sexta-feira, novembro 09, 2007

Intensa Actividade Gasosa


Porque é que - perguntam amigos, familiares e carteiros preocupadíssimos - eu teimo em submeter-me a certas séries televisivas? Poderia responder-lhes com uma citação do Antigo Testamento, mas é mais fácil explicar que ainda está para surgir um artefacto audiovisual que inclua vulcões, tornados ou ondas gigantes incapaz de suster a minha atenção. Pompeii chegou mais perto do que qualquer outro; três minutos de um inacreditável prólogo filmado com filtros de lente que levariam um produtor de soft-porn italiano dos anos 80 a uma indignada apoplexia seriam provavelmente suficientes para vocês, mas eu Provérbios 12:16, etc, etc, etc.
A única virtude da série é ter providenciado a mais veemente convergência entre forma e conteúdo desde que Kerouac escreveu num rolo de papel higiénico: depois de Pompeii, a expressão filme-catástrofe nunca mais vai ser a mesma. O fosso entre tragédia colectiva e individual é talentosa e originalmente transposto; os planos e os diálogos vão-se acumulando numa maré fumegante, descendo encosta abaixo na nossa direcção; e não há nada que o telespectador possa fazer, a não ser enrolar-se no mármore gelado da sala-de-estar, em posição fetal, à espera de ser sepultado em entulho vesuviano. Alguém me convide para jantar hoje à noite (segundo episódio), se faz favor, ou os turistas de um futuro longínquo terão a oportunidade de visitar a margem sul em busca dos meus restos mortais, ainda com o telecomando e um pacote de maltesers nas mãos petrificadas.

Irrita-me quando esquecem as implicações biográficas do gosto por massa cotovelo (e não sei se já vos disse o quanto gosto de James Wood)

«Like his characters, Gogol was a defensive fantasist. He threw lies around himself like hoops, and danced within them. He was an actor, a liar, a peacock, a salesman of treasures. Friends reported that he was amusing to travel with because he had a great dislike of showing his passport or yielding his name. He liked aliases (Gogel, Gonel, and so on). He irritated others by playing card games he had invented and then changing the rules during play. He became rather selfishly involved with undercooked macaroni cheese, a dish he made again and again for guests.»

(James Wood, "Gogol's Realism", in The Broken Estate: Essays on Literature and Belief)


(Quando morei em Edinburgo, costumava participar num jogo de shots chamado "Go-gol dancing". O jogo era despoletado pelo primeiro cliente da noite (enfim: tarde, manhã... eu tinha uma vida diferente) que se dirigisse ao balcão para pedir uma garrafa de Ochakovo Ruby. Um dos participantes tinha então de se levantar, dançar um boogiezinho, debitar um facto biográfico sobre Gogol e beber um Bloody Bastard. Terão de acreditar na minha palavra quando vos digo que isto era bastante menos decadente do que soa.)

terça-feira, novembro 06, 2007

Pode sinalizar uma deriva para frivolidade, mas o autor do blogue acha que nenhuma altura é má altura para ver Norman Mailer à porrada com Rip Torn



(O diálogo é consistentemente impagável, mas o melhor momento ocorre ao minuto 1:57: 'I'm not hurt.' 'Yes, you are.' 'He's hurtin' worse than me!' Um involuntariamente hilariante making of do incidente pode ser lido aqui. Não sei se este país pode andar para a frente enquanto não existirem provas documentais de uma cena de recreio entre um escritor de renome e um actor semi-canastrão. Os meus candidatos: José Luís Peixoto vs. Rogério Samora. Fica a sugestão.)

domingo, novembro 04, 2007

In July



This is a lot of shit, you know that?» Um infame outtake de Orson Welles. Ou era isto ou era vir para aqui fazer queixinhas do Sr. Elmano Santos e eu sou uma pessoa crescida. Dito isto, se o Sporting não ganha este jogo, apago o rascunho do post sobre o Roth e vamos ter uma semana de clips do YouTube com anúncios a comida congelada.)

sexta-feira, novembro 02, 2007

¿Le gusta este Jardín que es suyo?

« 'This is a tormented confession disguised as a novel'.
'Unless it's a novel disguised as a tormented confession'.»


(Já volto para escrever o resto do post. A pitoresca fauna da margem Sul ainda não aprendeu a respeitar o meu quintal e tenho de ir resolver esse problema.)

quinta-feira, novembro 01, 2007

(Bronislaw: pervert)


