quarta-feira, dezembro 06, 2006

O Homem Invisível defende McEwan


(No Daily Telegraph. E já agora, se eu tivesse uma libra por cada vez que as palavras 'Pynchon' e 'recluso' aparecem juntas no mesmo artigo, seria onze mil libras mais rico.)

terça-feira, dezembro 05, 2006

Não estive na Aula Magna no Domingo, mas é como se tivesse estado



Que o totoloto saia muitas vezes seguidas a quem escreve assim sobre os Yo La Tengo.
Ouçam o «From a Motel 6» e digam lá se o senhor não tem carradas de razão.


(Actualização:
Fixemo-nos no essencial e não nas decorações.
Nada do que está escrito nos primeiros 2 1/2 parágrafos (aos quais, sabiamente, eu restringi a
citação) pode ser rebatido com boa-fé. Bach fez algumas coisas com piada (Wachet Auf, por exemplo, que Pynchon descreveu como "the best tune ever to come out of Europe") mas não era propriamente coast to coast.
Quanto ao resto, como se pode ler no sempre surpreendente Christianity Today,
a culpa (indirecta) é do Lester Bangs. E estejam à vontade os que desejem atirar as primeiras pedras; eu, com os telhados de vidro que fui acumulando sempre que falei ou escrevi sobre os Velvet Underground, o Dylan ou os Yo La Tengo, vou continuar a aplaudir tranquilamente as adrenalinas pós-concerto e a tolerar ocasionais fingerjobs.

P.S.:
"... a melhor voz de Portugal é a do Paulo de Carvalho (elementar)...."? É possível. Um relatador mexicano não o diria melhor.)

INLAND EMPIRE


Trailer.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

"A bar, a bar, a bar, a salad bar"



Misheard lyrics

(Quase no fundo da página, na letra de «Velouria», alguém percebeu 'I can see the tears of Shastasheen' como 'I can see the genius of chastity', talvez a melhor frase que o Black Francis nunca escreveu)

Black is white and white is black

Garry Kasparov tem um artigo de opinião no Wall Street Journal sobre a estratégia a seguir no Médio Oriente.
Em breve, na ChessBase, Bill Clinton ensaiará uma nova e surpreendente variante da Defesa Philidor .

domingo, dezembro 03, 2006

Still ill?


... England is mine
and it owes me a living...


"O fim do Reino Unido?", ou uma variação sobre essas palavras, tem sido uma frase recorrente na imprensa inglesa das últimas semanas. O debate, tratado com crescente seriedade na Escócia, tem gotejado para sul da fronteira em velocidade de cruzeiro, mas duas bombas despoletaram a corrida ao editorial: a primeira foi uma inesperada sucessão de sondagens como esta, levantando a possibilidade real de um parlamento autónomo dominado pelo Scottish National Party (SNP). A outra foi um surpreendente artigo de opinião na revista Prospect, pelo historiador Michael Fry, um membro da velha guarda conservadora (ferozmente unionista), que anunciou a sua conversão recente à causa da independência. Diz-se que pode ser o primeiro de muitos.
Há seis anos atrás, quando me mudei para a Grã-Bretanha, este cenário era impensável. A expressão eleitoral do SNP era mínima, e tinha estagnado depois dos ganhos dramáticos na década de 70. Até no período Thatcher/Major, durante o qual o Partido Conservador se eclipsou completamente nas Highlands como força eleitoral, os principais beneficiários foram os Trabalhistas e os Liberais-Democratas, cuja coligação tem dominado a legislatura desde as primeiras eleições pós-devolução em 1999.
É claro que o impulso separatista não é de agora, nem nunca andou afastado do debate político. A História escocesa assemelha-se a um complexo de inferioridade ilustrado; um longo catálogo de independências fugazes e delírios tribais anti-ingleses, desde que os vários clãs se uniram sob a coroa de Malcolm II em 1018.
A União de 1707 (e é uma das muitas ironias deste caso que as celebrações do ano que vem possam inaugurar o processo de dissolução) tem sido tradicionalmente interpretada pelos historiadores como uma abdicação voluntária de soberania por parte do parlamento escocês, a troco da manutenção de um sistema legal próprio, e de garantias sobre a independência da Igreja Presbiteriana. A proposta foi aprovada na altura por 40 votos de diferença, mas a União sempre foi impopular entre a população, e subsiste até hoje uma forte e curiosa tradição oral que acusa os Whigs escoceses de terem vendido a pátria a troco de subornos e regalias pessoais - um mito que permite imensos trocadilhos na panfletaria nacionalista actual sobre os novos "traidores" Gordon Brown e John Reid.
Gordon Brown, já agora, é quem tem mais motivos para estar preocupado. O partido Labour precisa necessariamente dos 40 assentos parlamentares garantidos pelos círculos escoceses para ter qualquer esperança de competir com os Conservadores em 2009. A Separação - para quem quiser manter contagem das ironias - negar-lhe-ia a possibilidade de se tornar o 12º Primeiro-Ministro britânico nascido na Escócia (o último, apesar das propaladas 'raízes' de Douglas-Home e Tony Blair, foi Ramsay MacDonald). Brown, que tem martelado incansavelmente a tecla da 'Britishness', em oposição a orgulhos patrióticos mais localizados, arrisca-se a ser, digamos, "Cameronizado" pelos seus próprios conterrâneos.
Parte do debate tem-se centrado na capacidade da Escócia para sobreviver como nação independente. Fala-se em despesismo estatal congénito (graças ao que devia ser apenas uma curiosidade histórica, a Barnett Formula, a Escócia recebe uma parcela quase comicamente desproporcionada do orçamento britânico), e num sector público demasiado inchado (cerca de 585 mil funcionários para uma população de 5 milhões).
Do lado nacionalista fala-se no Exemplo Eslovaco (os eslovacos acolheram com natural surpresa o facto de serem um exemplo) e acena-se com os lucros do petróleo do Mar do Norte - uma charada com barbas. Uma vantagem mais evidente é o sector da educação, que, embora não seja o mesmo responsável por dar ao Mundo David Hume, Adam Smith, James Watt, John Logie Baird, James Clerk Maxwell, Thomas Reid, Alexander Flemming e William Cullen, continua a ser superior ao inglês, especialmente ao nível superior, onde as Universidades de Edimburgo, Aberdeen e St. Andrews, que persistem em manter os seus regimes de 'porta aberta', em nada ficam a dever a Oxford e Cambridge.
Mas subsistem sérias dúvidas sobre a disponibilidade dos líderes do SNP para seguirem qualquer modelo, seja ele irlandês, eslovaco ou simplesmente racional. Alex Salmond tem feito passar a mensagem que as receitas petrolíferas dos próximos 30 anos serão suficientes para financiar os cortes fiscais corporativos necessários sem reduzir a despesa pública. Alguém que perceba mais de Economia do que eu (não é difícil) estará mais habilitado para avaliar a sanidade deste projecto. A um leigo, isto soa demasiado familiar: a conversa do jogador que vai para a mesa da roleta com um "sistema", convencido de que vai ser possível regressar a casa com o dinheiro, as fichas, e o eterno respeito do croupier. O que costuma acontecer é ficar sequer sem a quantia para o táxi.
Apesar de todas estas dúvidas, o que é inegável é o florescimento de um optimismo contra-natura, bastante diferente do nacionalismo cheio de ressentimentos a que os escoceses me tinham habituado. Em 2003, uma sondagem em Edimburgo que tentava averiguar as afinidades patrióticas dos cidadãos revelou que 72% se definiam como escoceses e apenas 20% como britânicos. A previsível manchete de um jornal local ("SCOTTISH PRIDE ON THE RISE!") foi assim comentada por um amigo meu: "Bollocks. Of course I feel Scottish rather than British, but pride has got nothing to do with it".
O mesmo amigo, que nunca participou num sufrágio na sua vida inteira, envia-me agora e-mails entusiásticos sobre as eleições de Maio próximo. E o facto de alguém como ele saber a data com esta antecedência, é talvez o aspecto mais surpreendente de toda esta situação.

