem, perto dos 5 ou 6 minutos de jogo, o Sálvio aplicou ao Grimi duas brutais fintas curtas e deixou-o para trás com um arranque ciclónico. Na repetição do lance, reparei que não fora o Sálvio, mas sim o Maxi Pereira. Isto não deixa de ser um elogio ao Maxi Pereira, mas chamo a vossa atenção para um pormenor mais importante, que é o de o Grimi ser alguém que quando é fintado pelo Maxi Pereira faz o Maxi Pereira parecer o Sálvio. Esta conclusão foi reforçada na jogada seguinte quando o Grimi foi de facto fintado pelo Sálvio e fez o Sálvio parecer o Overmars, o que sugere uma décalage óptica progressiva, e potencialmente infinita, entre a realidade real e a lânguida realidade alternativa na qual Grimi funciona como uma espécie de prisma e acelerador cósmico. E funciona para os dois lados: suponho que a única maneira de me parecer que o Grimi acabou de ser fintado pelo Maxi Pereira é o Grimi ser fintado pelo Urbano Tavares Rodrigues.
Este lamentável estado de coisas não foi suavizado pelo árbitro, que, numa desavergonhada repetição daquela farsa no jogo com o Porto, conseguiu sabotar toda a organização ofensiva do Sporting expulsando um central adversário. Não quero com isto arranjar desculpas: apesar de ser mais fácil anular o Sporting jogando com dez, admito que mesmo sem a habilidosa expulsão do Sidnei o resultado seria igual.
Este pode muito bem ser o plantel mais fraco da história recente do Sporting, mas a falta de qualidade tem sido potenciada com rigor soviético por um modelo de jogo - e nesta altura não me resta dúvidas de que é mesmo um modelo intencional, com dedo do treinador - baseado em longas parábolas para desmarcações espectrais de um avançado que além de não ter arranque ou pique curto, encara a armadilha do fora-de-jogo como uma tecnologia misteriosa proveniente de uma civilização superior: como se não houvesse nada a fazer. E ao contrário dos macacos do Kubrick, aquilo é gente que não se prestará a nenhum salto evolutivo por mero contacto com artefactos alienígenas. Nenhuma das bolas primitivas arremessadas pelo Polga na direcção geral da área adversária corre o risco de se transformar numa nave espacial em plena trajectória. O máximo que podemos esperar é que se transforme em osso e se espatife nos cornos do Postiga. Muito embora, se bem conheço este clube, o mais provável é que lhe passe a "escassos centímetros" do crânio. Entretanto vai-me doendo tudo cá dentro, e acho melhor darmos um tempo.
sexta-feira, dezembro 31, 2010
2010
Interrompi a redefinição do organigrama do meu corpo, SAD, para vos desejar a todos o ano novo que merecem. Na coluna do Bruno Prata, num Público de há duas semanas, uma metáfora estruturante não muito original mas perfeitamente razoável sobre hardware e software conseguiu chegar, em parágrafo e meio, a uma conclusão irrefutável sobre a evolução do Hulk nos últimos nove ou dez meses: "até aí, Hulk já tinha um poder incrível para influenciar o jogo, mas ainda não tinha o poder de o compreender verdadeiramente". No entanto, a metáfora foi esticada ao longo de um oceano adicional e, como é costume acontecer às metáforas quando são esticadas ao longo de oceanos, começou a misturar-se com outras metáforas promíscuas e a perder a penugem por causa do calor. No resto da crónica, fomos sucessivamente informados de que Jesualdo Ferreira "vivia, então, no fio da navalha no que respeita à afinação de Hulk"; de que a afinação do hardware era feita "sempre a lápis", para "poder apagar e voltar à primeira forma se a máquina incrível ameaçasse entrar em rotura"; de que Hulk lá foi apresentando "um processador mais compatível com a dimensão do seu futebol" e "de acordo com as potencialidades de uma ave rara do futebol mundial"; e de que o novo sistema operativo tem "funcionado como um vendaval", depois da posterior afinação de um novo treinador, que terá percebido que "debaixo daquele futebol aparentemente egocêntrico havia um filão por explorar". Temos portanto que o software de uma ave rara debaixo de um filão foi afinado a lápis no fio da navalha até funcionar como um vendaval. Digam o que disserem, a verdade é que este tipo de coisas nunca acontece a jogadores formados em Alcochete. Dedico esta brilhante conclusão ao Daniel, que muito provavelmente escreveu o melhor post do ano; é só ir lá procurar.