O Diário de Malinowksi pode não ser mais do que uma nota de rodapé na história da antropologia, mas é um texto-base do registo confessional. Deve ser lido (bem, por masoquistas, para começar) em tandem com a correspondência javarda entre James e Norah Joyce; ambas as obras geraram ferozes e inconclusivos debates sobre questões de propriedade e privacidade, e ambas flutuam num plano perpendicular às disciplinas que as enquadram: o Diário está para a etnografia como as cartas para a ficção modernista.
O Diário, ainda assim, consegue ser uma leitura mais incómoda: nas trocas de mimos do casal Joyce há uma dinâmina bi-direccional que, paradoxalmente, coloca o voyeur numa posição menos desconfortável; a imundície é privada, mas recíproca, e não exclui formalmente o olhar de terceiros. Já o Diário é insuportavelmente íntimo; é Malinowski a pensar sobre Malinowski perante os olhos de Malinowski. O resultado é um dos documentos mais dolorosos da história da espécie - o espectáculo do eu, em toda a sua brutal inadequação - e faz com que os espaços mais confessionais do cânone literário pareçam as cuidadosas encenações de control-freaks.
Um caso extremo de hipocondria moral, Malinowski usava o Diário como um instrumento de auto-ajuda, uma arma no seu interminável combate espiritual. A sua noção quase monástica de rigor profissional é constantemente comprometida por erupções de frivolidade e luxúria. As primeiras sempre sinalizadas pelos seus hilariantes relatórios de leitura: cada tarde perdida com um romance de cordel é penosamente confessada como um imperdoável momento de fraqueza. Quando pega nas Cartas Persas de Montesquieu, a reacção é típica: «não encontrei nenhuma das ideias que procurava, apenas descrições lascivas de haréns». Isto é duplamente tocante se considerarmos que o Diário é uma longa descrição lasciva do harém portátil que Malinowski transportava na sua cabeça.
Há dezenas de fantasias lúbricas, mais ou menos elaboradas, sobre ocidentais e nativos, mulheres e homens, crianças e objectos inanimados; a dada altura, as proezas sexuais de um par de cachorrinhos vadios são descritas em profuso e apreciativo detalhe. Todos estes instantes são imediatamente seguidos por manifestações de repulsa e exortações à pureza. É como ler uma versão anfetaminada das Confissões de Santo Agostinho: oh Lord, make me chaste, right now, before I bang everything in sight.
Elsie Masson, a sua futura esposa, é a terceira presença espectral que assombra o Diário, o talismã que Malinowski usa para afugentar as tentações. No princípio Malinowski vê-a como pouco mais do que uma solução para um problema técnico: mais um tópico no «sistema de proibições formais específicas» com que pretende espartilhar os seus apetites. Mas no último quarto do livro, as invocações assemelham-se cada vez menos a um recurso desesperado ou a uma declaração de intenções: e ali, a quente, na página, o leitor assiste embasbacado ao espectáculo degradante de um homem a apaixonar-se genuinamente pela ideia de monogamia.
Esqueçam o Tintim: se algum dia encontrar isto num raio de 10 metros das prateleiras das criancinhas, serei o primeiro a vir exigir boicotes.

The Muttonhead Quail Movement

«Pakistan city virtually shut down after strike call

The opposition blames the government and the pro-government Muttonhead Quail Movement (MQM), which runs Karachi, for the violence.»

Um espectacular acidente de spell-check da Reuters. (Via este post no criticamente indispensável Language Log).

quarta-feira, outubro 31, 2007

Ouvir vozes



É minha opinão formada - desde há muitos, muitos anos - que não há nenhum problema doméstico que não possa ser resolvido ouvindo calmamente a faixa 2 deste álbum. Testem a validade desta teoria da próxima vez que a máquina de lavar vos inutilize sete t-shirts sem qualquer justificação.

domingo, outubro 28, 2007

De modo a abalar as raízes

O Filipe Guerra teve a amabilidade de me passar, de sua livre e espontânea vontade, um desses sempre úteis memes blogosféricos. Isto é bom: escolher o livro mais próximo, abri-lo na página 161, e transcrever a quinta frase completa. O jogo toca-me particularmente pois, como se lembrarão os leitores mais atentos, foi assim que escolhi o nome do blogue: abrindo aleatoriamente o livro que tinha em cima da secretária e lendo a primeira palavra que me apareceu (o livro, felizmente, era um dicionário da Porto Editora e não Os 120 Dias de Sodoma).
Dada a conjuntura kármica da Margem Sul, era quase inevitável que o livro mais próximo neste preciso momento não chegasse às cento e sessenta e uma páginas. Caso chegasse, a página em questão teria certamente apenas quatro frases. A paginação de Truques do Jardineiro, das edições Girassol (não percebo nada de jardinagem e horticultura) termina ao número 93.
Por sorte, o livro imediatamente abaixo na pilha (sim, há uma pilha, eu não percebo mesmo nada de jardinagem e horticultura), o seminal Culturas Hortículas 1, de Alberto e Nydia Gardé, permite-me cumprir as instruções específicas da corrente. A quinta frase da página 161 é a seguinte: «Outra prática aconselhada para os repolhos e couves de Milão consiste no corte parcial do sistema radicular com a enxada ou na incisão anelar do caule, com um canivete, ou de forma mais atenuada, em tombar forçadamente as plantas de modo a abalar as raízes».
Creio não ser o único a achar esta "prática aconselhada" de uma brutalidade algo excessiva. Eu sou um rapazinho metropolitano: quando senti que os meus repolhos de Milão precisavam de ter as suas raízes questionadas, o meu primeiro impulso foi convidá-los para um café e um brandy no aeroporto da Portela (enfim, comigo funciona).
Fica, de qualquer forma, a informação, para os muitos leitores que decerto se defrontam com problemas semelhantes. Passo a corrente ao Julinho, ao major, ao Daniel do b-site (sempre foste às corridas em Kempton?), e a qualquer pessoa que ande a ler o Horticultura Prática, de A. Fersini.

sábado, outubro 27, 2007

Skip



(Um vídeo que é uma espécie de Painéis de São Vicente do blues, e que, por si só, serviria para justificar o YouTube, a Internet e até a civilização ocidental. Se eu calculasse publicamente o número de horas da minha vida que passei a ouvir Skip James, o mais provável era ninguém acreditar. E os gajos que estão ali de volta dele também não eram nada maus.)