Should I post or should I go

Queria agradecer ao leitor do Barreiro que me enviou um extenso mail, no qual descreve, com brio e paciência assinaláveis, todas as facetas do génio incomparável dos The Clash que eu nunca tive tempo ou sensibilidade para discernir, realçando no processo as gritantes falhas no meu pseudo-argumento sobre os Ramones.
Dois reparos:
1) na frase do segundo parágrafo que termina com ". . . esse focinho todo", a sintaxe turbulenta dificulta a identificação do sujeito;
2) a actividade de cariz íntimo que simpaticamente me aconselha a praticar em equídeos escreve-se com 'ch' e não com 'x'.
Em todo o caso, um post que tinha esboçado para hoje - com o título provisório "Joe Strummer: canastrão ou mentecapto?" ficará na prateleira por tempo indeterminado.

Discos do ano

Quando comecei o blog em Julho, tinha essencialmente um objectivo: aguentar até Dezembro, quando chegasse a altura de proceder aos inevitáveis balanços de fim-de-ano.
O impulso do blogger para fazer listas não é arbitrário; parte, aliás de uma profunda e venerável convicção: a de que o mundo seria um lugar melhor se toda a gente ouvisse a nossa música. Que os impostos seriam mais baixos, que os automobilistas respeitariam as zebras, que os vizinhos diriam sempre bom-dia, que as almofadas seriam dotadas de fibras soporíferas naturais, que os carteiros se restringiriam às suas limitadas porém importantíssimas competências, que as paragens de autocarro seriam lugares iluminados por inesperados sorrisos, que os números de telefone realmente importantes jamais seriam esquecidos.
Movido por essas e outras corriqueiras esperanças, eu faço listas como esta:

1. Yo La Tengo – I Am Not Afraid Of You and I Will Beat Your Ass
2. Bob Dylan – Modern Times
3. The Decemberists – The Crane Wife
4. Morrissey – Ringleader of the Tormentors
5. The Handsome Family – Last Days of Wonder
6. Bonnie 'Prince' Billy
– The Letting Go
7. The Fratellis – Costello Music
8. Woven Hand – Mosaic
9. Sufjan Stevens – The Avalanche
10. The Raconteurs – Broken Boy Soldiers


- Desilusão do ano: Life Pursuit dos Belle & Sebastian. Há quem goste mais deles agora. Pessoalmente acho que desde o The Boy With The Arab Strab aquilo tem sido sempre a descer;

- Menção especial: Underdog World Strike dos inqualificáveis Gogol Bordello. Saiu em 2005, mas devia sair todos os anos.

sábado, dezembro 02, 2006

. . .forty feet above. . .