Queria também parabenizar todos os blogues que li regularmente em 2010 por terem sobrevivido às cisões potenciais resultantes da presença de Luis Rainha no Universo. Entre os do costume, três deles merecem-me particular destaque, pois parecem ter encontrado o software do seu próprio vendaval ornitológico bem afinado debaixo do filão egocêntrico: o 5 Dias, o Tolan e o Ouriquense. Na sempre pertinente classificação geral dos textos da edição de Natal do Economist, creio que um pódio simpático é formado pelo do barbecue, pelo da Ascension Island e, pelo obituário dos pubs britânicos. As melhores heresias cristãs de 2010 foram as do séc. XVII, mesmo perante competição feroz das heresias cristãs do séc. III. O filme do ano foi o Scott Pilgrim vs. the World; o pior momento televisivo do ano foi aquela repetição de uma coisa em que o rei D. Carlos era assassinado por membros da Cornucópia. O melhor sms do ano foi recebido na manhã de 22 de Dezembro; dizia apenas "José Couceiro?!". Termino juntando-me à onda geral de consternação pela morte da pessoa que inventou uma das grandes instituições da internet: o link quinzenal para textos do Adam Kirsch. Que descanse em paz, e em três colunas.
Queria também parabenizar todos os blogues que li regularmente em 2010 por terem sobrevivido às cisões potenciais resultantes da presença de Luis Rainha no Universo. Entre os do costume, três deles merecem-me particular destaque, pois parecem ter encontrado o software do seu próprio vendaval ornitológico bem afinado debaixo do filão egocêntrico: o 5 Dias, o Tolan e o Ouriquense. Na sempre pertinente classificação geral dos textos da edição de Natal do Economist, creio que um pódio simpático é formado pelo do barbecue, pelo da Ascension Island e, pelo obituário dos pubs britânicos. As melhores heresias cristãs de 2010 foram as do séc. XVII, mesmo perante competição feroz das heresias cristãs do séc. III. O filme do ano foi o Scott Pilgrim vs. the World; o pior momento televisivo do ano foi aquela repetição de uma coisa em que o rei D. Carlos era assassinado por membros da Cornucópia. O melhor sms do ano foi recebido na manhã de 22 de Dezembro; dizia apenas "José Couceiro?!". Termino juntando-me à onda geral de consternação pela morte da pessoa que inventou uma das grandes instituições da internet: o link quinzenal para textos do Adam Kirsch. Que descanse em paz, e em três colunas.
sexta-feira, novembro 19, 2010
No fat chicks
(...) To take a random sample from the current autumn season, Keith Jeffery's history of the secret service, MI6, is more than 800 pages. Tony Blair's A Journey tops 700 pages. Alan Sugar – Alan Sugar! – has an autobiography, What You See Is What You Get, that weighs in at 612 pages, while Orlando Figes's history of the Crimean war is almost terse at 575 pages.
This trend is not confined to non-fiction. Christos Tsiolkas's The Slap is almost 500 pages and Ken Follett's doorstopper Fall of Giants, if anyone's counting, is about 850 pages, probably to appeal to his American readers. Is anyone editing these books? The truth is that they all bear the imprint of marketing, not editorial, values.
Literary elephantiasis starts across the Atlantic. North America has a lot to answer for. In the "pile 'em high" tradition, US bookshops love to display big fat books in the window. The cut-and-paste technology of word processors must bear some of the blame, but overwriting is part of the zeitgeist. Jonathan Franzen's Freedom is highly enjoyable but who's finishing it? The novel is at least 100 pages too long.
Whatever happened to brevity? Once upon a time, it was not just the soul of wit, there was a strong literary preference for the shorter book, from Utopia to Heart of Darkness. More recently, The Great Gatsby, for my money the greatest novel in English in the 20th century, comes in at under 60,000 words, a miracle of compression. The novels of that great triumvirate – Waugh, Greene and Orwell – average 60-70,000 words apiece; even 1984 is not much over 100,000 words.