Isto é um post do Terra Habitada

«Acrítica litrária (a partir de Ana Tureza do Mal)

A crítica literária de Pedro Mexia, raramente perfuntcória, é mesmo, quando adrega, de excepção.

A clítica hebdomadária em que o Pedro mexia, nuncamente mictória, é, mesmo quando aborrega, tão-balalão.

A mítica consuetudinária de tetraedro que chia, levemente inglória, é mesmo, quando escorrega, para o Cazaquistão.

A críptica quaternária do cedro em abulia nimiamente excretória é mesmo ao mando brega do capitão.

A política de secretária em que medro de dia (mente notória) a esmo pensando numa esfrega ao setentrião.
»

Hoje fartei-me de trabalhar aqui no blogue (acima de tudo porque não encontrei um único multibanco com dinheiro)

Os links para os blogues do maradona e da Laura Abreu Cravo foram actualizados, reconhecendo a sua nova filiação no Sapo (espero que isto não seja o princípio de uma sangria; não tenho nada contra o Sapo, mas, ok, tenho, tenho uma carrada de coisas contra o Sapo). Há também um linque para o Terra Habitada, um blogue quase inacreditavelmente bem escrito, e que era talvez o último blogue quase inacreditavelmente bem escrito que eu ainda não conhecia. Reparem onde o enfiei, na listinha ali do lado, entre a Ana de Amsterdam e o Samuel Úria: julgam que foi por acaso? O Gattopardo, o novo blogue do Mexia e do Lomba, será adicionado assim que conseguir descobrir um anagrama para a expressão "o novo blogue do Mexia e do Lomba". Estive muito perto, tendo chegado a "vi logo o bom exame ao duodeno", mas sobravam-me duas pérfidas consoantes. Também não se pode pedir muito mais a um cérebro formado em duas escolas que não vão além da centésima octogésima sétima e ducentésima nonagésima posições, segundo a lista do JN.

quarta-feira, outubro 24, 2007

Solecismo de Inverno

Uma correspondente devidamente identificada, que tem o hábito intempestivo de vingar o Vasco Barreto corrigindo todas as calinadas que aqui vou dando, informou-me que, no post anterior, dobrei a consoante errada na palavra fellatio. Ora, é preciso estar de grande má-fé para interpretar isso como um erro e não como um corajoso statement fonético-moral sobre a realidade. Parece-me que o espaço onomatopeico tem latitude suficiente para que fellatio e felattio possam ter existências paralelas. É claro que, na sua forma canónica, a palavrinha se grafa com dois ll e apenas um t. Mas não contem comigo para prolongar a hedionda conspiração de silêncio à volta desse nobre acto - alternativo, eslavo, sofisticadíssimo - que é o felattio. Há quem goste de fellatio; e há quem prefira o felattio ao fellatio. Respeitemo-nos mutuamente, por favor, ou acabamos todos como a Dra. Patrícia Lança.

sábado, outubro 20, 2007

We hate it when our pets become unanimous

Depois do besuntado consenso que acolheu Philip Roth nas últimas semanas (até o barbeiro de Paio Pires se mostrou resignadamente cínico com o enésimo golpe de rins da Fundação Nobel) convém lembrar um detalhe menor: o homem não publica um bom livro desde 1998. The Dying Animal era aceitável, mas Roth-light; The Plot Against America era Roth-bored e, a espaços, Roth-boring; e Everyman era praticamente Roth-comatose. Pode parecer mesquinho apontar isto, não apenas porque o seu currículo prévio inclui pelo menos meia-dúzia de obras-primas, mas também porque Roth a meio-gás continua a ser melhor do que para aí 90% da hiper-actividade afectada pelo resto do pelotão. Não tenho nada contra a histeria: só contra a histeria uniforme.
Exit Ghost, que me chegou às mãos ontem à tarde (e aqui uma menção honrosa para a Amazon, que conseguiu decifrar o meu código postal antes da EDP, da PT Comunicações e dos taxistas do Seixal) apresenta todos os sinais de um regresso à boa forma, recuperando os três alicerces estruturais das melhores ficções de Roth: o rancor misógino, a estridência narrativa, e Zuckerman.
O melhor augúrio de todos foi a opinião negativa de Christopher "Soprano" Hitchens, cada vez mais inseguro sobre a sua própria classificação taxonómica (primata, sim, mas qual a sub-ordem?). Com o seu assombroso anti-talento para a imprecisão crítica, desperdiçou meia-dúzia de boas piadas a martelar o livro nas páginas da Atlantic. (O texto está disponível aqui e merece ser lido, de preferência em voz alta, com sotaque de Brooklyn e um revólver na peúga).
Para percepções astutas, como de costume, temos de consultar James Wood, que não tem tempo para se sentir ofendido com felattios compulsivos, e encapsula a essência de Roth (defeitos e virtudes) em duas passagens antológicas:

«The danger in Roth’s work has always been a slightly sentimental didacticism; an example is the coercive way he has leaned on the word “human” in the past few years—one of those words which always answer their own questions. In Roth’s world, to be human is to have the “human stain,” is to get things wrong, to get people wrong, to make mistakes, to have a sexual body, to be messy and vital and, above all, male. Roth has sometimes resembled a man standing on a corner wearing a huge sandwich board bearing the words, in irritatingly hectoring capitals, “WE ARE ONLY HUMAN”; “Everyman,” a book both deeply moving and somewhat self-pitying, seemed to switch the board for one with the message “WE ARE DYING.” His new novel is a better novel than “Everyman,” intricate, artful, and pressing, and avoids sentimentality with the comedy that the latter novel lacked.
(...)
Roth has been the great stealth postmodernist of American letters, able to have his cake and eat it without any evidence of crumbs. This is because he does not regard himself as a postmodernist. He is intensely interested in fabrication, in the performance of the self, in the reality that we make up in order to live; but his fiction examines this “without sacrificing the factuality of time and place to surreal fakery or magic-realist gimmickry,” as Zuckerman approvingly says of Lonoff’s work. Roth does not want to use his games to remind us, tediously and self-consciously, that Nathan and Amy and Lonoff are just “invented characters.” Quite the opposite. Unstartled by their inventedness, he swims through depthless skepticism toward a series of questions that are gravely metaphysical, and more Jamesian than Pynchonian: How much of any self is pure invention? Isn’t such invention as real to us as reality? But then how much reality can we bear? Roth knows that this kind of inquiry, far from robbing his fiction of reality, provokes an intense desire in his readers to invest his invented characters with solid reality, just as Nathan once invested the opaque Amy Bellette with the reality of Anne Frank. In this kind of work, the reader and the writer do something similar—they are both creating real fictions.
Fiction, for Roth, is not what Plato thought mimesis was: an imitation of an imitation. Fiction is a rival life, a “counterlife,” to use the title of one of Roth’s greatest novels, and this is why his work has managed so brilliantly the paradox of being at once playfully artful and seriously real

A última afronta que um autor destes merece é unanimidade; gostava de ler mais reacções como as de Hitchens. E o Nobel, merece? Sinceramente, desde Dario Fo, deixei de fazer perguntas dessas em voz alta. Acho muito mais provável que lhe entreguem o da Paz, pelo projecto do Diasporismo desenvolvido em Operation Shylock.

Pensamento do dia

Eu acho que há algo de profundamente errado com tudo isto.

domingo, outubro 14, 2007

O inconsciente, esse grande name-dropper

Num eventual catálogo Borgesiano de sonhos pretensiosos, não sei que posição este ocuparia, mas na noite passada sonhei que estava na Praia das Maçãs, a jogar matraquilhos com Edmund Wilson e Mary McCarthy. Eu jogava com o Sporting e eles com o Benfica. Levei uma abada. Às tantas, para disfarçar, comecei a dar uma palestra sobre a história das respectivas instituições e disse que o Sporting tinha sido fundado em 1905. Edmund Wilson corrigiu-me imediatamente, mas o ar desapontado com que o fez estragou-me o Domingo inteiro. Ser corrigido pelo meu próprio inconsciente: não era isto que eu queria da minha vida adulta.