«'Fax's brother Cragmont had run away with a trapeze girl, then brought her back to New York to get married, the wedding being actually performed on trapezes, groom and best man, dressed in tails and silk opera hats held on with elastic, swinging upside down by their knees in perfect synchrony across the perilous aether to meet the bride and her father, a carnival "jointee" or concessionaire, in matched excursion from their own side of the ring, bridesmaids observed at every hand up twirling by their chins in billows of spangling, forty feet above the faces of the guests, feathers dyed a deep acid green sweeping and stirring the cigar smoke rising from the crowd.
Cragmont Vibe was but thirteen that circus summer he became a husband and began what would become, even for the day, an enormous family.»

(Thomas Pynchon, Against the Day)

Exit Zuckerman

Marcar nas agendas literárias: Outubro de 2007.

Bucelas e Dão

Na página 168 de Against the Day, uma dos personagens passa uma semana em Lourenço Marques e refere-se ao vinho disponível no mercado colonial como «the rotgut rejectamenta of Bucelas and Dão».
É em momentos como este - e momentos como este são frequentes - que se insinua na mente predisposta a tais insinuações a possibilidade de Pynchon ter, não lido a totalidade da última edição da Encyclopaedia Britannica, mas sim escrito a totalidade da última edição da Encyclopaedia Britannica, possivelmente nas horas vagas entre outros projectos mais árduos.

(Nota: depois de alguns solavancos iniciais que agora admito poderem ter sido sintomas de nada mais que hipocondria do leitor, os vários enredos começam a ganhar momentum a partir da primeira centena de páginas. As reticências regressam; as longas enumerações também; e regressa o talento inqualificável responsável pelas melhores páginas de Gravity's Rainbow.
O livro é embaraçosamente bom.)

quinta-feira, novembro 30, 2006

Better things for better living through Pynchon


Miscelânea:

. página 87: «. . . 'Answering the question: how can anyone set off a bomb that will take innocent lives?' ' Long fuse!' someone hollered helpfully.»

. não há quaisquer indícios de que o maradona leia Pynchon ou compreenda a beleza demente de Matt Le Tissier; mas parece que gosta de Swift, e que também não dorme, portanto não há crise;

. Sir John Leslie era um físico escocês, um dos muitos que postulou a existência de uma terra oca e habitada, iluminada por dois sóis - Pluto e Proserpine;

. página 219: «. . . the True Worshippers of the Ineffable Tetractys (T.W.I.T.) were headquarted in London, at Chunxton Crescent, in that ambiguous stretch north of Hyde Park known then as Tyburnia. . .» O tetractys é uma figura triangular que consiste em dez pontos dispostos em quatro filas. O ritual de iniciação na religião secreta dos Pitagóricos incluia uma oração dirigida ao tetractys. A forma está presente no brasão de armas dos arcebispos Católicos. Como se isso não bastasse, é também uma forma poética.

. Michiko 'pretentious without being provocative' Kakutani e Adam 'sterile in his virtuosity' Kirsch, habilmente desmantelados no Elegant Variation;

. no cada vez mais interessante blog As Aranhas, põe-se a hipótese de «Dying on the Vine» ser a melhor canção do século XX; há dias em que concordo, há dias em que discordo, mas nesta era de turbulentas mudanças de paradigma, parece-me uma opinião bastante saudável (Pynchon também é fã de John Cale, daí a inclusão neste post);

. o post mais pynchoniano da blogosfera portuguesa foi escrito no dia vinte de Maio do ano 2004, às 22:26h.

. . .aliquid quo maius cogitari non potest. . .




Há já alguns anos que tenho uma ideia fixa sobre a mulher perfeita: uma combinação bastante específica de Natasha McElhone, Kim Deal e Cynthia Ozick. Ora, como toda a gente sabe desde Anselmo, é mais perfeito existir na realidade do que como mera possibilidade. Portanto: onde é que ela anda?

quarta-feira, novembro 29, 2006

Este blog mete-se com gente crescida

Ando aqui eu a perder tempo a fazer piadas de mau gosto sobre distintos membros do parlamento, e o Francisco Mendes da Silva mete-se comigo por eu ter faltado ao respeito a quatro escanzeladas relíquias britânicas dos anos 70. Gosto de umas quantas coisas naquele blog, mas gosto, acima de tudo, da ordem de prioridades deles.
No que diz respeito aos argumentos: olhe que não.
Porque já depois de os Ramones terem acabado de vez, os Sex Pistols ainda andavam a espremer o limãozinho em digressões - uma delas com o apropriado nome 'Filthy Lucre'. Quanto às credenciais anti-establishment, ainda há pouco mais de dois anos o Johnny Rotten podia ser visto, em horário nobre, numa espécie de versão inglesa da Quinta das Celebridades, a fazer caretas a ouriços no meio da selva. Se isto é ser anti-establishment, então o Johnny Weissmuller foi o maior radical do século XX.
Há mais espírito punk numa aparição televisiva do Boris Johnson do que em vinte concertos dos Sex Pistols.
E como ninguém vai rebater o argumento essencial, que é a importantíssima problemática das fotografias à frente de paredes, vou encerrar aqui este debate com a dignidade dos bons vencedores, citando o inigualável Joey Ramone:

You're a loudmouth baby
You better shut up
I'm gonna beat you up
'Cause you're a loudmouth babe