(...) If it's a choice between the tight-lipped or the windbag, give me the aphorist every time. Most novels do very well at about 250 pages or fewer. Seriously, what history or biography needs to exceed 500 pages? Some public-spirited cultural patron – the Man Group, perhaps – should sponsor a prize for short books.
Este inoportuno texto no Guardian online contra a proliferação de livros grandes, muito grandes, gigantescos, e Rochemback, estava prestes a passar-me ao lado quando foi linkado à traição pelo Zé Mário Silva e pelos Blondetailors, certamente com o objectivo de me deixar triste.
Oh pá, então não se vê logo que não é para acreditar em nada daquilo? Que, por definição, os livros bons têm sempre a dimensão correcta, e os maus são sempre demasiado compridos? Que aquilo não é um argumento contra a "elefantíase literária"? Que nem sequer é um "argumento"? Que se recorreu ao expediente de transformar dois pensamentos consecutivos numa opinião e três factos arbitrários numa tendência? Que se recorreu ao expediente adicional de emprestar relevância a "uma coisinha que se quer aqui dizer" transformando-a numa cruzada contra uma situação inexistente? Que o homem só queria ali meter uma lista de livros bons (propósito sempre justificado à partida), mas que depois de meter na cabeça que tinha de a legitimar falando de alguns livros maus, fingiu achar que os livros bons são bons por serem curtos e os maus são maus por serem longos, quando na verdade os livros bons são bons por serem escritos pelo Orwell e pelo Waugh e os maus são maus por serem escritos pelo Tony Blair e pelo Ken Follett? Que isto na prática é equivalente a uma tese sobre a superioridade intrínseca dos futebolistas canhotos sobre os dextros justificada pelos exemplos Messi, Maradona, Abel e Custódio?
Cada asserção foi nitidamente improvisada na hora e não sobrevive à mais tépida contra-interrogação. O livro do Franzen "tem pelo menos 100 páginas a mais" - quais? Nota-se uma tendência recente: a de que os livros estão a ficar mais longos - onde? Mas, atenção, "once upon a time" havia uma preferência literária pelo livro mais curto - quando?
A única coisa irrefutável que é dita no artigo inteiro é "This, by the way, is not an original point of view". Pois não, a começar pelo próprio Guardian online, que anda há três anos nisto:
Abril 2007: Dan Rhodes's top 10 short books ("But it seems obvious (doesn't it?) that writing overlong books is at the very least plain bad manners. I can't understand why writers are so often pilloried for writing short books. Brevity is mistaken for laziness when more often than not it's the opposite that is true.")
Agosto 2007: Don't mistake long novels for deep ones ("Slim, artful volumes are so much more profound than fashionably 'epic' doorstoppers")
Maio 2009: Life's too short for thousand-page novels ("I now find it difficult to read a novel that is much longer without feeling impatient, without fighting the urge to whip out my red pen and start crossing out the extraneous bit because the editor didn't, because the author was too proud (...) to accept that quantity is not the same as quality.)
Março 2010: Short is sweet when it comes to fiction ("Novels don't have to be long to say something")
Julho 2010: Take out holiday reading insurance: stick to novellas ("Rather than risk ruining your break with a big book you don't get on with, why not spread your risk with the novella?")
This trend is not confined to non-fiction. Christos Tsiolkas's The Slap is almost 500 pages and Ken Follett's doorstopper Fall of Giants, if anyone's counting, is about 850 pages, probably to appeal to his American readers. Is anyone editing these books? The truth is that they all bear the imprint of marketing, not editorial, values.
Literary elephantiasis starts across the Atlantic. North America has a lot to answer for. In the "pile 'em high" tradition, US bookshops love to display big fat books in the window. The cut-and-paste technology of word processors must bear some of the blame, but overwriting is part of the zeitgeist. Jonathan Franzen's Freedom is highly enjoyable but who's finishing it? The novel is at least 100 pages too long.