quarta-feira, outubro 10, 2007

Três pontos para o Duque de Portland

Se existe, neste momento, um maior festival de kitsch em exibição nos lares portugueses do que Os Tudors (Canal 1, ontem à noite) agradecia que me informassem o quanto antes. Com a possível excepção do Benfica-Shakhtar, foi a hora e meia de televisão mais divertida dos últimos tempos.
Aderindo ao rígido livro de estilo das piores séries históricas, grande parte do diálogo é escandalosamente expositivo. O tio do Rei é assassinado em Urbino antes dos créditos iniciais, o que suscita o seguinte comentário por parte de um conselheiro: «Majestade, o seu tio foi assassinado em Urbino.» Receando não ter processado tanta informação à primeira, Sua Majestade tenta confirmar os factos: «Estás a dizer-me que o meu tio foi assassinado em Urbino?» Um terceiro personagem é destacado para resolver a controvérsia, indicando que sim, efectivamente, o tio de Sua Majestade fora assassinado, e que toda a complexa situação ocorrera em Urbino.
Minutos depois, Catarina de Aragão pergunta a Henrique VIII porque é que ele não responde às cartas do seu sobrinho. O seu sobrinho é o Rei de Espanha, portanto há que introduzir esse dado no diálogo com o maior grau possível de subtileza: «Lá por o seu sobrinho ser o Rei de Espanha, isso não significa que eu...» etc, etc.
Entretanto, envolvido em intensas negociações diplomáticas com enviados de França e da Santa Sé, o Cardeal Wolsey (desesperadamente interpretado pelo filho de Satanás, Sam Neill, que também tem renda da casa para pagar) apresenta as más notícias: «Não sei se conseguiremos evitar a guerra.» «Então, por quem sois, entremos em guerra.» Diálogos destes recompensam décadas inteiras de devoção televisiva não-correspondida.
Henrique VIII, cujo actor recupera a panóplia completa de maneirismos usados por Joaquin Phoenix em Gladiator, é astuciosamente actualizado com alguns anacronismos inofensivos: boxers Calvin Klein, escanhoado Versace e peitorais firmemente ancorados no século XXI; não sei se foram restrições orçamentais ou falta de coerência artística que lhe negaram um par de óculos de sol e um Marlboro ao canto da boca. Nos primeiros 25 minutos, os boxers reais são três vezes removidos para a lubrificação real de cortesãs. O útero real recusa-se terminantemente a produzir varões. (Para evitar dúvidas, a esterilidade Dworkiniana da Rainha é confirmada por 78 personagens diferentes).
A decisão de transmutar um dos monarcas mais gordos das dinastias inglesas numa proto-rock star revela-se inspirada, e é levada até às últimas consequências, culminando numa destruição de mobília que deixaria Little Richard orgulhoso. Tal como uma estrela de rock, a qualidade das linhas de engate vai decrescendo em proporção inversa ao sucesso. Quando chega a altura de explorar a irmã mais velha de Ana Bolena, o melhor que Sua Majestade consegue é «Mostra-me então o que aprendeste nos teus anos em França.» Surpreendentemente, a resposta não envolve uma exaltação das lutas estudantis na Sorbonne, ou uma defesa da semana de trabalho reduzida, mas sim nova remoção vertical dos boxers Calvin Klein mais activos da Idade Média.
Os cameos vão-se sucedendo, à velocidade da luz: Thomas Tallis, Francisco I e, no mais corajoso golpe anacronístico (numa série que é fértil neles; conseguiram até matar um Papa duas décadas depois da data certa) o vigésimo-oitavo Presidente dos Estados Unidos da América, Woodrow Wilson, que entra em cena com a retórica idealista do costume: um tratado de paz universal, uma Liga de Nações, sufrágio feminino, e princípios humanistas aplicados às relações internacionais. O personagem em questão acaba por ser mais tarde estabelecido como Thomas More («I've read your little book, 'Utopia'»), que rapidamente se revela o grande falhanço criativo da série.
Evocar o passado num ecrã não é fácil, mas quando esse passado é rico em figuras como More, bastaria um texto minimamente competente e uma aderência relativa aos factos para resgatar o produto final à insipidez. O More histórico era um folião reptiliano, que, entre enviar alegremente Protestantes para a fogueira, ou apelidar o casal Lutero de 'Friar Tuck & Maid Marion', insistia em mostrar a nudez das suas filhas aos seus pretendentes, em nome da honestidade, e fazia piadas a caminho da sua própria decapitação. O Thomas More de Os Tudors é um taciturno tédiocrata, balbuciando frouxidões sobre a sua própria integridade. Uma oportunidade de ouro desperdiçada; sei de argumentistas que foram assassinados em Urbino por pecados menores.
A sessão dupla terminou com a execução do Duque de Buckingham, que passara o episódio inteiro a conspirar freneticamente para ter o seu contrato renovado e poder participar nos episódios seguintes. A estratégia falhou, e o Duque encarou o carrasco com o genuíno ar de pânico do actor que sabe estar prestes a regressar ao teatro local. Foi o momento mais comovente da noite.