Cosmo goes loco

Duvido que ainda haja alguém que não tenha conhecimento do 'incidente' em que Michael Richards (o Kramer da série Seinfeld) se envolveu na semana passada. Os eventuais pára-quedistas podem encontrar aqui um breve resumo do que aconteceu, aqui o vídeo do YouTube, e aqui o comentário do Pedro Mexia, que está na mesma linha das reacções que tenho lido em jornais e blogs anglófonos.
Não tenho talento nem tendência para fazer de advogado do Diabo, mas, em primeiro lugar, acho que é seguro analisar o caso sem levar em conta a estratégia de relações públicas seguida posteriormente por Richards e pelo seu agente. Arrisco mesmo que se deve tomar o pedido de desculpas público e a admissão da sua "flawed humanity" (um pró-forma em situações destas) com uma pitada de sal. Aquilo é gestão de danos, e pouco mais.
Acho também que este caso é bastante diferente do de Mel Gibson, ao qual foi imediatamente comparado, e queria adiantar uma explicação alternativa, que julgo ser mais credível do que um mero sopro de "hostilidade reprimida".
É indesmentível que racismo instintivo está presente, em maior ou menor grau, em quase todos nós. Parafraseando Martin Amis, a progressão natural da humanidade é nós sermos um pouco menos racistas que os nossos pais, e os nossos filhos serem um pouco menos racistas que nós. O que a mente faz com esse instinto é que é importante, e o catálogo dos que decidem erguer um edifício ideológico à volta dessas erupções atávicas (e aí já é mesmo de uma decisão que se trata) é felizmente reduzido. A fronteira entre ambos os territórios, apesar de alguns matizes comuns, é clara e definida. No caso de Gibson, por exemplo, parece-me que o preconceito anti-semita, dadas as circunstâncias e os conhecidos precedentes, é muito mais evidente.
Quanto a Michael Richards, qualquer análise terá forçosamente de considerar essa nebulosa distinção entre actor e personagem de palco. A mim, o vídeo parece-me acima de tudo o registo de uma performance catastrófica, ao longo da qual o actor e o personagem se misturaram com resultados não tanto explosivos como implosivos. Um actor que, convém lembrar, não tem muita experiência de stand-up e não terá o nervo (nem a capacidade?) para lidar adequadamente com heckling. A raiva de Richards é inegável: a resposta, admito-o, pode muito bem ter sido o libertar de um vapor racista acumulado. Mas o mais provável é que tenha obedecido a outra lógica miseravelmente humana: uma escolha deliberada da palavra que se julga ir causar mais ofensa ao provocador. Caso o espectador em questão, além de negro, fosse tetraplégico, ou gago, ou tivesse o rosto escavado por marcas de bexigas, acredito que Richards tivesse seguido essa via.
Outra hipótese é tudo não ter passado de uma utilização desastrosa de um recurso cómico com algumas tradições. O caso lembrou-me imediatamente uma rotina que o Lenny Bruce usava nos anos 60. (A citação é do livro The Essential Lenny Bruce: Unexpurgated Satirical Routines, Panther Books, London, 1975):

«By the way, are there any niggers here tonight? [outraged whisper] 'What did he say? "Are there any niggers here tonight"? Jesus Christ! That is cruel. Does he have to get that low for laughs? Wow! Have I ever talked about the schwarzes before the schwarzes have gone home? (...)'
Are there any niggers here tonight? I know that one nigger works here, I see him back there. Oh, there's two niggers, customers, and, ah, aha! Between those two niggers sits one kike - man, thank God for the kike! (...) The point? That the word's supression gives it the power, the violence, the viciousness. If President Kennedy got on television and said, 'Tonight I'd like to introduce the niggers in my cabinet,' and yelled ' niggerniggerniggerboogeyboogeyboogey' at every nigger he saw 'till nigger didn't mean anything anymore, 'till nigger lost its meaning - you'd never make any four-year-old nigger cry when he came home from school.
Screw 'Negro'! Oh, it's so good to say, 'Nigger!' Boy?»

Num determinado ponto do vídeo, Richards diz "Alright, you see, that shocks you", como alguém que, bloqueado num exame de matemática, se lembra apenas de metade da fórmula. E é a partir daí que o seu esbracejar se torna mais doloroso.
Repito: não conheço o Michael Richards de lado nenhum, e não recebo 10% do que ele ganha.
Mas estou convencido de que o défice aqui é de talento, e não de personalidade.

terça-feira, novembro 28, 2006

Hoje ouve-se


We're a happy family
We're a happy family
We're a happy family
Me, mom and daddy.

Siting here in Queens
Eating refried beans
We're in all the magazines
Gulpin' down thorazines.

We ain't got no friends
Our troubles never end
No Christmas cards to send
Daddy likes men.

Daddy's telling lies
Baby's eating flies
Mommy's on pills
Baby's got the chills.

I'm friends with the President
I'm friends with the Pope
We're all making a fortune
Selling Daddy's dope.

- Ramones, «We're a Happy Family», Rocket to Russia

(Dois mitos que convém estilhaçar:
1 - os Sex Pistols inventaram o punk rock;
2 - os indecentemente sobrevalorizados The Clash são o expoente máximo do género.
É que os Ramones prestam um serviço muito melhor a ambas as alíneas. Antes de mais porque uma banda não pode reclamar-se punk caso não tenha pelos menos três álbuns adornados com fotografias de grupo em frente a uma parede. Quer dizer, isto é dos livros; não se percebe a confusão. E depois porque os Ramones representam, em terms puramente musicais, o sagrado meio-termo: os Clash eram compostos por músicos demasiado bons para o punk, e os Sex Pistols abusavam para o lado contrário. Nos Ramones, fazia-se pouco, mas muito, muito bem.
O que dizer sobre Rocket to Russia, esse pináculo do bubblegum-core? Não nego que haverá melhores maneiras de ocupar trinta e um minutos e quinze segundos de uma Terça-feira.
Mas não muitas.)