Whatever happened to brevity? Once upon a time, it was not just the soul of wit, there was a strong literary preference for the shorter book, from Utopia to Heart of Darkness. More recently, The Great Gatsby, for my money the greatest novel in English in the 20th century, comes in at under 60,000 words, a miracle of compression. The novels of that great triumvirate – Waugh, Greene and Orwell – average 60-70,000 words apiece; even 1984 is not much over 100,000 words.
(...) If it's a choice between the tight-lipped or the windbag, give me the aphorist every time. Most novels do very well at about 250 pages or fewer. Seriously, what history or biography needs to exceed 500 pages? Some public-spirited cultural patron – the Man Group, perhaps – should sponsor a prize for short books.
Este inoportuno texto no Guardian online contra a proliferação de livros grandes, muito grandes, gigantescos, e Rochemback, estava prestes a passar-me ao lado quando foi linkado à traição pelo Zé Mário Silva e pelos Blondetailors, certamente com o objectivo de me deixar triste.
Oh pá, então não se vê logo que não é para acreditar em nada daquilo? Que, por definição, os livros bons têm sempre a dimensão correcta, e os maus são sempre demasiado compridos? Que aquilo não é um argumento contra a "elefantíase literária"? Que nem sequer é um "argumento"? Que se recorreu ao expediente de transformar dois pensamentos consecutivos numa opinião e três factos arbitrários numa tendência? Que se recorreu ao expediente adicional de emprestar relevância a "uma coisinha que se quer aqui dizer" transformando-a numa cruzada contra uma situação inexistente? Que o homem só queria ali meter uma lista de livros bons (propósito sempre justificado à partida), mas que depois de meter na cabeça que tinha de a legitimar falando de alguns livros maus, fingiu achar que os livros bons são bons por serem curtos e os maus são maus por serem longos, quando na verdade os livros bons são bons por serem escritos pelo Orwell e pelo Waugh e os maus são maus por serem escritos pelo Tony Blair e pelo Ken Follett? Que isto na prática é equivalente a uma tese sobre a superioridade intrínseca dos futebolistas canhotos sobre os dextros justificada pelos exemplos Messi, Maradona, Abel e Custódio?
Cada asserção foi nitidamente improvisada na hora e não sobrevive à mais tépida contra-interrogação. O livro do Franzen "tem pelo menos 100 páginas a mais" - quais? Nota-se uma tendência recente: a de que os livros estão a ficar mais longos - onde? Mas, atenção, "once upon a time" havia uma preferência literária pelo livro mais curto - quando?
A única coisa irrefutável que é dita no artigo inteiro é "This, by the way, is not an original point of view". Pois não, a começar pelo próprio Guardian online, que anda há três anos nisto:
Abril 2007: Dan Rhodes's top 10 short books ("But it seems obvious (doesn't it?) that writing overlong books is at the very least plain bad manners. I can't understand why writers are so often pilloried for writing short books. Brevity is mistaken for laziness when more often than not it's the opposite that is true.")
Agosto 2007: Don't mistake long novels for deep ones ("Slim, artful volumes are so much more profound than fashionably 'epic' doorstoppers")
Maio 2009: Life's too short for thousand-page novels ("I now find it difficult to read a novel that is much longer without feeling impatient, without fighting the urge to whip out my red pen and start crossing out the extraneous bit because the editor didn't, because the author was too proud (...) to accept that quantity is not the same as quality.)
Março 2010: Short is sweet when it comes to fiction ("Novels don't have to be long to say something")
Julho 2010: Take out holiday reading insurance: stick to novellas ("Rather than risk ruining your break with a big book you don't get on with, why not spread your risk with the novella?")
sexta-feira, novembro 12, 2010
Já alterei decisões de voto por menos
Governo quer legalizar corridas de cavalos em Portugal
O ministro da Agricultura disse hoje, na Golegã, que está a trabalhar com os responsáveis governamentais pela economia e o turismo a possibilidade de se avançar com a legalização das apostas em corridas de cavalos.