segunda-feira, outubro 08, 2007

O dark, dark, dark



O sketch parlamentar, como tantas outras instituições britânicas, evoluiu estaticamente durante dois séculos, desenvolvendo uma coerência interna e consolidando um formato tão reconhecível como o haiku ou o soneto petrarquiano; novos praticantes limitavam-se a aderir a um modelo pré-estabelecido, sem fazer ondas, nem barulho, nem nada de tangencialmente interessante.
Esta inércia formal funcionou como um excelente recurso de curto-alcance, permitindo um reflexo rigorosamente inóspito do processo político: tal como os mecanismos parlamentares que descrevia, o sketch parlamentar era solene, esporadicamente ridículo e frequentemente enfadonho. Um casamento feito no céu, que durou quase duzentos anos.
(Isto, já agora, não é necessariamente negativo. Há efeitos bem piores que o ramo legislativo de uma democracia pode induzir do que tédio ou humor involuntário; nomeadamente estridência e terror voluntário. Uma democracia representativa que não seja um bocadinho entediante e um bocadinho ridícula, arrisca-se a deixar rapidamente de ser representativa e até democracia.)
Foi um iconoclasta, o mítico Frank Johnson, a aparecer em cena com o seu álcool e o seu charuto, reformulando o paradigma e aperfeiçoando o modelo actual, nas páginas do Telegraph durante a década de 70. Johnson limitou-se a descartar o entediante e a conceder maior atenção ao ridículo, injectando um cinismo bem-disposto e informado no lugar da solenidade papagaia de outrora. Esta revolução táctica inverteu a tradição; o sketch parlamentar é hoje - quase sem excepções - a página mais interessante das secções de política na maioria dos jornais britânicos, ainda que os eventos relatados sejam tão soporíferos como sempre.
Simon Hoggart, que pode e deve ser lido diariamente no The Guardian, é o mais talentoso dos seus sucessores. The Hands of History agrupa dez anos de colunas, estrategicamente acomodadas de forma a coincidirem com a década de Blair no poder, e providencia o primeiro estudo documental do New Labour com interesse residual para o não-masoquista. Antes das inevitáveis análises profundas e contextualizações de larga escala, vêm os arlequins e o seu malabarismo de rumores. Um aviso à navegação: o livro é inapelavelmente mais interessante do que os monstruosos Campbell Diaries, que foram o maior embuste editorial do ano. Separado de 25 libras pela promessa implícita de boataria Vidaliana e revelações de alto nível West Wing-style, acabei por levar com o equivalente literário da cena de voleibol no Top Gun ("You rocked tonight, Tony." "Yeah, Alistair, I was on fire.") Gostaria de martelar com imparcialidade as suas 816 páginas, mas o livro perdeu-me algures nas primeiras 80, logo a seguir a um parágrafo que incluía a frase "Tony's choice of underwear".
Hoggart compensa a falta de acesso com duas ou três vantagens: fundamentalmente, o facto de escrever melhor e de não ser um mitómano semi-sociopata. Em termos metodológicos, o catecismo de Frank Johnson é seguido à risca: ceder a pá aos visados e deixá-los cavar sozinhos. A subida ao poder do séquito Blairista foi imediatamente reconhecido pelos sketch-writers do Reino como uma benção sem precedentes, facto assumido logo no prefácio: «Who could fail with this material? All we have to do is write down what they say and how they say it. The job is done for us. It has been, from our point of view, a wonderful ten years.»
E de outros pontos de vista, o que fica de dez anos de Blairismo? O consenso simplificante da opinião pública não anda muito longe da verdade; conseguiu captar a essência de um momento em meia-dúzia de lugares-comuns: esperança e apatia; confiança e desilusão; Blair como o homem que recuperou os Trabalhistas para a governação substituindo ideologia por intuição mediática; e que comprometeu irremediavelmente a sua popularidade e o seu legado quando a sensata proximidade estratégica à Casa Branca o arrastou para a guerra mais impopular da História recente.
New Labour não foi uma revolução. A inovadora apropriação do legado económico Thatcheriano, e a sua agregação a preocupações de justiça social era um salto quase inevitável na altura, e representou, acima de tudo, uma estratégia eleitoral: um sensacional esforço de pan-sedução, incluindo na mesma ideologia vaga os órfãos operários apoiantes do Old Labour, o patrocínio corporativo que os Tories alienaram com a sua estridente paranóia anti-Europeia, e o apoio dos media sedentos de novidade adolescente.
A avalanche de 1997 trouxe ao poder a primeira geração de ministros e secretários formados não em filosofia ou ciência política, mas em cursos de gestão e seminários motivacionais. Os centros de poder foram sendo sucessivamente ocupados por pessoas cujo modo de expressão básico era o memorando inter-departamental, infectado pelo jargão demente do management-speak. "Politics and the English Language" é aqui o texto operacional, funcionando não tanto como cautionary tale, mas como manual de instruções. A comunicação com o público passou a ser acolchoada numa malévola plasticina linguística, moldada de forma a tornar o processo político simultaneamente obscuro e inócuo, competentemente inofensivo e purgado de qualquer significado. O acto de governar era agora tão esotérico como a Poesia Modernista dos anos 20. Blair, particularmente a partir do segundo mandato, cometeu desvios ocasionais de retórica sub-Churchilliana, mas os seus funcionários nunca mais olharam para trás.
Uma tríade de exemplos, mais ou menos ao acaso:
«Secure removal centres will enable us to protect the integrity of the system»; «A diverse selection of individual stakeholders, within a framework of equal opportunity for personal development, aknowledging the pursuit of the best practice»; «leadind and supporting a delivery programme, by shared endeavour with the ministers, coupled with regular stocktake meetings and flexible delivery structures». Seguem-se incontáveis referências a "trajectórias de sucesso", "alvos realistas", "competição e contestabilidade", "matérias de consequência managerial", e "unidades estruturais integradas".
O pináculo estilístico do livro é a intervenção de Barbara Follet, que falou nestes termos de uma iniciativa para reduzir a poluição sonora perto do aeroporto de Luton:
«Using noise controls and encouraging measures such as noise preferential routes, and in the civil aviation bill we have the power to clarify powers (...) The government encouraging social responses... profiling local noise contours...» Uma performance memorável, terminando com um aforismo gnómico para enfiar rapidamente nos livros: «The power of designation remains». Não existe, na obra inteira de Eliot ou Pound, um verso tão impenetravelmente soberbo como este.
Julgando pelas parcas intervenções de Brown e Cameron documentadas no livro, o verdadeiro legado de Blair está mais do que seguro. Nas catacumbas, centenas de funcionários continuarão a trabalhar arduamente, a estender os limites da língua inglesa até milímetros do ponto de rotura.
They all go into the dark, and we também.

Alan Smithee

Assim de repente, o melhor que se conseguiu arranjar foi "Helena Mista". Atiremos ao ar a ideia, a ver quem lhe pega.

terça-feira, outubro 02, 2007

Stinking the Mitchum way


Duvido que o incidente tenha lugar nas biografias, mas Robert Mitchum esteve no Festival de Cinema de Tróia há alguns anos (década de 80, creio). Faz (ou fazia) parte do protocolo, o convidado de honra inaugurar o baile dançando com a esposa do Presidente da Câmara. Mitchum, que durante toda a noite desempenhara competentemente o sempre difícil papel de "convidado de honra sóbrio", desculpou-se e recusou. A justificação que deu - e garante-me quem esteve presente que a citação é exacta - foi a seguinte: «I'm sorry, but when I dance with a beautiful woman, I sweat. And when I sweat, I stink.»

quarta-feira, setembro 26, 2007

The Plot Against Vespuccia


«...The Americas may actually have been named after Richard Ameryk, a wealthy Welsh merchant who was the main investor in the second transantlantic voyage of Giovanni Caboto. New lands in the 15th-century were usually named after a person's last name, not the first. If it was Amerigo Vespucci who gave his moniker, America would instead be called "Vespuccia".»