O espírito invisível de Joey Ramone sobrevoa o hemiciclo da Assembleia da República, disseminando um pouco da sua substância

A deputada Maria de Lurdes Ruivo surpreende tudo e todos na sessão de trabalhos da Comissão Parlamentar para Assuntos Europeus, ao mascar um ritmo potente na sua pastilha elástica.
A deputada Heloísa Apolónia efectua diligências no sentido de garantir uma boleia até Rockaway Beach.
O líder da bancada parlamentar do PP, Nuno Melo, apresenta uma proposta de lei visando a privatização imediata de todos os estabelecimentos de ensino, porque os putos estão todos de cabeça perdida, e ninguém sabe, ninguém sabe, ninguém sabe o que eles querem.
Um membro eleito pelo círculo de Aveiro ausenta-se inesperadamente depois de ter sido abandonado pela sua garina.
O deputado Luis Fazenda dirige uma reclamação à Mesa, questionando a admissibilidade de se poder surfar com vinte graus negativos.
Jaime Gama declara uma inesperada pausa de meia-hora na sessão plenária, justificando-se com o súbito desejo de ir até um sítio mais bacano que este, onde se possa curtir um pouco.

segunda-feira, novembro 27, 2006

Walk like a Pynchonian


O meu exemplar de Against the Day pesa um quilo, quatrocentos e vinte e dois gramas.
Com os paperpacks de V., The Crying of Lot 49, Gravity's Rainbow (cópia de substituição) e Slow Learner, mais a edição hardcover de Mason & Dixon, o Gravity's Rainbow Companion de Steve Weisenburger, e uma indispensável enciclopédia de bolso, a agulha chega aos cinco quilos e duzentos.
É uma verdade, daquelas com V maiúsculo, que saír de casa, nem que seja para um passeio de meia-hora, sem qualquer um destes títulos, é um risco que só os mais desencantados e/ou cínicos estão dispostos a correr. Os mais atilados sabem que muita coisa pode acontecer em trinta minutos, que os planos mais estanques estão sujeitos a bruscas ultrapassagens, que as circunstâncias do regresso a casa são sempre uma incógnita, e que todas as trepidações do improvável serão mais facilmente negociáveis se estivermos munidos de roupa interior lavada, alguns trocos na carteira, e de toda a obra de Pynchon.
O dilema que isto representa para os que gostam de fazer as coisas como elas devem ser feitas (e aos quais se impõem imediatas considerações sobre a postura em público, e a saúde das nossas vértebras, entre outras) é um dilema sério, e o Pastoral Portuguesa deixa aqui algumas sugestões que se espera venham a contribuir para a sua resolução:

1. os ginásios urbanos são palcos de frequentes maravilhas. Os equipamentos representam o último grito, pleno de decibéis, da Ciência moderna, colocada ao serviço dos bíceps e dos deltóides. Os monitores são submetidos a rigorosos processos de selecção, que chegam a durar meses. Tudo o que é preciso é um pouco de força de vontade, e um mínimo de seis horas semanais;

2. no site da empresa Manutan podem encomendar-se carrinhos de mão, disponíveis em vários modelos e tamanhos, a partir da módica quantia de 78,00 €. A entrega é gratuita em Portugal Continental;

3. reza a lenda (através dos lábios pouco dados a rezas de Gore Vidal) que o grande Santayana tinha por hábito separar as folhas dos livros, capítulo a capítulo, das suas respectivas encadernações. O método, um aparente sacrilégio para bibliófilo, revela-se, após uma análise mais fria, logisticamente são. Não vou tentar enganar ninguém, apresentando aqui resultados de testes não-efectuados, mas estou certo de que, livres das lombadas, das margens exageradas, e da cola industrial, o peso do nosso cânone portátil seria possivelmente reduzido em 30%. As acrescidas dificuldades de manuseamento e transporte seriam, creio, facilmente ultrapassadas, desde que resistíssemos à tentação de espalhar pelo Mundo aviõezinhos de papel com equações nas asas.

Il Postino's evil twin

(no original)

― Why is it that you are always being sent these parcels, and bubble wrapped books, and magazine subscriptions, and antiques catalogues, and never seem to get anything with your name handwritten on it?
― I'm sorry, why did you ring the bell? Do you need a signature?
― I'm just curious.
― I get personal letters.
― I never see any.
― Well, it's mostly e-mails these days. Plus, I get phone calls.
― And you still have those dark circles under your eyes.
― I'm afraid your invasiveness, which was once charming, is gradually becoming unacceptable.
― That book I told you about isn't working?
― Books rarely do.
― I always sleep like a baby.
― There are babies all over the building. They're one of the reasons why I can't sleep.
― It sounds as if you resent them.
― I have nothing against the future.
― Well, that's easy to say, and many have said it.
― Can you hear that? That's my laptop telling me I've got mail. You are a dying breed.
― It sounds an awful lot like a microwave.
― They're the same brand. Have a nice day.

domingo, novembro 26, 2006

Donald, diz olá aos meninos, e explica-lhes coisas

«I believe that my every sentence trembles with morality in that each attempts to engage the problematic rather than to present a proposition to which all reasonable men must agree.»

(Donald Barthelme, Not-Knowing: The Essays and Interviews)

. . .Ellipsis. . .