O ministro da Agricultura disse hoje, na Golegã, que está a trabalhar com os responsáveis governamentais pela economia e o turismo a possibilidade de se avançar com a legalização das apostas em corridas de cavalos.
quinta-feira, novembro 11, 2010
Em alturas de crise, há que tomar medidas drásticas
“Sporting Clube de Portugal - Futebol, SAD”. Esta é a nova designação social da Sociedade Desportiva de Futebol do clube de Alvalade.
Aprovada em Assembleia Geral com 99,98 por cento de votos a favor, a nova designação já foi devidamente registada e substitui a anterior “Sporting, SAD – Sociedade Desportiva de Futebol SAD”.
A nova designação, apresentada pelo Conselho Directivo, resultou de uma recomendação aprovada no último Congresso Leonino.
(A Bola)
Aprovada em Assembleia Geral com 99,98 por cento de votos a favor, a nova designação já foi devidamente registada e substitui a anterior “Sporting, SAD – Sociedade Desportiva de Futebol SAD”.
A nova designação, apresentada pelo Conselho Directivo, resultou de uma recomendação aprovada no último Congresso Leonino.
(A Bola)
quarta-feira, novembro 03, 2010
Grandes momentos brejeiros na poesia metafísica do século XVII
'You must sit down,' says Love, 'and taste my meat.'
So I did sit and eat.
- George Herbert (1593-1632), "Love"
So I did sit and eat.
- George Herbert (1593-1632), "Love"
terça-feira, novembro 02, 2010
As aliterações do Tonecas
... between Brighton and Bogotá... (p. 3); ... in, say, Sligo or Sri Lanka... (p. 3); ... the Tartars or the Tongans... (p. 29); ... out into Moore, Morgan, Maturin and Mangan... (p. 57); ... less by socialism than by Schoenberg... (p. 74); ... a matter of Fisher Kings and fertilty cults... (p. 80); ... shifting it from Kant to Kafka... (p. 98); ... so do tyrants and tootache... (p. 121); ... the somatics of Foucault and Fonda (p. 129); ... in classrooms from Berkeley to the Bronx (p. 129); ... which roams from ballet to Berg (p. 149); ... as it meanders from Kant to Krishna, Schiller to Sati (p. 160); ... others may write of Camus or cauliflowers (p. 180); ... crossing from Spinoza to scallop fishing (p. 190); ... from Kafka to the Ku Klux Klan (p. 197); ... from Marx to Marlboro (p. 206); ... from the New Left to the New Times, Leavis to Lyotard (p. 207); ... between Jonathan Swift and Graham Swift (p. 219); ... from the Mystery Plays to Miss Marple (p.219); ... Diversity ends at Dover (p. 221); ... more Harlequin than Hegel (p. 236); ... from Sorel and the Surrealists to Sartre, from Levinas to Lyotard (p. 246); ... from the BBC to the BFI (p. 255); ... from God to Goethe (p. 259); ... from Horace to Housman (p. 263); ... from Defoe to Drabble (p. 264); ... alongside Plato and Pynchon (p. 267); ... from the Venerable Bede to Tony Blair (p. 269).
Terry Eagleton, Figures of Dissent (Verso, 2003)
O maior argumento contra a publicação de recolhas de ensaios e jornalismo ocasional (ou arquivos de blogues, ja agora), maior do que o argumento da efemeridade parasítica embutida no formato, é o argumento da auto-preservação. Salvo raríssimas excepções, permitir que o que é escrito episodicamente seja lido sequencialmente é meio caminho andado para denunciar muletas e maneirismos de Loures a Londres.
As aliterações de Terry Eagleton não são, em rigor, um problema muito grande; nenhuma delas deforma um argumento ou uma linha de raciocínio, nem diminui a vontade de continuar a ler (embora possa aumentar a vontade de continuar a ler especificamente para encontrar mais aliterações, porque no fundo somos uma crianças). Aceitamos de boa fé que o alfabeto se organizou de forma quase milagrosa para se adequar precisamente àquilo que Terry Eagleton queria dizer; e nem sequer levamos a mal quando ele escreve no meio deste bacanal de aliterações, a propósito de um excerto de Peter Conrad, que «the scrupulous alliteration of ‘scored with stigmata’, the suave placing of ‘squeamishly’, the overpitched final image: all this stylistic self-consciousness creates a Post-Modern ‘lack of affect’, which is evident in other ways, too».