("A Welsh discovery", da secção de cartas do Economist)

... Vespuccian Pastoral, The Great Vespuccian Novel, Vespuccian Psycho, Vespuccian Beauty, The Quiet Vespuccian, Trout Fishing in Vespuccia, Purple Vespuccia, Vespucciana... passei a manhã a pensar nisto e em como a literatura moderna se livrou de um pesadelo fonético. As melhores estantes da Fnac pareceriam ter sido paridas por Doris Lessing, na sua fase Ficção Científica.

(O Lourenço, pelos vistos, também lê o Economist atrasado. Mas olha que há uma piada bem melhor nesse artigo: aquela do "over-qualified" no segundo parágrafo.)

segunda-feira, setembro 24, 2007

K.


Não percebo, juro que não percebo. Alguém me explica?
A ocasional contratação falhada não é nenhum animal mitológico, mas sim um imperativo estatístico: o adepto espera-a e desenvolve mecanismos para lidar com ela. Mas é essencial que o falhanço seja tangível; que seja, aliás, retumbante; que o adepto lhe possa pôr o dedo (preferencialmente o do meio). Um Missé-Missé a artilhar pontapés de bicicleta tecnicamente abismais ante a incrédula defesa do Espinho enriquece o anedotário clubístico e fortalece (enfim, enfim...) aquela secção do espírito que será sempre necessária para apoiar essa instituição demente que é o Sporting Clube de Portugal.
Mas um jogador como Farnerud bloqueia as respostas elementares, e lança-nos num dilema moral, onde surgem até questões de jurisprudência. É que com Farnerud há crime, mas nunca há cadáver. Queremos criticar um lance, mas o lance não acontece. Queremos insultá-lo, mas não o encontramos. Queremos rir, mas não tem graça. Queremos questionar a integridade moral da senhora sua mãe, mas um inédito rebate de consciência faz soar o alarme: a culpa não é dela. E a culpa não é dele.
Farnerud comporta-se em campo como um personagem de Kafka, que acordou de manhã para se ver subitamente catapultado para a máquina alienadora que é o desporto de alta competição. Ele não percebe o que lhe está a acontecer, e isso comove. Tragado por colossais e impenetráveis burocracias técnicas (há que assimilar conceitos como linhas de passe, diagonais, recepção em movimento) Farnerud adquire a importância de um símbolo, provocando uma empatia com o adepto comum que, tal como ele, gosta bastante do que costuma acontecer num relvado, mas não o sabe reproduzir.
E essa pode, na verdade, ser a sua única oportunidade de redenção: levar a sua gritante anonimidade a um tal nível de sublimação que force a posteridade a atribuir-lhe relevância, adicionando o seu nome ao léxico. Temos o kafkiano para as repartições de finanças. Talvez o futuro nos dê o adjectivo farnerudiano, ferramenta essencial para que o jornalista desportivo e o adepto resignado possam definir contratações inexplicáveis. Que seja esse o seu legado. Como alternativa, sugiro um linchamento público. Debatam, debatam.

Mr. Romero, I am ready for my close-up




O ritmo de actualização do blogue tem sido lamentável, mas peço encarecidamente aos milhares de leitores fiéis que não me julguem. Ainda não tenho internet em casa. A Margem Sul é uma realidade alternativa e exige uma longa adaptação. Há rotinas novas e ritmos diferentes a assimilar. Chamei um táxi por duas vezes nas últimas semanas, mas em vão. Da primeira vez, a firma não reconheceu a rua, ou sequer o código postal. Da segunda vez (seriam umas dez da noite), a voz do outro lado da linha repetiu cautelosamente o nome do bairro e perguntou: "isso não é a zona dos cães selvagens?". O senhor da PT que veio instalar o telefone disse-me com um ar ominoso que "esta zona não é boa". Estava presumivelmente a vernacularizar um termo técnico, mas eu cresci com filmes de terror. Se me dizem com um ar ominoso que "esta zona não é boa" fico logo com vontade de pendurar dentes de alho e crucifixos no portão. Soube também que há um mito urbano na zona de Sesimbra sobre "actividade nocturna" em cemitérios. E na rua de baixo mora um senhor chamado Américo que tem um abrigo nuclear no quintal das traseiras.
No meio de tudo isto, o que mais inquieta é a possibilidade de sobreviver ao apocalipse e, como o pobre Duane Jones, ser sumariamente executado por falta de credenciais locais (as conversas no café continuam a cessar assim que eu entro).
Não há quem tenha um T1 em Telheiras para a troca? Contactos para o mail, sff.

segunda-feira, setembro 17, 2007

It's not writing, it's typing

Um texto cujo segundo parágrafo começa com a frase «My attitude to gray flannel has changed over the years» tem um longo caminho a percorrer, mas esta peça de Anthony Daniels na última New Criterion merece que o leitor resista ao impulso óbvio. É um excelente trabalho de demolição crítica, por vezes no limite da mesquinhez carrancuda, mas - perversamente - mais justo para com Kerouac do que muitas das elegias sonâmbulas que assinalaram o cinquentenário de On the Road. Façam o favor de ignorar o saloio arremedo de "Howl" que encerra o artigo e ponham os olhos no parágrafo anterior. «Prophet of immaturity» é uma proeza de condensação: forja um epíteto simultaneamente apto, venenoso e ternurento; e faz com que o «King of the Beats», que jornalistas culturais preguiçosos teimam em continuar a usar, soe ainda mais frouxo.