Há sinais de pontuação que, no meu entender, pertencem a determinados escritores. O uso que lhes deram - por ter sido revolucionário ou simplesmente exaustivo - devia consagrar-lhes o direito a um ™/© nos compêndios. Duvido, por exemplo, que alguém tenha utilizado a vírgula como Henry James, ou o ponto e vírgula como Virginia Woolf. E Philip Roth parece-me o único autor contemporâneo a perceber para que serve, e como se usa, um ponto de exlamação. Sem esquecer Nabokov, que tinha o hábito enternecedor de atordoar com "aspas" as palavras mais inofensivas.
E as desgraçadas reticências, quem as redime, quem lhes acode?
Sempre foram as triplas ovelhinhas negras da Literatura. E na era do e-mail e do sms, nenhum sinal de pontuação sofreu tantos abusos como a sequência de três pontos - tragicamente despromovida a uma delegação de responsabilidade cognitiva ou, no seu pior, a um mero desvelo de brejeirice, um wink wink, nudge nudge, com ainda menos subtileza.
Um dos efeitos secundários da escrita de Thomas Pynchon tem sido uma reabilitação sistemática e gradual das reticências. Praticamente sozinho, ele resgatou-as ao domínio da indeterminação empírica, usando-as para sinalizar mudanças de foco narrativo, ou tornando-as agentes catalizadores daqueles desvios temporais, grávidos de significado, em que sua ficção é pródiga; dotando-as, em última instância, de faculdades mais consentâneas com a sua designação em inglês, ellipsis, termo com uma ambiguidade diferente da sugerida pela língua portuguesa, e que evoca outra figura de retórica preferida por Pynchon.
Gravity's Rainbow sem reticências seria menos do que é. Seria como o Orlando sem semicolons; perder-se-ia não apenas o sentido de alguns parágrafos mas a própria essência da obra. (Esta afirmação exigia ser validada com algumas citações, mas o meu exemplar de Gravity's Rainbow foi vítima de um recente pedido de empréstimo e temo não o voltar a ver. E "citar de memória" neste blog é uma piada de mau gosto).

Depois de tudo isto, é com algum pesar que revelo um notório défice de reticências nas primeiras páginas de Against the Day. Se o facto indicia um maior auto-domínio formal ou, pelo contrário, uma redução do ângulo de visão, isso terão de ser as restantes oitocentas páginas a confirmar.
Mas continua a ser muito complicado não amar um escritor que compara nuvens de tempestade a pedras derretidas esvaindo-se em colunas de luz, no mesmo capítulo em que nos presenteia com a imagem de um embriagado Arquiduque Francisco Fernando fugindo de um bar em Chicago, perseguido por uma turba furiosa.

Post entre parêntesis

(Num daqueles momentos repletos de boas intenções que acabam por deixar todos os envolvidos algo embaraçados, fui elogiosamente acusado de ser a versão anglófila de alguém que seria a minha versão francófila. No âmbito da elogiosa acusação bifurcada isto representa uma melhoria inquestionável sobre "tu és igualzinho ao teu avô", mas não deixará por isso de merecer uma resposta, que é esta: aquele que acusa não passa de uma versão amnésica de alguém que se lembra de tudo.
E isto fica assim, sem links nem redireccionamentos, pois eu posso ser uma 'versão' mas não sou um delator. E nisso, como noutras coisas, sou mesmo igualzinho ao meu avô.)

Beep-beep

O site-meter faz-me lembrar uma versão não-irónica daqueles ubíquos autocolantes de vidro traseiro, que dizem: "Honk if you like my driving".

sábado, novembro 25, 2006

sexta-feira, novembro 24, 2006

Light à la mode

«. . .Some claimed that light had a consciousness and personality and could even be chatted with, often revealing its deeper secrets to those who approached it in the right way. Groups (...) could be observed in Monumental Park at sunrise, sitting in the dew in uncomfortable positions, their lips moving inaudibly. There were diet faddists who styled themselves Lightarians, living on nothing but light, even setting up labs they thought of as kitchens and concocting meals from light recipes, fried light, fricaseed light, light à la mode, calling for different types of lamp filament and colors of glass envelope, the Edison lamp being brand new in those days but certainly not the only design under study. There were light addicts who around sunset began to sweat and itch and seclude themselves in toilets with portable electric lanterns. Some spent most of their time at telegraph offices squinting at long scrolls of mysteriously arrived "weather reports" about weather not in the atmosphere but in the luminiferous Aether. . .»

(Thomas Pynchon, Against the Day)

Against the Day - primeiras 44 páginas

Estou imoderamente optimista.
As críticas que li até agora foram, na sua maioria, negativas. E se isso não é muito revelador no caso desse desperdício de prestígio que é a Senhora Dona Kakutani, do NY Times (por quem nutro a mesma trémula e exasperada afeição que o Alexandre Andrade nutre pelo Eurico de Barros*), já as inesperadas machadadas da Laura Miller e de Louis Menand deixaram-me genuinamente angustiado. Mas não vi, até agora, nenhum indicador do catastrófico assomo de irrelevância que alguns sugeriram. O estilo faz talvez demasiadas aproximações ao mock-heroic e ao mock-pulp, mas se bem entendi os capítulos iniciais (e isso não é um dado adquirido, uma vez que não prego olho há dois dias, e o café me sabe a cinza), estes são supostos excertos de um livro de aventuras juvenil, ou pelo menos relatam acontecimentos filtrados pela entidade narrativa desses mesmos livros inexistentes. Além disso quem pega num livro de Pynchon e se indigna com o abuso do pastiche está claramente fora-de-jogo.
Para benefício de outros eventuais Pynchonistas insones, elaborei uma pequena check-list de elementos que todos estamos à espera de encontrar e que tentarei ir actualizando (sem promessas, pois haverá dias em que nem sequer me vou lembrar que o blog existe):