O processo através do qual uma maneira de dizer as coisas degenera num maneirismo é uma coisa tão misteriosa para mim como o mercado de obrigações ou a música popular brasileira, mas mesmo neste estágio claramente avançado, aceito que ainda possa produzir vantagens, uma das quais será proporcionar atalhos para organizar argumentos. Levado ao extremo (creio que há casos piores, a começar nos saldos de paradoxos nos livros de Chesterton), torna-se menos um instrumento intelectual do que um hábito mental: no princípio está-se ali à procura de uma forma de poupar tempo para pensar, e acaba-se apenas a poupar no que se pensa - o que, nos piores momentinhos do Terry Eagleton, é evident in other ways, too. (Nada disto deve ser comparado ao meu uso de advérbios de modo, que é sempre escrupulosamente moderado).
Terry Eagleton, Figures of Dissent (Verso, 2003)
O maior argumento contra a publicação de recolhas de ensaios e jornalismo ocasional (ou arquivos de blogues, ja agora), maior do que o argumento da efemeridade parasítica embutida no formato, é o argumento da auto-preservação. Salvo raríssimas excepções, permitir que o que é escrito episodicamente seja lido sequencialmente é meio caminho andado para denunciar muletas e maneirismos de Loures a Londres.
As aliterações de Terry Eagleton não são, em rigor, um problema muito grande; nenhuma delas deforma um argumento ou uma linha de raciocínio, nem diminui a vontade de continuar a ler (embora possa aumentar a vontade de continuar a ler especificamente para encontrar mais aliterações, porque no fundo somos uma crianças). Aceitamos de boa fé que o alfabeto se organizou de forma quase milagrosa para se adequar precisamente àquilo que Terry Eagleton queria dizer; e nem sequer levamos a mal quando ele escreve no meio deste bacanal de aliterações, a propósito de um excerto de Peter Conrad, que «the scrupulous alliteration of ‘scored with stigmata’, the suave placing of ‘squeamishly’, the overpitched final image: all this stylistic self-consciousness creates a Post-Modern ‘lack of affect’, which is evident in other ways, too».
O processo através do qual uma maneira de dizer as coisas degenera num maneirismo é uma coisa tão misteriosa para mim como o mercado de obrigações ou a música popular brasileira, mas mesmo neste estágio claramente avançado, aceito que ainda possa produzir vantagens, uma das quais será proporcionar atalhos para organizar argumentos. Levado ao extremo (creio que há casos piores, a começar nos saldos de paradoxos nos livros de Chesterton), torna-se menos um instrumento intelectual do que um hábito mental: no princípio está-se ali à procura de uma forma de poupar tempo para pensar, e acaba-se apenas a poupar no que se pensa - o que, nos piores momentinhos do Terry Eagleton, é evident in other ways, too. (Nada disto deve ser comparado ao meu uso de advérbios de modo, que é sempre escrupulosamente moderado).
terça-feira, outubro 26, 2010
Best. Footnote. Ever.
Tendo em conta o azarento historial de equívocos entre realidade e onionismo que tem marcado as tentativas de divulgação da obra e pessoa de David Foster Wallace na imprensa nacional, cabe-me aqui relatar um facto pertinente que, mesmo depois da mais diligente e exaustiva pesquisa online, se poderia pensar ser tão fabricado como a história do bilhete de suicídio de trezentas páginas ou a dear john letter de sessenta: nos anos 90 David Foster Wallace tatuou o nome de uma namorada no braço; em 2003, quando a relação terminou, em vez de apagar a tatuagem, tatuou um asterisco ao lado da mesma, remetendo para uma outra tatuagem em nota de rodapé, com o nome da nova namorada, com quem se viria a casar. Gostaria de pensar que tanto o Sérgio C. Andrade e o Rui Catalão como aqueles que lhes apontaram os erros passaram por esta história e a acharam pouco plausível (com toda a razão, embora seja verdadeira). Quanto ao resto, vamos nutrindo com tranquilidade um torcicolo e perdoamos todos aqueles que estão do lado do Bem.
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