John Updike, na sua doida juventude, escreveu uma paródia brilhante da verborreia Keroualha. Desafio qualquer adepto confesso da escrita Beat (que nem sequer sei se existe) a submeter-se ao teste.
A vulnerabilidade a uma boa paródia não é necessariamente indicativa da dimensão de um escritor. Beerbohm "apanhou" Henry James sem lhe negar um milímetro de justa posteridade. Mas foi preciso Beerbohm - um génio - para o fazer. O problema com Kerouac (e com o desgraçado do Ginsberg já agora) é este: não é preciso um talento fenomenal para os parodiar; Updike fê-lo e fê-lo bem, mas poderia ter passado a comissão a um sobrinho competente ou a um dos fact-checkers da New Yorker. O único risco é o da redundância; é que o original já fez o trabalho quase todo:

«... This is where Dunkel and I spent a whole morning drinking beer, trying to make a real gone little waitress from Watsonville—no, Tracy, yes, Tracy—and her name was Esmeralda—oh, man, something like that.»

(Ando há quatro ou cinco anos a ler regularmente as colunas de Anthony Daniels e Theodore Dalrymple e só há duas semanas descobri que ambos são a mesma pessoa. Isto é daquelas ocorrências que desarmoniza por completo o pacato mundo de um leitor de revistas. A minha paranóia latente não precisa de estímulos, obrigado. We're through the looking-glass here, people. Não me surpreenderia que o senhor também escrevesse meia dúzia de blogues por aí.)

Lonely tylenol



Dylan e palíndromos. Não é preciso muito para me fazer feliz.

(Com agradecimentos ao Salústio e aos cafés Delta)

Já vem a caminho


domingo, setembro 16, 2007

He is in that void

«It seems it won't go, but suddenly it does. The medicinal odor of displaced Vaseline reaches his nostrils. The grip is tight at the base but beyond, where a cunt is all velvety suction and caress, there is no sensation: a void, a pure black box, a casket of perfect nothingness. He is in that void, past her tight ring of muscle».

(John Updike, Rabbit is Rich)

Esta passagem, que regista, com veemente rigor, a primeira experiência sexual alternativa do protagonista, tem o mérito adicional de descrever a experiência estética acelerada que é ler as novecentas páginas da tetralogia Rabbit em quatro dias. A prosa de Updike é o grande esfíncter contraído da literatura contemporânea, frase que, de resto, aconselho vivamente o leitor a usar sempre que possível em ocasiões sociais futuras ("Já leu o último Mário Cláudio?" "Olhe, não. Tenho andado entretido com o Updike, cuja prosa é o grande esfíncter contraído da literatura contemporânea".) É raro o parágrafo Updikeano que não titila um nervo, mas a pressão é sempre localizada e efémera; o leitor pressente o vazio para lá da sensação imediata e anseia pelas posições de missionário e intenções reprodutivas dos seus conterrâneos menos talentosos. O fetichismo da prosa desgasta; brutaliza por acumulação de percepções. Em novecentas páginas, nada acontece (e nada acontece) que não mereça uma extraordinária passagem descritiva - invariavelmente subtil e raramente profunda. Há impulsos estéticos mais honestos nos tipos que escrevem as quadras para os manjericos. Mas admito que tenho andado um bocado resmungão.

sábado, setembro 15, 2007

"António Costa não acredita em Chinatown" *


* manchete lida na madrugada de sexta-feira, na página 103 do teletexto da TVI

Achei esta tripla justaposição - um autarca português, uma declaração negativa de fé e uma obra-prima da estética neo-noir - verdadeiramente inspirada, e deixo aqui sugestões para possíveis variantes:

Rui Rio não acredita em The Lost Seduction
Augusto Pólvora não acredita em Miller's Crossing
Fernando Seara não acredita em The Usual Suspects
José Portada não acredita em The Big Easy
Maria da Luz Rosinha não acredita em Palmetto

quarta-feira, setembro 05, 2007

Um 'overheard' quase tão bom como aquele do Concílio de Latrão

Na secção de informática da Worten do Fogueteiro, um homem de óculos escuros e t-shirt dos Aztec Camera dizia a um funcionário (julgo que a respeito das especificações de uma impressora): «Parece-me que o meu amigo está a confundir correlação com causalidade».
Ouvi a balbuciante resposta que se seguiu, mas não a vou revelar por respeito à privacidade do funcionário da Worten do Fogueteiro. E, aliás, que atire a primeira pedra aquele que, num momento de fraqueza, nunca confundiu correlação com causalidade.

Para breve no Pastoral Portuguesa

Uma lista das dez pastilhas Rennie que nunca me aliviaram as dores menstruais, e outra dos dez membros do Parlamento Europeu que nunca vieram cá a casa ler o contador do gás.