p. 5: o primeiro canídeo envolvido numa tarefa não-canídea - check! (no caso, a leitura de The Princess Casamassima);
p. 7: a primeira referência paranóica a um "mysterious Chinese consortium" - check!;
p. 15: a primeira canção - check!;
pgs. 6 e 36: primeiros personagens com nomes vagamente obscenos - check!: Prof. Heino Vanderjuice e Lew Basnight (Lube Ass Night, parece-me, mas - repito - posso estar a ver coisas onde não as há. Além disso, e para ser honesto, ambos ficam muito aquém de Dewey Gland, o marinheiro de V.)

Queria também anunciar que a minha birra com a Amazon está oficialmente terminada, tudo por obra e graça do meu carteiro, que me sugeriu um título que não será possível encontrar em mais lado nenhum: The Bible Cure for Sleep Disorders. Se isto falhar, o próximo passo é chamar um pai-de-santo.

(* A sra. Kakutani é apenas a fiel depositária de uma longa tradição no NY Times: a suspeita patológica de um certo tipo de literatura "experimental" ou lúdica. Um dos seus ilustres predecessores, Orville Prescott, foi responsável pela recensão crítica mais espectacularmente asinina de que há memória, ao longo da qual conseguiu esgotar todas as falácias saloias existentes e inventar algumas novas. O ano era 1958, o livro era Lolita, e o chorrilho de disparates pode ser lido aqui. Aconselho-vos a ter sais de frutos à mão.)

quinta-feira, novembro 23, 2006

Amazon surfing



Não só não chegou hoje, como poderia muito bem ter dado origem a um incidente diplomático, de consequências incalculáveis: "Usually dispatched within 10 to 14 days", é a descontraída mensagem dos lacaios de Sadi Carnot no site da Amazon, escassas seis semanas depois de me terem convencido a enveredar pela via do pre-ordering, uma modalidade de compra tão entusiasticamente publicitada que o cliente mais crédulo fica convencido de que o livro lhe chegará às mãos mesmo antes de ser escrito.
Quem apanhou um grande susto foi o meu carteiro, que não estava nada à espera de me encontrar sentado no chão, à porta do apartamento, pela segunda manhã consecutiva. (Mas o susto não foi suficiente para o impedir de reparar nas minhas olheiras, que comentou com o seu cáustico tom de carteiro).
Depois da inevitável troca de e-mails ("Dear Amazon Customer Services person, I am shocked, completely shocked by your wilful misrepresentation of, etc, etc....) acabei por cancelar a encomenda original, e fui até à Waterstones mais próxima, onde o livro estava disponível desde a semana passada.
Enfim, o livro já cá está, num altar expressamente construído para a ocasião, e não quero, de forma alguma, que esta historiazinha amarga seja interpretada como uma diatribe contra o comércio online em geral ou contra a Amazon em particular, que pretendo continuar a frequentar (assim que me passar a birra) até porque de todas as livrarias do planeta é aquela que mais se parece com a Biblioteca de Babel. Estou convencido de que cada tarde perdida a seguir links nas infindáveis listas de sugestões me vai aproximando inexoravelmente da minha Vindicación.
É certo que até lá terei de gramar muito Trueno peinado e muito Calambre de Yeso, mas até nos seus mais depauperados hexágonos virtuais, a Amazon consegue pacificar a alma do browser com pequenas carícias estéticas. Onde mais, pergunto eu, é possível encontrar um livro intitulado Surviving Divorce: A Handbook for Men, escrito por alguém chamado Gay Search?

terça-feira, novembro 21, 2006

"Nature is an anguished tangerine"


Misheard Lyrics

Against the Day


Se a Amazon não falhar, o meu exemplar de Against the Day chega amanhã. Depois, e durante uns tempos, este blog arriscar-se a ser um espaço obstinadamente monotemático.
Já agora, o excelente blog The Elegant Variation dedica o resto da semana ao "evento editorial do ano", com três dias seguidos de posts Pynchonianos . Vale a pena espreitar, que mais não seja para ler esta perturbante revelação de Carolyn Kellogg:

« (...) Oedipa first sees a drawing that looks like a muted trumpet. It may symbolize a secret mail system, which might imply many other things (then again, it might not). I had the symbol tattooed on my wrist. Some people recognize it. One day I was at Trader Joe's and the checkout guy asked me about it. "It's from a book," I said vaguely, not wanting to sound too smarty-pants. He asked about the book and I told him. "Yeah, I knew it," he said, smiling. I asked what he thought of The Crying of Lot 49, but he hadn't read it; I was the third person who'd come to his register that week with the same tattoo. Either I'm a member of a vast conspiracy (so secret that I'm unaware of it), or there are legions of Pynchon fans out there, all wearing our affiliation on our skin.»

segunda-feira, novembro 20, 2006

Manias

Sem preâmbulos:

1. Gosto de mexer os lábios enquanto leio o jornal, especialmente se estou num espaço público, mas formando palavras que dele não constem. Ler, por exemplo, o Sunday Times numa cafetaria escocesa, enquanto vou labiando em silêncio as deixas de Imogen no quarto acto de Cymbeline. Parece-me evidente que o risco de ser apanhado e confrontado com o meu logro é um dos principais impulsos desta duvidosa charada.
O que, diga-se, já esteve perto de acontecer. Numa pastelaria chamada Rizzo's, em Inverness, uma criança observou-me muito séria durante largos minutos, antes de se pendurar na gabardine da mãe (que pagava já a sua despesa), gritando: "Mommy, mommy, that man is cheating!" Mas a mãe pregou-lhe de imediato um tabefe, e o caso morreu ali. So sick I am not, yet I am not well.

2. É a mais grave, e chama-se dromomania; a infrequência dos ataques é uma misericórdia, dada a ferocidade dos mesmos. As deambulações amnésicas de Jean-Albert Dadas eram meras passeatas matinais quando comparadas com as minhas.
(Dadas, para quem não sabe, era um pacato cidadão de Bordéus, remendador de canos de gás, que um dia perdeu a memória e foi parar a Moscovo - depois de um longo périplo que o viu passar por pedinte em Viena e combater cães hidrófobos numa aldeia da Prússia - onde foi implicado numa conspiração nihilista para assassinar o czar. Foi condenado à morte por execução, destino a que se escapou graças a um improvável descarrilamento ferroviário e à perspicácia do embaixador francês à Turquia).
Pois este que vos escreve acordou um dia num apartamento alugado em Bielsko-Biała, no sul da Polónia, sem qualquer indício sobre como tinha ido ali parar, para descobrir um rasto de lama seca no soalho, e uma barra de chocolate light no parapeito da janela. Rogério Casanova! - que nunca comprou chocolates light, quer na pátria quer no degredo, e que sempre fez por evitar descampados! (Felizmente, no bolso do casaco, encontrei um bilhete de ida-e-volta.)

3. Tenho a mania de desconfiar dos gregos que trazem presentes. Especialmente dos que trazem presentes. Por sistema também desconfio dos gregos que não trazem presentes. Mas aqueles que trazem presentes é que me deixam mesmo de pé atrás.

4. Sinto-me mal, muito mal mesmo, sempre que saio de uma loja sem comprar nada, sensação que se agrava quando a pessoa que me atende é particularmente prestável e atenciosa. Esta reacção inexplicável deu origem a um ritual, que se tornou embaraçosamente regular.
Se, depois de pesar os prós e os contras, decido não adquirir o artigo, consulto o relógio e pergunto ao lojista a que horas encerra o estabelecimento. Depois da resposta, aceno com um ar resoluto e tento compor uma expressão que transmita qualquer coisa como "Esta transacção interessa-me sobremaneira, porém, antes de a concluir, há outros afazeres a que devo dedicar a minha atenção". Consumada esta curta pantomina, peço-lhe para me guardar o artigo à parte, e saio da loja em passo apressado, com a testa franzida, olhando novamente para o relógio, tentando parecer-me o mais possível com um homem com muitas tarefas para cumprir (o que é uma grande mentira, no melhor dos dias).
As minhas cidades estão cheias de vendedores ressentidos.

5. Todas as evidências o apontam: agora tenho a mania de sonhar com blogs. O sonho mais recente foi Sábado, à tardinha (já me deixei disso de dormir quando está escuro).
O lugar, creio, era o Bairro Alto. A ocasião era um jantar-convívio, onde - assim assegurava o convite que misteriosamente me chegara às mãos - estaria presente a nata da blogosfera nacional. Fiel à minha previsibilidade, eu estava atrasado. Depois de vários desvios, travessas erradas e acidentes de percurso, lá cheguei à tasquinha combinada, apenas para a encontrar quase deserta. Uma empregada sonolenta garantiu-me que não, que o jantar dos blogs ainda não tinha sequer começado e que sim, que estavam todos presentes. Conduziu-me a uma sala nas traseiras, onde estava apenas uma mesa, com dois lugares, um deles ocupado. Confuso, fui-me aproximando. O homem tinha um rosto redondo, inchado, semelhante ao do actor que interpretou o papel de J. F. Sebastian no filme Blade Runner. Não tinha braços, nem pernas, mas equilibrava-se na cadeira com desconcertante facilidade. O seu peito estava coberto com nametags, medalhas de veterania, cada uma com um nome vagamente familiar: "José Mário Silva", "Carla Quevedo", "Luis Rainha", "Rui Manuel Amaral", "Tiago Cavaco"... Ao todo, seriam mais de trinta, e compreendi sem sobressaltos (com a periclitante lógica dos sonhos) que todos aqueles nomes eram desinências de uma única mente, e que tinha na minha presença o autor de todos os blogs, excepto o meu. Não me ocorreu outra coisa senão estender-lhe uma caneta e perguntar-lhe se teria a amabilidade de me dar todos os autógrafos que fossem necessários. Assim que o fiz, senti-me enrubescer, dadas as óbvias dificuldades logísticas da operação, mas ele não se atrapalhou: aceitou a caneta com os dentes (imaculadamente brancos, notei) e escrevinhou num guardanapo a seguinte nota:
"De quem, gota a gota, vai derretendo identidades num charco borbulhante, sem nunca olvidar o que nelas é imperecível, um abraço, com amizade e respeito profissional,
Alistair Crump."

Naturalmente, não acordei nada bem disposto.


(Post-scriptum, dois dias depois: parece que tinha de passar isto a cinco pessoas. Mas entusiasmei-me tanto comigo mesmo, que acabei por esquecer os outros. Suponho que agora já é tarde. De qualquer maneira, aconselho as cinco pessoas a quem eu não passei isto a não se preocuparem muito com o assunto.)